REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202511151606
Heloisa Maria de Lima Rodrigues1
Márcio Assis Tozzi2
Rimuelc da Silva Nunes3
Kleber Borgo Kill4
RESUMO
A endodontia contemporânea tem passado por uma transformação significativa impulsionada pela incorporação de sistemas mecanizados de instrumentação, que visam otimizar a eficiência clínica e preservar a anatomia radicular. O presente estudo teve como objetivo comparar o desempenho dos sistemas rotatórios e reciprocantes no preparo do sistema de canais radiculares, considerando três eixos temáticos: desempenho técnico e manutenção da anatomia original, eficiência de limpeza e remoção de detritos, e tempo clínico associado à simplificação técnica e aplicabilidade prática. Trata-se de uma revisão narrativa com recorte temporal de 2021 a 2025, fundamentada em publicações indexadas nas bases PubMed, Scopus e MEDLINE, selecionadas por meio de descritores específicos em saúde (MeSH Terms) e critérios de elegibilidade voltados à relevância clínica, uso de dentes humanos e metodologias laboratoriais padronizadas. Os resultados evidenciaram que os sistemas rotatórios demonstram melhor capacidade de centralização e menor transporte apical, garantindo maior preservação da geometria do canal em curvaturas severas, enquanto os reciprocantes apresentam maior resistência à fadiga cíclica e reduzem o tempo clínico, sem comprometer a eficiência de limpeza. As evidências também sugerem que a eficácia na remoção de smear layer e detritos depende mais da qualidade da irrigação ativa do que da cinemática isolada, e que o instrumento reciprocante proporciona melhor relação custo-benefício em contextos de alta demanda, especialmente na rede pública. Conclui-se que ambos os sistemas são eficazes e seguros quando aplicados de forma adequada, sendo recomendada uma abordagem híbrida que utilize os sistemas de acordo com a necessidade de cada etapa do tratamento, integrando precisão geométrica, segurança estrutural e agilidade operatória na prática endodôntica contemporânea.
Palavras-chave: Endodontia; Tratamento do canal radicular; Preparo de canal radicular.
1 INTRODUÇÃO
A endodontia contemporânea vem se caracterizando por um processo contínuo de aperfeiçoamento técnico e conceitual, incorporando instrumentos e métodos que buscam otimizar a eficiência clínica e a segurança operatória, enquanto preservam a anatomia radicular original, superando limitações históricas associadas à instrumentação manual com alargadores de aço inoxidável, cuja rigidez dificultava o acompanhamento de curvaturas acentuadas, prolongava o tempo clínico e aumentava o risco de desvios apicais e perfurações (Peters, 2004; Schafer; Vlassis, 2004).
Ao longo das últimas décadas, a introdução dos instrumentos mecanizados de níquel-titânio (NiTi) promoveu uma transformação significativa no preparo químico-mecânico, ampliando a capacidade de conformação, reduzindo o esforço físico do operador e permitindo maior padronização das etapas clínicas, alterando de maneira profunda os paradigmas de tratamento endodôntico (Gambarini et al., 2013; De-Deus et al., 2010).
Segundo Peters (2004, p. 562, tradução nossa):
A instrumentação mecanizada trouxe um novo nível de controle sobre a geometria do canal radicular, permitindo a manutenção de sua forma original em maior extensão, diminuindo a incidência de erros iatrogênicos e proporcionando melhor distribuição da irrigação. Essa mudança paradigmática impulsionou uma reavaliação dos conceitos tradicionais de preparo e limpeza, exigindo novas abordagens para avaliar eficiência, segurança e previsibilidade clínica.
A partir dessa mudança, a prática endodôntica passou a integrar diferentes cinemáticas de instrumentação, combinando velocidade e precisão, com destaque para os sistemas rotatórios e reciprocantes, que se consolidaram como as principais modalidades de preparo. Os sistemas rotatórios utilizam um movimento contínuo de 360°, conferindo elevado desempenho na modelagem e uniformidade do preparo, enquanto aumentam a suscetibilidade à fadiga cíclica, tornando-se mais vulneráveis à fratura, especialmente em canais curvos ou com anatomia irregular (Schafer; Vlassis, 2004; Gambarini et al., 2013).
Em contrapartida, os sistemas reciprocantes operam por meio de movimentos alternados em ângulos específicos, reduzindo o acúmulo de tensões internas e aumentando a resistência do instrumento, ao mesmo tempo em que simplificam a técnica e frequentemente permitem a realização do preparo com apenas um instrumento, favorecendo maior agilidade e padronização clínica (Yared, 2008; De-Deus et al., 2010).
A diversidade anatômica dos canais radiculares, envolvendo formatos ovalados, achatados ou com curvaturas acentuadas, intensifica a necessidade de escolher a cinemática mais adequada, exigindo instrumentos capazes de remover tecidos contaminados com eficiência, mantendo a trajetória original e minimizando a extrusão de debris, conectando-se diretamente à problemática que motiva comparações entre os diferentes sistemas disponíveis (Peters, 2004; Silva et al., 2014).
A utilização inadequada de técnicas pode provocar transporte, desvio apical ou acúmulo de detritos periapicais, comprometendo o resultado clínico e aumentando a probabilidade de falhas instrumentais, o que reforça a importância de avaliações comparativas rigorosas que considerem parâmetros objetivos, como tempo operatório, conformação final, resistência à fratura e limpeza do sistema de canais radiculares (Gambarini et al., 2013; De-Deus et al., 2010).
A justificativa para aprofundar essa discussão reside no impacto direto da escolha do sistema de instrumentação sobre a qualidade final do tratamento, interferindo tanto na manutenção da anatomia original quanto na previsibilidade terapêutica, influenciando a segurança clínica e a eficiência operatória (Peters, 2004; Silva et al., 2014). A difusão acelerada dos sistemas reciprocantes, sustentada pela proposta de simplificação técnica e redução no número de instrumentos, demanda análises criteriosas que fundamentam seu uso em anatomias complexas, relacionando-se à necessidade de embasamento científico sólido que respalde decisões clínicas conscientes e alinhadas às melhores evidências disponíveis (De-Deus et al., 2010; Gambarini et al., 2013).
