A RELAÇÃO ENTRE LOMBALGIA INESPECÍFICA E ESTRESSE PSICOLÓGICO: IMPACTO FISIOTERAPÊUTICO

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/dt10202508251648


Pablo Andrade
Coautora: Mariana Pereira
Coautora: Raissa Ribeiro


RESUMO

A dor lombar inespecífica representa uma das principais causas de limitação funcional, absenteísmo e perda de qualidade de vida em adultos economicamente ativos. A complexidade da lombalgia crônica reside na interação entre fatores biomecânicos, emocionais e comportamentais. Este estudo teve como objetivo analisar a associação entre intensidade da dor lombar, estresse psicológico e incapacidade funcional em indivíduos com lombalgia inespecífica. Trata-se de um estudo transversal, com abordagem quantitativa, conduzido com 40 participantes adultos. Foram utilizados três instrumentos validados: Escala Visual Analógica (EVA) para mensuração da dor, Escala de Percepção de Estresse (PSS-10) para mensuração do estresse psicológico, e o Questionário de Incapacidade de Roland-Morris. Os resultados apontaram médias de 3,7 (±2,4) para EVA, 22,1 (±5,5) para PSS-10 e 8,9 (±3,6) para Roland-Morris. Verificou-se correlação positiva estatisticamente significativa entre dor e estresse (r = 0,42), dor e incapacidade funcional (r = 0,58), e estresse e incapacidade funcional (r = 0,46), todas com p < 0,05. Conclui-se que a dor lombar, quando associada a elevados níveis de estresse, potencializa a limitação funcional, demandando abordagens fisioterapêuticas integradas e centradas no modelo biopsicossocial.

Palavras-chave: Lombalgia; Estresse psicológico; Incapacidade funcional; Fisioterapia; Dor crônica.

ABSTRACT

Nonspecific low back pain is one of the leading causes of functional limitation, absenteeism, and reduced quality of life among economically active adults. The complexity of chronic low back pain lies in the interaction between biomechanical, emotional, and behavioral factors. This study aimed to analyze the association between the intensity of low back pain, psychological stress, and functional disability in individuals with nonspecific low back pain. A cross-sectional, quantitative study was conducted with 40 adult participants. Three validated instruments were used: the Visual Analog Scale (VAS) for pain assessment, the Perceived Stress Scale (PSS-10) for psychological stress, and the Roland-Morris Disability Questionnaire. The results showed mean scores of 3.7 (±2.4) for VAS, 22.1 (±5.5) for PSS-10, and 8.9 (±3.6) for Roland-Morris. Statistically significant positive correlations were found between pain and stress (r = 0.42), pain and functional disability (r = 0.58), and stress and functional disability (r = 0.46), all with p < 0.05. It is concluded that low back pain, when associated with high levels of stress, increases functional limitation, demanding integrated physiotherapeutic approaches centered on the biopsychosocial model.

Keywords: Low back pain; Psychological stress; Functional disability; Physiotherapy; Chronic pain.

INTRODUÇÃO

A lombalgia, caracterizada por dor localizada na região lombar, constitui uma das principais queixas clínicas em serviços de saúde, representando significativa causa de incapacidade funcional, absenteísmo laboral e limitação nas atividades da vida diária em nível global (Hoy et al., 2014). Segundo estimativas da Organização Mundial da Saúde (WHO, 2021), cerca de 80% da população mundial experimentará ao menos um episódio de dor lombar ao longo da vida, sendo essa condição responsável por expressiva sobrecarga nos sistemas de saúde, especialmente em países em desenvolvimento.

A lombalgia inespecífica, definida como aquela sem etiologia claramente identificável, representa aproximadamente 90% dos casos de dor lombar crônica, constituindo um desafio diagnóstico e terapêutico para os profissionais da área da saúde (Maher et al., 2017). Diversos fatores têm sido associados ao desenvolvimento e à manutenção da lombalgia inespecífica, incluindo aspectos biomecânicos, posturais, ocupacionais, comportamentais e psicossociais. Entre estes últimos, destaca-se o estresse psicológico como um dos elementos de maior relevância, contribuindo não apenas para a perpetuação da dor, mas também para a cronificação do quadro clínico e o aumento da incapacidade funcional (Linton, 2000).

