ACHADOS AUDIOLÓGICOS DE UM RECÉM-NASCIDO COM COVID-19: RELATO DE CASO

AUDIOLOGICAL FINDINGS OF A NEWBORN WITH COVID-19: CASE REPORT

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202507221948


Ariane de Macedo Gomes1
Paulo Ricardo Gazzola Zen2
Pricila Sleifer3


Resumo: 

A COVID-19 foi declarada como uma emergência global. Ela surgiu de modo pandêmico e ainda no público neonatal e infantil desconhecemos todos os impactos trazidos por ela. Os autores descreveram o caso de um RN com diagnóstico confirmado de COVID-19 e correlacionaram com os achados audiológicos obtidos. O resultado que chamou mais atenção, foi nas medidas de imitância acústica, pois todos os reflexos acústicos foram ausentes. Além disso, no monitoramento auditivo (aos nove meses), esses reflexos continuaram ausentes, houve redução da amplitude das respostas nas EOAT e redução dos valores de passa no PEATE-A. Essas alterações sugerem que o sistema auditivo pode ser afetado por esse vírus e ocasionar alterações, principalmente, a nível central, podendo provocar prejuízos na aquisição da linguagem. 

Palavras-chave: COVID-19, audição, criança, testes auditivos

Introdução

A COVID-19 foi declarada como uma emergência global em 31 de janeiro de 20201. Por se tratar de uma doença nova, que surgiu de modo pandêmico, inúmeros estudos foram e continuam sendo realizados, pois ainda desconhecemos todos os impactos desse vírus, principalmente, no público neonatal e infantil. 

Com relação às repercussões da COVID-19 no sistema auditivo, foi constatado possíveis acometimentos nas estruturas sensoriais e mecânicas.2 Deste modo, os achados audiológicos são diversos sendo observada: perda auditiva neurossensorial, condutiva e mista, uni/bilateral, leve/profunda, progressiva ou não.3

Além disso, sabe-se que algumas doenças virais causam alterações auditivas, como: sarampo, citomegalovírus e rubéola congênita, por isso, são considerados como indicadores de risco para a deficiência auditiva (IRDA) tanto no contexto congênito, perinatal ou tardio4

É importante destacar que na literatura científica compulsada com a população neonatal, há estudos que investigaram os achados audiológicos nos recém-nascidos de mães que positivaram para a COVID-19. Em alguns, os resultados constataram efeitos na audição desses recém-nascidos5,6,7,8,9. Ressalta-se que não foram encontrados estudos de recém-nascidos com diagnóstico confirmado de COVID-19 relacionados com os impactos auditivos, portanto, o objetivo deste relato é descrever os achados audiológicos de um recém-nascido (RN) com COVID-19 confirmado e monitorar estes achados. 

Descrição do Caso

Este relato de caso foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (nº 5.778.791) da Universidade onde foi realizada a coleta dos dados. O responsável assinou o termo de consentimento livre e esclarecido. 

Trata-se de um RN com diagnóstico de COVID-19 confirmado por exame de RT-PCR. O RN nasceu de parto cesárea pesando 2930g, apgar 8/9, idade gestacional 39 semanas. Não apresentava IRDA em sua história clínica. Este RN foi atendido ambulatorialmente com um mês de vida por uma fonoaudióloga com expertise há mais de anos na área de audiologia clínica. Após, os resultados foram revisados por outra fonoaudióloga também com experiência na área. As avaliações audiológicas foram realizadas todas no mesmo dia e foram elas: emissões otoacústicas evocadas transientes (EOAT), potencial evocado auditivo de tronco encefálico automático (PEATE-A), potencial evocado auditivo de tronco encefálico- protocolo neurológico (PEATE) e medidas de imitância acústica (curva timpanométrica e pesquisa dos reflexos acústicos). Nos exames de EOAT, PEATE-A, PEATE e curva timpanométrica foram obtidos resultados dentro dos padrões de normalidade. No entanto, os reflexos acústicos ipsi e contralaterais foram ausentes em todas as frequências em ambas as orelhas, mesmo apresentando curva timpanométrica tipo A bilateral. 

Este sujeito positivou novamente para COVID-19 com dois meses de idade. Segundo a mãe, ela relatou que ele apresentou vários episódios de bronquiolite. Aos nove meses de vida da criança, todas as avaliações foram realizadas novamente, para monitoramento audiológico. Nesta foi verificada timpanometria da orelha direita com curva tipo Ad, no entanto, a orelha esquerda continuou com curva tipo A. Todos os reflexos acústicos ipsi e contralaterais continuaram ausentes. As EOAT foram presentes, mas com redução da amplitude das respostas em todas as frequências. O PEATE-A foi presente, mas com redução dos valores de passa e o PEATE estava dentro da normalidade. 

Discussão

Os achados audiológicos que chamam atenção nesta descrição é a ausência dos reflexos acústicos com curva timpanométrica indicando boa mobilidade do sistema tímpano-ossicular e EOAT presentes, pois com essas respostas possibilitaria a presença de reflexos acústicos. Esta condição pode ser indicativa de déficit central, pois o reflexo acústico é uma contração involuntária da musculatura da orelha média, no entanto, para que esta contração ocorra é necessário que as vias auditivas aferentes, eferentes e de associação estejam em funcionamento pleno10,11

Assim, essa ausência de reflexos acústicos pode estar relacionada com alterações de processamento auditivo, deste modo, alguma habilidade auditiva poderia estar alterada. Cabe ressaltar, que as alterações nessas habilidades podem influenciar a aquisição e o desenvolvimento da linguagem e posteriormente a aprendizagem10,12. Além disso, as funções do reflexo acústico estão correlacionadas com a capacidade de localização sonora, de detecção da fala, da melhora da atenção auditiva e inteligibilidade de fala, da atenuação do efeito do ruído ambiental na compreensão da fala13.

