A REORGANIZAÇÃO DO SELF NA VELHICE: UM RELATO DE EXPERIÊNCIA CLÍNICA SOB A ABORDAGEM CENTRADA NA PESSOA

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ni10202510302014


João Francisco Braga Holanda1
Selena Castiel Gualberto Lima2
Neire Abreu Mota Porfiro2
Aline de Araújo Medeiros1
Natacha Claros de Barros Corrêa1


RESUMO

Este artigo apresenta um relato de experiência clínica fundamentado na Abordagem Centrada na Pessoa (ACP), desenvolvido com uma cliente idosa, Thalia (Nome fictício por questões de sigilo), acompanhada em psicoterapia entre abril e junho de 2025, na Clínica Escola de Psicologia da Faculdade Católica de Rondônia. O objetivo foi compreender os movimentos subjetivos relacionados à reorganização do self, à reconstrução identitária e a emergência da autenticidade no envelhecimento. A metodologia adotada seguiu os parâmetros de relato de experiência científica, com base em registros clínicos e escuta reflexiva, respeitando critérios éticos e fenomenológicos. Os resultados apontam para a relevância da escuta empática e da aceitação positiva incondicional como catalisadores da tendência atualizante e da ampliação do campo fenomenal na vida idosa. A análise teórica se apoia em Carl Rogers e estudos contemporâneos sobre o envelhecimento, sugerindo que a terapia centrada na pessoa oferece um espaço adequado ao florescimento de aspectos subjetivos silenciados ao longo da vida.

Palavras-chave: Psicoterapia humanista; Envelhecimento; Abordagem Centrada na Pessoa; Escuta empática; Relato de experiência.

ABSTRACT

This article presents a clinical experience report based on the Person-Centered Approach (PCA), conducted with an elderly client, Thalia (a fictitious name for confidentiality purposes), who underwent psychotherapy between April and June 2025 at the Psychology Training Clinic of the Catholic University of Rondônia. The objective was to understand the subjective movements related to self-reorganization, identity reconstruction, and the emergence of authenticity in the aging process. The methodology followed the parameters of scientific experience reports, grounded on clinical records and reflective listening, and guided by ethical and phenomenological principles. The results highlight the relevance of empathic listening and unconditional positive regard as catalysts of the actualizing tendency and the expansion of the phenomenal field in later life. The theoretical analysis is supported by Carl Rogers and contemporary studies on aging, suggesting that person-centered therapy provides an appropriate space for the flourishing of subjective aspects that have been silenced throughout life.

Keywords: Humanistic Psychotherapy; Aging; Person-Centered Approach; Empathic Listening; Experience Report.

1. INTRODUÇÃO

O envelhecimento, em sua dimensão existencial, representa não apenas uma fase da vida marcada por perdas e limitações, mas também uma oportunidade para a reorganização subjetiva, retomada de experiências esquecidas e a revalorização do próprio percurso de vida. Nesse contexto, o acompanhamento clínico de pessoas idosas demanda abordagens terapêuticas que respeitem a singularidade, a história e a sensibilidade de quem vive essa etapa. A Psicoterapia Humanista, em especial a Abordagem Centrada na Pessoa (ACP), oferece uma perspectiva sensível e não diretiva favorecedora do contato autêntico com os sentimentos e a reconstrução do self, sem reduzir a velhice a um déficit ou a um fechamento existencial (ROGERS, 1977; SANTOS, 2023).

A escuta clínica da pessoa idosa, conforme apontam pesquisas recentes (MOON et al., 2021; TASSINARI, 2021), pode atuar como mediadora de transformações subjetivas importantes, possibilitando que aspectos afetivos, simbólicos e relacionais, muitas vezes negligenciados, reencontrem um lugar digno na experiência vivida. Situações nas quais o indivíduo passou grande parte da vida dedicado ao dever, à rigidez e ao cuidado dos outros, quando frente ao processo terapêutico, podem se tornar um território de liberdade — onde a própria fragilidade, a vaidade, o desejo e a tristeza ganham voz.