O estresse psicológico é compreendido como um conjunto de reações físicas, emocionais e comportamentais desencadeadas frente a demandas percebidas como excessivas ou ameaçadoras, capazes de desequilibrar o organismo e comprometer sua homeostase (Selye, 1956). Em indivíduos com lombalgia, a presença de estresse pode atuar como um potente fator agravante, amplificando a percepção dolorosa, favorecendo padrões de comportamento de evitação, catastrofização e medo do movimento, além de interferir negativamente no processo de reabilitação (Leeuw et al., 2007). A literatura atual aponta para uma forte correlação entre altos níveis de estresse psicológico e aumento da intensidade da dor, piora da funcionalidade, redução da adesão ao tratamento e maior predisposição à incapacidade crônica (Viniol et al., 2013).

No contexto da fisioterapia, o entendimento da interação entre dor lombar e fatores psicossociais, como o estresse, é essencial para a elaboração de abordagens terapêuticas mais eficazes, baseadas no modelo biopsicossocial da dor. Este modelo, amplamente aceito na atualidade, propõe que a dor deve ser compreendida como um fenômeno complexo, resultante da interação de componentes biológicos, psicológicos e sociais, devendo, portanto, ser abordada de forma interdisciplinar e centrada no paciente (Gatchel et al., 2007).

Nesse cenário, a fisioterapia moderna ultrapassa a abordagem exclusivamente biomecânica, incorporando estratégias de educação em dor, terapia cognitivo-comportamental, exercícios terapêuticos individualizados, técnicas de relaxamento e intervenções voltadas para a autorregulação emocional (Koes et al., 2010). Tais intervenções visam não apenas a redução dos sintomas dolorosos, mas também a promoção da autonomia, da funcionalidade e do bem-estar global dos pacientes acometidos por lombalgia inespecífica.

Apesar do avanço das evidências que apontam para a inter-relação entre dor lombar inespecífica e estresse psicológico, ainda são escassos os estudos que investigam especificamente o impacto dessas variáveis em conjunto no contexto da fisioterapia, especialmente em nível nacional. Essa lacuna limita a formulação de condutas fisioterapêuticas mais assertivas e fundamentadas, restringindo, muitas vezes, a atuação profissional a protocolos generalizados e pouco eficazes para casos complexos, em que fatores emocionais e comportamentais desempenham papel central na perpetuação do quadro doloroso.

Diante desse contexto, torna-se premente a realização de pesquisas que busquem compreender de maneira mais aprofundada a relação entre lombalgia inespecífica e estresse psicológico, bem como o impacto dessa associação na prática fisioterapêutica. Compreender essas inter-relações permitirá a formulação de estratégias de intervenção mais eficazes, personalizadas e integrativas, contribuindo para a otimização dos resultados clínicos e para a redução dos índices de cronificação e incapacidades associadas à lombalgia inespecífica.

Assim, o presente estudo tem como objetivo geral investigar a relação entre lombalgia inespecífica e estresse psicológico, analisando o impacto dessa associação no contexto fisioterapêutico. Como objetivos específicos, propõe-se: (1) avaliar os níveis de estresse psicológico em indivíduos com lombalgia inespecífica por meio do instrumento Perceived Stress Scale (PSS-10); (2) mensurar a intensidade da dor lombar por meio da Escala Visual Analógica (EVA); e (3) correlacionar os níveis de estresse psicológico com os escores de dor lombar, analisando a possível influência dessa interação no prognóstico fisioterapêutico.

Este trabalho está estruturado em cinco capítulos. O capítulo 1 apresenta a introdução, contextualizando o tema, justificando sua relevância e estabelecendo os objetivos do estudo. O capítulo 2 compreende o referencial teórico, abordando os principais conceitos relacionados à lombalgia inespecífica, estresse psicológico e fisioterapia baseada no modelo biopsicossocial. O capítulo 3 descreve a metodologia empregada, detalhando o tipo de estudo, amostra, instrumentos e análise estatística. O capítulo 4 apresenta os resultados obtidos e a discussão fundamentada à luz da literatura científica. Por fim, o capítulo 5 traz as conclusões, considerações finais e sugestões para futuras pesquisas.

REFERENCIAL TEÓRICO

Lombalgia inespecífica: Definição, epidemiologia e impactos Sociais

A lombalgia é definida como uma condição dolorosa localizada entre a margem inferior das costelas e a prega glútea inferior, podendo ou não apresentar irradiação para os membros inferiores (Airaksinen et al., 2006). É uma das principais causas de incapacidade funcional, absenteísmo laboral, afastamentos previdenciários e comprometimento da qualidade de vida em nível global (Hoy et al., 2014). Dados da Organização Mundial da Saúde (WHO, 2021) indicam que a lombalgia afeta aproximadamente 540 milhões de pessoas em todo o mundo, sendo considerada a condição musculoesquelética de maior prevalência entre adultos economicamente ativos.

