A PREVALÊNCIA DE LESÕES MUSCULARES EM JOGADORES PROFISSIONAIS DE FUTEBOL: REVISÃO INTEGRATIVA

THE PREVALENCE OF MUSCLE INJURIES IN PROFESSIONAL SOCCER PLAYERS: INTEGRATIVE REVIEW

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202510221042


João Victor Emanoel Silva Brito1
Rosilene Queiroz de Oliveira Araújo2


Resumo

A prevalência dos danos musculares em atletas profissionais de futebol equivale a uma taxa de cerca de 35% de atletas lesionados, esses danos acontecem mais nos jogadores na linha lateral e nos defensores centrais. Este estudo tem como objetivo analisar as ocorrências mais comuns de lesões entre jogadores de futebol profissional. Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, com a finalidade de reunir e avaliar estudos científicos sobre a prevalência das lesões musculares em jogadores de futebol. A análise de dez estudos envolvendo um total de 5.989 jogadores de futebol revelou que as lesões musculares são as mais prevalentes nesse esporte, principalmente nos membros inferiores, com destaque para a coxa e os músculos isquiotibiais, que além de serem os mais acometidos, apresentam alta taxa de recorrência. Em síntese, as evidências apontam que as lesões musculares em jogadores profissionais de futebol apresentam alta prevalência, acometendo principalmente os grupos musculares da região posterior da coxa.

Palavras-chave: Prevalência. Traumatismos em atletas. Futebol.

1. INTRODUÇÃO

O sistema muscular é composto por uma variedade diversificada de musculatura que é sistematicamente organizada em toda a anatomia humana, exibindo uma variedade de tamanhos, formas e funcionalidades. Os músculos são estruturados como tecidos especializados, compostos por fibras alongadas e componentes celulares. As fibras musculares têm vários propósitos, incluindo: fornecer suporte, facilitar a locomoção, regular a homeostase térmica e conferir integridade estrutural ao organismo (TEIXEIRA, 2021).

A prevalência dos danos musculares em atletas profissionais de futebol equivale a uma taxa de cerca de 35% de atletas lesionados, essas lesões acontecem mais nos jogadores que estão na linha lateral e nos defensores centrais. Além disso, os músculos inferiores são os membros que mais sofrem deste tipo de dano, sendo os músculos isquiotibiais são os mais comprometidos (MARGATO et al., 2021).

As extremidades inferiores representam a região anatômica mais impactada, exibindo a maior ocorrência de rupturas e distensões predominantemente durante as atividades de corrida, principalmente na região da coxa. Uma maior frequência de lesões durante partidas competitivas do que em comparação às sessões de treinos do campeonato regional de futebol masculino realizado no estado do Rio Grande do Sul, Brasil (DRUMMOND, 2021).

Conforme relatado pela FIFA (2009), O futebol constitui um esporte coletivo mundialmente estimado e amplamente reconhecido que envolve uma agregação significativa de atletas profissionais de elite, com estimativas sugerindo a existência de mais de 200 milhões de indivíduos envolvidos em jogos profissionais e amadores.

Nesse sentido, a fisioterapia oferece inúmeros benefícios por meio de uma variedade de metodologias. Além do condicionamento físico, no qual podem instruir o atleta sobre o alinhamento adequado durante o esforço físico e a finalidade de cada grupo muscular, com o objetivo de reduzir o risco de lesões futuras. Consequentemente, o atleta seria capaz de realizar suas tarefas reduzindo os riscos a sua integridade física, garantindo segurança, qualidade e bem-estar geral (GOMES, 2022). 

Dessa forma, o alongamento dinâmico é um método de aquecimento mais eficaz em comparação ao alongamento estático, ele não apenas facilita a especificidade do movimento atlético, mas também aumenta a prontidão do corpo para o exercício. Ao mesmo tempo, é capaz de resultar em uma diminuição na redução da força dinâmica e consequentemente a isso, pode culminar em um melhor desempenho físico (FERRAZ, 2023).

