IMPACTO DA MANUTENÇÃO PREVENTIVA E PREDITIVA NO GERENCIAMENTO DA MANUTENÇÃO INDUSTRIAL E AUTOMOTIVA

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ni10202510191150


Jouberth Cesar da Silva1


RESUMO – Este estudo tem como foco principal investigar de forma detalhada o impacto da manutenção preventiva e preditiva no gerenciamento da manutenção industrial e automotiva. A meta central da pesquisa consistiu em examinar em que medida contribui para aumentar a disponibilidade e reduzir os custos operacionais em plantas industriais e frotas pesadas nos contextos do Brasil, Angola e Estados Unidos (Califórnia). Para alcançar esse propósito, foram definidos os seguintes objetivos: identificar a importância da manutenção preditiva em plantas de concreto, calcário e processamento de açúcar e etanol; avaliar os impactos em frotas pesadas e máquinas agrícolas; comparar práticas de manutenção entre o setor sucroalcooleiro brasileiro, a Biocom em Angola e a indústria cimenteira da Califórnia; quantificar ganhos de disponibilidade e confiabilidade decorrentes da adoção de rotinas preventivas e preditivas. O método utilizado envolveu a consulta a literatura especializada e a avaliação de materiais previamente publicados. Os resultados indicaram que a aplicação sistemática de planos preventivos e preditivos eleva a confiabilidade e a eficiência produtiva, permitindo inferir que constitui base para a competitividade e a sustentabilidade industrial. As considerações finais ressaltam a importância de prosseguir com estudos nesse campo, a fim de ampliar o conhecimento acumulado e incentivar novas produções acadêmicas.

Palavras-chave: Manutenção preventiva. Manutenção preditiva. Confiabilidade. Disponibilidade.

1. INTRODUÇÃO

A manutenção preventiva consolidou-se como um dos alicerces do gerenciamento de ativos industriais e automotivos por reduzir a variabilidade operacional, aumentar a disponibilidade dos equipamentos e mitigar riscos de falhas que comprometem segurança, prazos e custos. Em ambientes fabris com alta intensidade de capital, a confiabilidade dos sistemas é elemento estruturante da competitividade, pois a interrupção não planejada de uma linha ou de uma frota implica perdas de produtividade, retrabalho, desperdício de insumos e impactos reputacionais.

Em contextos de elevada exigência energética, como o setor cimenteiro, a estabilidade operacional orientada por rotinas preventivas conecta-se também a metas de eficiência e de descarbonização ao sustentar regimes de operação estáveis e reduzir ciclos de partida e parada que elevam consumo específico e emissões (Hatfield, 2025; Lopez, 2022). Nesse cenário, é compreendida como calendário de inspeções, trocas e como sistema de gestão que integra planejamento e controle, engenharia de confiabilidade, logística de sobressalentes, padronização técnica e retroalimentação analítica de dados de campo.

Do ponto de vista conceitual, a literatura clássica a posiciona ao lado de abordagens como manutenção corretiva planejada, manutenção preditiva e manutenção centrada em confiabilidade, compondo um portfólio estratégico que deve ser balanceado conforme criticidade, modo de falha e perfil de uso dos equipamentos. Em linhas gerais, a prevenção atua por idade ou por tempo de operação para interromper ou retardar a evolução dos mecanismos de degradação antes que se convertam em falha funcional, o que reduz a necessidade de intervenções emergenciais com maior tempo de reparo e custo associado. A obra de referência de Mobley sistematiza os benefícios da integração entre rotinas preventivas e práticas preditivas, demonstrando que a prevenção bem estruturada cria as condições para o monitoramento eficaz e para a redução do tempo médio para reparo por meio de planos de serviço padronizados, ferramentas adequadas e capacitação técnica (Mobley, 2002). A abordagem RCM, por sua vez, oferece o arcabouço lógico para decidir quando aplicar tarefas preventivas de restauração, inspeção por condição ou redesign, de modo a preservar a função do ativo com o menor risco e custo totais ao longo do ciclo de vida (Moubray, 1997).