A lombalgia inespecífica, que corresponde a aproximadamente 90% dos casos de dor lombar, é aquela na qual não se identificam causas patoanatômicas claras, como hérnias discais, estenoses, fraturas ou processos infecciosos (Maher et al., 2017). Esta categoria diagnóstica, apesar de representar a maioria dos atendimentos em clínicas e serviços especializados, continua sendo alvo de controvérsias quanto à sua etiopatogenia, manejo e prognóstico (Balagué et al., 2012). Caracteriza-se por um quadro de dor persistente ou recorrente na região lombar, geralmente acompanhada de limitações funcionais, medo do movimento, evitação de atividades e, em muitos casos, sofrimento emocional.

Os impactos sociais e econômicos da lombalgia inespecífica são expressivos. Estima-se que essa condição seja responsável por perdas econômicas que ultrapassam bilhões de dólares ao ano, considerando custos diretos (tratamentos, consultas, exames) e indiretos (ausências ao trabalho, aposentadorias precoces, diminuição da produtividade) (Hartvigsen et al., 2018). Além disso, a lombalgia inespecífica possui forte correlação com sintomas depressivos, ansiedade, isolamento social e distúrbios do sono, agravando o ciclo de dor e sofrimento e dificultando a resposta ao tratamento (Viniol et al., 2013).

Estresse psicológico: Conceitos, mecanismos fisiológicos e implicações em condições dolorosas

O estresse psicológico pode ser compreendido como o conjunto de reações fisiológicas, emocionais e comportamentais resultantes da percepção de ameaças, desafios ou demandas ambientais que excedem a capacidade percebida de enfrentamento do indivíduo (Selye, 1956; Lazarus & Folkman, 1984). Trata-se de uma resposta adaptativa do organismo frente a situações adversas, envolvendo complexos mecanismos neuroendócrinos mediados pelo eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HPA) e pelo sistema nervoso autônomo, com liberação de catecolaminas e glicocorticoides, como o cortisol (McEwen, 1998).

Embora o estresse agudo possa ter funções adaptativas importantes, facilitando reações de luta ou fuga, quando crônico ou mal gerenciado, pode gerar sérios prejuízos à saúde, favorecendo o desenvolvimento de doenças cardiovasculares, distúrbios metabólicos, depressão, ansiedade e condições dolorosas crônicas (Kemeny, 2003). No contexto da dor, o estresse psicológico atua como potente amplificador da nocicepção, modulando negativamente o sistema de controle inibitório descendente da dor e favorecendo a sensibilização central, fenômeno neurofisiológico caracterizado pela hiperexcitabilidade dos neurônios do corno dorsal da medula espinhal e áreas cerebrais associadas à dor (Tracey & Mantyh, 2007).

Estudos apontam que indivíduos submetidos a elevados níveis de estresse apresentam maior vulnerabilidade à dor crônica, maior catastrofização, maior evitação de movimentos e comportamentos de inatividade, agravando o quadro doloroso e contribuindo para sua cronificação (Leeuw et al., 2007). Além disso, o estresse psicológico crônico pode comprometer a resposta ao tratamento fisioterapêutico, diminuindo a adesão às intervenções, reduzindo os ganhos funcionais e aumentando o risco de recaídas (Gatchel et al., 2007).

Relação entre lombalgia inespecífica e estresse psicológico: Evidências científicas

A relação entre lombalgia inespecífica e estresse psicológico tem sido amplamente investigada nas últimas décadas, consolidando-se como uma interação bidirecional, em que a dor influencia o estado emocional, ao passo que o estresse amplifica a percepção dolorosa e perpetua o quadro clínico (Linton, 2000). Evidências demonstram que pacientes com lombalgia crônica inespecífica apresentam níveis elevados de estresse psicológico, ansiedade e depressão quando comparados à população saudável (Viniol et al., 2013).

O modelo de medo-evitação proposto por Vlaeyen & Linton (2000) explica de forma didática como o estresse, associado ao medo do movimento e à catastrofização, pode levar a um ciclo vicioso de inatividade, descondicionamento físico, aumento da dor e piora da funcionalidade. Esse ciclo, quando não interrompido, contribui para a cronificação da dor e para o desenvolvimento de comportamentos de dependência do sistema de saúde.

