ACOMPANHAMENTO REMOTO DE OBRAS: ANÁLISE COMPARATIVA DE CUSTOS PARA LIBERAÇÃO DE RECURSOS FINANCEIROS

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ni10202601112005


Morais, Osmar Ribeiro de
Orientação: Prof. Mestre Jadson Alberto Borba


Resumo

O acompanhamento e a fiscalização de obras civis são etapas essenciais para assegurar a correta aplicação dos recursos financeiros e a conformidade técnico-contratual dos empreendimentos. Tradicionalmente realizados por meio de vistorias presenciais, esses procedimentos implicam elevados custos logísticos, especialmente em obras situadas a grandes distâncias dos centros decisórios. Com o avanço das tecnologias digitais, o acompanhamento remoto de obras surge como alternativa capaz de ampliar a frequência das verificações, reduzir custos operacionais e aumentar a rastreabilidade das informações utilizadas na liberação de recursos financeiros. Este artigo analisa a viabilidade econômica do acompanhamento remoto de obras civis em comparação à vistoria presencial, com foco no processo de liberação de recursos. A pesquisa adota abordagem exploratória e aplicada, fundamentada em revisão normativa e tecnológica e em um estudo de caso realizado em obra real. Os resultados identificam dois marcos de referência: aproximadamente 51 km de deslocamento, a partir do qual o acompanhamento remoto se torna mais vantajoso para obras de pequeno porte, e 260 km, quando o modelo remoto passa a ser economicamente superior independentemente do porte da obra. Conclui-se que o acompanhamento remoto constitui alternativa viável e eficiente para o aprimoramento da governança e da eficiência administrativa na gestão de obras.

Palavras-chave: acompanhamento remoto de obras; fiscalização de obras; liberação de recursos; viabilidade econômica.

1. Introdução

O avanço de tecnologias digitais, como drones, câmeras 360°, dispositivos móveis e plataformas integradas, amplia as possibilidades de monitoramento a distância, permitindo maior rastreabilidade e transparência no processo de liberação de recursos. Apesar disso, ainda faltam critérios objetivos que orientem a substituição ou a complementaridade entre inspeções presenciais e remotas, sobretudo sob a ótica econômica. Nesse contexto, este artigo analisa a viabilidade econômica do acompanhamento remoto de obras como alternativa à vistoria presencial. Todavia, ainda são escassos critérios objetivos que orientem, sob a perspectiva econômica, a substituição ou complementaridade entre vistorias presenciais e acompanhamento remoto.

2. Metodologia

A pesquisa caracteriza-se como exploratória e aplicada, combinando revisão normativa e tecnológica com um estudo de caso realizado em uma obra real. Foram estimadas e comparados os custos associados às vistorias presenciais e ao acompanhamento remoto, considerando despesas com deslocamento, tempo de permanência em campo, estrutura tecnológica, análise técnica e elaboração de relatórios.

Com base nesses dados, foram construídas funções de custo para cada modelo, de modo a representar como os gastos variam conforme o aumento das distâncias de deslocamento. A partir dessas funções, calcularam-se os valores mínimos e máximos do modelo presencial e do modelo remoto. Essa análise permitiu identificar os pontos de interseção entre os dois modelos, evidenciando em que condições cada abordagem se torna economicamente mais vantajosa.

3. Estudo e Análise de Custos

O estudo de caso permitiu comparar objetivamente os custos da vistoria presencial e do acompanhamento remoto. Verificou-se que os custos presenciais apresentam crescimento linear em função da distância, enquanto os custos do acompanhamento remoto mantêm comportamento constante.

a. Custo da Vistoria Presencial 

A vistoria presencial de obras envolve custos diretos — como mão de obra e despesas com veículo — e custos indiretos, relacionados ao apoio administrativo e logístico, rateados pela distância percorrida. A estimativa desses valores baseou-se em referências normativas, preços de mercado e metodologias de rateio utilizadas em estudos de transporte. A Figura

Figura 1- Funções Lineares do Custo Presencial

1-Funcóes Lineares do Custo Presencial resume os cálculos obtidos nas funções matemáticas respectivas. 

b. Custo da Acompanhamento Remoto

O custo do acompanhamento remoto considerou apenas o desenvolvimento e a manutenção da plataforma de captura de imagens. Quanto à produção dos registros, constatou-se que as construtoras já mantêm, para fins internos de gestão da obra, um portfólio atualizado de imagens, de modo que esse gasto não recai sobre o investidor. Assim, para a estimativa dos custos da Acompanhamento Remoto, adotou-se que: (i) os custos de produção e transmissão das imagens estão incorporados ao orçamento da obra; e (ii) ao órgão financiador competem os custos relacionados à plataforma digital, à sua manutenção e ao trabalho do analista responsável pela avaliação técnica das imagens. Tal premissa não compromete a comparabilidade dos modelos, uma vez que os registros imagéticos já constituem prática consolidada na gestão corrente das obras.

