A INFECÇÃO PELO VÍRUS HIV NA TERCEIRA IDADE: UM PROBLEMA DE SAÚDE PÚBLICA

HIV INFECTION IN OLD AGE: A PUBLIC HEALTH PROBLEM

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202511202047


Paola Nogueira Alexandre1
Samir Silva Tuffi Alli Monteiro2
Prof. Dr. Luiz Henrique Conde Sangenis3


RESUMO 

Introdução: A sexualidade na velhice continua sendo um assunto pouco abordado socialmente, principalmente por causa do preconceito e da falta de visibilidade. Apesar da redução dos coeficientes de mortalidade por AIDS em quase todas as faixas etárias na última década, a população com 60 anos ou mais constitui uma exceção alarmante. Objetivo: Compreender as causas do aumento significativo dos diagnósticos de infecção pelo HIV na terceira idade, bem como descrever as formas clínicas e impactos que podem acarretar na qualidade de vida do idoso. Metodologia: Foi realizada uma revisão integrativa utilizando artigos científicos publicados nos últimos cinco anos, nos idiomas português e inglês nas bases de dados SciELO e PubMed. Resultados: Quarenta e um artigos foram encontrados empregando os critérios metodológicos, porém, apenas onze se enquadraram na proposta do estudo. Conclusão: O crescimento dos casos de HIV entre idosos representa um desafio novo e complexo para a saúde pública, demandando uma atenção mais ampla e específica. A análise dos dados revelou deficiências nas políticas de prevenção, diagnóstico e cuidado direcionadas a essa população.

Palavras-chave: Síndrome da Imunodeficiência Adquirida; Idoso; Sexualidade; Sinais e Sintomas; Prevenção e Controle.

ABSTRACT 

Introduction: Sexuality in old age remains a topic little discussed socially, mainly due to prejudice and lack of visibility. Despite the reduction in AIDS mortality rates in almost all age groups in the last decade, the population aged 60 and over constitutes an alarming exception. Objective: To understand the causes of the significant increase in HIV infection diagnoses in old age, as well as to describe the clinical forms and impacts they can have on the quality of life of older adults. Methodology: An integrative review was conducted using scientific articles published in the last five years, in Portuguese and English, in the SciELO and PubMed databases. Results: Forty-one articles were found using the methodological criteria; however, only eleven met the study proposal. Conclusion: The increase in HIV cases among older adults represents a new and complex challenge for public health, demanding broader and more specific attention. Data analysis revealed deficiencies in prevention, diagnosis, and care policies directed at this population.  

Keywords: Acquired Immunodeficiency Syndrome; Elderly; Sexuality; Signs and Symptoms; Prevention and Control. 

RESUMEN 

Introducción: La sexualidad en la vejez sigue siendo un tema poco debatido socialmente, principalmente debido a prejuicios y falta de visibilidad. A pesar de la reducción de las tasas de mortalidad por SIDA en casi todos los grupos de edad en la última década, la población de 60 años o más constituye una excepción alarmante. Objetivo: Comprender las causas del aumento significativo de los diagnósticos de infección por VIH en la vejez, así como describir las formas clínicas y el impacto que pueden tener en la calidad de vida de los adultos mayores. Metodología: Se realizó una revisión integrativa utilizando artículos científicos publicados en los últimos cinco años, en portugués e inglés, en las bases de datos SciELO y PubMed. Resultados: Se encontraron cuarenta y un artículos que utilizaban los criterios metodológicos; sin embargo, solo once cumplieron con la propuesta del estudio. Conclusión: El aumento de casos de VIH entre los adultos mayores representa un nuevo y complejo desafío para la salud pública, que exige una atención más amplia y específica. El análisis de datos reveló deficiencias en las políticas de prevención, diagnóstico y atención dirigidas a esta población.  

Palabras clave: Síndrome de Inmunodeficiencia Adquirida; Adultos Mayores; Sexualidad; Signos y Síntomas; Prevención y Control. 

