ABUSO E DEPENDÊNCIA DOS BENZODIAZEPÍNICOS: UMA REVISÃO INTEGRATIVA

BENZODIAZEPINE MEDICATIONS’S ABUSE AND DEPENDENCE: AN INTEGRATIVE REVIEW

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/dt10202509102229


André Luis Bernuzzi Leopoldino1
Viviane Rodrigues Esperandim2


RESUMO

Os benzodiazepínicos (BZDs) são sedativos e hipnóticos que têm o poder de diminuir as SNC, resultando em tranquilidade e sonolência, sendo, portanto, muito utilizados no tratamento da ansiedade, depressão e insônia. No entanto, o aumento generalizado do seu uso está se tornando mais comum em várias partes do mundo. Diante disso, visou-se fazer uma revisão de literatura sobre o uso prolongado de BZDs e as complicações decorrentes de sua utilização. Para isso, utilizou-se uma revisão integrativa por ser possível reunir, analisar e resumir os resultados sobre esse tema. Estabeleceu-se como pergunta-chave: “Qual a incidência e consequências do uso indiscriminado de BZDs no Brasil?” A partir daí, foi utilizada como plataforma a BVS e as seguintes bases de dados: LILACS, BDENF e MEDLINE. Os DeCS adotados para a análise foram: Depressão, Ansiedade, BZDs, Abuso e População Brasileira. Os critérios de inclusão foram: língua portuguesa, texto completo e publicados nos últimos dez anos 2014-2024. Após isso, pode-se observar que, dentre o perfil dos usuários dos BZDs, de 2.3% a 18 % das pessoas já utilizaram sedativos ou ansiolíticos de forma inadequada para fins não médicos em algum momento de suas vidas; dessas pessoas aproximadamente 10% preencheram os critérios para abuso ou dependência. No Brasil, a atenção primária disponibiliza tais medicamentos gratuitamente e sem controle de dispensação. Logo, é importante que haja um controle mais eficiente da dispensação de medicamentos na assistência farmacêutica e é essencial elaborar políticas para garantir que as prescrições sejam apropriadas em termos de indicação e uso.

Palavras-chave: Ansiedade, Benzodiazepínicos, Abuso, População Brasileira.

ABSTRACT

Benzodiazepines (BZDs) are sedatives and hypnotics that have the power to reduce central nervous system (CNS), resulting in tranquility and drowsiness. Therefore, they are widely used in the treatment of anxiety, depression, and insomnia. However, their widespread use is becoming more common in various parts of the world. Therefore, we aimed to conduct a literature review on the prolonged use of BZDs and the complications arising from their use. An integrative review was used to gather, analyze, and summarize the results on this topic. The key question was established: “What is the incidence and consequences of the indiscriminate use of BZDs in Brazil?” From this, the BVS and the following databases were used as a platform: LILACS, BDENF, and MEDLINE. The DeCS databases adopted for the analysis were: Depression, Anxiety, BZDs, Abuse, and Brazilian Population. The inclusion criteria were: Portuguese language, full text, and publication in the last ten years (2014–2024). Furthermore, it can be observed that, among the profile of BZD users, 2.3% to 18% of people have used sedatives or anxiolytics inappropriately for non-medical purposes at some point in their lives; of these individuals, approximately 10% met the criteria for abuse or dependence. In Brazil, primary care provides these medications free of charge and without dispensing control. Therefore, it is important to have more efficient control over medication dispensing in pharmaceutical services, and it is essential to develop policies to ensure that prescriptions are appropriate in terms of indication and use.

Keywords: Anxiety, Benzodiazepines, Abuse, Brazilian Population.

1. Introdução

Os transtornos mentais acarretam grande impacto na qualidade de vida do paciente e de seus familiares. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS, 2017), existem 322 milhões de pessoas que convivem com depressão, sendo que esse número cresceu 18.4% desde 2005. Em relação à ansiedade estimou-se que 264 milhões de pessoas sofrem dessa comorbidade, representando também um avanço de 14.9% em relação a 2005 (OMS, 2017).