Silva et al. (2014, p. 340, tradução nossa) enfatizam:
A escolha do sistema de instrumentação influencia diretamente a manutenção da trajetória original do canal, a quantidade de detritos estruídos e o tempo clínico necessário para a modelagem, podendo afetar de maneira significativa o prognóstico endodôntico. Comparações entre sistemas rotatórios e reciprocantes revelam diferenças na cinemática, no número de instrumentos empregados e na resistência à fratura, o que demanda avaliações detalhadas e criteriosas para fundamentar decisões clínicas.
Essa observação reforça que as diferenças entre as técnicas não se restringem a preferências operatórias, estabelecendo implicações clínicas concretas que determinam o prognóstico do tratamento, conectando-se à necessidade de delimitar claramente os parâmetros investigativos (Silva et al., 2014; Peters, 2004).
A delimitação desta análise centra-se na comparação entre sistemas rotatórios e reciprocantes utilizados no preparo de canais radiculares, considerando parâmetros técnicos e clínicos como tempo operatório, manutenção da trajetória original, conformação apical, remoção de debris e resistência dos instrumentos, priorizando estudos realizados com dentes humanos extraídos e modelos laboratoriais padronizados, garantindo maior aplicabilidade clínica dos resultados e evitando conclusões derivadas de cenários artificiais simplificados (Silva et al., 2014; De-Deus et al., 2010).
Parte-se da hipótese de que os sistemas reciprocantes apresentam desempenho igual ou superior aos sistemas rotatórios em aspectos fundamentais, sugerindo maior resistência à fratura e menor tempo de instrumentação, enquanto mantêm a eficiência de limpeza e a preservação da anatomia original, representando uma alternativa vantajosa em canais complexos, integrando cinemática simplificada e segurança clínica.
O objetivo geral consiste em comparar, por meio de uma revisão de literatura, a eficiência dos sistemas rotatórios e reciprocantes no preparo do canal radicular. Os objetivos específicos incluem: (i) parâmetros técnicos e clínicos que interferem diretamente no sucesso endodôntico; (ii) avaliar diferenças no tempo de preparo, na qualidade da modelagem, na manutenção da trajetória original, na remoção de debris e na resistência dos instrumentos; (iii) fornecer subsídios científicos que sustentem decisões clínicas baseadas em evidências atualizadas.
2 REFERENCIAL TEÓRICO
2.1 Desempenho técnico e manutenção da anatomia original
A evolução dos instrumentos mecanizados de níquel-titânio (NiTi) revolucionou a prática endodôntica ao proporcionar maior previsibilidade na conformação dos canais radiculares e maior preservação da anatomia. Historicamente, os alargadores manuais de aço inoxidável apresentavam limitações significativas, como rigidez elevada e baixa capacidade de adaptação a curvaturas complexas, o que frequentemente resultava em desvios apicais, transportes e perfurações. Nesse contexto, a introdução dos sistemas mecanizados, tanto os rotatórios contínuos quanto os reciprocantes, permitiu um avanço substancial em termos de eficiência e segurança operatória, embora estudos recentes mostrem que nenhum sistema é universalmente superior, sendo a escolha dependente da curvatura radicular, da metalurgia da liga e da experiência clínica do operador (Călin et al., 2024; Mahmoud et al., 2024).
Segundo Călin et al. (2024), que conduziram uma revisão sistemática utilizando microtomografia computadorizada (micro-CT) em estudos ex vivo, os sistemas rotatórios contínuos mantêm melhor centralização e menor transporte apical em canais de curvatura moderada e severa, quando comparados aos reciprocantes. O movimento rotatório de 360°, aliado à distribuição homogênea do torque, reduz o risco de desvio da trajetória original, sobretudo em canais longos e curvos. Contudo, mesmo com desempenho superior em modelagem, os autores apontam que nenhuma das técnicas avaliadas foi capaz de instrumentar completamente as paredes do canal, demonstrando que a eficiência geométrica não garante cobertura total da superfície radicular. Esse achado é consistente com observações de estudos anteriores, que indicam a presença persistente de áreas não preparadas, especialmente em canais ovalados ou com múltiplas curvaturas, o que exige complementação com irrigação ativa e técnicas auxiliares de limpeza (Paqué et al., 2017; Bueno et al., 2015; De-Deus et al., 2023; Versiani et al., 2021).
Os resultados de Mahmoud et al. (2024) aprofundam a discussão ao evidenciar que a hibridização de sistemas, ou seja, o uso sequencial ou combinado de instrumentos rotatórios e reciprocantes, pode representar um caminho promissor para conciliar rapidez, segurança e manutenção anatômica. Em canais simulados com curvatura em “S”, a combinação de instrumentos Procodile (reciprocante) e Hyflex CM (rotatório) mostrou maior preservação da forma original do canal e diâmetro uniforme em todos os terços, resultado atribuído à sinergia entre o design cônico progressivo do
Procodile e a flexibilidade do Hyflex CM, que apresenta tratamento térmico controlado (Controlled Memory). Esse estudo destaca um ponto crucial: mais do que escolher uma cinemática isolada, o desempenho técnico ótimo depende da integração entre design, liga metálica e sequência operatória, o que evidencia que a eficiência endodôntica é multifatorial e requer domínio técnico-conceitual por parte do operador.
