REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/fa10202512111845
Beatriz Bark Pinheiro1
Lara Alves Moreira2
RESUMO
O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é um distúrbio do neurodesenvolvimento caracterizado por alterações na comunicação, interação social e comportamento, podendo também comprometer o desenvolvimento motor e a integração sensorial. O presente estudo teve como objetivo identificar e analisar os principais instrumentos de avaliação fisioterapêutica aplicáveis a crianças com TEA, ressaltando sua importância para o planejamento terapêutico. Trata-se de uma revisão sistemática realizada nas bases LILACS, SciELO, PubMed, PEDro, MedLine, Cochrane e BIREME, utilizando os descritores “autism”, “children”, “physiotherapy” e “assessment”, combinados pelo operador booleano AND. Foram identificados 696 artigos e, após aplicação dos critérios de elegibilidade, 26 estudos publicados entre 2015 e 2025 foram incluídos. Os resultados demonstraram predominância de revisões sistemáticas e estudos observacionais, com destaque para instrumentos validados, como o GMA-AUT checklist, a Escala Motora Infantil de Alberta (AIMS) e o Teste Sensorial Quantitativo (QST), além da avaliação de movimentos gerais (GM). As evidências indicam que avaliações padronizadas e precoces permitem intervenções mais eficazes, favorecendo o desenvolvimento social, motor e adaptativo. Observou-se, ainda, a necessidade de treinamento de avaliadores e de ampliação dos estudos clínicos com maior rigor metodológico. Conclui-se que a fisioterapia desempenha papel essencial na avaliação e intervenção de crianças com TEA, devendo integrar abordagens motoras e sensoriais desde a infância para promover autonomia, funcionalidade e melhor qualidade de vida.
Palavras-chave: Autismo. Crianças. Avaliação. Fisioterapia.
ABSTRACT
Autism Spectrum Disorder (ASD) is a neurodevelopmental condition characterized by impairments in communication, social interaction, and behavior, which may also affect motor development and sensory integration. This study aimed to identify and analyze the main physiotherapeutic assessment tools applicable to children with ASD, emphasizing their relevance for therapeutic planning. A systematic review was conducted in the LILACS, SciELO, PubMed, PEDro, MedLine, Cochrane, and BIREME databases, using the descriptors “autism,” “children,” “physiotherapy,” and “assessment,” combined with the Boolean operator AND. A total of 696 articles were identified, and after applying eligibility criteria, 26 studies published between 2015 and 2025 were included. The results revealed a predominance of systematic reviews and observational studies, highlighting validated instruments such as the GMA-AUT checklist, the Alberta Infant Motor Scale (AIMS), and the Quantitative Sensory Testing (QST), as well as general movements (GM) assessment for early detection. Evidence indicates that standardized and early evaluations allow for more effective interventions, promoting social, motor, and adaptive development. The studies also emphasize the need for evaluator training and for expanding clinical research with stronger methodological rigor. It is concluded that physiotherapy plays an essential role in the assessment and intervention of children with ASD, and should integrate motor and sensory approaches from early childhood to enhance autonomy, functionality, and overall quality of life.
Keywords: Autism. Children. Assessment. Physiotherapy.
1. INTRODUÇÃO
O transtorno do espectro autista (TEA) é um transtorno do neurodesenvolvimento de apresentação heterogênea, que se caracteriza por englobar alterações qualitativas e quantitativas da comunicação, seja na linguagem verbal ou não verbal, na interação social e do comportamento, como: ações repetitivas, hiperfoco para objetos específicos e restrição de interesses. Além disso, pode afetar a coordenação, cognição e desenvolvimento motor. A prevalência diagnóstica é maior em indivíduos do sexo masculino, possivelmente em função da maior dificuldade em identificar o transtorno em mulheres, que frequentemente apresentam estratégias de camuflagem comportamental, dificultando a detecção clínica. Dentro do espectro são identificados graus que podem ser leves e com total independência, apresentando discretas dificuldades de adaptação, até níveis de total dependência para atividades cotidianas ao longo de toda a vida, sendo um distúrbio que se inicia na infância e perdura-se durante toda a vida (ALSAEDI, 2020; BRIGNELL et al., 2022; HIROTA et al., 2023; LAI et al., 2023; PINTO et al., 2021; RANDALL et al., 2018; U.S. NATIONAL LIBRARY OF MEDICINE, MEDLINEPLUS, 2023; WEITLAUF et al., 2024).
Indivíduos com transtorno do espectro autista (TEA) apresentam comprometimentos motores que precedem os distúrbios de comunicação e socialização, além de reatividade anormal quando submetido à estímulos táteis e alteração na percepção de dor. Instrumentos avaliativos compatíveis com as reais possibilidades e especificidades dos pacientes com TEA, e que traduzam quantitativa e qualitativamente os dados nos quais se deseja intervir com ações terapêuticas, sendo estas precedidas por avaliações fisioterapêuticas por meio de observação clínica e questionários de autorrelato, de seus responsáveis ou do paciente (ALSAEDI, 2020; HEIDRICH et al., 2022; KABARITE et al., 2025; NICOLARDI et al., 2023; PINTO et al., 2021; RIQUELME et al., 2016; STARMAC et al., 2024; VELLADAH et al.,2022).
As alterações motoras têm sido foco das intervenções fisioterapêuticas, contudo as avaliações motoras padronizadas disponíveis na literatura possuem lacunas importantes, entre elas a complexidade das tarefas avaliadas e a ausência de informação qualitativa sobre o desempenho dos sujeitos. Uma avaliação corretamente desenvolvida e aplicada altera positivamente a eficácia da intervenção (HEIDRICH et al., 2022; MACLACHLAN, 2021).
Um dos principais tipos de avaliação é o instrumento Avaliação Motora Grossa de Crianças e Adolescentes com Transtorno do Espectro Autista (GMA‑AUT), que apresenta validade de conteúdo adequada para avaliar a motricidade grossa em crianças e adolescentes com TEA, segundo especialistas na área. Outra forma de avaliação é o Teste Sensorial Quantitativo (QST), utilizado para medir a percepção sensorial; embora haja ainda poucas evidências sobre seu uso, os estudos desafiaram a presumida hipossensibilidade à dor em autistas, observada nos relatos dos pais. Além disso, foi validada a utilização da versão curta do instrumento Bruininks‑Oseretsky Test of Motor Proficiency – Second Edition (BOT‑2) para avaliar a proficiência motora. Outras formas de avaliação incluem questionários de autorrelato ou relatos dos pais, bem como a Escala Motora Infantil de Alberta (AIMS), que avalia habilidades motoras brutas em bebês de 0 a 18 meses e funciona como triagem para detectar atraso no desenvolvimento motor (TDM) em crianças pequenas com TEA. Também é utilizada a avaliação dos movimentos gerais (GM) para a identificação precoce do risco de TEA em bebês (ALSAEDI, 2020; BEAULIEU et al., 2025; BRINSTER et al., 2022; HEIDRICH et al., 2022; KOCHAV-LEV et al., 2023; NICOLARDI et al., 2023; RIQUELME et al., 2016; SCOTTISH INTERCOLLEGIATE GUIDELINES NETWORK., 2016; WOOD et al., 2021).
O objetivo geral do presente estudo é rastrear os principais tipos de avaliação para crianças com transtorno do espectro autista, ressaltando sua importância aos responsáveis do paciente.
O tratamento fisioterapêutico é de grande valia àqueles com o diagnóstico de autismo, sua realização durante a infância, adolescência e fase adulta traz diversos benefícios para a qualidade de vida, desenvolvimento motor e funcionalidade, mas a chave para um tratamento adequado é uma avaliação correta, trazendo evidências de sua qualidade e sendo específico para os defects presentes no transtorno. Apesar de sua importância não têm-se estudos suficientes que guiem a prática clínica com evidências, além da pouca disseminação de conhecimentos àqueles que cuidam dos pacientes (DAFEDAR e KUMBHAR, 2025; MARCIÃO et al., 2021; ROSALES et al., 2025).
2. METODOLOGIA
O presente estudo trata-se de uma revisão sistemática. A pesquisa foi realizada nas bases de dados Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS), Scientific Electronic Library Online (SciELO), PubMed, Physiotherapy Evidence Database (PEDro), Medical Literature Analysis and Retrieval System Online (MedLine), Cochrane Library e Centro Latino-Americano e do Caribe de Informação em Ciências da Saúde (BIREME), sendo que os descritores usados “autism”, Children, “physiotherapy” e “assessment” associados ao boleador AND.