Enquanto objetivo, este artigo pretende apresentar um relato de experiência clínica com uma mulher de 63 anos, aposentada, atendida em psicoterapia humanista durante o primeiro semestre de 2025. A cliente, que por motivos éticos é identificada aqui pelo nome fictício de Thalia, inicia o processo com queixas relacionadas à saúde física, à exaustão emocional e a uma sensação de inutilidade, abrindo-se gradualmente para uma trilha de ressignificação afetiva e reencontro consigo.

A escrita deste relato segue critérios metodológicos consagrados para relatos de experiência profissional em Psicologia (TOSTA; SCORSOLINI-COMIN, 2016), fundamentando-se teoricamente na obra de Carl Rogers e no campo da Psicologia do Envelhecimento. A proposta é, portanto, compartilhar uma vivência clínica que, ao invés de buscar generalizações, valoriza o singular, o afetivo e o ético como dimensões fundamentais do cuidado psicológico à pessoa idosa.

2. REFERENCIAL TEÓRICO

A experiência clínica vivida por Thalia, uma mulher idosa em processo de reorganização psíquica, exige uma leitura teórica que considere tanto os fundamentos da psicoterapia humanista quanto as especificidades psicológicas do envelhecimento. Neste artigo, propõe-se uma articulação entre a Abordagem Centrada na Pessoa (ACP), desenvolvida por Carl Rogers, e as contribuições contemporâneas da Psicologia do Envelhecimento, a fim de sustentar a análise dos movimentos subjetivos vivenciados no processo terapêutico.

A escolha por essa abordagem teórica se justifica pela afinidade entre a ACP e o campo fenomenológico-existencial, o que possibilita compreender o envelhecimento não apenas como um conjunto de perdas funcionais, mas como um momento de expansão possível do campo fenomenal, de reapropriação da história e de reconexão com afetos esquecidos. A seguir, serão apresentados os principais fundamentos da ACP, bem como estudos recentes que contribuem para a compreensão do envelhecimento sob uma perspectiva humanista e não patologizante.

2.1 A Abordagem Centrada na Pessoa

A Abordagem Centrada na Pessoa (ACP), proposta por Carl Rogers, parte da premissa de que todo ser humano possui uma tendência atualizante — uma força vital que o impulsiona a crescer, desenvolver-se e realizar plenamente suas potencialidades, desde que encontre condições psicológicas adequadas para tal (ROGERS, 1977). Diferente de modelos que priorizam a interpretação ou a intervenção diretiva, a ACP valoriza a experiência subjetiva do cliente como centro do processo terapêutico, promovendo uma escuta respeitosa, empática e livre de julgamentos.

Para que essa tendência possa emergir e se desenvolver, Rogers estabelece três atitudes fundamentais que devem estar presentes na relação terapêutica: a congruência (autenticidade do terapeuta), a aceitação positiva incondicional (acolhimento da totalidade do outro, sem condições) e a compreensão empática (capacidade de ver o mundo com os olhos do cliente). Essas atitudes não são técnicas, mas disposições internas do terapeuta que criam um clima psicológico favorável à mudança e à expansão do self.

O conceito de self como processo, amplamente discutido por Rogers, aponta que a identidade pessoal não é uma estrutura fixa, mas sim dinâmica, em constante reorganização a partir das vivências e relações significativas (ROGERS, 1983). Em situações de sofrimento psíquico, como ocorre frequentemente na velhice, pode haver um afastamento entre a experiência vivida e a imagem que a pessoa tem de si mesma, gerando o que Rogers denomina incongruência. O papel da psicoterapia, nesse contexto, é facilitar o reencontro entre essas dimensões, favorecendo uma vivência mais autêntica e integrada.

Além disso, a escuta ativa, desenvolvida por Rogers e Farson (2015), complementa essa abordagem ao reforçar a importância de uma escuta afetivamente comprometida, capaz de acolher não apenas o conteúdo verbal, mas também os sentimentos e significados implícitos na fala do cliente. Tal atitude é especialmente relevante em processos terapêuticos com pessoas idosas, nas quais a história de vida é extensa e frequentemente marcada por silenciamentos, perdas e vivências emocionais que exigem tempo e respeito para serem nomeadas.

