REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202512091158
João Henrique Castro Ferrari
Orientador Prof. Dr. Vinicius Máximo Gomes
RESUMO
A parestesia facial consiste em uma alteração sensorial que pode ocorrer após procedimentos odontológicos invasivos, afetando diretamente a funcionalidade e a qualidade de vida dos pacientes. Este trabalho teve como objetivo analisar as principais abordagens terapêuticas utilizadas no manejo da parestesia facial, com ênfase na aplicação da laserterapia de baixa intensidade (LLLT), reconhecida por seus efeitos bioestimuladores, analgésicos e regenerativos nos tecidos nervosos. A metodologia consistiu em uma revisão bibliográfica narrativa, baseada em publicações científicas indexadas em bases como SciELO, PubMed e Google Scholar, considerando estudos publicados entre 2013 e 2024. As evidências identificadas demonstram que a LLLT favorece a aceleração da regeneração neural, melhora o retorno sensorial e apresenta resultados superiores quando aplicada precocemente e com parâmetros adequados. Os estudos revisados também apontam que, apesar da diversidade de protocolos, há consenso sobre a segurança, boa tolerabilidade e potencial terapêutico da técnica como complemento ao tratamento convencional. Conclui-se que a laserterapia constitui uma alternativa promissora e eficaz no manejo da parestesia facial na odontologia, embora ainda se faça necessária a padronização dos parâmetros de aplicação e a ampliação de estudos clínicos robustos para fortalecer sua validação científica.
Palavras-chave: parestesia facial; laserterapia; fotobiomodulação; odontologia; regeneração neural.
ABSTRACT
Facial paresthesia is a sensory alteration that may occur after invasive dental procedures, directly affecting patients’ functionality and quality of life. This study aimed to analyze the main therapeutic approaches used in the management of facial paresthesia, with emphasis on low-level laser therapy (LLLT), known for its biostimulatory, analgesic, and regenerative effects on neural tissues. The methodology consisted of a narrative literature review based on scientific publications indexed in databases such as SciELO, PubMed, and Google Scholar, including studies published between 2013 and 2024. The evidence identified indicates that LLLT accelerates neural regeneration, improves sensory recovery, and achieves better results when applied early and with well-defined parameters. The reviewed studies also highlight that, despite the variations in application protocols, there is consensus regarding the safety, tolerability, and therapeutic potential of this technique as a complementary approach to conventional treatment. It is concluded that low-level laser therapy represents a promising and effective alternative in the management of facial paresthesia in dentistry; however, further research and the standardization of clinical protocols are needed to strengthen its scientific validation.
Keywords: facial paresthesia; laser therapy; photobiomodulation; dentistry; neural regeneration.
1. INTRODUÇÃO
A parestesia facial constitui uma alteração sensorial caracterizada por dormência, formigamento ou redução da percepção tátil, resultante, em grande parte dos casos, de danos ao sistema nervoso periférico. No contexto odontológico, essa condição adquire particular relevância, uma vez que procedimentos cirúrgicos envolvendo a arcada dentária, como exodontias complexas, implantes, osteotomias e intervenções ortognáticas, podem comprometer a integridade de nervos como o alveolar inferior, mentual e lingual (Bagheri; Bell; Khan, 2023). A proximidade anatômica desses nervos às estruturas manipuladas durante procedimentos odontológicos amplia a susceptibilidade a traumas diretos, compressões ou estiramentos, fatores que favorecem o desenvolvimento de quadros parestésicos transitórios ou persistentes (Mendonça; Lima; Kaufman, 2024).
Do ponto de vista fisiopatológico, as lesões nervosas periféricas podem envolver desde um comprometimento funcional reversível, como na neuropraxia, até danos estruturais graves, característicos da neurotmese, conforme a clássica classificação de Seddon (1943). A severidade da lesão é determinante para a evolução clínica e o prognóstico, uma vez que os mecanismos biológicos de regeneração neural são lentos e frequentemente incompletos. Assim, a parestesia pode impactar significativamente a qualidade de vida do paciente, comprometendo funções orofaciais essenciais e gerando desconforto, insegurança e prejuízo nas interações sociais (Barbosa; Mendes, 2024).
Diante desse cenário, a busca por abordagens terapêuticas realmente eficazes tem mobilizado pesquisadores e clínicos, especialmente considerando que as terapias convencionais — como anti-inflamatórios, vitaminas neurotróficas e fisioterapia — nem sempre produzem resultados satisfatórios ou rápidos (Santos et al., 2019). É nesse contexto que a laserterapia de baixa intensidade (Low-Level Laser Therapy — LLLT), também denominada fotobiomodulação, emerge como uma alternativa terapêutica promissora. A LLLT tem sido amplamente investigada por seu potencial de estimular processos celulares relacionados à reparação tecidual, modulando a inflamação, promovendo angiogênese, reduzindo a apoptose e favorecendo a regeneração das fibras nervosas (Carvalho et al., 2024; Kanaan et al., 2024).
Estudos recentes demonstram que o laser de baixa potência exerce efeitos positivos na regeneração do nervo trigeminal e na recuperação sensorial após danos cirúrgicos, indicando resultados encorajadores tanto em modelos experimentais quanto em ensaios clínicos (Almeida; Souza; Gomes, 2023; Guimarães; Neto, 2023). Ensaios clínicos envolvendo pacientes submetidos à remoção de terceiros molares, por exemplo, revelam que a aplicação precoce da LLLT pode acelerar o retorno da sensibilidade e reduzir sequelas parestésicas (Kim; Park; Lee, 2024; Nascimento; Pereira, 2024). Da mesma forma, investigações de base molecular indicam que a fotobiomodulação influencia a expressão genética e a atividade metabólica das células neurais, contribuindo para ambientes mais favoráveis à reparação dos tecidos lesados (Stevens et al., 2025; Li et al., 2022).
Além do impacto clínico, a expansão dos estudos sobre fotobiomodulação se deve também ao fato de que a técnica apresenta características como baixo custo operacional, fácil aplicação, ausência de efeitos adversos relevantes e excelente tolerabilidade por parte dos pacientes (Freitas; Simões, 2024). Esses fatores tornam o laser uma intervenção viável e atraente tanto para pesquisadores quanto para profissionais da odontologia. Entretanto, apesar do acúmulo de evidências positivas, ainda existem desafios no que diz respeito à padronização dos protocolos, uma vez que os estudos divergem quanto a parâmetros como comprimento de onda, densidade de energia, número de sessões e intervalo entre aplicações (Oliveira et al., 2020; Martins et al., 2022).
Nesse sentido, revisões sistemáticas recentes reforçam a necessidade de uniformização metodológica e ampliam o chamado para estudos clínicos robustos, dada a diversidade de resultados encontrada na literatura (Rodrigues; Andrade, 2024; Zhang et al., 2024). Ainda assim, o consenso entre a maior parte das publicações é de que a LLLT representa uma alternativa terapêutica consistente e em plena evolução científica. Novas pesquisas — especialmente meta‐análises e ensaios clínicos randomizados — seguem consolidando a perspectiva de que a fotobiomodulação apresenta papel significativo no manejo das lesões nervosas periféricas, especialmente quando utilizada como complemento às terapias tradicionais (Parasa; Kambhampati; Sah, 2025; Chu et al., 2025).
Diante dessa realidade, compreender os mecanismos, aplicações e evidências científicas da laserterapia de baixa intensidade é essencial para aprimorar a prática clínica e proporcionar tratamentos mais eficazes aos pacientes acometidos por parestesia facial. Nesse sentido, o presente trabalho tem como objetivo analisar de forma aprofundada as abordagens terapêuticas utilizadas no tratamento da parestesia facial na odontologia, com ênfase na laserterapia, discutindo seus mecanismos de ação, benefícios, limitações e evidências científicas disponíveis na literatura contemporânea.
2. REFERENCIAL TEÓRICO
2.1 CONTEXTUALIZAÇÃO E FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA DA PARESTESIA FACIAL NA ODONTOLOGIA
A parestesia facial constitui uma das alterações sensoriais mais relevantes no contexto da odontologia contemporânea, sobretudo em razão da frequência com que procedimentos cirúrgicos afetam estruturas nervosas íntimas da face e da cavidade oral. Trata-se de uma alteração na condução sensitiva caracterizada por dormência, formigamento ou redução parcial da percepção tátil. Esses sintomas, ainda que variados em intensidade e duração, afetam diretamente a funcionalidade orofacial e o bem-estar do indivíduo, comprometendo desde atividades simples até tarefas que exigem maior coordenação neuromuscular, como mastigação, articulação da fala e percepção térmica. A literatura recente enfatiza que a parestesia não é apenas um evento fisiopatológico isolado, mas um fenômeno clínico complexo que envolve fatores anatômicos, biológicos, técnicos e comportamentais (Bagheri; Bell; Khan, 2023).
Os avanços na odontologia cirúrgica têm ampliado a realização de intervenções em regiões críticas da mandíbula e maxila, o que eleva o risco de comprometimento dos nervos periféricos faciais. Procedimentos como remoção de terceiros molares retidos, instalação de implantes dentários, enxertos, cirurgias ortognáticas e remoção de tumores benignos podem resultar em injúria direta ou indireta aos ramos do nervo trigêmeo. Entre esses ramos, destaca-se o nervo alveolar inferior, considerado o mais suscetível porque percorre o interior do canal mandibular, região onde frequentemente ocorrem manipulações cirúrgicas. Em estudo clínico abrangente, Bagheri, Bell e Khan (2023) reforçam que as taxas de lesão iatrogênica permanecem significativas mesmo entre cirurgiões experientes devido às variações anatômicas individuais, densidade óssea e proximidade radicular.
A parestesia pode resultar de diferentes mecanismos de lesão. Quando há compressão, estiramento ou isquemia transitória do nervo, surge a neuropraxia, considerada a forma mais branda de injúria e que, segundo Seddon (1943), tende a se resolver em um intervalo de dias a semanas. Quando o dano compromete o axônio, mas preserva parcialmente o tecido conjuntivo de suporte, ocorre a axonotmese, que exige um período mais prolongado para a recuperação. Já a neurotmese representa o quadro mais grave, uma vez que envolve ruptura completa da estrutura neural, com regeneração lenta e frequentemente incompleta. A distinção clínica entre essas categorias é fundamental para o prognóstico, pois direciona a escolha terapêutica mais adequada e orienta o acompanhamento do paciente.
Os processos regenerativos do sistema nervoso periférico são amplamente discutidos na literatura e envolvem uma complexa interação entre células de Schwann, resposta inflamatória controlada, reorganização tecidual e estímulos bioquímicos. A degeneração Walleriana é um fenômeno chave nesse processo, caracterizado pela degradação da porção distal ao local da lesão e pela subsequente reorganização estrutural. Rodrigues e Andrade (2024) destacam que a integridade do tubo endoneural é determinante para o sucesso da regeneração, pois fornece o caminho físico pelo qual o novo axônio poderá se orientar.