Através dos descritores foram levantados 696 artigos e para a seleção dos artigos elegíveis foram aplicados os seguintes critérios de elegibilidade: Critérios de exclusão: Ano de publicação anterior a 2015 foram excluídos deste estudo, o idioma, artigos que foram escritos em idiomas diferentes de português, espanhol e inglês, artigos duplicados nas bases de dados e que fugissem ao tema desta pesquisa. Foram incluídos nesta pesquisa: artigos publicados entre 2015 até 2025, nos idiomas português, espanhol e inglês, que estivessem disponíveis com acesso livre, artigos que sejam ensaios clínicos e meta análises, que apresentassem aderência aos objetivos, crianças diagnosticadas com Transtorno do Espectro Autista (TEA), artigos com métodos de avaliação fisioterapêutica para crianças com TEA. O fluxograma (Figura 1) apresenta a relação da seleção e triagem dos artigos.

Através do levantamento bibliográfico pretende-se obter conhecimento e informações pertinentes ao tema abordado, sendo possível identificar os melhores procedimentos de avaliação para crianças com TEA, otimizando, inclusive, o acompanhamento fisioterapêutico para este público.
O fluxograma apresentado descreve as etapas do processo de seleção dos estudos incluídos na revisão sistemática. Inicialmente, foram identificados 696 estudos por meio de diferentes bases de dados (LILACS, SciELO, PubMed, PEDro, MedLine, Cochrane e BIREME). Após a triagem inicial, 137 estudos foram selecionados para leitura dos títulos e resumos, sendo 39 excluídos por duplicidade e 37 por não atenderem aos critérios de inclusão. Em seguida, 61 estudos foram avaliados na íntegra quanto à elegibilidade, dos quais 35 foram excluídos por envolverem outro tipo de estudo, apresentarem texto completo indisponível ou dados insuficientes. Por fim, 26 estudos atenderam aos critérios estabelecidos e foram incluídos na síntese qualitativa e quantitativa (meta- análise), compondo a base final de análise da revisão sistemática.
3. COMPREENDENDO O TRANSTORNO DO ESPECTRO AUTISTA
O transtorno do espectro autista é uma condição neurológica do desenvolvimento, que afeta o desenvolvimento do cérebro, principalmente nas áreas relacionadas à interação social e comunicação, além de causar comportamentos repetitivos e interesses restritos. É chamado de “espectro” porque as características e a intensidade dos sintomas variam muito de pessoa para pessoa, indo de casos leves a graves. Podendo afetar de forma heterogênea, mas a prevalência diagnóstica é maior em indivíduos do sexo masculino, possivelmente em função da maior dificuldade em identificar o transtorno em mulheres, que frequentemente apresentam estratégias de camuflagem comportamental, dificultando a detecção clínica.O TEA é classificado em três níveis de suporte, de acordo com a intensidade dos sintomas e a necessidade de apoio, sendo classificado em leve, moderado e grave (ALSAEDI, 2020; BRIGNELL et al., 2022; HIROTA et al., 2023; LAI et al., 2023; PINTO et al., 2021; RANDALL et al., 2018; U.S. NATIONAL LIBRARY OF MEDICINE, MEDLINEPLUS, 2023; WEITLAUF et al., 2024).
3.1 Nível de suporte 1
O nível de suporte 1 é leve, mas necessita de suporte, sendo caracteriza- se por indivíduos que apresentam dificuldades sociais perceptíveis, mas que conseguem manter certo grau de autonomia no cotidiano. Geralmente, a comunicação verbal está preservada, embora possam existir limitações em interações sociais mais complexas, como compreender ironias ou manter longas conversas. Esses indivíduos necessitam de suporte para aprimorar habilidades sociais e para lidar com situações que exigem maior flexibilidade comportamental, mas conseguem desempenhar atividades acadêmicas, profissionais e pessoais com relativa independência. O nível 1 de suporte precisa de menor suporte (WEITLAUF et al., 2024).
3.2 Nível de Suporte 2
O nível 2 de suporte é moderado e necessita de suporte substancial, onde o indivíduo apresenta déficits mais acentuados na comunicação e nas interações sociais, o que interfere significativamente em sua rotina. A linguagem pode estar presente, mas com limitações importantes, como dificuldades em iniciar ou manter diálogos, além de comportamentos restritivos e repetitivos que dificultam a adaptação a mudanças. A necessidade de suporte substancial é evidente para que a pessoa consiga desempenhar atividades diárias e sociais, sendo comum a dependência de intervenções terapêuticas constantes para o desenvolvimento de habilidades adaptativas (WEILAUF et al., 2024).
3.3 Nível de suporte 3
O nível 3 de suporte é grave e necessita de suporte muito substancial, onde representa o grau mais severo do espectro, caracterizado por déficits profundos na comunicação verbal e não verbal, além de dificuldades marcantes na interação social. Muitos indivíduos neste nível apresentam fala mínima ou são não verbais, utilizando recursos alternativos de comunicação. Os comportamentos repetitivos e restritivos são intensos, impactando de forma significativa a capacidade de adaptação a diferentes contextos. Nesse caso, a necessidade de suporte muito substancial é contínua e abrangente, sendo indispensável para garantir a segurança, o bem-estar e a realização das atividades básicas de vida diária (WEITLAUF et al., 2024).
4. PRINCIPAIS DIFICULDADES ENCONTRADAS PELO PÚBLICO AUTISTA
Os indivíduos com Transtorno do Espectro Autista (TEA) podem apresentar um conjunto de dificuldades que variam conforme o nível de suporte necessário, mas que, em geral, envolvem desafios significativos na comunicação, na interação social e na flexibilidade comportamental. Entre as principais dificuldades, destacam-se a limitação na compreensão e uso da linguagem verbal e não verbal, a dificuldade em interpretar sinais sociais, como expressões faciais e gestos, além da tendência a estabelecer padrões de comportamento repetitivos e interesses restritos. Esses aspectos podem comprometer a adaptação a novos ambientes e situações, bem como dificultar a construção de vínculos sociais e acadêmicos. Ademais, muitos indivíduos enfrentam sensibilidade aumentada a estímulos sensoriais, como sons, luzes e texturas, o que pode gerar sobrecarga e impactar negativamente a qualidade de vida e a participação em atividades cotidianas (ALSAEDI, 2020; HEIDRICH et al., 2022; KABARITE et al., 2025; NICOLARDI et al., 2023; PINTO et al., 2021; RIQUELME et al., 2016; STARMAC et al., 2024; VELLADAH et al.,2022).
5. ACOMPANHAMENTO PROFISSIONAL
O acompanhamento de indivíduos com Transtorno do Espectro Autista (TEA) envolve uma abordagem multidisciplinar, sendo fundamental a participação de diversos profissionais especializados para promover o desenvolvimento global e a qualidade de vida desses pacientes. Entre as principais profissões envolvidas estão os médicos, como pediatras e psiquiatras, responsáveis pelo diagnóstico clínico, acompanhamento médico e manejo de comorbidades; os psicólogos, que realizam avaliações cognitivas, comportamentais e intervenções terapêuticas; os fonoaudiólogos, focados no desenvolvimento da comunicação verbal e não verbal; os terapeutas ocupacionais, que auxiliam na adaptação sensorial e funcional para atividades do cotidiano; e os fisioterapeutas, que atuam no desenvolvimento motor, coordenação e postura. Além desses, a equipe pode incluir educadores especializados, assistentes sociais e nutricionistas, todos contribuindo para um plano de intervenção individualizado que visa favorecer a autonomia, a socialização e o bem-estar do indivíduo com TEA (KABARITE et al., 2025).
5.1 A importância da Fisioterapia no acompanhamento autista
A fisioterapia desempenha um papel fundamental no acompanhamento de indivíduos com Transtorno do Espectro Autista (TEA), contribuindo para o desenvolvimento motor, a coordenação, o equilíbrio e a postura, aspectos frequentemente comprometidos nesse público. Por meio de intervenções específicas, o fisioterapeuta auxilia na melhoria da mobilidade funcional, promove o fortalecimento muscular e reduz limitações decorrentes de hipotonia, rigidez ou dificuldades de planejamento motor. Além disso, a fisioterapia pode favorecer a integração sensorial e a adaptação a estímulos do ambiente, potencializando a participação em atividades do cotidiano e no contexto escolar. Dessa forma, a atuação fisioterapêutica se mostra essencial não apenas para o desenvolvimento físico, mas também para o aumento da autonomia, da independência e da qualidade de vida das pessoas com TEA, complementando o trabalho multidisciplinar realizado por outros profissionais da equipe de cuidado (DAFEDAR e KUMBHAR, 2025; MARCIÃO et al., 2021; ROSALES et al., 2025).