Na experiência com Thalia, essas atitudes fundamentais da ACP revelaram-se centrais para o estabelecimento do vínculo, para a ampliação do campo fenomenal e para a emergência de uma narrativa mais compassiva e autêntica de si mesma. Como se verá nas seções seguintes, o ambiente terapêutico centrado na pessoa funcionou como território seguro para que THALIA pudesse acessar, sem pressa e sem julgamentos, aspectos sensíveis de sua trajetória, como o desejo, a vaidade, a fragilidade e o medo — muitas vezes renegados ao longo de décadas marcadas por rigidez, dever e renúncia pessoal.

2.2 Aspectos Psicológicos do Envelhecimento

O envelhecimento é um fenômeno multifacetado que ultrapassa os limites biológicos e sociais, envolvendo profundas transformações subjetivas. Na perspectiva psicológica, essa etapa da vida pode ser compreendida como um momento de reconstrução identitária, reorganização de afetos e ressignificação de vínculos e papéis sociais. O sujeito idoso frequentemente é confrontado com mudanças no corpo, nas relações familiares, no status ocupacional e na percepção social de sua utilidade, o que pode tanto gerar sofrimento quanto abrir espaço para novas configurações do self (SANTOS; ALMEIDA, 2023).

Estudos recentes destacam que o modo como a pessoa se percebe em relação à sua idade cronológica — a chamada age identity — tem impacto direto na qualidade de vida e na participação social dos idosos (MOON et al., 2021). Pessoas que mantêm uma autoimagem positiva, sentindo-se mais jovens do que sua idade indica, tendem a preservar maior engajamento em atividades sociais, mais autonomia e melhor autorregulação emocional. Essa percepção subjetiva da idade está diretamente relacionada à forma como o idoso é escutado e reconhecido em sua totalidade, inclusive no espaço clínico.

Além disso, pesquisas como as de Huang et al. (2023) revelam que a forma como os idosos experienciam e expressam suas emoções está ligada à sua trajetória de vida e às oportunidades que tiveram (ou não) de refletir sobre si mesmos em contextos não julgadores. A ausência de espaços de escuta ao longo da vida pode resultar em silenciamentos, adaptações excessivas e uma imagem de si centrada no dever e na funcionalidade — como é o caso de THALIA, cuja história é marcada por dedicação à família, à carreira e por experiências afetivas não elaboradas.

Nesse sentido, a clínica com idosos requer uma escuta atenta não apenas ao que se apresenta no presente, mas também aos rastros da história, às emoções contidas e aos desejos negados. Conforme aponta Tassinari (2021), o atendimento psicológico ao idoso precisa reconhecer seu potencial criativo e sua capacidade de reconfigurar experiências anteriores, resgatando afetos, vínculos e significados esquecidos. É nesse ponto que a Abordagem Centrada na Pessoa se torna especialmente pertinente: ao privilegiar a escuta empática, a aceitação incondicional e a valorização da experiência subjetiva, a ACP oferece um ambiente terapêutico propício ao florescimento de aspectos identitários encobertos pelo tempo e pelas exigências externas.

A cliente THALIA ilustra de forma viva essa complexidade: embora verbalize preocupações com sua saúde física e a percepção de inutilidade, sua narrativa se revela permeada por histórias de beleza, desejo de ser reconhecida, memórias afetivas com figuras familiares e sentimentos de frustração não elaborados. O processo clínico, ao acolher essas expressões sem julgamento, favoreceu a emergência de um self mais integrado — ainda em construção, mas menos submetido à rigidez do passado e mais aberto à leveza e ao silêncio interior.

Assim, compreender o envelhecimento a partir de uma perspectiva humanista implica reconhecer que a pessoa idosa não é apenas alguém que “perdeu” capacidades, mas um sujeito em contínuo processo de atualização, cujas experiências merecem escuta e legitimação. O próximo tópico aprofundará essa questão ao discutir a metodologia do relato de experiência como recurso científico e ético para registrar esse tipo de vivência clínica.