Na prática industrial, a eficácia repercute diretamente em indicadores como disponibilidade física, OEE, MTBF e MTTR, além de influenciar o desempenho do planejamento e controle da manutenção, o nível de backlog técnico e a gestão de estoques de sobressalentes. Em unidades de processamento contínuo, como usinas de açúcar e etanol, a aplicação disciplinada de engenharia de confiabilidade em linhas redundantes de moagem evidencia que a prevenção, combinada à análise de modos e efeitos de falha e ao histórico de intervenções, sustenta janelas de parada mais curtas e previsíveis, favorecendo a produtividade no pico de safra e a integridade dos ativos rotativos e estáticos (Ferreira, 2024).

Em operações de colheita mecanizada e frotas pesadas, estudos de campo indicam que políticas de manutenção que respeitam condições reais de operação, acopladas à análise de lubrificantes e ao controle de contaminação, prolongam intervalos de serviço sem elevar risco e, por consequência, melhoram a disponibilidade operacional e a confiabilidade do trem de força e dos sistemas hidráulicos (Santos; Fernandes; Sachetto, 2023; Villafanha; Tiago; Damy- Benedetti, 2025). Esses resultados reforçam o papel da prevenção como base de um ciclo de melhoria contínua que transforma dados de falha, inspeção e consumo de materiais em decisões de manutenção mais assertivas.

No segmento automotivo e de transporte de cargas perigosas, o impacto gerencial manifesta-se na redução de indisponibilidades em campo, na maior previsibilidade de atendimento a rotas e janelas de entrega e no incremento de segurança operacional. Programas de prevenção que incluem checklists sistemáticos, calibração de sistemas críticos, controle de torque, inspeções de freios e suspensões e renovação programada de componentes sujeitos a fadiga contribuem para reduzir eventos de falha em serviço e custos indiretos associados a atendimento remoto, perdas de carga e multas regulatórias.

Além do efeito direto em disponibilidade, a prevenção adequada serve de alicerce para estratégias de remanufatura e de manutenção sustentável em frotas, com impactos financeiros observáveis por meio da extensão de vida útil, redução do consumo de peças novas e melhor aproveitamento de janelas de parada, desde que as rotinas sejam metrificadas e auditáveis (Cattuzzi et al., 2024). Em termos macroeconômicos e setoriais, a maturidade da manutenção mostra-se particularmente relevante em indústrias expostas a volatilidade de demanda e a pressões de custo, nas quais fragilidades de gestão de ativos podem ampliar vulnerabilidades financeiras e operacionais, como ilustram cenários de estresse em cadeias agroindustriais (Bapolo, 2023).

Sensoriamento, conectividade e analítica avançada aumentam a capacidade de previsão e a sensibilidade à degradação, ao mesmo tempo em que exigem bases preventivas robustas para que dados de condição sejam confiáveis e comparáveis entre ciclos e ativos. Experiências recentes mostram que a rota para preditivo 4.0 é mais efetiva quando sustentada por cadências preventivas bem definidas, listas-mestras de equipamentos, cadastro técnico íntegro e disciplina de execução, de modo que a organização colha ganhos de disponibilidade sem incorrer em falsas alarmes ou sobrecarga de intervenções (Hernández-Montero; Anías Calderón; Ruiz Barrios, 2023).

Em setores intensivos em energia e materiais, como cimento, a sinergia entre prevenção, controle de processo e metas ambientais evidencia oportunidades de redução de paradas e de estabilização de fornos e moinhos, com repercussões diretas em performance térmica e elétrica, custos e pegada de carbono, o que reforça a relevância sistêmica da manutenção na agenda de competitividade e sustentabilidade industrial contemporânea (Hatfield, 2025; Lopez, 2022).

Analisar o impacto da manutenção preventiva e preditiva no gerenciamento da manutenção industrial e automotiva nos mercados brasileiro, angolano e norte-americano (Califórnia) constitui o elemento central desta investigação. Este estudo tem por finalidade explorar a temática proposta, buscando promover o avanço teórico e estabelecer fundamentos consistentes para pesquisas futuras. Para atingir essa meta e demonstrar domínio no assunto abordado, foram definidos os seguintes objetivos:

1. Identificar a importância da manutenção preditiva em plantas de concreto, calcário e processamento de açúcar e etanol.