INTRODUÇÃO 

O vírus da imunodeficiência humana, ou em inglês, Human Immunodeficiency Virus (HIV) é o agente etiológico da Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (AIDS), caracterizando-se por comprometer o sistema imunológico, responsável pela defesa do organismo contra agentes infecciosos. As principais células-alvo do HIV são os linfócitos T CD4+, fundamentais na resposta imune. O vírus invade essas células, integra seu material genético ao DNA celular e se replica, promovendo sua destruição e a disseminação progressiva da infecção (RACHID; SCHECHTER, 2017; MASENGA et al., 2023). 

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), considera-se idosa a população com 65 anos ou mais em países desenvolvidos e 60 anos ou mais em países em desenvolvimento. A OMS também promove o conceito de envelhecimento saudável, o qual compreende não apenas a ausência de doenças, mas também a manutenção da autonomia, bem-estar físico, mental e social (BRASIL, 2020). 

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), entre 2010 e 2022, houve um aumento de 57,4% no número de pessoas idosas no Brasil, evidenciando um processo acelerado de envelhecimento populacional. Essa transição demográfica tem trazido à tona discussões antes consideradas tabus, como a sexualidade na terceira idade. No contexto mundial, estima-se que, em 2023, aproximadamente 39,9 milhões de pessoas viviam com o HIV. Desde o início da pandemia, cerca de 88,4 milhões de indivíduos foram infectados pelo vírus, e 42,3 milhões morreram em decorrência de doenças relacionadas à AIDS (BRASIL, 2024). 

A sexualidade na velhice ainda é pouco discutida socialmente, em grande parte devido ao preconceito e à invisibilização do tema. Durante muito tempo, essa temática foi abordada de maneira superficial, desconsiderando sua importância para o bem-estar e a qualidade de vida dos idosos (SOUZA JÚNIOR et al., 2023). Discutir a sexualidade na terceira idade é, portanto, essencial diante das transformações sociais atuais e da necessidade de promover um envelhecimento mais digno (BRASIL, 2020). 

Nos últimos anos, o número de casos de HIV entre pessoas idosas tem aumentado significativamente no Brasil. Segundo o último Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde, embora a maior concentração de casos de AIDS entre 1980 e junho de 2024 tenha ocorrido na faixa etária de 25 a 39 anos, com 68,4% do total, com predominância do sexo masculino), e observou-se um crescimento de 33,9% nos casos entre indivíduos com 60 anos ou mais, ao se comparar os anos de 2015 e 2023, de 2.216 para 2.968 casos (BRASIL, 2024). O envelhecimento acarreta mudanças no sistema imunológico, tornando os idosos mais suscetíveis à progressão do HIV. Além disso, os sinais e sintomas da infecção podem ser confundidos com manifestações comuns do processo de envelhecimento, o que dificulta o diagnóstico precoce e o início oportuno do tratamento (GOLDMAN; SCHAFER, 2022). 

Embora os coeficientes de mortalidade por AIDS tenham diminuído em quase todas as faixas etárias ao longo da última década, a população com 60 anos ou mais representa uma exceção preocupante. Nessa faixa etária, observou-se um aumento de 24,4% na taxa de mortalidade, passando de 4,6 óbitos por 100 mil habitantes em 2013 para 5,8 em 2023, sendo esse crescimento mais acentuado entre as mulheres (34,6%) do que entre os homens (19,7%) (BRASIL, 2024). 

As transformações demográficas e comportamentais decorrentes do envelhecimento populacional têm delineado um novo perfil epidemiológico, no qual indivíduos idosos estão cada vez mais expostos a riscos de infecção pelo HIV (SANTOS et al., 2021). Tradicionalmente associada à população jovem, a infecção pelo HIV entre idosos é frequentemente negligenciada, o que compromete tanto a prevenção quanto o diagnóstico e o tratamento precoce (NIEROTKA; FERRETTI, 2022). Sendo assim, esse estudo objetivou compreender as causas do aumento significativo dos diagnósticos de infecção pelo HIV na terceira idade, bem como descrever as formas clínicas e impactos que podem acarretar na qualidade de vida do idoso. 