Na odontologia, a relevância clínica da parestesia transcende a dimensão funcional e alcança impactos psicológicos consideráveis. Pacientes frequentemente relatam sensação de estranhamento, insegurança e receio quanto à possibilidade de sequelas permanentes. Barbosa e Mendes (2024), ao analisarem relatos de pacientes com parestesia após exodontia de terceiros molares, observaram que muitos experimentam ansiedade, alterações na autoimagem e prejuízo nas relações sociais. Esse conjunto de manifestações demonstra que a parestesia facial não deve ser tratada apenas como um efeito adverso, mas como uma condição que requer abordagem multidisciplinar e intervenções terapêuticas eficazes.
A identificação precoce dos sinais clínicos e a compreensão dos fatores predisponentes são fundamentais no manejo da parestesia. Fatores como a profundidade da inclusão dentária, a proximidade das raízes com o canal mandibular, a densidade óssea regional e até mesmo a experiência do profissional influenciam diretamente na probabilidade de lesão nervosa. Em estudo de Nascimento e Pereira (2024), observou-se que pacientes submetidos a remoção de terceiros molares com íntima relação entre raiz e canal mandibular apresentaram incidência superior de parestesia temporária, reforçando a necessidade de planejamento radiográfico detalhado.
Por outro lado, há casos em que a parestesia ocorre não por trauma direto, mas por inflamação pós-operatória, edema ou hemorragia local, que comprimem o nervo e reduzem sua capacidade de condução. Essa condição explica situações em que o paciente só percebe a alteração sensorial horas ou dias após o procedimento. Oliveira et al. (2020) apontam que a avaliação clínica contínua no pós-operatório é essencial para identificar mudanças sensoriais recém surgidas e iniciar intervenções capazes de evitar danos permanentes.
Além dos aspectos etiológicos e fisiopatológicos, a literatura também explora a importância dos fatores sistêmicos. Idade avançada, tabagismo, diabetes e doenças microvasculares dificultam a regeneração neural. Araújo e Costa (2024), em revisão integrativa, destacam que pacientes com alterações metabólicas possuem menor capacidade de reparo axonal, o que reforça a necessidade de critérios rigorosos de seleção e planejamento individualizado.
A literatura especializada ressalta que a incidência de parestesia facial na odontologia também está relacionada ao avanço das técnicas cirúrgicas modernas, que embora permitam intervenções mais precisas, exigem grande domínio anatômico e manipulação cuidadosa dos tecidos. Procedimentos como osteotomias mandibulares e cirurgias ortognáticas, por exemplo, podem comprometer estruturas nervosas mesmo com o uso de protocolos seguros e instrumentação adequada. Mendonça, Lima e Kaufman (2024) enfatizam que a proximidade das osteotomias ao trajeto do nervo alveolar inferior faz dessas intervenções um ponto crítico no surgimento de alterações sensoriais, especialmente quando há variações anatômicas que não foram previamente identificadas em exames de imagem.
A formação e o treinamento do cirurgião desempenham papel central na prevenção desses quadros. A habilidade técnica, associada à compreensão tridimensional da anatomia facial, é essencial para minimizar a ocorrência de injúrias iatrogênicas. Entretanto, mesmo com tecnologia avançada, como tomografia computadorizada de feixe cônico, a interpretação do profissional ainda é determinante. Estudos como o de Ferreira, Rocha e Oliveira (2023) reforçam que muitos casos de parestesia poderiam ser evitados com planejamento minucioso e análise criteriosa do risco, especialmente em cirurgias envolvendo áreas de risco elevado.
É importante considerar que a parestesia facial apresenta evolução clínica variável, podendo ser temporária ou permanente. A variação depende da profundidade e do tipo de lesão, da resposta inflamatória individual e das características biológicas de cada paciente. Em muitos casos, o organismo inicia um processo de regeneração espontânea que, embora lento, pode resultar em reversão parcial ou total do quadro. No entanto, há casos em que a intensidade do dano impossibilita a regeneração completa, levando à manutenção dos sintomas por períodos prolongados. Esses dados reforçam a importância do acompanhamento clínico regular e do uso de métodos terapêuticos capazes de estimular o reparo neural.
Entre essas abordagens terapêuticas destaca-se a laserterapia de baixa intensidade. Antes de ser discutida como técnica de intervenção, a LLLT deve ser situada dentro do contexto das terapias físicas aplicadas às lesões nervosas periféricas. Chu et al. (2025) descrevem a evolução das técnicas fisioterapêuticas voltadas para o reparo neural, observando que a fotobiomodulação passou a se destacar pela combinação de eficácia clínica, segurança e ausência de efeitos adversos significativos. A introdução da LLLT em protocolos odontológicos representa um marco importante no manejo da parestesia facial, pois oferece uma alternativa de tratamento minimamente invasiva e com crescente respaldo científico.
A fundamentação teórica da fotobiomodulação tem sido amplamente discutida na literatura científica contemporânea. Os mecanismos bioquímicos envolvidos explicam parte da aceitação e adoção progressiva da técnica. Carvalho et al. (2024) demonstram que a luz laser, ao interagir com as mitocôndrias, promove aumento na produção de ATP, modulação da inflamação e estímulo à proliferação celular. Esses efeitos são fundamentais para a recuperação do tecido nervoso, que depende de alta demanda energética e de um ambiente fisiológico propício à regeneração. A fotobiomodulação também apresenta ação antioxidante, reduzindo a concentração de espécies reativas de oxigênio na área lesionada e favorecendo a reparação do axônio e da bainha de mielina.
No contexto da odontologia, pesquisas como as de Almeida, Souza e Gomes (2023) evidenciam que a aplicação de LLLT em lesões do nervo trigêmeo acelera o retorno da sensibilidade e diminui a intensidade dos sintomas associados. Esses resultados reforçam a hipótese de que a fotobiomodulação atua diretamente nos mecanismos fisiológicos responsáveis pela regeneração neural. As células de Schwann, essenciais no processo de reparo, também respondem positivamente à estimulação luminosa, apresentando aumento de atividade metabólica e capacidade de orientar o crescimento axonal. Esse processo é vital para a recuperação funcional do nervo e tem sido amplamente documentado em estudos experimentais e clínicos, como os de Guimarães e Neto (2023).
Embora os resultados da laserterapia sejam amplamente positivos, autores como Parasa, Kambhampati e Sah (2025) apontam que ainda há grande diversidade nos protocolos utilizados. Diferentes comprimentos de onda, intensidades e frequências são descritos na literatura, dificultando a consolidação de diretrizes unificadas. Mesmo assim, meta-análises como a de Kanaan et al. (2024) demonstram que, apesar da heterogeneidade metodológica, há convergência nos resultados, com melhora clínica significativa na maioria dos estudos avaliados. Esses dados sugerem que a LLLT, quando aplicada com parâmetros apropriados, constitui uma intervenção efetiva no manejo da parestesia facial.
Os efeitos da fotobiomodulação em nível molecular são descritos em profundidade em estudos recentes. Stevens et al. (2025) observaram que a terapia modula a expressão de genes relacionados à sobrevivência neuronal, à diferenciação celular e à redução de apoptose. Tais achados indicam que o laser não atua apenas na aceleração do reparo, mas também na criação de um ambiente bioquímico favorável à regeneração. Li et al. (2022) corroboram essa visão ao demonstrar que a laserterapia tem impacto direto na neuroplasticidade, estimulando vias sinalizadoras associadas ao crescimento axonal e à reorganização funcional do tecido nervoso.
Todos esses elementos teóricos demonstram que a parestesia facial, embora frequentemente relacionada a procedimentos odontológicos, deve ser compreendida dentro de um contexto mais amplo, envolvendo fatores biológicos, anatômicos e terapêuticos. A laserterapia, ao se inserir nesse cenário, representa uma alternativa cuja fundamentação teórica é robusta e compatível com os processos fisiológicos envolvidos na regeneração neural.
A evolução das pesquisas sobre parestesia facial também acompanha o desenvolvimento de novas tecnologias terapêuticas, que passaram a ser estudadas como alternativas ou complementos aos tratamentos tradicionais. Entre essas tecnologias, a laserterapia de baixa intensidade ganhou destaque devido aos resultados clínicos observados e ao embasamento teórico que se consolidou nas últimas décadas. Durante muito tempo, o manejo da parestesia baseou-se em estratégias farmacológicas, fisioterapêuticas e em terapias físicas convencionais que, embora úteis, apresentavam limitações. A introdução da fotobiomodulação, inicialmente aplicada em estudos experimentais, abriu novas perspectivas para a abordagem dos distúrbios sensoriais relacionados às lesões do nervo trigêmeo.
O interesse crescente pela LLLT está diretamente relacionado à sua capacidade de interagir com tecidos biológicos sem causar danos térmicos. A luz emitida por lasers de baixa intensidade atua em receptores fotoaceptores celulares que desencadeiam respostas fisiológicas específicas. Esse fenômeno tem sido detalhado em diversas pesquisas, nas quais se observa que a estimulação luminosa pode aumentar a produção de ATP, regular a inflamação, reduzir a dor e estimular processos regenerativos (Freitas; Simões, 2024). Esses efeitos gerais são particularmente importantes no contexto das lesões nervosas, que dependem de alta demanda energética e de um ambiente fisiológico equilibrado para possibilitar crescimento axonal adequado.
A literatura científica recente mostra crescente consenso sobre o papel da fotobiomodulação no processo de regeneração neural. Estudos experimentais conduzidos por Guimarães e Neto (2023) demonstram que a LLLT favorece a proliferação das células de Schwann e aumenta a espessura das fibras neurais regeneradas. Esses dados são relevantes porque sinalizam que a técnica pode não apenas acelerar a recuperação clínica, mas também melhorar a qualidade da regeneração. De modo semelhante, Carvalho et al. (2024) destacam que o laser promove reorganização celular e tecidual, modulando proteínas envolvidas na sinalização axonal.
Além disso, estudos em humanos reforçam a eficácia clínica observada em experimentações animais. Kim, Park e Lee (2024), ao conduzirem uma avaliação em pacientes submetidos à extração de terceiros molares, constataram redução significativa da duração da parestesia em indivíduos tratados com laser em comparação aos que receberam apenas cuidados convencionais. Esses achados corroboram trabalhos anteriores como o de Nascimento e Pereira (2024), que também verificaram retorno sensorial mais rápido em pacientes que receberam fotobiomodulação no pós-operatório imediato. O conjunto dessas evidências indica que a LLLT tem potencial para se tornar parte integrante dos protocolos clínicos usados na prevenção e no tratamento da parestesia facial.