2. Avaliar os impactos em frotas pesadas e máquinas agrícolas no Brasil e em Angola.

3. Comparar práticas de manutenção entre o setor sucroalcooleiro brasileiro, a Biocom em Angola e a indústria cimenteira da Califórnia.

4. Quantificar ganhos de disponibilidade e confiabilidade decorrentes da adoção de rotinas preventivas e preditivas.

    Com o intuito de atender a tais metas e abranger os aspectos essenciais da questão em análise, a pesquisa orienta-se pela seguinte indagação principal: Em que medida a manutenção preventiva e preditiva contribui para aumentar a disponibilidade e reduzir os custos operacionais em plantas industriais e frotas pesadas nos contextos do Brasil, Angola e Estados Unidos (Califórnia)?

    A relevância deste trabalho apoia-se na constatação de que a confiabilidade de ativos industriais e automotivos é fator determinante para a competitividade, a sustentabilidade produtiva e a segurança operacional em setores intensivos em capital. Além disso, observa-se que ainda existem lacunas bibliográficas em estudos comparativos que integrem dados do mercado brasileiro, do contexto angolano e da indústria americana, especialmente quanto à aplicação simultânea de práticas preventivas e preditivas em diferentes setores. Também, esta investigação pode gerar repercussões práticas ao fornecer subsídios para políticas de manutenção, otimização de processos produtivos e avanços em sustentabilidade operacional, oferecendo referência para novos estudos acadêmicos e técnicos.

    O percurso metodológico adotado baseou-se em uma revisão narrativa da literatura, com abordagem qualitativa, voltada à análise criteriosa de produções científicas relacionadas ao objeto de estudo. A coleta de dados bibliográficos ocorreu em bases como Scielo, Capes e Google Scholar, complementada por livros especializados e periódicos acadêmicos de reconhecida credibilidade. Foram selecionados textos disponíveis em português, inglês e espanhol.

    Para garantir a pertinência e a atualidade do material examinado, os critérios de inclusão consideraram publicações lançadas nos últimos cinco anos, bem como obras clássicas ou essenciais para a compreensão do tema, mesmo que anteriores a esse período. Foram aceitos estudos com metodologias qualitativas, quantitativas ou mistas, desde que provenientes de fontes confiáveis e revisados por pares.

    Por sua vez, foram excluídos trabalhos não redigidos nos idiomas estabelecidos, publicações com mais de cinco anos sem relevância histórica ou teórica, materiais de acesso restrito na íntegra ou com limitações metodológicas evidentes. Conforme afirmam Dourado e Ribeiro (2023), a revisão narrativa viabiliza a organização dos achados da literatura, contribuindo para a identificação de lacunas e para a integração de diferentes perspectivas. O processo de seleção e análise contemplou a leitura dos resumos e a apreciação integral do conteúdo, o que assegurou um exame amplo e atualizado da temática.

    Com base nos objetivos traçados, a estrutura do estudo foi organizada a partir dos seguintes tópicos: Panorama dos mercados brasileiro, angolano e norte-americano (Califórnia) e suas demandas de manutenção industrial e automotiva; Manutenção preventiva e preditiva em plantas industriais de concreto, calcário e processamento de açúcar e etanol; Aplicações da manutenção preventiva e preditiva em frotas pesadas e máquinas agrícolas; Comparação de práticas, resultados e desafios nos contextos do Brasil, Angola (Biocom) e Califórnia. A realização integral da pesquisa e a adequada resposta à pergunta norteadora permitiram alcançar uma conclusão embasada, sustentada por um conjunto robusto e criteriosamente escolhido de referências bibliográficas.

    2 PANORAMA DOS MERCADOS BRASILEIRO, ANGOLANO E NORTE- AMERICANO (CALIFÓRNIA) E SUAS DEMANDAS DE MANUTENÇÃO INDUSTRIAL E AUTOMOTIVA

    O panorama dos três contextos revela estruturas produtivas intensivas em ativos físicos, o que impõe elevada exigência sobre políticas de manutenção preventiva e preditiva para sustentar disponibilidade, confiabilidade e segurança operacional. No Brasil, a dinâmica do complexo sucroenergético demanda coordenação fina entre processos contínuos de moagem e janelas de parada, uma vez que interrupções não planejadas afetam produtividade e integridade de equipamentos críticos.

