REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ma10202510281016
Amanda Maciel Corrêa
Orientador: Ms. Gabriel Lopes Oliveira
Resumo
O presente estudo analisa a sucessão familiar como fator determinante para a continuidade e o fortalecimento de propriedades rurais, tomando como referência o caso da Fazenda Lageado, localizada em Lagoa Formosa (MG). A pesquisa, de caráter aplicado e exploratório, utilizou abordagem qualitativa, com base em entrevistas semiestruturadas e análise de conteúdo segundo Bardin (2016). Buscou-se compreender os impactos da transição geracional sobre a gestão, os resultados econômicos e a cultura organizacional da propriedade. Os resultados indicam que a sucessão foi conduzida de forma gradual e colaborativa, caracterizando-se pela convivência intergeracional, pela confiança mútua e pela introdução de instrumentos de gestão e governança. A adoção de tecnologias de monitoramento, softwares financeiros e reuniões periódicas de desempenho contribuiu para a profissionalização da administração e o aumento da eficiência produtiva. Entre 2017 e 2025, observou-se crescimento de 80% na produção leiteira e redução significativa dos custos operacionais, evidenciando os efeitos positivos da modernização. A análise demonstra que o sucesso da sucessão familiar depende não apenas de planejamento formal, mas também da valorização do diálogo, da clareza de papéis e da integração entre tradição e inovação. Conclui-se que a experiência da Fazenda Lageado reforça a importância da sucessão como processo contínuo de aprendizado, capaz de garantir sustentabilidade econômica, coesão familiar e preservação do legado no agronegócio.
Palavras-chave: Sucessão familiar. Agronegócio. Governança. Gestão rural. Fazenda Lageado.
Abstract
This study analyzes family succession as a determining factor for the continuity and strengthening of rural properties, taking as a reference the case of Fazenda Lageado, located in Lagoa Formosa (MG), Brazil. The research, applied and exploratory in nature, used a qualitative approach based on semi-structured interviews and content analysis according to Bardin (2016). The objective was to understand the impacts of generational transition on management, economic results, and the organizational culture of the property. The results indicate that succession was conducted gradually and collaboratively, characterized by intergenerational coexistence, mutual trust, and the introduction of management and governance tools. The adoption of monitoring technologies, financial software, and periodic performance meetings contributed to the professionalization of administration and increased production efficiency. Between 2017 and 2025, there was an 80% increase in milk production and a significant reduction in operating costs, highlighting the positive effects of modernization. The analysis demonstrates that the success of family succession depends not only on formal planning but also on valuing dialogue, role clarity, and the integration of tradition and innovation. It is concluded that the experience of Fazenda Lageado reinforces the importance of succession as a continuous learning process capable of ensuring economic sustainability, family cohesion, and the preservation of legacy in agribusiness.
Keywords: Family succession. Agribusiness. Governance. Rural management. Fazenda Lageado.
Introdução
A sucessão familiar é um tema recorrente e complexo no âmbito da administração de empresas familiares, especialmente no agronegócio, no qual a atividade econômica muitas vezes é entrelaçada com a história da família proprietária. No Brasil, no qual uma parcela significativa das propriedades rurais tem raízes e continuidade familiar, a transferência de gestão entre gerações representa um momento crucial que pode garantir a longevidade ou comprometer a sustentabilidade do empreendimento.
Esse processo de sucessão implica não apenas a passagem de bens ou cargos; envolve também a transmissão de conhecimentos, valores, cultura e responsabilidades que sustentam a identidade da propriedade. Entretanto, questões como falta de planejamento, conflitos interpessoais, ausência de preparação dos sucessores e resistência por parte dos fundadores podem dificultar essa transição, colocando em risco a continuidade das operações. Em contrapartida, quando conduzido de forma estratégica, o processo sucessório pode fortalecer uma estrutura administrativa, estimular inovações e consolidar uma gestão rural mais profissionalizada.