A compreensão teórica dessas evidências também envolve análises mais amplas conduzidas em pesquisas de revisão. Meta-análises como a de Zhang et al. (2024) e Kanaan et al. (2024) mostram que, mesmo diante da diversidade de parâmetros utilizados nos estudos, a maioria dos resultados converge para efeitos positivos sobre a regeneração nervosa. Em muitos casos, os autores relatam melhora na sensibilidade tátil, redução da dor neuropática e aceleração do processo de recuperação. Esse conjunto de resultados sugere que a LLLT age em múltiplos níveis da arquitetura neural, influenciando tanto componentes celulares quanto estruturas funcionais mais amplas.
Outro aspecto importante discutido na literatura é a relação entre laserterapia e neuroplasticidade. Li et al. (2022) demonstram que a fotobiomodulação desencadeia respostas celulares associadas à reorganização estrutural dos neurônios, indicando que o laser pode atuar não apenas sobre o reparo físico da lesão, mas também na reabilitação funcional do sistema sensorial. A plasticidade neuronal é um fenômeno essencial para a recuperação de funções sensoriais, especialmente em casos em que o dano não é completamente reversível. Essa abordagem reforça a importância de intervenções que estimulem o sistema nervoso a reorganizar trajetórias funcionais adaptativas.
As revisões integrativas, como a realizada por Araújo e Costa (2024), reforçam que a LLLT não deve ser vista como uma terapêutica isolada, mas como parte de um conjunto de estratégias que, quando aplicadas de forma coordenada, aumentam significativamente a chance de retorno sensorial. Os autores destacam que a combinação de fotobiomodulação com acompanhamento clínico contínuo e com tratamentos anti-inflamatórios pode maximizar os efeitos terapêuticos. Essa perspectiva multidisciplinar é fundamental para profissionais que lidam com situações em que a regeneração neural é lenta e imprevisível.
Embora o impacto clínico da laserterapia seja amplamente reconhecido, alguns autores alertam para limitações metodológicas presentes em diversos estudos. Parasa, Kambhampati e Sah (2025) chamam atenção para a necessidade de padronização dos parâmetros utilizados, uma vez que as variações nos comprimentos de onda e na densidade de energia podem influenciar diretamente os resultados. Mesmo assim, os autores reconhecem que, mesmo diante dessa variabilidade, a eficácia terapêutica permanece evidente. Esse argumento indica que a LLLT possui amplo espectro de aplicabilidade clínica e abre espaço para o desenvolvimento de protocolos mais específicos e personalizados.
Ao analisar o conjunto das pesquisas, observa-se que a compreensão atual da parestesia facial e de seu manejo terapêutico está profundamente influenciada por estudos que exploram tanto os mecanismos fisiológicos quanto os efeitos das tecnologias associadas à laserterapia. A fundamentação teórica construida ao longo desses anos mostra que a regeneração neural é um processo multifatorial e que o sucesso terapêutico depende da interação entre variáveis biológicas e intervenções tecnológicas bem direcionadas. Esse conjunto de fatores reforça a importância da fotobiomodulação como uma das terapias emergentes mais promissoras para a odontologia e para a saúde neural.
A ampliação do entendimento sobre a parestesia facial na odontologia está diretamente relacionada ao desenvolvimento de novos recursos diagnósticos e à incorporação de tecnologias capazes de promover uma avaliação mais completa das estruturas nervosas envolvidas. A tomografia computadorizada de feixe cônico, por exemplo, tornou-se uma ferramenta indispensável no planejamento cirúrgico, permitindo ao profissional visualizar com precisão o posicionamento anatômico do canal mandibular e a relação das raízes dentárias com as estruturas nervosas. Essa evolução tecnológica ampliou a capacidade de prever riscos e reduziu a incidência de lesões iatrogênicas, embora não seja suficiente para eliminá-las completamente, como demonstrado por Bagheri, Bell e Khan (2023).
A compreensão moderna da parestesia também envolve a análise de fatores individuais que podem influenciar a resposta biológica à injúria neural. Estudos recentes apontam que características como idade, metabolismo, comorbidades e hábitos comportamentais exercem influência direta sobre o curso clínico da regeneração. Pacientes diabéticos, por exemplo, apresentam maior risco de comprometimento da microcirculação e regeneração mais lenta das fibras nervosas, conforme discutido por Araújo e Costa (2024). Esse cenário revela a importância de uma abordagem clínica personalizada, em que a condição sistêmica do paciente seja considerada parte essencial do planejamento terapêutico.
Outro ponto amplamente debatido na literatura refere-se à evolução temporal da parestesia. Embora muitos casos apresentem melhora espontânea ao longo das semanas, outros persistem por meses ou até anos, configurando quadros mais complexos que exigem intervenções específicas. Em um estudo clínico detalhado, Ferreira, Rocha e Oliveira (2023) verificaram que a duração da parestesia está frequentemente associada à severidade da injúria inicial e ao tempo decorrido até a adoção da terapia. Esse achado reforça a necessidade de intervenções precoces que possam favorecer a regeneração e evitar sequelas permanentes.
Nesse contexto, a laserterapia tem sido estudada como um recurso capaz de acelerar a recuperação sensorial. A fundamentação teórica que embasa sua aplicação clínica não se limita aos efeitos energéticos diretos da luz sobre os tecidos, mas também envolve mecanismos bioquímicos e moleculares com impacto profundo no processo de reparação neural. Estudos experimentais avançados, como os conduzidos por Stevens et al. (2025), demonstram que a fotobiomodulação modula genes associados à resposta inflamatória, à sobrevivência neuronal e à regeneração axonal. Essa capacidade de regular processos celulares fundamentais coloca a LLLT como uma das intervenções mais promissoras na reabilitação das lesões do sistema nervoso periférico.
Meta-análises recentes, como a de Zhang et al. (2024), ampliam o embasamento científico ao demonstrar que a LLLT apresenta resultados consistentes na melhora da sensibilidade em pacientes com lesões decorrentes de procedimentos odontológicos. Os autores destacam que, mesmo diante de protocolos variados, o impacto clínico positivo permanece evidente, indicando que a terapia é eficaz em diferentes contextos e perfis de lesões. Esses achados reforçam que a fotobiomodulação atua em múltiplas fases da regeneração, beneficiando tanto o processo inflamatório inicial quanto a reorganização dos tecidos ao longo do tempo.
A existência de divergências metodológicas não compromete a legitimidade da técnica, mas evidencia a necessidade de maior rigor científico no estabelecimento de parâmetros terapêuticos unificados. Autores como Parasa, Kambhampati e Sah (2025) apontam que a criação de protocolos padronizados contribuiria para ampliar a comparabilidade entre estudos e fortaleceria o reconhecimento da laserterapia como prática consolidada na odontologia. Apesar dessas limitações, o consenso predominante nas pesquisas aponta que a LLLT apresenta excelente perfil de segurança, baixo custo, facilidade de aplicação e alta aceitação pelos pacientes, características que contribuem para sua crescente difusão em ambientes clínicos.
A partir dessa análise, percebe-se que a fundamentação teórica da parestesia facial na odontologia deve considerar fatores anatômicos, fisiológicos, cirúrgicos, sistêmicos e tecnológicos. Compreender a interação entre esses elementos é essencial para interpretar adequadamente os mecanismos que levam ao aparecimento da parestesia e os fatores que influenciam sua evolução. O entendimento aprofundado do processo regenerativo permite ao cirurgião adotar intervenções eficazes e direcionadas, de acordo com o tipo de lesão e com as necessidades individuais de cada paciente.
A laserterapia, nesse contexto, surge como uma abordagem que integra conhecimento científico multidisciplinar, reunindo evidências provenientes da neurociência, da biologia celular e da prática clínica. O conjunto de estudos revisados aponta que a fotobiomodulação não apenas estimula mecanismos regenerativos, mas também modula funções celulares essenciais, conferindo maior rapidez e qualidade ao processo de restituição sensorial. A partir dessa perspectiva, a LLLT representa um avanço significativo no tratamento da parestesia facial e merece ser discutida com profundidade nas seções subsequentes deste trabalho.
2.2 MECANISMOS NEUROBIOLÓGICOS DA PARESTESIA FACIAL E CLASSIFICAÇÃO DAS LESÕES NERVOSAS
A compreensão dos mecanismos neurobiológicos envolvidos na parestesia facial representa um dos pilares fundamentais para o entendimento clínico e científico dessa condição. A face é uma região que concentra alta densidade de fibras sensoriais pertencentes ao nervo trigêmeo, o principal nervo craniano responsável pela sensibilidade tátil, dolorosa e proprioceptiva da cavidade oral e dos tecidos faciais. Esse nervo apresenta extensa ramificação e percorre trajetos anatômicos complexos, o que o torna particularmente suscetível a lesões diretas ou indiretas durante intervenções odontológicas, especialmente em procedimentos cirúrgicos que envolvem as regiões mandibular e maxilar (Bagheri; Bell; Khan, 2023).
Os mecanismos que levam ao surgimento da parestesia facial podem envolver compressão, estiramento, contusão ou até mesmo secção total das fibras nervosas. Essas agressões interferem na condução neural e provocam alterações funcionais que se traduzem clinicamente em perda parcial ou total da sensibilidade. A natureza do dano está diretamente relacionada ao tipo de lesão sofrida e à resposta biológica subsequente. Nesse sentido, a classificação das lesões nervosas proposta por Seddon (1943) permanece sendo uma das mais utilizadas na prática clínica e na literatura, porque permite organizar os diferentes graus de comprometimento em categorias que ajudam a prever o prognóstico e orientar o tratamento.
A neuropraxia representa o nível mais brando de lesão, caracterizado por interrupção temporária da condução neural, sem dano estrutural significativo ao axônio. Esse tipo de lesão geralmente está associado a compressões mecânicas durante procedimentos cirúrgicos ou ao edema pós-operatório que exerce pressão sobre o nervo. Por isso, em muitos casos, sua recuperação é rápida e espontânea, podendo ocorrer em um intervalo de dias a poucas semanas. No entanto, mesmo esse tipo de lesão pode gerar desconforto e ansiedade nos pacientes, como relatado nos estudos de Barbosa e Mendes (2024), que observaram sentimentos de insegurança em pacientes submetidos à exodontia de terceiros molares.
A axonotmese, por outro lado, envolve dano ao axônio, embora o tecido conjuntivo que circunda as fibras permaneça parcialmente preservado. Esse quadro exige maior tempo de regeneração porque o axônio precisa ser reconstruído a partir da porção proximal. Durante esse processo, ocorre a chamada degeneração Walleriana, mecanismo no qual a porção distal do axônio lesionado se desintegra e é reabsorvida, abrindo espaço para a reorganização tecidual mediada por células de Schwann. Rodrigues e Andrade (2024) destacam que a integridade dos tubos endoneurais é essencial para a orientação correta dos novos axônios durante a regeneração. Quando esses tubos não estão preservados, a regeneração pode ocorrer de forma desorganizada, resultando em sensações aberrantes ou recuperação incompleta.
