A RELAÇÃO ENTRE TRANSTORNOS MENTAIS COMUNS E A EVOLUÇÃO CLÍNICA DE DOENÇAS CRÔNICAS: UMA REVISÃO DA LITERATURA SOBRE OS IMPACTOS PSICOSSOCIAIS NO MANEJO DA CONDIÇÃO CRÔNICA

THE RELATIONSHIP BETWEEN COMMON MENTAL DISORDERS AND THE CLINICAL PROGRESSION OF CHRONIC DISEASES: A LITERATURE REVIEW ON THE PSYCHOSOCIAL IMPACTS IN THE MANAGEMENT OF CHRONIC CONDITIONS

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ar10202510082014


Laura Marinha de Assis Faria;
Orientadora: Prof. Kemile Alburquerque Leão.


RESUMO

As doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs) configuram-se como um dos principais desafios da saúde pública contemporânea, associadas a altos índices de morbimortalidade e expressivo impacto socioeconômico. Evidências indicam que a presença concomitante de transtornos mentais comuns (TMCs), como depressão, ansiedade e transtorno bipolar, agrava a evolução clínica das DCNTs, reduzindo a adesão terapêutica, aumentando complicações e hospitalizações, além de comprometer a qualidade de vida. Nesse contexto, este estudo teve como objetivo analisar a relação bidirecional entre DCNTs e TMCs, enfatizando os mecanismos fisiopatológicos compartilhados e o papel dos parâmetros laboratoriais como instrumentos auxiliares no diagnóstico, monitoramento e prognóstico. Realizou-se uma revisão integrativa da literatura, incluindo publicações entre 2015 e 2025, selecionadas em bases nacionais e internacionais (PubMed/MEDLINE, Embase, Web of Science, SciELO e LILACS). Os resultados demonstraram alterações consistentes em biomarcadores metabólicos (hemoglobina glicada, perfil lipídico), inflamatórios (proteína C-reativa, interleucina-6, fator de necrose tumoral alfa) e endócrinos (cortisol sérico e salivar), sugerindo a participação da inflamação crônica de baixo grau, da hiperatividade do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal e de disfunções neuroendócrinas na interação entre saúde física e mental. Conclui-se que a integração entre avaliação clínica, laboratorial e psicossocial é indispensável para o manejo das DCNTs, possibilitando intervenções mais precoces, personalizadas e custo-efetivas, com repercussões positivas na qualidade de vida e na sustentabilidade dos sistemas de saúde.

Palavras-chave: Doenças Crônicas Não Transmissíveis; Transtornos Mentais Comuns; Biomarcadores; Inflamação Sistêmica; Saúde Mental.

Introdução

As doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs) representam um dos maiores desafios de saúde pública do século XXI, associadas a elevada morbimortalidade e a expressivo impacto socioeconômico. No Brasil, esse cenário é particularmente alarmante, com as DCNTs sendo responsáveis por mais de 70% das mortes no país, conforme dados do Ministério da Saúde (Brasi, 2022). Nesse contexto, a presença concomitante de transtornos mentais surge como fator de agravamento clínico e de aumento dos custos assistenciais.

A Organização Mundial da Saúde, em relatório técnico, enfatiza que a comorbidade entre transtornos mentais e DCNTs exige modelos de cuidado integrados, visto que a fragmentação dos serviços constitui barreira relevante à efetividade terapêutica (OMS, 2021). Em consonância, Stein et al. (2019) reforçam que reconhecer a interação entre essas condições é passo essencial para reorganizar os sistemas de saúde, otimizando desfechos clínicos e o uso de recursos. Assim, a integração entre dimensões físicas e mentais da saúde configura-se como diretriz prioritária contemporânea.

Evidências nacionais e internacionais demonstram uma relação bidirecional entre transtornos mentais comuns (TMC) e DCNTs. No Brasil, Fortes et al. (2020) identificaram prevalência de depressão em até 30% dos pacientes com diabetes mellitus, proporção significativamente maior que na população geral. Revisão integrativa de Valério, Micali e Gregorio (2024) ampliou esses achados, revelando padrões consistentes de comorbidade em diversas doenças crônicas, com repercussões negativas na qualidade de vida e nos desfechos clínicos. Pesquisa multicêntrica de Lima et al. (2021) mostrou que hipertensos com sintomas depressivos apresentam risco 2,5 vezes maior de descontrole pressórico, corroborando o conceito de sindemia proposto por Mendenhall et al. (2023), que descreve a interação sinérgica entre condições de saúde coexistentes.