Um levantamento do Ministério da Saúde (MS) indica que a incidência de doenças mentais na população é de 23 milhões de brasileiros, sendo que 12% necessita de algum atendimento e, pelo menos, 5 milhões sofrem com transtornos mentais graves e persistentes (GUIMARÃES et al, 2021; MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2020; MOUTINHO, 2018).

Os Benzodiazepínicos (BZDs) são fármacos que possuem a capacidade de deprimir o Sistema Nervoso Central (SNC), sendo considerados excelentes fármacos no tratamento da ansiedade e insônia. Apresentam como principais características: redução da ansiedade, sedação, relaxamento muscular, amnésia anterógrada e efeito anticonvulsivante (GUIMARÃES, 2013).

No entanto, vale ressaltar que os benzodiazepínicos são fármacos que devem ser usados com prescrição médica e na maioria das vezes por um tempo limitado. Todavia, não é incomum que muitas pessoas, dentre eles os estudantes de medicina, utilizem de maneira discriminada tais medicamentos com o objetivo de buscar uma saída fácil para resolver os fatores estressantes ao longo da graduação. Isso cria um novo cenário que pode vir a desencadear dependência e vários efeitos colaterais (ROCHA et al, 2013).

Sobre esse assunto, há muitos anos se reconhece o uso indiscriminado de benzodiazepínicos no mundo, principalmente a utilização por longos períodos e em situações injustificadas. O uso de psicofármacos vem crescendo exponencialmente nos últimos anos, sendo que tal aumento está relacionado à maior incidência de diagnósticos de transtornos psiquiátricos (ROCHA et al, 2013).

O uso de psicofármacos deve ser feito de maneira consciente, já que possuem diversos efeitos colaterais, causam dependência e, em uso prolongado, pode agravar doenças crônicas pré-existentes. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o uso racional de medicamentos é caracterizado quando o paciente recebe o medicamento apropriado à sua necessidade clínica, na dose e posologia corretas, por um período de tempo adequado e ao menor custo para si e para a comunidade. (ROCHA et al, 2013). Entretanto, os benzodiazepínicos estão entre os cinco medicamentos controlados mais vendidos no Brasil, sendo o maior consumo nas regiões com alta densidade populacional e maior concentração de médicos (AZEVEDO et al, 2016). 

Diante do cenário de aceleração dos casos de depressão, ansiedade e uso de benzodiazepínicos, torna-se necessário refletir sobre esse contexto na da população brasileira. Tal fato deve ser tratado como um seríssimo problema de saúde pública e que necessita de maior atenção pelos governantes do Brasil.

1.1 Área Temática

Este trabalho foi desenvolvido baseado na área temática da clínica médica, mais especificamente na subárea de psiquiatria/psicologia.

1.2 Objetivo

O objetivo deste trabalho foi realizar uma revisão da literatura acerca do uso prolongado de benzodiazepínicos e das complicações decorrentes dessa prática.

1.3 Metodologia

Esse estudo consistiu em uma revisão integrativa. A escolha de tal método se baseou no fato de que ele é possível reunir, analisar e resumir os resultados de pesquisas sobre um determinado tema. 

A partir de tal metodologia estabeleceu-se a pergunta chave para a pesquisa: “Qual a incidência e consequências do uso indiscriminado e abusivo de benzodiazepínicos na população brasileira?”

Diante disso, foi utilizada como plataforma a Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) e as seguintes bases de dados: LILACS (Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde, BDENF (Base de Dados em Enfermagem) e MEDLINE (Sistema Online de Busca e Análise de Literatura Médica).

Os Descritores em Ciências da Saúde (DeCS) adotados para a análise foram: “Depressão”, “Ansiedade”, “Benzodiazepínicos”, “Abuso” e “População Brasileira”. Os critérios de inclusão dos estudos eram compostos de artigos em português, texto completo e publicados nos últimos dez anos (2014-2024). Em contrapartida, os critérios de exclusão englobavam estudos que não se alinhassem com o objetivo da pesquisa, artigos duplicados, aqueles que não estivessem disponíveis em formato de texto completo e/ou que tivessem sido publicados fora do intervalo cronológico estipulado.

