ANÁLISE DO PERFIL EPIDEMIOLÓGICO DA TUBERCULOSE EM PORTO VELHO NO PERÍODO DE 2015 A 2024 

EPIDEMIOLOGICAL PROFILE OF TUBERCULOSIS IN PORTO VELHO FROM 2015 TO 2024 

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/fa10202511121927


Diana Rodrigues de Souza
Eryck Deyvison Soares Brasil
Gabriela do Nascimento Xavier3
Katia Paula Felipin4


RESUMO

A tuberculose é uma doença infectocontagiosa causada pela bactéria Mycobacterium tuberculosis, transmitida de pessoa para pessoa por meio de gotículas aerossóis. O objetivo deste estudo foi quantificar e analisar a incidência dos casos de tuberculose (TB) no município de Porto Velho, Rondônia, entre os anos de 2015 e 2024. Os dados epidemiológicos foram obtidos na base do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN). No período analisado, foram notificados 7.402 casos no estado, dos quais 5.397 ocorreram em Porto Velho. A faixa etária mais acometida pela enfermidade foi de 20 a 59 anos, que corresponde à parcela da população economicamente ativa e com maior contato interpessoal devido às atividades laborais e sociais. A forma clínica predominante foi a pulmonar, com 4.513 casos registrados. A taxa de cura atingiu 56,2%, enquanto o abandono do tratamento representou 25,4% dos casos. Os demais 18,4% corresponderam a desfechos variados, incluindo óbito, transferência e registros classificados como ignorado ou em branco. 

Palavras-chave: Tuberculose. Porto Velho. Dados epidemiológicos.  SINAN. 

1 INTRODUÇÃO 

A tuberculose (TB) é uma doença infectocontagiosa causada pelo Mycobacterium tuberculosis, que apresenta predileção pelo sistema respiratório, especialmente os pulmões, embora possa acometer outros órgãos (SOUZA et al., 2019). Apesar dos avanços no diagnóstico e no tratamento, a doença ainda apresenta altas taxas de incidência e mortalidade, sendo reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como a principal causa de morte por doenças infecciosas em 2023 (OMS, 2024).  

Estudos indicam que o Brasil segue entre os 30 países com maior carga de TB no mundo, com tendência de aumento ou oscilação nos coeficientes de incidência nos últimos anos (SILVA; GALVÃO, 2023). Esse panorama revela a necessidade de investigações epidemiológicas que permitam compreender a distribuição da doença em diferentes contextos regionais, considerando fatores socioeconômicos, demográficos e estruturais que influenciam sua disseminação. 

No estado de Rondônia, particularmente no município de Porto Velho, a tuberculose constitui um agravo relevante, com registros expressivos no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN). A análise epidemiológica desses dados é fundamental para identificar padrões de ocorrência, fatores associados e possíveis impactos de eventos globais, como a pandemia de COVID-19, que afetou diretamente os serviços de saúde e a notificação de doenças. 

Dessa forma, este estudo justifica-se pela importância de avaliar a incidência e o perfil epidemiológico da tuberculose em Porto Velho no período de 2015 a 2024, de modo a subsidiar a formulação de políticas públicas, estratégias de vigilância e ações voltadas ao controle da doença a nível municipal e regional. Além disso, ao relacionar os dados locais ao contexto nacional e global, busca-se ampliar a compreensão sobre a persistência da TB como desafio para a saúde coletiva. 

2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA  

Os principais sintomas da tuberculose pulmonar incluem tosse persistente por três semanas ou mais, febre vespertina, sudorese noturna e perda de peso. Dentre eles, a tosse é o sinal mais característico, podendo apresentar-se de forma seca ou produtiva (BRASIL, 2025). 