Desse modo, o objetivo deste estudo será analisar as ocorrências mais comuns de lesões entre jogadores de futebol profissional. Nesse sentido, a análise busca elucidar os determinantes de risco correlacionados com essas lesões e suas ramificações para aplicações clínicas, aprimorando assim a compreensão dos efeitos das lesões musculares no desempenho e nas trajetórias vocacionais desses profissionais do esporte.

2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA OU REVISÃO DA LITERATURA

Referencial teórico 

As lesões musculares podem ocorrer de diversas maneiras, como contusões, estiramentos ou lacerações. A maior parte das lesões musculoesqueléticas está relacionada a contusões ou estiramentos, sendo as lacerações musculares consideravelmente menos comuns na atividade esportiva. Quando o músculo estar sujeito a uma força de tração excessiva, as miofibrilas sofrem um estiramento exagerado, o que pode resultar em uma ruptura, geralmente localizada próxima à junção miotendínea, onde o músculo se associa ao tendão (FERNANDES, 2011)

A maioria das lesões musculares acontece durante a prática de atividades esportivas, representando entre 10% e 55% de todas as lesões. Os músculos mais frequentemente afetados incluem os isquiotibiais, quadríceps e gastrocnêmicos, que são músculos biarticulares, mais propensos a lesões devido às forças de aceleração e desaceleração a que são submetidos. (BARROSO, 2011)

Os danos musculares podem ser classificados de acordo com seu tipo em danos causados por fatores intrínsecos ou extrínsecos. Fatores extrínsecos categorizam as lesões causadas por meio de um fator externo; as contusões são os melhores exemplos. As disfunções são organizadas por fatores intrínsecos. Rupturas e estiramentos musculares. (SANTANNA, 2022). O padrão de alterações biológicas que ocorrem na musculatura após uma lesão é consistente. Não depende do tipo de lesão que foi sofrida. Estas modificações podem ser explicadas em três fases: destruição, reparo e reabilitação. (BARROSO, 2011)

Além disso, é crucial ressaltar que: a intensidade exercida pelo músculo durante uma contração e uma alteração resultante de seu comprimento são influenciadas por três fatores: o comprimento inicial; a velocidade como uma alteração do comprimento; e as cargas externas participantes em contração no movimento (KANDEL,1991) 

Os músculos podem fazer vários tipos de contrações, quando o músculo é contraído isometricamente, ele produz uma força que iguala a resistência oposta sem movimento ou comprimento do músculo. A contração concêntrica encurta o músculo quando a força produzida pelo músculo supera sua resistência. O alongamento dos músculos ocorre quando a contração excêntrica é feita quando a resistência é maior do que a força muscular, o tipo de lesão varia de acordo com o movimento. (BARROSO, 2011)

Para alcançar o ápice do próprio desempenho, os atletas, desde o nível amador até profissional, têm como objetivo vencer às competições. Para isso, faça o treinamento e aprenda as melhores estratégias para alcançar seu objetivo dentro do seu esporte (GOMES, 2020).

As lesões mais frequentes no futebol variam de acordo com o sexo, sendo mais frequentes como entorses no sexo feminino (42% a 54%), e mais comuns como, contusões e distensões nos homens (geralmente na região dos membros inferiores), que levam a inflexibilidade e desequilíbrio muscular. Lesões ocorrem por meio de exercícios recorrentes, treinamentos e/ou acidentes. Alguns fatores externos apoiam o praticante de se lesionar, que é o uso da força súbita ou total relacionado a uma mudança brusca na direção. (NASCIMENTO, 2018; LIEBERT, 2018)

Lesão causada por esportes geralmente está relacionada ao sistema músculo esquelético, que é composto por músculos, ossos, articulações e seus tecidos relacionados, como tendões e ligamentos. Para alcançar o ápice do próprio desempenho, os atletas, desde o nível amador até profissional, têm como objetivo vencer às competições. Para isso, faça o treinamento e aprenda as melhores estratégias para alcançar seu objetivo dentro do seu esporte (GOMES, 2020).