5.1.1 Principais Métodos de Avaliação
A avaliação de indivíduos com Transtorno do Espectro Autista (TEA) é um processo essencial para a identificação das necessidades, delimitação do nível de suporte requerido e planejamento de intervenções individualizadas. Os principais métodos de avaliação incluem instrumentos clínicos e psicológicos, como a Entrevista Diagnóstica para Autismo (ADI-R) e a Escala de Observação para Diagnóstico do Autismo (ADOS), que permitem analisar aspectos comportamentais, comunicacionais e sociais. No contexto fisioterapêutico, a avaliação contempla exames específicos do desenvolvimento motor, da postura, da coordenação motora fina e grossa, do equilíbrio e da integração sensorial, utilizando testes padronizados como o instrumento Avaliação Motora Grossa de Crianças e Adolescentes com Transtorno do Espectro Autista (GMA-AUT), o Teste Sensorial Quantitativo (QST) e a ferramenta Escala Motora Infantil de Alberta (AIMS), que avalia as habilidades motoras brutas de bebês de 0 a 18 meses, como uma ferramenta de triagem para detectar atraso no desenvolvimento motor (TDM) em crianças pequenas com TEA. Ademais a avaliação dos movimentos gerais (GM) na identificação precoce do risco de transtorno do espectro autista em bebês. Além disso, o questionário de autorrelato ou que os pais relatam também é uma forma de avaliação. Avaliar detalhadamente essas habilidades é fundamental, pois permite identificar déficits funcionais, acompanhar progressos, adaptar intervenções e promover a máxima autonomia, segurança e qualidade de vida do indivíduo com TEA, integrando-se de forma eficaz ao trabalho multidisciplinar. (BEAULIEU et al., 2025; HEIDRICH et al., 2022; KOCHAV-LEV et al., 2023; NICOLARDI et al., 2023; RIQUELME et al., 2016).
6. RESULTADOS E DISCUSSÃO
Quadro 1- Descrição metodológica dos estudos incluídos na revisão
| Estudo | Tipo de produção/ano | Delineamento do estudo | Objetivos | Metodologia | Principais resultados |
| ALSAEDI, 2020 | Artigo, 2020 | Estudo observacional, quantitativo, de corte transversal (cross‑sectional), comparativo entre crianças com TEA (n=119) e crianças com desenvolvimento típico (n=30), aplicando o instrumento para avaliar proficiência motora. | Determinar a prevalência de déficits motores em crianças com TEA, comparar o desempenho motor de crianças com TEA com crianças com desenvolvimento típico e investigar o efeito da idade cronológica sobre o desempenho motor em crianças com TEA | Amostra de 119 crianças com TEA e 30 crianças com desenvolviment o típico, idade entre 6‑12 anos. Utilização da versão curta do instrumento Bruininks‑Oseretsky Test of Motor Proficiency – Second Edition (BOT‑2) para avaliar proficiência motora. Comparações com normas do instrumento e grupo controle; análise de correlação entre idade e desempenho motor. | Cerca de 88% das crianças com TEA apresentara m desempenho motor fora da faixa normal conforme o BOT‑2, crianças com TEA obtiveram escores significativa mente menores que as de desenvolvimento típico em todos os subtestes do BOT‑2, a idade cronológica mostrou uma relação positiva com o desempenho motor no grupo TEA — ou seja, crianças mais velhas tiveram melhor desempenho motor. |
| BEAULEU et al, 2025 | Artigo, 2025 | Estudo observacional descritivo (componente de caso-relato + revisão de literatura). | Identificar bebés com risco de transtorno do neurodesenvolvi mento (NDT) por meio da avaliação de movimentos gerais. | O estudo inclui um caso clínico e revisão da literatura sobre a avaliação de movimentos gerais (GM) em lactentes, analisando a ocorrência de atipias como “movimentos pobres” ou redução da complexidade e variabilidade motora. | Sugere-se que atipias em movimentos gerais refletem fragilidade corporal que pode comprometer o engajamento relacional do bebé e que a intervenção muito precoce pode beneficiar a qualidade das interações. |
| Brignell et al, 2022 | Artigo (Revisão sistemática de prognóstic o), 2022 | Revisão sistemática de estudos longitudinais de seguimento (prospectivos ou retrospectivos) de crianças pré-escolares diagnosticadas com Transtorno do Espectro Autista (TEA). | Sintetizar a evidência disponível sobre a proporção de crianças com TEA diagnosticadas antes dos 6 anos que continuam a preencher critérios de TEA por um ou mais anos de seguimento (até 19 anos). | Foram feitas buscas em bases como MEDLINE, Embase, PsycINFO e outras até julho de 2021; estudos elegíveis: crianças <6 anos ao diagnóstico, seguimento de ≥1 ano, uso do mesmo critério ou ferramenta diagnóstica no diagnóstico inicial e no seguimento. Dados extraídos, risco de viés avaliado usando ferramenta QUIPS, meta-análise de efeito aleatório ou síntese narrativa conforme aplicável. | A estimativa combinada de 34 estudos (11.129 participantes ) indicou que aproximada mente 92 % (IC 95%: 89%-95%) das crianças mantinham o diagnóstico de TEA no seguimento; entretanto, a qualidade da evidência foi considerada baixa devido à heterogeneidade elevada e ao risco de viés. |
| BRINSTER et al, 2022 | Artigo, 2022 | Estudo observacional retrospectivo de revisão de prontuários, com análise de programa clínico de implementação de modelo transdisciplinar (um ano-de 08/2018-08/2019, N = 173 crianças) para avaliação de eficiência e equidade no acesso à avaliação de Autism spectrum disorder em crianças < 4 anos. | Avaliar a eficiência e a equidade do modelo (S)TAAR na triagem e avaliação precoce do Transtorno do Espectro Autista (TEA), buscando reduzir o tempo de espera para diagnóstico e ampliar o acesso de populações subatendidas aos serviços especializados. | O estudo analisou prontuários de 173 crianças menores de 4 anos encaminhadas para avaliação de autismo entre agosto de 2018 e agosto de 2019 em uma clínica universitária nos Estados Unidos. Foram comparados tempos de espera, idade no diagnóstico, características sociodemográficas e resultados clínicos entre o modelo tradicional e o modelo (S)TAAR. | O modelo (S)TAAR reduziu significativa mente o tempo médio de espera para avaliação diagnóstica (de cerca de 18 meses para menos de 6 meses). Observou-se maior inclusão de crianças de minorias raciais/étnicas e de famílias de baixa renda. Os autores concluíram que o modelo é uma abordagem promissora para tornar as avaliações de autismo mais rápidas e equitativas. |
| DAFEDAR e KUMBHAR, 2025 | Artigo, 2025 | Estudo observacional do tipo survey (inquérito) com amostra de cuidadores/pais, de abordagem quantitativa, com coleta de dados por questionário. | 1. Verificar o nível de consciência (awareness) sobre o papel da fisioterapia no cuidado de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA). 2. Verificar consciência sobre os efeitos do TEA nas crianças. 3. Identificar fatores de risco para TEA nas crianças. 4. Avaliar o impacto do TEA nas crianças. | Foi conduzido em Karad (Índia) com amostra calculada de 162 participantes por amostragem aleatória simples (baseada em prevalência de 12 %, Z = 1,96, L = 5). Foram incluídos cuidadores de crianças entre 1,5-3 anos, excluindo-se crianças com comorbidades/ genéticas, não-verbais ou pouco responsivas. Dados coletados ao longo de 6-12 meses via formulário Google (questionário validado), ficha de dados e formulário de consentimento. Aprovação ética obtida pelo comitê do Instituto (KIMS Deemed to be University, Karad). | A consciência sobre fisioterapia no contexto do TEA foi muito baixa: menos de 6% dos participantes identificaram questões como problemas de marcha, equilíbrio ou o papel da fisioterapia. A maioria (60% masculino, 40% feminino; idade majoritária 2-15 anos) apresentou desconhecimento sobre fatores de risco e impacto motor. O estudo enfatiza a necessidade de maior educação e advocacy para ampliar o acesso e colaboração entre cuidadores, comunidade e profissionais. |