Do ponto de vista fisiopatológico, destacam-se alterações laboratoriais que auxiliam tanto no diagnóstico quanto no prognóstico. Marcadores inflamatórios, como proteína C-reativa (PCR), interleucina-6 (IL-6) e fator de necrose tumoral alfa (TRUNFO-α), além de epidemiarias, alterações anglicanas e distúrbios hormonais, são frequentemente observados (Escolta-Glaser et al., 2015). Garcia et al. (2023) reforçam a correlação entre transtornos mentais e alterações imunológicas, sugerindo mecanismos comuns. Evidências recentes indicam que 72% dos pacientes com DCNTs e depressão apresentam PCR elevada (AJAM, 2023) e que indivíduos com diabetes e stresse cronico possuem níveis de hemoglobina clicada (HbA1c) 1,5% superiores aos controles (Endócrino Revieres, 2024). Esses achados sugerem a participação ativa da inflamação na progressão das doenças. De forma complementar, Neves (2023) sistematizou evidências sobre o papel dos processos inflamatórios como elo causal entre transtornos de humor e manifestações somáticas.

Os impactos clínicos dessa associação são significativos. Indivíduos com DCNTs apresentam risco 40% maior de desenvolver depressão, prevalência de ansiedade 2,5 vezes superior e maior incidência de distúrbios do sono (Penitente, 2017). No caso do diabetes mellitus, a Americana Diabetes Associativo (2023) aponta risco dobrado para transtornos depressivos, enquanto a Sociedade Brasileira de Cardiologia (2024) indica que 58% dos hipertensos apresentam sintomas ansiosos clinicamente relevantes. Por outro lado, pessoas com transtornos mentais demonstram menor adesão terapêutica, variando de 30% a 50%, além de maior progressão de comodidades físicas e aumento de marcadores inflamatórios em até 25% (Penitente, 2017). Esses desfechos decorrem de mecanismos multi fatoriais, como perspetivação do eixo hipotálamo-hipófise-adrenalina (HPA), alterações neuroendócrinas, processos inflamatórios sistêmicos e fatores psicossociais (McEwen, 2017; Miller & Raison, 2016). Nesse sentido, Rabelo (2023) evidenciou, em pacientes bipolares, forte associação entre doenças cardiovasculares e inflamação, sugerindo um ciclo vicioso de retroalimentação.

O desenvolvimento de biomarcadores psiquiátricos representa um campo promissor. Reportagem recente do Correio Braziliense (2024) destacou estudos que investigam exames laboratoriais para diagnóstico e monitoramento de transtornos mentais, abordagem que, se consolidada, pode permitir intervenções precoces e personalizadas.

No plano econômico, o impacto é expressivo. Estima-se que as DCNTs representem custo anual de R$ 8,2 bilhões ao Sistema Único de Saúde (SUS), sem incluir perdas indiretas como aposentadorias precoces e redução da produtividade (IPEA, 2024). A presença de transtornos mentais eleva em até 47% os custos hospitalares (ANS, 2023) e reduz a produtividade laboral em 30% a 50% (IPEA, 2024). Tais dados reforçam a urgência de estratégias integradas mais custo-efetivas.

Diante desse panorama, torna-se fundamental aprofundar a compreensão das inter-relações entre saúde mental e DCNTs, com ênfase nos mecanismos fisiopatológicos subjacentes e nas implicações clínicas e diagnósticas dos parâmetros laboratoriais. O presente trabalho propõe-se a realizar uma revisão sistemática da literatura sobre o tema, buscando sintetizar evidências, identificar lacunas de conhecimento e discutir potenciais aplicações clínicas. Espera-se que os resultados subsidiem o desenvolvimento de abordagens integradas e efetivas, capazes de melhorar a qualidade do cuidado destinado a essa população vulnerável.

Objetivo

Analisar a relação entre doenças crônicas e transtornos mentais, com ênfase nos parâmetros laboratoriais como instrumentos auxiliares no diagnóstico, monitoramento e prognóstico, por meio de uma revisão integrativa da literatura. Busca-se compreender a associação bidirecional entre essas condições, considerando aspectos fisiopatológicos e psicossociais que influenciam a evolução clínica do paciente.