2. Resultados

A partir da coleta nas bases de dados, selecionaram-se quatro artigos e para facilitar e melhor apresentar os artigos incluídos na revisão, foi apresentada a Tabela 1 com: título, país/ano de publicação, delineamento, objetivos e resultados. Vale a pena destacar que os artigos foram apontados nesse trabalho como A1, A2, A3 e A4, para facilitar as citações ao longo do trabalho.

Tabela 1: Estratificação dos estudos para análise por título, país/ano de publicação, delineamento, objetivo e conclusão.

TítuloPaís/Ano de PublicaçãoDelineamentoObjetivoResultados
Benzodiazepínicos: uma revisão de literatura sobre uso indiscriminado, dependência e efeitos colaterais (A1)Brasil2024Revisão bibliográficaIdentificar os efeitos colaterais decorrentes do uso prolongado e inadequado de benzodiazepínicos, com base em uma revisão da literatura, considerando suas propriedades farmacocinéticas e farmacodinâmicas.Os BZDs são medicamentos valiosos, mas seu uso irresponsável representa uma ameaça significativa à saúde pública
Uso abusivo e indiscriminado de benzodiazepínicos por atuantes da área da saúde: uma revisão narrativa (A2)Brasil2022Revisão NarrativaCompreender o uso de benzodiazepínicos entre os estudantes e profissionais da área da saúde, identificando as causas associadas ao uso e compreendendo os motivos precipitantes e a ciência dos riscos de dependência.Os psicofármacos tem sido usado de forma indiscriminadamente entre estudantes e profissionais da saúde devido a rotina intensa de estudos e da vida profissional corrida. Assim, inúmeros são os malefícios do uso de benzodiazepínicos quando usado sem indicação médica
Consumo de Benzodiazepínicos relacionados a saúde mental nos últimos 10 anos: uma revisão integrativa (A3)Brasil2021Revisão IntegrativaAvaliar na literatura o consumo de benzodiazepínicos relacionados a saúde mental nos anos de 2011 a 2021.Os indivíduos com maior risco de abuso de BZD, particularmente, são aqueles com histórico pessoal ou familiar de transtorno por uso de substâncias. É fundamental verificar a saúde mental antes de prescrever, usar alternativas mais seguras e fazer intervenções apropriadas para combater o uso contínuo.
Uso e abuso dos benzodiazepínicos: revisão bibliográfica para os profissionais de saúde da atenção básica (A4)Brasil, 2014Revisão IntegrativaRealizar uma revisão de literatura sobre o consumo de benzodiazepínicos por usuários da atenção básica, suas causas, consequências, bem como medidas para minimizar e prevenir o consumo exagerado e indiscriminado dessas medicações.Com o crescente uso de BZDs, é preciso um controle mais rigoroso da assistência farmacêutica na dispensação dessas medicações, além de criar políticas públicas no sentido de certificar se as indicações e o uso estão corretos.
Fonte: elaborado pelo autor

3. Discussão

3.1 Os benzodiazepínicos e seu uso abusivo

Os fármacos benzodiazepínicos são sedativos e hipnóticos que têm o poder de diminuir as atividades do Sistema Nervoso Central (SNC), resultando em tranquilidade ou sonolência. Eles são usados no tratamento de distúrbios de ansiedade e crises epilépticas; na desintoxicação de álcool e outras substâncias; além da indução de sedação e amnésia em procedimentos invasivos (JÚNIOR 2022).

Os impactos dos benzodiazepínicos decorrem de como interagem com os receptores de neurotransmissores que desempenham um papel de freio no cérebro. É a ligação com o Ácido Gama-Aminobutírico (GABA-A) que está associada aos benefícios calmantes e indutores de sono dessas substâncias. Essas interações também explicam a razão pela qual ocorre o desenvolvimento de dependência em relação a esses remédios, contribuindo para seu uso inadequado (JÚNIOR, 2022).

