A RETÓRICA SUSTENTÁVEL DO CAPITALISMO: O DISCURSO VERDE COMO INSTRUMENTO DE DOMINAÇÃO NO SÉCULO XXI*

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ni10202511102101


Aline Fernanda Scotti de Almeida; Bernardo Dalla Rosa; Conrado Lima Rorato; Débora Aline da Fonseca; Eduardo Schirrmann de Moraes; Guilherme Henrique Garcia Custodio; Henrique Murillo Teixeira; Leonardo Silva de Oliveira; Matheus Henrique Straesser; Micheli da Silveira Miranda; Pâmela Dominik Engers Bratz; Rafael Rodolfo Nass


RESUMO

O presente artigo analisa criticamente a utilização do discurso sustentável por grandes nações capitalistas como ferramenta retórica de manutenção da hegemonia global. Argumenta-se que o chamado “capitalismo verde” funciona como estratégia simbólica para legitimar práticas predatórias enquanto projeta uma imagem internacional de responsabilidade ambiental. A análise parte da constatação de que, no século XXI, as potências econômicas passaram a incorporar a sustentabilidade não como princípio transformador, mas como elemento discursivo capaz de preservar privilégios geopolíticos e ampliar mercados. Esse fenômeno aprofunda desigualdades ecológicas ao transferir custos ambientais para países periféricos enquanto monopoliza tecnologias limpas e certificações verdes. A pesquisa revela que iniciativas como acordos climáticos e metas de neutralidade carbônica, embora revestidas de linguagem inclusiva e ética, muitas vezes reforçam dinâmicas neocoloniais. A retórica sustentável opera, assim, como mecanismo de desmobilização política ao sugerir soluções dentro da lógica de mercado, neutralizando críticas mais radicais à estrutura econômica vigente. Dessa forma, o capitalismo contemporâneo reconfigura-se discursivamente sem alterar suas bases exploratórias, consolidando um novo tipo de dominação que associa preocupações ambientais à manutenção de privilégios históricos. Conclui-se que a sustentabilidade, enquanto narrativa apropriada, precisa ser desmistificada para que possa cumprir efetivamente seu papel de justiça ambiental e social no cenário global.

Palavras-chave: Sustentabilidade. Hegemonia. Retórica.

ABSTRACT

This article critically examines the use of sustainable discourse by major capitalist nations as a rhetorical tool for maintaining global hegemony. It argues that the so-called “green capitalism” functions as a symbolic strategy to legitimize predatory practices while projecting an international image of environmental responsibility. The analysis starts from the observation that, in the twenty-first century, economic powers have incorporated sustainability not as a transformative principle but as a discursive element capable of preserving geopolitical privileges and expanding markets. This phenomenon deepens ecological inequalities by shifting environmental costs to peripheral countries while monopolizing clean technologies and green certifications. The research shows that initiatives such as climate agreements and carbon neutrality targets, although wrapped in inclusive and ethical language, often reinforce neocolonial dynamics. The sustainable rhetoric thus operates as a mechanism of political demobilization by suggesting solutions within the market logic, neutralizing more radical critiques of the current economic structure. In this way, contemporary capitalism discursively reconfigures itself without altering its exploitative foundations, consolidating a new type of domination that associates environmental concerns with the maintenance of historical privileges. It is concluded that sustainability, as an appropriated narrative, must be demystified in order to effectively fulfill its role of environmental and social justice in the global arena.

Keywords: Sustainability. Hegemony. Rhetoric.

1 INTRODUÇÃO

O debate sobre sustentabilidade ganhou centralidade nas últimas décadas, especialmente em razão do agravamento das crises climáticas, do aumento da frequência de eventos extremos e da pressão crescente da opinião pública internacional por soluções efetivas. A consciência ambiental, impulsionada por organizações da sociedade civil, movimentos sociais e acordos multilaterais, forçou governos e corporações a incorporarem práticas ambientalmente corretas em suas agendas. 

