REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ni10202602212343
Adriana Sousa Leão; Alba Da Costa Azevedo; Gerismar Cardoso Silva; Josy Barros Noleto De Souza; Kayo Vinícius Coelho Ortegal; Laura Mascarenhas Moraes; Marcelo De Brito Valadares; Pâmela Caroline Moretto; Renata Medeiros Silva; Sara Thaynara Alves Avelar
RESUMO
Introdução – As hepatites virais, transmitidas por via fecal-oral ou parenteral, são um problema de saúde pública global e no Brasil. Apesar de avanços na prevenção, a mortalidade por essas doenças permanece alta. A região Norte, especialmente o Tocantins, apresenta particularidades que influenciam a dinâmica das hepatites virais, com poucas pesquisas sobre a população pediátrica. Este estudo visa analisar o perfil epidemiológico das hepatites virais em crianças e adolescentes do Tocantins entre 2015 e 2024, buscando identificar a prevalência, fatores de risco e o impacto da pandemia de COVID-19. Os resultados poderão subsidiar a implementação de ações de prevenção e controle mais eficazes, contribuindo para a melhoria da saúde da população infantojuvenil da região. Métodos – Estudo observacional ecológico do tipo epidemiológico retrospectivo, descritivo e quantitativo que analisaou casos notificados de hepatites virais na população pediátrica ocorridos entre 2015 e 2024, relacionando os dados encontrados com a pandemia de COVID-19, a qual teve início em 2020 e foi finalizada em 2023. Resultados e discussão – Hepatites virais em crianças, como a Hepatite C, frequentemente se tornam crônicas (70%85%), exigindo diagnóstico precoce e terapias antivirais. A Hepatite A tem alta soroprevalência no Brasil (60,7%) e é associada a baixo nível socioeconômico e às regiões Norte/Nordeste, onde se insere o Tocantins. A vacinação contra o HAV é eficaz para reduzir a incidência. O tratamento do HCV visa a erradicação viral, mas o manejo é complexo em crianças com comorbidades. Conclusão – A investigação das hepatites virais em crianças no Tocantins atesta o predomínio da Hepatite A, refletindo iniquidades socioeconômicas e falta de saneamento. A maior incidência é em pardos, meninos de 5 a 9 anos. A alta cronicidade da Hepatite C exige diagnóstico e terapia precoce. É crucial investir em vacinação, saneamento e vigilância equitativa.
Palavras-chave: Hepatites virais; Perfil epidemiológico; População pediátrica.
ABSTRACT
Introduction – Viral hepatitis, transmitted via fecal-oral or parenteral routes, is a global and national public health problem in Brazil. Despite advances in prevention, mortality from these diseases remains high. The North region, especially Tocantins, has specific characteristics that influence the dynamics of viral hepatitis, with few studies focusing on the pediatric population. This study aims to analyze the epidemiological profile of viral hepatitis in children and adolescents in Tocantins between 2015 and 2024, seeking to identify prevalence, risk factors, and the impact of the COVID-19 pandemic. The results may support the implementation of more effective prevention and control measures, contributing to the improvement of the health of the child and adolescent population in the region. Methods – This was an ecological observational study, retrospective, descriptive, and quantitative in nature, which analyzed reported cases of viral hepatitis in the pediatric population that occurred between 2015 and 2024, relating the data found to the COVID-19 pandemic, which began in 2020 and ended in 2023. Results and Discussion – Viral hepatitis in children, such as Hepatitis C, frequently becomes chronic (70%-85%), requiring early diagnosis and antiviral therapies. Hepatitis A has a high seroprevalence in Brazil (60.7%) and is associated with low socioeconomic status and the North/Northeast regions, where Tocantins is located. Vaccination against HAV is effective in reducing incidence. HCV treatment aims for viral eradication, but management is complex in children with comorbidities. Conclusion – The investigation of viral hepatitis in children in Tocantins confirms the predominance of Hepatitis A, reflecting socioeconomic inequities and lack of sanitation. The highest incidence is among mixed-race (Parda) individuals, boys aged 5 to 9 years. The high chronicity of Hepatitis C requires early diagnosis and therapy. It is crucial to invest in vaccination, sanitation, and equitable surveillance.
Keywords: Viral hepatitis; Epidemiological profile; Pediatric population.