Como destacam Oliveira e Vieira Filho (2018, p. 4) “As fazendas familiares – pequenas, médias ou grandes – continuam sendo a unidade de produção largamente predominante na agricultura mundial.” Essa predominância evidencia a importância de compreender a sucessão como um mecanismo essencial para a continuidade e sustentabilidade dessas unidades produtivas.
Diante desse contexto, o presente estudo tem como objetivo analisar a sucessão familiar como fator de continuidade em propriedades rurais, tomando como referência o estudo de caso da Fazenda Lageado, localizada no município de Lagoa Formosa (MG). A escolha da propriedade se deve pela relevância e representatividade, principalmente em relação à produção de leite e genética holandesa na região, assim como pela importância do processo de sucessão familiar para sua continuidade e sucesso. Segundo reportagem da Agrolink, sob a gestão do João Paulo e seus irmãos, e com apoio de tecnologia de monitoramento, “a propriedade hoje conta com 550 vacas em lactação, que produzem em torno de 18 mil litros/dia de leite” (AGROLINK, 2022).
Além da análise qualitativa do processo sucessório, este trabalho contempla a avaliação de indicadores de produção e desempenho econômico da propriedade no período de 2017 a 2025. Busca-se, assim, identificar de forma empírica os efeitos da transição geracional sobre os resultados organizacionais, compreender as estratégias adotadas, os desafios enfrentados e as práticas de gestão implementadas que contribuíram para a continuidade e o fortalecimento da propriedade rural. Trata-se de uma experiência conduzida gradualmente, sem planejamento formal, mas com base em uma gestão profissionalizada e na cooperação entre gerações, características que oferecem subsídios teóricos e práticos aplicáveis a outras empresas rurais em contextos semelhantes.
Diante do exposto, esta pesquisa justifica-se pela necessidade de aprofundar o conhecimento sobre os processos de sucessão familiar em propriedades rurais, contribuindo para a compreensão dos desafios e das oportunidades que permeiam esse setor. Além disso, espera-se que os resultados obtidos forneçam subsídios teóricos e práticos que auxiliem gestores na tomada de decisões estratégicas e na adoção de práticas mais eficazes de sucessão, fortalecendo a continuidade e a sustentabilidade das propriedades rurais.
Desenvolvimento
A sucessão familiar no agronegócio é um tema de grande relevância, sobretudo diante da crescente preocupação com a continuidade das empresas e propriedades rurais familiares. Mais do que a simples transferência de bens, a sucessão envolve a transmissão de valores, conhecimentos e práticas que caracterizam a identidade da empresa familiar. De acordo com Oliveira (2010), o processo de sucessão é um momento decisivo para garantir a continuidade das empresas familiares, uma vez que, se conduzido de forma inadequada, pode comprometer significativamente a efetividade e a sustentabilidade do negócio.Nessa mesma linha, Brizzolla et al. (2020) afirmam que é justamente no processo sucessório que ocorre a passagem da gestão da propriedade ao sucessor, que assume a responsabilidade de manter e desenvolver as atividades anteriormente desempenhadas pelos pais.
A sucessão familiar é frequentemente um processo complexo e sensível, que pode gerar conflitos capazes de abalar as relações familiares e comprometer a continuidade do negócio. Por isso, é essencial que o fundador esteja disposto a repassar seu conhecimento e capital intelectual à próxima geração (Archeto; Oliveira, 2021).
A sucessão familiar constitui um dos temas centrais na preservação da continuidade de empresas, propriedades rurais e patrimônios familiares, assumindo relevância crescente diante das transformações econômicas e sociais contemporâneas. O processo sucessório, longe de se restringir a uma simples transmissão de bens ou cargos, envolve a transição de valores, responsabilidades e estratégias de gestão entre gerações. A literatura recente demonstra que o êxito dessa transição depende de fatores estruturais e subjetivos, como planejamento jurídico, preparo emocional dos herdeiros e clareza nos objetivos organizacionais (ROSA; FRISKE, 2023). Em contextos empresariais e rurais, a sucessão sem planejamento adequado pode gerar rupturas significativas, comprometendo a perenidade do negócio e a harmonia familiar.