No cenário internacional, o Relatório Global de Tuberculose 2024 da OMS indica que a tuberculose voltou a ser a principal causa de morte por doenças infecciosas em 2023, superando a COVID-19. Foram diagnosticadas cerca de 8,2 milhões de pessoas e a estimativa global chegou a 10,8 milhões de casos. Apesar da redução de óbitos (1,25 milhão em 2023), a carga global continua elevada, sobretudo em países de baixa e média renda, onde o subfinanciamento é crítico (OMS, 2024). Além disso, fatores como desnutrição, HIV, uso de álcool, tabagismo e diabetes permanecem como importantes determinantes para a manutenção da epidemia. A ocorrência de tuberculose está associada a fatores socioeconômicos, como moradias precárias, insuficiência de infraestrutura de saneamento e populações em situação de rua estão entre os fatores que aumentam a incidência de tuberculose (MARTINS; MIRANDA, 2020). 

No contexto brasileiro, a TB continua sendo um grave problema de saúde pública, figurando entre as principais causas de morte por doenças infecciosas, sobretudo em pacientes vivendo com HIV/AIDS (SILVA et al., 2018). A combinação de vulnerabilidades biológicas, como imunossupressão, desnutrição e doenças crônicas, com desigualdades sociais e econômicas, têm impacto direto na incidência e no controle da doença no Brasil (MUNAYCO et al., 2015; SILVA et al., 2018). 

No estado de Rondônia, os registros epidemiológicos evidenciam que, entre 2011 e 2016, houve uma média de 700 casos anuais de tuberculose, com oscilações ao longo dos anos seguintes (RONDÔNIA, 2019). Estudos regionais mostram que Porto Velho apresenta elevadas taxas de incidência e dificuldades relacionadas ao abandono de tratamento, fatores que dificultam o controle da doença (SALTON; DURAN; NASCIMENTO, 2022). 

Por ser responsável pela transmissão entre indivíduos, a TB pulmonar representa a forma mais significativa da doença em termos epidemiológicos. O diagnóstico adequado é essencial para evitar a propagação do agente causador. Embora menos frequente, a TB também pode acometer outros sistemas do corpo, caracterizando suas formas extrapulmonares (TEIXEIRA et al., 2023). A TB costuma se manifestar especialmente quando o sistema imunológico está debilitado, por exemplo, em pessoas com AIDS, diabetes, sob uso de drogas imunossupressoras, em idosos, ou por meio de fatores de risco comportamentais, como o consumo excessivo de álcool e o uso de drogas. Além disso, a TB atinge com mais intensidade populações vulneráveis, que vivem em condições socioeconômicas desfavoráveis. Como resultado dessa combinação de fatores biológicos, comportamentais e sociais, o enfrentamento da doença exige uma ação integrada de diferentes setores, não restrita apenas ao campo da saúde (BARREIRA, 2018).  

O diagnóstico da TB, por sua vez, envolve uma série de métodos laboratoriais e de imagem que auxiliam na confirmação da doença e no acompanhamento dos pacientes, nesse contexto, o exame microscópico direto – baciloscopia do escarro – é um dos métodos mais utilizados devido à sua simplicidade e segurança, sendo realizado em laboratórios públicos e privados habilitados. A baciloscopia é corada pelo método de Ziehl-Neelsen e é um exame seguro, simples e amplamente utilizado para o diagnóstico da TB pulmonar. Em adultos, sua sensibilidade varia entre 60% e 80%, sendo fundamental para interromper a transmissão da doença, já em crianças, a eficácia é menor devido à dificuldade de obtenção do escarro. De modo geral, recomenda-se a coleta de duas amostras — a primeira no momento do atendimento e a segunda no dia seguinte, preferencialmente pela manhã. Caso necessário, amostras adicionais podem ser solicitadas. O exame também pode ser aplicado a outros materiais em suspeitas de TB extrapulmonar. O diagnóstico pode ser presumido com base na baciloscopia positiva e compatibilidade clínica (BRASIL, 2022).  