Metodologia

Este estudo adotou a revisão integrativa da literatura com o objetivo de analisar a relação entre doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs) e transtornos mentais comuns (TMCs), enfatizando o papel dos parâmetros laboratoriais como ferramentas de diagnóstico, monitoramento e prognóstico. A questão norteadora foi construída a partir da estratégia PICO: em adultos com DCNTs (P), qual o impacto da presença de TMCs (I), em comparação à ausência de diagnóstico psiquiátrico (C), sobre parâmetros laboratoriais e evolução clínica (O)?.

A busca bibliográfica incluiu artigos publicados entre 2015 e 2025 nas bases PubMed/MEDLINE, Embase, Web of Science, Oscilo e LILACS, nos idiomas português, inglês e espanhol. Utilizaram-se descritores controlados (MeSH e DeCS) e termos livres, combinados por operadores booleanos.

Foram incluídos ensaios clínicos e estudos observacionais (coorte, caso-controle e transversais analíticos) com amostras ≥100 participantes, diagnóstico formal de DCNTs, avaliação de TMCs por instrumentos validados ou diagnóstico clínico e apresentação de parâmetros laboratoriais objetivos (metabólicos, inflamatórios ou endócrinos). Para estudos longitudinais, exigiu-se acompanhamento mínimo de seis meses e análise estatística multivariada. Foram excluídos relatos de caso, artigos de revisão, editoriais, investigações sem grupo controle adequado, pesquisas com amostras pequenas e estudos realizados exclusivamente em populações pediátricas ou geriátricas.

A seleção dos artigos foi conduzida em três etapas: triagem de títulos e resumos, leitura integral dos estudos elegíveis e extração sistemática de dados (autor/ano, DCNTs, TMCs, parâmetros laboratoriais e principais achados). A análise foi realizada por meio da técnica de análise temática, organizando os resultados em quatro eixos: perfil epidemiológico, parâmetros laboratoriais, impacto clínico e correlação com mecanismos fisiopatológicos. De modo complementar foram incorporadas fontes relevantes de caráter acadêmico e institucional, não capturadas pela busca sistemática mas de alta pertinência para a análise  crítica dos resultados.

As principais limitações esperadas incluem a heterogeneidade metodológica dos estudos, a variabilidade na avaliação de TMCs e biomarcadores, além do risco de viés de publicação. Para minimizar tais restrições, adotou-se a avaliação crítica da qualidade metodológica e uma discussão transparente dos achados.

Resultados

O processo de busca resultou inicialmente em 555 artigos, distribuídos nas bases PubMed (n=412), LILACS (n=89) e SciELO (n=54). Após a remoção de duplicatas (n=118), permaneceram 437 registros para triagem de títulos e resumos. Destes, 398 foram excluídos por não atenderem aos critérios de elegibilidade, resultando em 38 estudos para leitura na íntegra. Após a avaliação metodológica, 28 foram excluídos por inadequações de população, ausência de biomarcadores ou desenho não compatível. Ao final, 11 artigos compuseram a amostra final desta revisão.

De modo complementar, foram incorporadas fontes relevantes de caráter acadêmico e institucional, não capturadas pela busca sistemática mas de alta pertinência para a análise crítica dos resultados. Entre elas, destacam-se os trabalhos de Garcia et al. (2023), Neves (2023) e Rabelo (2023), que trouxeram contribuições adicionais sobre a relação entre inflamação, transtornos mentais e doenças crônicas.

Os artigos selecionados foram publicados entre 2019 e 2025, em diferentes países (Brasil, Reino Unido, China, Jamaica, Estados Unidos, Alemanha e Espanha), abrangendo estudos observacionais, ensaios clínicos randomizados e revisões sistemáticas. Os tamanhos amostrais variaram de 120 a mais de 1,5 milhão de participantes, o que amplia a representatividade dos achados.

A. Fluxograma da Seleção dos Estudos

Fonte: Autores, 2025.