Os benzodiazepínicos exercem seus efeitos ao interagir com os receptores de neurotransmissores que desempenham um papel de supressão no cérebro. A ligação com o Ácido Gama-Aminobutírico (GABA-A) é responsável pelos impactos tranquilizantes e indutores do sono dessas substâncias. Essas interações também justificam o desenvolvimento da dependência dessas drogas, bem como sua propensão ao uso indevido (JÚNIOR 2022).

Além disso, os impactos dos benzodiazepínicos no corpo podem variar entre as pessoas. Esses fármacos têm uma forte afinidade com as proteínas no plasma, o que faz com que se acumulem em regiões com alta concentração de gordura corporal e lipídios. Uma vez que o Sistema Nervoso Central é rico nesse tipo de tecido, esses remédios costumam se acumular exercendo sua influência principalmente nessa área (SILVA 2022).

O aumento generalizado e indiscriminado do uso de benzodiazepínicos está se tornando mais comum em várias partes do mundo de acordo com informações epidemiológicas. A prescrição desses medicamentos continua a crescer constantemente em muitos lugares – uma tendência que levanta preocupações legítimas. Embora a extensão desse padrão possa variar entre regiões e grupos populacionais diversos; dados consistentemente convincentes reforçam que este é um problema de saúde pública em expansão (MATOS 2024). 

As razões por trás do uso excessivo de benzodiazepínicos (BZDs) são bastante complexas. Muitas pessoas recorrem a esses medicamentos em busca de uma solução rápida e efetiva para sintomas intensos de ansiedade e insônia que podem impactar consideravelmente sua qualidade de vida. Atraídas pelos efeitos calmantes e tranquilizantes dos BZDs, elas enxergam nesses fármacos uma forma de obter alívio imediato durante momentos de crise emocional sem sempre compreenderem plenamente os riscos envolvidos em seu uso (MATOS 2024).

Uma outra razão muito importante está relacionada diretamente ao uso indevido de substâncias. Quando os BZDs são combinados com álcool ou outras substâncias que diminuem o funcionamento do sistema nervoso central, os efeitos sedativos podem ser drasticamente amplificados, levando a um maior desejo por sensações de relaxamento ou felicidade. Essa motivação, geralmente ligada à autogestão, pode levar a padrões de consumo prejudiciais e ao desenvolvimento de comportamentos arriscados, tornando ainda mais complexas as questões associadas ao uso indiscriminado de BZDs (MATOS 2024).

3.2 Perfil do usuário e do consumo

De acordo com Firmino (2008), quando se trata do uso excessivo de BZDs (benzodiazepínicos), é possível distinguir duas formas de abuso e consequentemente dois perfis distintos de utilizadores. O primeiro tipo de abuso é classificado como “recreativo” ou negligente; enquanto o segundo é caracterizado como crônico (consumir diariamente pelo menos um comprimido por um período igual ou superior a 12 meses), porém responsável. Em muitos casos comuns de abuso de drogas ou álcool (principalmente opióides), uma característica distintiva é o uso prolongado em doses elevadas sem aconselhamento médico específico para obter os benefícios desejados (GUIMARÃES 2013).

De acordo com Friedman et al. (1996) e (XAVIER, 2010), os usuários persistentes de benzodiazepínicos podem ser categorizados em quatro grupos principais:

1. Usuários médicos: Indivíduos que recebem benzodiazepínicos prescritos por um médico, incluem aqueles com problemas musculoesqueléticos e neurológicos; raramente há casos de abuso ou dependência entre pacientes sob cuidado médico adequado.

2. Usuários diurnos: indivíduos que tomam benzodiazepínicos para problemas de saúde mental, incluem pessoas com ansiedade crônica que são clinicamente mais jovens e não têm doenças físicas aparentes; eles usam o medicamento por um período curto de tempo.

3. Usuários noturnos: Pessoas que lidam com problemas crônicos de sono tendem ser o grupo principal entre aqueles que usam benzodiazepínicos; geralmente mais velhos e do sexo feminino são os que mostram maior resistência em buscar ajuda ao se tornarem dependentes.