O teste rápido molecular representa um avanço importante no diagnóstico da TB, permitindo identificar o DNA do Mycobacterium tuberculosis e detectar resistência à rifampicina em aproximadamente duas horas, por meio da técnica de PCR em tempo real. Em amostras de escarro de adultos, sua sensibilidade aproxima-se de 90%, superando a baciloscopia convencional, apresentando cerca de 95% de precisão na detecção de resistência à rifampicina (WHO, 2011; BRASIL, 2019). Quando a baciloscopia ou os testes moleculares não confirmam a doença em pacientes sintomáticos, recomenda-se a coleta de novas amostras para cultura, exame de maior sensibilidade e considerado essencial para a confirmação diagnóstica.  Apesar de ser um método mais demorado, a cultura apresenta maior sensibilidade e é considerada essencial para a confirmação diagnóstica. Além de auxiliar no diagnóstico, a cultura permite a realização de testes de sensibilidade aos medicamentos, sendo particularmente importante em casos extrapulmonares ou quando há suspeita de resistência medicamentosa (BRASIL, 2022). 

O tratamento da TB é realizado com uso de medicamentos por, no mínimo, seis meses, e disponibilizado gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS). O acompanhamento preferencial ocorre por meio do Tratamento Diretamente Observado (TDO), em que o paciente recebe a medicação sob a supervisão de um profissional de saúde ou agente comunitário, para assim diminuir os riscos de abandono do tratamento. Embora a TB apresente uma elevada taxa de cura, a efetividade do tratamento pode ser reduzida quando os medicamentos não são utilizados corretamente ou quando há interrupção ou abandono do tratamento. Sendo assim, a atuação da equipe de saúde é crucial, envolvendo a orientação adequada, o acompanhamento regular do paciente e o suporte à família. Estabelecer uma relação de confiança entre profissionais e usuários, aliada a estratégias de educação em saúde e apoio psicossocial, contribui significativamente para aumentar a adesão ao tratamento e assegurar melhores resultados terapêuticos (TEIXEIRA et al., 2023). 

As estratégias de prevenção da TB incluem três medidas eficazes: a vacinação com Bacillus Calmette Guérin (BCG) a quimioprofilaxia e as práticas de biossegurança. A vacina BCG é a principal para proteger indivíduos não infectados, especialmente contra formas graves da doença. A quimioprofilaxia, por sua vez, atua na redução do risco de adoecimento em pessoas já infectadas, podendo ser usada em determinadas situações mesmo entre não infectados. Já as medidas de biossegurança visam limitar a transmissão da TB, sendo particularmente relevantes para quem atua no cuidado de pacientes (CAMPOS et al., 2014). A prevenção da tuberculose ainda precisa de medidas altamente específicas, pois, a vacina BCG não proporciona a proteção contra as formas mais graves da doença, como a meningoencefalite tuberculosa e a tuberculose miliar em crianças pequenas (TEIXEIRA et al., 2023). 

Diante desse cenário, torna-se fundamental compreender a situação epidemiológica da tuberculose em diferentes contextos locais, como no município de Porto Velho-RO, a fim de subsidiar ações específicas de vigilância em saúde, diagnóstico precoce, prevenção e adesão ao tratamento. A análise regional é essencial para fortalecer as políticas públicas e aprimorar as estratégias de controle da doença, contribuindo para a redução da carga da tuberculose em nível municipal, estadual e nacional. 

3 METODOLOGIA  

O presente estudo se configura como uma pesquisa de abordagem quantitativa, com delineamento observacional, descritivo e retrospectivo. A escolha por essa abordagem justifica-se pela necessidade de analisar um amplo volume de dados já existentes, extraídos de sistemas oficiais, para traçar o perfil epidemiológico da TB no município de Porto Velho, Rondônia, e identificar padrões e tendências da doença ao longo do tempo. 

A pesquisa será baseada em dados secundários, obtidos do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN), abrangendo o período de 1º de janeiro de 2015 a 31 de dezembro de 2024. A população do estudo será composta por todos os casos de tuberculose notificados no município, cujos registros foram extraídos da base de dados específica da regional de saúde Madeira-Mamoré, sendo excluídos apenas os registros com dados incompletos ou ignorados nas variáveis de interesse, que poderiam comprometer a qualidade da análise. 

