A MUSICALIZAÇÃO NA EDUCAÇÃO INFANTIL: UM OLHAR A PARTIR DA OBRA DE TECA ALENCAR DE BRITO

MUSICAL EDUCATION IN EARLY CHILDHOOD: AN APPROACH BASED ON THE WORK OF TECA ALENCAR DE BRITO

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ar10202511191007


Giovana Inês dos Santos¹
Ieda Gonçalves Nunes²
Jamilly Aparecida Costa Borba³
Leonardo da Silva Felice⁴


RESUMO: A musicalização tem se consolidado como prática essencial na educação infantil, contribuindo significativamente para o desenvolvimento integral da criança. Este artigo tem como objetivo analisar os benefícios da musicalização na educação infantil, considerando aspectos cognitivos, motores, sociais e emocionais, sob o olhar da obra de Teca Alencar de Brito, e discute como tais benefícios emergem de experiências sonoras e expressivas. A educação infantil, historicamente marcada por práticas assistencialistas, passou a ser reconhecida como etapa fundamental da educação básica a partir da Constituição de 1988 e da LDB de 1996, que garantiram o direito ao desenvolvimento pleno. Nesse contexto, a música assume papel central, dialogando com a ludicidade e com as diversas linguagens presentes na infância.  A musicalização favorece a atenção, a memória, a consciência fonológica, a coordenação motora, a socialização e a expressão afetiva. Este estudo, desenvolvido por meio de revisão bibliográfica, busca compreender como a musicalização contribui para o processo de ensino-aprendizagem e para a formação integral da criança. Conclui-se que a música, quando trabalhada de forma intencional, sensível e contextualizada, amplia repertórios culturais e cognitivos, favorece vínculos sociais e fortalece a autonomia infantil, configurando-se como prática pedagógica indispensável na educação infantil contemporânea.

PALAVRAS-CHAVE: Musicalização infantil. Desenvolvimento integral. Educação infantil.

ABSTRACT: Musicalization has become an essential practice in early childhood education, contributing significantly to the child’s overall development. This article analyzes the benefits of musicalization in early childhood, considering its cognitive, motor, social, and emotional impacts, grounded in the work of Teca Alencar de Brito. It discusses how these benefits emerge from sonic, playful, and expressive experiences integrated into school routines. Early childhood education, historically marked by assistentialist approaches, came to be recognized as a fundamental stage of basic education after the 1988 Brazilian Constitution and the 1996 Law of Guidelines and Bases (LDB), which ensured children’s right to full development. In this context, music assumes a central role by dialoguing with playfulness and the multiple languages of childhood. Musicalization enhances attention, memory, phonological awareness, motor coordination, socialization, and affective expression. Developed through a literature review, this study seeks to understand how music contributes to the teaching-learning process and to the child’s holistic development. It concludes that when music is approached intentionally, sensitively, and contextually, it broadens cultural and cognitive repertoires, strengthens social bonds, and promotes children’s autonomy, establishing itself as an indispensable pedagogical practice in contemporary early childhood education.

KEYWORDS: early childhood musicalization; holistic development; early childhood education..

1. INTRODUÇÃO

A educação infantil constitui a primeira etapa da educação básica e desempenha papel fundamental na formação integral das crianças de zero a cinco anos. Com a promulgação da Constituição Federal de 1988, a LDB de 1996 e as Diretrizes Curriculares Nacionais, essa etapa passou a ser reconhecida como direito da criança e dever do Estado, rompendo com uma longa trajetória de caráter assistencialista. Desde então, a educação infantil vem sendo orientada por concepções que valorizam a infância como fase marcada pela curiosidade, pela imaginação e pela necessidade de explorar o mundo por meio de múltiplas linguagens, entre elas a linguagem musical. Nesse contexto, a música se destaca como elemento que acompanha o desenvolvimento humano e oferece possibilidades ricas de expressão, interação e aprendizagem.