1 INTRODUÇÃO
As hepatites virais formam um conjunto diversificado de enfermidades infecciosas provocadas por diferentes tipos de vírus, cada um apresentando suas próprias características epidemiológicas, manifestações clínicas e aspectos laboratoriais. A forma de transmissão dessas infecções difere conforme o agente causador; a via fecal-oral é típica dos vírus A e E, enquanto os vírus B, C e D são mais frequentemente transmitidos por meio sexual, parenteral e vertical. O período de incubação dessas infecções pode variar, podendo durar até seis meses, dependendo do vírus específico. Ademais, desde 2003, as hepatites virais passaram a ser consideradas um desafio para a saúde pública no Brasil, com a obrigatoriedade de notificação de casos em todo o país (Ferreira, 2019).
A infecção por vírus da hepatite pode ser assintomática, mas frequentemente se manifesta com sintomas gastrointestinais, como náuseas, vômitos e dor abdominal, além da icterícia, que é caracterizada pela coloração amarelada da pele e mucosas. E, segundo Borges (2024), os achados laboratoriais incluem aumento das transaminases, como a alanina aminotransferase (ALT) e a aspartato aminotransferase (AST), e elevação da bilirrubina direta, indicando disfunção hepatocelular.
Apesar dos progressos feitos com a adoção de medidas preventivas e a ampliação da vacinação, as hepatites virais continuam a ser uma preocupação mundial. Embora a Organização Mundial da Saúde (OMS) tenha observado uma diminuição na taxa de novos casos, especialmente da hepatite B, a mortalidade relacionada a essas infecções permanece alta.
Dados globais mostram que, em 2016, cerca de 1,4 milhão de pessoas morreram devido a hepatites virais, incluindo os tipos A e E. No Brasil, o país ainda se encontra entre aqueles com alta prevalência dessas enfermidades, destacando a urgência de intensificar os esforços em diagnóstico precoce e tratamento adequado (Who, 2019).
Nessa perspectiva, destaca-se que a região Norte do Brasil, especialmente o estado do Tocantins, apresenta particularidades que influenciam a dinâmica das hepatites virais. Embora estudos anteriores tenham evidenciado a gravidade da situação em adultos, a baixa quantidade de dados sobre a população pediátrica impede uma compreensão completa da magnitude do problema e a implementação de ações de saúde direcionadas para essa faixa etária. Assim, entende-se que a realização de pesquisas nessa área é fundamental para identificar os fatores de risco e os desafios específicos enfrentados pelas crianças e adolescentes, permitindo a elaboração de estratégias de prevenção e controle mais eficazes
Nesse enfoque, a prevalência de hepatites virais na população pediátrica do Tocantins demanda atenção, especialmente devido às particularidades socioeconômicas e ambientais da Região Norte do Brasil. Como já mencionado, há uma lacuna significativa de estudos epidemiológicos detalhados sobre a dinâmica dessas doenças nessa faixa etária, sobretudo no período pós-pandemia de COVID-19. Compreender o perfil epidemiológico, identificar fatores de risco e mapear áreas de maior prevalência são passos cruciais para subsidiar ações de saúde pública mais eficazes. A pandemia reconfigurou os sistemas de saúde, podendo ter mascarado a real incidência da doença, o que torna imperativo investigar como ela afetou a distribuição das hepatites na infância. Os resultados deste estudo visam fornecer dados para aprimorar a assistência à saúde infantil, auxiliando na formulação de políticas públicas direcionadas à prevenção e ao controle dessas enfermidades.
Destarte, considerando a relevância do tema, torna-se imprescindível a construção de um perfil epidemiológico detalhado das hepatites virais na população pediátrica do estado do Tocantins nos últimos cinco anos. Tal análise permitirá uma compreensão mais aprofundada da situação atual e subsidiará a elaboração de estratégias de controle e combate à doença, contribuindo significativamente para a saúde da população infantojuvenil da região Norte.
2 MATERIAL E MÉTODOS
O presente estudo se caracteriza como uma pesquisa observacional ecológica, com abordagem retrospectiva, descritiva e quantitativa. Nosso principal objetivo é analisar os casos notificados de hepatites virais na população pediátrica do estado do Tocantins, cobrindo o período de 2019 a 2024. A análise buscará estabelecer uma relação entre a incidência da doença e o período da pandemia de COVID-19, que ocorreu entre 2020 e 2023. A coleta de dados será realizada no município de Porto Nacional, Tocantins, e ocorrerá entre fevereiro e novembro de 2025.
