REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ch10202510191141
Beatriz da Silva Macedo1
Maria Luísa Reis de Araújo2
Profª Ma. Maria do Carmo Lacerda Nascimento3
RESUMO
A poliomielite é uma doença viral em processo de erradicação. No Brasil, está eliminada desde 1990, e em 1994 o país recebeu a certificação de área livre do poliovírus selvagem (PVS) pela Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), juntamente com outros países das Américas. No entanto, a doença ainda preocupa em áreas com cobertura vacinal insuficiente. Este projeto teve como objetivo analisar a cobertura vacinal contra a poliomielite em crianças de 2 meses a 4 anos em Porto Velho, Rondônia, identificando possíveis lacunas e tendências. Também analisou-se o impacto da pandemia de COVID-19 sobre a adesão vacinal, comparando a cobertura local com os dados do município de Porto Velho, do Estado de Rondônia e da Região Norte. Trata-se de um estudo epidemiológico, descritivo e retrospectivo, com dados secundários coletados no período de 2018 a 2022, disponibilizados pelo TABNET/DATASUS. A coleta de dados foi realizada em 2 de setembro de 2025. Os resultados mostraram oscilações na cobertura vacinal ao longo dos anos, variando de 62,35% (2021) a 76,66%(2018). Observou-se queda acentuada em 2021, possivelmente relacionada aos impactos da pandemia, seguida de discreta recuperação em 2022 (69,69%). Ainda assim, nenhum dos anos atingiu a meta mínima de 95% de cobertura recomendada pelo Ministério da Saúde, evidenciando a necessidade de estratégias para melhorar a adesão vacinal. Este estudo é relevante para monitorar e aprimorar a cobertura vacinal contra a poliomielite em áreas vulneráveis, buscando ampliar o conhecimento sobre o impacto da pandemia e fornecer subsídios para o planejamento de políticas públicas de imunização que atendam melhor à realidade local e contribuam para a erradicação definitiva da poliomielite.
Palavras-chave: cobertura vacinal; paralisia infantil; poliomielite; vacinação pediátrica.
ABSTRACT
Polio is a viral disease in the process of being eradicated. In Brazil, it has been eliminated since 1990, and in 1994, the country received certification as a wild poliovirus-free area (WPV) from the Pan American Health Organization (PAHO), along with other countries in the Americas. However, the disease remains a concern in areas with insufficient vaccination coverage. This project aimed to analyze polio vaccination coverage among children aged 2 months to 4 years in Porto Velho, Rondônia, identifying potential gaps and trends. The impact of the COVID-19 pandemic on vaccination uptake was also analyzed, comparing local coverage with data from the municipality of Porto Velho, the state of Rondônia, and the Northern Region. This is an epidemiological, descriptive, and retrospective study, using secondary data collected from 2018 to 2022, made available by TABNET/DATA. Data collection was conducted on September 2, 2025. The results showed fluctuations in vaccination coverage over the years, ranging from 62.35% (2021) to 76.66% (2018). A sharp drop was observed in 2021, possibly related to the impacts of the pandemic, followed by a slight recovery in 2022 (69.69%). Nevertheless, neither year reached the minimum 95% coverage target recommended by the Ministry of Health, highlighting the need for strategies to improve vaccination uptake. This study is relevant for monitoring and improving polio vaccination coverage in vulnerable areas, seeking to expand knowledge about the impact of the pandemic and provide support for the planning of public immunization policies that better meet the local reality and contribute to the definitive eradication of polio.
Keyword: vaccination coverage; poliomyelitis; infantile paralysis; pediatric vaccination.
1 INTRODUÇÃO
A poliomielite é uma infecção viral, a qual possui três sorotipos conhecidos, transmitida por contato direto pessoa a pessoa, via fecal-oral (mais comum), objetos, alimentos e água contaminados com fezes de pacientes ou portadores, ou via oral-oral, por gotículas de secreções orofaríngeas (mais comum) quando falar, tossir ou espirrar). Ademais, a falta de saneamento, as más condições de moradia e a higiene errática são fatores que favorecem a propagação do poliovírus. Os sintomas comuns incluem febre, letargia, dor de cabeça, dor de garganta e dores no corpo, vômitos, diarreia, constipação, cólicas, rigidez no pescoço e inclusive meningite. Nos casos mais graves, ocorre fraqueza muscular, geralmente afetando uma das extremidades inferiores (BRASIL, 2021).