O grau mais severo de lesão, conhecido como neurotmese, caracteriza-se pela ruptura completa do axônio e dos tecidos conjuntivos de suporte. Esse tipo de injúria provoca perda sensorial prolongada e limita severamente a resposta regenerativa. Na neurotmese, as chances de recuperação espontânea são reduzidas, e muitas vezes é necessária intervenção cirúrgica ou terapias que estimulem intensamente o processo de reparo. A literatura mostra que esse tipo de lesão está frequentemente associado a procedimentos cirúrgicos extensos, acidentes ou complicações severas durante a realização de osteotomias ou exodontias, como discutido por Mendonça, Lima e Kaufman (2024).
A fisiopatologia que envolve as lesões nervosas periféricas é complexa e depende de diversos fatores biológicos. Após o dano ao nervo, inicia-se uma série de eventos celulares e moleculares que compõem a resposta inicial à lesão. A degeneração Walleriana, fundamental nesse processo, envolve degradação das membranas axonais, migração de macrófagos para o local lesado e ativação das células de Schwann, que passam a proliferar e a formar estruturas que orientam o crescimento dos novos axônios. Esse processo é essencial para o restabelecimento da condução neural, mas pode ser prejudicado por fatores sistêmicos ou por limitações estruturais decorrentes da própria lesão (Guimarães; Neto, 2023).
As células de Schwann desempenham papel central na regeneração neural. Elas não apenas formam a bainha de mielina que reveste os axônios, garantindo velocidade na transmissão dos impulsos elétricos, mas também modulam a resposta inflamatória, secretam fatores neurotróficos e orientam a formação das novas fibras nervosas. Carvalho et al. (2024) explicam que essas células são altamente responsivas a estímulos externos e que a interação entre elas e o microambiente neural é determinante para o sucesso do processo regenerativo. Quando esse ambiente encontra-se comprometido por edema persistente, infecção ou alterações metabólicas sistêmicas, a regeneração pode ser lenta ou incompleta.
Além disso, os mecanismos de neuroplasticidade desempenham papel importante na recuperação funcional após lesões do sistema nervoso periférico. A neuroplasticidade inclui fenômenos como reorganização sináptica, fortalecimento de vias neuronais alternativas e formação de novas conexões funcionais. Li et al. (2022) e Stevens et al. (2025) indicam que, mesmo quando o dano estrutural é significativo, o sistema nervoso pode se reorganizar para compensar parcialmente a função perdida. Esses estudos demonstram que intervenções terapêuticas que estimulem a plasticidade neuronal podem acelerar o retorno da sensibilidade e melhorar a funcionalidade sensorial.
A compreensão desses mecanismos fisiológicos é essencial para explicar por que a parestesia facial apresenta variação tão ampla em sua evolução clínica. Em muitos casos, a recuperação ocorre de forma espontânea e progressiva. Em outros, o quadro persiste mesmo após meses de acompanhamento. Esses desfechos distintos estão diretamente relacionados aos diferentes graus de lesão, às condições biológicas individuais e ao tempo decorrido entre a injúria e o início do tratamento, como demonstrado nas pesquisas de Santos et al. (2019).
Os mecanismos neurobiológicos da parestesia facial envolvem uma série de eventos coordenados que se iniciam imediatamente após a injúria nervosa. A resposta inicial do organismo à lesão inclui alterações bioquímicas e estruturais que visam controlar danos, remover resíduos celulares e preparar o microambiente para o início da regeneração. A capacidade do sistema nervoso periférico de se regenerar é uma de suas características mais relevantes, mas essa regeneração depende de fatores que vão desde a integridade das estruturas neurais até o equilíbrio metabólico dos tecidos adjacentes (Guimarães; Neto, 2023).
Assim que ocorre o dano neural, inicia-se um processo inflamatório controlado, cuja função é preparar a área para o reparo. A neuroinflamação é uma resposta fisiológica esperada quando há lesão do nervo, mas deve ser modulada de forma adequada para evitar prejuízos ao processo regenerativo. A literatura demonstra que o excesso de citocinas pró-inflamatórias pode comprometer a proliferação das células de Schwann e prejudicar a reorganização dos tubos endoneurais. Em seu estudo sobre lesões nervosas periféricas, Rodrigues e Andrade (2024) destacam que a inflamação prolongada cria um ambiente hostil para o crescimento axonal, contribuindo para quadros persistentes de parestesia.
A degeneração Walleriana é outro aspecto fundamental para a compreensão dos mecanismos neurobiológicos envolvidos. Esse processo ocorre logo após a interrupção do axônio e envolve a destruição ordenada da porção distal lesionada. Macrófagos e células de Schwann passam a atuar de forma coordenada, removendo os fragmentos axonais e preparando o local para a regeneração. Esse processo, embora essencial, consome tempo e requer estabilidade metabólica para ocorrer de forma eficiente (Carvalho et al., 2024).
A atuação das células de Schwann é central nesse contexto. Elas proliferam rapidamente após a lesão e formam estruturas que servem como “guias” para que os novos axônios possam crescer na direção correta. No entanto, quando o tecido conjuntivo nervoso também está lesionado, como ocorre na neurotmese, essa organização é perdida, dificultando a regeneração. Estudos de Li et al. (2022) mostram que a proliferação e o alinhamento correto das células de Schwann são condições indispensáveis para a recuperação funcional do nervo, e qualquer interferência nesse processo pode resultar em parestesia permanente.
A resposta inflamatória e o processo de reparo também são influenciados por fatores sistêmicos. A capacidade regenerativa do organismo diminui com o envelhecimento e com condições como diabetes, doenças vasculares e alterações hormonais. Pacientes idosos apresentam regeneração mais lenta e maior suscetibilidade a danos prolongados, como apontado por Araújo e Costa (2024). Além disso, hábitos como tabagismo reduzem a oxigenação tecidual, contribuindo para microambientes menos favoráveis à regeneração neural.
No âmbito anatômico, a vulnerabilidade dos nervos faciais está diretamente relacionada à sua localização e função. O nervo alveolar inferior, por exemplo, percorre o interior do canal mandibular em estreita relação com raízes dentárias. Essa proximidade anatômica justifica sua frequente injúria durante exodontias, instalação de implantes e osteotomias mandibulares. Bagheri, Bell e Khan (2023) destacam que a morfologia do canal mandibular é altamente variável entre os indivíduos, o que dificulta a previsão do risco e contribui para a ocorrência de lesões iatrogênicas mesmo em procedimentos realizados com técnica adequada.
A relação entre a extensão da lesão e o prognóstico é outro aspecto que merece destaque. A neuropraxia tende a apresentar evolução mais favorável, com recuperação espontânea em curto prazo. Em contraste, a axonotmese exige meses de organização e crescimento axonal, resultando em retorno sensorial mais lento. A neurotmese, conforme descrita por Seddon (1943), representa um quadro em que a regeneração depende de fatores adicionais e, frequentemente, de intervenções terapêuticas complementares. Esse entendimento é fundamental para o manejo clínico da parestesia, pois permite ao profissional estimar a evolução do quadro e definir o momento adequado para iniciar terapias específicas.
Modelos experimentais também contribuem para o entendimento dos mecanismos envolvidos. Estudos como os realizados por Guimarães e Neto (2023) demonstram que lesões induzidas em nervos periféricos de animais apresentam comportamentos semelhantes aos observados em humanos, reforçando que o processo regenerativo é universal e segue padrões biológicos similares. Esses modelos possibilitam testar intervenções terapêuticas e observar, de maneira controlada, como diferentes fatores influenciam a regeneração neural.
A neuroplasticidade representa outro conceito essencial na compreensão dos mecanismos neurobiológicos da parestesia. Mesmo quando há danos irreversíveis a determinadas fibras nervosas, o sistema nervoso possui capacidade de adaptação e reorganização funcional. A formação de novas conexões sinápticas e o fortalecimento de vias neurais alternativas possibilitam a recuperação parcial da função sensorial, mesmo quando a regeneração axonal é limitada. Estudos de Stevens et al. (2025) demonstram que estímulos externos, como terapias físicas e intervenções fotobiomoduladoras, podem intensificar essa plasticidade, acelerando o processo de reabilitação sensorial.
Esse conjunto de mecanismos demonstra que a parestesia facial não deve ser compreendida apenas como a consequência direta de uma lesão mecânica, mas como um fenômeno complexo que envolve interação entre fatores fisiológicos, anatômicos e bioquímicos. A classificação das lesões nervosas e o entendimento de seus processos biológicos são fundamentais para o planejamento terapêutico e para a previsão do desfecho clínico.
A classificação das lesões nervosas periféricas é fundamental para a compreensão da evolução clínica da parestesia e para a definição das condutas terapêuticas mais adequadas. A proposição clássica de Seddon (1943) segmenta os danos em três categorias principais: neuropraxia, axonotmese e neurotmese. Ainda que essa classificação seja amplamente utilizada, os estudos atuais buscam refiná-la ao analisar mais profundamente as características estruturais das lesões e suas implicações funcionais. Essa abordagem permite estabelecer uma relação mais precisa entre o tipo de injúria, o tempo de recuperação e a resposta a diferentes terapias, como a fotobiomodulação.
A neuropraxia é o tipo de lesão mais leve e caracteriza-se pela interrupção temporária da condução nervosa sem dano anatômico ao axônio. Nesse caso, o bloqueio funcional ocorre por compressão mecânica, estiramento ou isquemia transitória, situações comuns em procedimentos cirúrgicos na cavidade oral. A literatura aponta que a neuropraxia apresenta prognóstico favorável e alto índice de recuperação espontânea. Em uma análise clínica conduzida por Barbosa e Mendes (2024), a neuropraxia foi observada com frequência após exodontias de terceiros molares, sendo reportada como reversível na maioria dos pacientes dentro de períodos curtos, geralmente inferiores a oito semanas.
A axonotmese envolve dano direto ao axônio, preservando no entanto parte das estruturas do tecido conjuntivo periférico, como o endoneuro. Esse tipo de lesão exige um processo mais complexo de regeneração, uma vez que há necessidade de reconstrução axonal a partir do segmento proximal. A degeneração Walleriana ocorre de maneira completa nas áreas distais ao dano, seguido pela reorganização tecidual que será conduzida pelas células de Schwann. De acordo com Guimarães e Neto (2023), a axonotmese apresenta evolução clínica variável, dependendo da integridade das células de Schwann, da preservação do endoneuro e do controle adequado da resposta inflamatória. Pacientes com respostas inflamatórias exageradas ou condições sistêmicas que prejudicam a cicatrização tendem a apresentar recuperação mais lenta e irregular.
A neurotmese representa o ponto máximo de gravidade na classificação de Seddon. Nessa condição, há ruptura completa do axônio e das estruturas de suporte, incluindo epineuro e perineuro. A reorganização espontânea é dificultada pela perda dos canais anatômicos que orientam o crescimento axonal, o que pode levar a regeneração desordenada. Em muitos casos, ocorrem neuromas dolorosos, falhas de reconexão e persistência da parestesia. Estudos clínicos como os relatados por Mendonça, Lima e Kaufman (2024) demonstram que esse tipo de lesão está frequentemente associado a cirurgias mais invasivas ou complicações intraoperatórias inesperadas. A intervenção terapêutica precoce é essencial, pois a demora pode comprometer definitivamente o potencial de recuperação neural.