Corroborando essa perspectiva, Shi et al. (2022) demonstraram que o estabelecimento prévio de um glide path (exploração do canal radicular seguida de ampliação inicial, até o forame apical) tem papel determinante na qualidade da modelagem, independentemente da cinemática utilizada. Em sua análise, canais preparados com criação prévia de glide path apresentaram menor transporte apical e maior centralização, tanto em sistemas rotatórios quanto reciprocantes. Essa evidência reforça que o resultado não é exclusivamente determinado pela cinemática, mas pela sequência de preparo e pela condição inicial da anatomia, já que um canal previamente patente e lubrificado permite menor resistência ao avanço do instrumento e menor distorção geométrica. Assim, a literatura converge no entendimento de que a técnica de preparo, incluindo parâmetros como torque, velocidade e sequência de alargadores, é tão decisiva quanto a cinemática propriamente dita.
Em contrapartida, alguns estudos têm demonstrado vantagens pontuais dos sistemas reciprocantes em anatomias específicas. Rebeiz et al. (2021) avaliaram o sistema Endostar E3 Azure, fabricado em liga térmica Blue NiTi, comparando seu desempenho em movimento rotatório contínuo e em reciprocidade. Os resultados mostraram que o modo reciprocante promoveu melhor respeito à curvatura original do canal e demandou menor tempo de instrumentação, sem aumento do risco de transporte. Esse comportamento é explicado pelo movimento alternado de avanço e recuo, que reduz a concentração de tensões no alargador e minimiza o acúmulo de deformações cíclicas, principais fatores associados à fratura por fadiga. Esses achados se alinham a um corpo crescente de evidências que indicam que os sistemas reciprocantes podem oferecer vantagem em canais curvos e estreitos, especialmente quando a anatomia radicular impõe limitação de acesso ou visibilidade.
A mesma tendência foi observada por Alovisi et al. (2021), que compararam sistemas rotatórios e reciprocantes em molares superiores por meio da microtomografia computadorizada (micro-CT). Ambos os sistemas apresentaram bom controle de centralização e respeito à anatomia original, sem diferenças estatisticamente significativas entre si. Todavia, os autores destacam que a variabilidade interoperador, relacionada ao controle de torque, à pressão de avanço e ao tempo de contato de alargadores com a parede dentinária, influenciam diretamente no desempenho geométrico. Assim, a experiência clínica e a calibração técnica emergem como determinantes centrais do sucesso, confirmando que a cinemática, isoladamente, não garante resultados superiores se aplicada sem domínio técnico.
A influência do design e da seção transversal dos instrumentos foi examinada por Guedes et al. (2022), que compararam instrumentos rotatórios e reciprocantes com seções triangulares e em forma de S, respectivamente. O estudo constatou que, embora ambos os tipos de instrumentos apresentassem desempenho semelhante na capacidade geral de modelagem dos canais mesiais de molares mandibulares, observaram-se diferenças sutis quanto à flexibilidade e a resistência à fadiga. Essas variações foram atribuídas ao formato da seção transversal e ao tratamento térmico da liga, fatores que influenciam diretamente o comportamento mecânico dos instrumentos. Assim, instrumentos com núcleo reduzido e ângulos de corte variáveis demonstraram melhor adaptação às irregularidades do canal, reduzindo o estresse torsional e a possibilidade de fratura, mesmo dentro de um desempenho global considerado equivalente.
Novas abordagens cinemáticas, como o whipping motion (movimento chicoteante), também vêm sendo exploradas. Carvalho et al. (2022) analisaram o sistema XP-Endo Shaper, cujo alargador apresenta forma adaptativa que se expande tridimensionalmente conforme o calor e a curvatura do canal. Os resultados indicaram preparo biomecânico mais regular e menor desgaste dentinário quando comparado à instrumentação manual, com melhor preservação da estrutura coronária. Esse avanço evidencia a tendência atual de desenvolvimento de sistemas capazes de adaptação morfológica dinâmica, buscando conjugar eficiência de corte com conservação tecidual, um equilíbrio essencial na endodontia moderna.
Ainda que a maior parte das pesquisas se concentre em dentes permanentes, Yörel et al. (2025) demonstraram que em dentes decíduos a instrumentação mecanizada deve ser empregada com cautela. Em estudo com molares decíduos, instrumentos rotatórios como EndoArt Pedo Blue e OneShape produziram maior transporte apical do que alargadores manuais de aço inoxidável, o que foi atribuído à menor espessura dentinária e à menor resistência estrutural das raízes decíduas. Embora não diretamente generalizável aos dentes permanentes, esse achado ressalta a importância de avaliar o diâmetro radicular e o volume dentinário antes de optar por sistemas mecanizados em anatomias delicadas.
Entre os sistemas rotatórios contemporâneos, Faisal et al. (2021) compararam o NeoNiTi e o 2Shape, observando que o primeiro promoveu preparos mais centralizados e com menor desvio apical, resultado atribuído ao seu tratamento térmico mais estável e à flexibilidade aprimorada. Essa melhoria geométrica foi associada à redução do estresse torsional, o que amplia a durabilidade do instrumento e reduz o risco de fratura. Tais resultados reiteram que a evolução da metalurgia e da geometria de alargadores representa um dos maiores progressos recentes da instrumentação mecanizada, permitindo que sistemas rotatórios modernos alcancem resultados próximos, ou até superiores, aos reciprocantes em canais curvos.
Por fim, Djuric et al. (2021) abordaram um aspecto frequentemente negligenciado do desempenho técnico: a extrusão apical de detritos. Ao comparar sistemas de instrumentos com movimentos horário e anti-horário, verificou-se que o WaveOne Gold, operado em sentido anti-horário, gerou maior extrusão de detritos apicais do que o ProTaper Next, que utiliza movimento rotatório contínuo,o que pode aumentar o risco de dor pós-operatória e inflamação periapical. Esse resultado reforça que a cinemática dos instrumentos influenciam não apenas a geometria do canal preparado, mas também a biocompatibilidade do preparo, afetando diretamente o conforto e o prognóstico do paciente.