Apesar de ser evitável, uma vez adquirida pode levar à óbito ou morbidade significativa devido à progressão para paralisia infantil. Estratégias vacinais infanto-juvenis bem-sucedidas são comprovadamente muito eficazes na erradicação de doenças e na redução da mortalidade infantil. A poliomielite, doença prevenível com vacinação, está incluída no calendário nacional de vacinação devido ao seu potencial mortal e sua capacidade de causar sequelas irreparáveis. Atualmente, existem duas vacinas eficazes para a prevenção: vacina de poliovírus oral atenuado (VOP) e vacina inativada de poliovírus injetável (VIP). Inicialmente, assim como a grande maioria dos países, o Brasil escolheu o método VOP, tendo em vista seu baixo custo e sua facilidade de aplicação. Entretanto, mutações que ainda poderiam ocorrer no vírus mesmo atenuado induziram mudanças no plano vacinal do Brasil, que mudou sua estratégia para a VIP. O plano de vacinação contra a poliomielite consiste em 3 doses da vacina VIP injetável (2, 4 e 6 meses) e 2 reforços (gotas) da vacina oral bivalente VOP. Além disso, todas as crianças menores de 5 anos são incluídas nas campanhas nacionais anuais contra a poliomielite, realizadas como medida suplementar ao calendário de rotina (BRASIL, 2021).
A queda na cobertura vacinal mostra que o risco de reintrodução do vírus selvagem é iminente e os desafios precisam ser enfrentados com o fortalecimento do Sistema Único de Saúde. No período pandêmico, houve uma redução na cobertura vacinal em todas as regiões, sendo mais pronunciada nas regiões Norte e Nordeste. A busca pela erradicação da doença causada pelo poliovírus enfrenta diversos problemas tanto sociais como econômicos. Um dos principais motivos da baixa procura de vacinas é a complacência, ou seja, a falsa sensação de segurança para doenças que as pessoas nunca viram, não conhecem e acham que não precisam vacinar seus filhos. Além disso, destaca-se a dificuldade de pessoas de baixa renda e de populações rurais ao acesso da vacina, sendo esses os principais fatores de risco para a não-vacinação (DONALISIO et al., 2023)
No presente trabalho, buscou-se analisar os dados da cobertura vacinal da poliomielite no município de Porto Velho, além de verificar a cobertura vacinal nos anos pré-pandemia e durante a pandemia da COVID-19. Por fim, foi conduzida uma análise comparativa entre a cobertura vacinal da poliomielite no município de Porto Velho, Estado de Rondônia e Região Norte, visando compreender possíveis disparidades e identificar estratégias eficazes de vacinação.
Dessa forma, foram analisadas as informações a respeito da cobertura vacinal e da estratégia campanhista utilizada pelo município de Porto Velho, salientando a importância da estratégia de vacinação adotada pelo Programa Nacional de Imunizações (PNI) para a erradicação da poliomielite e os riscos de retrocesso dessa situação no âmbito municipal devido a fatores socioeconômicos evitáveis (BRASIL, 2021).
2 MATERIAL E MÉTODOS
2.1 TIPO DE PESQUISA
Trata-se de um estudo epidemiológico, observacional, descritivo e retrospectivo de abordagem quantitativa, por meio de uma pesquisa sobre a análise da cobertura vacinal da poliomielite no município de Porto Velho nos anos de 2018 a 2022.
2.2 LOCAL DA PESQUISA
A pesquisa para realização desse estudo foi realizada no município de Porto Velho-RO. Em 2022, a área do município era de 34.090,952 km², o que o coloca na posição 1 de 52 entre os municípios do estado e 26 de 5570 entre todos os municípios.