A musicalização, entendida como processo de inserção da criança no universo sonoro, envolve escuta, movimento, percepção, criação e experimentação. Autores como Penna (2010), Ilari (2011) e Swanwick (2003) apontam que a música contribui para a construção de significados, mobilizando aspectos cognitivos, motores, sociais e emocionais. A música vivenciada de forma lúdica e significativa favorece a sensibilidade, a criatividade, a imaginação e a autonomia, características essenciais na educação infantil. Com isso, a musicalização passa a ser reconhecida não apenas como manifestação artística, mas como linguagem constitutiva da infância, capaz de integrar diferentes dimensões do desenvolvimento.

Diante dessa perspectiva, a presente pesquisa busca responder à seguinte questão: quais são os benefícios da musicalização na educação infantil? A pergunta surge da percepção de que, embora a musicalização esteja presente em muitas instituições, ainda é necessário compreender seus impactos no desenvolvimento infantil e sua relevância como prática pedagógica. A justificativa fundamenta-se na crescente valorização da música nos documentos oficiais e na necessidade de fortalecer práticas que respeitem a infância, promovendo experiências sensíveis, criativas e significativas. Além disso, a musicalização se alinha às demandas contemporâneas da educação infantil, que buscam integrar expressão, ludicidade e aprendizagem.

Para aprofundar essa análise, este estudo toma como eixo central a obra Música na Educação Infantil de Teca Alencar de Brito (2003), autora cuja abordagem sensível, corporal e expressiva da musicalização se destaca no campo da educação musical. Brito defende que a música deve ser vivenciada pela criança por meio da exploração, da improvisação e do gesto, rompendo com concepções tecnicistas e aproximando a musicalização das características próprias da infância. Ao dialogar com autores clássicos, como Dalcroze, Orff e Kodály, e contemporâneos, como Penna, Ilari e Swanwick, a obra de Brito oferece um panorama consistente que fundamenta a compreensão da musicalização como linguagem essencial na formação integral.

A metodologia utilizada consiste em uma revisão bibliográfica, permitindo analisar obras referenciais da educação musical e documentos normativos que orientam a prática pedagógica na educação infantil, como a LDB, as DCNEI e a BNCC. Essa abordagem possibilita identificar convergências entre autores, compreender as contribuições teóricas sobre musicalização e analisar de que maneira essas concepções se articulam ao desenvolvimento infantil. Assim, esta introdução estabelece o percurso do trabalho, que tem como objetivo geral analisar os benefícios da musicalização na educação infantil sob o olhar fundamentado na obra de Teca Alencar de Brito. Como objetivos específicos, compreender suas contribuições cognitivas, motoras e socioemocionais no contexto da primeira infância. Dessa forma, a pesquisa busca evidenciar o papel da musicalização como prática pedagógica indispensável ao processo educativo.

2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

2.1 A CONTRIBUIÇÃO DE TECA ALENCAR DE BRITO PARA A MUSICALIZAÇÃO NA EDUCAÇÃO INFANTIL

A obra “Música na Educação Infantil”, de Teca Alencar de Brito (2003), é um dos referenciais mais importantes para compreender a musicalização como linguagem fundamental no desenvolvimento da criança pequena. A autora, reconhecida por sua atuação na área da educação musical, articula em seu livro fundamentos teóricos, reflexões metodológicas e experiências práticas, apresentando uma visão sensível e profunda da música na infância. Seu trabalho dialoga com diferentes correntes pedagógicas e com educadores musicais renomados, construindo um panorama abrangente e contemporâneo sobre o papel da música na formação humana.

Logo no início da obra, Brito destaca que a musicalização deve ser entendida como parte integrante da formação integral da criança, e não como atividade suplementar ou meramente recreativa. Para a autora, a música é uma forma de expressão, comunicação e construção de significado, que acompanha o desenvolvimento desde os primeiros anos de vida. Esses fundamentos sustentam sua defesa de que a educação infantil deve oferecer experiências musicais contínuas, intencionais e respeitosas, que dialoguem com a sensibilidade e com o modo próprio de aprendizagem da criança.