Essas iniciativas passaram a conferir legitimidade institucional e social a ações empresariais e estatais que, em contextos anteriores, eram amplamente criticadas por seu caráter predatório e por gerar danos irreparáveis aos ecossistemas. Contudo, essa transformação não ocorreu de maneira neutra ou desinteressada, revelando a apropriação discursiva da sustentabilidade por parte das grandes potências capitalistas como um mecanismo de manutenção da hegemonia.

Nesse contexto, a sustentabilidade assumiu contornos mais simbólicos do que substantivos, funcionando como um instrumento retórico empregado estrategicamente para sustentar privilégios históricos. O capitalismo contemporâneo adaptou-se às novas demandas sociais e ambientais ao incorporar uma estética verde, que não altera sua lógica fundamental de exploração de recursos e trabalho, mas antes reforça sua legitimidade no cenário global. 

O discurso sustentável, dessa maneira, atua como um véu ideológico que camufla práticas econômicas excludentes, muitas vezes agravando desigualdades socioambientais sob a aparência de inclusão e responsabilidade. Cria-se, assim, um paradoxo entre a promessa ética do desenvolvimento sustentável e a perpetuação de dinâmicas estruturais de exploração.

Esse paradoxo é intensificado pelas assimetrias globais entre países centrais e periféricos, nas quais os primeiros detêm o monopólio sobre tecnologias limpas, inovações ambientais e certificações verdes, enquanto os últimos suportam os custos ambientais e sociais de políticas globais impostas unilateralmente. Tal configuração reproduz a lógica neocolonial do sistema internacional, com os países periféricos sendo pressionados a cumprir metas de mitigação sem a devida transferência de recursos tecnológicos ou financeiros. Sob o manto do discurso sustentável, práticas de exclusão econômica e degradação ambiental continuam a ser implementadas, evidenciando que a sustentabilidade, como concebida nas instâncias de poder global, é menos um compromisso com justiça ambiental e mais uma estratégia para preservar hierarquias já estabelecidas.

Dessa perspectiva, compreender a sustentabilidade como uma narrativa estratégica, apropriada para a proteção dos interesses das elites globais, é um passo necessário para desvelar suas contradições internas. Tal abordagem crítica permite evidenciar que o desenvolvimento sustentável, tal como concebido atualmente, não rompe com as bases injustas do sistema econômico global, mas as reforça ao incorporar a linguagem ambiental a uma lógica mercadológica. A desnaturalização dessa narrativa é, portanto, fundamental para problematizar a sustentabilidade como um conceito politicamente neutro e promover debates mais profundos sobre a redistribuição de poder e recursos em escala planetária.

Assim, investigar a sustentabilidade enquanto retórica revela-se imprescindível para denunciar os mecanismos simbólicos de dominação no século XXI. Desse modo, abre-se espaço para repensar modelos alternativos de desenvolvimento, mais comprometidos com a justiça social e ambiental, que superem as limitações impostas pelo capitalismo verde e avancem em direção a rupturas estruturais nas práticas econômicas e políticas globais.

2. DESENVOLVIMENTO

A centralidade contemporânea do debate sobre sustentabilidade deve ser compreendida à luz das relações de poder que estruturam o sistema econômico global. A crescente pressão social por respostas à crise climática obrigou governos e corporações a incluírem práticas ambientalmente corretas em suas agendas, mas essas ações permanecem fortemente moldadas por interesses econômicos hegemônicos. Esse fenômeno caracteriza o que alguns autores denominam de ecopolítica, ou seja, a apropriação estratégica da pauta ambiental para legitimar a manutenção do poder e disfarçar contradições do modelo capitalista. Dessa forma, a sustentabilidade torna-se mais uma ferramenta simbólica de dominação do que um compromisso genuíno com a justiça ecológica (CARVALHO,2020).