O município de Porto Velho possui uma população de 460.413 habitantes (IBGE, Censo de 2022), é o município mais populoso do estado de Rondônia, o quarto mais populoso da Região Norte, atrás de Manaus, Belém e Ananindeua, e o mais populoso município da Região fora do eixo Amazonas-Pará.
2.3 POPULAÇÃO E AMOSTRA
A análise foi feita a partir da população do Município de Porto Velho de crianças com idades entre 2 meses e 4 anos. A cobertura vacinal ideal era de, no mínimo, 95%, segundo a meta preconizada pelo Ministério da Saúde. A amostra foi composta por 32.424 crianças na faixa etária de 2 meses a 4 anos, residentes do município de Porto Velho (IBGE,2022).
2.4 CRITÉRIOS DE INCLUSÃO E EXCLUSÃO
2.4.1. Critério de inclusão
Para critérios de inclusão, foram utilizados dados coletados entre 2018 a 2022, informações referentes às crianças de 2 meses a 4 anos residentes no município de Porto Velho.
2.4.2 Critério de exclusão
Foram utilizados como critérios de exclusão dados anteriores ao ano de 2018, informações referentes às crianças acima de 4 anos ou menores de 2 meses de idades e moradores de outros municípios que não sejam Porto Velho. Esses critérios foram baseados nas recomendações do Ministério da Saúde, segundo a portaria nº 1602 de 17 de julho de 2006.
2.5 PROCEDIMENTOS E INSTRUMENTOS
A pesquisa utilizou dados secundários do Sistema de Informação do Programa Nacional de Imunização (SI-PNI), disponíveis no portal do Departamento de Informática do SUS (DATASUS). As informações sobre a população alvo foram obtidas pelo Sistema de Informação sobre Nascidos Vivos (SINASC), também no DATASUS, com acesso em 2 de setembro de 2025.
Os dados levantados incluíram a cobertura vacinal da poliomielite (VIP e VOP) nas doses e reforços indicados no primeiro ano de vida e nas faixas etárias subsequentes (15-18 meses e 4-6 anos), conforme as normas do Programa Nacional de Imunização (PNI). Não foram realizados cálculos, sendo utilizados os dados prontos sobre o número de doses aplicadas e a população-alvo, coletados em 2 de setembro de 2025.
Para análise comparativa, os dados foram agrupados conforme a área geográfica: Porto Velho, Estado de Rondônia e Região Norte.
2.6 ANÁLISE DOS DADOS
Foi realizada uma pesquisa quantitativa com base nos dados disponibilizados e estes foram tabulados, ou seja, as variáveis foram organizadas em tabelas e gráficos em análise descritiva utilizando o Microsoft Excel®.
2.7 PRINCÍPIOS ÉTICOS E LEGAIS
Os dados foram coletados após a aceitação e liberação das informações pelos responsáveis legais na direção da Secretaria Municipal de Saúde de Porto Velho (SEMUSA). Ademais, vale ressaltar que a coleta dos dados somente ocorreu após aprovação do Comitê de Ética e Pesquisa (CEP/FIMCA) a partir do instrumento relacionado à necessidade de aprovação de informações que envolvam seres humanos, de forma direta ou indireta, disposto e respeitado na resolução 466/12 do Conselho Nacional de Saúde.
Para utilização dessas informações neste estudo, foram ressaltados e respeitados ainda os princípios éticos e legais dos integrantes da pesquisa, os quais de acordo com o inciso III, alínea I, devem “ prever procedimentos que assegurem a confidencialidade e a privacidade, a proteção da imagem e a não estigmatização dos participantes da pesquisa, garantindo a não utilização das informações em prejuízo das pessoas e/ou das comunidades” bem como o respeito à dignidade humana, mantendo o sigilo das identidades dos cidadãos incluídos nos dados fornecidos pela instituição mencionada, utilizando as informações solicitadas apenas para fins científicos, os quais estavam contidos no Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) solicitado pelo CEP, como forma de priorizar sempre o bem-estar social como um todo e garantir a integridade dos dados, dos indivíduos e das instituições envolvidas neste estudo.