METODOLOGIA 

Trata-se de uma revisão narrativa da literatura, cujo objetivo é abordar aspectos relacionados à coinfecção pelo vírus HIV em pessoas idosas. Foram estabelecidos como critérios de recorte temporal publicações dos últimos cinco anos, nos idiomas português e inglês. 

As fontes de pesquisa incluíram bases de dados e bibliotecas científicas como PubMed e SciELO e, além de livros e materiais disponibilizados pelo Ministério da Saúde do Brasil. A estratégia de busca utilizou os seguintes descritores controlados, de acordo com o DeCS e o MeSH: HIV; Síndrome da Imunodeficiência Adquirida; Idoso; Sexualidade; Comportamento Sexual; Sinais e Sintomas; Epidemiologia; Saúde do Idoso; Prevenção e Controle; bem como seus respectivos textos em inglês. Os filtros aplicados nas bases incluíram: “texto completo gratuito”, “texto completo” e “revisões”. 

Os critérios de inclusão adotados foram: artigos que abordem a infecção relacionada ao HIV/AIDS, estudos que tratem da epidemiologia da infecção por HIV, e pesquisas com dados quantitativos ou qualitativos que contribuam para a compreensão do perfil epidemiológico e das manifestações clínicas da condição. Os critérios de exclusão foram artigos duplicados, estudos que mencionem coinfecção, que não apresentarem dados clínicos ou epidemiológicos relevantes e publicações focadas exclusivamente em aspectos clínicos do HIV, sem abordar infecções associadas. 

A seleção dos estudos será realizada em duas etapas. Inicialmente, dois avaliadores farão a leitura dos títulos e resumos de forma independente, com base nos critérios estabelecidos. Os artigos que atenderem aos critérios de inclusão serão lidos na íntegra. Após essa leitura, somente os estudos que preencherem todos os critérios de elegibilidade serão incluídos na análise final. 

RESULTADOS E DISCUSSÃO  

Com a proposta de analisar a coinfecção pelo vírus HIV em pessoas idosas, utilizando os descritores estabelecidos na metodologia da pesquisa, foram identificados artigos 41 nas bases de dados consultadas. Após a leitura dos resumos e a aplicação dos critérios de inclusão e exclusão, vinte e dois (30) artigos foram descartados por não atenderem aos critérios estabelecidos. Dessa forma, onze (11) estudos foram selecionados e incluídos na análise final deste trabalho, conforme detalhado na Tabela 1. 