A autora enfatiza que o livro tem como objetivo principal apresentar aos educadores caminhos possíveis para inserir a musicalização de forma significativa no cotidiano escolar. Assim, ela discute não apenas fundamentos teóricos, mas também propõe atividades, reflexões e práticas que articulam corpo, som, movimento e expressão. Brito busca mostrar que a música não se resume a cantar ou decorar canções, mas envolve explorar, experimentar, improvisar e criar com sons, de modo que a criança possa construir sua própria relação com o universo musical.

No campo cognitivo, Brito evidencia que a musicalização favorece habilidades essenciais para o desenvolvimento intelectual da criança. O contato com ritmos, melodias e padrões sonoros estimula processos mentais como atenção, concentração, memória e organização temporal. Esses elementos contribuem diretamente para a capacidade de raciocínio lógico e para a percepção auditiva refinada, favorecendo aprendizagens posteriores. Para a autora, a música funciona como um conjunto sofisticado de estímulos cognitivos que potencializam a construção do conhecimento.

Ainda no âmbito cognitivo, a autora destaca a importância da consciência fonológica, amplamente fortalecida pelo trabalho musical. Brincadeiras com rimas, repetições sonoras, variações melódicas e exploração de contrastes auditivos ampliam a percepção da estrutura da linguagem verbal. Assim, Brito demonstra que a musicalização contribui também para o processo de alfabetização, auxiliando a criança a identificar sons, sílabas, acentos e unidades rítmicas que se relacionam com o sistema de escrita. A música, portanto, não apenas acompanha a alfabetização: ela prepara o caminho para ela.

Em relação ao desenvolvimento motor, Brito enfatiza que o corpo é o primeiro instrumento musical da criança. Inspirada em concepções que valorizam a expressão corporal, como as de Dalcroze, a autora defende que aprender música envolve necessariamente movimentar-se, explorar gestos e vivenciar ritmos corporalmente. Atividades como percussão corporal, jogos rítmicos, danças e brincadeiras cantadas fortalecem a coordenação ampla e fina, o equilíbrio, a noção espacial e o domínio do esquema corporal, elementos indispensáveis ao desenvolvimento psicomotor.

Além disso, Brito destaca que o movimento possibilita que a criança compreenda a música não apenas de forma auditiva, mas sensorial e integrada. O corpo organiza o ritmo, estrutura o tempo e produz significados. Dessa forma, as propostas apresentadas pela autora mostram que a musicalização contribui de maneira profunda para a maturidade motora, preparando a criança para desafios posteriores, como a escrita, os jogos simbólicos e a autonomia corporal.

No aspecto social, Brito ressalta que a música promove vínculos e favorece a convivência. Atividades coletivas como rodas de canto, improvisações em grupo, diálogos sonoros e apresentações permitem que as crianças criem laços afetivos, desenvolvam atitudes de cooperação, aprendam a ouvir o outro e compreendam o valor da participação coletiva. A música, nesse sentido, se torna mediadora de relações, fortalecendo a construção da sociabilidade infantil.

Em relação ao desenvolvimento emocional, a autora evidencia que a música é um meio privilegiado de expressão dos sentimentos. Sons, gestos, movimentos e ritmos permitem que a criança organize emoções, expresse sensações internas e dê forma simbólica às próprias experiências. Brito destaca que oferecer ambientes sensíveis e acolhedores para essas expressões fortalece a autoestima, a autoconfiança e a identidade da criança, permitindo que ela desenvolva uma relação saudável com suas emoções.