O uso do discurso sustentável como mecanismo de legitimação reflete também a capacidade do capitalismo contemporâneo de adaptar-se às demandas sociais sem alterar suas bases exploratórias. Corporações globais passaram a investir pesadamente em certificações verdes, publicidade ecológica e projetos “responsáveis”, criando a imagem de que atuam de modo ético e comprometido com a preservação ambiental. Contudo, tais práticas frequentemente escondem formas renovadas de desigualdade e exclusão, mantendo os grupos vulneráveis à margem das decisões e dos benefícios. Essa dinâmica revela como o capitalismo verde perpetua injustiças sociais enquanto promove uma estética ambientalmente aceitável aos olhos da opinião pública (HENRIQUE,2021).

Esse processo é ainda mais evidente quando se observa a conversão da sustentabilidade em retórica mercadológica. Empresas e governos se apropriam do termo para criar narrativas capazes de neutralizar críticas, ao mesmo tempo em que suas práticas continuam a explorar intensivamente recursos naturais e humanos. A retórica do desenvolvimento sustentável, nesse caso, atua como ideologia legitimadora da exploração, sem modificar as estruturas econômicas responsáveis pela degradação socioambiental. Essa contradição entre discurso e prática reforça a função simbólica do verde no sistema capitalista global (JARDIM,2019).

Além disso, a sustentabilidade transformou-se em um recurso estratégico nas disputas por legitimidade institucional e acesso a mercados globais. A adoção de discursos ambientais permite que Estados e empresas se apresentem como inovadores e responsáveis, mesmo que suas ações concretas não promovam mudanças significativas. Essa apropriação discursiva, ao transformar a pauta ecológica em um instrumento de marketing político e econômico, revela como o ambientalismo foi colonizado por interesses hegemônicos e inserido em uma lógica competitiva de mercado (LIMA,2022).

Essa apropriação também escancara as assimetrias globais entre países centrais e periféricos. Enquanto as nações ricas detêm tecnologias limpas e mecanismos de certificação ambiental, os países do sul global arcariam com os custos sociais e ambientais das políticas globais impostas sem contrapartidas adequadas. Sob o manto da sustentabilidade, práticas neocoloniais continuam a ser implementadas, reforçando hierarquias históricas no sistema internacional. O verde, portanto, longe de ser neutro, opera como um símbolo de poder que legitima a manutenção de desigualdades entre nações e populações (NOGUEIRA,2020).

2.1 A Retórica Verde do Capitalismo: A Sustentabilidade como Ferramenta de Dominação no Século XXI

A ascensão da sustentabilidade como tema central do debate internacional decorre da intensificação das crises climáticas, do aumento de desastres ambientais e da mobilização social em prol de medidas mais eficazes. Esse movimento forçou Estados e corporações a adotarem políticas verdes para manter sua legitimidade, mas também revelou como essas práticas são moldadas por interesses econômicos que pouco dialogam com justiça socioambiental. Assim, a sustentabilidade tornou-se, para muitos, um recurso discursivo a serviço da hegemonia capitalista, travestindo relações assimétricas de poder com uma roupagem ética e responsável, sem resolver as desigualdades estruturais (RAMOS,2021).

O marketing verde, amplamente difundido nas últimas décadas, evidencia como a pauta ambiental pode ser usada para reforçar dinâmicas de mercado. Governos e empresas passaram a incorporar estéticas ecológicas e selos de sustentabilidade em suas marcas como forma de atender à demanda de consumidores preocupados com o meio ambiente. Contudo, essa estratégia frequentemente não reflete mudanças significativas nos processos produtivos ou redistribuição de benefícios. O que se observa, muitas vezes, é a camuflagem de práticas predatórias e socialmente excludentes, reforçando o caráter simbólico, e não substantivo, da sustentabilidade contemporânea (TEIXEIRA,2018).