| DÍAZ et al, 2025 | Artigo de revisão sistemática, 2025 | Revisão sistemática da literatura, com busca em quatro bases de dados (Scopus, PubMed, Web of Science, ProQuest) de estudos que tratam do desenvolvimento ou adaptação de técnicas/instrumentos para avaliação e diagnóstico de TEA em crianças e adolescentes.] | Identificar os artigos que analisaram o desenvolvimento ou adaptação de técnicas e instrumentos de avaliação/diagnóstico para o TEA em crianças/adolesc entes. | Foram consultadas quatro bases de dados (Scopus, PubMed, Web of Science e ProQuest). A amostra final incluiu 30 artigos provenientes de diferentes regiões geográficas. | O instrumento mais citado foi “refuerzos positivos” em 10 estudos; o ABII/ABII-PQ apareceu em 11 estudos; o Autism Diagnostic Observation Schedule (ADOS‑2) em 6 estudos; outros instrumentos mencionados incluem Autism Diagnostic Interview‑Revised (ADI‑R), Chandigarh Autism Screening Instrument (CASI), Social Responsiveness Scale (SRS), Child Behaviour Checklist (CBCL). Conclui-se que os instrumentos convencionais tendem a ser refinados e adaptados aos contextos locais, enquanto os instrumentos tecnológicos podem permitir diagnóstico mais preciso e precoce do TEA em crianças. |
| GRUNEWALD et al, 2019 | Artigo de Diretriz de prática clínica, 2019 | Documento de diretriz baseado em revisão de evidências e consenso de especialistas para orientar profissionais não-especialistas na identificação e encaminhamento de condições neurológicas suspeitas. | Estabelecer recomendações para o reconhecimento dos sinais e sintomas de possíveis condições neurológicas em ambientes não-especializados, definir critérios de encaminhamento para avaliação especializada, e fornecer orientação sobre exames iniciais e apoio à pessoa e aos cuidadores. | Identificação de questões de revisão, buscas sistemáticas de evidências (embora com limitações de qualidade/magnitude), categorização de sintomas em diferentes níveis de evidência, consulta com especialistas externos, aplicação de metodologia adaptada da NICE para diretrizes. | A diretriz lista várias recomendações para diferentes sintomas em adultos e crianças (por exemplo: desmaios, tontura, fraqueza, atraso motor em crianças). Enfatiza que muitos sintomas neurológicos são frequentes e inespecíficos, e que o encaminhamento ou não dependerá do conjunto de sinais de alarme. Também ressalta a necessidade de evitar encaminhamentos desnecessários e de reduzir atrasos em casos graves. |
| HEIDRICH et al. 2022 | Artigo, 2022 | Estudo metodológico de desenvolvimento e validação de instrumento (checklist) para avaliação motora grossa em crianças e adolescentes com Transtorno do Espectro Autista (TEA): fase de validade de conteúdo com painel de especialistas. | Desenvolver e avaliar a validade de conteúdo do instrumento denominado GMA‑AUT checklist (Gross Motor Assessment of Children and Adolescents with ASD) para avaliar habilidades motoras grosseiras em jovens e crianças com TEA. | A versão inicial do instrumento foi submetida a um comitê de especialistas para avaliação de conteúdo, utilizando o Índice de Validade de Conteúdo (IVC), com limite mínimo aceitável de 0,80. A partir das sugestões dos especialistas, o instrumento foi reformulado e reaplicado ao mesmo painel para nova avaliação. | Na versão final do checklist, todos os itens, exceto dois, alcançaram IVC = 1,00; os dois restantes atingiram IVC = 0,88, indicando que o instrumento apresenta validade de conteúdo adequada segundo especialistas para a população alvo. |
| HIROTA et al, 2023 | Artigo de revisão sistemática, 2023 | Revisão narrativa/sistemática da literatura, em que se sintetiza evidência sobre diagnóstico, prevalência, comorbidades e tratamento do Transtorno do Espectro Autista (TEA) em crianças e adultos. | Resumir a evidência atual sobre: prevalência do TEA, métodos de diagnóstico, intervenções terapêuticas (comportamentais e farmacológicas) e comorbidades associadas ao TEA. | Revisão da literatura: análise e síntese dos estudos publicados sobre TEA, incluindo dados epidemiológico s, instrumentos de diagnóstico, intervenções comportamentais intensivas, farmacoterapia para condições concomitantes, e identificação de lacunas de pesquisa. | Prevalência estimada de TEA ~2,3% em crianças de 8 anos nos EUA e ~2,2% em adultos. Ausência de biomarcadores específicos para diagnóstico de TEA. Padrões de intervenção: para crianças ≤5 anos, intervenções comportamentais intensivas (como o Early Start Denver Model) mostram efeitos pequenos a moderados em linguagem, brincadeira e comunicação social. Para condições concomitant es como irritabilidade /agressão, os antipsicóticos Risperidona e Aripiprazol evidenciam grandes efeitos em comparação ao placebo. As comorbidade s são mais frequentes em pessoas com TEA: maiores taxas de depressão, ansiedade, dificuldades de sono, epilepsia. |
| KABARITE et al, 2025 | Artigo, 2025 | Estudo longitudinal de intervenção (sem grupo de controlo) que acompanha 53 crianças e adolescentes de 2 a 16 anos com diagnóstico confirmado de Autism Spectrum Disorder (TEA), submetidos a modelo de cuidado transdisciplinar e centrado na família, com avaliações em três tempos: linha de base, 6 meses e 12 meses. | Avaliar a eficácia de um modelo de intervenção transdisciplinar, centrado na família, na melhora dos desfechos clínicos e funcionais em crianças e adolescentes com TEA ao longo de 12 meses. | Participaram 53 crianças/ adolescentes (idade média ~9,0 ± 3,92 anos) com TEA confirmado. Os participantes receberam intervenções personalizadas, em equipe transdisciplinar, individuais e em grupo, com fases flexíveis de acordo com evolução. As medidas de desfecho incluíram a escala Clinical Global Impression (CGI), Global Assessment of Functioning (GAF) e a Aberrant Behavior Checklist (ABC). Avaliações em baseline, 6 e 12 meses. | Foram observadas melhorias clínicas e funcionais ao longo de 12 meses: a maioria dos participantes alcançou níveis funcionais elevados ao final do período. Relatos de cuidadores indicaram diminuição das necessidades de apoio; houve redução de comportamentos desafiadores, dificuldades sensoriais e de sono, e aumento de brincadeira funcional e adaptabilidade. Maior envolvimento familiar foi associado a melhores resultados. |
| KOCHAV-LEV et al, 2023 | Artigo, 2023 | Estudo de coorte retrospectivo (historical cohort) que analisou registros de crianças de um sistema de saúde israelense nascidas entre 2011 e 2017, investigando atrasos no desenvolvimento motor (motor developmental delay, MDD) medidos pela escala Alberta Infant Motor Scale (AIMS) e a relação com diagnóstico posterior de Autism Spectrum Disorder (TEA). | Avaliar se a escala AIMS pode servir como ferramenta de triagem precoce para atrasos no desenvolvimento motor em bebês que mais tarde viram ser diagnosticados com TEA, e investigar a prevalência de MDD em crianças com TEA e o poder da AIMS para identificar essas crianças. | Foram incluídos N = 240.299 crianças nascidas entre 2011 e 2017, registradas no sistema de saúde referido. Excluíram-se aquelas que ingressaram após os 24 meses. A variável “MDD” foi definida como ter pelo menos uma visita registrada de fisioterapia de desenvolvimento antes dos 2 anos de idade. Em seguida, verificou-se quantas dessas crianças foram posteriormente diagnosticadas com TEA (n = 1.821). As razões de encaminhamento para fisioterapia de desenvolvimento e os escores da AIMS foram analisados para determinar a sensibilidade/associação | Do total de crianças, 1.821 (prevalência ~0,75 %) receberam diagnóstico de TEA. Destas, 388 foram encaminhadas para fisioterapia de desenvolvimento (odds ratio = 4,1; IC 95%: 3,6-4,6). Entre as crianças com TEA e MDD, mais de 87% apresentara m atraso de desenvolvimento ou risco de atraso conforme a AIMS. Os motivos mais comuns de encaminhamento dessas crianças com TEA incluíam atraso motor (46,19 %), torcicolo (19,52 %), atraso global do desenvolvimento (15,48%) e prematuridade (7,38 %). A escala AIMS mostrou-se sensível para identificar candidatos relevantes à triagem de TEA. |
| LAI et al, 2023 | Artigo, 2023 | Documento de opinião científica / perspectiva (viewpoint) em que um painel internacional revisa evidências e elabora sugestões clínicas e prioridades de pesquisa para melhorar a identificação e o apoio a pessoas autistas designadas como mulheres ao nascer (AFAB – assigned female at birth). | Revisar os desafios existentes na identificação e suporte de pessoas autistas designadas mulheres ao nascer e propor diretrizes clínicas e prioridades de pesquisa para promover acesso equitativo à avaliação, diagnóstico e apoio adequado para essa população. | Um painel internacional formado por clínicos, cientistas e membros da comunidade com experiência de autismo analisou a literatura existente sobre prevalência, atrasos diagnósticos, identificação enviesada, disparidades de saúde em indivíduos AFAB autistas. A partir dessa revisão, foram apresentadas recomendações para prática clínica e pesquisa futura. | Evidências de que a menor prevalência de autismo em indivíduos designados femininos ao nascer (em comparação aos designados masculinos) pode refletir tanto fatores biológicos como enviesamentos de identificação. Indicação de que pessoas AFAB autistas enfrentam disparidades em saúde, diagnóstico tardio ou não realizado, e suporte inadequado. Reconhecimento de que a forma de apresentação do autismo em AFAB pode ser mais sutil, mascarada ou diferente, exigindo ajustes nos processos de triagem e diagnóstico. Recomendações de que sistemas de saúde, sociedades profissionais e entidades reguladoras apoiem o desenvolvimento profissional de clínicos para melhorar o acesso equitativo à avaliação em AFAB; e que o apoio às pessoas autistas AFAB seja personalizado em educação, identidade, saúde e sentimento de pertencimento social/profissional. |