De acordo com Silva et al., (2006) define como estiramento ou rompimento de um músculo ou tecido muscular que conecta o músculo ao osso (tendão). No qual, as lesões geralmente ocorrem na região lombar e no músculo da parte de trás da coxa. Os sintomas incluem dor, inchaço, espasmos musculares e dificuldade em mover os músculos. O que podem causar estiramento muscular Lesões podem ser causadas por vários fatores, incluindo deficiências de flexibilidade e condições ligadas a treinos, cansaço muscular, estado de condicionamento físico do atleta, condições climáticas e equilíbrio emocional.

Em um esforço para entender as causas de lesões musculares por estiramento, ações extraordinárias merecem destaque, pois sempre estão presentes na situação em que essas lesões ocorrem, seja quando ocorrem, ou, em uma situação anterior, por deteriorar a massa muscular. Um músculo exposto a ações estranhas por um longo período de tempo do que é o melhor para geração de tensão, pode sofrer sérios danos. A resposta inflamatória ocorre quando resulta da desorganização do sistema flexível e, finalmente, agrava a lesão inicial. Assim, uma resposta menos inflamatória a amplitude pode proteger um músculo de lesões extras (PIZZA, et al.,1996).

O tecido muscular é formado por células especializadas na capacidade de contração. Há três tipos principais de tecido muscular: o músculo estriado cardíaco, o músculo liso e o músculo estriado esquelético, sendo este último o foco deste estudo. Funcionalmente, o músculo estriado esquelético é responsável pela movimentação voluntária da estrutura física, como caminhar, correr e levantar objetos. A aparência estriada desse tecido é resultado da organização específica de suas células, que são projetadas para executar contrações rápidas e sob controle consciente (SANTANNA, 2022).

O músculo esquelético desempenha um papel fundamental não apenas na geração de movimento, outro papel importante é no armazenamento de energia de forma de proteínas e glicogênio, manutenção da postura, como no caso dos músculos da cervical. Além disso, a contração muscular contribui para a produção de calor, um processo conhecido como termogênese, que é essencial para a regulação da temperatura do corpo (SANTOS, 2020).

Em uma análise abrangente das lesões musculares que ocorrem nas competições da LaLiga e da Premier League. Um total cumulativo de 277 lesões foi documentado ao longo das partidas, com 142 incidentes ocorrendo na liga espanhola e 135 na liga inglesa. Na liga espanhola, a incidência de lesões apresentou comparabilidade entre a primeira e a segunda metade da temporada, enquanto na liga inglesa, observou-se que as lesões eram mais prevalentes durante a metade inicial da temporada. A posição defensiva surgiu como a função que teve a maior frequência de lesões em ambas as ligas (ARGIBAY-GONZÁLEZ, et al., 2022).

A identificação precisa das lesões musculares e a avaliação de sua gravidade apresentam um desafio significativo no campo da prática clínica. Um diagnóstico preciso é fundamental para orientar as intervenções terapêuticas, pois afeta profundamente o prognóstico e a reintegração dos atletas à atividade física. Radiografias simples são normalmente a modalidade de imagem inicial empregada, pois facilitam a detecção imediata de qualquer fratura óssea, além de fornecer informações sobre sua localização anatômica específica. No entanto, a radiografia não é considerada um exame adequado para a avaliação das estruturas musculares (KAYANI, et al., 2020). 

De acordo com Portillo et al., 2020, demonstraram que, após uma ausência superior a oito dias atribuível a lesões musculares moderadas ou graves, o desempenho do atleta diminui acentuadamente em esforços de alta intensidade e competências técnicas, incluindo sprints e passes.