Tabela 1 – Artigos inclusos na pesquisa

Autor Título Periódico Objetivo Principais resultados encontrados 
Sarria et al., (2024) Perfil clínico epidemiológico dos pacientes idosos com HIV atendidos em um centro de atendimento especializado de Vitória, ES na era pós-HAART Revista Brasileira de Pesquisa em Saúde, v. 26, Supl 3, p. 9-16, 2024 Descrever o perfil clínico e epidemiológico de pacientes idosos infectados por HIV/aids na era pós-HAART acompanhados em um centro de referência O envelhecimento da população HIV/aids com o advento da HAART traz  novos  desafios  aos  serviços  de  saúde,  sendo  necessária  avaliação  geriátrica  ampla e intervenções individualizadas  
Vergara et al., (2023) HIV em idosos: uma abordagem geral Revista Contemporânea, [S. l.], v. 3, n. 12, p. 30789–30800, 2023 Investigar as características epidemiológicas, fatores de risco, desafios no diagnóstico e tratamento, bem como as consequências psicossociais associadas à infecção por HIV nessa população Prevalência, os fatores de risco específicos para essa faixa etária, as barreiras ao diagnóstico precoce e os desafios no manejo clínico 
Kehler et al., (2022) Frailty in older people living with HIV: current status and clinical management BMC Geriatr., v, 22, v. 1, 2022 Atualizar os prestadores de cuidados sobre os aspectos clínicos e científicos da fragilidade, que afeta uma proporção crescente de idosos vivendo com HIV O conhecimento da fragilidade, cada vez mais reconhecida como um importante marcador da idade biológica, ajudará a compreender a diversidade do estado clínico que ocorrem nesses casos 
Pereira et al., (2022) Fatores associados à vulnerabilidade de idosos ao HIV/ AIDS: revisão integrativa. Espaço para a Saúde, [S. l.], v. 23, 2022 Conhecer os fatores associados à vulnerabilidade de idosos ao HIV/Aids Os principais fatores associados à vulnerabilidade de idosos ao HIV/Aids foram a não utilização do preservativo, a falta de conhecimento da doença e a invisibilidade da sexualidade do idoso perante a sociedade 
Jaqua et al., (2022) HIV -Associated Conditions in Older Adults Cureus, v. 14, n. 12, e32661, 2022 Investigar as doenças e condições crônicas mais comuns associadas ao envelhecimento e ao HIV Atendimento médico abrangente e apoio psicossocial por meio de uma equipe interdisciplinar para auxiliar no tratamento 
Brown e Adeagbo (2021) HIV and Aging: Double Stigma Curr Epidemiol Rep., v. 8, n. 2, p. 72-78, 2021 Analisar como o estigma relacionado ao HIV e ao envelhecimento afeta pessoas idosas vivendo com HIV, com foco no isolamento social e na falta de apoio O estigma interseccional entre HIV e idade é complexo e impacta a saúde mental e sexual; intervenções específicas são necessárias para reduzir esse estigma 
Vieira et al., (2021) Tendência de infecções por HIV/Aids: aspectos da ocorrência em idosos entre 2008 e 2018 Escola Anna Nery, v. 25, n. 2, p. e20200051, 2021 Analisar o perfil sociodemográfico, clínico e epidemiológico dos casos de HIV/Aids em idosos no estado do Piauí Verificou-se tendência de crescimento dos casos de HIV/Aids em idosos, no estado do Piauí, ao longo dos últimos 10 anos 
Machado et al., (2020)  AIDS na terceira idade: fatores associados ao diagnóstico tardio e medidas de enfrentamento Saúde Coletiva (Barueri), [S. l.], v. 10, n. 59, p. 4474–4481, 2020 Discutir a AIDS na população idosa, como uma realidade que vem crescendo e estratégias para o seu enfrentamento Dentro do números de infecções por HIV, esse é o público  alvo  que  mais  tem  merecido  atenção do Ministério da Saúde 
Santos et al., (2020) Análise temporal da incidência de HIV/aids em idosos no período de 2007 a 2020 Revista Brasileira de Geriatria e Gerontologia, v. 24, n. 5, p. e220005, 2021 Analisar a tendência temporal da taxa de incidência de casos novos de HIV/aids em idosos, de 2007 a 2020, no estado da Bahia, na Região Nordeste e no Brasil Deve-se atentar ao aumento de casos em indivíduos na terceira idade buscando desmistificar tabus a respeito da sexualidade dos idosos  
Aguiar et al., (2020) Idosos vivendo com HIV – comportamento e conhecimento sobre sexualidade: revisão integrativa Ciência & Saúde Coletiva, v. 25, n. 2, 2020 Identificar e analisar a produção científica acerca do comportamento e conhecimento sobre sexualidade de idosos que vivem com HIV O conhecimento sobre sexualidade entre os idosos que vivem com HIV ainda é muito reduzida 
Clós Mahmud et al., (2020) O HIV em idosos: atuação de médicos da Atenção Primária à Saúde em Porto Alegre/RS, Brasil PAJAR – PanAmerican Journal of Aging Research, [S. l.], v. 8, n. 1, p. e34081, 2020 Descrever a atuação dos médicos de família e comunidade (MFCs) e dos generalistas na prevenção primária e secundária em relação à infecção pelo HIV na população idosa atendida pela Atenção Primária à Saúde (APS) do município de Porto Alegre/RS Não é uma rotina para os médicos da AB realizarem ações de prevenção primária e secundária referente a infecção pelo HIV em idosos 