3 RESULTADOS E DISCUSSÃO
Figura 1 – Percentual da cobertura vacinal média da poliomielite em crianças de 2 meses a 4 anos, de acordo com o período da pré e durante a pandemia da COVID-19, município de Porto Velho, 2018 a 2022.

Fonte: Adaptado de DATASUS – Sistema de Informação do Programa Nacional de Imunizações (SI-PNI) 2025.
A cobertura vacinal da poliomielite em crianças de 2 meses a 4 anos no município de Porto Velho apresentou oscilações significativas entre os anos de 2018 e 2022. A Figura 1 apresenta os percentuais médios de cobertura vacinal da poliomielite, considerando a vacinação básica com VIP (Vacina Inativada Poliomielite) e os dois reforços recomendados para a faixa etária em questão.
No período pré-pandêmico (2018–2019), observa-se uma queda de 6,91 pontos percentuais na cobertura vacinal, indo de 76,66% em 2018 para 69,75% em 2019. Apesar de ainda apresentar valores relativamente elevados, os dados já demonstravam tendência de declínio, possivelmente relacionada à diminuição da adesão às campanhas vacinais, hesitação vacinal e fatores logísticos.
Durante o período pandêmico (2020 a 2022), identificou-se uma flutuação nos índices de cobertura. Em 2020, surpreendentemente, houve uma leve elevação na cobertura (76,04%), retomando os níveis de 2018. Tal elevação pode estar relacionada as campanhas de vacinações específicas ou priorização emergencial de algumas vacinas pelo sistema de saúde.
Contudo, o impacto mais significativo da pandemia foi observado em 2021, ano em que a cobertura vacinal média caiu para 62,35%, representando o menor valor do período analisado. Essa redução expressiva pode estar associada a um conjunto de fatores decorrentes do contexto pandêmico, como o redirecionamento de recursos humanos e logísticos para o enfrentamento da COVID-19, o que limitou a capacidade operacional das equipes de imunização; a interrupção temporária de serviços ambulatoriais e de vacinação de rotina, comprometendo a oferta contínua das doses; o medo da população em frequentar unidades de saúde, motivado pelo risco de exposição ao vírus; e as falhas na comunicação e mobilização social voltadas à importância da vacinação infantil, que contribuíram para reduzir a adesão às campanhas. Esses elementos, quando combinados, revelam como crises sanitárias de grande magnitude podem fragilizar programas de imunização consolidados, comprometendo metas de cobertura e ampliando o risco de reintrodução de doenças já controladas.
Em 2022, houve uma recuperação parcial, com a cobertura atingindo 69,69%, o que representa um aumento de 7,34 pontos percentuais em relação a 2021. Apesar disso, o índice ainda permanece abaixo do valor registrado em 2018 e da meta preconizada pelo Programa Nacional de Imunizações (PNI), que é de 95%.
Esses dados sugerem que a pandemia de COVID-19 intensificou um processo de queda vacinal que já vinha ocorrendo nos anos anteriores, ampliando de forma significativa a vulnerabilidade de crianças às doenças imunopreveníveis. A persistência de coberturas vacinais abaixo da meta estabelecida em todos os anos analisados evidencia a urgência de estratégias consistentes para a recuperação desses índices. Nesse sentido, é fundamental implementar ações como a busca ativa de não vacinados, garantindo que as equipes de saúde identifiquem e alcancem as crianças com esquemas vacinais incompletos; a realização de campanhas direcionadas e presenciais em creches e escolas, aproximando a vacinação do ambiente cotidiano das famílias; a capacitação contínua dos profissionais da atenção primária, de modo a otimizar o manejo logístico e a abordagem educativa sobre a importância da imunização; e o fortalecimento da confiança da população no Sistema Único de Saúde e nas vacinas, por meio de comunicação clara, acessível e baseada em evidências. Essas medidas, articuladas e sustentadas ao longo do tempo, podem contribuir para reverter o cenário atual e restabelecer a imunidade coletiva necessária à prevenção da poliomielite e de outras doenças preveníveis.
Tais medidas são essenciais para evitar a reintrodução de doenças já eliminadas no país, como a poliomielite, que permanece como ameaça real em contextos de baixa cobertura vacinal.