A retórica sustentável também passou a ser uma ferramenta geopolítica, com os países centrais projetando sua autoridade sobre o tema para ditar regras no sistema internacional. Ao assumir a liderança em tecnologias verdes e mecanismos regulatórios, essas nações consolidam vantagens competitivas enquanto impõem restrições aos países em desenvolvimento, que enfrentam maiores dificuldades para adaptar suas economias. Essa dinâmica mantém a desigualdade entre norte e sul globais, evidenciando o papel do discurso verde na manutenção da hierarquia internacional (VIEIRA,2019).

Os efeitos desse fenômeno são sentidos também na esfera social, onde as promessas de desenvolvimento sustentável frequentemente não se materializam para as populações mais vulneráveis. Em muitos casos, projetos sustentáveis têm servido para justificar remoções forçadas, privatização de territórios comuns e aprofundamento da exclusão social sob a justificativa de proteção ambiental. Essa contradição revela como a sustentabilidade pode ser usada para legitimar políticas contrárias aos interesses das comunidades locais, reafirmando estruturas históricas de injustiça ambiental (VILAR,2022).

Além disso, o discurso sustentável transformou-se em um poderoso mecanismo ideológico que molda a percepção pública sobre os problemas ambientais. Ao apresentar soluções alinhadas aos interesses do mercado, essa narrativa limita as possibilidades de transformação estrutural e impede debates mais radicais sobre as causas profundas da crise ecológica. O resultado é a consolidação de um consenso em torno do chamado “capitalismo verde”, que preserva privilégios históricos enquanto apresenta a ilusão de um sistema ético e equilibrado (VITORINO,2023).

O espaço político-econômico contemporâneo é marcado por um paradoxo: práticas estatais e empresariais que antes eram amplamente criticadas por sua natureza predatória passaram a ser legitimadas graças ao uso estratégico do discurso ambiental. O capitalismo soube incorporar a sustentabilidade às suas lógicas tradicionais sem romper com sua essência exploratória. Essa apropriação discursiva tornou a retórica ambiental um mecanismo eficaz de manutenção da hegemonia, capaz de neutralizar críticas sociais enquanto perpetua desigualdades e degradações ambientais (RAMOS,2021).

No plano institucional, a adoção de políticas verdes criou a impressão de transformação e progresso, mas essas mudanças, em muitos casos, têm sido meramente cosméticas. A implementação de agendas sustentáveis frequentemente se limita a atender a indicadores de mercado e expectativas internacionais sem promover avanços concretos para as populações afetadas pelos impactos ambientais. Esse cenário reforça a crítica de que a sustentabilidade contemporânea é mais simbólica do que substancial, operando como uma estratégia de marketing político e econômico (TEIXEIRA,2018).

A hegemonia do discurso sustentável permite também que potências globais definam os termos da política ambiental internacional, reforçando suas próprias vantagens competitivas e impondo obstáculos aos países em desenvolvimento. Por meio de mecanismos de certificação e regulação ambiental, essas nações consolidam sua superioridade tecnológica e econômica, perpetuando a dependência do sul global em relação ao norte. Esse desequilíbrio evidencia a função política da sustentabilidade como instrumento de dominação no sistema internacional (VIEIRA,2019).

Ao mesmo tempo, a instrumentalização do ambientalismo contribui para mascarar práticas profundamente excludentes. Sob o pretexto da proteção ambiental, populações inteiras são deslocadas de seus territórios, ecossistemas são privatizados e comunidades tradicionais perdem o acesso aos recursos naturais de que dependem. Essa dinâmica revela a contradição entre a promessa ética do desenvolvimento sustentável e sua implementação concreta, frequentemente marcada por violência simbólica e material (VILAR,2022).

Assim, a sustentabilidade se afirma como um elemento central da ideologia contemporânea, reforçando o sistema econômico vigente ao invés de transformá-lo. Essa constatação sugere que, longe de representar uma ruptura com as injustiças do passado, o discurso verde atualiza mecanismos históricos de exploração e desigualdade, perpetuando privilégios enquanto produz a aparência de compromisso ético com o meio ambiente (VITORINO,2023).