Em síntese, o corpo de evidências de 2021 a 2025 aponta que os sistemas rotatórios contínuos oferecem melhor centralização e menor transporte apical em canais curvos, configurando-se como padrão-ouro em termos de precisão geométrica, enquanto os sistemas reciprocantes apresentam vantagens operatórias significativas, como menor tempo clínico, menor risco de fratura e maior segurança em anatomias severas. Entretanto, ambos compartilham limitações comuns: persistência de áreas não instrumentadas, dependência da habilidade do operador e variações de desempenho associadas à metalurgia e ao design de alargadores. A tendência atual, portanto, é a integração de técnicas híbridas e o desenvolvimento de sistemas com comportamento adaptativo, capazes de equilibrar eficiência, preservação da anatomia e segurança biológica. Assim, a escolha da cinemática deve ser individualizada e baseada em evidências, considerando-se as particularidades anatômicas, o grau de curvatura e o contexto clínico de cada caso.
2.2 Eficiência de limpeza, remoção de detritos e segurança operatória
A limpeza eficaz do sistema de canais radiculares, incluindo a remoção de detritos duros (hard-tissue debris – HTD) e da lama dentinária (smear layer), bem como a segurança do procedimento em termos de fratura ou separação de instrumentos, são determinantes para o sucesso do tratamento endodôntico, pois resíduos remanescentes ou instrumentos com perda de eficiência de corte, podem dificultar a ação mecânica durante o preparo, comprometer a modelagem das paredes do canal e, consequentemente, influenciar negativamente a obturação e o selamento (Liang et al., 2022).
Araújo et al. (2022) afirmaram que, apesar dos avanços tecnológicos, nenhum protocolo até o momento conseguiu remover completamente todos os resíduos de dentina ou debris acumulados em sistemas de canais complexos, o que realça a necessidade de combinarem instrumentação adequada, irrigação eficaz e ativação mecânica ou acústica.
Outros estudos destacam nuances adicionais importantes: Liu et al. (2022), por exemplo, investigaram a eficácia de diferentes técnicas de irrigação de canais radiculares com instrumento fraturado e constataram que técnicas de ativação de bolhas de vapor, como LAI-PIPS, demonstraram desempenho superior em regiões apicais além da separação do instrumento. Essa constatação reforça que, em contextos de acidente instrumentais ou anatomia complicada, a irrigação ativada pode representar uma importante medida de segurança operatória, pois minimiza o risco de tratamento comprometido por instrumentação imperfeita.
No entanto, a eficácia da remoção de detritos não é uniforme em todas as regiões do canal. Andreani et al. (2021) compararam dispositivos de ativação de irrigante e irrigação convencional com agulha em canais curvos de molares permanentes e observaram que, embora os dispositivos ativados mostrassem tendência a melhor remoção da camada de smear layer, as diferenças não foram estatisticamente significativas, o que sugere que em curvas acentuadas ou anatomias muito irregulares, a tecnologia por si só não garante resultado superior. Essa limitação técnica requer que o operador combine a ativação com protocolo de preparo, irrigante adequado e controle de volume/tempo.
Chu et al. (2023) conduziram uma revisão sistemática e metanálise de alta robustez metodológica que comparou o desempenho do sistema sônico EDDY com a irrigação ativada por ultrassom convencional, destacando que ambas as técnicas apresentaram eficácia equivalente na remoção da smear layer, detritos dentinários e microrganismos do interior dos canais radiculares. A relevância do estudo reside não apenas na constatação da semelhança de eficácia entre os métodos, mas sobretudo no fato de que o EDDY demonstrou menor agressividade sobre a parede dentinária, aspecto que adquire importância clínica significativa em dentes com espessura radicular reduzida ou paredes fragilizadas por tratamentos prévios. Tal achado reforça uma tendência contemporânea na Endodontia em direção a técnicas minimamente invasivas, que conciliam eficiência de limpeza com a preservação estrutural da dentina, mitigando o risco de microfissuras e fraturas verticais a longo prazo.
De modo convergente, Iandolo et al. (2023) realizaram um estudo ex vivo que comparou a irrigação tradicional com seringa e agulha à inovadora técnica denominada 3D cleaning, fundamentada na ativação tridimensional do irrigante por meio de agitação controlada e fluxo contínuo. Nesse contexto, o termo “3D” refere-se não a uma imagem tridimensional propriamente dita, mas à capacidade do método de promover circulação ativa da solução irrigante em todas as dimensões do sistema de canais, longitudinal, lateral e apical, assegurando maior alcance do irrigante nas áreas de difícil acesso anatômico. Os resultados revelaram superioridade estatisticamente significativa da técnica 3D cleaning na remoção de detritos e da smear layer, especialmente nos terços médio e apical, regiões reconhecidamente críticas devido à complexidade anatômica e à limitação de penetração dos irrigantes convencionais.
Os autores destacam que o diferencial dessa abordagem não se restringe ao tipo de ativação mecânica, mas à concepção de um protocolo integrado entre volume irrigante, tempo de permanência e dinâmica de fluxo, o que potencializa o contato do agente químico em toda a extensão do canal. Essa integração tecnológica reflete uma nova lógica de tratamento endodôntico, na qual a eficiência da limpeza depende da sinergia entre parâmetros hidrodinâmicos e físico-químicos (Iandolo et al., 2023).
A segurança operatória constitui outro eixo essencial de análise, sobretudo nos casos que envolvem instrumentos fraturados, desvios apicais ou retratamentos complexos, situações em que o controle da irrigação e a ativação adequada tornam-se determinantes para o sucesso terapêutico. Portela et al. (2021), em uma revisão sistemática de estudos in vitro, evidenciaram que as técnicas ultrassônicas de retratamento e remoção de fragmentos instrumentais apresentam maior taxa de sucesso e menor risco de danos à parede dentinária quando comparadas aos métodos convencionais de ultrapassagem manual da obstrução com limas finas ou tentativas de remoção manual do fragmento. Essa superioridade se deve à capacidade das ondas ultrassônicas em desagregar resíduos aderidos e reduzir o atrito durante a remoção do instrumento, o que contribui para a preservação da estrutura radicular e para a redução de complicações iatrogênicas. Em termos práticos, esses achados reforçam a importância de associar protocolos de irrigação ativada ao manejo de acidentes endodônticos, potencializando tanto a segurança quanto a previsibilidade do procedimento.