No ambiente corporativo, a holding familiar tem se consolidado como um instrumento jurídico eficaz para organizar e proteger o patrimônio, promovendo eficiência tributária e segurança nas relações sucessórias. Mamede, Mamede e Mamede (2025) destacam que a constituição de holdings familiares permite a centralização do controle e a racionalização da gestão patrimonial, evitando litígios e minimizando custos sucessórios. Essa estrutura favorece a continuidade empresarial e a profissionalização da administração, reduzindo conflitos entre sucessores e possibilitando um planejamento mais racional do legado familiar. Assim, o modelo jurídico da holding se revela não apenas como um mecanismo de proteção patrimonial, mas também como uma ferramenta estratégica para perpetuar valores empresariais e culturais da família.
No contexto da agricultura familiar, o tema da sucessão adquire contornos ainda mais complexos. A permanência dos jovens no campo tem sido um desafio global, com implicações diretas sobre a sustentabilidade das propriedades e a preservação do conhecimento produtivo acumulado. Breitenbach, Corazza e Debastiani (2021) ressaltam que a sucessão rural é influenciada por fatores econômicos, educacionais e culturais, e que a falta de políticas públicas voltadas à valorização do trabalho agrícola agrava o êxodo das novas gerações. De modo semelhante, Brizzolla et al. (2020) observam que a ausência de estratégias de incentivo e de capacitação dos herdeiros compromete o processo de renovação produtiva, resultando na estagnação de propriedades rurais e na perda de identidade comunitária.
A revisão sistemática de Monteiro et al. (2024) reforça que a sucessão na agricultura familiar brasileira é marcada por dilemas intergeracionais e por desafios relacionados à gestão e à inovação tecnológica. Muitos produtores, ainda presos a modelos tradicionais de liderança, resistem à inserção dos jovens em posições de decisão, o que acentua a descontinuidade produtiva. Nesse sentido, o planejamento sucessório é um instrumento essencial para alinhar expectativas, formalizar responsabilidades e garantir que a transição se dê de maneira gradativa e sustentável. O sucesso desta transição depende, portanto, da integração entre o conhecimento empírico dos mais velhos e as competências técnicas das novas gerações, promovendo uma gestão intergeracional equilibrada.
Estudos também apontam que, nas empresas do agronegócio, a sucessão familiar está cada vez mais associada à adoção de práticas de governança corporativa e à profissionalização da gestão. Brandt, Scheffer e Gallon (2020) argumentam que o processo sucessório bem-sucedido exige planejamento estratégico, definição clara de papéis e mecanismos transparentes de tomada de decisão. Essa abordagem reduz os impactos de conflitos familiares e assegura maior estabilidade organizacional. Da mesma forma, Rengel et al. (2020) demonstram que o planejamento estratégico em negócios familiares é determinante para a manutenção da competitividade e da confiança entre os membros, principalmente em setores em que o capital social e as relações interpessoais são fundamentais.
Por fim, a revisão conduzida por Bühler e Oliveira (2023) indica que a integração entre o modelo de holding familiar e o planejamento sucessório rural representa uma tendência promissora, especialmente para famílias que buscam conciliar tradição e inovação. A adoção de estruturas jurídicas mais sofisticadas, aliada à modernização da gestão, pode garantir a continuidade das atividades produtivas, a redução de riscos tributários e o fortalecimento da governança. Dessa forma, a sucessão familiar deve ser entendida como um processo dinâmico, que ultrapassa o campo jurídico e adentra dimensões psicológicas, sociais e econômicas. Trata-se, em última instância, de assegurar que o legado construído por uma geração se converta em base sólida para o desenvolvimento sustentável das próximas.