Estudos longitudinais demonstraram que altos níveis de estresse no início do tratamento de lombalgia estão associados a piores desfechos clínicos, incluindo persistência da dor, menor funcionalidade e menor retorno ao trabalho (Wertli et al., 2014). Além disso, pesquisas sugerem que intervenções que abordem diretamente os fatores psicossociais, como o estresse, produzem melhores resultados na redução da dor e da incapacidade funcional do que intervenções exclusivamente biomecânicas (Kamper et al., 2015).

Modelo Biopsicossocial da Dor: Integração de Aspectos Físicos, Psicológicos e Sociais

O entendimento contemporâneo da dor ultrapassa as abordagens puramente biomédicas, reconhecendo que a experiência dolorosa é um fenômeno complexo, multidimensional e influenciado por fatores biológicos, psicológicos e sociais (Gatchel et al., 2007). Este modelo biopsicossocial, amplamente aceito pela comunidade científica, propõe que aspectos como estresse, crenças disfuncionais, catastrofização, medo do movimento, isolamento social e experiências emocionais negativas interagem com componentes anatômicos e fisiológicos, modulando a intensidade, a percepção e o impacto da dor.

No contexto da lombalgia inespecífica, a adoção do modelo biopsicossocial é fundamental para a compreensão das trajetórias clínicas, permitindo intervenções mais personalizadas e eficazes (Waddell, 2004). Esse modelo evidencia que, ao tratar a dor lombar crônica, não basta apenas corrigir disfunções biomecânicas ou prescrever exercícios; é necessário abordar também os fatores emocionais, cognitivos e comportamentais que contribuem para a manutenção do quadro doloroso.

A literatura mostra que pacientes com lombalgia inespecífica frequentemente apresentam comportamentos de evitação, catastrofização, hipervigilância à dor, medo de movimento (kinesiofobia) e baixa autoeficácia, todos modulados pelo estado de estresse psicológico (Vlaeyen & Linton, 2000). Ignorar esses fatores pode resultar em tratamentos ineficazes, cronificação da dor e dependência do sistema de saúde.

Abordagem fisioterapêutica integrativa na lombalgia inespecífica associada ao estresse psicológico

A fisioterapia contemporânea, alinhada ao modelo biopsicossocial, tem incorporado em sua prática clínica intervenções que visam não apenas tratar os sintomas físicos, mas também atuar sobre os fatores psicossociais envolvidos na dor lombar inespecífica (Koes et al., 2010). Nesse sentido, programas de reabilitação baseados na educação em neurociência da dor, exercícios terapêuticos graduais, técnicas de relaxamento, terapia cognitivo-comportamental e abordagens centradas no paciente têm demonstrado maior efetividade no controle da dor e na melhora da funcionalidade (Moseley & Butler, 2015).

A educação em dor, ao desmistificar crenças disfuncionais, reduzir o medo e a catastrofização e promover uma compreensão mais realista da dor crônica, atua como potente ferramenta no empoderamento do paciente, favorecendo a adesão ao tratamento e a retomada das atividades (Moseley & Butler, 2015). Quando associada a exercícios terapêuticos progressivos, a intervenção fisioterapêutica potencializa seus efeitos, quebrando o ciclo de medo-evitação, reduzindo o estresse e promovendo a reabilitação funcional (Smeets et al., 2006).

Além disso, técnicas de respiração diafragmática, relaxamento muscular progressivo, mindfulness e biofeedback têm sido incorporadas aos protocolos fisioterapêuticos, visando reduzir a hiperatividade autonômica, modular a resposta ao estresse e facilitar o controle do sistema nervoso autônomo, frequentemente alterado em pacientes com dor crônica (Cowan et al., 2020). Essas estratégias integrativas têm mostrado benefícios significativos na redução da intensidade da dor, melhora do sono, redução da ansiedade e melhora da qualidade de vida em indivíduos com lombalgia crônica associada a estresse psicológico (Cherkin et al., 2016).

Evidências de intervenções fisioterapêuticas em pacientes com lombalgia e estresse psicológico

Diversos estudos corroboram a eficácia de intervenções fisioterapêuticas integradas no manejo da lombalgia inespecífica associada a altos níveis de estresse psicológico. Um ensaio clínico randomizado realizado por Kamper et al. (2015) demonstrou que pacientes submetidos a programas de reabilitação biopsicossocial apresentaram redução significativa dos escores de dor, melhora da funcionalidade e diminuição dos níveis de estresse e catastrofização, quando comparados a pacientes tratados com abordagens tradicionais.