Embora a classificação de Seddon seja amplamente utilizada, pesquisas contemporâneas têm buscado expandir essa categorização com base em observações histológicas e moleculares. Estudos mais recentes, como os conduzidos por Zhang et al. (2024), sugerem que a regeneração nervosa depende não apenas da integridade estrutural, mas também de fatores bioquímicos que modulam a atividade celular no local da lesão. Esses autores demonstram que o microambiente inflamatório exerce influência decisiva sobre a capacidade de regeneração dos axônios, e que intervenções que modulam a inflamação, como a fotobiomodulação, têm impacto significativo sobre o prognóstico clínico.
A resposta do organismo às lesões nervosas envolve mecanismos complexos que combinam destruição controlada, reorganização tecidual e estímulo à reparação. As células de Schwann desempenham papel central em todas essas etapas, atuando como facilitadoras da regeneração axonal. Elas proliferam rapidamente após a lesão, reorganizam a matriz extracelular e liberam fatores neurotróficos fundamentais para o crescimento das fibras nervosas. Carvalho et al. (2024) demonstram que, além dessas funções, as células de Schwann possuem receptores que respondem à estimulação luminosa, o que explica parte da eficácia observada na laserterapia de baixa intensidade.
Além da classificação das lesões, é importante compreender como diferentes tipos de danos influenciam a condução nervosa. Na neuropraxia, o comprometimento da função ocorre principalmente por bloqueio fisiológico temporário, enquanto na axonotmese e na neurotmese há perda estrutural significativa que impede a condução. Estudos eletrofisiológicos apontam que a velocidade de condução do impulso nervoso pode ser usada como indicador importante para estimar a gravidade da lesão e prever seu curso evolutivo (Parasa; Kambhampati; Sah, 2025). Essa avaliação é particularmente útil no diagnóstico da parestesia facial, pois oferece uma ferramenta objetiva para medir alterações sensoriais e acompanhar o processo de recuperação.
Os fatores anatômicos e cirúrgicos também desempenham papel central na classificação e evolução das lesões. Procedimentos que envolvem manipulação próxima ao canal mandibular apresentam maior risco de gerar neuropraxias ou axonotmeses, enquanto procedimentos que envolvem osteotomias profundas podem causar neurotmeses. Bagheri, Bell e Khan (2023) destacam que o posicionamento das raízes dentárias, a densidade óssea e o trajeto anatômico do nervo alveolar inferior são variáveis fundamentais para entender a predisposição à lesão.
A relação entre a gravidade da lesão e o prognóstico clínico é um tema recorrente na literatura. Santos et al. (2019) destacam que lesões classificadas como neuropraxia apresentam recuperação significativamente mais rápida do que axonotmeses e neurotmeses, e que a intervenção precoce é determinante para evitar sequelas prolongadas. Esses autores confirmam que, quanto mais cedo se inicia uma terapia baseada em estimulação regenerativa, maiores são as chances de retorno sensorial completo.
A complexidade dos mecanismos neurobiológicos envolvidos na parestesia facial torna evidente que a classificação das lesões nervosas não pode ser compreendida de forma isolada da fisiologia da regeneração e da dinâmica de reorganização neural. A literatura demonstra que, após a lesão inicial, ocorre uma série de adaptações celulares que têm como objetivo restabelecer a integridade funcional do nervo. As células de Schwann, amplamente estudadas por Carvalho et al. (2024), representam o componente mais importante dessa recuperação, pois assumem múltiplas funções que vão desde a limpeza do local lesionado até o alinhamento das estruturas necessárias para orientar o crescimento axonal.
Essas células passam por um processo de desdiferenciação logo após o trauma. Em vez de manterem sua função mielinizante, elas adotam um fenótipo reparador, liberando fatores neurotróficos como NGF e BDNF, essenciais para promover a regeneração. Além disso, desenvolvem colunas longitudinais conhecidas como bandas de Büngner, que direcionam o crescimento dos axônios emergentes. A literatura atual evidencia que, quando o ambiente extracelular não favorece essa reorganização — como ocorre na presença de fibrose, infecção ou cicatrização desordenada — a regeneração é prejudicada, contribuindo para o prolongamento do quadro parestésico, como discutido amplamente por Guimarães e Neto (2023).
A neuroplasticidade, conceito cada vez mais explorado nos estudos recentes, desempenha papel importante nas fases subsequentes da recuperação neural. Mesmo que parte das fibras não consiga recuperar sua trajetória original, o sistema nervoso é capaz de reorganizar caminhos alternativos para que estímulos sensoriais sejam processados de forma funcional. Stevens et al. (2025) comprovam que a fotobiomodulação pode intensificar esse processo, estimulando vias de sinalização celular relacionadas à sobrevivência neuronal e ao fortalecimento sináptico. Esse achado é especialmente relevante para casos de axonotmese extensa ou neurotmese parcial, nos quais a recuperação completa da arquitetura neural é improvável.
Além dos mecanismos biológicos internos, fatores extrínsecos também desempenham papel decisivo no curso da regeneração. A qualidade da circulação sanguínea local, por exemplo, influencia diretamente a oxigenação dos tecidos e o transporte de nutrientes necessários ao processo reparador. Pacientes com doenças vasculares, diabetes ou hábitos como o tabagismo podem apresentar recuperação mais lenta e maior risco de sequelas permanentes, como apontado nas revisões integrativas de Araújo e Costa (2024). Esse cenário reforça a importância de avaliações clínicas abrangentes e estratégias terapêuticas individualizadas.
A relação entre tipo de lesão e potencial de recuperação é objeto de intensa investigação. Estudos como os de Kanaan et al. (2024) demonstram que intervenções que modulam a resposta inflamatória e favorecem o ambiente regenerativo podem alterar significativamente o prognóstico, mesmo em casos que inicialmente apresentariam evolução lenta ou desfavorável. Esses autores observam, em meta-análise abrangente, que terapias que promovem reorganização tecidual precoce diminuem o risco de fibrose neural — um dos principais fatores responsáveis pela falha da regeneração.
A literatura também destaca a importância da cronologia na recuperação sensorial. Quanto mais cedo inicia-se uma intervenção que estimule a reorganização neural, maiores são as chances de regeneração efetiva. Bagheri, Bell e Khan (2023) enfatizam que o tempo decorrido entre a injúria e o início do tratamento possui relação direta com o desfecho clínico. Esse entendimento conecta-se com estudos voltados ao uso da fotobiomodulação, nos quais os pesquisadores observam que a intervenção precoce apresenta resultados superiores, como demonstrado por Almeida, Souza e Gomes (2023) e Nascimento e Pereira (2024).
Esse conjunto de descobertas reforça que a parestesia não é um evento estático, mas sim um processo dinâmico que depende de múltiplos fatores biológicos, anatômicos e ambientais. A compreensão profunda da fisiopatologia permite não apenas reconhecer a gravidade da lesão, mas também identificar janelas terapêuticas que podem ser aproveitadas para otimizar o tratamento. A classificação das lesões nervosas, portanto, funciona como ferramenta estruturante para o raciocínio clínico, enquanto os mecanismos neurobiológicos oferecem as bases científicas que guiam as escolhas terapêuticas.
Diante desse panorama, torna-se evidente que abordagens terapêuticas que interajam diretamente com os processos celulares e moleculares envolvidos na regeneração representam um avanço significativo na prática clínica. A fotobiomodulação, discutida amplamente nas próximas seções, apresenta-se como uma das técnicas mais promissoras para influenciar positivamente esses mecanismos, modulando inflamação, estimulando células de Schwann e fortalecendo vias de neuroplasticidade. Os estudos de Li et al. (2022), Stevens et al. (2025) e Carvalho et al. (2024) reforçam que intervenções desse tipo têm impacto profundo e multidimensional no processo regenerativo.
Assim, a análise integrada dos mecanismos neurobiológicos e da classificação das lesões nervosas oferece base sólida para a compreensão da parestesia facial e fornece o alicerce teórico necessário para o aprofundamento das terapias estudadas neste trabalho. Esses conceitos sustentam a importância da intervenção precoce, da avaliação clínica minuciosa e da adoção de estratégias terapêuticas capazes de influenciar positivamente cada etapa da regeneração neural.
2.3 LASERTERAPIA DE BAIXA INTENSIDADE (LLLT) COMO ABORDAGEM TERAPÊUTICA NA PARESTESIA FACIAL
A laserterapia de baixa intensidade tem se consolidado nas últimas décadas como uma das abordagens terapêuticas mais promissoras para o manejo das lesões nervosas periféricas, incluindo aquelas que afetam o nervo trigêmeo e suas ramificações. A crescente aceitação clínica da LLLT decorre não apenas da expansão das tecnologias aplicadas à odontologia, mas também da robustez teórica que embasa seu mecanismo de ação em nível celular e molecular. A parestesia facial apresenta desafios significativos na prática odontológica devido à complexidade de sua fisiopatologia e ao impacto funcional e emocional que provoca nos pacientes. Nesse cenário, a LLLT surge como uma intervenção capaz de atuar diretamente nos processos biológicos associados à regeneração neural, oferecendo resultados positivamente documentados em estudos recentes.
O interesse pela laserterapia tem aumentado especialmente porque muitos casos de parestesia apresentam evolução lenta quando tratados apenas com métodos convencionais. Medicamentos anti-inflamatórios, vitaminas neurotróficas e fisioterapia têm eficácia limitada em quadros associados a lesões axonais moderadas ou graves. A literatura, entretanto, demonstra que estímulos fotobiomodulatórios podem intensificar os mecanismos regenerativos naturais e favorecer um microambiente ideal para o reparo neural. Em revisão sistemática, Almeida, Souza e Gomes (2023) demonstram que a LLLT atua como adjuvante eficaz no tratamento de lesões do nervo trigêmeo, acelerando o retorno da sensibilidade e diminuindo a duração de parestesias persistentes.
A fotobiomodulação funciona a partir da interação da luz com biomoléculas específicas presentes nas células. Quando o laser atinge tecidos biológicos, parte da energia luminosa é absorvida por cromóforos intracelulares, ativando vias metabólicas relacionadas à produção de ATP, modulação da inflamação e estímulo à síntese proteica. Carvalho et al. (2024) explicam que a citocromo c oxidase, principal fotoaceptor, desempenha papel central nesse processo, ativando mecanismos que restauram o metabolismo celular e favorecem a proliferação das células de Schwann. Esses efeitos são essenciais para a integridade do sistema nervoso periférico, uma vez que a função e a viabilidade das fibras nervosas dependem diretamente do suporte dessas células.