| MACLACHLAN, M, 2021 | Artigo, 2021 | Comentário crítico/opinativo sobre o editorial de Stephen M. Kanne & S. L. Bishop (2020) intitulado “The autism waitlist crisis and remembering what families need”. O autor discute dificuldades, dilemas e oportunidades relativas à avaliação do Transtorno do Espectro Autista (TEA), enfatizando tanto o acesso quanto a qualidade da avaliação diagnóstica. | Destacar – além das questões levantadas por Kanne e Bishop – os desafios específicos na avaliação do TEA (ex. complexidade dos casos, recursos limitados, pressão para avaliações abreviadas) e apontar oportunidades, como o uso de profissionais não-especialistas ou novas tecnologias para ampliar acesso à avaliação. | O autor revisita o editorial de Kanne & Bishop, analisa criticamente seus argumentos, e instala reflexões sobre sistemas de avaliação do TEA, demandas de serviço, pressões de lista de espera, qualidade versus rapidez, e sugere direções para inovação e reorganização dos serviços. Não é um estudo empírico com coleta de dados primários. | Concorda que há uma crise de listas de espera para avaliação de TEA e que as famílias precisam de avaliações de alta qualidade. Aponta que muitos casos de TEA são complexos e exigem expertise considerável; avaliações resumidas ou rápidas podem compromete r a qualidade. Propõe que, para melhorar acesso e equidade, pode ser necessário treinar não-especialistas, adotar novas tecnologias ou formatos de triagem para reduzir atraso, mas ressalta cautela para não comprometer o rigor diagnóstico. Sublinha que “uma boa avaliação é um bom investimento em intervenção eficaz”. |
| MARCIÃO et al, 2021 | Artigo de revisão narrativa, 2021 | Revisão narrativa da literatura, com buscas manuais em Google Scholar e seleção de artigos pertinentes ao tema da atuação da fisioterapia em pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA). | Discutir a importância da atuação do fisioterapeuta no atendimento de pessoas com TEA, com foco em intervenções motora, sensorial e de integração social/motoras que favoreçam a autonomia e qualidade de vida. | Foi realizada uma revisão narrativa: foram selecionados artigos relevantes mediante busca manual na plataforma Google Scholar. O artigo aborda conceitos teóricos, motoras e sensoriais associadas ao TEA, e argumenta sobre o papel da fisioterapia. | Os autores identificam que: a fisioterapia precoce é fundamental para desenvolver funções de rotina, melhorar coordenação, interação interpessoal e adaptação ao espaço; estímulos motores e sensoriais favorecem qualidade de vida e inclusão social de pessoas com TEA. Também destacam a necessidade de intervenção precoce e de que o profissional de fisioterapia tenha papel ativo no contexto da equipe multidisciplinar. |
| NICOLARDI et al, 2023 | Artigo de revisão, 2023 | Revisão de literatura focada em evidências e protocolos padronizados de avaliação da dor em indivíduos com Transtorno do Espectro Autista (TEA) — com ênfase nos desafios éticos e metodológicos no uso de métodos como Quantitative Sensory Testing (QST). | Atualizar o estado-da-arte sobre a percepção da dor em pessoas com TEA; identificar mecanismos periféricos e centrais Implicados; discutir os desafios metodológicos (por exemplo, uso de protocolos padronizados) e éticos (por exemplo, em crianças com TEA, deficiência intelectual, comunicação alterada) ligados à avaliação da dor nessa população. | Os autores revisaram estudos que aplicaram protocolos padronizados de avaliação da dor — especialmente QST — em indivíduos com TEA; analisaram como os estudos lidaram com variabilidade nos perfis de TEA (hipo/hipersen sibilidade, deficiências associadas) e quais as lacunas metodológicas e éticas persistentes. | Evidências sugerem que a ideia de “hipossensibi lidade à dor” em TEA não é universal, e que tanto mecanismos periféricos quanto centrais podem estar envolvidos. Estudos com protocolos controlados (QST) são escassos, especialmente em crianças com TEA. Desafios éticos significativos são apontados, tais como: como obter assentimento /consentimento em crianças com TEA e deficiência, como adaptar estímulos de dor controlados, como garantir conforto e minimizar sofrimento. Recomenda-se o desenvolvimento de protocolos adaptados à heterogeneidade do TEA, maior atenção à ética da avaliação da dor, e mais pesquisas em crianças e populações com deficiência intelectual associada. |
| PINTO et al, 2021 | Artigo de revisão integrativa, 2021 | Revisão integrativa da literatura que buscou identificar os principais desafios no processo de inclusão de indivíduos com Transtorno do Espectro Autista (TEA) em ambiente universitário, com busca e seleção de estudos publicados entre 2017-2021 nas bases SciELO, LILACS, VHL e MEDLINE. | Discutir e elencar os principais desafios enfrentados por indivíduos com TEA no processo de ingresso e permanência no ensino superior (universitário) | Foram realizadas buscas nas bases de dados mencionadas (SciELO, LILACS, VHL, MEDLINE) utilizando descritores conforme DeCS, no período de 2017-2021. Após aplicação de critérios de inclusão e exclusão, foram selecionados sete artigos que compõem o conjunto analisado. | Identificaram -se desafios recorrentes para estudantes com TEA no ensino superior, tais como: ansiedade, depressão, medo, falta de compreensão por parte de docentes, dificuldade de adaptação das metodologias de ensino, dificuldades de socialização, estigma, falta de apoio individualiza do e insuficiente respeito às singularidades de cada indivíduo. Aponta-se que isso ocorre muitas vezes pelo diagnóstico tardio, entretanto é ressaltado a importância do diagnóstico precoce para a melhora da qualidade de vida dos indivíduos. |
| RANDALL et al, 2018 | Artigo de revisão sistemática de acurácia diagnóstica, 2018 | Revisão sistemática que avaliou ferramentas de diagnóstico para TEA em crianças pré-escolares (menores de 6 anos), comparando instrumentos padronizados (entrevistas com pais, observação direta da criança) com o “juízo clínico” multidisciplinar como padrão-referência. | Identificar quais instrumentos diagnósticos mais acuradamente detectam o TEA em crianças pré-escolares; comparar os principais testes (como Autism Diagnostic Observation Schedule (ADOS), Childhood Autism Rating Scale (CARS), Autism Diagnostic Interview‑Revise d (ADI-R)) em termos de sensibilidade e especificidade. | Foram incluídos estudos que comparavam teste(s) de diagnóstico para TEA em crianças pré-escolares com avaliação por equipe multidisciplinar como padrão-referência. As ferramentas consideradas incluíram entrevistas com cuidadores (ADI-R, DISCO, GARS, 3di), observação da criança (ADOS) e combinação de observação/intervista (CARS). Foram analisados dados de mais de 2.900 crianças em ~21 conjuntos de análise. | A sensibilidade e especificidade dos instrumentos variaram bastante. Por exemplo, em cenários hipotéticos (1000 crianças, 740 com TEA): o ADOS identificaria corretamente ~696; o CARS ~592; o ADI-R ~385. O ADOS apresentou a maior sensibilidade dentre os testados; todos os instrumentos tiveram desempenhos semelhantes em especificidade. A confiança nas estimativas é limitada devido à heterogeneidade dos estudos, risco de viés e populações variáveis – em populações de menor prevalência o risco de falso-positivo aumenta. |