4. Poliusuários de drogas: Indivíduos que integram um grupo reduzido de pacientes que consomem diferentes drogas ilícitas de forma indiscriminada e ilegal são frequentemente jovens e consomem doses elevadas diárias de BZDs, enfrentando uma variedade de questões médicas e sociais resultantes do uso excessivo dessas substâncias proibidas. Com frequência é necessário interná-los em ambientes hospitalares para desintoxicação adequada devido à utilização simultânea de várias substâncias.

No Brasil a atenção primária disponibiliza benzodiazepínicos gratuitamente através de programas do governo sem um controle rigoroso e com acesso facilitado a essas substâncias medicamentosas. Um estudo realizado em Curitiba analisou informações sobre pacientes que adquiriram benzodiazepínicos em farmácias e constatou que 61 % estavam em uso contínuo ​por mais de um ano. Desses, 94 % não conseguiram interromper o tratamento. Apenas 22 % receberam orientações sobre a duração do tratamento (GUIMARÃES, 2013). 

Em relação à população idosa, um estudo realizado com idosos cadastrados em uma Unidade de Saúde da Família na cidade de Diamantina revelou o seguinte: a prevalência é maior na faixa etária de 71 a 75 anos, com 88,88 % do sexo feminino, especialmente entre viúvas e aposentadas. Nestas mulheres, a prevalência é mais alta devido ao risco de isolamento social, o que resulta em uma incidência maior de depressão e ansiedade (GUIMARÃES, 2013 ).

Ainda, de acordo com o mesmo estudo sobre o grupo em questão, revelou-se que a maioria dos participantes possuíam apenas ensino fundamental incompleto (66.66%). O medicamento mais prescrito foi novamente o Diazepam, citado em 59.7 % dos casos (GUIMARÃES ,2013).

3.3 Os benzodiazepínicos e seus efeitos adversos

A má utilização e o abuso de benzodiazepínicos são questões em ascensão atualmente; de acordo com um estudo realizado por (Naloto et al., 2016), entre 2.3 % a 18 % das pessoas já utilizaram sedativos ou tranquilizantes de forma inadequada para fins não médicos em algum momento de suas vidas; dessas pessoas aproximadamente 10 % preencheram os critérios para abuso ou dependência dessas substâncias. Em uma pesquisa realizada no Brasil foi descoberto que os benzodiazepínicos ocuparam a terceira posição na lista das substâncias mais consumidas por entre os 8589 participantes entrevistados (HERNEST0, 2021).

O uso frequente de benzodiazepínicos (BZDs) tem um impactante conjunto de efeitos colaterais que afetam negativamente a saúde dos indivíduos e podem resultar em dependência física e psicológica ao medicamento e manifestação de sintomas de retirada ao interromper seu uso regularmente. Como mencionado no relatório do Conselho Internacional de Controle de Narcóticos (INCB), divulgado em 2011 sobre substâncias que afetam o sistema nervoso central (SNC), o Diazepam é reconhecido mundialmente como o benzodiazepínico mais amplamente utilizado. Além disso, é importante destacarmos que o Brasil está em segundo lugar no ranking mundial de consumo de Clonazepam, sendo superado somente pelos Estados Unidos (MATOS 2024).

A utilização prolongada de BZDs também está associada a diversos sintomas secundários como: sonolência excessiva, deterioração da memória e prejuízo cognitivo, elevando o risco de quedas em idosos. No entanto, muitos pacientes que fazem uso crônico desses medicamentos tendem a minimizar ou ignorar os possíveis efeitos adversos ou apresentam resistência à ideia de interromper o tratamento, o que pode indicar uma dependência psicológica que frequentemente se desenvolve nessas circunscritos (MATOS, 2024).

Além disso, é importante considerar que o uso prolongado e desnecessário de BZDs pode impactar negativamente as funções cognitivas das pessoas idosas. Isso gera preocupações adicionais sobre a utilização dessas substâncias além do risco de dependência, inclui também a possibilidade de quedas e outros eventos adversos associados aos BZDs (MATOS, 2024).