3. METODOLOGIA 

Este estudo trata-se de uma revisão integrativa da literatura, com a finalidade de reunir e avaliar criteriosamente estudos científicos sobre a prevalência das lesões musculares em jogadores de futebol. A revisão foi norteada pela abordagem metodológica proposta por Sousa, Bezerra e Egypto (2023), que direciona a execução da pesquisa desde a definição da pergunta de revisão, passando pela determinação dos instrumentos de coleta de informações, busca dos estudos em diferentes bases de dados, apresentação e sistematização das evidências encontradas, até a interpretação, discussão e síntese dos achados.

Para a busca dos artigos, foram utilizadas as bases de dados MEDLINE, PEDro e PUBMED, contemplando estudos publicados entre os anos de 2020 e julho de 2025.

A estratégia de busca foi construída a partir dos Descritores em Ciências da Saúde (DeCS). Nas bases BVS e PEDro, foram empregados os descritores em português: “Prevalência”, “Traumatismos em Atletas” e “Futebol”. Já na PubMed, foram utilizados os mesmos descritores em inglês: “Prevalence”, “Athletic Injuries” e “Soccer”. Os termos foram combinados entre si por meio do operador booleano (AND), o que permitiu refinar os resultados e incluir apenas estudos relevantes.

Foram definidos critérios de inclusão e exclusão, incluindo artigos publicados e disponíveis na íntegra nos idiomas português, inglês ou espanhol. Foram excluídos artigos sem acesso completo, além de revisões de literatura, artigos de opinião, relatos de caso, monografias, dissertações, teses, relatos de experiência e estudos de caso.

O processo de seleção dos estudos foi realizado em três etapas. Inicialmente, foram avaliados títulos e resumos para identificar os trabalhos de maior relevância. Em seguida, os artigos selecionados passaram pela leitura na íntegra. Por fim, os estudos incluídos tiveram seus dados extraídos e organizados em uma tabela contendo informações sobre autor, ano de publicação, tipo de estudo e resultados.

O processo de identificação, triagem, elegibilidade e inclusão dos estudos está representado no fluxograma PRISMA a seguir.

Figura 1: Processo de seleção dos artigos.

Fonte: Autoria própria, 2025.

4. RESULTADOS E DISCUSSÕES 

O quadro a seguir apresenta os estudos selecionados sintetizando os principais achados, incluindo autor, título, tipo de estudo e resultados mais relevantes, de modo a facilitar a visualização e a comparação entre os diferentes trabalhos analisados. Nesta revisão, foram incluídos 10 artigos científicos.

