A NEUROARQUITETURA APLICADA EM ESPAÇOS URBANOS: O CASO DA PRAÇA JOSÉ ADOLF ASSAD EM MANHUAÇU – MG

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ar10202511202053


Mariana Lugão Nunes de Souza
Professor Orientador: Matheus Rodrigues
Professor Orientado: Mariana de Castro Pereira Pontes Papa


RESUMO

Este estudo apresenta o detalhamento do caso da revitalização da Praça José Adolf Assad, localizada em Manhuaçu–MG, com base nos conceitos da neuroarquitetura e da psicoarquitetura. O projeto foi desenvolvido com o objetivo de transformar o espaço urbano em um ambiente sensorialmente estimulante, psicologicamente acolhedor e socialmente integrador. A pesquisa adota abordagem qualitativa e método exploratório com base na análise de dados coletados durante o processo de diagnóstico, elaboração e execução da proposta, além da comparação entre as condições anteriores e posteriores à intervenção. A fundamentação teórica apoia-se em autores que discutem a influência do espaço na cognição, comportamento e afetividade humana. Os resultados apontam que a aplicação consciente de estratégias projetuais fundamentadas nesses dois campos favorece o bem-estar coletivo, a sensação de pertencimento e a revalorização do espaço público como lugar de convivência e memória urbana.

Palavras-chave: Neuroarquitetura; Psicoarquitetura; Espaço público; Bem-estar urbano; Praça José Adolf Assad; Arquitetura sensorial; Manhuaçu (MG).

ABSTRACT

This article presents the case study of the revitalization of José Adolf Assad Square, located in Manhuaçu–MG, based on the concepts of neuroarchitecture and psych architecture. The project was developed with the aim of transforming the urban space into a sensorially stimulating, psychologically welcoming, and socially integrative environment. The research adopts a qualitative approach and exploratory method, based on the analysis of data collected during the diagnosis, design, and implementation stages, as well as a comparison between the conditions before and after the intervention. The theoretical foundation is supported by authors who discuss the influence of space on human cognition, behavior, and affectivity. The results indicate that the conscious application of design strategies grounded in these two fields promotes collective well-being, a sense of belonging, and the revaluation of public space as a place of interaction and urban memory.

Keywords: Neuroarchitecture; Psych architecture; Public space; Urban well-being; José Adolf Assad Square; Sensory architecture; Manhuaçu (MG)

1 INTRODUÇÃO

A qualidade dos espaços urbanos influencia diretamente o comportamento humano, a saúde mental e o bem-estar coletivo. Essa relação tem sido objeto de estudo de abordagens interdisciplinares que buscam integrar os conhecimentos da arquitetura, psicologia e neurociência. Entre essas abordagens destacam-se a neuroarquitetura e a psicoarquitetura, campos que se complementam ao explorar, respectivamente, os impactos fisiológicos e emocionais dos ambientes construídos.

Os ambientes arquitetônicos possuem atmosferas que são capazes de influenciar o comportamento humano através de estímulos externos e internos causados por características físicas que acabam por gerar respostas orgânicas no ser humano e, por consequência, afetam seu desempenho ao realizar atividades, bem como suas relações interpessoais e profissionais. Essa relação entre ambiente e mente humana é denominada de Neuroarquitetura e seu conceito consiste em aplicar concepções pré-estabelecidas pela Neurociência ao ambiente construído (Vieira, 2022).

A neuroarquitetura se apoia na neurociência para investigar como estímulos espaciais, como luz, som, forma, textura, vegetação e organização afetam o funcionamento cerebral e geram respostas cognitivas comportamentais e sensoriais. Já a psicoarquitetura enfoca o vínculo subjetivo que os indivíduos estabelecem com os lugares, considerando memórias, significados, sensações e experiências afetivas como elementos essenciais na criação de espaços acolhedores e humanizados (Campos, Gomes e Otte, 2023). 

A neuroarquitetura, segundo Paiva (2018) investiga como estímulos físicos afetam áreas específicas do cérebro relacionadas à emoção, memória e comportamento. Essa abordagem reconhece que ambientes construídos podem provocar reações neurofisiológicas capazes de gerar conforto, estresse, orientação ou desorientação. Conforme afirma Guerra e Chamma (2023) “a arquitetura molda o cérebro como o cérebro molda a arquitetura”, reforçando a ideia de que o design tem um papel direto na regulação emocional dos indivíduos.