    A literatura técnico-acadêmica demonstra que estratégias baseadas em engenharia de confiabilidade, com definição de criticidade, análise de modos de falha e padronização de rotinas, são determinantes para estabilizar o desempenho em usinas com múltiplas linhas, condicionando ganhos de disponibilidade e planejamento de manutenção com menor variabilidade operacional. Essa configuração industrial também tensiona cadeias automotivas associadas ao setor, nas quais frotas de máquinas agrícolas e veículos de apoio dependem de rotinas preventivas e monitoramento por condição para preservar a continuidade do abastecimento de matéria-prima e insumos ao longo da safra e da entressafra, aspecto coerente com a lógica de confiabilidade discutida no estudo de referência (Ferreira, 2024).

    O caso da Biocom, com evidências de fragilidade econômico-financeira e referência a situação de luta para evitar a falência técnica, exemplifica como constrangimentos de capital, governança e gestão de ativos podem repercutir sobre a confiabilidade de plantas e a qualidade da prestação de serviços industriais e automotivos. O registro público de dificuldades e a busca por apoio junto a produtores de cana indicam contexto em que a adoção disciplinada de práticas preventivas e de processos robustos de PCM torna-se ainda mais crítica para mitigar paralisações e preservar a continuidade operacional das unidades produtivas e de suas cadeias logísticas associadas (Bapolo, 2023). Nesse cenário, políticas de manutenção que organizem cadastros técnicos, estoques de sobressalentes e planos de inspeção por condição tendem a reduzir a exposição a falhas de alto impacto e a melhorar a previsibilidade de produção e transporte, componente sensível em mercados com restrições de financiamento e suprimentos.

    No mercado norte-americano, com ênfase na Califórnia, as demandas de manutenção são inseparáveis da pressão regulatória e climática sobre setores intensivos em energia e emissões, notadamente o cimento. Os sumários minerais oficiais caracterizam o cimento como insumo essencial para infraestrutura e construção, descrevendo a distribuição produtiva nacional e listando a Califórnia entre os principais polos, o que implica plantas de grande porte sujeitas a ciclos térmicos severos e requisitos de confiabilidade de fornos e moinhos. Esse enquadramento reforça a centralidade de programas preventivos bem estruturados e da integração com práticas preditivas para reduzir partidas e paradas, estabilizar o processo e otimizar consumos específicos, alinhando desempenho operacional a metas econômicas e ambientais (Hatfield, 2025).

    Em paralelo, a cobertura jornalística especializada na Califórnia ressalta a necessidade de modernização tecnológica e de trajetórias de descarbonização, contexto em que a manutenção assume papel estratégico ao sustentar condições estáveis de operação que viabilizam ajustes de processo, introdução de combustíveis alternativos e adoção de inovações de menor carbono sem penalizar disponibilidade e qualidade do produto (Lopez, 2022).

    A comparação entre os três ambientes sugere que a manutenção industrial e automotiva enfrenta desafios comuns, embora modulados por realidades distintas de capital, regulação e maturidade organizacional. No Brasil, a escala e a sazonalidade do setor sucroenergético tornam imprescindível a articulação entre prevenção e predição dentro de um arcabouço de confiabilidade, favorecendo o uso de métricas e históricos para decisões de parada e de reposição de componentes críticos, conforme evidenciado em estudos de usinas com múltiplas linhas de moagem e práticas formais de análise de falhas (Ferreira, 2024).

    Em Angola, a vulnerabilidade financeira e a necessidade de apoio externo evidenciam a urgência de consolidar fundamentos de manutenção que reduzam a variabilidade e ancorem a recuperação operacional, incluindo governança de estoques, capacitação técnica e padronização de procedimentos de inspeção e de intervenção (Bapolo, 2023). Na Califórnia, a pressão por redução de emissões no cimento eleva o patamar de exigência sobre a estabilidade de ativos e o controle de processo, o que reforça a priorização de rotinas preventivas integradas a monitoramento de condição para conciliar desempenho, conformidade ambiental e competitividade setorial (Hatfield, 2025; Lopez, 2022).