Nesse sentido, compreender os fatores que influenciam a sucessão e como ela se desenvolve dentro de cada realidade familiar, como no caso da Fazenda Lageado, torna-se essencial para analisar as estratégias que contribuem para a permanência e o fortalecimento das empresas rurais ao longo do tempo. Ambas as abordagens reforçam que o êxito da sucessão não está apenas na transferência formal de funções, mas na forma como os conhecimentos e práticas são internalizados e reconfigurados para garantir a continuidade do empreendimento.
O processo de sucessão familiar no meio rural envolve desafios que vão além da transferência de recursos, exigindo preparo emocional, diálogo e ajustes na estrutura de gestão. Freitas e Frezza (2016) ressaltam que, dentre as principais dificuldades enfrentadas pelas empresas familiares, estão a transferência de poder entre gerações, o avanço na profissionalização e a gestão de conflitos internos. Essas complexidades são intensificadas pela necessidade de redefinir papéis e estabelecer confiança em novos líderes. Além disso, a pulverização da propriedade entre herdeiros pode gerar a necessidade de decisões compartilhadas entre um número maior de sócios, o que, segundo Alcântara e Machado Filho (2014), impulsiona a criação de estruturas de governança capazes de organizar a interação entre sucessores, sucedidos e demais membros da família, tornando-se um fator determinante para a continuidade do negócio. Nesse contexto, é essencial adotar ferramentas e estratégias como a integração gradual do sucessor nas operações diárias, o estímulo ao desenvolvimento técnico e o uso de métodos de gestão participativa.
O processo sucessório no meio rural brasileiro tem se revelado um dos maiores desafios à sustentabilidade econômica, social e cultural das propriedades familiares. Mais do que uma simples transferência de bens, a sucessão representa a continuidade de um modo de vida, de saberes produtivos e de vínculos identitários com a terra. Entretanto, conforme apontam Oliveira, Mendes e Vasconcelos (2020), a permanência das novas gerações no campo tem sido cada vez mais difícil, em razão de fatores estruturais, como a falta de acesso à tecnologia, a baixa rentabilidade das pequenas propriedades e a escassez de políticas públicas voltadas à valorização do trabalho rural. Esses elementos configuram um cenário em que o campo deixa de ser visto como espaço de oportunidade e passa a ser associado à limitação e à falta de perspectivas, alimentando o êxodo rural juvenil e comprometendo a sucessão intergeracional.
Além dos aspectos econômicos, o processo sucessório rural é profundamente marcado por tensões emocionais e culturais. Mocelin et al. (2024) destacam que, para muitos gestores rurais, o desafio está em equilibrar o desejo de preservar o legado familiar com a necessidade de abrir espaço para a inovação e a autonomia dos sucessores. Os pais frequentemente relutam em delegar poder decisório ou em reconhecer a competência técnica dos filhos, o que gera insegurança e desmotivação entre os jovens. Por outro lado, os sucessores enfrentam o dilema de assumir responsabilidades sem a liberdade de promover mudanças significativas. Essa dinâmica de poder, permeada por afeto, tradição e resistência, torna o processo sucessório um campo de negociação constante entre gerações, em que o diálogo e o planejamento são condições essenciais para o êxito.
A literatura recente também evidencia que os desafios da sucessão rural não são homogêneos: variam conforme o contexto regional, o porte da propriedade e a dinâmica familiar. Em estudo realizado no Nordeste brasileiro, De Lima et al. (2024) observaram que, em municípios como Ereré, no Ceará, as dificuldades sucessórias estão associadas à ausência de formalização das propriedades e à carência de instrumentos jurídicos adequados para a transferência de bens. Nessas regiões, a falta de documentação e de acesso à assessoria técnica inviabiliza a constituição de holdings familiares ou de contratos de gestão, o que fragiliza a segurança jurídica e expõe as famílias a conflitos internos e a perda de patrimônio. Bühler, Bruch e Fleischmann (2025) reforçam que a criação de holdings e estruturas jurídicas específicas para o meio rural poderia atenuar esses impasses, permitindo que a sucessão fosse tratada com o mesmo grau de profissionalismo e planejamento das empresas urbanas.