Figura 2 – Cobertura vacinal da poliomielite (em crianças de 2 meses a 4 anos, no município de Porto Velho, Estado de Rondônia e Região Norte, 2018 a 2022.

Fonte: Adaptado de DATASUS – Sistema de Informação do Programa Nacional de Imunizações (SI-PNI) 2025.
A análise da cobertura vacinal da poliomielite em crianças de 2 meses a 4 anos evidenciou variações importantes entre Porto Velho, Rondônia e a Região Norte, revelando tanto avanços pontuais quanto quedas preocupantes. Conforme demonstrado na Figura 2, o município de Porto Velho apresentou oscilações significativas, partindo de 76,66% em 2018, alcançando redução em 2019 (69,75%), recuperando-se em 2020 (76,04%), mas registrando a pior média em 2021 (62,35%). Em 2022, houve discreta melhora (69,69%), ainda aquém do valor inicial.
Em comparação, Rondônia apresentou desempenho mais consistente, mantendo médias próximas ou acima de 78% entre 2018 e 2020 (78,53%; 79,08% e 78,92%, respectivamente). Entretanto, também sofreu queda em 2021 (66,91%), seguida de recuperação em 2022 (76,32%). Já a Região Norte apresentou os menores índices durante todo o período analisado, iniciando em 57,97% em 2018, com discreto crescimento em 2019 (66,12%), mas queda acentuada em 2020 (57,9%) e 2021 (53,61%), alcançando recuperação parcial apenas em 2022 (63,56%).
Os dados evidenciam que, apesar das flutuações, Rondônia manteve médias superiores às de Porto Velho e da Região Norte na maior parte da série histórica, refletindo melhor organização ou cobertura das ações de imunização em nível estadual. Em contrapartida, a Região Norte manteve índices persistentemente inferiores, o que reforça desigualdades regionais já descritas em literatura sobre imunização no Brasil, relacionadas a fatores como acesso geográfico, logística de distribuição e cobertura da Atenção Primária.
A queda observada em 2021 em todas as instâncias (Porto Velho, Rondônia e Região Norte) coincide com os impactos da pandemia de COVID-19, que afetou diretamente a procura e a oferta de serviços de vacinação. Esse cenário é consistente com estudos nacionais que apontaram redução generalizada das coberturas vacinais no mesmo período.
Apesar da recuperação parcial em 2022, nenhum dos locais atingiu a meta preconizada pelo Programa Nacional de Imunizações (PNI), de 95% de cobertura vacinal para poliomielite. Esse dado reforça a necessidade de estratégias efetivas de busca ativa, fortalecimento da comunicação em saúde e enfrentamento da hesitação vacinal, sobretudo em áreas de maior vulnerabilidade socioeconômica.
Assim, a análise comparativa demonstra não apenas oscilações pontuais nos índices, mas também uma tendência preocupante de sub cobertura vacinal, que coloca em risco o controle da poliomielite no Brasil, principalmente em regiões historicamente mais frágeis em termos de acesso e adesão à imunização, como a Região Norte.
A análise integrada dos dados apresentados nos tópicos anteriores evidencia que, embora a cobertura vacinal contra a poliomielite em Porto Velho, no estado de Rondônia e na Região Norte tenha sofrido oscilações ao longo de 2018 a 2022, a meta de 95% preconizada pelo Programa Nacional de Imunizações (PNI) não foi atingida em nenhum dos recortes geográficos analisados (ARROYO et al., 2020; KERR, 2023). Em Porto Velho, verificou-se que a tendência de queda já era perceptível antes da pandemia, mas foi agravada pelo contexto da COVID-19, especialmente em 2021, quando o município registrou o menor índice do período (62,35%). Esse mesmo padrão de queda acentuada foi observado em Rondônia e na Região Norte, embora com diferenças nos percentuais e na capacidade de recuperação nos anos subsequentes (LIMA; ROMERO; GRANATO, 2021).