O capitalismo contemporâneo soube adaptar-se às novas demandas sociais e ambientais, sem modificar a lógica fundamental de exploração de recursos naturais e trabalho humano. Sob uma estética verde cuidadosamente construída, o sistema econômico global passou a reforçar sua legitimidade, apropriando-se do discurso sustentável para atender às expectativas públicas. Essa estratégia evidencia como a sustentabilidade funciona como véu ideológico, dissimulando práticas que continuam a gerar exclusão e degradação ambiental, enquanto preserva as hierarquias tradicionais de poder (CARVALHO,2020).

O conceito de “capitalismo verde” surgiu precisamente para descrever essa dinâmica, em que a retórica ambiental não rompe com as estruturas opressoras, mas sim reforça sua reprodução. Empresas e governos recorrem ao marketing sustentável para neutralizar críticas sociais, criando uma aparência ética para práticas que permanecem concentradoras de riqueza e socialmente injustas. Essa estética do verde age como instrumento de sedução simbólica, moldando percepções sem alterar substantivamente as realidades concretas (HENRIQUE,2021).

A apropriação do termo “desenvolvimento sustentável” como ideologia legitima projetos que frequentemente aprofundam desigualdades sociais, ao invés de corrigilas. Projetos de infraestrutura “verdes”, por exemplo, desconsideram os direitos das comunidades impactadas e priorizam ganhos econômicos sobre benefícios coletivos. Essa contradição ilustra como a retórica ambiental, quando instrumentalizada, funciona como mecanismo de reprodução do sistema mercadológico global (JARDIM,2019).

A sustentabilidade, nesse contexto, transforma-se em recurso simbólico utilizado estrategicamente por agentes hegemônicos para garantir vantagens políticas e econômicas. Estados e corporações instrumentalizam o ambientalismo para aumentar sua influência, fortalecer suas marcas e garantir acesso privilegiado a mercados internacionais, ainda que suas práticas reais permaneçam em desacordo com princípios de justiça ecológica. Essa apropriação revela o caráter profundamente político e seletivo da sustentabilidade contemporânea (LIMA,2022).

Assim, essa contradição entre promessa e prática reforça desigualdades históricas entre países centrais e periféricos. Enquanto o norte global detém tecnologias verdes e mecanismos regulatórios, o sul global arca com os custos ambientais e sociais das políticas globais. Essa dinâmica evidencia a sustentabilidade como um instrumento de neocolonialismo, perpetuando a dependência dos países em desenvolvimento e limitando suas possibilidades de autodeterminação no cenário internacional (NOGUEIRA,2020).

O discurso sustentável como véu ideológico camufla práticas econômicas que continuam a aprofundar desigualdades socioambientais sob a aparência de responsabilidade ética. Empresas e governos se utilizam dessa narrativa para legitimar projetos que, em essência, mantêm a lógica excludente do sistema capitalista global. Assim, o verde se torna um recurso simbólico a serviço da preservação de hierarquias, dificultando a emergência de alternativas realmente emancipadoras. Esse uso estratégico do ambientalismo demonstra como a sustentabilidade, mais do que um compromisso com justiça ecológica, se apresenta como um artifício de dominação contemporânea (CARVALHO,2020).

Esse paradoxo entre a promessa de desenvolvimento sustentável e a perpetuação das desigualdades é evidente em projetos que priorizam ganhos econômicos, ainda que disfarçados por uma estética ecológica. A apropriação do termo “verde” para designar práticas de mercado revela sua transformação em elemento publicitário, incapaz de responder aos desafios estruturais da crise ambiental. Essa contradição reforça a crítica de que a sustentabilidade atual opera mais como um discurso legitimador das elites do que como um projeto coletivo de justiça social e ambiental (HENRIQUE,2021).