Tabela 2: Principais problemas decorrentes do Uso Indiscriminado de BZDs

Dependência e Tolerância
Sintomas de Abstinência
Efeitos Colaterais
Risco de Overdose
Prejuízos Cognitivos
Risco de Quedas e Acidentes
Complicações de Saúde Mental
Associação com Outros Distúrbios de Saúde
Uso Combinado com Álcool e Outras Drogas
Impacto na Qualidade de Vida
Fonte: (MATOS, 2024).

3.4 Uso por estudantes atuantes na área da medicina

A entrada no ensino superior marca um momento crucial na vida do estudante. Os cursos na área da saúde apresentam uma grande quantidade de conteúdo desde o princípio juntamente com uma carga horária intensiva. Além das pressões provenientes de questões familiares pessoais dos educadores e da sociedade em geral impactam de maneiras diversas o aluno que pode resultar no descontrole no uso de diferentes substâncias ilícitas (JÚNIOR, 2022).

Muitos estudos descrevem o perfil epidemiológico do uso excessivo ou abusivo de benzodiazepínicos com foco em estudantes universitários e profissionais da área da saúde. De acordo com os autores, a possível justificativa para o uso indiscriminado está relacionada à pressão desde época do vestibular, promovendo um cenário de estresse que persiste e se agrava ao longo da vida acadêmica (JÚNIOR, 2022).

Em relação à faixa etária em que ocorrem predominantemente o uso de remédios para ansiedade, jovens entre 18 e 25 anos estão no topo da lista como os consumidores mais frequentes dessas substâncias tranquilizantes. Estudos revelaram que cerca de 37% dos estudantes universitários fazem uso inadequado dessas medicações para ansiedade. Além disso, aproximadamente 20 % dos universitários matriculados em cursos na área da saúde utilizam regularmente remédios para ansiedade. Além disso, há uma correlação mais forte com o aumento da intensidade dos sintomas de ansiedade. Quando esses sintomas atingem um nível moderado ou grave, observa-se um aumento no uso de medicamentos benzodiazepínicos juntamente com Inibidores Seletivos da Recaptação de Serotonina (ISRS), que são as classes mais comuns utilizadas (JÚNIOR, 2022).

O uso dessas medicações é mais comum entre as mulheres, não só devido à maior carga que enfrentam, mas também ao fato de procurarem serviços médicos com maior frequência. Segundo um estudo realizado por (Leão AM et al., 2018), que envolveu estudantes universitários da área da saúde no Brasil, foi observado que a ansiedade era mais prevalente nesse grupo em comparação com estudantes de outras áreas e a população em geral do país destacando-se o curso de fisioterapia com uma taxa de 52,0%. Entre os alunos que experimentam algum grau de ansiedade, 62.3% mostraram uma intensidade leve, 27.8 % em um nível moderado e 10.1 % em um nível considerado severo (JÚNIOR, 2022).

Um estudo realizado por (Fonte BA et al., 2022), envolvendo estudantes universitários de diversas áreas de estudo descobriu que o Lorazepam se sobressai como a droga mais utilizada pelos participantes dentre os benzodiazepínicos tanto por aqueles com diagnóstico de transtorno psiquiátrico quanto por aqueles sem o referido diagnóstico (JÚNIOR, 2022).

Apesar do uso difundido de benzodiazepínicos pela população em geral, certos grupos específicos se destacam, como os estudantes de medicina e os candidatos ao vestibular do curso de medicina. Esses padrões se mantêm ao longo da carreira, desde a fase estudantil até a prática como profissionais da saúde. Há pelo menos duas razões para o aumento do consumo de benzodiazepínicos por esses profissionais: eles possuem acesso fácil aos medicamentos e também acreditam equivocadamente que, por estarem familiarizados com os efeitos da substância, têm mais controle sobre seu uso (JÚNIOR, 2022).

3.5 Prevenindo o abuso

Apesar da venda de benzodiazepínicos seja altamente regulada no Brasil pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), ainda há um mercado ilegal devido ao uso indevido desses medicamentos. Isso envolve práticas como a manipulação incorreta de receitas médicas por meio de falsificações e o uso de prescrições falsificadas. É importante destacar que o uso inadequado de benzodiazepínicos pode resultar em uma série de efeitos colaterais indesejados que variam desde a diminuição da atividade psicomotora até interações perigosas com outras substâncias como álcool (MATOS 2024).