Outro fator intimamente ligado à segurança clínica refere-se à extrusão apical de detritos, fenômeno que pode desencadear reação inflamatória periapical, dor pós-operatória e atraso na cicatrização. Nesse contexto, Rajnekar et al. (2023) compararam três sistemas rotatórios de última geração — TruNatomy, ProTaper Next e 2Shape — e constataram que o TruNatomy apresentou menor extrusão de detritos apicais, atribuindo tal resultado ao seu design inovador, com núcleo reduzido, seção transversal variável e maior flexibilidade.
Essa configuração geométrica facilita o fluxo apical do irrigante, reduz o impacto hidrodinâmico e, consequentemente, diminui a pressão extrusiva. Assim, o estudo confirma que a morfologia de alargadores e a cinemática empregada exercem influência direta não apenas na conformação do canal, mas também na segurança biológica do preparo, demonstrando que a escolha do sistema deve considerar a relação entre eficiência mecânica e controle de extrusão (Rajnekar et al., 2023).
Além disso, recentes estudos sugerem que a associação de sistemas reciprocantes com irrigação ativada ou rotatórios pode dinamizar a ação da solução irrigadora (Tietz et al., 2022). O movimento rotatório contínuo o reciprocante gera agitação e movimentos circulares microscópicos da solução irrigante no interior do canal, melhorando a adesão da solução nas áreas laterais e ramificações. Essa harmonia mecânico-química potencializa a remoção de detritos, reduz a excessiva agressão mecânica e aprimora a desinfecção, promovendo a preservação de estrutura e diminuindo o risco de complicações iatrogênicas (Liag et al., 2022; Araújo et al., 2022)
Complementarmente, Razumova et al. (2025) investigaram, por meio de microscopia eletrônica de varredura, o efeito de diferentes agentes químicos na remoção da smear layer e observaram que o etidronato (HEBP) apresentou desempenho superior ao EDTA tradicional, removendo a camada de smear layer de maneira mais homogênea e com menor desmineralização da dentina peritubular.
O estudo sugere que a substituição gradual de agentes quelantes agressivos por soluções biocompatíveis e controladas quimicamente representa um avanço expressivo na segurança estrutural da raiz, especialmente em protocolos prolongados de irrigação. Essa tendência, alinhada à busca por maior biotolerância dos irrigantes, ilustra a convergência entre eficiência antimicrobiana e preservação tecidual, pilares fundamentais da Endodontia moderna (Razumova et al., 2025).
Em suma, a literatura recente indica que a eficácia da limpeza e a segurança operatória dependem de uma intrincada interação entre fatores anatômicos (curvatura, istmo, canais laterais), instrumentação mecânica (rotatória ou reciprocante) e irrigação ativada (volume, agitação, agente químico). A ativação irrigadora representa um avanço relevante frente à irrigação convencional, mas não elimina a necessidade de preparo eficiente, e não garante a remoção total dos resíduos. Em termos práticos, a seleção e execução cuidadosa do protocolo, incluindo controle de volume, tempo de ativação e compatibilidade com o canal em questão, é mais determinante do que a simples escolha do dispositivo mais “moderno”. A segurança do operador e a efetividade final do tratamento dependem do conjunto entre qualidade da instrumentação e da irrigação ativada (Liang et al., 2022; Araújo et al., 2022).
2.3 Tempo clínico, simplificação técnica e aplicabilidade prática
Na lógica da endodontia contemporânea, eficiência operatória e padronização técnica deixaram de ser atributos periféricos para se tornarem determinantes do sucesso clínico, sobretudo em cenários de alta demanda assistencial e em anatomias radiculares complexas. Desde a proposição da instrumentação por meio de um único instrumento como estratégia de racionalização do preparo, como mencionado por Yared (2008) e a sistematização de suas implicações clínicas, como proposto por Silva et al. (2014), consolidou-se o entendimento de que a cinemática (rotatória contínua vs. reciprocante), o número de instrumentos e a curva de aprendizado modulam diretamente o tempo de instrumentação, a ergonomia do operador e a reprodutibilidade do procedimento. Em síntese, a decisão técnica migra do “qual sistema é melhor” para “qual sistema é mais eficiente e seguro no caso concreto”, conciliando agilidade e qualidade de modelagem.
A literatura comparativa recente sustenta que os sistemas reciprocantes, de modo geral ancorados em técnicas de instrumento único, tendem a encurtar o tempo clínico por reduzirem etapas e trocas de alargadores, simplificando a sequência de preparo sem prejuízo mensurável da conformação (Peralta-Mamani et al., 2019; Medina-Torres et al., 2024).
No âmbito educacional, isso se traduz em curva de aprendizado mais curta e menor variabilidade interoperador. Em contexto acadêmico, tanto a instrumentação rotatória quanto a reciprocante produziram resultados equivalentes em qualidade do preparo, sem diferenças significativas em fratura dos instrumentos, formação de degrau ou transporte do canal radicular, mas com indícios de que o movimento reciprocante facilita a padronização e a aquisição de proficiência (Medina-Torres et al., 2024). No consultório, essa simplificação operacional se projeta em menor fadiga física e cognitiva do profissional e menor tempo de cadeira para o paciente, ampliando a previsibilidade do fluxo clínico diário.
No eixo da eficiência global, os dados apontam que a redução da microbiota obtida por sistemas rotatórios e reciprocantes é semelhante, indicando que, encurtar passos não implica perda de qualidade biológica, quando a irrigação é adequada (Siddique et al., 2019).