Fonte: os autores (2025) 

A presente revisão integrativa permitiu identificar e organizar os principais achados da literatura científica acerca do aumento dos diagnósticos de HIV na terceira idade, considerando tanto os aspectos epidemiológicos quanto os fatores clínicos, sociais e psicossociais envolvidos. Para uma análise coerente e articulada, os artigos foram agrupados em cinco eixos temáticos:  aumento da incidência de HIV em idosos; fatores associados à vulnerabilidade dessa população; desafios no diagnóstico e estigmas sociais; aspectos clínicos, fragilidade e comorbidades; e  impactos psicossociais e qualidade de vida.  Essa análise possibilitou a compreensão tanto do aumento no número de casos quanto dos diversos fatores que contribuem para essa situação, proporcionando uma perspectiva mais abrangente sobre o envelhecimento com HIV.  A elevação no número de diagnósticos de HIV entre pessoas idosas tem se configurado como um fenômeno preocupante no cenário epidemiológico brasileiro. Vieira et al., (2021), observaram uma tendência de crescimento dos casos de HIV/Aids em idosos no estado do Piauí entre os anos de 2008 e 2018, refletindo uma mudança no perfil etário da epidemia. Ainda com o mesmo propósito, Santos et al., (2020) identificaram um aumento consistente na taxa de incidência de novos casos em indivíduos acima de 60 anos, tanto na Bahia quanto em outras regiões do país, no período de 2007 a 2020. Esses dados evidenciam a necessidade de romper com estigmas e tabus relacionados à sexualidade na terceira idade, frequentemente negligenciada em campanhas de prevenção. Ainda que os idosos representem um grupo cada vez mais afetado pela infecção, ainda são alvo de pouca atenção nas políticas públicas, o que contribui para o crescimento silencioso da epidemia nesse segmento populacional (MACHADO et al., 2020). 

Diversos fatores contribuem para a crescente vulnerabilidade da população idosa à infecção pelo HIV, como a não utilização de preservativos durante as relações sexuais, a falta de conhecimento sobre a doença e a invisibilidade social da sexualidade na velhice são elementos centrais que ampliam o risco de exposição ao vírus. Observa-se ainda pouco conhecimento por parte dos idosos a respeito da própria sexualidade e prevenção, indicando falhas significativas nas estratégias educativas voltadas a esse público. Cita-se ainda a ausência de políticas públicas de saúde voltadas para uma abordagem sistemática do tema, além de práticas na Atenção Primária que não incluem prevenção e diagnóstico, evidenciando uma lacuna assistencial e educativa que favorece a perpetuação da epidemia entre os mais velhos (CLÓS MAHMUD et al., 2020; AGUIAR et al., 2020; PEREIRA et al., 2022). 

Os principais desafios no combate ao HIV na terceira idade incluem as dificuldades no diagnóstico precoce e os preconceitos sociais ligados à infecção. Vergara et al., (2023) destacam que a baixa suspeita clínica pelos profissionais de saúde, a falta de informação para a população idosa e a percepção comum de que o envelhecimento implica em abstinência sexual são fatores que dificultam a identificação precoce da doença, o que pode atrasar o início do tratamento. Nesse contexto, Brown e Adeagbo (2021) indicam que a interseção de preconceitos ligados à idade e à sorologia positiva é uma causa de isolamento social, aumento de problemas associados à saúde mental e diminuição na procura por cuidado e suporte. Esses estigmas não apenas tornam invisíveis as vivências sexuais e afetivas dos idosos, mas também os excluem de ações educativas e preventivas, perpetuando assim o ciclo de vulnerabilidade. 