2.3 Relato de Experiência como Método

O relato de experiência, enquanto modalidade científica reconhecida, tem ganhado espaço na Psicologia como um instrumento legítimo para compartilhar práticas clínicas, especialmente quando se deseja respeitar a singularidade do processo terapêutico e a complexidade da relação entre terapeuta e cliente. Diferente do estudo de caso clássico, o relato de experiência não busca comprovar hipóteses nem universalizar achados, mas sim narrar vivências que articulam o saber prático com a reflexão teórica, ética e metodológica (TOSTA; SCORSOLINI-COMIN, 2016).

Trata-se de um método qualitativo que valoriza a subjetividade da experiência profissional, permitindo que a prática clínica seja compreendida como um campo de produção de conhecimento sensível, relacional e situado. O foco está na trajetória vivida — tanto pelo cliente quanto pelo terapeuta — e na forma como essa vivência pode ser comunicada e analisada de modo crítico, respeitando os princípios éticos da profissão e os direitos do sujeito envolvido.

Entre os critérios metodológicos que qualificam um relato de experiência no campo da Psicologia, destacam-se:

– a contextualização da intervenção clínica, com descrição das condições de escuta e do público atendido;

– a preservação do sigilo e uso de recursos éticos como o anonimato e a autorização para uso acadêmico;

– a reflexão fundamentada em referencial teórico consistente;

– a clareza na organização narrativa e na exposição das implicações da experiência vivida (TOSTA; SILVA; SCORSOLINI-COMIN, 2016).

No caso da experiência clínica com THALIA, a escolha por um relato de experiência fundamentado na Abordagem Centrada na Pessoa permite preservar a integridade do processo vivido, sem fragmentá-lo em categorias analíticas fechadas ou reduzir a cliente a um conjunto de sintomas. Ao contrário, o relato aqui apresentado busca respeitar o campo fenomenal da cliente, narrando os movimentos de abertura, ambivalência, descoberta e reorganização do self que emergiram ao longo das sessões.

Além disso, a escrita do relato também cumpre uma função ética e epistêmica: ao trazer à cena os sentidos vividos no processo terapêutico, o texto amplia a possibilidade de reconhecimento da velhice como tempo de potência subjetiva, rompe com estigmas relacionados ao envelhecimento e contribui para a legitimação de práticas clínicas sensíveis às transformações do self na maturidade. A escrita torna-se, portanto, uma extensão da escuta — um gesto de cuidado e compromisso com o outro.

Nos tópicos seguintes, será apresentada a descrição do processo clínico com THALIA, respeitando a organização ética e reflexiva que caracteriza o relato de experiência como método, com base na escuta empática e não diretiva que sustenta a prática da ACP.

3. METODOLOGIA

Este artigo se configura como um relato de experiência clínica, de natureza qualitativa, fundamentado na Abordagem Centrada na Pessoa (ACP), desenvolvido a partir do acompanhamento psicoterapêutico de uma cliente idosa, identificado pelas iniciais THALIA, no contexto de estágio supervisionado em Psicologia. O relato busca apresentar, de forma ética, reflexiva e teórica, os principais movimentos subjetivos observados no processo terapêutico, com foco na reorganização do self, na ampliação do campo fenomenal e na emergência de uma escuta transformadora no envelhecimento.

A construção deste texto segue os princípios metodológicos para relatos de experiência propostos por Tosta, Silva e Scorsolini-Comin (2016), os quais orientam para uma descrição articulada entre a vivência profissional e a fundamentação teórica, respeitando os seguintes critérios: clareza na contextualização, relevância social e científica da experiência, reflexão crítica, implicações clínicas e éticas da prática, e uso rigoroso de linguagem preservadora do sigilo e da dignidade do sujeito atendido.

O acompanhamento clínico de THALIA foi realizado entre abril e junho de 2025, totalizando oito sessões, em contexto institucional supervisionado, com encontros semanais de aproximadamente 50 minutos. As sessões foram registradas por meio de anotações clínicas, fichas de evolução e memória descritiva dos encontros, sem uso de gravações ou prontuários eletrônicos. O presente relato não tem a pretensão de generalização dos resultados, mas sim de dar visibilidade a um processo clínico significativo, que ilustra o potencial terapêutico da ACP na escuta qualificada de idosos em processo de reorganização psíquica.