Outro elemento central na discussão sobre a sucessão rural é o papel da mulher. Tradicionalmente invisibilizadas nas decisões produtivas e patrimoniais, as mulheres têm gradualmente assumido funções de liderança e gestão nas propriedades familiares. Cottens (2025) aponta que, embora as mulheres gestoras e cogestoras demonstram alta capacidade organizacional e estratégica, elas ainda enfrentam resistências simbólicas e culturais que limitam sua autoridade no processo sucessório. De forma convergente, De Almeida Araujo e Dos Passos Santos (2024) identificam que, em fazendas de pecuária bovina, as herdeiras encontram barreiras relacionadas tanto ao preconceito de gênero quanto à ausência de reconhecimento formal de suas competências. Esse cenário revela que o desafio da sucessão no campo é também uma questão de equidade e de reconfiguração das relações de poder no interior das famílias rurais.
Do ponto de vista jurídico e institucional, Iserhardt e Spanevello (2024) defendem que a ausência de instrumentos legais claros e de orientação técnica especializada agrava os conflitos sucessórios no agronegócio. A falta de planejamento preventivo resulta em processos morosos e litigiosos, que desestruturam as atividades produtivas e comprometem a continuidade dos negócios. O fortalecimento de políticas de governança e a disseminação de práticas multidisciplinares, envolvendo advogados, contadores e consultores familiares, aparecem como caminhos promissores para reduzir os riscos de ruptura e garantir a transição ordenada da gestão.
Por fim, conforme Nogueira (2022) observa, os desafios enfrentados pelos produtores rurais e suas famílias no processo sucessório transcendem as dimensões econômicas e jurídicas, alcançando aspectos subjetivos como identidade, pertencimento e projeto de vida. O campo não é apenas um espaço de produção, mas também um território de significados, e a continuidade das propriedades familiares depende de que as novas gerações reconheçam nesse ambiente um futuro possível. Assim, o processo sucessório no meio rural precisa ser compreendido como uma construção coletiva, que exige diálogo intergeracional, reconhecimento das diversidades e adoção de instrumentos legais e sociais que garantam não apenas a transferência de bens, mas a preservação de um modo de viver e produzir enraizado na história das famílias brasileiras.
A adoção de ferramentas de gestão no ambiente rural tem se mostrado uma estratégia eficaz para fortalecer o processo de sucessão familiar. Recursos como planejamento estratégico, análise de indicadores financeiros, definição de metas e reuniões periódicas entre membros da família contribuem para a profissionalização da gestão e aumentam a clareza nas decisões. Conforme destaca Souza, Silva e Dias (2020), a aplicação de indicadores organizacionais como liderança, controle, comunicação e motivação é fundamental para estruturar sistemas de governança e facilitar o planejamento sucessório, especialmente em empreendimentos rurais de grande porte. Esses instrumentos permitem não apenas o monitoramento da performance da propriedade, mas também criam um ambiente mais transparente e confiável para a entrada da nova geração. Complementando essa perspectiva, Cadorin et al. (2023) enfatizam que o sucesso da sucessão depende do alinhamento entre os objetivos estratégicos e operacionais, que devem ser bem definidos, implementados e acompanhados ao longo do processo, evitando imprevistos e conflitos motivados por interesses pessoais que possam comprometer a transferência de poder. Enquanto Souza, Silva e Dias (2020) focam na importância dos indicadores e da estrutura organizacional como base para a sucessão, Cadorin et al. (2023) reforçam a necessidade de um planejamento disciplinado e vigilante quanto à proteção dos interesses coletivos da família empresária. Ambas as abordagens convergem ao defender que a gestão profissionalizada é essencial para garantir a continuidade do negócio e a legitimidade da sucessão no meio rural. No caso da Fazenda Lageado, a implementação gradual de práticas de controle zootécnico e financeiro, aliada à adoção de aplicativos de gestão rural e ao suporte de consultorias especializadas, contribuiu para a organização dos processos internos e para a tomada de decisões mais embasadas. Tais medidas reforçaram a confiança dos sucessores e favoreceram uma transição mais segura.