Para a análise, foram coletadas e processadas diversas variáveis sociodemográficas, clínicas e epidemiológicas. As variáveis sociodemográficas incluíram sexo e faixa etária, enquanto as variáveis clínicas e epidemiológicas contemplaram a forma clínica da tuberculose (pulmonar, pleural, ganglionar periférica e outras), a presença de coinfecção por HIV, a classificação do caso (por exemplo, caso novo ou retratamento) e o desfecho do tratamento (cura, abandono, óbito). Observa-se que a região da Madeira-Mamoré apresenta os maiores índices em todos os anos, destacando-se como a área de maior incidência no estado. Apesar de pequenas oscilações, nota-se uma tendência de crescimento a partir de 2022, alcançando em 2024 o maior número de casos da série. Nos demais territórios de saúde, os números se mantêm relativamente estáveis e baixos ao longo do período, com pequenas variações anuais. Regiões como Café, Central, Vale do Jamari, Zona da Mata, Cone Sul e Vale do Guaporé apresentam incidências consideravelmente inferiores quando comparadas a de Madeira-Mamoré, o que reforça a disparidade na distribuição espacial da doença. É importante destacar que, embora em alguns anos, como 2018 e 2020, tenha ocorrido uma redução no total de casos da Madeira Mamoré, essa queda não foi suficiente para alterar o padrão predominante de alta incidência na região. A retomada do crescimento nos anos subsequentes pode estar relacionada a fatores como intensificação da vigilância epidemiológica, condições socioeconômicas e possíveis falhas na adesão ao tratamento. De modo geral, a análise temporal evidencia que, enquanto a maior parte das regiões permanece estável, a Madeira Mamoré concentra e sustenta a maior carga de tuberculose no estado. 

A análise dos dados foi realizada por meio de estatística descritiva, utilizando frequências absolutas e relativas para caracterizar o perfil dos casos notificados. Tabelas e gráficos foram empregados para apresentar a distribuição temporal e sociodemográfica, bem como os diferentes desfechos clínicos observados ao longo do período estudado.  Todas as etapas de processamento e análises dos dados foram conduzidas com o auxílio do software Microsoft Excel. 

Em relação aos aspectos éticos, por se tratar de dados secundários de domínio público, disponibilizados sem identificação dos indivíduos, o estudo está dispensado de aprovação pelo Comitê de Ética em Pesquisa, em conformidade com a Resolução CNS nº 466/2012. Contudo, todos relacionados ao respeito, à confidencialidade e ao uso responsável das informações serão rigorosamente observados. Ressalta-se, ainda, que o uso de dados secundários apresenta a limitação inerentes, como possíveis inconsistências, ausência de informações e subnotificação, aspectos que serão considerados na interpretação dos resultados. 

4 ANÁLISE DOS DADOS E DISCUSSÕES 

A tuberculose continua a ser uma das doenças infecciosas mais desafiadoras do mundo, persistindo como um grave problema de saúde pública mesmo em pleno século XXI. Na região amazônica, marcada por profundas desigualdades socioeconômicas, dificuldades de acesso a serviços de saúde e vulnerabilidades historicamente construídas, a doença assume contornos particularmente complexos. 

Seu impacto não se restringe ao adoecimento individual, mas se estende a comunidades inteiras, refletindo processos estruturais de exclusão, precarização e desigualdade territorial. 

Analisar a tuberculose a partir dessa perspectiva exige não apenas o exame das notificações clínicas, mas também a compreensão dos determinantes sociais, econômicos e ambientais que moldam sua incidência e distribuição. 

É nesse contexto que se insere o presente estudo, fundamentado em informações das análises dos dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação – SINAN, com o objetivo de compreender o panorama epidemiológico da TB durante 2015 a 2024, considerando que os dados são levantados a partir das microrregiões do estado de Rondônia. 

Figura 1: Proporção de casos confirmados por Ano Diagnóstico e Região de Saúde (CIR). 