Foram preservadas todas as medidas éticas cabíveis, com substituição do nome da cliente por iniciais fictícias (THALIA) e com omissão de dados que pudessem comprometer sua identificação. A cliente foi informada da possibilidade de utilização anônima de sua experiência para fins acadêmicos, tendo manifestado concordância verbal com essa finalidade. Em respeito à não diretividade rogeriana, não foram aplicados instrumentos diagnósticos, escalas ou protocolos padronizados, sendo priorizada a escuta sensível, a compreensão empática e a promoção de um vínculo terapêutico facilitador.

O método utilizado baseia-se, portanto, na descrição fenomenológica da experiência clínica, sustentada pelo diálogo entre os registros do processo, os fundamentos teóricos da ACP e as contribuições contemporâneas da Psicologia do Envelhecimento. A seguir, será apresentado o relato do processo terapêutico com THALIA, organizado em três eixos: (1) contextualização da cliente, (2) análise dos movimentos terapêuticos e (3) intervenções facilitadoras.

Os conteúdos foram revisados e discutidos pelos autores, de modo a consolidar o presente relato, elaborando os percursos para registro pela Clinica Escola de Psicologia da Faculdade Católica de Rondônia.

4. RELATO DA EXPERIÊNCIA CLÍNICA

5.1 Contextualização da Cliente

THALIA é uma mulher de 63 anos, aposentada, atualmente envolvida com trabalho voluntário em instituição pública. Apresenta histórico de vida marcado por responsabilidades precoces, rígida adesão a papéis sociais tradicionais e episódios de sobrecarga afetiva, sobretudo em contextos familiares e profissionais. Desde os primeiros encontros, demonstrou uma postura cooperativa e reflexiva, porém com traços de cautela afetiva e necessidade de preservar a imagem de força e competência.

Suas narrativas revelam uma trajetória centrada no dever, na racionalidade e na necessidade de reconhecimento, ao mesmo tempo em que expressam, de maneira sutil, sentimentos de solidão, frustração e desejo de liberdade interior. Relata vivências de abandono afetivo, especialmente em relação à figura paterna, além de conflitos não resolvidos com familiares próximos, como a irmã e os filhos adultos.

Durante o processo, THALIA trouxe episódios de natureza simbólica e emocional densa — como lembranças afetivas da infância rural e do avô, evocadas por objetos e imagens esquecidos. Também compartilhou preocupações com a saúde física, em especial com uma arritmia diagnosticada anos atrás e com o medo da anestesia geral em exames médicos, situações que funcionaram como disparadores de reflexões sobre finitude e controle.

Sua forma de se relacionar com o terapeuta variou ao longo do processo. Nos encontros iniciais, manteve certa formalidade, reforçada pela disposição física do setting (com uma mesa entre os dois), mas foi se permitindo maior proximidade simbólica à medida que o vínculo se fortalecia. Em sessões mais avançadas, a cliente se mostrava mais espontânea, permitia fluxos livres de fala e acessava conteúdos emocionais com menor racionalização, revelando maior abertura à experiência.

Do ponto de vista ocupacional, embora formalmente aposentada, THALIA permanece vinculada ao ambiente público através do voluntariado, o que parece funcionar como tentativa de manter certa estrutura e utilidade social. Ao mesmo tempo, expressa descontentamento com a rigidez do serviço público, com as exigências hierárquicas e com o esvaziamento de propósito nas relações institucionais.

No momento do atendimento, THALIA encontrava-se em um processo existencial de transição, percebendo-se entre dois polos: o da rigidez funcional construída ao longo da vida e o de uma possível abertura à ternura, à leveza e à autenticidade. Essa tensão atravessou grande parte das sessões, como será descrito nos tópicos seguintes, e orientou os principais movimentos do processo terapêutico.

5.2 Processo Terapêutico e Aberturas Fenomenológicas

O processo terapêutico com THALIA revelou-se uma travessia delicada entre o controle emocional rigidamente mantido ao longo da vida e a abertura gradual à expressão de sentimentos mais profundos, como o medo, a vaidade, a frustração e o desejo de reconhecimento. Desde os primeiros encontros, era possível perceber uma organização psíquica estruturada, marcada pela racionalização da dor e pela dificuldade em reconhecer ou nomear suas necessidades emocionais mais íntimas.