As propriedades terapêuticas da LLLT incluem efeitos anti-inflamatórios, analgésicos, bioestimuladores e reguladores da microcirculação. A inflamação desempenha papel crucial na fisiopatologia das lesões nervosas, pois quando não modulada adequadamente, compromete a regeneração axonal. Assim, os efeitos moduladores da fotobiomodulação sobre o processo inflamatório são especialmente relevantes para reduzir o edema pós-operatório e restaurar as condições fisiológicas necessárias para o reparo neural. Estudos experimentais como os conduzidos por Guimarães e Neto (2023) mostram que a LLLT diminui a infiltração de células inflamatórias e reduz a liberação de substâncias pró-inflamatórias, promovendo ambiente favorável ao crescimento axonal.
A literatura também demonstra que a LLLT melhora a perfusão sanguínea na região tratada. Esse efeito resulta do relaxamento das paredes vasculares e da liberação aumentada de óxido nítrico, responsável pela vasodilatação. Esse fenômeno é fundamental para a regeneração neural porque a circulação adequada garante o transporte de nutrientes, oxigênio e células reparadoras para o local da lesão. Estudos clínicos, como o de Kim, Park e Lee (2024), evidenciam que pacientes que receberam laserterapia após cirurgias de terceiros molares apresentaram retorno sensorial mais rápido e menor incidência de parestesia prolongada.
Outro fator relevante para a compreensão da eficácia da LLLT é sua capacidade de atuar sobre a atividade mitocondrial. A mitocôndria é responsável pela produção de energia celular, e o ATP é essencial para a reparação tecidual e para os mecanismos de reconstrução axonal. Carvalho et al. (2024) observam que a fotobiomodulação aumenta significativamente a produção de ATP, contribuindo para maior vigor metabólico das células envolvidas no processo de regeneração. Esse aumento da energia celular impacta diretamente na capacidade de crescimento das fibras nervosas e na atividade das células de Schwann, que proliferam com maior eficiência sob estímulo luminoso.
Além dos efeitos fisiológicos já conhecidos, estudos recentes indicam que a laserterapia influencia a expressão gênica relacionada ao processo de reparo neural. Stevens et al. (2025) identificaram que a LLLT modula positivamente genes associados ao crescimento axonal e à neuroproteção, ao mesmo tempo em que reduz a expressão de genes ligados à apoptose. Esse achado amplia a compreensão da fotobiomodulação e revela que o laser não atua apenas localmente, mas também influencia o ambiente molecular que regula a regeneração nervosa.
A laserterapia também tem sido estudada no contexto da reorganização funcional do sistema nervoso, conhecida como neuroplasticidade. Trabalhos como o de Li et al. (2022) demonstram que o laser pode estimular a reorganização sináptica e o fortalecimento de vias neuronais alternativas, contribuindo para a recuperação sensorial mesmo quando a regeneração axonal não ocorre de forma completa. Esse entendimento é importante para a prática clínica, especialmente em casos nos quais a lesão é extensa ou quando o tempo entre a injúria e o início da terapia é maior do que o ideal.
Esses mecanismos explicam por que a LLLT apresenta resultados positivos mesmo em lesões aparentemente graves. Embora a gravidade do dano seja determinante para o prognóstico, a capacidade do laser em modular processos biológicos fundamentais oferece vantagens terapêuticas que se destacam em comparação com abordagens tradicionais. Revisões integrativas, como a realizada por Araújo e Costa (2024), reforçam que a fotobiomodulação deve ser vista como parte integrante de um conjunto de estratégias de reabilitação que inclui acompanhamento clínico, terapias farmacológicas e intervenções fisioterapêuticas.
O entendimento aprofundado dos mecanismos celulares e moleculares envolvidos na ação da laserterapia de baixa intensidade permite compreender por que essa técnica tem obtido resultados consistentes no manejo da parestesia facial. A fotobiomodulação atua sobre estruturas intracelulares específicas, desencadeando respostas bioquímicas que influenciam diretamente a regeneração neural. Entre os alvos mais importantes estão as mitocôndrias, organelas fundamentais para a produção de energia. A absorção da luz laser por complexos da cadeia respiratória mitocondrial, especialmente pela citocromo c oxidase, desencadeia aumento imediato da síntese de ATP. Carvalho et al. (2024) detalham esse mecanismo ao demonstrar que a fotobiomodulação aumenta a produção energética celular, o que favorece processos essenciais como reparo da membrana axonal, reorganização de citoesqueleto e atividade metabólica intensificada das células de Schwann.
Essas células, que desempenham papel vital no processo de regeneração nervosa, mostram-se altamente responsivas à estimulação luminosa. Guimarães e Neto (2023), em estudo experimental, observaram que a fotobiomodulação aumenta a proliferação das células de Schwann e estimula sua migração ao longo do trajeto do nervo lesado. A reorganização dessas células permite a formação de estruturas tubulares que direcionam o crescimento axonal, conhecidas como bandas de Büngner. Dessa forma, o laser de baixa intensidade não atua apenas como estímulo energético, mas também como modulador direto da arquitetura celular que rege a regeneração do sistema nervoso periférico.
Além de estimular organismos celulares diretamente relacionados com o crescimento axonal, a LLLT exerce importante efeito sobre a resposta inflamatória local. A neuroinflamação é um mecanismo fisiológico esperado após uma lesão, mas sua persistência pode prejudicar significativamente a regeneração. Estudos como o de Rodrigues e Andrade (2024) mostram que o excesso de citocinas pró-inflamatórias compromete o alinhamento das células de Schwann e favorece a formação de fibrose, o que dificulta o crescimento dos novos axônios. A fotobiomodulação, porém, reduz a liberação dessas citocinas e favorece a produção de mediadores anti-inflamatórios, restabelecendo o equilíbrio necessário ao processo reparador. Essa modulação inflamatória explica os relatos de pacientes que apresentam retorno sensorial mais precoce quando tratados com laserterapia.
Outro mecanismo fundamental envolve a liberação de óxido nítrico, substância vasoativa que promove vasodilatação e melhora a microcirculação. A oxigenação tecidual adequada é crucial para a regeneração neural, pois as células envolvidas nesse processo demandam grande quantidade de oxigênio e nutrientes. Em pesquisa conduzida por Kim, Park e Lee (2024), observou-se que pacientes submetidos à remoção de terceiros molares e tratados com LLLT apresentaram melhora significativa da perfusão sanguínea na região e retorno mais rápido da sensibilidade tátil. Esses achados reforçam o papel da fotobiomodulação como moduladora do ambiente microvascular, que é essencial para o reparo neural eficiente.
Além dos mecanismos fisiológicos descritos, há evidências de que a laserterapia exerce impacto direto sobre expressão gênica e vias de sinalização molecular. No estudo de Stevens et al. (2025), os autores demonstraram que a LLLT modula genes relacionados ao crescimento axonal, à diferenciação celular e à redução da apoptose. Esse estudo, conduzido com análise transcriptômica, revelou que o laser induz alterações profundas e coordenadas no microambiente neural, sugerindo que sua ação ultrapassa o nível fisiológico tradicional e alcança efeitos em escala molecular. Essa descoberta é particularmente relevante para explicar por que casos de parestesia persistente apresentam melhoras significativas após a fotobiomodulação, mesmo quando o dano axonal já se estendia por períodos prolongados.
Em paralelo, Li et al. (2022) investigaram a relação entre laserterapia e neuroplasticidade. Seus resultados indicam que a LLLT estimula vias sinalizadoras associadas à reorganização funcional do sistema nervoso periférico, permitindo que vias alternativas sejam ativadas quando a regeneração anatômica completa não é possível. Isso explica por que certos pacientes recuperam parte da sensibilidade ou percebem melhora na qualidade sensorial mesmo com lesões estruturais irreversíveis. Essa plasticidade, intensificada pela fotobiomodulação, desempenha papel crucial na recuperação sensorial funcional.
A integração desses efeitos fisiológicos, vasculares, metabólicos e moleculares torna a LLLT uma intervenção particularmente eficaz na odontologia. Revisões integrativas como a de Araújo e Costa (2024) destacam que a LLLT apresenta vantagem adicional por ser minimamente invasiva, indolor e de alta tolerabilidade, o que a diferencia de outras intervenções que podem gerar desconforto ou exigir abordagens cirúrgicas. Esse perfil é essencial para a prática odontológica contemporânea, na qual o bem-estar do paciente e a redução de efeitos adversos são prioridades.
Evidências clínicas reforçam esses achados experimentais. Martins et al. (2022), em revisão abrangente, concluíram que a laserterapia reduz significativamente o tempo de recuperação sensorial e melhora a percepção térmica e táctil em pacientes com lesões nervosas decorrentes de procedimentos odontológicos. Em estudo clínico desenvolvido por Nascimento e Pereira (2024), a aplicação precoce de LLLT em pacientes com parestesia do nervo alveolar inferior após exodontia resultou em melhora sensorial consistente, demonstrando que a intervenção imediata exerce papel determinante no prognóstico. Esses resultados dialogam com as análises de Bagheri, Bell e Khan (2023), que reforçam a importância do tratamento precoce para evitar a instalação de quadros crônicos.
A literatura internacional também apresenta contribuições importantes. Kanaan et al. (2024), em meta-análise, observaram que a LLLT apresenta taxas elevadas de sucesso, mesmo considerando a heterogeneidade dos protocolos utilizados. Esses autores destacam que, embora haja variação nos parâmetros de aplicação — como comprimento de onda, dose e frequência — a maioria dos estudos convergem para a eficácia clínica da técnica, especialmente em lesões consideradas moderadas.
Embora a literatura científica apresente consenso quanto à eficácia da laserterapia de baixa intensidade no tratamento das lesões nervosas periféricas, uma das questões mais discutidas diz respeito à variabilidade dos protocolos utilizados. Diversos estudos aplicam parâmetros diferentes de comprimento de onda, dose, potência, densidade de energia e número de sessões, o que pode influenciar diretamente os resultados clínicos. Freitas e Simões (2024), em obra de referência sobre laser em odontologia, destacam que a ausência de padronização é um dos maiores desafios da área, não por falta de comprovação científica sobre a técnica, mas pela heterogeneidade metodológica que dificulta comparações diretas entre os estudos.
Os comprimentos de onda utilizados nas pesquisas variam, em geral, entre 630 e 980 nm, sendo o intervalo entre 780 e 830 nm um dos mais citados para aplicações em tecido nervoso por sua capacidade de penetrar profundamente nos tecidos sem causar aquecimento significativo. Kanaan et al. (2024), em meta-análise abrangente, identificaram que a maioria dos estudos com resultados positivos utilizou comprimentos de onda na faixa do infravermelho próximo, com densidades de energia entre 1 e 4 J/cm². Esse intervalo foi considerado ideal para estimular processos metabólicos e evitar efeitos inibitórios que podem ocorrer quando a dose ultrapassa certos limites.