O recorte temporal dos casos, entre 2015 e 2024, revela oscilações que devem ser interpretadas à luz do contexto histórico recente. A redução expressiva no número de casos em 2020 coincide com o momento mais crítico da pandemia de COVID-19, período em que os serviços de saúde enfrentaram sobrecarregas, interrupção de atividades rotineiras e redução da capacidade de vigilância epidemiológica. Essa queda não representa, necessariamente, uma diminuição real da incidência, mas sim um contexto de subnotificação e dificuldade de acesso ao diagnóstico. A partir de 2021, verifica-se não apenas a retomada das notificações, mas também um aumento considerável dos registros entre 2022 e 2024, o que pode expressar tanto a reestruturação da rede de vigilância quanto um crescimento real do número de casos, relacionado ao agravamento das condições de vida e ao impacto socioeconômico da pandemia. 

Porto Velho, como capital e centro urbano da regional Madeira-Mamoré, concentra a maior parte dos casos, em comparação às demais regiões de Rondônia. Essa predominância pode ser explicada pela maior densidade populacional, pela desigualdade social intensa, pela presença de populações em situação de rua e pelo intenso fluxo migratório. Esses fatores criam um cenário propício para a disseminação da doença, sobretudo em áreas periféricas onde o acesso ao saneamento, à moradia digna e aos serviços de saúde é limitado.  

A análise dos dados da regional Madeira-Mamoré evidencia que a tuberculose permanece como um grave problema de saúde pública, atravessado por determinantes sociais e estruturais. Além de apresentar as maiores taxas de notificação, a região evidencia desigualdades históricas que influenciam diretamente o risco de adoecimento e a manutenção da cadeia de transmissão. 

Figura 2: Proporção de casos confirmados por Sexo e Região de Saúde (CIR). 

Os registros do SINAM mostram que a incidência é predominantemente masculina, o que dialoga com estudos nacionais e internacionais que apontam maior vulnerabilidade entre os homens. Esse padrão pode ser explicado por diferentes fatores como maior exposição ocupacional a ambientes insalubres, maior prevalência de consumo de álcool e tabaco, e pela menor procura por serviços de saúde. Estudos sugerem que os homens frequentemente retardam a busca por assistência médica, contribuindo para diagnósticos tardios, agravamento clínico e ampliação do risco de transmissão comunitária (SILVA; GALVÃO, 2023). A baixa procura por atendimento expressa, em certa medida, a invisibilidade da saúde masculina como política pública estruturada. 

A menor proporção de casos entre as mulheres não deve ser interpretada como ausência de vulnerabilidade, mas antes como um reflexo de diferentes formas de exposição, de acesso e de busca por atendimento. Além disso, a existência de notificações com “sexo ignorado” revela falhas no sistema de vigilância epidemiológica e fragilidades no preenchimento das fichas, o que limita as análises e compromete a formulação de políticas adequadas. 

Figura 3: Proporção de casos confirmados por Faixa Etária e Região de Saúde (CIR) de notificação. 

O recorte por faixa etária a aprofunda a compreensão do perfil epidemiológico observado. O grupo mais afetado corresponde a pessoas entre 65 e 69 anos, seguido pelos 20 a 39 anos e, em terceiro lugar, pelos 40 a 59 anos. O predomínio entre idosos evidencia a associação entre envelhecimento, imunossenescência e presença de comorbidades crônicas, como hipertensão, diabetes e doenças respiratórias, que fragilizam a capacidade de resposta do organismo à infecção. A esse quadro somam-se barreiras estruturais, como a dificuldade de mobilidade, a dependência de familiares para acessar serviços de saúde e, em alguns casos, o próprio abandono institucional contribuem para o agravamento da situação nesse grupo. 

Por outro lado, a expressiva presença de casos entre jovens adultos, sobretudo na faixa de 20 a 39 anos, aponta para outra dimensão crítica, pois envolve a população economicamente ativa, que concentra a força de trabalho regional. O adoecimento ultrapassa os limites individuais e atinge diretamente a estrutura social e produtiva, uma vez que trabalhadores doentes enfrentam perda de renda, desemprego e estigmatização. Essa faixa etária está frequentemente exposta a condições de trabalho precárias, transporte público lotado, ambientes coletivos e moradias inadequadas, que favorecem a transmissão da doença. Tal cenário evidencia a interseção entre tuberculose, precarização das condições de vida e desigualdade social. 