Complementarmente, a psicoarquitetura considera o espaço como uma extensão subjetiva da psique humana. Para Souza e Pezzini (2021) os espaços são vivenciados por todos os sentidos e deixam marcas na memória emocional dos usuários. Essa abordagem propõe que a arquitetura deva ser sensível aos afetos, às lembranças, aos rituais sociais e à identidade dos indivíduos, estabelecendo vínculos simbólicos que conferem ao espaço um caráter acolhedor e significativo (Rangel e Matos, 2021). 

O espaço armazena dados e oferece estímulos que são captados pelo corpo; a mente, que acomoda os componentes dessa subjetividade, atua como filtro que controla as respostas humanas em um determinando ambiente; e o resultado dessa associação é a experiencia (Alves e Celaschi, 2024).

A partir dessas bases, este estudo apresenta o caso da revitalização da Praça José Adolf Assad em Manhuaçu–MG. O projeto foi desenvolvido por alunos do curso de Arquitetura e Urbanismo da Faculdade do Futuro no contexto de um concurso promovido em parceria com a Prefeitura Municipal, cujo objetivo foi propor soluções sensíveis para espaços públicos da cidade. A proposta vencedora aplicou os princípios da neuroarquitetura e da psicoarquitetura para transformar a praça em um ambiente emocionalmente acolhedor, funcional e saudável, promovendo vínculos afetivos e pertencimento comunitário.

2 REFERENCIAL TEÓRICO

2.1 A Neuroarquitetura e suas características

A neuroarquitetura é um campo interdisciplinar que une conhecimentos da arquitetura, neurociência, psicologia e design, com o objetivo de compreender e aplicar a influência dos ambientes construídos sobre as emoções, comportamentos e estados fisiológicos dos indivíduos (Vieira, 2022). Segundo Villarouco et al. (2020) a neuroarquitetura estuda como o ambiente modifica o cérebro e, portanto, interfere diretamente no comportamento humano. 

Para Paiva (2018) o conceito de neuroarquitetura originou-se do rápido crescimento de uma nova consciência sobre a complexidade das funções cognitivas e processos emocionais envolvidos na experiência diária no desenho de ambientes. Trata-se de uma ciência de caráter interdisciplinar que estabelece interfaces ricas com outros campos do conhecimento que originalmente não mantinham diálogo com a arquitetura e o urbanismo tradicionais, dentre eles, psicologia, psicologia ambiental, estudos da mente e do comportamento humano e suas interações com o ambiente físico e social.

A importância de se estudar e aplicar os conceitos de Neuroarquitetura nos espaços construídos consiste em ressaltar a preocupação com esses estímulos gerados a partir do sensorial ativado diretamente pelo cérebro, prezando pelo bem estar físico e mental dos usuários, tendo em vista conciliar as necessidades humanas às do ambiente construído, utilizando de recursos e estratégias arquitetônicas que promovam conforto e bem-estar as pessoas em seus espaços, a fim de trazer o equilíbrio entre corpo e mente para a realidade do dia a dia (Vieira, 2022). 

De forma sucinta, é possível a compreensão de que a Neuroarquitetura é a união de três principais áreas: da ciência, pois aplica conceitos pré-estabelecidos pela Neurociência, ou seja, pela ciência que descreve o próprio sistema nervoso e periférico e tudo que o envolve , da Arquitetura, à medida que tais conceitos científicos são aplicados ao ambiente construído e; da Psicologia, pois a aplicação dos conceitos científicos ao ambiente construído tem como objetivo compreender percepções e sensações geradas na mente humana por meio de estímulos externos, captados através dos órgãos sensoriais. Entender a forma que os órgãos sensoriais captam as informações externas e transmite ao cérebro ajuda os arquitetos e os designers a tomarem decisões assertivas e favoráveis ao ser humano que habita um ambiente (Vieira, 2022).

Segundo Campos, Gomes e Otte (2023) atualmente a neuroarquitetura (estudo da neurociência aplicada à arquitetura) promove a possibilidade de arquitetos e pesquisadores descobrirem os impactos da interação entre o cérebro e o espaço construído, direcionando a atenção para os quesitos dos espaços e ambientes, suas interações e consequências aos usuários. Arosti (2023) acrescenta em seu estudo que o ambiente urbano provoca sensações/sentimentos nas pessoas e estes podem ser locais ameaçadores e/ou acolhedores.