Além disso, a retórica sustentável molda percepções sociais sobre a crise ambiental, limitando o escopo do debate público e neutralizando demandas mais radicais por transformação. As soluções apresentadas pelo mercado são tratadas como inevitáveis, ao passo que questionamentos sobre a própria lógica econômica são desqualificados como inviáveis. Essa domesticação da crítica ilustra como o desenvolvimento sustentável é utilizado para proteger a ordem vigente e desmobilizar resistências mais profundas (JARDIM,2019).

Esse mecanismo retórico também reflete a colonização simbólica da agenda ambiental, convertendo a natureza em mercadoria e transformando valores ecológicos em ativos financeiros. O ambientalismo estratégico permite que corporações expandam sua atuação, conquistem novos mercados e explorem novas formas de acumulação de capital, ao mesmo tempo em que invisibilizam os danos causados às populações locais. Essa instrumentalização reforça a necessidade de desnaturalizar a narrativa da sustentabilidade como politicamente neutra (LIMA,2022).

Ademais, essa configuração revela como a sustentabilidade, tal como formulada atualmente, reproduz dinâmicas neocoloniais que penalizam países e populações do sul global. A imposição de metas ambientais sem transferência justa de tecnologia e recursos impõe custos desproporcionais às economias mais frágeis, mantendo-as subordinadas às potências globais. Dessa forma, a retórica verde consolida desigualdades históricas e impede avanços significativos na direção da justiça ambiental planetária (NOGUEIRA,2020).

Compreender a sustentabilidade como uma narrativa estratégica apropriada para proteger interesses das elites globais é um passo fundamental para desvelar suas contradições internas. A análise crítica dessa retórica evidencia que as mudanças implementadas em nome do desenvolvimento sustentável não rompem com os fundamentos injustos do sistema econômico, mas os reforçam, ao integrar preocupações ambientais a uma lógica mercadológica que privilegia poucos. Esse reconhecimento é crucial para questionar a suposta neutralidade política do discurso ambiental e abrir espaço para alternativas transformadoras (RAMOS,2021).

A desnaturalização do discurso sustentável permite também ampliar o debate sobre redistribuição de poder e recursos em escala planetária. A atual configuração das políticas ambientais tende a concentrar benefícios em países e corporações que já detêm vantagens tecnológicas e financeiras, relegando aos demais a função de mitigar impactos sem apoio suficiente. Essa desigualdade estrutural torna evidente a necessidade de repensar o conceito de sustentabilidade à luz de princípios de justiça distributiva e equidade global (TEIXEIRA,2018).

Além disso, compreender a sustentabilidade como estratégia hegemônica permite expor a função ideológica desempenhada pelo chamado “capitalismo verde”. Ao apresentar soluções centradas no mercado, o sistema neutraliza alternativas mais radicais e mantém intactos os mecanismos que produzem exclusão social e degradação ambiental. Essa crítica revela que mudanças substantivas só serão possíveis quando a narrativa ambiental for descolada da lógica econômica dominante e vinculada a um projeto coletivo de transformação (VIEIRA,2019).

Essa perspectiva crítica também amplia a compreensão do ambientalismo como campo de disputa simbólica e política. Ao invés de aceitar a sustentabilidade como um conceito dado, é preciso debatê-la como arena em que diferentes interesses e valores se enfrentam. Essa abordagem torna visível como o verde pode ser mobilizado tanto para aprofundar desigualdades quanto para promover justiça, dependendo do projeto político que o orienta (VILAR,2022).

Por conseguinte, problematizar o discurso sustentável e denunciar seus mecanismos simbólicos de dominação abre espaço para a construção de modelos alternativos de desenvolvimento. Tais modelos devem ser pautados pela justiça social e ambiental, com vistas a romper as limitações impostas pelo capitalismo verde e a avançar para transformações estruturais nas práticas econômicas e políticas globais. Esse movimento é essencial para consolidar um horizonte verdadeiramente emancipador, capaz de articular justiça ecológica e igualdade social (VITORINO,2023).