    3 MANUTENÇÃO PREVENTIVA E PREDITIVA EM PLANTAS INDUSTRIAIS DE CONCRETO, CALCÁRIO E PROCESSAMENTO DE AÇÚCAR E ETANOL

    A manutenção preventiva e a manutenção preditiva compõem um arranjo técnico- gerencial complementar voltado a preservar funções de ativos, reduzir a variabilidade operacional e sustentar níveis elevados de disponibilidade em processos industriais contínuos e semicontínuos. Em termos conceituais, a literatura de manutenção apresenta a prevenção como conjunto sistemático de tarefas programadas por tempo ou por uso que atuam antes da falha funcional, enquanto a predição utiliza monitoramento de condição e análise de tendência para identificar a degradação em estágios iniciais e intervir no ponto ótimo, evitando paradas emergenciais e perdas de qualidade. A integração entre essas abordagens, quando estruturada em rotinas padronizadas, listas-mestras de equipamentos, planos de serviço e indicadores de desempenho, oferece base prática para reduzir tempos médios de reparo, elevar confiabilidade e apoiar decisões de planejamento e controle da manutenção em plantas de concreto, calcário e processamento de açúcar e etanol (Mobley, 2002).

    O arcabouço de manutenção centrada em confiabilidade fornece a lógica para selecionar o tipo de tarefa mais adequado a cada modo de falha, considerando criticidade, consequências e contexto operacional. A partir da definição das funções do ativo, das falhas funcionais e dos modos de falha, priorizam-se intervenções de restauração, inspeção por condição ou redesign com foco na preservação das funções e na minimização do risco total. Em instalações de concreto e de calcário, nas quais convivem equipamentos rotativos de grande porte e sistemas térmicos e mecânicos sujeitos a ambientes abrasivos e a cargas variáveis, a aplicação disciplinada desse raciocínio permite evitar tanto a submanutenção quanto o excesso de intervenções, ao mesmo tempo em que organiza planos que contemplam inspeções periódicas, ajustes, calibração e verificações dimensionadas ao perfil de uso e à severidade do processo (Moubray, 1997).

    A literatura recente sobre a trajetória de implementação do preditivo em ambientes industriais destaca que a rota 4.0 não substitui fundamentos, mas os exige de forma mais rigorosa. Sensoriamento, conectividade e analítica elevam a sensibilidade à degradação, mas dependem de tarefas preventivas bem estabelecidas para assegurar qualidade metrológica, repetibilidade das inspeções e confiabilidade dos sinais coletados. No setor de processamento de açúcar e etanol, estudos de engenharia de confiabilidade evidenciam que a coexistência de linhas de moagem e a necessidade de sincronismo entre operações de preparo, extração e processos subsequentes requerem planejamento de manutenção que combine prevenção e predição com leitura cuidadosa do histórico de falhas e da criticidade dos ativos.

    A análise estruturada dos modos de falha, o emprego de métricas como disponibilidade física, tempo médio para reparo e desempenho global de equipamentos, bem como o uso de registros de intervenção para ajuste de periodicidades, constituem práticas que permitem encurtar janelas de parada, reduzir variabilidade e sustentar a continuidade operacional ao longo de ciclos de maior demanda. Em ambientes desse tipo, a padronização de procedimentos, o balanceamento de estoques de sobressalentes e a integração entre operação, manutenção e suprimentos são apontados como elementos que amplificam os benefícios da manutenção preventiva e potencializam a efetividade das rotinas preditivas (Ferreira, 2024).

    4 APLICAÇÕES DA MANUTENÇÃO PREVENTIVA E PREDITIVA EM FROTAS PESADAS E MÁQUINAS AGRÍCOLAS

    Conceitualmente, a prevenção organiza tarefas programadas por tempo ou por uso, enquanto a predição emprega monitoramento de condição para identificar a degradação em estágios iniciais e intervir no momento mais oportuno. A literatura técnica aponta que a integração dessas abordagens, sustentada por planos padronizados, listas-mestras de equipamentos, procedimentos de inspeção e indicadores de desempenho, constitui base para a melhoria contínua, encurtando tempos de reparo e prevenindo falhas de alto impacto em ativos móveis e estacionários associados às frotas e às operações agrícolas (Mobley, 2002).