Essa abordagem valoriza aspectos sensoriais e cognitivos do espaço, como iluminação, cores, texturas, sons, ventilação, orientação espacial e presença de elementos naturais. Estudos apontam que tais fatores influenciam diretamente no humor, na produtividade, na memória e até mesmo na percepção de segurança (ArchDaily, 2023). Quando aplicada ao urbanismo, a neuroarquitetura propõe a criação de espaços públicos que estimulem experiências positivas, fortaleçam o vínculo afetivo com a cidade e incentivem a permanência e o uso coletivo.

Complementar a essa abordagem, a psicoarquitetura propõe a compreensão dos espaços como agentes formadores da experiência subjetiva. Ela investiga os vínculos emocionais, simbólicos e afetivos que os usuários constroem com o ambiente, considerando a memória, a identidade, a sensação de pertencimento e a atmosfera como elementos centrais no processo projetual (Arosti, 2023). De acordo com Rangel e Matos, (2021) a psicoarquitetura visa compreender os desejos e necessidades humanas a partir do olhar emocional, subjetivo e relacional que se estabelece com os lugares.

Em seu estudo Paiva (2018) define os 12 Princípios da Neuroarquitetura e do Neuro Urbanismo, os quais estão resumidamente descritos no Quadro 1

Quadro 1 – 12 Princípios da Neuroarquitetura e do Neuro Urbanismo.

Fonte: Paiva (2018) adaptado por autora do estudo (2025).

2.2 Conceituando os espaços públicos

Souza e Pezzini (2021) destacam que, ao considerar a psique humana no processo de concepção dos espaços, é possível criar ambientes que acolhem, confortam e promovem equilíbrio emocional, especialmente em contextos urbanos marcados pela rigidez, insegurança e afastamento entre pessoas. A psicoarquitetura, portanto, não apenas complementa a neuroarquitetura, como também amplia a compreensão do espaço como extensão emocional do indivíduo.

Assim, compreende-se que os espaços públicos, especialmente praças urbanas, desempenham um papel determinante na regulação emocional dos indivíduos, podendo funcionar tanto como gatilhos de estresse quanto como promotores de equilíbrio e bemestar. Para Villarouco et al. (2020) a exposição cotidiana a ambientes urbanos desorganizados, com iluminação artificial intensa, ausência de vegetação e circulação confusa, contribui para o aumento dos níveis de estresse e da sensação de insegurança. Em contrapartida, a presença de elementos como vegetação abundante, iluminação natural e percursos intuitivos atua como mediadora neurossensorial, promovendo relaxamento, segurança emocional e maior permanência das pessoas nesses espaços.

A acessibilidade universal é um princípio fundamental na neuroarquitetura inclusiva que visa criar espaços físicos que possam ser utilizados por todas as pessoas, independentemente de suas habilidades físicas ou cognitivas. Esse conceito se baseia em pesquisas e teorias que reconhecem a importância de projetar ambientes que atendam às necessidades de uma ampla gama de indivíduos, promovendo a inclusão e a igualdade de oportunidades (Arosti, 2023). A Lei Brasileira de Inclusão (LBI – Lei 13.146/2015) que em seu artigo 53, estatui: 

“à acessibilidade é direito que garante à pessoa com deficiência ou com mobilidade reduzida viver de forma independente e exercer seus direitos de cidadania e de participação social” (art. 53).

No contexto de praças públicas, a aplicação dos conceitos de neuroarquitetura tornase especialmente relevante, pois esses espaços são tradicionalmente destinados à convivência, contemplação, descanso e práticas sociais coletivas. Quando concebidos sob uma abordagem sensível ao comportamento humano, esses ambientes têm o potencial de minimizar estímulos negativos, como desorientação espacial, excesso de concreto ou falta de conforto ambiental e, ao mesmo tempo, potencializar respostas cognitivas e emocionais positivas, fortalecendo o vínculo entre o indivíduo e a cidade (Alves e Celaschi, 2024).

Nesse sentido, a experiência descrita por Ceballos e Delgado (2022) no artigo “Urbanismo táctico: alternativa para mitigar impactos en la movilidad de la Galería Central de Palmira’’ demonstra como intervenções urbanas rápidas e de baixo custo, aliadas a uma compreensão psicossensorial dos espaços, podem promover melhorias reais na percepção dos usuários, reorganizando fluxos, promovendo o uso do espaço público e reforçando o sentimento de pertencimento. A partir dessa lógica, entende-se que a integração entre o projeto urbano e o bem-estar emocional é essencial para transformar a praça em um lugar de referência simbólica e funcional na vida cotidiana urbana.