A população do estudo inclui todos os casos notificados de hepatites virais em crianças e adolescentes (0 a 18 anos) residentes no Tocantins, registrados no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN) durante o período de 2019 a 2024. Os critérios de inclusão são: ser residente do Tocantins, ter contraído hepatites virais na faixa etária e período especificados, e ter o caso devidamente registrado no portal do DATASUS. Como critérios de exclusão, serão desconsiderados casos de indivíduos que não tiveram a doença, registros incompletos no sistema e casos de residentes de outros estados brasileiros.
Para a coleta de dados, utilizaremos o SINAN, que é a principal fonte oficial de notificação de doenças no Brasil, integrado ao Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (DATASUS). Acessaremos os dados publicamente disponíveis no portal eletrônico do DATASUS. As variáveis a serem analisadas incluem faixa etária, sexo, sintomas clínicos, nível de escolaridade, etnia e a distribuição geográfica dos casos notificados de hepatites virais no estado do Tocantins durante o período de estudo, permitindo uma análise detalhada e abrangente do perfil epidemiológico da doença.
3 RESULTADOS E DISCUSSÃO
As hepatites virais representam um grupo de doenças infecciosas que, embora frequentemente assintomáticas na fase aguda, podem levar a complicações hepáticas crônicas graves, incluindo cirrose e carcinoma hepatocelular, com um impacto significativo na saúde pública global, especialmente na população pediátrica. A compreensão do perfil epidemiológico e da história natural dessas infecções em crianças é crucial para o desenvolvimento de estratégias de prevenção, diagnóstico precoce e tratamento eficaz. A cronicidade das hepatites virais, particularmente a hepatite C (HCV), é uma preocupação notável, ocorrendo em 70% a 85% das crianças infectadas, uma taxa que não difere substancialmente da observada em adultos ou em indivíduos com comorbidades (Pawlotsky et al., 2015). Essa persistência viral exige uma vigilância contínua e a consideração de intervenções terapêuticas oportunas.
Ademais, um aspecto fundamental a ser discernido na análise das hepatites virais na infância é a distinção entre a evolução e o prognóstico em crianças com comorbidades subjacentes, como hemoglobinopatias, cardiopatias, neoplasias e imunodeficiências, que podem ter adquirido a infecção por hemotransfusões. Nesses casos, o tratamento das doenças de base e as próprias condições crônicas podem contribuir para lesões hepáticas adicionais, complicando o manejo (Feld, 2016). É fulcral notar, contudo, que a idade de aquisição da infecção viral pode influenciar o prognóstico a longo prazo. Estudos em grandes populações adultas têm sugerido que a infecção adquirida em idade mais jovem está associada a lesões histológicas hepáticas menos graves. Por exemplo, a cirrose foi menos frequente em pacientes infectados antes dos 20 anos (7,8%) em comparação com aqueles infectados em faixas etárias mais avançadas, chegando a 41% nos indivíduos com 50 a 59 anos de idade (Seeff et al., 2008). A infecção por transmissão vertical, embora possa evoluir para hepatopatia grave em uma pequena proporção de neonatos, geralmente se associa a uma doença hepática mais leve nas primeiras duas décadas de vida, o que reforça a complexidade da história natural dessas infecções na pediatria.
Em outro viés, o objetivo primordial do tratamento da hepatite C crônica em crianças é a obtenção de uma Resposta Virológica Sustentada (RVS), visando à erradicação da infecção e à prevenção de complicações tardias. O clareamento viral espontâneo na população pediátrica é uma ocorrência rara, sendo mais frequentemente observado no genótipo 3 do HCV e nos primeiros cinco anos de vida (Indolfi et al., 2017). A indicação de tratamento é universal para todas as crianças com infecção crônica pelo vírus C e RNA-HCV detectável, enfatizando a importância do diagnóstico precoce e do acesso às terapias antivirais diretas, que revolucionaram o manejo dessa doença. A monitorização da soroprevalência por faixa etária é um indicativo importante da exposição viral e do sucesso das estratégias de prevenção.
Sob outra perspectiva, a hepatite A (HAV) merece destaque devido à sua alta prevalência em algumas regiões. Estudos multicêntricos no Brasil demonstraram uma soroprevalência de anticorpos contra o HAV em 60,7% das crianças entre 1 e 15 anos (Vitola et al., 2012). Notavelmente, observou-se uma soroprevalência significativamente maior no grupo socioeconômico mais baixo e em regiões específicas do país, com maiores taxas nas Regiões Norte e Nordeste, onde se insere o Tocantins. Essa heterogeneidade regional e socioeconômica aponta para a necessidade de intervenções direcionadas. A introdução da vacina contra o HAV, como demonstrado em países como Israel, Estados Unidos, Espanha e Canadá, tem um impacto substancial e rápido na redução da incidência da doença (CDC, 2019). A experiência da Argentina, que implementou um programa de vacinação universal contra o HAV para crianças de 12 meses em 2005, resultou em uma redução de 88% na taxa de incidência em apenas dois anos, com benefícios que se estenderam para outras faixas etárias.