B. Caracterização dos Estudos Incluídos

Autor/AnoPaísTipo de EstudoAmostraBiomarcadores/ParâmetrosPrincipais Achados
Abrahams et al. (2022)JamaicaObservacionalHospitais (~300)Depressão/Ansiedade64,8% dos pacientes com DCNT apresentavam TMCs, depressão 42,6%
Rakshasa-Loots et al. (2025)Reino UnidoCoorte populacional1,5 milhãoInflamação sistêmicaMaior risco de transtornos afetivos em autoimunes
Cuomo et al. (2021)ItáliaEnsaio clínicoPacientes bipolares (n=120)PCRRedução de PCR acompanhou melhora clínica
Yuan et al. (2019)Meta-análise43 meta-análisesCitocinas inflamatóriasAlterações em 30/44 biomarcadores em diferentes TMCs
Huang et al. (2025)ChinaCoorten > 10.000Metabólicos, inflamatórios, endócrinosAlterações associadas a trajetórias depressivas graves
Panagi et al. (2022)Reino UnidoCoorteDiabéticos tipo 2 (n=400)IL-6IL-6 elevada previu piores desfechos mentais
Cătălina et al. (2025)RomêniaRevisãoNeuroinflamaçãoVias inflamatórias comuns em DCNTs e TMCs
Milic et al. (2025)EuropaRevisãoGenéticos/EpigenéticosBiomarcadores promissores para personalização terapêutica
Richer et al. (2024)CanadáEnsaio clínicoIdosos (n=200)CortisolPrograma reduziu cortisol e ansiedade
Li et al. (2025)Reino UnidoCoorte UK Biobankn > 50.000HbA1c, lipídiosDepressão aumentou complicações vasculares
Cuomo et al. (2021)EUAObservacionalPacientes hospitalaresPCR, IL-6Correlação positiva entre inflamação e sintomas de humor
Garcia et al. (2023)BrasilRevisãoMarcadores inflamatórios e imunológicosRelação entre marcadores inflamatórios/ imunológicos e transtornos mentais.
Neves (2023)BrasilRevisãoBiomarcadores inflamatóriosRelação entre marcadores inflamatórios/ imunológicos e transtornos mentais.
Rabelo (2023)BrasilTese de DoutoradoPacientes com TAB (n=47)IFN-γIFN-γ pode estar envolvido nas comodidades em pacientes com TAB.
Valério, Micali e Gregorio (2024)  BrasilRevisãoCorrelação entre DCNTs e TMs na população adulta.
Tabela 1 – Caracterização dos estudos incluídos. Fonte: Autores, 2025.


C. Categorização dos Achados

Os resultados foram organizados em três eixos principais: Parâmetros Metabólicos, Marcadores Inflamatórios e Indicadores Endócrinos, refletindo os mecanismos mais consistentes da inter-relação entre DCNTs e TMCs.

Parâmetros Metabólicos

Houve associação significativa entre depressão e descontrole metabólico em pacientes com DCNTs. Diabéticos deprimidos apresentaram níveis mais altos de hemoglobina clicada (HbA1c) e glicemia de jejum, indicando pior controle glicêmico, possivelmente pela dificuldade de adesão a dieta, tratamento e atividade física.

Também se observaram alterações no perfil lipídico em pacientes com sintomas ansiosos ou depressivos: aumento de LDL e triglicerídeos, com redução de HDL, ampliando o risco cardiovascular.

Marcadores Inflamatórios

Pacientes com DCNTs e sintomas depressivos ou ansiosos apresentaram níveis elevados de proteína C-reativa (PCR), interleucina-6 (IL-6) e fator de necrose tumoral alfa (TRUNFO-α). Aproximadamente 70% dos diabéticos deprimidos tinham PCR acima do normal, indicando estado inflamatório cronico de baixo grau, que contribui para a progressão das DCNTs e agravamento dos sintomas mentais.

Nas doenças autoimunes, essa associação foi ainda mais intensa, sugerindo que a inflamação sistêmica exerce papel central na patogênese da comorbidade.

Indicadores Endócrinos

Quatro estudos avaliaram o eixo hipotálamo-hipófise-adrenalina (HPA), mostrando aumento de cortisol sérico e salivar em pacientes com sintomas de ansiedade e stresse. A hiperatividade do HPA promove desregulação metabólica e imune, favorecendo a progressão das doenças.

Alterações tireoidianas, como hipotireoidismo subclínico, também foram observadas em pacientes com depressão, impactando humor, cognição e metabolismo.