A comparação entre as três escalas geográficas reforça que, apesar de Porto Velho ter apresentado desempenho melhor que a média da Região Norte em quase todos os anos, ainda ficou aquém dos índices de Rondônia, que obteve percentuais mais próximos da meta, sobretudo na recuperação em 2022 (76,32%). Esse desempenho diferenciado pode estar relacionado à implementação de estratégias estaduais mais eficazes, como maior mobilização de equipes volantes, ampliação de pontos de vacinação e intensificação das campanhas em áreas de difícil acesso, ainda que essas ações não tenham sido suficientes para atingir a cobertura ideal (ARROYO et al., 2020; LIMA; ROMERO; GRANATO, 2021).
Os achados corroboram a preocupação já destacada pela Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) e pelo Ministério da Saúde de que coberturas vacinais inconsistentes, especialmente em regiões com histórico de desafios logísticos e socioeconômicos, ampliam o risco de reintrodução do poliovírus no país (KERR, 2023; “Baixa vacinação contra pólio no Brasil…”, [s.d.]). A persistência de desigualdades no acesso e na adesão à vacinação, mais acentuada em áreas rurais e periferias urbanas, demanda estratégias adaptadas às realidades locais, incluindo busca ativa de não vacinados, integração da vacinação com outras ações de atenção primária, utilização de agentes comunitários para mobilização e comunicação, além do fortalecimento da confiança da população no sistema de saúde (ARROYO et al., 2020; LIMA; ROMERO; GRANATO, 2021).
Além do risco epidemiológico, a poliomielite carrega impactos físicos e psicossociais significativos, com potencial de causar sequelas motoras permanentes, limitações funcionais e comprometimento da qualidade de vida dos afetados (CARVALHO; MIRANDA FILHO; NEVES, 2021). Estima-se que cerca de 70% das infecções por poliovírus permanecem assintomáticas, enquanto aproximadamente 25% apresentam sintomas inespecíficos como febre, dor de cabeça e mal-estar. Em casos mais graves, entre 1 e 5% dos infectados desenvolvem meningite, e cerca de 1 em cada 200 indivíduos pode apresentar paralisia flácida, com comprometimento de movimentos essenciais como respiração, fala e deglutição (WALTER, 2022). Diante disso, manter coberturas adequadas é não apenas uma meta sanitária, mas uma medida essencial de proteção coletiva e individual.
Os resultados discutidos indicam que, para alcançar a meta de 95%, é necessário ir além de campanhas pontuais, investindo em estratégias contínuas e sustentáveis, que contemplem: (i) vigilância epidemiológica fortalecida para identificação rápida de bolsões de baixa cobertura; (ii) adequação logística para regiões de difícil acesso; (iii) comunicação clara, baseada em evidências e culturalmente adaptada; e (iv) integração entre municípios, estado e União para uniformizar esforços (ARROYO et al., 2020; LIMA; ROMERO; GRANATO, 2021). Essas ações são fundamentais para que a vacinação contra a poliomielite recupere o patamar seguro de imunidade coletiva e evite que o país volte a enfrentar casos de uma doença já erradicada no território nacional (KERR, 2023; “Baixa vacinação contra pólio no Brasil…”, [s.d.]). Portanto, os achados reforçam a necessidade de ações coordenadas que considerem tanto o cenário local quanto as desigualdades regionais, a fim de assegurar a manutenção da erradicação da poliomielite no Brasil.
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
A análise da cobertura vacinal contra a poliomielite em crianças de 2 meses a 4 anos, no período de 2018 a 2022, revelou oscilações preocupantes tanto no município de Porto Velho quanto no estado de Rondônia e na Região Norte. Em nenhum dos recortes geográficos avaliados a meta de 95% estabelecida pelo Programa Nacional de Imunizações (PNI) foi atingida, o que reforça a vulnerabilidade coletiva diante da possível reintrodução do poliovírus no Brasil.
Os resultados evidenciam que a pandemia de COVID-19 agravou um processo de queda vacinal que já se esboçava antes de 2020, com impacto mais acentuado no ano de 2021, quando foram observadas as menores coberturas. Esse cenário foi influenciado por múltiplos fatores, incluindo redirecionamento de recursos para o enfrentamento da pandemia, interrupção de serviços ambulatoriais, medo da população em buscar atendimento presencial e falhas de comunicação sobre a importância da vacinação infantil.