Ao longo das sessões, THALIA demonstrou episódios de incongruência entre o conteúdo verbal e os afetos subjacentes, como quando dizia “está tudo bem” enquanto apresentava sinais sutis de exaustão e tristeza, como olhar fixo, postura retraída e pausas longas na fala. A escuta empática do terapeuta, sustentada por silêncio acolhedor e validação das emoções emergentes, favoreceu a emergência de momentos de maior congruência, especialmente quando THALIA se permitia rir de si mesma, ironizar suas próprias exigências ou reconhecer que “não precisava ter sempre razão”.

Um dos momentos centrais de abertura fenomenológica ocorreu quando a cliente compartilhou lembranças da infância na zona rural, evocando imagens sensoriais e afetivas de convivência com o avô e os animais. A fala assumiu uma cadência mais livre, fluida, com expressões emocionais mais vívidas e pausas que indicavam contato genuíno com essas experiências. Esse acesso à memória simbólica funcionou como porta de entrada para afetos antes inacessíveis, inaugurando uma nova camada de escuta interna e de reorganização da narrativa de si.

Outras sessões foram marcadas por um fluxo discursivo espontâneo, em que THALIA transitava por temas como política, saúde, religiosidade, frustrações profissionais e maternidade — articulando livremente ideias e sentimentos sem a rigidez habitual. Esses episódios indicam uma ampliação do campo fenomenal, favorecida pela confiança construída na relação terapêutica e pela não-diretividade da escuta, que não exigia coerência imediata ou resolução de conflitos, mas apenas presença autêntica e disponibilidade afetiva.

Em diversas falas, THALIA demonstrava uma luta interna entre manter a postura firme, produtiva e coerente que cultivou ao longo da vida, e permitir-se vivenciar experiências mais leves, silenciosas e até contraditórias. Expressões como “acho que posso me dar esse luxo” ou “não quero mais discutir com ninguém” evidenciam a emergência de um novo posicionamento existencial, em que o direito ao descanso, à ambivalência e à liberdade subjetiva começa a se tornar possível.

A postura congruente do terapeuta — que não se apressava em interpretar ou corrigir, mas acompanhava o ritmo da cliente — foi fundamental para que THALIA encontrasse segurança no processo e desenvolvesse maior autocompaixão. A cada sessão, consolidava-se a sensação de que o espaço terapêutico era um território de liberdade: um lugar onde não era necessário corresponder às expectativas sociais, familiares ou institucionais, mas apenas escutar-se com honestidade.

Dessa forma, o processo terapêutico possibilitou o trânsito de THALIA entre um self condicionado pela rigidez e pela lógica do dever, para um self mais integrado, capaz de reconhecer fragilidades, reencontrar afetos esquecidos e experimentar formas menos defensivas de estar no mundo.

5.3 Intervenções Facilitadoras

As intervenções utilizadas ao longo do processo terapêutico com THALIA foram integralmente pautadas pelos princípios da Abordagem Centrada na Pessoa, priorizando uma postura não diretiva, empática, congruente e incondicionalmente acolhedora. O objetivo central não era conduzir a cliente a determinada conclusão ou resultado, mas sim sustentar um ambiente psicológico seguro no qual ela pudesse entrar em contato, em seu próprio tempo, com conteúdos emocionais relevantes e, por vezes, desconhecidos ou silenciados.

A compreensão empática foi, sem dúvida, o eixo central das intervenções. O terapeuta acompanhou o fluxo discursivo da cliente com escuta ativa, devoluções respeitosas e perguntas abertas que visavam apenas ampliar o campo da consciência, sem invadir ou interpretar de forma prematura. Em momentos de sofrimento ou hesitação, era comum o uso de expressões como “o que você sente quando diz isso?” ou “posso estar enganada, mas parece que isso te toca profundamente”. Essas formulações visavam validar a experiência subjetiva da cliente e oferecer um espelho afetivo que a ajudasse a se ouvir com mais clareza.