| RIQUELME et al, 2016 | Artigo, 2016 | Estudo comparativo de tipo observacional (grupo de crianças com TEA × grupo controle) com abordagem quantitativa, utilizando testes padronizados para avaliar sensibilidade tátil, limiares de dor por pressão, propriocepção e destreza manual em crianças com Autism Spectrum Disorder (TEA) de alto funcionamento versus pares típicos. | Investigar funções somatossensoriais e motoras em crianças com TEA utilizando procedimentos objetivos e padronizados (não apenas autorrelato ou observação clínica), com foco em limiares de dor por pressão, sensibilidade ao toque, propriocepção e destreza manual. | Foram incluídas 27 crianças com TEA de alto funcionamento (idade média ~6,3 ± 3,23 anos; 7 meninas) e 30 crianças com desenvolvimento típico (idade média ~6,5 ± 3,37 anos) como grupo controle. Avaliaram-se limiares de dor por pressão (com dinamómetro), limiares de detecção tátil (monofilamentos de Von Frey), testes de estereognosia, propriocepção e destreza manual fina e grossa nos membros superiores. | Crianças com TEA apresentara m menores limiares de dor por pressão (ou seja: maior sensibilidade à dor) em comparação às crianças com desenvolvimento típico. Também apresentara m maior sensibilidade ao toque em áreas inervadas por fibras C-táteis (relacionadas ao toque afetivo) como rosto e dorso da mão. Apresentara m diminuição na propriocepção e na destreza manual fina e grossa comparadas ao grupo controle. Não houve diferenças significativas entre os grupos no teste de estereognosia. |
| ROSALES et al, 2025 | Artigo de revisão sistemática e meta‑análi se, 2025 | Revisão sistemática com meta‑análise de ensaios controlados (randomized controlled trials – RCTs) que implementaram intervenções motoras em crianças ou jovens com Autism Spectrum Disorder (TEA), visando os desfechos de cognição, comunicação e interação social. | Avaliar o efeito de avaliações e intervenções motoras em crianças com TEA sobre habilidades de cognição, comunicação e interação social; sintetizar evidências e quantificar o impacto do diagnóstico e dessas intervenções. | Foram realizadas buscas em sete bases de dados para localizar RCTs de avaliações e intervenções motoras em TEA (faixa etária média ~4,3 a 12,3 anos) que mensuraram resultados em comunicação, cognição e interação social. 23 ensaios randomizados foram incluídos (66 desfechos, 636 participantes). Análise de efeito padronizado (SSMD – Standardised Mean Difference) foi utilizada para meta‑análise. | Avaliações e intervenções motoras mostraram efeito positivo significativo para todos os desfechos combinados (social + comunicação + cognição): SSMD = 0,41, p = .01. Para domínio “social” isolado: SSMD = 0,46, p = .012. Para domínio “social/ comunicação ” combinado: SSMD = 0,47, p = .01. Não se observou efeito estatisticamente significativo para o domínio motor isolado (SSMD = 0,45 , p = .25) nem para cognição isoladamente (SSMD = 0,22, p = .18). Também foi observado que, em crianças com mais de nove anos, cada ano adicional de idade reduzia o efeito observado em ~0,29 no SSMD (menor eficácia em idades maiores). |
| SCOTTISH INTERCOL LEGIATE GUIDELINES NETWORK (SIGN), 2016 | Artigo, 2016 | Estudo do tipo diretriz clínica nacional, elaborado pelo Scottish Intercollegiate Guidelines Network (SIGN), com delineamento baseado em revisão sistemática da literatura científica. Caracteriza-se como estudo de síntese de evidências, de abordagem qualitativa e descritiva, voltado à formulação de recomendações clínicas fundamentadas em evidências para avaliação, diagnóstico e intervenções no Transtorno do Espectro Autista (TEA). | Fornecer recomendações baseadas em evidências científicas para orientar profissionais de saúde, educação e serviços sociais quanto às melhores práticas de rastreio, avaliação, diagnóstico e intervenções — farmacológicas e não farmacológicas — voltadas a indivíduos com Transtorno do Espectro Autista (TEA), promovendo qualidade, consistência e efetividade no cuidado interdisciplinar. | O documento foi desenvolvido seguindo o padrão metodológico do Scottish Intercollegiate Guidelines Network (SIGN). A equipe elaboradora realizou uma revisão sistemática da literatura científica sobre avaliação, diagnóstico e intervenções no Transtorno do Espectro Autista (TEA). As evidências foram identificadas, analisadas e classificadas de acordo com níveis de qualidade e força de recomendação (1++, 1+, 2++, 2+, etc.). As conclusões e recomendações foram definidas por consenso entre especialistas de diferentes áreas da saúde e representantes de pacientes, resultando em orientações práticas baseadas nas melhores evidências disponíveis até o ano de 2016. | O estudo resultou em um conjunto abrangente de recomendações clínicas baseadas em evidências para a avaliação, diagnóstico e manejo de pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Entre os principais achados, destacam-se a importância do rastreamento precoce, do diagnóstico multidisciplinar, e da intervenção individualizada conforme as necessidades de cada pessoa. O documento reforça a eficácia de abordagens comportamentais, educacionais e terapêuticas estruturadas, além de orientar o uso criterioso de intervenções farmacológicas apenas quando indicado. Também enfatiza a necessidade de apoio contínuo às famílias e da integração entre serviços de saúde, educação e assistência social para garantir cuidado integral e efetivo. |
| STARMAC et al, 2024 | Artigo, 2024 | Estudo transversal e prospectivo de confiabilidade (reprodutibilidade interobservador e intraobservador) de um instrumento específico de avaliação motora grosseira em crianças e adolescentes com Transtorno do Espectro Autista (TEA) (idades entre 6 e 18 anos). | Verificar a reprodutibilidade (acordo intraobservador e interobservador) do instrumento chamado GMA‑AUT checklist (“Gross Motor Assessment of Children and Adolescents with Autism Spectrum Disorder”) para que possa ser usado de forma confiável em avaliações motoras de jovens com TEA. | Amostra de 34 indivíduos com TEA, com idades entre 6 e 18 anos. A reprodutibilidade interobservador: dois fisioterapeutas especialistas avaliaram os vídeos das avaliações de forma cega. A reprodutibilida de intraobservador : um dos avaliadores refez a avaliação após sete dias, sem acessar os dados da primeira avaliação. Foram usados percentagem de concordância, estatística kappa ponderada (k) e coeficiente de correlação intraclasse (ICC) para os escores. | O instrumento apresentou excelente reprodutibilidade intraobserva dor: kappa (k) ≥ 0,75 e ICC > 0,75 para a maior parte dos itens. A reprodutibilidade interobservador variou entre “boa a suficiente”: k entre ~0,40 e 0,75, e ICC > 0,75 para a maioria dos escores. Conclui‑se que o GMA‑AUT checklist pode ser utilizado de forma confiável em avaliações de jovens com TEA. |
| SQUARE et al, 2016 | Artigo, 2016 | Documento de diretriz baseado em revisão sistemática e síntese de evidências sobre avaliação, diagnóstico e intervenções para o Transtorno do Espectro Autista (TEA) em crianças e jovens; inclui recomendações para prática clínica. | Fornecer uma orientação abrangente e baseada em evidência para profissionais de saúde e serviços multi‑agências sobre como conduzir triagem, avaliação, diagnóstico e intervenções para TEA em crianças e jovens. | O grupo de diretrizes reuniu evidências provenientes de pesquisas publicadas (revisões sistemáticas, ensaios clínicos, estudos de observação), avaliou qualidade das evidências, desenvolveu recomendações através de consenso de especialistas e consulta com partes interessadas (famílias, serviços). Foram definidos níveis de evidência para fundamentar as recomendações. | A diretriz apresenta um conjunto de recomendações práticas, tais como: (1) utilizar triagem ativa em crianças com atraso no desenvolvimento ou sinais de TEA; (2) conduzir avaliação diagnóstica abrangente por equipa multiprofissional qualificada; implementar intervenções individualiza das, baseadas nas necessidades da criança e da família, com foco em comunicação, socialização, função adaptativa; monitorar e rever regularmente os progressos; (5) promover coordenação entre serviços de saúde, educação e comunitários . Também ressalta a necessidade de ajustamento das intervenções ao contexto da criança e de redução de atrasos no diagnóstico. |