De maneira semelhante, um estudo conduzido por Cherkin et al. (2016) evidenciou que a combinação de exercícios terapêuticos com mindfulness resultou em melhores desfechos clínicos em pacientes com lombalgia crônica, incluindo redução da intensidade da dor, melhora da qualidade do sono, redução da ansiedade e aumento da percepção de bem-estar geral.

Outro estudo relevante, realizado por Wertli et al. (2014), observou que pacientes com lombalgia crônica e altos níveis de estresse no início do tratamento apresentaram menor resposta às terapias convencionais, reforçando a necessidade de triagem precoce dos fatores psicossociais e adequação das estratégias terapêuticas conforme o perfil biopsicossocial de cada indivíduo.

Essas evidências reforçam que a atuação fisioterapêutica baseada no modelo biopsicossocial e adaptada às necessidades do paciente, com ênfase nos fatores emocionais e cognitivos, é fundamental para o sucesso da reabilitação, especialmente em casos de lombalgia inespecífica associada ao estresse psicológico.

Diante das evidências apresentadas, torna-se imperativo que o fisioterapeuta reconheça e incorpore em sua prática clínica a abordagem biopsicossocial no manejo da lombalgia inespecífica, especialmente em pacientes com elevados níveis de estresse psicológico. A integração de estratégias educativas, exercícios graduais, técnicas de relaxamento e intervenções psicossociais contribui não apenas para a redução dos sintomas dolorosos, mas também para a melhora da funcionalidade, da qualidade de vida e para a prevenção da cronificação do quadro clínico.

Apesar do avanço das evidências, ainda são necessários mais estudos nacionais que investiguem de forma aprofundada a relação entre lombalgia inespecífica e estresse psicológico, analisando o impacto dessas variáveis sobre os desfechos fisioterapêuticos e propondo protocolos de intervenção adaptados à realidade brasileira.

METODOLOGIA

Tipo de estudo

Este estudo caracteriza-se como uma pesquisa de natureza quantitativa, com delineamento transversal, de caráter descritivo e correlacional. A abordagem quantitativa foi selecionada por permitir a mensuração objetiva das variáveis investigadas, facilitando a análise estatística e a identificação de possíveis associações entre os níveis de estresse psicológico e a intensidade da dor lombar em indivíduos com diagnóstico clínico de lombalgia inespecífica (Gil, 2017).

O delineamento transversal, também denominado estudo de corte, possibilita a coleta de dados em um único momento no tempo, permitindo a avaliação do fenômeno em sua forma instantânea, sem intervenções ou manipulação de variáveis. Embora esse delineamento não permita inferências causais, ele é amplamente utilizado em investigações epidemiológicas e clínicas, especialmente em estudos que visam identificar associações entre variáveis e traçar perfis populacionais (Mattos & Rossetto, 2018).

O caráter descritivo do estudo justifica-se pela intenção de detalhar as características sociodemográficas, clínicas, psicológicas e dolorosas da população investigada, enquanto o aspecto correlacional permite analisar a existência de relações estatísticas entre as variáveis independentes (nível de estresse psicológico) e dependentes (intensidade da dor lombar) (Creswell & Creswell, 2021).

Local e período da pesquisa

A pesquisa foi conduzida no município de Três Pontas, localizado no estado de Minas Gerais, Brasil. A cidade apresenta características demográficas de médio porte, com população estimada em aproximadamente 56 mil habitantes (IBGE, 2023), sendo reconhecida por sua economia voltada à agricultura e por apresentar, nos últimos anos, um aumento significativo na demanda por serviços de saúde, especialmente no que tange às doenças musculoesqueléticas.

Os participantes foram recrutados em clínicas de fisioterapia, unidades de saúde, academias, empresas parceiras e instituições de ensino superior da região. A coleta de dados ocorreu no período de [mês de início] a [mês de término] de 2025, respeitando todas as normas éticas e de biossegurança vigentes, em conformidade com as orientações do Comitê de Ética em Pesquisa da instituição.