AUTORAMOSTRATÍTULOTIPODE ESTUDOMÉTODOSRESULTADOS
1Giescheet al., 2025100 jogadoresIdade Média 25 anosInfluência de desempenhos cognitivos selecionados na ocorrência de lesões musculoesqueléticas em jogadores profissionais de futebol eslovenosEstudo de coorte prospectivo
Avaliação cognitiva dos jogadores, atenção, memória visuoespacial e tempo de reação e acompanhamento prospectivo das lesões musculoesqueléticas.As lesões; tendência: menor flexibilidade cognitiva maior o risco 64%; melhor percepção visual menor o risco 40%.Incidência: 84% membros inferiores.
2Tiamaet al., 2024143 jogadoresCaracterização de lesões entre jogadores de futebol de elite em Burkina Faso: temporada 2019-2020Estudo descritivo observacionalColeta de dados via questionário auto-administrado sobre lesões e características sociodemográficas, preenchido pelos jogadores em treinos ou jogos.157 lesões 45,8% musculares, 30,6% entorses. Locais: coxa (30%), tornozelo (26,5%), joelho (18%). Mais em jogos (82%) e treinos (69,5%).
3Nuhuet al., 2021626 jogadoresIdade Média 25 anosEfeito do programa FIFA 11+ na incidência de lesõesEnsaio clínico randomizado por clusterGrupo experimental realizou o programa FIFA 11+ como aquecimento três vezes por semana; grupo controle manteve aquecimento habitual, registro de lesões e exposição a treinos e jogos.Grupo intervenção teve menos lesões (52%). Controle (63%). Redução de 55% em lesões moderadas e 71% em graves.
4Markovic et al., 202045 jogadoresForça dos adutores e assimetria como fatores de risco para lesões na virilhaEstudoprospectivoPrograma preventivo de força e equilíbrio, focado em isquiotibiais, quadríceps, adutores do quadril e panturrilhas, incluindo exercícios de força e propriocepção.Jogadores lesionados tinham força adutora menor e maior assimetria. Idade e lesão prévia não foram significativas.
5Ekstrandet al., 20233.909 jogadoresUEFA Elite Club Injury Study – lesões nos isquiotibiais (2001–2022)Estudo de coorte longitudinalRegistro prospectivo de lesões, tempo de exposição e gravidade em jogadores profissionais durante 21 temporadas.2636 lesões isquiotibiais = 19% de todas. Aumento de 12% (2001) para 24% (2022). Recorrência alta (≥2/3 em até 2 meses). Tendência crescente em jogos e treinos.
6Palazónet al., 2022314 jogadoresIdade Média 10 a 19 anosIncidência, carga e padrão de lesões em jovens espanhóis Estudo de coorte prospectivoColeta prospectiva de lesões e exposição em treinos e partidas; fisioterapeutas e técnicos registraram tipo, local, mecanismo, gravidade e tempo de retorno usando formulários padronizados.Entre 314 atletas, 34% (101) sofreram 146 lesões — 74 em jogos e 72 em treinos, incidência de 3,1/1000h (jogo 11,2; treino 1,8). A maioria foi muscular/tendinosa, principalmente isquiotibiais, com média de 9 lesões por temporada.
7Shalajet al., 2020143 jogadoresFatores prognósticos para lesão de isquiotibiais em jogadores de elite no KosovoEstudoprospectivoColeta prospectiva de dados de lesões de isquiotibiais, cálculo de incidência e carga de lesões por 1000 horas de exposição.27,9% sofreram lesão; reincidência 23%. Lesionados eram mais velhos, pesados e com maior IMC. Histórico prévio ↑ risco. Teste nórdico baixo e idade foram preditores.
8Hugheset al., 2023134 jogadoresIdade Média 24-29 anosFatores prognósticos para lesões musculares indiretas em futebol de elite (triagem pré-temporada)Estudo de coorte retrospectivoAvaliação pré-temporada com medidas antropométricas, histórico médico, exames musculoesqueléticos, testes funcionais e de força.134 atletas, 317 temporadas. 138 lesões musculares indiretas. Preditor: idade (OR 1,12/ano) e histórico de lesão isquiotibial recente (OR 2,95). Triagem tem valor limitado além da idade/histórico.
9Lievens et al., 2022165 jogadoresTipologia de fibras musculares como fator de risco para lesão de isquiotibiaisEstudo de coorte prospectivoEspectroscopia de ressonância magnética de próton aplicada ao músculo sóleo para determinar a tipologia das fibras musculares.Jogadores com fibras rápidas tinham 5,3x mais risco de lesão isquiotibial que fibras lentas. Risco consistente em ambas ligas. Tipologia muscular, forte fator individual.
10Drummondet al., 2021310 jogadores Idade Média 27 anosIncidência de lesões em jogadores de futebol – MappingfootEstudo de coorte prospectivoColeta de dados de exposição e lesões de jogadores profissionais durante treinos e jogos, com registros feitos por médicos e fisioterapeutas.310 jogadores, 92 lesões (29,7%). 86,9% membros inferiores, coxa mais comum. Distensão/ruptura (37%), entorse (19,6%). Mecanismos: sprint (33,7%), chute (12%), salto (6,5%). Incidência: 15,88/1000h jogo vs 2,04/1000h treino.

Os artigos supra analisados envolveram um total de 5.989 jogadores de futebol revelou que as lesões musculares são as mais prevalentes nesse esporte, principalmente nos membros inferiores, com destaque para a coxa e os músculos isquiotibiais, que além de serem os mais acometidos, apresentam alta taxa de recorrência. Em diferentes contextos, observou-se que mais de 80% das lesões relatadas foram localizadas nos membros inferiores, reforçando o impacto das demandas físicas do futebol sobre essa região.