Outro ponto fundamental discutido pela autora é o papel do educador na musicalização. Brito enfatiza que o professor não precisa ser músico profissional, mas deve ser um mediador sensível, atento e disponível para vivenciar experiências sonoras com as crianças. Ela reforça que o educador deve planejar intencionalmente, observar as expressões musicais espontâneas, criar ambientes de exploração sonora e compreender a música como linguagem legítima da infância. Dessa forma, o professor se torna facilitador de vivências profundas, criativas e significativas.

Por fim, Brito critica práticas tradicionais que limitam a música a repetições mecânicas de canções prontas ou ao uso da música apenas em festas escolares. Em contraponto, a autora defende uma musicalização viva, investigativa e participativa, na qual a criança explore sons, crie possibilidades musicais e participe ativamente das atividades. Conclui-se, assim, que sua obra apresenta contribuições essenciais para compreender a musicalização como prática pedagógica indispensável na educação infantil, reafirmando que a música promove aprendizagens amplas, integradas e humanizadoras.

2.2 EDUCAÇÃO INFANTIL: Aspectos históricos e pedagógicos

A educação infantil corresponde à primeira etapa da educação básica e tem como principal função assegurar às crianças de zero a cinco anos experiências que favoreçam o desenvolvimento integral. Historicamente, sua origem no Brasil esteve associada a práticas assistencialistas. As primeiras creches, fundadas no final do século XIX e início do século XX, tinham o propósito de atender filhos de trabalhadores e funcionavam mais como instituições de guarda do que propriamente como espaços de aprendizagem (KISHIMOTO, 2010). Nesse período, prevalecia a visão de infância como uma fase preparatória para a vida adulta, em que não havia preocupação efetiva com processos educativos sistematizados.

Durante grande parte do século XX, a educação infantil permaneceu marcada por iniciativas filantrópicas, propostas religiosas e ações isoladas do Estado. A escolarização formal só começou a ganhar espaço com os movimentos renovadores impulsionados pela Escola Nova, que defendiam a infância como fase dotada de características próprias e merecedora de práticas pedagógicas específicas. Ainda assim, o atendimento infantil era profundamente desigual, atingindo sobretudo famílias de baixa renda e carecendo de regulamentação adequada.

A mudança significativa ocorre a partir da década de 1980, com o fortalecimento dos movimentos sociais e educacionais que passaram a reivindicar a criança como sujeito de direitos. A Constituição Federal de 1988 representou um marco decisivo ao estabelecer a educação como direito de todos e dever do Estado, assegurando prioridade absoluta à infância. Esse princípio ampliou a compreensão de que a educação infantil deveria integrar políticas públicas educacionais, superando o caráter assistencialista que a acompanhava desde sua origem.

Com a promulgação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB, 1996), a educação infantil passou a compor oficialmente a educação básica, consolidando a indissociabilidade entre educar e cuidar. Essa lei reconheceu as creches e pré-escolas como espaços de desenvolvimento pleno, fortalecendo a ideia de que a infância exige práticas pedagógicas específicas e fundamentadas. A LDB também estabelece que o atendimento infantil deve ser responsabilidade compartilhada entre família, sociedade e Estado, reforçando a importância do envolvimento comunitário na formação das crianças.

Na contemporaneidade, documentos como a Base Nacional Comum Curricular (BNCC, 2017) ampliam essa concepção ao definir direitos de aprendizagem e campos de experiência que valorizam a exploração, o brincar, a participação e a expressão. A BNCC compreende a criança como sujeito ativo, capaz de interagir, imaginar, investigar e criar. Nesse contexto, as linguagens artísticas, incluindo a música, são entendidas como ferramentas fundamentais para a construção de conhecimentos e para o desenvolvimento integral, devendo estar presentes de forma contínua e intencional no cotidiano escolar.

Percebe-se, portanto, que a educação infantil passou por transformações profundas ao longo de sua trajetória, deixando de ser um espaço de guarda para assumir função pedagógica central na formação da criança. Esse avanço histórico, político e social abriu espaço para práticas educativas mais completas e integradas, nas quais diferentes linguagens, entre elas a musical, passaram a ser compreendidas como essenciais para o desenvolvimento cognitivo, motor, emocional e social das crianças. Assim, o fortalecimento da educação infantil no Brasil cria condições propícias para a inserção de experiências musicais significativas e alinhadas às necessidades das crianças.