A visão da arquitetura sobre o espaço público transcende a mera função de delimitar áreas e edifícios. Ela busca criar ambientes que promovam a interação social, a qualidade de vida e a identidade da cidade. A arquitetura, ao projetar espaços públicos, deve considerar aspectos físicos, sociais, econômicos e culturais, visando a criação de locais que atendam às demandas locais e promovam a participação da comunidade (Ceballos e Delgado, 2022). 

Complementarmente, Campos, Gomes e Otte (2023) argumentam que a arquitetura deve ser capaz de criar lugares com significado, isto é, espaços que respondam à necessidade humana de identidade, orientação e pertencimento. Aplicado ao contexto das praças, esse pensamento reforça que não basta oferecer equipamentos urbanos funcionais: é necessário compor uma atmosfera simbólica, afetiva e memorável, que permita às pessoas reconhecerem-se no espaço e sentirem-se emocionalmente acolhidas. Assim, a praça deixa de ser apenas um lugar de passagem e passa a atuar como um agente ativo na saúde emocional e no enraizamento comunitário.

Para Arosti (2023) a neuroarquitetura, no contexto urbano, é a aplicação da neurociência na criação e remodelação de cidades e espaços públicos. Ela leva em consideração vários fatores ao projetar os espaços urbanos (Quadro 2).

Quadro 2 – Fatores importantes ao se projetar os espaços urbanos.

Fonte: Arosti (2023) adaptado por autora do estudo (2025).

No contexto deste estudo, a revitalização da Praça José Adolf Assad em Manhuaçu, MG, representa um exemplo de aplicação prática desses conceitos ao propor uma intervenção que considera a experiência sensorial e emocional dos usuários como eixo central do projeto. Essa abordagem reforça o potencial das arquiteturas sensíveis como estratégia de requalificação urbana humanizada.

3. METODOLOGIA

Este estudo adota uma abordagem qualitativa com método exploratório-descritivo, estruturado como estudo de caso, tendo como objeto a revitalização da Praça José Adolf Assad, localizada no município de Manhuaçu/MG. 

O projeto foi desenvolvido a partir de um concurso promovido por meio de uma parceria entre a Prefeitura Municipal de Manhuaçu e a Faculdade do Futuro, envolvendo a participação da turma de Arquitetura e Urbanismo da faculdade. O concurso contou com várias propostas elaboradas pelos alunos do 6° período, sendo a vencedora a proposta que deu origem ao projeto, fundamentada nos princípios da neuroarquitetura e da psicoarquitetura.

A pesquisa foi estruturada em três etapas principais: diagnóstico, proposição projetual e análise pós-intervenção (Quadro 3).

Quadro 3- Etapas da estrutura da pesquisa.

Fonte: Autora do estudo (2025).

Para a seleção dos artigos que foram utilizados na fundamentação teórica do estudo, foi realizada uma busca por meio da análise de publicações científicas nas bases dados SciELO (Scientific Electronic Library) e Google Acadêmico (GA). Utilizou-se os seguintes descritores:  Neuroarquitetura; Psicoarquitetura; Arquitetura Sensorial; Espaço Público; Bem-estar Urbano; Praça José Adolf Assad.

Para compor a amostra desejada, foram aplicados filtros de inclusão, considerando: publicações em língua portuguesa e espanhol, com conteúdo temático pertinente ao objeto de estudo, e que estivessem disponíveis na íntegra e de forma gratuita nas plataformas utilizadas. 

Os critérios de exclusão contemplaram: artigos repetidos, em outros idiomas, fora do recorte temporal estabelecido ou com temática não condizente com os objetivos da pesquisa, além dos que não estavam acessíveis gratuitamente.

O intervalo de tempo adotado nesta investigação abrangeu produções acadêmicas publicadas entre 2018 e 2024 (últimos 6 anos de publicação) seguindo a prática comum de restringir a análise a publicações da última década, garantindo que os dados sejam atualizados e pertinentes.

Durante a primeira etapa da triagem dos artigos foram identificados 366 artigos na base Scielo e 987 na base GA. Com a implementação dos filtros: corte temporal (2018 a 2024), idioma português e espanhol, textos completos e área arquitetura, finalizamos a seleção na base Scielo com 6 artigos e na base GA 5 artigos, totalizando 11 artigos que compuseram o corpus de análise utilizado neste estudo.

Foi realizada uma leitura criteriosa dos títulos, resumos e textos completos dos artigos encontrados, permitindo identificar os estudos que mais dialogavam com os objetivos da pesquisa. 