| U.S. NATIONAL LIBRARY OF MEDICINE, MEDLINEPLUS, 2023 | Artigo de revisão sistemática, 2023 | Estudo de revisão sistemática, que compila e resume evidências: definição, sintomas, diagnóstico, tratamento, estatísticas, pesquisa em andamento. | Informar o público geral sobre o que é o TEA, quais são os sinais e sintomas, como é feito o diagnóstico, quais são as intervenções disponíveis e onde encontrar mais informações ou suporte. | Coleta e síntese de informações confiáveis a partir de fontes científicas (por exemplo, Centers for Disease Control and Prevention / CDC, National Institute of Mental Health / NIMH, entre outras) para disponibilizar conteúdos acessíveis ao público leigo. | O TEA é um distúrbio do desenvolvimento neurológico e começa na infância, persistindo ao longo da vida. Afeta a comunicação, a interação social e está associado a comportamentos repetitivos ou interesses restritos. A causa exata é desconhecida, mas combinação de fatores genéticos e ambientais é implicada. Diagnóstico é por meio de avaliação especializada ; não há exame único; a avaliação precoce melhora os resultados. Tratamentos incluem terapias comportamentais e de comunicação, treinamentos de habilidades, e medicamentos para sintomas associados (não para “curar” o TEA) |
| VELLADAH et al. | Artigo, 2022 | Estudo intervencional com análise pré-pós (mixed-methods) entre profissionais de saúde de diferentes profissões. | Avaliar um módulo de treinamento em prática colaborativa interprofissional (IPC) para o manejo de crianças com Transtorno do Espectro do Autismo (TEA). | O módulo foi desenvolvido por uma equipe interprofissional para profissionais de saúde de sete profissões. Foi entregue via workshop on-line com diversos métodos de ensino/aprendizagem. Foram avaliadas percepções e competências de colaboração interprofissional através de instrumentos padronizados (PINCOM-Q e Dow-IPEC) e resumos reflexivos. Participaram 42 profissionais de saúde. | Houve diferença estatisticame nte significativa nas percepções de colaboração interprofissi onal e nos níveis de competência s de IPCP após o módulo. Os participantes relataram maior confiança no conhecimento das competências interprofissionais e nas suas habilidades para trabalhar com crianças com TEA de forma colaborativa. |
| WEITLAUF et al, 2024 | Artigo, 2024 | Estudo observacional/descritivo (análise cruzada de base de dados) com participantes com Transtorno do Espectro Autista (TEA). | Examinar a sobreposição entre classificações de gravidade (“mild”, “moderate”, “severe”) com base em (1) sintomas de TEA, (2) função cognitiva, e (3) função adaptativa, em crianças e adolescentes com TEA, considerando os níveis de suporte propostos pelo DSM‑5. | Foram analisados dados de 726 participantes (idade de 15 meses a 17 anos, média ~5,86 anos, 84% masculino). Os dados incluíam medidas de: sintomas de autismo (Autism Diagnostic Observation Schedule – ADOS Comparison Scores), função adaptativa (Vineland Adaptive Behavior Scales II – VABS-II) e função cognitiva (QI ou equivalente). | Verificaram inconsistências substanciais: embora muitos participantes classificados com “severe” sintomas de TEA também apresentasse m graves comprometi mentos cognitivos e adaptativos, os níveis “mild” e “moderate” de sintomas nem sempre corresponderam a níveis similares de função cognitiva/adaptativa. Ou seja: alguém com sintomas leves/moderados de TEA podia ter comprometi mento adaptativo ou cognitivo mais grave, e vice-versa. Os autores destacam que a categoria de “nível de suporte” no DSM-5 ainda não possui método padronizado claro para sua operacionalização, o que pode gerar discrepância s na prática clínica e em acesso a serviços. |
| WOOD et al, 2022 | Artigo, 2022 | Estudo intervencional randomizado (ensaio clínico) com análise pré-pós, com formatos de relato de pais e observação em domicílio. | Avaliar a escala personalizada Youth Top Problems Scale (YTP) em formato de relato dos pais e observação para medir sintomas de autismo e resposta a tratamento em crianças com TEA. | Participaram 68 crianças com diagnóstico de TEA (idades entre 6-13 anos) e seus pais, randomizadas para uma intervenção de terapia cognitivo-comp ortamental (CBT) ou tratamento comunitário melhorado (ESCT). Pais identificaram em suas próprias palavras os “três principais problemas” relacionados ao autismo de cada criança (YTPs), avaliaram a gravidade antes do tratamento e diariamente por 5 dias antes + 5 dias após o tratamento enquanto a criança era filmada em casa. Observadores treinados codificaram as gravações com foco nos mesmos YTPs. Os pais também preencheram listas padronizadas de sintomas de autismo e saúde mental geral. | A escala YTP apresentou evidência de validade de convergência e discriminação, boa confiabilidade teste-reteste. As pontuações relatadas pelos pais previram as pontuações observadas no nível diário, e ambas — relato dos pais e observações — diminuíram do pré- para o pós-tratamento. As observações mostraram sensibilidade à condição de tratamento (ou seja, detectaram diferenças conforme intervenção). |
Fonte: autoria própria
A presente síntese dos 26 estudos selecionados revelou temas centrais sobre avaliação e intervenção fisioterapêutica em crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Três diretrizes e documentos de prática consolidam recomendações para triagem precoce, avaliação multidisciplinar e intervenções individualizadas (≈11,5% dos estudos). Revisões sistemáticas e meta-análises (≈19,2%) apontam que instrumentos padronizados de observação (p.ex. ADOS) apresentam elevada sensibilidade para detecção de TEA, enquanto a performance diagnóstica varia conforme a ferramenta e o contexto (Randall et al., 2018).
Estudos metodológicos (Heidrich et al., 2022; Bastianel et al., 2024; Starmac et al., 2024) indicaram que instrumentos específicos para avaliação motora em TEA (por exemplo, o checklist GMA-AUT) possuem validade de conteúdo adequada e reprodutibilidade intraobservador excelente, embora a concordância interobservador seja mais variável — salientando a necessidade de treinamento estruturado dos avaliadores. A escala AIMS mostrou valor de triagem precoce para atrasos motores correlacionados a diagnóstico de TEA (Kochav-Lev et al., 2023).
A avaliação sensorial e de dor revelou heterogeneidade: evidências experimentais contradizem a noção de hipossensibilidade universal, demonstrando que muitas crianças com TEA apresentam maior sensibilidade à dor por pressão e alterações em vias táteis afetivas (Riquelme et al., 2016; Nicolardi et al., 2023), o que impõe cuidado ético e metodológico na aplicação de protocolos como QST.
Em relação às intervenções, a meta-análise de ensaios randomizados incluiu 23 RCTs e mostrou efeito positivo combinado nas áreas social, comunicação e cognição (SSMD ≈ 0,41), com maior magnitude nos domínios sociais; contudo, o efeito diminui com a idade, sugerindo maior eficácia de intervenções motoras precoces (Rosales et al., 2025). Estudos de implementação (BRINSTER et al., 2022) e de formação interprofissional (Velladah et al., 2022) demonstraram ganhos em eficiência, redução do tempo de espera e melhoria na colaboração entre profissionais.
Por fim, estudos observacionais e de base de dados destacaram questões importantes para a prática clínica: estabilidade diagnóstica elevada ao longo do seguimento (≈92% em revisões de prognóstico) e discrepâncias entre classificações de gravidade por sintomas e níveis funcionais (Weitlauf et al., 2024), o que impacta critérios de acesso a serviços.
Discussão interpretativa: a literatura disponível apoia o uso combinado de instrumentos validados específicos para avaliação motora em TEA, associados a avaliações de triagem precoces (AIMS) e avaliações diagnósticas padronizadas (por exemplo o ADOS/ADI-R) em contexto multiprofissional. A variabilidade interobservador observada em estudos de reprodutibilidade reforça a necessidade de protocolos de treinamento e calibração. Intervenções motoras apresentam evidência de benefício, especialmente quando aplicadas em idades mais precoces, o que reforça a prioridade para identificação e encaminhamento célere. Lacunas importantes permanecem: poucos RCTs de grande porte centrados exclusivamente em intervenções motoras, escassez de protocolos padronizados para avaliação da dor em crianças com TEA e heterogeneidade metodológica que limita generalização. Recomenda-se, portanto, (1) adoção de instrumentos validados com treinamento específico, (2) integração de avaliações motoras nas rotinas de triagem precoce e (3) desenvolvimento de estudos controlados que avaliem intervenções motoras padronizadas em amostras maiores e com seguimento longitudinal.