No contexto do agronegócio contemporâneo, os instrumentos de gestão assumem papel central no fortalecimento da sucessão familiar, promovendo não apenas a continuidade das empresas rurais, mas também a sua modernização e sustentabilidade de longo prazo. A profissionalização da administração no campo, impulsionada por ferramentas de controle, planejamento e governança, tem se mostrado um diferencial decisivo para a perenidade das organizações familiares. Conforme Raddatz et al. (2022), a contabilidade, por exemplo, representa um dos pilares dessa estrutura, pois fornece informações precisas e transparentes sobre a situação financeira e patrimonial das propriedades, permitindo que a tomada de decisões ocorra com base em dados objetivos. Ao oferecer uma visão ampla do desempenho econômico e da alocação de recursos, a contabilidade atua como suporte essencial para a gestão intergeracional e para o diálogo entre sucessores e antecessores.
Entretanto, o sucesso da sucessão no agronegócio não depende apenas da técnica, mas da integração entre gestão e valores familiares. Messias e Kruger (2023) observam que a sucessão rural no contexto sul-mato-grossense enfrenta desafios ligados à ausência de planejamento estratégico e à resistência cultural em tratar o tema de forma antecipada. Em muitas propriedades, o processo sucessório é adiado até o surgimento de crises ou da incapacidade dos gestores originais, o que resulta em rupturas e perda de competitividade. Nesse cenário, os instrumentos de gestão funcionam como mediadores entre a tradição e a inovação, permitindo que a transição ocorra de maneira planejada, com metas, papéis e responsabilidades claramente definidos. Assim, o uso de ferramentas como planejamento financeiro, controle de custos e indicadores de desempenho contribui para alinhar a sucessão aos objetivos organizacionais, fortalecendo a identidade do negócio e sua capacidade adaptativa frente às exigências do mercado.
Entre os instrumentos de maior relevância, o planejamento sucessório estruturado por meio da constituição de holdings familiares tem se destacado como uma solução jurídica e econômica de alta eficiência. Lima (2021) explica que a criação de uma holding no agronegócio permite centralizar a administração patrimonial, reduzir custos tributários e prevenir conflitos entre herdeiros, garantindo uma transição mais segura e organizada. Essa perspectiva é reforçada por Almeida (2023), que argumenta que o modelo de holding oferece benefícios não apenas de natureza fiscal, mas também de gestão, ao possibilitar que a propriedade rural seja tratada como empresa, com regras de governança e mecanismos de decisão compartilhada. Dessa forma, o planejamento sucessório torna-se um instrumento de continuidade e inovação, ao alinhar o legado familiar às exigências de profissionalização impostas pela dinâmica global do agronegócio.
A literatura também evidencia que a sucessão bem-sucedida depende da implementação de práticas de governança corporativa que promovam transparência, meritocracia e comunicação eficiente. Iserhardt e Spanevello (2024) destacam que a ausência de instrumentos jurídicos e administrativos adequados leva a disputas e à desorganização interna das empresas familiares, muitas vezes inviabilizando sua continuidade. A formalização de contratos, estatutos e conselhos familiares permite equilibrar interesses individuais e coletivos, oferecendo segurança jurídica e clareza sobre a distribuição de poder e responsabilidades. Esse processo, além de preservar o patrimônio, contribui para a coesão entre os membros da família e para a manutenção de uma visão estratégica comum.