A aceitação positiva incondicional se manifestava, sobretudo, na forma como o terapeuta acolhia contradições, hesitações e ambiguidades sem emitir julgamento ou pressionar por coerência. Isso foi particularmente importante em sessões em que THALIA falava de temas considerados “menores” ou “fúteis”, como vaidade, beleza ou glamour — temas que, embora inicialmente desvalorizados pela própria cliente, revelaram-se fontes legítimas de vitalidade, prazer e identidade. O terapeuta sustentou o valor dessas narrativas, reconhecendo-as como expressões autênticas do self.

A congruência do terapeuta, por sua vez, contribuiu significativamente para o fortalecimento do vínculo terapêutico. Ao admitir suas limitações, emoções despertadas durante os encontros ou mesmo o impacto de certos relatos, a profissional reforçava a segurança da relação, mostrando-se presente não apenas como técnica, mas como pessoa real. Tal postura favoreceu momentos de aproximação simbólica, nos quais THALIA se permitiu sair de papéis formais e adotar uma expressão mais fluida e espontânea.

Outro elemento facilitador importante foi o uso consciente do silêncio e da escuta prolongada, sobretudo em sessões de maior carga afetiva. O terapeuta respeitou pausas longas, choros contidos, desvios de assunto e fluxos de pensamento fragmentados, compreendendo tais manifestações como modos legítimos de elaboração interna. Esse tipo de presença, sem pressa e sem expectativa de desempenho, constituiu um espaço relacional capaz de conter e acolher a complexidade da experiência vivida.

Em síntese, as intervenções facilitadoras não seguiram um protocolo rígido, mas emergiram da relação autêntica estabelecida entre terapeuta e cliente, sustentada por uma confiança mútua e pelo compromisso com a verdade subjetiva. Tal configuração favoreceu o surgimento de movimentos internos de reorganização, resgate de memórias e ampliação do self, permitindo que THALIA, mesmo em uma fase avançada da vida, pudesse reapropriar-se de sua história e iniciar um novo projeto existencial — ainda que discreto, silencioso e simbólico.

6. Discussão

O processo terapêutico vivenciado por THALIA oferece um campo fértil para refletir sobre os efeitos transformadores da escuta empática, da aceitação incondicional e da congruência na clínica com pessoas idosas. Em consonância com os pressupostos de Carl Rogers (1977, 1983), observa-se que o ambiente psicológico centrado na pessoa possibilitou à cliente entrar em contato com conteúdos emocionais anteriormente silenciados, promovendo reorganizações internas que não foram dirigidas, mas sim facilitadas por uma relação terapêutica autêntica e respeitosa.

A experiência clínica corrobora a noção de que o self é um processo dinâmico de atualização, sensível às condições relacionais em que se encontra (ROGERS, 1983). THALIA, ao longo das sessões, passou de um estado de incongruência — marcado por racionalizações, negação da fragilidade e sobreposição do dever — para uma vivência mais integrada, em que foi possível reconhecer ambivalências, recuperar memórias afetivas e abrir espaço para desejos antes desautorizados. Como afirmam Rogers e Dymond (1975), quando o sujeito se sente aceito em sua totalidade, ele tende naturalmente a reorganizar sua experiência de forma mais vital e verdadeira.

Essa mudança foi particularmente evidente nos momentos em que THALIA evocava sua infância, figuras significativas ou experiências corporais e sensoriais ligadas à vaidade, à beleza e à feminilidade. Tais momentos sinalizam um movimento de ampliação do campo fenomenal, ou seja, uma maior disponibilidade interna para acolher partes do self que haviam sido reprimidas ou desvalorizadas. A linguagem simbólica, como nas referências literárias ou nas memórias evocadas espontaneamente, funcionou como um meio indireto de acesso a conteúdos profundos, como sugere a ACP ao valorizar os modos próprios da pessoa de organizar sua experiência.

A tendência atualizante — compreendida como a força interna que impulsiona o organismo humano à autorrealização — manifestou-se de forma clara nos esforços de THALIA em encontrar novos sentidos para sua vida, mesmo em meio às limitações da idade e às perdas acumuladas. Seu engajamento em trabalho voluntário, sua abertura para reorganizar rotinas e sua disposição para enfrentar medos (como a anestesia ou a sensação de inutilidade) indicam uma movimentação contínua em direção à autonomia, à saúde psicológica e à expressão autêntica do self (ROGERS, 1977).