Já a incidência observada entre 40 e 59 anos reforça a associação da doença com fatores laborais e socioeconômicos. Muitas vezes vinculados a ocupações informais, sem proteção social ou previdenciária, esses trabalhadores adiam a busca por serviços de saúde por medo da perda de renda, permitindo a progressão da doença e ampliando o risco de transmissão. Aqui, a tuberculose se manifesta como uma enfermidade que traduz as contradições do desenvolvimento desigual na Amazônia: enquanto o capital avança sobre os territórios, os trabalhadores permanecem submetidos à exploração e à invisibilidade. 

Em síntese, os dados analisados permitem afirmar que a tuberculose na regional Madeira-Mamoré não se limita a uma enfermidade infecciosa, mas atua como um marcador das desigualdades sociais e econômicas que estruturam a vida amazônica. Homens, idosos e adultos em idade produtiva destacam-se como os grupos mais atingidos, não por acaso, mas em função de processos históricos de vulnerabilização, que incluem precarização do trabalho, exclusão dos serviços públicos, desigualdade de gênero e abandono institucional. 

Para subsidiar a análise dos dados do estado de Rondônia, verificamos a apresentação dos dados epidemiológicos do Brasil de 2024, realizado pelo Ministério da Saúde, os quais incluem análises por raça/cor. Esse recorte é fundamental para aprofundar a discussão sobre vulnerabilidades étnico-raciais,.  

Figura 4: Coeficiente de incidência de TB por raça; Brasil, 2023 

Dessa forma, a persistência da tuberculose não pode ser compreendida apenas pelo viés biomédico. Trata-se de um fenômeno que exige uma leitura ampliada, capaz de articular saúde, território e desigualdade, apontando para a urgência de políticas públicas intersetoriais que vão além do tratamento medicamentoso, mas também à garantia de moradia digna, saneamento básico, proteção social e enfrentamento da pobreza estrutural. 

5 CONCLUSÃO/CONSIDERAÇÕES FINAIS 

A análise realizada no município de Porto Velho, inserida na regional Madeira-Mamoré, evidencia que a TB se mantém como um importante desafio de saúde pública, apesar dos avanços diagnósticos e terapêuticos, a doença ainda reflete desigualdades sociais e estruturais profundas. O estudo permitiu reconhecer que a dinâmica da doença na região está intimamente associada às desigualdades sociais e às limitações históricas de acesso aos serviços de saúde, especialmente entre grupos mais vulneráveis. 

As oscilações observadas ao longo do período de 2015 a 2024, especialmente a queda de notificações durante a pandemia de COVID-19 e o subsequente aumento dos casos nos anos seguintes, apontam tanto os impactos da crise sanitária sobre a vigilância epidemiológica quanto a necessidade de fortalecimento dos serviços de atenção primária e das estratégias de busca ativa. Para interromper a cadeia de transmissão e diminuir o abandono terapêutico, é fundamental priorizar o fortalecimento do diagnóstico precoce, da vigilância constante e do Tratamento Diretamente Observado (TDO). 

Com base nessas informações, destaca-se a necessidade de estratégias que ultrapassem o enfoque curativo, fortalecendo ações de vigilância ativa, educação em saúde e acompanhamento contínuo dos pacientes. A integração entre políticas públicas de diferentes setores, como: saúde, habitação, assistência social e trabalho, mostra-se essencial para romper o ciclo de vulnerabilidade que favorece a persistência da doença. 

Dessa forma, somente por meio de uma atuação articulada e sustentada será possível reduzir a incidência, promover qualidade de vida e aproximar o país das metas de eliminação da tuberculose como problema de saúde pública. Considerando o escopo deste estudo, recomenda-se que pesquisas futuras aprofundem a análise sobre o impacto de políticas integradas de saúde e desenvolvimento social na incidência da tuberculose em Porto Velho. 

REFERÊNCIAS 

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