O envelhecimento de pessoas vivendo com HIV tem trazido à tona novos desafios clínicos, especialmente relacionados à fragilidade e ao aumento das comorbidades. A prevalência de doenças crônicas associadas, como disfunções metabólicas, cardiovasculares e neurocognitivas, que agravam a complexidade do cuidado e exigem uma atuação interdisciplinar para garantir um tratamento eficaz e humanizado. Os idosos soropositivos apresentam perfis clínicos que demandam avaliações geriátricas amplas e planos de cuidado individualizados, reforçando a necessidade de integração entre as especialidades médicas e os serviços de saúde. Tais constatações ressaltam a importância de reconhecer as particularidades do envelhecimento com HIV para promover intervenções mais eficazes e centradas no paciente (KEHLER et al., 2022; JAQUA et al., 2022; SARRIA et al., 2024). 

As consequências da infecção por HIV em idosos ultrapassam as manifestações clínicas, afetando de forma significativa a esfera psicossocial e a qualidade de vida. Brown e Adeagbo (2021) destacam o estigma duplo ligado à idade e à soropositividade, que pode resultar em isolamento social, perda de relacionamentos afetivos e negação da própria sexualidade. Esses fatores afetam diretamente o bem-estar emocional e a adesão ao tratamento. De acordo com Jaqua et al., (2022) é preciso ofertar um atendimento integral que aborde não só o tratamento das condições clínicas, mas também o suporte psicossocial contínuo, facilitado por equipes interdisciplinares. Por fim, Vergara et al., (2023) enfatizam os efeitos psicossociais da infecção, incluindo depressão, ansiedade e sentimentos de culpa ou vergonha, frequentemente exacerbados pela ausência de acolhimento nos serviços de saúde. Essas evidências sugerem que a preservação da qualidade de vida de idosos com HIV requer estratégias integradas que combinem atendimento clínico, apoio emocional e luta contra o estigma. 

Os resultados indicam que o crescimento dos casos de HIV entre idosos é um fenômeno com múltiplas causas, sendo principalmente afetado por fatores sociais, culturais e estruturais que permeiam o processo de envelhecimento. As maiores vulnerabilidade da população idosa nesse problema são a não visibilidade da sexualidade na terceira idade, da ausência de informações sobre métodos de prevenção e da falta de estratégias específicas nas políticas de saúde públicas. Outros pontos relevantes nos achados são o diagnóstico tardio, a existência de comorbidades e os efeitos emocionais associados à doença, que exigem um atendimento integral e interdisciplinar, associando abordagem clínica e promoção da qualidade de vida. Desta forma, deve-se implementar ações educativas, campanhas inclusivas e formação profissional direcionadas às particularidades dos idosos que vivem com HIV, para assegurar um atendimento humanizado, acolhedor e com foco na dignidade da pessoa na terceira idade.  

CONCLUSÃO  

Esse estudo buscou compreender as causas do aumento significativo dos diagnósticos de infecção pelo HIV na terceira idade, bem como descrever as formas clínicas e impactos que podem acarretar na qualidade de vida do idoso. Pode-se afirmar que o aumento dos casos de HIV entre idosos configura um desafio emergente e complexo para a saúde pública, exigindo atenção ampliada e específica. A partir dos dados analisados, foram observadas fragilidades nas políticas de prevenção, diagnóstico e cuidado voltadas a essa população. É imprescindível considerar os determinantes sociais, clínicos e psicossociais que envolvem o envelhecimento com HIV, promovendo ações integradas de educação em saúde que combatam o estigma e, ao mesmo tempo, oferte serviços pautados na humanização e no acolhimento deste público, onde estratégias interdisciplinares são essenciais para garantir a qualidade de vida e o respeito à dignidade dos idosos soropositivos. 

REFERÊNCIAS 

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1Fundação Oswaldo Aranha.
2Fundação Oswaldo Aranha.
3Fundação Oswaldo Aranha.