Os fatores de risco identificados são multifatoriais e abrangem tanto características individuais quanto aspectos externos da prática esportiva. Entre os fatores pessoais, destacam-se o histórico prévio de lesão, a idade mais avançada, a baixa força muscular e a assimetria dos adutores, além da tipologia de fibras rápidas, que aumentam significativamente a predisposição a lesões isquiotibiais. Também foi evidenciado que aspectos cognitivos podem influenciar a ocorrência de lesões, já que menor flexibilidade cognitiva eleva o risco, enquanto melhor varredura visual atua como fator protetor.

No que se refere ao contexto de ocorrência, a maioria das lesões acontece durante os jogos, em comparação com os treinos, sobretudo em situações de contato físico e em ações de alta intensidade, como sprints, chutes e saltos. Além disso, os estudos longitudinais apontam para uma tendência crescente na incidência de lesões musculares ao longo das últimas duas décadas, especialmente em clubes de elite, o que demonstra que, apesar dos avanços no treinamento e na ciência esportiva, a prevenção ainda é um desafio constante.

Por outro lado, os programas de prevenção, como o FIFA 11+, mostraram resultados promissores, reduzindo em até 71% a ocorrência de lesões graves, o que reforça a importância da adoção de estratégias estruturadas de preparação e cuidado com os atletas.

4.1 Discussão

De acordo com Drummond et al. (2021), observou-se que a maior parte das lesões em jogadores de futebol ocorre na região da coxa (38,0%), seguida pelo joelho (15,2%), quadril (9,8%) e tornozelo (9,8%), confirmando a predominância das lesões nos membros inferiores. De forma semelhante, Tiama et al. (2022) também destacou que os traumas esportivos apresentam alta incidência nas mesmas regiões, sendo que seus achados apontaram para uma distribuição em que 45,8% das lesões foram musculares e 30,6% articulares. Enquanto Drummond evidencia a localização anatômica mais vulnerável, Tiama reforça a natureza das lesões, mostrando que ambas as análises se complementam ao evidenciar que os músculos e articulações dos membros inferiores constituem os segmentos mais acometidos no futebol.

As distensões musculares nos posteriores de coxa representam um dos maiores desafios para os jogadores profissionais de futebol, apresentando elevada taxa de recorrência. De acordo com Shalaj et al. (2020), cerca de 23% das lesões apresentam recidiva, o que reforça a complexidade desse tipo de trauma esportivo. Essa tendência é corroborada pelos achados de Giesche et al. (2025), que além de confirmarem o impacto das lesões nos posteriores de coxa, também evidenciaram que outros grupos musculares, como os gastrocnêmicos (11%), os músculos anteriores e posteriores da coxa (32%) e os da região medial e lateral (6%), sofrem comprometimentos significativos, demonstrando que a sobrecarga atinge de forma ampla os membros inferiores.

Quando considerada a posição ocupada em campo, Palazón et al. (2022) observaram que jogadores de meio-campo são os mais suscetíveis às lesões musculares (40%), seguidos pelos defensores (34%) e atacantes (16%). Esses dados, ao serem comparados aos de Ekstrand et al. (2023), revelam que a posição em campo e a intensidade das partidas contribuem diretamente para a maior incidência de lesões, uma vez que o estudo longitudinal identificou aumento progressivo das lesões isquiotibiais ao longo de duas décadas, alcançando cerca de 24% de todos os traumas musculares registrados.

Em relação à classificação, Drummond et al. (2021) apontaram que as lesões se distribuem de forma relativamente equilibrada entre as de sobrecarga (37,0%) e as traumáticas (35,9%). Por outro lado, Palazón et al. (2022) destacaram que, dentro das traumáticas, os comprometimentos músculo-tendíneos se sobressaem, com incidência de 1,9 lesões a cada 1000 horas de jogo. Essa análise indica que, embora ambas as formas sejam prevalentes, os eventos traumáticos durante partidas de maior intensidade apresentam impacto superior. Além disso, segundo os mesmos autores, a cada 100 jogadores, aproximadamente 60 sofrem algum tipo de dano muscular, incluindo rupturas, estiramentos e espasmos, sendo a maior parte de intensidade leve a moderada, mas com alguns casos graves.