A distribuição dos artigos conforme os descritores utilizados estão representados no Quadro 4 que ilustra visualmente as proporções entre os estudos selecionados e a base de pesquisa.

Quadro 4- Seleção dos artigos nas bases conforme os descritores.

Fonte: Autora do estudo (2025).

Após a leitura prévia, os 11 estudos selecionados foram categorizados, dando suporte a elaboração do Quadro 5 com os títulos, autores, anos, revista de publicação e metodologia das obras.

Quadro 5- Artigos selecionados para a realização da pesquisa. 

Fonte: Autora do estudo (2025).


Dos periódicos selecionados para compor esse estudo, seis (6) foram retirados do SciELO e cinco (5) do GA. Os artigos foram publicados nos último sete anos, portanto, entre os anos de 2018 a 2024. O Gráfico 1 mostra a distribuição dos artigos conforme ano de publicação.

Gráfico 1- Quantidade de artigos selecionados conforme data de publicação.

Fonte: Autora do estudo (2025).

A análise dos artigos resultou em sua classificação por tipo de pesquisa e área de atenção, como mostrado no Gráfico 2. 

Gráfico 2- Classificação dos artigos de acordo com o tipo de pesquisa.

Fonte: Autora do estudo (2025).

4. ESTUDO DE CASO 

4.1 Situação anterior

A Praça José Adolf Assad está localizada na baixada, em Manhuaçu/MG. Historicamente é um ponto de encontro da comunidade local, especialmente de jovens praticantes de skate. No entanto, antes da intervenção, o espaço apresentava aspectos visíveis de abandono e fragilidade urbana: a vegetação era escassa e mal distribuída, o mobiliário urbano encontrava-se degradado, a iluminação era deficiente e inexistiam espaços acolhedores de convívio (Apêndice 1).

Apesar da presença de uma pista de skate, que continuava sendo usada por moradores da região, o estado de conservação era precário, com pisos danificados e ausência de integração com o restante da praça. Isso resultava em um ambiente fragmentado, inseguro e pouco atrativo para diferentes públicos.

Havia também um evidente déficit de estímulos sensoriais e afetivos: a praça não favorecia a permanência nem a socialização, tampouco promovia experiências positivas. A falta de sombreamento, a rigidez dos elementos visuais e a baixa diversidade de usos geravam um espaço urbano monótono, afastado dos princípios de bem-estar que regem a boa arquitetura pública.

4.2  Proposta elaborada

A revitalização da praça foi fruto de um concurso acadêmico desenvolvido em parceria entre a Prefeitura Municipal de Manhuaçu e a Faculdade do Futuro, envolvendo a participação da turma de Arquitetura e Urbanismo da instituição. A proposta vencedora, aqui apresentada, foi elaborada com base nos fundamentos da neuroarquitetura e da psicoarquitetura, priorizando a criação de um ambiente urbano que gerasse conforto emocional, integração social e estímulos cognitivos positivos (Apêndice 2).

Entre os principais pontos da proposta, destacam-se (Quadro 6):

Quadro 6- Principais pontos da proposta de revitalização da Praça José Adolf Assad.

Fonte: Autora do estudo (2025).

4.3  Aplicação da Neuroarquitetura

Arosti (2023) relata que a neuroarquitetura busca compreender como estímulos ambientais, como luz, cor, forma, som e natureza, afetam o cérebro e o comportamento humano. No caso da pista MindFlow, diversos elementos foram concebidos com esse propósito (Quadro 7).

Quadro 7- Elementos da neuroarquitetura concebidos no projeto.

Fonte: Arosti (2023) adaptado por autora do estudo (2025).

4.4 Aplicação da Psicoarquitetura

A psicoarquitetura, por sua vez, se volta à experiência subjetiva do espaço. No projeto MindFlow, a pista deixou de ser apenas um equipamento esportivo para se tornar um espaço emocionalmente significativo.

A presença de zonas de foco e desafio, pintadas na pista com cores e níveis de complexidade variados, permite que os skatistas se relacionem com o espaço de forma individualizada, desafiadora e recompensadora, o que reforça o vínculo afetivo com o ambiente.

A integração com o uso social da praça foi valorizada com áreas para feiras, convivência intergeracional e observação. Isso responde à necessidade humana de pertencimento, memória e identidade, conforme defendido por Rangel e Matos (2021).