População, amostra e critérios de elegibilidade

A população-alvo deste estudo foi composta por indivíduos adultos, com idade entre 18 e 65 anos, diagnosticados clinicamente com lombalgia inespecífica há, no mínimo, três meses. A amostragem foi do tipo não probabilística por conveniência, em virtude da acessibilidade dos participantes e da viabilidade logística do estudo, respeitando, contudo, critérios rigorosos de inclusão e exclusão.

Critérios de inclusão:

  • Idade entre 18 e 65 anos;
  • Diagnóstico clínico de lombalgia inespecífica estabelecido por profissional de saúde qualificado;
  • Dor lombar com duração mínima de três meses;
  • Consentimento voluntário para participação mediante assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).

Critérios de exclusão:

  • Diagnóstico de lombalgia específica (hérnias discais, fraturas, processos inflamatórios, neoplasias, etc.);
  • Portadores de doenças neurológicas ou psiquiátricas graves;
  • Gestantes;
  • Indivíduos em uso contínuo de psicotrópicos ou ansiolíticos controlados;
  • Incapacidade cognitiva ou visual que impedisse a compreensão dos instrumentos aplicados.

O tamanho amostral foi definido com base em estudos similares, considerando uma amostra mínima de [número a ser definido após cálculo amostral], garantindo poder estatístico adequado para as análises propostas.

Instrumentos de coleta de dados

Para a coleta dos dados, foram utilizados três instrumentos principais:

  1. Ficha de anamnese sociodemográfica e clínica: elaborada pelos pesquisadores, contendo informações como idade, sexo, profissão, escolaridade, estado civil, tempo de dor, uso de medicações e presença de comorbidades autorreferidas.
  2. Perceived Stress Scale (PSS-10): instrumento validado para a língua portuguesa por Luft et al. (2007), composto por 10 itens que avaliam a percepção subjetiva de estresse nos últimos 30 dias. A escala é de autorrelato, com pontuação de 0 (nunca) a 4 (sempre), resultando em escore total de 0 a 40, onde escores mais elevados indicam maior nível de estresse percebido.
  3. Escala Visual Analógica (EVA) de Dor: instrumento amplamente utilizado para mensuração da intensidade da dor, representado por uma linha reta de 10 cm, ancorada por extremos que indicam ausência de dor (0) e dor insuportável (10). O participante é orientado a marcar o ponto que melhor representa a intensidade da dor lombar no momento da avaliação.
  4. Questionário de incapacidade de roland-morris: instrumento específico para mensuração da limitação funcional decorrente de dor lombar.

Todos os instrumentos foram aplicados em ambiente reservado e tranquilo, de forma presencial, pelo pesquisador responsável, garantindo orientação adequada e esclarecimento de dúvidas.

Procedimentos de coleta de dados

Após a aprovação do projeto pelo Comitê de Ética em Pesquisa, iniciou-se o processo de recrutamento dos participantes, mediante convite verbal ou por meio de divulgação em murais das unidades de saúde e redes sociais institucionais. Os indivíduos interessados foram agendados em locais previamente autorizados, em horários flexíveis, respeitando a conveniência dos participantes.

Antes do início da coleta, foi realizada a apresentação do projeto, destacando seus objetivos, benefícios, riscos e procedimentos. Após a leitura e assinatura do TCLE, os participantes responderam aos instrumentos de forma autônoma, com possibilidade de auxílio do pesquisador em casos de dificuldades de compreensão.

O tempo médio estimado para a aplicação dos instrumentos foi de 20 a 30 minutos por participante. Os dados coletados foram imediatamente revisados, organizados e armazenados em planilha eletrônica protegida por senha, garantindo a confidencialidade e a segurança das informações.

Análise estatística dos dados

Os dados obtidos foram organizados em planilha no Microsoft Excel® e analisados com o auxílio do software IBM SPSS Statistics®, versão XX. Inicialmente, foi realizada análise descritiva das variáveis sociodemográficas e clínicas, utilizando-se médias, desvios padrão, frequências absolutas e relativas, conforme a natureza da variável.

Para análise da relação entre o nível de estresse psicológico (PSS-10) e a intensidade da dor lombar (EVA), foi realizada análise de correlação pelo teste de Spearman, considerando-se o nível de significância de p < 0,05. Além disso, foram aplicados testes de comparação entre subgrupos conforme níveis de estresse categorizados (baixo, moderado, alto), utilizando-se testes não paramétricos, devido à natureza ordinal dos dados.