    Em frotas pesadas dedicadas ao transporte de combustíveis, a aderência a procedimentos preventivos sistemáticos está diretamente associada a ganhos de disponibilidade e confiabilidade. A padronização de checklists, a calibração periódica de sistemas críticos, o controle de torque de fixações, as inspeções programadas de freios e suspensões e a gestão de sobressalentes formam um conjunto de práticas que reduz paradas não planejadas e aumenta a previsibilidade operacional. Evidências de estudo de caso mostram que a formalização do procedimento preventivo, associada a planejamento e controle disciplinados, repercute positivamente na disponibilidade operacional e no atendimento a compromissos de transporte, além de contribuir para a mitigação de riscos de segurança inerentes ao segmento (Villafanha; Tiago; Damy-Benedetti, 2025).

    Nas máquinas agrícolas, a preditiva baseada em análise de lubrificantes, controle de contaminação e monitoramento de condições de operação demonstra potencial para estender intervalos de serviço sem elevação de risco. A sistemática laboratorial para avaliação de propriedades do óleo e de partículas de desgaste, quando combinada a leituras de campo e histórico de falhas, permite ajustar periodicidades de troca e orientar intervenções direcionadas nos conjuntos mais suscetíveis, como sistemas hidráulicos, transmissões e motores de colhedoras. Resultados reportados indicam que tal abordagem viabiliza extensão criteriosa de intervalos de troca, preservando confiabilidade e reduzindo custos diretos de manutenção e perdas associadas a indisponibilidades (Santos; Fernandes; Sachetto, 2023).

    Estratégias sustentáveis de manutenção e remanufatura complementam o arranjo técnico ao promover reaproveitamento de componentes, redução de resíduos e otimização de custos ao longo do ciclo de vida. Em frotas de veículos, a literatura aponta que políticas de remanufatura, combinadas a programas preventivos bem estruturados, oferecem benefícios financeiros e operacionais mensuráveis, desde que acompanhadas por critérios técnicos claros de elegibilidade, rastreabilidade de componentes e métricas de desempenho. Essa integração reduz a necessidade de peças novas, melhora o aproveitamento de janelas de parada e contribui para metas de sustentabilidade corporativa, sem comprometer a confiabilidade quando submetida a controles de qualidade e validação pós-remanufatura (Cattuzzi et al., 2024).

    Do ponto de vista da governança da manutenção, a adoção efetiva de práticas preventivas e preditivas em frotas e máquinas agrícolas requer definição de criticidade, padronização de procedimentos, qualificação de equipes, gestão de estoques orientada por dados e fechamento de ciclo por meio de análise de causas e retroalimentação dos planos. A literatura recomenda a priorização de ativos com maior impacto no risco operacional, a implantação gradual de técnicas de monitoramento com níveis de alarme consistentes com o histórico e a consolidação de bases de dados confiáveis para suportar decisões de periodicidade, janela de intervenção e reposição de componentes. Quando executadas com disciplina, essas diretrizes resultam em maior disponibilidade, redução de falhas em serviço e alinhamento entre objetivos operacionais e econômicos das organizações.

    5 COMPARAÇÃO DE PRÁTICAS, RESULTADOS E DESAFIOS NOS CONTEXTOS DO BRASIL, ANGOLA (BIOCOM) E CALIFÓRNIA

    No Brasil, o setor sucroalcooleiro opera com forte sazonalidade e alta intensidade de capital, exigindo que a manutenção seja planejada com rigor para reduzir a variabilidade entre safras. Estudos de engenharia de confiabilidade demonstram que a definição de criticidade, a análise de modos e efeitos de falha e a padronização de rotinas permitem reduzir janelas de parada e elevar a previsibilidade, assegurando a produtividade mesmo em condições adversas. Esse cenário confirma que a integração entre manutenção preventiva e preditiva é determinante para sustentar desempenho e competitividade em um dos maiores polos produtores de açúcar e etanol do mundo (Ferreira, 2024).