3. CONCLUSÃO

A análise do discurso sustentável evidencia que, longe de ser neutra, a narrativa verde se insere em estratégias de dominação que favorecem os países centrais e marginalizam os periféricos. Ao associar sustentabilidade a valores éticos universais, as nações capitalistas camuflam a manutenção de privilégios e a perpetuação de desigualdades globais, sob a aparência de responsabilidade ambiental. Assim, a linguagem ambiental torna-se um instrumento de legitimação de práticas econômicas excludentes, criando a ilusão de compromisso com o bem comum enquanto assegura a continuidade de relações assimétricas de poder.

Desse modo, torna-se evidente que o chamado capitalismo verde não promove transformações substantivas na lógica exploratória do sistema econômico. Pelo contrário, reforça-a ao adaptar-se às novas demandas sociais sem alterar suas bases estruturais, mantendo intacto o paradigma de crescimento econômico irrestrito e exploração de recursos naturais e humanos. A sustentabilidade, nesse contexto, funciona como ferramenta de desmobilização política, esvaziando alternativas mais radicais ao enquadrar as soluções dentro da racionalidade de mercado, restringindo a possibilidade de construção de projetos verdadeiramente emancipatórios e inclusivos.

Ademais, o discurso sustentável contribui para naturalizar práticas neocoloniais, transferindo para as nações periféricas os custos ambientais e econômicos das políticas globais. Essa transferência ocorre mediante imposições normativas e barreiras comerciais que limitam as capacidades autônomas de desenvolvimento, perpetuando a dependência tecnológica e financeira. Essa realidade impõe o desafio de desmistificar o uso retórico da sustentabilidade, a fim de revelar seu caráter ideológico e estratégico e de reorientar os debates para uma concepção mais democrática e justa de desenvolvimento.

Portanto, repensar criticamente a sustentabilidade enquanto narrativa apropriada pelo capitalismo é essencial para romper com a lógica excludente e avançar em direção a modelos que articulem justiça ambiental, social e econômica de maneira equitativa. Essa tarefa requer não apenas novas práticas institucionais, mas também a construção de um imaginário coletivo que recuse soluções superficiais e enfrente as raízes estruturais da crise ecológica e social contemporânea.

Desse modo, apenas por meio dessa desmistificação é possível recolocar a sustentabilidade em seu devido lugar como um princípio transformador, capaz de promover mudanças estruturais efetivas nas relações globais de poder. Isso implica a necessidade de reconstruir as bases do desenvolvimento internacional em termos de solidariedade, equidade e corresponsabilidade, resgatando o verdadeiro potencial emancipador da justiça ambiental para as gerações presentes e futuras.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CARVALHO, Roberto. Ecopolítica e dominação: discursos ambientais no capitalismo global. Recife, 2020. 

HENRIQUE, Vanessa. Capitalismo verde e desigualdade: um olhar crítico sobre a sustentabilidade. São Paulo, 2021. 

JARDIM, Lucas. Retóricas do desenvolvimento sustentável: ideologia e mercado. Rio de Janeiro, 2019. 

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NOGUEIRA, Helena. Sustentabilidade e neocolonialismo: desafios para o sul global. Florianópolis, 2020.

RAMOS, Caio. Hegemonia ambiental: capitalismo e retóricas verdes. Curitiba, 2021.

TEIXEIRA, Júlia. A estética verde do capital: sustentabilidade e mercado. Salvador, 2018. 

VIEIRA, Rafael. Sustentabilidade em disputa: discursos e práticas no cenário internacional. Belém, 2019. 

VILAR, Carolina. Justiça ambiental e capitalismo verde: contradições e desafios. João Pessoa, 2022. 

VITORINO, Nathalia. Narrativas ambientais e poder econômico: uma crítica ao discurso sustentável. Manaus, 2023.


*Artigo científico apresentado ao Grupo Educacional IBRA como requisito para a aprovação na disciplina de TCC.