Nesse processo de consolidação da educação infantil como espaço de desenvolvimento integral, autores como Teca Alencar de Brito contribuem para aprofundar a compreensão das linguagens artísticas como componentes essenciais da prática pedagógica. Para Brito (2003), a criança se constitui por meio de experiências sensíveis, corporais e expressivas, sendo a musicalidade uma dimensão natural da infância. A presença crescente da música e de outras linguagens no currículo da educação infantil reflete justamente essa mudança de paradigmas, reforçando a necessidade de práticas que reconheçam a criança como sujeito criador, capaz de experimentar, imaginar e produzir sentidos por meio da arte.

2.3 MUSICALIZAÇÃO: Conceito e breve histórico

A musicalização é entendida como o processo de inserção da criança no universo sonoro e musical, possibilitando a vivência de ritmos, sons, movimentos e experiências expressivas que favorecem a sensibilidade e a criatividade. Penna (2010) destaca que musicalizar não é ensinar música de forma tecnicista, limitada ao domínio de notas ou repertórios fixos, mas oportunizar à criança o contato significativo com a linguagem musical, permitindo que ela explore e produza sentidos por meio dos sons. Assim, a musicalização ultrapassa a transmissão de conteúdos e se configura como prática formativa que envolve percepção auditiva, imaginação, ludicidade e expressão.

Desde a Antiguidade, a música esteve associada à educação. Na Grécia clássica, Platão defendia que a música contribuía para a formação do caráter, enquanto Aristóteles compreendia sua importância para o equilíbrio das emoções. Durante a Idade Média, a música integrava o quadrivium, sendo considerada disciplina essencial à formação intelectual. Já nos períodos moderno e contemporâneo, pedagogos como Émile Jaques-Dalcroze, Carl Orff e Zoltán Kodály desenvolveram métodos que aproximaram a música da criança, valorizando o corpo em movimento, o ritmo espontâneo, a improvisação, o canto e os jogos musicais. Como observa Swanwick (2003), essas abordagens transformaram a musicalização em experiência ativa e sensorial, marcada pela corporeidade e pela criação.

No Brasil, a presença da música na escola passou por diferentes configurações. Durante muito tempo esteve vinculada a práticas cívicas, religiosas ou comemorativas, restritas a canções prontas e momentos específicos. A partir do século XX, com a influência dos movimentos de renovação educacional, a música começou a ser reconhecida como recurso pedagógico relevante para o desenvolvimento infantil. Brito (2003) destaca que essa mudança refletiu não apenas uma nova compreensão da música, mas uma nova concepção de infância, que passou a ser vista como fase marcada pela curiosidade, imaginação e expressão sensível.

Contribuindo para essa perspectiva, Teca Alencar de Brito critica a visão tecnicista de ensino musical, defendendo uma musicalização que integre corpo, emoção, gesto e descoberta. Para a autora, musicalizar é permitir que a criança “brinque com o som”, explorando suas possibilidades expressivas por meio de experiências vividas, e não apenas reproduzindo padrões preestabelecidos. Essa concepção dialoga diretamente com métodos internacionais como Orff e Dalcroze, pois compreende a música como linguagem criativa, acessível a todas as crianças, e não como habilidade exclusiva daqueles com “talento musical”. Assim, a musicalização, à luz de Brito, deve iniciar no campo da sensibilidade, da escuta e do movimento, tornando-se caminho privilegiado para a formação integral.