Com relação à diminuição da amplitude das respostas da relação sinal/ruído nas EOAT, este achado corrobora com outras pesquisas com pacientes com COVID-194,14.

É importante mencionar que no estudo de Ghiselli et. al., 202215, o único RN que apresentou modificações nos limiares auditivos, apresentou swab positivo para COVID-19, mesmo tendo ausência de IRDA na história clínica.        

Conclusão

A COVID-19 no RN mostrou acometimentos no sistema auditivo inicialmente na avaliação de medidas de imitância acústica. No acompanhamento pode-se perceber que houve uma piora dos achados audiológicos em algumas avaliações, frisando a necessidade de acompanhamento da audição nesta doença. 

Referências

  1. Pan American Health Organization. Histórico da pandemia de COVID-19 (Publicação na Folha Informativa sobre COVID-19). Organização Mundial da Saúde. [citado em 2020]. Disponível em: https://www.paho.org/pt/covid19/historico-da-pandemia-covid-19 
  2. Ribeiro GE, Silva DPC. Audiological implications of COVID-19: an integrative literature review. Rev CEFAC. 2021; 23(1): 1-7.
  3. Kozan SNG, Conde AG, Júnior HTC. The effect of the SARS-CoV-2 virus on hearing in adult patients. Brazilian Journal of Health Review. 2022; 5(3): 8817-31. 
  4. Mustafa MWM. Audiological profile of asymptomatic Covid-19 PCR-positive cases. Am J Otolaryngol. 2020; 41(3): 102483. 
  5. JOINT COMMITTEE ON INFANT HEARING. Year 2019 Position Statement: Principles and Guidelines for Early Hearing Detection and Intervention Programs. The Journal of Early Hearing Detection and Intervention. 2019; 4(2):13–44. 
  6. Alan MA, Alan C. Resultados da triagem auditiva em recém-nascidos de gestantes positivas para SARS-CoV-2. Jornal Internacional de Otorrinolaringologia Pediátrica. 2021; 146: 110754.
  7. Celik T, Simsek A, Koca CF, Aydin S, Yasar S. Evaluation of cochlear functions in infants exposed to SARS-CoV-2 intrauterine. American Journal of Otolaryngology-Head and Neck Medicine and Surgery. 2021; 42: 102982.
  8. Veeranna SA, Youngblood PL, Bradshaw L, Marx CG. COVID-19 during pregnancy and its impact on the developing auditory system. American Journal of Otolaryngology-Head and Neck Medicine and Surgery. 2022; 43: 103484.
  9. Yildiz G et.al. Hearing test results of newborns born from the coronavirus disease 2019 (COVID-19) infected mothers: A tertiary center experience in Turkey. J Obstet Gynaecol Res. 2022; 48(1): 113-8.  
  10. Pereira AEL, Anastasia ART. Reflexo acústico: Aplicações Clínicas. In: Boèchat EM, eds. Tratado de Audiologia. 2ª edição. Santos; 2015. Pág. 89-94.
  11. Sleifer P. Avaliação eletrofisiológica da audição em crianças. In: Cardoso MC. Fonoaudiologia na infância: avaliação e tratamento. Rio de Janeiro: 2015. Pág. 171-94.  
  12. Franciozi C, Borges VMS, Sleifer P. Association between the claim of learning and the absence of contralateral acoustic reflection. Europub Journal of Health Research. 2022; 3 (4): 354-360. Disponível em: https://ojs.europubpublications.com/ojs/index.php/ejhr/article/view/221
  13. Anastasio ART, Momensohn-Santos TM. Identificação de sentenças sintéticas (SSI) e reflexo acústico contralateral. Pró-Fono. 2005;17(3):355-66.
  14. Bozdemir K, Çallıoğlu EE, İslamoğlu Y, Ercan MK, Eser F, Özdem B, et. al. Evaluation of the effects of Covid-19 on cochleovestibular system with audiovestibular tests. Ear, Nose & Throat Journal. 2022. Disponível em: https://doi.org/10.1177/01455613211069916
  15. Ghiselli S. et.al. Auditory evaluation of infants born to COVID19 positive mothers. American Journal of Otolaryngology-Head and Neck Medicine and Surgery. 2022; 43: 103379.  

1 ORCID: 0000-0001-5346-2020, discente do programa de pós-graduação em Patologia pela Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA), Porto Alegre, Brasil; e fonoaudióloga do Hospital Escola da Universidade Federal de Pelotas, Pelotas, Brasil.
2 ORCID: 0000-0002-7628-4877, professor do departamento de Clínica Médica, Genética Clínica e do programa de pós-graduação em Patologia da UFCSPA, Porto Alegre, Brasil.
3 ORCID: 0000-0001-6694-407X, professora do departamento de audiologia, saúde e comunicação humana da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Porto Alegre, Brasil.