Apesar da recuperação parcial observada em 2022, os índices permanecem aquém do ideal, sobretudo na Região Norte, que apresentou consistentemente as menores médias, reforçando desigualdades estruturais de acesso e adesão à imunização. Rondônia, embora tenha demonstrado maior estabilidade e percentuais superiores aos de Porto Velho e da Região Norte, também não alcançou a meta preconizada, revelando que o desafio é comum a diferentes níveis de gestão.
Os achados deste estudo ressaltam a necessidade de estratégias mais efetivas e sustentáveis para ampliar a cobertura vacinal, incluindo busca ativa de não vacinados, fortalecimento das equipes de atenção primária, campanhas educativas contínuas e adaptadas às realidades locais, além da integração entre esferas municipal, estadual e federal na condução das políticas de imunização.
Garantir altos índices de cobertura vacinal não é apenas uma meta técnica do sistema de saúde, mas um compromisso social para manter o país livre de uma doença que, embora erradicada no território nacional, permanece como ameaça em nível global. Assim, este trabalho reforça que a manutenção da imunidade coletiva contra a poliomielite exige vigilância permanente, investimentos constantes em comunicação em saúde e o engajamento da sociedade civil, de modo a assegurar a proteção integral da população infantil.
REFERÊNCIAS
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ARROYO, L. H. et al. Áreas com queda da cobertura vacinal para BCG, poliomielite e tríplice viral no Brasil (2006-2016): mapas da heterogeneidade regional. Cadernos de Saúde Pública, v. 36, n. 4, 2020.
Baixa vacinação contra pólio no Brasil e novos casos no mundo acendem alerta para risco de volta da doença já erradicada no país. Disponível em: <https://g1.globo.com/saude/noticia/2022/03/09/cobertura-vacinal-da-polio-despenca-em-5-anos-no-brasil-e-novos-casos-em-israel-e-malawi-acendem-alerta.ghtml>.
BRASIL. Ministério da Saúde. DATASUS – Sistema de Informação do Programa Nacional de Imunizações (SI-PNI). Disponível em: https://datasus.saude.gov.br/. Acesso em: 2 set. 2025.
CARVALHO, C. C. F.; MIRANDA FILHO, F. DE; NEVES, R. A. Causas da queda progressiva das taxas de vacinação para poliomielite no Brasil, no ano de 2018. REVISTA BRASILEIRA MILITAR DE CIÊNCIAS, v. 7, n. 18, 22 jul. 2021.
DONALISIO, M. R. et al. Vacinação contra poliomielite no Brasil de 2011 a 2021: sucessos, reveses e desafios futuros. Ciência & Saúde Coletiva, v. 28, p. 337–337, 16 jan. 2023.
Estudo revela crescimento na cobertura vacinal. Disponível em: <https://portal.fiocruz.br/noticia/estudo-revela-crescimento-na-cobertura-vacinal>.
KERR, L. From eradication to the risk of reintroduction of poliomyelitis in Brazil. Ciencia & Saude Coletiva, v. 28, n. 2, p. 328, 1 fev. 2023.
LIMA, E. S.; ROMERO, E. C.; GRANATO, C. F. H. Current polio status in the world. Jornal Brasileiro de Patologia e Medicina Laboratorial, v. 57, 2021.
WALTER, K.; MALANI, P. N. What Is Polio? JAMA, 16 set. 2022.
1Acadêmico de Medicina. E-mail: beatrizsmed27@gmail.com. Artigo apresentado à FIMCA, como requisito para obtenção do título de Bacharel em Medicina, Porto Velho/RO, 2025.
2Acadêmico de Medicina. E-mail: malureis23@gmail.com. Artigo apresentado à FIMCA, como requisito para obtenção do título de Bacharel em Medicina, Porto Velho/RO, 2025.
3Professor Orientador. Professor do curso de Medicina. E-mail: carminhalacerda@hotmail.com