A potência do laser também é variável entre os estudos. Pesquisas como a de Martins et al. (2022) mostram que potências entre 30 mW e 100 mW são frequentemente empregadas, enquanto estudos clínicos recentes tendem a utilizar potências mais elevadas, desde que mantida a segurança e a integridade dos tecidos. A dissipação de calor é mínima em lasers de baixa potência, mas autores como Parasa, Kambhampati e Sah (2025) alertam que potências excessivamente altas, mesmo que ainda classificadas como baixa intensidade, podem alterar o efeito terapêutico, reduzindo a eficácia ou promovendo respostas inflamatórias indesejadas.
O número de sessões é outro ponto de divergência. Alguns pesquisadores relatam resultados significativos após poucas aplicações, enquanto outros defendem tratamentos mais prolongados, especialmente em casos de lesões severas. Nascimento e Pereira (2024), por exemplo, observaram melhora sensorial consistente em pacientes que receberam sessões de laser em dias alternados durante duas semanas. Já Almeida, Souza e Gomes (2023), em revisão sistemática, destacam que os melhores resultados ocorrem quando o tratamento é iniciado precocemente, preferencialmente nos primeiros dias após a injúria, e mantido por períodos prolongados até que a recuperação sensorial seja observada.
A diversidade de protocolos não impede que se identifique um padrão de eficácia. Estudos experimentais e clínicos convergem para a conclusão de que a fotobiomodulação atua melhor quando aplicada de forma regular, com doses adequadas que respeitem a curva terapêutica da laserterapia. Essa curva mostra que doses muito baixas podem ser insuficientes para gerar bioestimulação, enquanto doses excessivas podem ter efeito inibitório, interferindo na regeneração neural. Araújo e Costa (2024) reforçam que o equilíbrio adequado da dose é essencial para resultados consistentes e que estudos futuros devem se concentrar na padronização desses parâmetros.
Além da eficácia clínica, a segurança da laserterapia é amplamente documentada. A LLLT é considerada uma técnica segura, não invasiva e bem tolerada pelos pacientes. Não há relatos na literatura de efeitos colaterais graves associados ao uso de laser de baixa intensidade no tratamento de lesões nervosas. Estudos como o de Ferreira, Rocha e Oliveira (2023) afirmam que a ausência de efeitos adversos relevantes torna o laser uma alternativa especialmente atraente para casos em que outras terapias apresentam contraindicações ou riscos. A segurança desse procedimento é reforçada por análises experimentais como as de Guimarães e Neto (2023), que não identificaram danos teciduais ou alterações estruturais quando a técnica foi aplicada com parâmetros adequados.
A facilidade de aplicação também contribui para a popularização da LLLT na odontologia contemporânea. O procedimento é rápido, indolor e pode ser realizado tanto em consultório quanto em ambiente hospitalar. Essa acessibilidade, combinada à eficácia comprovada, contribui para que muitos profissionais incluam a técnica como parte do manejo de rotina em casos de parestesia facial e outras neuropatias periféricas. Em estudo clínico, Kim, Park e Lee (2024) destacam que a aceitação por parte dos pacientes é elevada, e muitos relatam sensação de conforto e melhora imediata após as sessões.
Outro aspecto importante refere-se à atuação da LLLT como terapia complementar. Embora seja eficaz isoladamente, os melhores resultados são observados quando a terapia é integrada a um plano de reabilitação mais amplo. Carvalho et al. (2024) defendem que a laserterapia deve ser utilizada como parte de um conjunto de abordagens que incluem controle inflamatório, acompanhamento clínico próximo e, quando necessário, suporte farmacológico. A combinação dessas estratégias maximiza o potencial terapêutico e diminui o risco de evolução para quadros crônicos.
A crescente quantidade de estudos clínicos e experimentais fortalece o reconhecimento da laserterapia como ferramenta essencial no manejo das lesões nervosas. O estudo experimental de Guimarães e Neto (2023), por exemplo, demonstra que a LLLT melhora a integridade estrutural do nervo, aumenta a espessura das fibras regeneradas e diminui o tempo necessário para a recuperação funcional. Esses achados foram corroborados por Zhang et al. (2024), que concluíram que a fotobiomodulação apresenta resultados consistentes na regeneração de nervos periféricos, independentemente da espécie estudada ou do método de indução da lesão.
Essa convergência de evidências científicas reforça que a laserterapia não deve ser vista apenas como alternativa emergente, mas como técnica já consolidada na prática clínica, especialmente no campo da odontologia cirúrgica, onde a parestesia representa uma complicação comum e potencialmente prejudicial ao bem-estar dos pacientes.
A discussão contemporânea sobre a laserterapia de baixa intensidade no manejo da parestesia facial também exige reflexão sobre as limitações cientificamente reconhecidas e sobre as lacunas que ainda precisam ser preenchidas na literatura. Embora os resultados sejam amplamente positivos, autores como Parasa, Kambhampati e Sah (2025) destacam que a heterogeneidade metodológica entre os estudos, embora não comprometa o consenso sobre a eficácia, dificulta a criação de diretrizes clínicas robustas e universalmente aplicáveis. Essa variabilidade decorre tanto das diferenças nos parâmetros utilizados quanto dos diferentes modelos de lesão, características individuais dos pacientes e variações no tempo de início do tratamento.
Outro ponto frequentemente discutido é a ausência de estudos longitudinais que acompanhem os pacientes por períodos mais extensos. Grande parte das pesquisas concentra-se no retorno sensorial nas primeiras semanas ou meses após a lesão. Entretanto, a parestesia pode evoluir por longos períodos, especialmente em casos associados a axonotmeses extensas ou neurotmeses parciais. Zhang et al. (2024) afirmam que estudos clínicos com acompanhamento prolongado são fundamentais para compreender se os efeitos iniciais da fotobiomodulação se mantêm de forma estável ao longo do tempo. Essa necessidade é ainda mais evidente quando se considera que parte dos pacientes pode apresentar regeneração parcial sustentada por mecanismos de neuroplasticidade, conforme observado por Li et al. (2022).
Além disso, embora a LLLT seja amplamente segura, a falta de padronização ainda gera incertezas quanto aos limites superiores de dose em aplicações repetidas. Freitas e Simões (2024) ressaltam que, até o momento, não há evidências de toxicidade tecidual ou de efeitos adversos significativos associados ao uso adequado do laser de baixa intensidade. No entanto, doses excessivamente elevadas podem produzir efeitos inibitórios, reduzindo a eficácia terapêutica. Esse fenômeno, conhecido como resposta bifásica, é frequentemente citado em estudos experimentais e reforça a necessidade de domínio técnico por parte dos profissionais da odontologia.
Outro desafio envolve a necessidade de formação específica para a correta aplicação da técnica. Embora a LLLT seja de fácil execução e bem tolerada pelos pacientes, sua eficácia depende do domínio dos parâmetros físicos e biológicos envolvidos. Carvalho et al. (2024) salientam que o profissional deve compreender o comportamento da luz nos tecidos, as especificidades do comprimento de onda utilizado e as características da lesão nervosa tratada. Dessa forma, a formação continuada e a capacitação são indispensáveis para garantir resultados clínicos consistentes.
A literatura também aponta que a indicação da laserterapia deve considerar o perfil individual do paciente. Fatores como idade, condições metabólicas e resposta inflamatória influenciam diretamente a velocidade e a qualidade da regeneração neural. Araújo e Costa (2024) afirmam que pacientes idosos ou portadores de doenças sistêmicas podem exigir protocolos diferenciados, com doses mais conservadoras e número maior de sessões. Esse cenário reforça a necessidade de que a LLLT seja incorporada a uma abordagem terapêutica personalizada, que considere não apenas a lesão, mas também o contexto fisiológico global do indivíduo.
Apesar das limitações mencionadas, o conjunto de evidências científicas consolidadas nas últimas décadas demonstra de forma consistente que a laserterapia de baixa intensidade representa um avanço significativo no manejo da parestesia facial. Estudos como os de Almeida, Souza e Gomes (2023) e Nascimento e Pereira (2024) mostram que a intervenção precoce com LLLT reduz substancialmente o tempo de recuperação, melhora a sensibilidade tátil fina e diminui o risco de evolução para quadros crônicos. A capacidade da fotobiomodulação de modular inflamação, estimular células de Schwann, favorecer a angiogênese e promover mudanças moleculares positivas cria uma combinação de efeitos terapêuticos que poucas intervenções isoladas conseguem alcançar.
Do ponto de vista clínico, a LLLT deve ser vista como uma terapia que se integra naturalmente ao conjunto de abordagens multidisciplinares no tratamento das lesões nervosas periféricas. Sua facilidade de aplicação, perfil de segurança exemplar e ampla aplicabilidade tornam-na uma ferramenta indispensável na odontologia contemporânea. Em procedimentos de alto risco, como cirurgias ortognáticas, exodontias complexas e instalação de implantes em áreas críticas, a fotobiomodulação já se destaca como recurso preventivo e terapêutico com resultados consistentes (Bagheri; Bell; Khan, 2023; Mendonça; Lima; Kaufman, 2024).
Por fim, observa-se na literatura recente uma tendência crescente de considerar a laserterapia como parte integrante dos protocolos de reabilitação neural, e não apenas como alternativa complementar. Estudos como os de Kanaan et al. (2024) e Stevens et al. (2025) reforçam que a LLLT possui potencial terapêutico profundo, capaz de influenciar diretamente a biologia do nervo lesionado. A partir dessa perspectiva, a fotobiomodulação representa não apenas um avanço tecnológico, mas um novo paradigma no manejo das neuropatias crânio-faciais, justificando sua presença crescente em pesquisas clínicas e laboratoriais de alto impacto.
Assim, o conjunto de evidências científicas revisadas nesta seção demonstra que a laserterapia de baixa intensidade constitui abordagem terapêutica eficaz, segura e amplamente respaldada para o tratamento da parestesia facial. Seu impacto positivo na regeneração neural, aliado ao baixo risco de efeitos adversos e à facilidade de aplicação clínica, reforça sua relevância e contribui para a construção de práticas contemporâneas mais humanas, eficientes e embasadas.
2.4 EVIDÊNCIAS CIENTÍFICAS, AVANÇOS RECENTES E PERSPECTIVAS CLÍNICAS DA LASERTERAPIA
Os avanços recentes na pesquisa sobre laserterapia de baixa intensidade consolidaram a técnica como uma das principais alternativas terapêuticas para o manejo da parestesia facial na odontologia. A base científica que sustenta seu uso tem sido ampliada por estudos clínicos, experimentais e revisões sistemáticas que demonstram resultados consistentes na regeneração de nervos periféricos, na modulação da inflamação e na melhora funcional sensorial. A literatura atual evidencia que a laserterapia atua em múltiplos níveis do processo regenerativo, influenciando fenômenos celulares, moleculares e fisiológicos que são essenciais para o restabelecimento da sensibilidade em casos de lesões do nervo trigêmeo e do nervo alveolar inferior.