Em contrapartida, meta-análise recente mostra que instrumentos reciprocantes apresentam maior resistência à fadiga cíclica do que os rotatórios, sobretudo em canais com dupla curvatura, um ganho de confiabilidade relevante em anatomias desafiadoras (De Pedro-Muñoz et al., 2024). Essa combinação de agilidade (menos etapas) e robustez mecânica (mais resistência) ajuda a explicar a ampla adoção do movimento reciprocante em práticas que priorizam produtividade com segurança.
Do ponto de vista econômico e de acesso, análises em cenário de saúde pública indicam que a adoção da técnica reciprocante pode reduzir custos e tempo por procedimento, pois ao diminuir o número de instrumentos e simplificar o protocolo, há redução direta de custos de insumo e de tempo clínico, o que se converte em maior volume assistencial sem sacrificar os desfechos técnicos. Em políticas públicas e clínicas-escola, esse argumento é particularmente forte, pois simplificação técnica bem implementada democratiza o acesso sem comprometer o padrão de cuidado (Merchan et al., 2022).
Nos retratatamentos endodônticos, onde a eficiência de remoção de material obturador e o controle do tempo clínico assumem protagonismo, um estudo por micro-CT demonstrou que sistemas rotatórios (ProTaper Gold, Twisted File ou ProTaper Next) são tão eficazes quanto um instrumento reciprocante de uso único (WaveOne Gold) na remoção do material obturador (Azevedo et al. 2020). Outro estudo (Ahmad et al., 2022), encontrou uma maior extrusão de detritos apicais quando utilizados instrumentos reciprocantes, em comparação aos sistemas rotatórios, o que pode aumentar a irritação periapical e repercutir na dor pós-operatória.
Outra meta-análise observou que, no conjunto, a dor após o tratamento endodôntico em sessão única com instrumentos rotatórios, em comparação aos reciprocantes, apresentou perfis globais sem diferenças significativas, com tendência a menor dor para os reciprocantes. A interpretação clínica é que a extrusão é multifatorial (geometria do instrumento, técnica de irrigação, movimento axial de avanço e recuo do instrumento e amplitude do movimento reciprocante), e seu impacto na dor depende do controle técnico e da anatomia; logo, seleção de caso e protocolo de irrigação permanecem decisivos (Hou et al., 2017).
Por fim, vale integrar o que se sabe sobre qualidade geométrica a esse debate de tempo e simplicidade. Mesmo que os rotatórios mantenham, em diversas condições, melhor centralização e menor transporte em curvaturas severas, o instrumento reciprocante compensa com agilidade, resistência à fadiga e menor complexidade operatória, atributos que pesam muito quando a produtividade e a segurança sistêmica são prioridades (Călin et al., 2024).
3 METODOLOGIA
O presente estudo consiste em uma revisão narrativa crítica da literatura, com o objetivo de comparar o desempenho dos sistemas rotatórios e reciprocantes de instrumentação endodôntica em canais radiculares. Ainda que não se trate de uma revisão sistemática, o trabalho foi conduzido a partir de um protocolo estruturado de busca, seleção, extração e síntese de dados, de modo a garantir maior transparência, coerência metodológica e reprodutibilidade das etapas. A elaboração do relato seguiu as diretrizes da SANRA – Scale for the Assessment of Narrative Review Articles e as recomendações do PRISMA-S (2021) para revisões narrativas.
A pergunta orientadora foi: Em preparos de canais radiculares permanentes, como se comparam os sistemas rotatórios e reciprocantes quanto ao desempenho técnico e manutenção da anatomia, à eficiência de limpeza e segurança operatória e ao tempo clínico e simplificação técnica?O objetivo geral consistiu em sintetizar criticamente as evidências recentes, priorizando a aplicabilidade clínica. O escopo da revisão contemplou estudos clínicos, in vitro e ex vivo realizados com dentes humanos, publicados entre 2021 e 2025,relatando pelo menos um desfecho de interesse.
As fontes de consultadas incluíram as bases indexadas PubMed/MEDLINE, Scopus, Web of Science Core Collection, Embase e SciELO,além de literatura cinzenta considerada controlada por meio do Google Scholar e repositórios de preprints como Research Square e medRxiv (seção Dentistry), quando apresentavam estudos com dados completos sobre o tema. A busca utilizou combinações de descritores MeSH/Emtree e palavras-livres em português, inglês e espanhol, adaptadas a cada base.
Os critérios de elegibilidade estabeleceram a inclusão de artigos publicados entre 2021 e 2025 que comparassem sistemas rotatórios e reciprocantes de qualquer marca ou geração, desde que os experimentos fossem conduzidos com dentes humanos e seguissem metodologias padronizadas de preparo e avaliação. Além disso, exigiu-se o relato de pelo menos um desfecho primário relevante. Foram excluídos estudos voltados exclusivamente à engenharia de materiais sem aplicação clínica, pesquisas com dentes artificiais ou canais simulados não validados, investigações cuja intervenção principal envolvesse irrigação ultrassônica ou laser, cartas ao editor e trabalhos anteriores ao recorte temporal definido.
Os desfechos primários considerados incluíram: (i) transporte apical e centramento; (ii) resistência à fadiga cíclica e torsional; (iii) extrusão de detritos apicais; e (iv) tempo clínico de instrumentação. Como desfechos secundários, analisaram-se a qualidade da modelagem do canal, a integridade dos instrumentos e erros iatrogênicos.
O processo de seleção dos estudos foi conduzido em duas etapas: inicialmente, a triagem de títulos e resumos por dois revisores independentes (R1 e R2), com resolução de divergências por consenso e, quando necessário, por um terceiro revisor (R3). A extração de dados foi realizada por meio de um formulário padronizado, previamente testado em cinco estudos-piloto, contendo informações sobre identificação, desenho, amostra, sistema e liga utilizados, cinemática, soluções irrigadoras, método de mensuração, desfechos e resultados numéricos, além das limitações e declarações de conflito de interesse. A extração foi executada em duplicata pelos revisores R1 e R2, com resolução consensual das discrepâncias.