A perspectiva humana do processo sucessório também merece destaque. Rodrigues e Barbieri (2022) ressaltam que a sucessão envolve dimensões emocionais e subjetivas que, se negligenciadas, podem comprometer a gestão. O preparo psicológico dos sucessores, aliado a um ambiente de confiança e diálogo, é tão essencial quanto o domínio técnico das ferramentas de gestão. A sucessão, nesse sentido, deve ser vista como um processo contínuo de aprendizado e desenvolvimento, em que o conhecimento prático acumulado por uma geração é integrado à capacidade de inovação da seguinte. Brandt, Scheffer e Gallon (2020) acrescentam que as empresas rurais que adotam práticas formais de planejamento estratégico e gestão participativa apresentam maior longevidade e adaptabilidade às mudanças do mercado, reforçando a importância de combinar racionalidade administrativa e sensibilidade familiar.
Por fim, Paiva (2023) destaca que a utilização de instrumentos de gestão no agronegócio não apenas favorece a continuidade das propriedades familiares, mas também fortalece o papel social do campo como agente de desenvolvimento econômico. A gestão eficiente transforma a sucessão em oportunidade de crescimento, estimulando a criação de novas estratégias produtivas, a diversificação de atividades e o engajamento das novas gerações. Assim, os instrumentos de gestão não devem ser compreendidos como recursos meramente técnicos, mas como mecanismos de sustentabilidade intergeracional, capazes de integrar tradição, inovação e governança em prol da vitalidade das empresas familiares rurais.
Conclusão
A análise do caso da Fazenda Lageado evidencia que a sucessão familiar no agronegócio é um processo multifacetado, que entrelaça dimensões econômicas, organizacionais e simbólicas. A passagem gradual de responsabilidades — ancorada em convivência intergeracional, confiança e aprendizagem prática — evitou rupturas, preservou o capital sociotécnico construído pelo patriarca e abriu espaço para a inserção de ferramentas contemporâneas de gestão. Ao mesmo tempo, mostrou-se que sucessão não se reduz à transferência de ativos ou títulos: trata-se de reconfigurar papéis, institucionalizar rotinas e consolidar uma cultura orientada a dados, sem abdicar dos valores que conferem identidade ao empreendimento familiar.
Os resultados econômicos e produtivos entre 2017 e 2025 reforçam essa leitura. O incremento do volume de leite, a redução proporcional de custos e o aumento das margens não decorreram de decisões pontuais, mas de um ciclo de profissionalização que incluiu monitoramento zootécnico, controle financeiro sistemático, relatórios periódicos e planejamento de investimentos. Em consonância com a literatura, a governança — materializada na formalização de regras, na divisão clara de funções e nas reuniões de desempenho — operou como “ponte” entre tradição e inovação, convertendo conhecimento tácito em procedimentos replicáveis e sustentando a competitividade em um ambiente tecnológico e mercadológico mais exigente.
Do ponto de vista humano e institucional, o estudo também evidenciou tensões típicas do processo sucessório: resistências à mudança, sobreposições entre laços afetivos e responsabilidades gerenciais e lacunas jurídicas quando inexiste planejamento formal. A resposta eficaz envolveu diálogo estruturado, mentorias do fundador, especialização funcional dos sucessores e adoção progressiva de instrumentos de governança.
Como implicações práticas, recomenda-se que propriedades em fase de transição antecipem a discussão sucessória e a combinem com três eixos: i) profissionalização da gestão (indicadores, contabilidade gerencial e metas), ii) governança familiar (papéis, ritos de prestação de contas e tomada de decisão colegiada) e iii) segurança jurídica (planejamento sucessório e patrimonial). Para pesquisas futuras, sugere-se ampliar estudos comparados entre propriedades de diferentes portes e regiões, incorporando métricas padronizadas de desempenho econômico, ambiental e social. Em síntese, o caso Lageado mostra que a sucessão, quando tratada como processo contínuo de aprendizado e institucionalização, transforma o legado em plataforma de inovação, garantindo continuidade, coesão interna e sustentabilidade.
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