A criação de espaços de contemplação e permanência, como bancos e áreas sombreadas, valoriza o espaço como um lugar de pausa, convívio e apropriação simbólica, indo além da função esportiva e assumindo uma dimensão emocional coletiva.

5 RESULTADOS

A revitalização da praça Jose Adolf Assad e a criação da pista MindFlow geraram efeitos perceptíveis para a população de Manhuaçu. A praça voltou a ser frequentada por diferentes faixas etárias, com aumento da permanência e uso noturno.

Os skatistas relataram maior conforto e engajamento com a pista, enquanto moradores passaram a se envolver ativamente na preservação e manutenção do espaço público.

Eventos e campeonatos passaram a ser realizados com frequência, promovendo interação, cultura urbana e sentimento de orgulho coletivo.

A sensação de segurança aumentou, assim como a autoidentificação da juventude com a praça que passou a funcionar como referência simbólica na cidade.

Esses resultados reforçam que a aplicação dos princípios da neuroarquitetura e da psicoarquitetura pode gerar transformações reais e profundas em espaços urbanos — promovendo saúde mental, pertencimento social e reconexão entre indivíduo, corpo e cidade.

6 CONCLUSÃO

O projeto MindFlow (Fluxo da Mente), não apenas revitalizou uma pista de skate, ele ressignificou um espaço público por meio da sensibilidade projetual. A aplicação conjunta da neuroarquitetura e da psicoarquitetura demonstrou ser uma estratégia eficaz para transformar ambientes urbanos deteriorados em territórios de bem-estar, expressão e vínculo social.

A Praça José Adolf Assad tornou-se, assim, um modelo de sucesso na humanização do espaço urbano, onde o corpo, a mente e a coletividade se encontram em harmonia. Com a comprovação dos resultados positivos na rotina da comunidade, o caso reafirma a importância de projetos públicos que priorizam as experiências humanas e sensoriais como parte fundamental do planejamento urbano contemporâneo. A proposta visou promover um novo significado para a praça, resgatando seu valor simbólico, emocional e funcional na paisagem urbana de Manhuaçu. A união entre os fundamentos científicos da arquitetura com sensibilidade social permitiu criar um espaço acessível, bonito, saudável e, acima de tudo, humano.

APÊNDICE  1

Fotos tiradas antes da intervenção 15/07/2023:

APÊNDICE 2

Imagens do projeto:

APÊNCICE 3

Fotos tiradas depois da intervenção 05/07/2024:

Fonte: https://www.portalcaparao.com.br/noticias/visualizar/42735/concurso -apresentaanteprojeto-de-revitalizacao-da-pista-de-skate- de-manhuacu

REFERÊNCIAS:

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Arosti, L.R. Criando Memórias: Neuroarquitetura aplicada a um Centro Artístico e Tecnológico. Repositório do Centro Universitário Sagrado Coração, 2023. Disponível em: https://repositorio.unisagrado.edu.br/jspui/handle/handle/4052. Acesso em: 02 maio 2025.

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Acesso em: 08 jun. 2025.

Ceballos, D.C.; Delgado, A. Urbanismo táctico: alternativa para mitigar impactos en la movilidad de la Galería Central de Palmira. Revista M, v. 19, n. 1, p. 112–125, 2022. Disponível em: https://revistas.unilibre.edu.co/index.php/m/article/view/1118. Acesso em: 08 jun. 2025.

Paiva, A. 12 Princípios da neuroarquitetura e do neuro urbanismo. Neuroau, 2018. Disponível em: https://www.neuroau.com/post/principios. Acesso em: 02 maio 2025.

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Viera, A.L.B. ALBE: Aplicação dos Conceitos da Neuroarquitetura no Ambiente Corporativo. Repositório da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul – Faculdade de Engenharia, Arquitetura e Urbanismo e Geografia, 2022. Disponível em: https://repositorio.ufms.br/handle/123456789/5502. Acesso em: 08 jun. 2025.

Villarouco, V.; Santiago, Z.; Paiva, M.M.; Nascimento, P.; Medeiros, R. Neuroergonomia, neuroarquitetura e ambiente construído – tendência futura ou presente? Revista da PUC-Rio – Departamento de Artes & Design | PPGDesign, LEUI | Laboratório de Ergodesign e Usabilidade de Interfaces, n. 2, v. 8, jul.–dez. 2020. Disponível em: https://periodicos.pucrio.br/revistaergodesign-hci/article/view/1459. Acesso em: 08 jun. 2025.

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