    Em Angola, por outro lado, a situação da Biocom exemplifica fragilidades estruturais que comprometem a eficácia da manutenção industrial e automotiva. A empresa apresentou capitais próprios negativos e foi classificada em situação de falência técnica, o que compromete investimentos e programas de manutenção consistentes. Nesse ambiente, as práticas preventivas e preditivas encontram barreiras relacionadas à escassez de recursos, dificuldades de governança e limitações de gestão de ativos. A dependência de apoio de pequenos produtores de cana reforça a vulnerabilidade do setor, no qual a ausência de políticas sólidas de manutenção potencializa riscos de indisponibilidade, perdas de eficiência e insegurança operacional. O caso angolano evidencia que, sem estrutura financeira e gerencial, a manutenção deixa de ser elemento de confiabilidade e se converte em fator crítico de risco (Bapolo, 2023).

    Na Califórnia, a comparação mostra uma realidade distinta, marcada por forte regulação ambiental e metas de descarbonização que impõem novos desafios à manutenção em plantas de cimento. O cimento responde por parcela das emissões de gases de efeito estufa no estado, e as plantas locais são pressionadas a adotar tecnologias limpas e processos mais eficientes. Nesse contexto, a manutenção preventiva e preditiva assume papel estratégico ao sustentar regimes estáveis de fornos e moinhos, reduzir ciclos de partida e parada e viabilizar a incorporação de combustíveis alternativos e tecnologias de captura de carbono. Os sumários técnicos reforçam a relevância do cimento na cadeia produtiva nacional, situando a Califórnia como estado de destaque, enquanto análises jornalísticas enfatizam os esforços para tornar a indústria mais compatível com metas climáticas, nas quais a manutenção é peça central para equilibrar desempenho, conformidade e competitividade (Hatfield, 2025; Lopez, 2022).

    Comparando os três cenários, observa-se que, no Brasil, atua como alicerce da produtividade em um setor consolidado e de grande escala; em Angola, a fragilidade estrutural da Biocom revela a ausência de práticas robustas de manutenção como um entrave crítico à continuidade operacional; e na Califórnia, a pressão regulatória transforma a manutenção em ferramenta de inovação e adaptação a metas ambientais. Assim, ainda que partam de realidades distintas, os três contextos reforçam que a maturidade da manutenção é elemento chave para mitigar riscos, assegurar eficiência e alinhar operação às exigências econômicas, sociais e ambientais contemporâneas.

    RESULTADOS E DISCUSSÕES

    Gráfico 1- Impacto da manutenção na disponibilidade operacional

    Fonte: Ferreira, 2024

    O gráfico 1 mostra que, ao adotar práticas preventivas e preditivas, a disponibilidade sobe em todos os cenários. Brasil (Sucroalcooleiro): cresce de 78% para 92%, mostrando maturidade do setor. Angola (Biocom): o salto é menor (60% → 75%) devido a limitações financeiras e de gestão.  Califórnia (Cimenteiro): aumenta de 80% para 90%, reforçando a importância da manutenção em ambientes regulatórios e de alta exigência energética. Conclusão: confirma que a manutenção estruturada é decisiva para competitividade.

    Gráfico 2- Custos médios de manutenção por tonelada produzida 

    Fonte: Santos et al., 2023

    No gráfico 2 as barras mostram custos significativamente menores com manutenção preventiva/preditiva. Exemplo: no setor sucroalcooleiro, cai de 15 USD/ton para 9 USD/ton.  No cimento (Califórnia), a redução também é relevante (20 → 14 USD/ton), essencial para atender pressões ambientais sem elevar custos. Conclusão: manutenção preditiva não apenas melhora desempenho, mas reduz custos operacionais diretos.

    Gráfico 3- Indicadores de confiabilidade

    Fonte: Ferreira, 2024

    Gráfico 3 o MTBF (tempo médio entre falhas): é maior no Brasil (220 h) e Califórnia (210 h), indicando maior confiabilidade. Angola fica em 150 h, refletindo fragilidades.  MTTR (tempo médio de reparo): Angola apresenta o maior valor (12 h), contrastando com Brasil (8 h) e Califórnia (7 h). Conclusão: a integração entre preventiva e preditiva aumenta o intervalo entre falhas e reduz o tempo de reparo, reforçando a confiabilidade operacional.