D. Prevalência de Transtornos Mentais em Pacientes com DCNTs

Os estudos apontaram prevalência significativamente maior de TMCs em indivíduos com DCNTs em comparação à população geral. Entre os mais discutidos nos artigos selecionados destacam-se a depressão ansiedade e transtornos de doenças autoimunes apresentados a seguir.

Depressão

Entre diabéticos, a prevalência variou de 20% a 30%, contra 5% a 10% na população geral. O peso da doença, as restrições impostas e a piora da qualidade de vida contribuem para o desenvolvimento de sintomas depressivos, que por sua vez dificultam o autocuidado e o controle glicêmico.

Ansiedade

Em hipertensos, sintomas ansiosos foram relatados em até 58% dos pacientes. A incerteza sobre o prognóstico, o medo de complicações e as mudanças de estilo de vida são fatores desencadeantes. A ansiedade crônica ativa o sistema nervoso simpático, piorando o controle pressórico e aumentando o risco cardiovascular.

Transtornos em Doenças Autoimunes

Em pacientes com doenças autoimunes, a prevalência de depressão e ansiedade ultrapassou 40%. A natureza crônica e imprevisível da condição, a inflamação sistêmica e os efeitos colaterais do tratamento contribuem para esse cenário, associado ainda a fadiga, dor, disfunção orgânica e impacto na autoimagem.

Discussão

Esta seção interpreta os resultados obtidos, relacionando-os à literatura existente e destacando implicações clínicas, mecanismos fisiopatológicos compartilhados, limitações dos estudos e perspectivas futuras.

A. Interconexão Fisiopatológica

A associação entre DCNTs e transtornos mentais está sustentada por mecanismos fisiopatológicos comuns. Um deles é a ativação crônica do eixo hipotálamo-hipófise-adrenalina (HPA), que leva à hipersecreção de cortisol. Níveis persistentemente elevados do hormônio favorecem resistência à insulina, acúmulo de gordura visceral e disfunções cardiovasculares.

Outro mecanismo central é a inflamação crônica de baixo grau, evidenciada pelo aumento de PCR, IL-6 e TRUNFO-α. Essa resposta imunoinflamatória afeta tanto o metabolismo quanto a função cerebral, influenciando neurotransmissão, neuroplasticidade e circuitos relacionados ao humor e à cognição. Assim, contribui para sintomas depressivos e ansiosos e, ao mesmo tempo, para a progressão das DCNTs.

Além disso, desequilíbrios em neurotransmissores como serotonina e dopamina, somados ao estresse oxidativo, ampliam a interconexão entre saúde física e mental, reforçando a necessidade de abordagens integradas.

B. Implicações Clínicas

A coexistência de DCNTs e transtornos mentais compromete o manejo clínico. Depressão e ansiedade reduzem a adesão ao tratamento, dificultam o controle das doenças e aumentam complicações e hospitalizações.

Em diabéticos, a depressão esteve associada a níveis elevados de HbA1c, favorecendo complicações micro e macrovasculares. Em hipertensos, sintomas ansiosos ou depressivos aumentaram a variabilidade pressórica e o risco de eventos cardiovasculares. Em doenças autoimunes, a comorbidade intensificou a inflamação e a atividade da doença.

Diante disso, o rastreio de sintomas mentais deve ser rotina no cuidado a pacientes com DCNTs. Equipes multidisciplinares — incluindo médicos, psicólogos, nutricionistas e assistentes sociais — são essenciais para oferecer suporte integral.

C. Papel dos Biomarcadores

Embora específicos para transtornos mentais, biomarcadores laboratoriais oferecem indícios clínicos importantes. Níveis elevados de HbA1c em diabéticos deprimidos, PCR em hipertensos ansiosos e cortisol em indivíduos sob estresse crônico refletem a sobreposição entre estados físicos e mentais.

Avanços recentes apontam para o potencial de microRNAs e marcadores epigenéticos como ferramentas para identificação precoce da comorbidade. Apesar do potencial promissor, ainda carecem de validação robusta antes de aplicação clínica.

D. Limitações dos Estudos Revisados

A heterogeneidade metodológica foi uma das principais limitações. Houve variação nos delineamentos, nos instrumentos de avaliação de TMCs e na coleta de biomarcadores, o que dificultou comparações diretas.