7. CONCLUSÃO
A análise dos 26 estudos selecionados evidencia avanços significativos na avaliação e intervenção fisioterapêutica voltada ao Transtorno do Espectro Autista (TEA). Observou-se predomínio de revisões sistemáticas e estudos observacionais, refletindo uma literatura ainda concentrada na consolidação de instrumentos e protocolos. Destacam-se os estudos metodológicos que validaram ferramentas específicas, como o GMA-AUT checklist e a escala AIMS, demonstrando boa validade e confiabilidade para uso clínico. Os achados convergem para a importância da avaliação precoce, multiprofissional e individualizada, com ênfase na detecção de alterações motoras e sensoriais. As intervenções motoras mostraram-se eficazes, principalmente em idades precoces, produzindo melhorias em domínios sociais, comunicativos e adaptativos. Contudo, ainda persistem desafios metodológicos, como a variabilidade interobservador e a escassez de ensaios clínicos randomizados de grande porte. Conclui-se que a prática fisioterapêutica no TEA deve priorizar o uso de instrumentos validados, o treinamento de avaliadores e a integração de abordagens motoras e sensoriais desde os primeiros anos de vida, de modo a favorecer o desenvolvimento global, a autonomia funcional e a inclusão social das pessoas com TEA.
REFERÊNCIAS
ALSAEDI, R. An Assessment of the Motor Performance Skills of Children with Autism Spectrum Disorder in the Gulf Region. Brain Sciences, 2020. Disponível em: https://www.mdpi.com/2076-3425/10/9/607. Acesso em: 01 mar. 2025.
BEAULIEU, A. et al. Identificação de bebês em risco de NDT por meio da avaliação de movimentos gerais. Revista Brasileira de Pediatria, 2025. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39947763/. Acesso em: 01 jun. 2025.
BRIGNELL, A. et al. Prognóstico geral dos diagnósticos de transtorno do espectro autista em idade pré-escolar. Cochrane Database of Systematic Reviews, 2022. Disponível em: https://www.cochranelibrary.com/cdsr/doi/10.1002/14651858.CD012749.pub2/full?highligh tAbstract=assessment%7Cassess%7Cautism. Acesso em: 22 jun. 2025.
BRINSTER, M. et al. Melhorando a eficiência e a equidade nas avaliações precoces do autismo: o modelo (S)TAAR. NATIONAL LIBRARY OF MEDICINE, 2022. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35020118/. Acesso em: 23 jun. 2025.
DAFEDAR, M., KUMBHAR, T. Awareness Regarding Role Of Physiotherapy In The Care Of Children Autism Spectrum Disorder. International Journal of Environmental Sciences, 2025. Disponível em: https://theaspd.com/index.php/ijes/article/view/11207. Acesso em: 24 jun. 2025.
DÍAZ, T. et al. Técnicas e instrumentos para evaluar el Trastorno del Espectro Autista (TEA): una revisión sistemática. Portal Regional da BVS, 2025. Disponível em: https://pesquisa.bvsalud.org/portal/resource/pt/biblio-1604984. Acesso em: 25 jun. 2025.
GRUNEWALD, R. et al. Suspected neurological conditions. National Institute for Health and Care Excellence, 2019. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK542045/pdf/Bookshelf_NBK542045.pdf. Acesso em: 18 jun. 2025.
HEIDRICH, T. et al. Content validity of an instrument for motor assessment of youth with autism. FISIOTERAPIA EM MOVIMENTO, 2022. Disponível em: https://www.scielo.br/j/fm/a/7VLVswM84p6RpbbpCz7jWwn/?format=pdf&lang=en. Acesso em: 07 mar. 2025.
HIROTA, T. et al. Autism Spectrum Disorder. Journal of the American Medical Association), 2023. Disponível em: https://jamanetwork.com/journals/jama/article-abstract/2800182. Acesso em: 10 mar. 2025.
KABARITE, A. et al. A Longitudinal Transdisciplinary Approach for Autism Spectrum Disorder. Children (Basel), 2025. Disponível em: https://www.mdpi.com/2227-9067/12/9/1272 . Acesso em: 10 abr. 2025.
KOCHAV-LEV, M. et al. O uso da Escala Motora Infantil de Alberta (AIMS) como uma escala diagnóstica para bebês com autismo. Revista Brasileira de Pediatria, 2023. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36980353/. Acesso em: 20 mai. 2025.
LAI, M. et al. Melhorando a identificação e o apoio ao autismo para indivíduos designados como mulheres ao nascer: sugestões clínicas e prioridades de pesquisa. The Lancet, 2023. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37973254/. Acesso em: 10 mai. 2025.
MACLACHLAN, M. Desafios e oportunidades na avaliação do autismo — um comentário sobre Kanne e Bishop (2020). Revista Brasileira de Neurologia, 2021. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33247434/. Acesso em: 15 abr. 2025.
MARCIÃO, L. et al. The importance of physiotherapy in the care of people with Autism Spectrum Disorder. Research, Society and Development, 2021. Disponível em: https://rsdjournal.org/rsd/article/view/14952/13352. Acesso em: 20 abr. 2025.
NICOLARDI, V. et al. Avaliação da dor no autismo: atualizando os desafios éticos e metodológicos por meio de uma revisão de última geração. Revista Brasileira de Autismo, 2023. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37436557/. Acesso em: 03 mai. 2025.
PINTO, B. et al. Challenges faced in the process of inclusion of individuals with autistic spectrum disorder at the university scope. Research, Society and Development, 2021. Disponível em: https://rsdjournal.org/index.php/rsd/article/view/14189. Acesso em: 10 mai. 2025.
RANDALL, M. et al. Diagnostic tests for autism spectrum disorder (ASD) in preschool children (Review). Cochrane Database of Systematic Reviews, 2018. Disponível em: https://www.cochranelibrary.com/cdsr/doi/10.1002/14651858.CD009044.pub2/pdf/CDSR/C D009044/CD009044_abstract.pdf?utm_source=chatgpt.com. Acesso em: 20 jun. 2025.
RIQUELME, I. et al. Dor anormal por pressão, sensibilidade ao toque, propriocepção e destreza manual em crianças com transtornos do espectro autista. Revista Brasileira de Neurologia, 2016. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26881091/. Acesso em: 05 abr. 2025.
ROSALES, M. et al. Systematic Review and Meta‑Analysis of the Effect of Motor Intervention on Cognition, Communication, and Social Interaction in Children with Autism Spectrum Disorder. Physical & Occupational Therapy in Pediatrics, 2025. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40320371/. Acesso em: 05 jun. 2025.
SCOTTISH INTERCOLLEGIATE GUIDELINES NETWORK (SIGN). Assessment, diagnosis and interventions for autism spectrum disorders: a national clinical guideline. Edinburgh: SIGN, 2016. Disponível em: https://collections.nlm.nih.gov/master/borndig/101714471/sign145.pdf . Acesso em: 28 abr. 2025.
STARMAC, C. et al. Reproducibility of an instrument for motor assessment of youth with autism. Fisioterapia em Movimento, 2024. Disponível em: https://www.scielo.br/j/fm/a/fcTCBb4G7bJh3qgYybRYbmb/?lang=en#. Acesso em: 10 jun. 2025.
SQUARE, N. et al. Assessment, diagnosis and interventions for autism spectrum disorders. A national clinical guideline, 2016. Disponível em: https://digirepo.nlm.nih.gov/master/borndig/101714471/sign145.pdf. Acesso em: 19 jun. 2025.
U.S. NATIONAL LIBRARY OF MEDICINE (MedlinePlus). Transtorno do espectro autista, 2023. Disponível em: https://medlineplus.gov/autismspectrumdisorder.html. Acesso em: 15 jun. 2025.
VELLADAH, S. et al. Avaliação de um módulo de treinamento de prática colaborativa interprofissional para o manejo de crianças com transtorno do espectro autista. U.S. NATIONAL LIBRARY OF MEDICINE, 2022. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39734895/. Acesso em: 01 jul. 2025.
WEITLAUF, A. et al. Relatório breve: DSM-5 “Níveis de suporte”: um comentário sobre conceituações discrepantes de gravidade no TEA. U.S. NATIONAL LIBRARY OF MEDICINE, 2024. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC3989992/. Acesso em: 02 jul. 2025.
WOOD, J. et al. Avaliação personalizada dos sintomas do autismo com a Youth Top Problems Scale: formatos observacionais e de relatórios dos pais para aplicações em ensaios clínicos. U.S. NATIONAL LIBRARY OF MEDICINE, 2022. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34460285/. Acesso em: 02 jul. 2025.
1Graduanda em Fisioterapia pelo Centro Universitário Descomplica mais União das Américas
E-mail: bia.bark11@hotmail.com
2Professora Orientadora, especialista em Terapia Intensiva, Mestre em DHT, docente do curso de fisioterapia da Descomplica mais Uniamérica: Fisioterapeuta, lara.moreira@descomplica.com.br