Doravante, a infecção pelo vírus da hepatite C (HCV) na infância merece uma atenção especial devido à sua natureza insidiosa. Uma pequena proporção de indivíduos infectados pelo HCV é composta por crianças, e a manifestação clínica da infecção durante a infância é frequentemente sutil ou ausente, o que contribui para o subdiagnóstico e a lacuna de conhecimento sobre a doença pediátrica em comparação com a infecção em adultos (Brasil, 2011). Apesar de a história natural da infecção pelo HCV adquirida na infância ser geralmente benigna na maioria dos casos, é alarmante que 4% a 6% dos pacientes progridam para cirrose e insuficiência hepática ainda na infância, necessitando de um monitoramento contínuo (Llanillo, 2003). A cronicidade do HCV ocorre em uma proporção significativa, variando de 70% a 85% das crianças infectadas, uma taxa que se assemelha à observada em adultos, independentemente da presença de doenças de base. É fundamental diferenciar a evolução e o prognóstico em crianças que contraíram a infecção por hemotransfusões, especialmente aquelas com condições crônicas graves associadas, como hemoglobinopatias, cardiopatias, neoplasias e imunodeficiências. Nessas crianças, que representam pelo menos 40% do total de infectados, o próprio tratamento das comorbidades pode contribuir para lesões hepáticas adicionais, complexificando o manejo e reforçando a necessidade de abordagens terapêuticas personalizadas e multidisciplinares (Peters & Terrault, 2017).
Gráfico 1: Distribuição por raça dos infantes acometidos por hepatite viral no estado do Tocantins entre os anos de 2014 a 2023.

E, ao pensar na população tocantinense, Pereira et al. (2023) identificaram como padrão em seu estudo o maior número de diagnósticos em crianças que possuíam entre 5 e 9 anos de idade, com predomínio de indivíduos do sexo masculino e de cor parda. Tal perfil epidemiológico pode ser observado no gráfico 1, o qual evidencia maior incidência de crianças pardas em todos anos analisados por este estudo.
4 CONCLUSÃO
A presente investigação do perfil epidemiológico das hepatites virais na população pediátrica do Tocantins atesta o predomínio da Hepatite A, o qual reflete as iniquidades socioeconômicas e o acesso desigual a saneamento básico e saúde de qualidade, fatores notoriamente associados à prevalência da doença em regiões com o perfil do Tocantins. A alta taxa de cronicidade da Hepatite C na infância, que pode atingir 70% a 85%, exige vigilância contínua e a priorização do diagnóstico precoce e do acesso às terapias antivirais diretas, que se mostraram transformadoras no manejo. Adicionalmente, a maior incidência de casos em crianças de 5 a 9 anos, predominantemente do sexo masculino e de cor parda, aponta para a necessidade premente de intervenções direcionadas que reconheçam e atuem sobre os determinantes sociais e ambientais da doença, em consonância com o perfil de vulnerabilidade da população.
Outrossim, a experiência internacional com a vacinação contra o HAV demonstra o impacto substancial e rápido na redução da incidência, o que reforça a necessidade de manter altas coberturas vacinais e de intensificar a educação em saúde e higiene. É fundamental que as ações de rastreamento de Hepatites B e C sejam robustas na gestação para prevenir a transmissão vertical e que o tratamento seja prontamente acessível. Desse modo, defende-se que a erradicação das hepatites virais na infância passa necessariamente pelo investimento em infraestrutura sanitária e por um programa de vigilância epidemiológica pediátrica que seja sensível às disparidades regionais, garantindo que o direito à saúde não seja determinado pela raça ou pela localização geográfica.
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6 ANEXOS
Gráfico 1: Faixa etária da incidência de casos de hepatites virais em população pediátrica no estado do Tocantins entre os anos de 2015 a 2024.

Gráfico 2: Sexo da incidência de casos de hepatites virais em população pediátrica no estado do Tocantins entre os anos de 2015 a 2024.