A avaliação crítica da qualidade metodológica dos estudos considerou instrumentos apropriados a cada desenho de pesquisa. Ensaios clínicos foram examinados segundo o checklist CONSORT e a ferramenta RoB 2, estudos observacionais com o NIH Quality Assessment Tool, e experimentos ex vivo ou in vitro com dentes humanos segundo um checklist adaptado, incluindo critérios de seleção dos dentes, padronização geométrica, cegamento do avaliador, calibração, cálculo amostral, controle de torque e velocidade, e detalhamento do protocolo de microtomografia. Cada estudo foi classificado como de alto, moderado ou baixo risco de viés, sem cálculo de escore composto, sendo a avaliação discutida qualitativamente.
A síntese dos achados foi organizada em três eixos temáticos: o primeiro, referente ao desempenho técnico e manutenção da anatomia original; O segundo, sobre eficiência de limpeza e segurança operatória; e o terceiro, voltado ao tempo clínico e simplificação da técnica. Quando possível, os resultados foram normalizados em unidades comparáveis e apresentados em tabelas e quadros, com análises de subgrupos baseadas no tipo de liga. Com o intuito de reduzir a heterogeneidade metodológica, adotaram-se critérios rigorosos, priorizando trabalhos realizados em dentes humanos com curvatura documentada, excluindo protocolos com irrigação ativada que mascarassem o efeito da cinemática e separando as análises entre sistemas de alargadores única e sequências múltiplas. Eventuais variações atribuídas a diferenças de operador ou marca foram devidamente sinalizadas na discussão dos resultados.
Do ponto de vista ético, o estudo não demandou submissão a comitê de ética, por se tratar exclusivamente de análise de dados já publicados; entretanto, exigiu-se que todos os estudos clínicos incluídos declarassem aprovação ética própria. Reconhecem-se, contudo, limitações intrínsecas ao desenho narrativo, entre elas a heterogeneidade de modelos experimentais e clínicos, o viés de publicação, a influência de patrocínios industriais e a impossibilidade de metanálise, parcialmente compensada por uma abordagem interpretativa estruturada e criteriosa.
Por fim, definiu-se que os resultados seriam apresentados em quatro etapas principais: (i) quadro de fluxo do processo de seleção dos estudos; (ii) tabela sinóptica contendo base de dados, ano, desenho, amostra, sistemas e desfechos; (iii) análise detalhada em três seções correspondentes aos eixos temáticos; e (iv) síntese final com as implicações clínicas e lacunas de pesquisa identificadas, visando fornecer subsídios robustos para a prática endodôntica baseada em evidências.
4 RESULTADOS E DISCUSSÕES
Os resultados obtidos nesta revisão narrativa apontam que, embora os avanços da instrumentação mecanizada utilizando distintos instrumentos manufaturados em níquel-titânio (NiTi) tenham transformado profundamente a endodontia contemporânea, não existe consenso absoluto quanto à superioridade entre os sistemas rotatórios e reciprocantes. Ambos demonstram eficácia clínica relevante, mas apresentam vantagens e limitações distintas, diretamente relacionadas ao problema de pesquisa: qual sistema oferece melhor desempenho técnico, segurança e eficiência clínica no preparo de canais radiculares permanentes?
De modo geral, os sistemas rotatórios contínuos mostraram-se superiores na manutenção da trajetória original do canal, apresentando melhor centralização e menor transporte apical. Estudos de Călin et al. (2024) e Mahmoud et al. (2024) indicam que o movimento rotatório de 360° favorece a uniformidade geométrica do preparo e reduz desvios em canais curvos, proporcionando controle preciso da conformação. Entretanto, esses mesmos estudos apontam que o uso prolongado desses instrumentos aumenta a suscetibilidade à fadiga cíclica, elevando o risco de fratura, especialmente em casos com curvaturas acentuadas e torque excessivo.
Por outro lado, os sistemas reciprocantes evidenciaram maior resistência à fadiga cíclica, redução do tempo operatório e menor taxa de separação de instrumentos. Pesquisas de Rebeiz et al. (2021) e Alovisi et al. (2021) demonstram que o movimento alternado reduz as tensões sobre os alargadores, prolongando sua vida útil e proporcionando maior segurança em canais de difícil acesso. Além disso, o uso de um único instrumento simplifica o protocolo clínico e reduz a curva de aprendizado, o que amplia sua aplicabilidade em ambientes acadêmicos e serviços públicos de saúde.
Contudo, o desempenho técnico não depende apenas da cinemática empregada. Shi et al. (2022) e Guedes et al. (2022) destacam que fatores como o design dos alargadores, o tratamento térmico da liga e a criação de um glide path adequado influenciam diretamente a qualidade do preparo e a preservação da anatomia radicular. Dessa forma, a eficiência técnica é resultado da combinação entre características estruturais do instrumento e habilidade do operador, e não apenas do tipo de movimento utilizado.
No que diz respeito à eficiência de limpeza e segurança operatória, os achados demonstram que a cinemática isolada não garante a completa remoção da smear layer e dos detritos dentinários. Liang et al. (2022), Araújo et al. (2022) e Chu et al. (2023) reforçam que a eficácia da limpeza está fortemente relacionada à ativação da irrigação, seja ela ultrassônica, sônica ou a laser. Iandolo et al. (2023) evidenciaram que a técnica de 3D cleaning promoveu remoção superior da smear layer nos terços médio e apical, destacando o impacto da ativação tridimensional do irrigante na desinfecção dos canais. Sob a perspectiva da biocompatibilidade, Razumova et al. (2025) observaram que o uso do etidronato (HEBP) apresentou resultados mais homogêneos e menos agressivos à dentina peritubular do que o EDTA, configurando um avanço na segurança estrutural e na preservação tecidual. De modo semelhante, Portela et al. (2021) ressaltaram que técnicas de irrigação ativada auxiliam na remoção de fragmentos instrumentais e minimizam danos à parede dentinária, aumentando a previsibilidade clínica e a longevidade do tratamento. Além disso, a combinação da irrigação ativada com sistemas rotatórios ou reciprocantes pode intensificar a eficácia da solução irrigadora, gerando agitação e microvórtices no interior do canal, favorecendo a infiltração do irrigante em áreas laterais e ramificações e aprimorando a remoção de detritos, sem comprometer a integridade mecânica da dentina.