O desconhecimento pode provocar recomendações inadequadas e uso sem controle de tais substâncias. A supervisão e o controle das vendas legais dessas drogas são elementos cruciais para evitar o seu uso indevido; entretanto é necessário um esforço conjunto das autoridades competentes e profissionais de saúde em colaboração com toda a sociedade para lidar de forma completa com esse problema complicado (MATOS 2024).

As Intervenções psicológicas são uma grande ferramenta auxiliadora na prevenção do abuso de BZDs. Sendo que elas podem variar desde apoio básico até cuidados especializados em terapia cognitivo-comportamental (TCC). A terapia em grupo surge como uma opção onde os pacientes se ajudam mutuamente durante o processo de recuperação. O estudo realizado por NALOTO et al (2016) ressalta a importância de aumentar a conscientização tanto do público quanto dos profissionais de saúde sobre os perigos do abuso prolongado ou inadequado de benzodiazepínicos. Isso envolve médicos e farmacêuticos tomarem medidas para diminuir a utilização indiscriminada dessas drogas (MATOS 2024).

Ainda, no que diz respeito à prevenção do uso excessivo de BZDs, é importante destacar que a prescrição médica inadequada exerce uma influência significativa na utilização prolongada dessas substâncias. Conforme indicado por um estudo conduzido por (FIRMINO, 2012), a maioria dos pacientes recebe receitas de médicos clínicos gerais ou de outras especialidades em vez de psiquiatras; de fato, cerca de 80% das prescrições medicamentosas analisadas no estudo foram feitas por clínicos gerais. Portanto, é crucial estabelecer diretrizes claras para orientar as práticas médicas (GUIMARÃES, 2013).

4. Conclusão

Com base na pesquisa existente em publicações especializadas sobre o tema em questão é possível afirmar que os benzodiazepínicos (BZDs) são amplamente difundidos como uma das classes de medicamentos mais utilizados em escala global atualmente. No contexto da saúde mental e do tratamento de problemas relacionados ao sono e à ansiedade essas substâncias desempenham um papel crucial ao proporcionar alívio para uma parcela significativa da população. No entanto, é imperativo ressaltar que apesar dos benefícios terapêuticos oferecidos pelos BZDs sua utilização indevida e irresponsável acarreta consideráveis riscos para a saúde humana. No presente artigo foram examinadas as razões por trás do uso inadequado desses medicamentos bem como os perigos associados à sua administração incorreta.

Outro ponto crucial a ser destacado é o uso incorreto dessas substâncias medicamentosas, muitas vezes resultante da automedicação ou do consumo em doses não recomendadas por profissionais de saúde qualificados. Outra questão relevante a ser avaliada é a prescrição inadequada e, em certos casos, desnecessária de BZDs.

Diante do que foi exposto no artigo, é importante que haja um controle mais eficiente da dispensação de medicamentos na assistência farmacêutica; é essencial elaborar políticas públicas para garantir que as prescrições sejam apropriadas em termos de indicação e uso. Além disso, é crucial capacitar os profissionais responsáveis pela prescrição a fim de reduzir a frequência do uso prolongado e indiscriminado dos medicamentos; também é necessário implementar iniciativas de saúde para orientar a população sobre os fatores que podem afetar sua qualidade de vida – visando minimizar os possíveis impactos negativos do uso inadequado dos medicamentos.

5. Referências

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A3: HERNESTO, MM et al. Consumo de Benzodiazepínicos relacionados a saúde mental nos últimos 10 anos: uma revisão integrativa. Research, Society and Development, São Paulo, v. 10, n. 17, p. 01-8, dez., 2021.

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1Graduando em Medicina – Instituição: Centro Universitário Municipal de Franca (Uni-FACEF)
Endereço: Av. Alonso Y Alonso, 2400 – São José, Franca – SP, 14401-426
E-mail: andreberleo@gmail.com

2Doutorado de Biociências Aplicadas à Farmácia pela Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto (USP) – Departamento de Análises Clínicas, Bromatológicas e Toxicológicas
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