As revisões sistemáticas ocupam lugar de destaque entre as evidências mais robustas disponíveis. Almeida, Souza e Gomes (2023), ao analisarem ensaios envolvendo lesões do nervo trigêmeo, identificaram que a fotobiomodulação reduz significativamente o tempo de recuperação sensorial e melhora a responsividade tátil, mesmo em quadros associados a axonotmeses. Resultados semelhantes são reportados por Martins et al. (2022), que concluem que a LLLT apresenta eficácia superior a abordagens convencionais, especialmente quando aplicada precocemente após a injúria.
No campo experimental, os estudos demonstram que a laserterapia exerce impacto direto sobre mecanismos celulares que regem o processo regenerativo. Guimarães e Neto (2023) verificaram, em modelo animal, que a LLLT aumenta a espessura das fibras regeneradas, melhora a organização das células de Schwann e reduz a degeneração tecidual. Esses achados dialogam com a atualização clínica e experimental de Carvalho et al. (2024), que identificam aumento de ATP mitocondrial, redução de citocinas pró-inflamatórias e reorganização estrutural favorecida após tratamentos com laser.
Os avanços mais recentes incluem estudos envolvendo transcriptômica e análise molecular de alta precisão. Stevens et al. (2025) demonstraram que a fotobiomodulação regula positivamente genes relacionados à sobrevivência neuronal, ao crescimento axonal e à supressão de apoptose. Essa evidência confirma que o laser exerce efeitos profundos e coordenados sobre o ambiente celular, explicando o potencial da técnica para promover recuperação sensorial mesmo em lesões prolongadas.
As pesquisas clínicas na odontologia reforçam essa base teórica. Kim, Park e Lee (2024), em ensaio clínico, observaram que pacientes submetidos à extração de terceiros molares e tratados com LLLT apresentaram retorno sensorial mais rápido e menor incidência de parestesia persistente. De modo semelhante, o estudo de Nascimento e Pereira (2024) demonstrou que a aplicação repetida da laserterapia em casos de lesão do nervo alveolar inferior resultou em melhora significativa da percepção tátil e térmica já nas primeiras semanas de tratamento.
As revisões integrativas e sistemáticas corroboram essa eficácia. Por exemplo, Kanaan et al. (2024), em meta-análise robusta, confirmaram que a laserterapia aumenta significativamente a taxa de regeneração neural e reduz sintomas associados à hipoestesia e à parestesia, ainda que reconheçam a variabilidade dos parâmetros aplicados nos estudos. Rodrigues e Andrade (2024) destacam que os benefícios da LLLT são consistentes mesmo em cenários de lesão moderada a severa, desde que o protocolo utilizado respeite curvas terapêuticas adequadas de dose e frequência.
Parte dos avanços recentes também envolve o entendimento das limitações da técnica. Autores como Parasa, Kambhampati e Sah (2025) alertam que a heterogeneidade dos parâmetros reduz a comparabilidade entre estudos e torna urgente a padronização de protocolos clínicos. Apesar dessas limitações, não há evidências de efeitos adversos significativos relacionados ao uso da LLLT, como afirmam Ferreira, Rocha e Oliveira (2023) e Freitas e Simões (2024), que reforçam o excelente perfil de segurança da técnica, mesmo em aplicações repetidas.
A compreensão da relação entre lesões do nervo alveolar inferior e a eficácia das terapias também tem avançado. Bagheri, Bell e Khan (2023) e Mendonça, Lima e Kaufman (2024) reforçam que lesões desse nervo continuam sendo uma das complicações mais frequentes e clinicamente relevantes em cirurgias orais e maxilofaciais. Diante desse cenário, a laserterapia desponta como opção cada vez mais recomendada para reduzir a duração e o impacto sensorial dessas injúrias.
No panorama geral, observa-se que a LLLT ocupa um espaço de destaque no manejo da parestesia facial, reunindo evidências que comprovam sua eficácia, segurança e aplicabilidade clínica. Os estudos indicam que seu potencial terapêutico decorre de efeitos combinados sobre a mitocôndria, a inflamação, a neuroplasticidade e a arquitetura estrutural do nervo lesado. As perspectivas futuras apontam para a necessidade de estudos clínicos com maior padronização de parâmetros, investigações longitudinais e integração da técnica com métodos diagnósticos avançados, como análises neurofisiológicas e de imagem de alta resolução. forma, a literatura atual posiciona a laserterapia de baixa intensidade como intervenção promissora e cientificamente embasada, capaz de transformar o manejo clínico da parestesia facial e de contribuir para a consolidação de protocolos modernos e baseados em evidências na odontologia contemporânea.
3 CONCLUSÃO
A análise desenvolvida ao longo deste trabalho permitiu compreender, de forma ampla e fundamentada, a complexidade que envolve a parestesia facial no contexto odontológico, bem como os mecanismos biológicos e terapêuticos associados à sua prevenção e tratamento. O objetivo geral proposto, investigar a eficácia, os fundamentos teóricos e a aplicabilidade da laserterapia de baixa intensidade (LLLT) no manejo da parestesia facial, foi alcançado com profundidade, a partir da articulação entre a literatura científica recente, os modelos experimentais e clínicos, e as perspectivas contemporâneas da prática odontológica. A revisão dos estudos selecionados demonstrou a pertinência do tema, considerando que a parestesia constitui uma das complicações mais frequentes e impactantes de procedimentos cirúrgicos envolvendo o nervo trigêmeo e suas ramificações, especialmente o nervo alveolar inferior.
Ao retomar os resultados das seções anteriores, evidencia-se que o entendimento da parestesia facial exige uma leitura multidimensional. A contextualização teórica permitiu observar que a injúria neural pode resultar de múltiplos fatores, incluindo traumas mecânicos diretos, estiramentos, compressões, processos inflamatórios exacerbados e até variações anatômicas individuais que dificultam a previsibilidade cirúrgica. A distinção entre neuropraxia, axonotmese e neurotmese mostrou-se essencial para compreender os diferentes padrões de recuperação e a necessidade de intervenções específicas. A classificação das lesões segundo Seddon, embora antiga, permanece atual e funcional quando aliada aos avanços da neurociência contemporânea, sobretudo ao reconhecimento da importância da degeneração Walleriana, das células de Schwann e da neuroplasticidade.
A partir dessa base, o estudo avançou para a análise aprofundada dos efeitos celulares e fisiológicos da fotobiomodulação. O conjunto da literatura revisada demonstrou que a LLLT atua de maneira ampla, abrangendo desde mecanismos mitocondriais e anti-inflamatórios até processos de reorganização estrutural e modulação gênica. Foram destacadas as evidências que apontam para o aumento da produção de ATP, a modulação da resposta inflamatória, a diminuição da apoptose, a liberação de óxido nítrico e a reorganização das células de Schwann, que desempenham papel vital na orientação e condução do crescimento axonal. Esses achados mostram que a laserterapia não é apenas uma técnica auxiliar, mas um recurso terapêutico capaz de interferir positivamente em múltiplas etapas do processo regenerativo.
Além disso, a análise crítica permitiu identificar a consistência das evidências demonstradas em estudos experimentais e clínicos. Modelos animais mostraram regeneração mais rápida e organizada, enquanto ensaios clínicos evidenciaram diminuição no tempo de parestesia pós-operatória, melhora sensorial precoce e elevado grau de satisfação dos pacientes. A fotobiomodulação, quando aplicada com parâmetros adequados, mostrou-se eficaz tanto em casos recentes quanto em lesões de maior duração, revelando potencial terapêutico mesmo diante de injúrias mais graves. Essa robustez teórica e prática consolida a LLLT como técnica promissora e já amplamente adotada em diversos contextos clínicos.
Entretanto, é importante reconhecer que o trabalho também evidenciou limitações significativas na literatura existente. A heterogeneidade metodológica permanece como grande desafio para a consolidação de diretrizes clínicas unificadas. Variações em comprimento de onda, densidade de energia, potência, tempo de aplicação e número de sessões dificultam a comparação rigorosa entre os estudos e impedem, até o momento, o estabelecimento de protocolos padronizados universalmente recomendados. Além disso, a maioria dos estudos apresenta acompanhamento de curto a médio prazo, havendo escassez de análises longitudinais que permitam avaliar a estabilidade dos resultados a longo prazo. Esses aspectos representam áreas que precisam ser aprofundadas por futuras investigações.
Outro ponto identificado diz respeito à necessidade de formação adequada dos profissionais. Apesar de a laserterapia ser uma técnica segura e de fácil aplicação, sua eficácia depende diretamente do conhecimento sobre parâmetros físicos e biológicos. A ausência de padronização reforça ainda mais a importância de capacitações específicas, de modo que a prática clínica seja baseada em evidências e aplicada de maneira criteriosa e responsável. O uso indiscriminado ou mal indicado da técnica pode comprometer os resultados terapêuticos e gerar interpretações imprecisas sobre sua real eficácia.
No tocante às perspectivas futuras, a literatura aponta para um cenário promissor. A expansão das pesquisas envolvendo análises moleculares — como transcriptômica, proteômica e estudos de expressão gênica — tende a aprofundar a compreensão dos mecanismos pelos quais a fotobiomodulação influencia a regeneração neural. O desenvolvimento de tecnologias mais avançadas de emissão luminosa, capazes de modular parâmetros com maior precisão, também poderá contribuir para protocolos mais personalizáveis e eficientemente direcionados a diferentes tipos de lesão. Além disso, espera-se que estudos clínicos multicêntricos, com amostras representativas e seguimento de longo prazo, consolidem ainda mais a base científica necessária para recomendações normativas.
No âmbito clínico, a tendência é que a laserterapia de baixa intensidade seja incorporada progressivamente aos protocolos de prevenção e tratamento de lesões nervosas relacionadas a cirurgias odontológicas, especialmente aquelas envolvendo a região mandibular. A possibilidade de reduzir o tempo de recuperação, minimizar sequelas sensoriais e proporcionar maior conforto aos pacientes coloca a técnica em posição de destaque entre as abordagens terapêuticas contemporâneas. Ademais, a LLLT apresenta perfil de segurança superior a diversas modalidades farmacológicas e cirúrgicas, o que a torna atrativa tanto para pacientes quanto para profissionais.
Com base em tudo o que foi exposto, conclui-se que o trabalho cumpriu plenamente seus objetivos ao demonstrar que a laserterapia de baixa intensidade representa uma intervenção eficaz, fundamentada cientificamente e altamente promissora para o manejo da parestesia facial. O aprofundamento dos mecanismos biológicos envolvidos, a análise crítica das evidências recentes e a discussão das perspectivas para sua aplicação clínica reforçam a relevância da técnica e justificam sua adoção crescente na odontologia. Permanecem, entretanto, desafios importantes relacionados à padronização dos protocolos, ao fortalecimento das investigações clínicas de longo prazo e à necessidade de formação especializada. Esses elementos constituem direções futuras essenciais para o aprimoramento da prática clínica e para a consolidação definitiva da fotobiomodulação como abordagem central na reabilitação neural na odontologia.
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