Quanto ao tempo clínico e à aplicabilidade prática, as evidências são consistentes: os sistemas reciprocantes se destacam por exigirem menor tempo de instrumentação e reduzirem o número de instrumentos, o que eleva a produtividade e melhora a ergonomia do operador. Medina-Torres et al. (2024) verificaram que a técnica reciprocante simplifica o aprendizado e aumenta a padronização dos resultados entre operadores, enquanto Merchan et al. (2022) demonstraram que essa abordagem reduz custos e otimiza o atendimento em serviços públicos, sem comprometer a qualidade do preparo.
Ainda assim, meta-análises como a de Ahmad et al. (2022) indicam que os instrumentos reciprocantes tendem a promover maior extrusão apical de detritos do que os rotatórios, o que pode gerar dor pós-operatória. Entretanto, Hou et al. (2017) destacam que essa diferença não é estatisticamente significativa quando se consideram variáveis como irrigação adequada e controle de amplitude do movimento reciprocante. Dessa forma, o impacto clínico desse fenômeno depende da execução técnica e do manejo do irrigante.
Os resultados aqui discutidos permitem afirmar que a decisão entre o uso de sistemas rotatórios ou reciprocantes não deve se basear em critérios absolutos, mas sim na adequação ao tipo de canal, à experiência do profissional e ao contexto clínico. Enquanto os rotatórios asseguram maior precisão geométrica e controle anatômico, os reciprocantes oferecem agilidade, segurança e viabilidade econômica, sendo especialmente indicados em cenários de alta demanda. Assim, a abordagem híbrida, que integra ambas as técnicas, desponta como a alternativa mais equilibrada, unindo eficiência técnica, rapidez operatória e segurança estrutural, respondendo de forma efetiva ao problema de pesquisa proposto.
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
A análise comparativa entre instrumentos rotatórios e reciprocantes utilizados no preparo mecânico dos canais radiculares, evidencia que ambos representam avanços significativos no aprimoramento técnico e na previsibilidade dos tratamentos endodônticos, substituindo progressivamente as técnicas manuais por abordagens mais seguras, rápidas e reprodutíveis. No entanto, a literatura contemporânea demonstra que nenhum sistema se mostra universalmente superior, sendo a escolha clínica fortemente condicionada pela morfologia radicular, pela experiência do operador e pelo propósito terapêutico do caso.
Sob o ponto de vista técnico, os sistemas rotatórios contínuos apresentam desempenho superior em termos de centralização, manutenção da trajetória original e menor transporte apical, especialmente em canais de curvatura moderada a severa. A rotação contínua favorece o controle geométrico e reduz a deformação do canal, assegurando resultados altamente precisos em condições anatômicas previsíveis. Já os sistemas reciprocantes, ao alternarem os sentidos de rotação, distribuem melhor as tensões e demonstram maior resistência à fadiga cíclica, tornando-se mais seguros em canais curvos ou estreitos e reduzindo o risco de fratura de instrumentos, um ganho relevante em termos de durabilidade e confiança clínica.
No tocante à eficiência de limpeza e remoção de detritos, os achados recentes apontam que os dois sistemas apresentam resultados semelhantes, desde que associados a protocolos adequados de irrigação ativa e tempo de permanência do irrigante. Estudos recentes com microtomografia e microscopia eletrônica reforçam que o desempenho da irrigação, mais do que a cinemática isolada, é o principal determinante da remoção de smear layer e da desinfecção do canal. Assim, a eficácia final está menos associada ao tipo de instrumento e mais ao protocolo integrado de instrumentação e irrigação, que deve considerar volume, ativação e tipo de solução utilizada.
Quanto à aplicabilidade clínica, a literatura converge no sentido de que os sistemas reciprocantes proporcionam redução significativa do tempo clínico, simplificação técnica e curva de aprendizado mais curta, aspectos que impactam positivamente na produtividade e na ergonomia. Tais características tornam os instrumentos reciprocantes especialmente indicados para tratamentos endodônticos em cenários de alta demanda, clínicas-escola e serviços públicos, nos quais a eficiência e o custo-benefício são determinantes. Os sistemas rotatórios, por sua vez, mantêm sua importância em situações que exigem controle milimétrico da anatomia ou tratamentos em múltiplas sessões, preservando-se como padrão em protocolos de alta precisão.
Dessa forma, o conjunto de evidências entre 2021 e 2025 permite concluir que a integração racional entre os dois sistemas, a chamada abordagem híbrida, pode representar o futuro da endodontia mecanizada. Essa estratégia combina a eficiência geométrica dos rotatórios com a agilidade e a resistência dos reciprocantes, maximizando o equilíbrio entre tempo operatório, segurança e qualidade morfológica do preparo. Assim, o critério de escolha deve ser individualizado, orientado por evidências e adaptado às condições anatômicas e operacionais de cada caso, reafirmando a endodontia como uma especialidade que alia ciência, tecnologia e sensibilidade clínica.
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1Acadêmica do curso de Odontologia da Faculdade Multivix. E-mail: [heloisa.rodrigues@multivix.edu.br]
2Acadêmico do curso de Odontologia da Faculdade Multivix. E-mail: [marcio.tozzi@multivix.edu.br]
3Acadêmico do curso de Odontologia da Faculdade Multivix. E-mail: [rimuelc.nunes@multivix.edu.br]
4Orientador: Prof. Kleber Borgo Kill – Faculdade Multivix.