No cenário contemporâneo, a musicalização passou a ser entendida não apenas como prática artística, mas como processo educativo que impacta diversas dimensões do desenvolvimento infantil. Ilari (2011) enfatiza que, ao vivenciar experiências musicais, a criança articula escuta, memória, movimento, socialização e expressão emocional. Com isso, a musicalização deixa de ocupar lugar secundário na escola e passa a ser reconhecida como elemento estruturante das interações, das aprendizagens e das relações que a criança estabelece com o mundo.

Dessa forma, o percurso histórico da musicalização evidencia que a música, em diferentes épocas e culturas, sempre desempenhou papel fundamental na formação humana. Ao ser incorporada como prática pedagógica intencional, a musicalização assume função educativa que ultrapassa a estética e se torna instrumento de desenvolvimento cognitivo, motor, social e emocional. Sua relevância na contemporaneidade reflete justamente essa compreensão ampliada, na qual a música não é vista como adorno, mas como linguagem constitutiva da infância e recurso indispensável para o desenvolvimento integral.

2.4 A MUSICALIZAÇÃO NA EDUCAÇÃO INFANTIL

A musicalização tornou-se um dos elementos centrais da educação infantil contemporânea, pois dialoga diretamente com as características da infância e com a maneira como as crianças percebem, interpretam e dão sentido ao mundo. Ao considerar a criança como sujeito ativo, que explora, imagina, cria, expressa e interage, a musicalização se apresenta como prática pedagógica capaz de promover experiências sensoriais, cognitivas e emocionais profundas. Nesse contexto, a música deixa de ser apenas um recurso adicional para se tornar linguagem fundamental, integrada às vivências cotidianas da criança.

As transformações históricas da educação infantil, especialmente após a Constituição de 1988, a LDB de 1996 e a BNCC de 2017, reforçaram a importância de práticas que valorizem a expressão, o brincar e a sensibilidade. A BNCC, ao estabelecer os direitos de aprendizagem, destaca que a educação infantil deve assegurar condições para que as crianças convivam, brinquem, explorem e se expressem por meio de múltiplas linguagens, entre elas, a artística e a musical. Assim, a musicalização passa a ocupar um papel essencial na formação integral, alinhando-se aos princípios que orientam o trabalho pedagógico nessa etapa.

A musicalização na educação infantil emerge, portanto, como linguagem que respeita a forma de ser e estar no mundo da criança. A criança pequena observa, escuta, imita, experimenta e cria a partir da sonoridade que a cerca. O ambiente sonoro, repleto de vozes, objetos, movimentos, ritmos cotidianos e sons da natureza, constitui-se como primeiro campo de aprendizagem. Nesse sentido, inserir práticas de musicalização no cotidiano escolar significa ampliar repertórios, permitir novas formas de expressão e favorecer a construção de significados.

Teca Alencar de Brito contribui de maneira significativa para essa compreensão ao destacar que a musicalidade é uma dimensão natural da infância. Para a autora, a criança aprende música por meio da vivência, da exploração e da experimentação sonora, e não por processos rígidos baseados na reprodução mecânica. Brito defende que a musicalização deve surgir como experiência sensível que envolve corpo, gesto, escuta, imaginação e emoção, elementos que fazem parte da identidade da criança. Essa visão aproxima a musicalização das concepções contemporâneas de educação infantil, que reconhecem o valor do brincar, da ludicidade e da expressão artística.

Além disso, a musicalização articula-se profundamente com a concepção de desenvolvimento integral adotada pela BNCC. Quando a criança canta, se movimenta, improvisa, dança ou interage com instrumentos, ela ativa simultaneamente processos cognitivos, motores, sociais e emocionais. A música, assim, não fragmenta o desenvolvimento, mas o integra. Essa característica faz com que a musicalização se alinhe a práticas pedagógicas que valorizam a totalidade da experiência infantil, fortalecendo vínculos, ampliando repertórios culturais e possibilitando aprendizagens significativas.