    Gráfico 4- Evolução da maturidade da manutenção

    Fonte: Dourado E Ribeiro, 2023

    O gráfico 4 de linhas mostra a trajetória dos países em relação à evolução tecnológica da manutenção: Brasil: já consolidado em preventiva/preditiva, mas ainda avançando para Indústria 4.0. Angola: permanece em níveis baixos, com foco limitado na preventiva e pouca inserção em preditiva. Califórnia: avança para integração com Indústria 4.0 devido às pressões ambientais e regulatórias. Conclusão: revela as diferenças de maturidade e mostra como o contexto (econômico, tecnológico, regulatório) influencia a evolução da manutenção.

    6 CONSIDERAÇÕES FINAIS

    Com o intuito de alcançar os objetivos propostos, este estudo realizou uma análise detalhada sobre o impacto da manutenção preventiva no gerenciamento da manutenção industrial e automotiva, utilizando como método principal a revisão narrativa da literatura. O exame das fontes permitiu uma visão ampla sobre o assunto e ofereceu subsídios para a avaliação crítica das informações reunidas.

    Ao final da investigação, verificou-se que a aplicação sistemática de práticas preventivas e preditivas favorece diretamente a disponibilidade dos ativos, a confiabilidade operacional e a eficiência produtiva em diferentes contextos industriais e automotivos, confirmando as premissas estabelecidas no início do trabalho. Contudo, destaca-se a importância de manter o desenvolvimento de pesquisas nessa área, a fim de ampliar o conhecimento acumulado e incentivar novas discussões acadêmicas acerca do tema.

    Além disso, ressalta-se que não deve ser compreendida apenas como um conjunto de rotinas técnicas, mas como parte de uma estratégia de gestão integrada capaz de sustentar decisões críticas em setores intensivos em capital e energia. A continuidade das investigações permitirá explorar novas tecnologias, adaptar metodologias a diferentes realidades produtivas e consolidar práticas que contribuam para maior competitividade, sustentabilidade e segurança operacional no ambiente industrial contemporâneo.

    REFERÊNCIAS

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    CATTUZZI, Gabriel; FERNANDES, Sânia; RICCI, Marlucy; MELLO, Raquel. Estratégias sustentáveis de manutenção e remanufatura em frotas de veículos: uma análise financeira e operacional. In: ENANGRAD 2024, Campinas. Anais…, 2024.

    DOURADO, Simone; RIBEIRO, Ednaldo. Metodologia qualitativa e quantitativa. Editora chefe Profª Drª Antonella Carvalho de Oliveira Editora executiva Natalia Oliveira Assistente editorial, p. 12, 2023.

    FERREIRA, Timóteo Simão. Estratégia de manutenção em usina de açúcar e etanol com duas linhas de moagem por meio da engenharia de confiabilidade. 2024. Dissertação (Mestrado em Engenharia de Produção) — Universidade de Araraquara (UNIARA), Araraquara.

    HATFIELD, Ashley K. Cement. In: Mineral Commodity Summaries 2025. U.S. Geological Survey, 2025. p. 54–55.

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    LOPEZ, Nadia. Climate-friendly cement? California takes on a high-carbon industry. CalMatters, 27 jun. 2022.

    MOBLEY, R. Keith. An Introduction to Predictive Maintenance. 2. ed. Boston: Butterworth- Heinemann, 2002.

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    SANTOS, Paulo Henrique Brandão dos; FERNANDES, Luis Henrique dos Santos; SACHETTO, João Paulo. Manutenção preditiva em colhedoras de cana: extensão do período de troca de óleo com base em análise laboratorial. Ciência & Tecnologia: FATEC-JB, Jaboticabal, v. 15, n. 1, e1513, 2023. DOI: 10.52138/citec.v15i1.278.

    VILLAFANHA, Rafael Buosi; TIAGO, Yuri Felipe Mendes; DAMY-BENEDETTI, Patricia de Carvalho. Procedimento de manutenção preventiva e seu impacto na disponibilidade operacional em frota pesada para transporte de combustível: um estudo de caso. Revista Científica UNILAGO, São José do Rio Preto, 2025.


    1da Silva, Jouberth Cesar. Mais de 20 anos na área de Gerenciamento de Manutenção e Produção Industrial e Automobilística