O desenvolvimento e a manutenção da plataforma, bem como o custo unitário da análise técnica, foram tratados como valores constantes por vistoria. Entretanto, devido à volatilidade dos preços de mercado, estimou-se uma faixa de variação mínima e máxima para esses componentes, a qual foi utilizada na construção da Figura 2 – Custos Constantes da Acompanhamento Remoto que representa o comportamento desses custos remotos.

Figura 2 – Custos Constantes da Acompanhamento Remoto

Dessa forma, a estrutura de custos apresentada evidencia que, embora o acompanhamento remoto exija investimentos específicos — sobretudo na plataforma digital, na infraestrutura de armazenamento e na atuação do analista —, parte relevante dos recursos necessários já está incorporada às práticas correntes de registro e controle das obras, como a produção de registros fotográficos para portfólios e o arquivamento de relatórios físicos.

c. Sobreposição das funções 

Ao agregar os dois resultados em um gráfico só, percebe-se que surge duas interseções que estabelecem dois marcos da efetividade econômica de cada tipo de procedimento, vistoria presencial ou acompanhamento remoto. 

A Figura 3 -Sobreposição dos Custos Presenciais x Custos Remotos define em função dos marcos as zonas de efetividade das vistorias.

Figura 3 – Sobreposição dos Custos Presenciais x Custos Remotos

A Figura 4 – Zonas de Efetividade Econômica dos dois Procedimentos traz uma análise de cada faixa

Figura 4 – Zonas de Efetividade Econômica dos dois Procedimentos

4. Discussão

Os resultados obtidos indicam que, a partir de aproximadamente 51 km de deslocamento, o acompanhamento remoto torna-se economicamente mais vantajoso para obras de pequeno porte. Observa-se ainda que, a partir de 260 km, essa alternativa se consolida como a opção de menor custo, independentemente do porte da obra analisada.

Esses marcos objetivos possuem potencial para impactar diretamente a forma de gestão dos contratos de obras, especialmente no que se refere aos processos de verificação, medição e liberação de recursos financeiros. A partir dessas distâncias, os gestores passam a dispor de subsídios técnicos consistentes para a redefinição das estratégias de fiscalização, como a revisão da frequência das vistorias presenciais ou a adoção de modelos híbridos, que combinem o acompanhamento remoto com inspeções in loco. Tais abordagens contribuem tanto para a redução de custos operacionais quanto para a mitigação de riscos associados a fiscalizações esporádicas ou excessivamente onerosas.

Nesse contexto, os achados reforçam o acompanhamento remoto como um instrumento estratégico para o aprimoramento da governança na gestão de obras, ao possibilitar maior frequência de verificações, ampliação da transparência e maior rastreabilidade das informações utilizadas nos processos decisórios financeiros. Destaca-se que a Portaria Conjunta MGI/MF/CGU nº 33, de 30 de agosto de 2023, autoriza e reconhece formalmente o uso da Acompanhamento Remoto em obras públicas. De forma convergente, órgãos como o Tribunal de Contas da União, a Caixa Econômica Federal e o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes, entre outros, já dispõem de dispositivos normativos que, ainda de maneira cautelosa, permitem a seus técnicos a utilização dessas tecnologias no exercício de suas atribuições.

Ressalta-se, entretanto, que, em função das particularidades associadas à localização das obras, ao mercado de atuação, ao tipo de tecnologia empregada e às características operacionais de cada empresa ou instituição, as funções de custo e os marcos identificados podem apresentar variações. Dessa forma, recomenda-se que cada organização realize seus próprios cálculos, a partir da metodologia proposta, com o objetivo de identificar os pontos de maior efetividade econômica de acordo com o seu contexto específico

5. Conclusão

O estudo confirmou que o acompanhamento remoto de obras, utilizando tecnologias digitais como drones, câmeras 360°, smartphones e plataformas integradas, é uma alternativa viável e eficiente ao modelo tradicional de vistoria presencial para a liberação de recursos financeiros. A análise comparativa demonstrou que, enquanto os custos das vistorias presenciais aumentam linearmente com a distância, os custos das vistorias remotas permanecem constantes, tornando-se mais vantajosos a partir de 51 km para obras pequenas e, acima de 260 km, para qualquer porte de obra. Além da economia, o modelo remoto proporciona ganhos em rastreabilidade, transparência e padronização dos processos, fortalecendo a governança e a segurança jurídica na gestão de contratos. A adoção sistemática desse modelo requer superação de barreiras normativas, culturais e tecnológicas, mas representa um avanço relevante para a engenharia, promovendo decisões mais eficientes e seguras na liberação de recursos.

6. Referências

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