Estudos contemporâneos sobre envelhecimento confirmam essa possibilidade de transformação subjetiva na velhice. Moon et al. (2021) e Huang et al. (2023) demonstram que a maneira como o idoso percebe sua identidade de idade e sua história pessoal influencia diretamente sua saúde mental, seu engajamento social e sua capacidade de experimentar satisfação na vida cotidiana. Quando essa percepção é mediada por uma escuta acolhedora, sem julgamentos e sensível às nuances da experiência, amplia-se o espaço para reconstruções simbólicas e emocionais, como foi observado no caso de THALIA.

Além disso, o próprio método do relato de experiência, como propõem Tosta, Silva e Scorsolini-Comin (2016), permite ao profissional refletir sobre sua prática de forma ética, afetiva e crítica, conferindo visibilidade a experiências clínicas que, embora não generalizáveis, são ricas em significados e potentes em termos formativos e científicos. A escolha por relatar a experiência com THALIA inscreve-se nesse movimento: oferecer ao campo da Psicologia um testemunho sensível da potência transformadora da escuta humanista, especialmente em contextos em que o sujeito envelhece carregando histórias de silenciamento, rigidez e invisibilidade afetiva.

Assim, o caso de THALIA ilustra que a velhice, longe de representar um fechamento subjetivo, pode ser vivida como tempo de reconstrução simbólica, resgate de sentidos e abertura à leveza. Cabe ao terapeuta, nesse processo, sustentar uma presença ética e afetiva que permita à pessoa idosa se escutar de forma mais inteira, mais livre e mais verdadeira.

7. Considerações Finais

A experiência clínica com THALIA evidencia, de maneira sensível e concreta, o potencial transformador da psicoterapia centrada na pessoa no acompanhamento de indivíduos em processo de envelhecimento. Longe de ser um espaço de intervenção diretiva ou correção comportamental, o setting terapêutico revelou-se um território de liberdade, em que a cliente pôde escutar a si mesma com mais compaixão, resgatar aspectos subjetivos negligenciados e vislumbrar formas mais livres de existir.

A partir de uma escuta pautada na compreensão empática, na aceitação positiva incondicional e na congruência, foi possível acompanhar o movimento da cliente do lugar da rigidez e do dever para o da ternura, da vaidade reencontrada, do silêncio respeitado e da escolha consciente pela leveza. Tal processo confirmou os fundamentos da Abordagem Centrada na Pessoa (ROGERS, 1977; 1983), segundo os quais o ser humano, quando acolhido em sua totalidade, tende naturalmente à integração, à vitalidade e à construção de um self mais autêntico.

Além disso, a experiência relatada contribui para ampliar a compreensão sobre os processos subjetivos do envelhecimento, sugerindo que a escuta clínica qualificada pode funcionar como dispositivo de reparação simbólica, de reintegração afetiva e de reconstrução narrativa. Mesmo diante das perdas e das limitações inerentes à velhice, a tendência atualizante permanece operante, convidando o sujeito a reorganizar sua trajetória de forma mais fiel a seus sentimentos e valores.

Do ponto de vista metodológico, o relato de experiência se mostrou um recurso valioso para dar visibilidade a práticas clínicas que, embora singulares, oferecem contribuições relevantes para a formação profissional, para a pesquisa em psicologia humanista e para o cuidado ético da subjetividade na maturidade.

A clínica com THALIA, neste sentido, não é apenas um caso, mas uma testemunha da potência da escuta não invasiva e da presença terapêutica genuína.

Espera-se que este artigo contribua para a valorização da Abordagem Centrada na Pessoa como referência sólida e humanizadora no atendimento a pessoas idosas, e que incentive novos profissionais a sustentarem, em seus encontros clínicos, o silêncio que acolhe, a escuta que transforma e o vínculo que cura.

8. Referências

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1Aluno do curso de Bacharelado em Psicologia da Faculdade Católica de Rondônia

2Professora Da. do curso de Bacharelado em Psicologia da Faculdade Católica de Rondônia