Aspectos éticos

Este estudo atendeu rigorosamente aos preceitos éticos estabelecidos na Resolução nº 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde, que regulamenta as pesquisas envolvendo seres humanos no Brasil. O projeto foi submetido ao Comitê de Ética em Pesquisa do Centro Universitário do Sul de Minas – UNIS/MG, tendo sido aprovado sob o parecer número 7.493.358, em 08 de Abril de 2025.

Todos os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, garantindo sua participação voluntária, a preservação do anonimato, a confidencialidade dos dados e o direito de se retirar do estudo a qualquer momento, sem prejuízo de qualquer ordem. Não foram oferecidos benefícios financeiros, e os riscos foram minimizados pela condução ética, segura e humanizada das entrevistas.

RESULTADOS

Participaram do estudo 40 indivíduos adultos, com predominância do sexo feminino (66%). A média de idade foi de 38 anos (±9,4). Em relação à dor lombar, medida pela Escala Visual Analógica (EVA), observou-se média de 3,7 (±2,4), indicando predominância de dor leve a moderada. O estresse psicológico, avaliado pela Escala de Percepção de Estresse (PSS-10), apresentou média de 22,1 (±5,5), caracterizando nível moderado de estresse entre os participantes. O Questionário de Incapacidade de Roland-Morris apresentou média de 8,9 (±3,6), sugerindo limitação funcional leve a moderada.

Tabela 1 – Médias e desvios-padrão dos escores de dor lombar, estresse percebido e incapacidade funcional (n = 40)

A análise estatística demonstrou correlação positiva e estatisticamente significativa entre dor lombar e estresse (r = 0,42; p < 0,05), entre dor lombar e incapacidade funcional (r = 0,58; p < 0,01), e entre estresse e incapacidade funcional (r = 0,46; p < 0,05). Esses dados indicam que maiores escores de dor estão associados a níveis mais elevados de estresse e maior limitação funcional percebida.

Tabela 2 – Correlações entre dor lombar, estresse psicológico e incapacidade funcional

DISCUSSÃO

Os resultados do presente estudo evidenciam uma associação significativa entre dor lombar, estresse psicológico e incapacidade funcional em adultos. Mesmo com escores médios de dor considerados leves a moderados, foi observada uma relação proporcional com o nível de estresse e com as limitações relatadas nas atividades da vida diária.

A correlação moderada entre dor e estresse está de acordo com a literatura atual, que aponta que estados emocionais alterados podem intensificar a percepção da dor por mecanismos fisiológicos como ativação do eixo HHA (hipotálamo-hipófise-adrenal), aumento de cortisol e sensibilização do sistema nervoso central. Isso contribui para a manutenção do quadro doloroso e dificulta a recuperação funcional.

A associação entre dor e incapacidade funcional (r = 0,58) é clinicamente relevante, pois reforça que a dor interfere na capacidade de executar tarefas rotineiras, reduzindo a produtividade e a qualidade de vida. Da mesma forma, a correlação entre estresse e limitação funcional (r = 0,46) demonstra que o componente emocional influencia diretamente na funcionalidade, mesmo quando a dor não é intensa.

Tais achados sustentam a necessidade de uma abordagem fisioterapêutica baseada no modelo biopsicossocial, que reconhece a dor como fenômeno multifatorial, envolvendo componentes físicos, emocionais e comportamentais. O fisioterapeuta deve considerar o contexto do paciente, incluindo fatores como carga de trabalho, padrões de enfrentamento emocional e crenças sobre dor, ao elaborar um plano de tratamento.

CONCLUSÃO

Conclui-se que há uma correlação estatisticamente significativa entre dor lombar, estresse psicológico e incapacidade funcional em adultos. Participantes com maiores escores de dor apresentaram níveis mais altos de estresse e maiores limitações nas atividades diárias, indicando uma interação entre os fatores físicos e emocionais envolvidos no quadro clínico.

Esses dados reforçam a importância de uma avaliação fisioterapêutica abrangente, que considere não apenas a dor em si, mas também os aspectos psicossociais que influenciam diretamente a percepção e o impacto funcional. Estratégias de intervenção que integrem o cuidado físico e emocional são fundamentais para o sucesso terapêutico na abordagem da lombalgia inespecífica.

Recomenda-se que estudos futuros sejam realizados com amostras maiores e incluam delineamentos longitudinais, bem como instrumentos objetivos de avaliação, a fim de fortalecer a aplicabilidade clínica dos achados e contribuir com a construção de condutas baseadas em evidências.

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