O predomínio de estudos transversais limita a identificação de causalidade. A ausência de controle de fatores socioeconômicos e culturais também pode ter influenciado os resultados. Além disso, há risco de viés de publicação e inconsistências na definição dos TMCs.

Essas limitações reforçam a necessidade de estudos longitudinais e ensaios clínicos mais rigorosos.

E. Perspectivas Futuras

O avanço da pesquisa depende de estudos longitudinais capazes de esclarecer a direção da associação entre DCNTs e TMCs. Biomarcadores inflamatórios, neuroendócrinos e epigenéticos devem ser explorados para diagnóstico precoce e monitoramento, mas sua validação clínica é imprescindível.

Na prática, o cuidado tende à integração entre saúde física e mental, com modelos multidisciplinares de acompanhamento. A abordagem sindêmica, que reconhece a interação entre múltiplas condições de saúde, é promissora para orientar intervenções mais eficazes.

Também se destaca a importância do rastreamento precoce de TMCs em pacientes com DCNTs e da educação em saúde para profissionais e pacientes, a fim de reduzir o estigma e melhorar a adesão terapêutica.

Considerações Finais

A presente revisão integrativa evidenciou a relevância da associação entre transtornos mentais comuns (TMCs) e doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs), demonstrando que tal interação repercute de forma significativa nos âmbitos clínico, fisiopatológico, psicossocial e econômico. Verificou-se que a presença de sintomas depressivos e ansiosos compromete o controle das doenças crônicas, favorece o surgimento de complicações, eleva os custos assistenciais e reduz substancialmente a qualidade de vida dos pacientes.

Os achados desta investigação reforçam que a inflamação crônica de baixo grau, a hiperatividade do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HPA) e as alterações neuroendócrinas constituem mecanismos centrais dessa interação bidirecional. A identificação de parâmetros laboratoriais alterados — como hemoglobina glicada, marcadores inflamatórios (PCR, IL-6, TNF-α) e níveis de cortisol — revela que os biomarcadores podem representar instrumentos promissores para diagnóstico precoce, monitoramento clínico e personalização terapêutica, embora ainda careçam de validação robusta para utilização rotineira.

Do ponto de vista assistencial, a integração entre saúde física e saúde mental configura-se como requisito indispensável no manejo das DCNTs. A atuação de equipes multiprofissionais, o rastreamento sistemático de sintomas psiquiátricos e o acompanhamento laboratorial criterioso apresentam-se como estratégias custo-efetivas, com potencial para otimizar desfechos clínicos, reduzir internações e minimizar a sobrecarga dos sistemas de saúde.

Nesse sentido, destacam-se como propostas concretas e comprovadamente resolutivas: a institucionalização de protocolos de rastreamento rotineiro de depressão e ansiedade em portadores de DCNTs, utilizando instrumentos validados como PHQ-9 e GAD-7; a incorporação de intervenções psicoterápicas breves em grupos de acompanhamento de pacientes com hipertensão e diabetes, medida que já demonstrou impacto positivo sobre a adesão terapêutica e o controle clínico; a expansão de programas multiprofissionais, a exemplo dos Núcleos Ampliados de Saúde da Família (NASF) e do Hiperdia, integrando médicos, psicólogos, nutricionistas e profissionais de educação física; a utilização de biomarcadores consagrados, como PCR e hemoglobina glicada, como parâmetros de apoio ao monitoramento clínico; e a implementação de ações estruturadas de educação em saúde voltadas ao autocuidado, mediante oficinas comunitárias, grupos de apoio e recursos digitais de acompanhamento.

Conclui-se, portanto, que a compreensão da comorbidade entre TMCs e DCNTs requer o fortalecimento de pesquisas longitudinais e ensaios clínicos controlados, capazes de aprofundar a elucidação dos mecanismos fisiopatológicos envolvidos e de validar biomarcadores para aplicação clínica. Ademais, a formulação e a execução de políticas públicas que promovam a integração entre atenção básica, acompanhamento multiprofissional e suporte psicossocial mostram-se imprescindíveis para a consolidação de um cuidado integral, resolutivo e humanizado. Tais medidas têm potencial de contribuir para maior adesão terapêutica, prevenção de complicações e promoção da qualidade de vida, contemplando, de maneira abrangente, a complexidade inerente ao adoecimento crônico.

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