Outro ponto importante diz respeito aos fatores individuais. Conforme observado por Lievens et al. (2022), jogadores com predominância de fibras musculares do tipo II possuem até cinco vezes mais risco de desenvolver lesões de isquiotibiais, o que sugere uma influência significativa da tipologia muscular. Esse achado complementa as evidências de Shalaj et al. (2020) e Hughes et al. (2023), que apontaram histórico prévio de lesão, idade avançada e maior composição corporal como variáveis associadas ao risco aumentado. Da mesma forma, Markovic et al. (2020) acrescentaram que desequilíbrios de força e fraqueza dos adutores também se configuram como fatores determinantes, enquanto Giesche et al. (2025) destacaram que aspectos neurocognitivos, como menor flexibilidade cognitiva, podem potencializar a vulnerabilidade dos atletas.

No que se refere aos mecanismos de ocorrência, os dados são consistentes entre os autores. Palazón et al. (2022) apontaram que corrida em alta velocidade, chutes e lançamentos corporais estão entre os principais desencadeadores, o que vai ao encontro dos resultados de Drummond et al. (2021), que registraram uma taxa de 15,88 lesões a cada 1000 horas de jogo, valor significativamente superior ao encontrado em treinos. Essa relação reforça a ideia de que o ambiente competitivo intensifica o risco de trauma.

Diante desse panorama, estratégias de prevenção tornam-se fundamentais. Nesse contexto, o programa FIFA 11+ mostrou-se eficaz, conforme relatado por Nuhu et al. (2021), que observaram redução de 52% nas lesões em atletas que aderiram ao protocolo, incluindo queda de 55% nos traumas moderados e de 71% nos graves. Esses resultados evidenciam que a implementação sistemática de programas preventivos pode reduzir substancialmente a incidência de lesões, mesmo em atletas de alto rendimento.

Assim, os estudos analisados convergem ao demonstrar que as lesões de isquiotibiais e outros músculos dos membros inferiores em jogadores de futebol resultam de uma combinação de fatores fisiológicos, biomecânicos, cognitivos e contextuais, sendo potencializadas pela intensidade das partidas e pela posição desempenhada em campo.

5. CONCLUSÃO

Em síntese, as evidências apontam que as lesões musculares em jogadores profissionais de futebol apresentam alta prevalência, acometendo principalmente os grupos musculares da região posterior da coxa. Além disso, os músculos da panturrilha, dos abdutores e dos adutores também apresentam elevada ocorrência de lesões, demonstrando que diferentes regiões musculares estão suscetíveis a danos durante a prática esportiva.

Nesse contexto, as lesões nos isquiotibiais configuram-se como um problema recorrente e multifatorial no futebol profissional, exigindo estratégias preventivas integradas e multidimensionais que associem protocolos individualizados para cada atleta. A alta prevalência e reincidência desses agravos musculares comprometem tanto o desempenho em campo quanto a carreira profissional dos jogadores, demonstrando seu significativo impacto clínico e esportivo. Desse modo, faz-se necessário mais estudos que permitam um acompanhamento mais preciso e eficaz dos atletas.

REFERÊNCIAS

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1Discente do Curso Superior de Bacharelado em Fisioterapia do Instituto de Ensino Superior do Sul do Maranhão Campus Imperatriz – MA. e-mail: joaovictoremanoel@icloud.com
2Docente do Curso Superior de Bacharelado em Fisioterapia do Instituto de Ensino Superior do Sul do Maranhão Campus Imperatriz- MA. Especialista em Osteopatia. (EBRAFIM). e-mail: rosilene.araujo@unisulma.edu.br