Outro ponto fundamental é a maneira como a musicalização se conecta ao brincar. A infância é marcada pela ludicidade, e a música intensifica essa vivência ao potencializar movimentos, gestos e invenções. Jogos musicais, brincadeiras cantadas, atividades de percussão corporal e explorações de sons permitem que a criança vivencie a música em sua forma mais espontânea. A musicalização, portanto, não se limita a momentos específicos, mas emerge nas interações, no cotidiano e nas curiosidades da criança, consolidando-se como experiência natural e constante.

A inserção da musicalização na educação infantil também fortalece a construção de vínculos e a participação em grupo. Atividades musicais, especialmente as coletivas, promovem a convivência, a cooperação e o respeito às diferentes formas de expressão. Durante rodas de canto, danças em grupo ou improvisações, a criança aprende a escutar o outro, a dividir espaços, a cooperar e a reconhecer-se como parte de um coletivo. Esses processos contribuem não apenas para o desenvolvimento social, mas também para a formação emocional e afetiva.

Do ponto de vista pedagógico, a musicalização exige do professor sensibilidade, intencionalidade e compreensão da música como linguagem da infância. O educador não precisa ser músico profissional, mas deve saber criar ambientes favoráveis à escuta, à exploração e à criatividade. Brito reforça que o papel do professor é o de mediador, que observa, valoriza e incentiva as expressões musicais espontâneas, integrando-as às propostas pedagógicas de forma significativa. Essa postura pedagógica rompe com práticas tradicionais e permite que a musicalização faça parte da rotina escolar de maneira integrada e natural.

Outro aspecto relevante diz respeito ao papel do ambiente sonoro. A educação infantil é espaço rico em possibilidades de escuta: vozes, passos, objetos que caem, brinquedos que produzem sons, vento, chuva, música ambiente, instrumentos simples. Valorizar esse cenário significa reconhecer que a musicalização não depende de materiais sofisticados, mas da capacidade de ouvir o cotidiano e transformá-lo em experiência educativa. A escola, assim, torna-se espaço de construção de paisagens sonoras que estimulam a percepção e a criatividade das crianças.

Por fim, a musicalização na educação infantil consolida-se como prática que articula história, pedagogia e cultura. Ela reflete transformações no conceito de infância, integra-se às legislações e diretrizes nacionais e responde às necessidades de desenvolvimento das crianças por meio de experiências sensíveis e significativas. Ao reconhecer a música como linguagem constitutiva da infância, a educação infantil amplia seu papel, tornando-se ambiente de formação integral no qual as crianças podem experimentar, criar, expressar-se e desenvolver-se plenamente.

2.5 BENEFÍCIOS COGNITIVOS NA MUSICALIZAÇÃO

Os benefícios cognitivos da musicalização na educação infantil têm sido amplamente destacados por diferentes pesquisadores da área da educação musical e do desenvolvimento infantil. Ao vivenciar experiências musicais, a criança é convidada a perceber, organizar e atribuir significado a sons, silêncios, ritmos e melodias, mobilizando processos mentais como atenção, memória, concentração e raciocínio. Penna (2010) ressalta que a musicalização estimula a capacidade de perceber padrões, antecipar sequências e estabelecer relações temporais, o que contribui diretamente para o desenvolvimento de habilidades cognitivas fundamentais na primeira infância.

Um dos aspectos mais estudados é a relação entre musicalização e consciência fonológica. Ilari (2011) explica que atividades como cantar, brincar com rimas, repetir refrões, explorar sílabas e jogos de palavras melódicas contribuem para que a criança desenvolva percepção mais apurada dos sons da fala. Essa consciência dos elementos sonoros da língua é considerada um dos pilares para a alfabetização, pois possibilita que a criança reconheça, discrimine e manipule unidades sonoras, aproximando-se com mais segurança do sistema de escrita. Dessa forma, a musicalização não substitui o ensino formal da leitura e escrita, mas prepara o terreno cognitivo para que esses processos ocorram com mais significado.

A musicalização também contribui para o desenvolvimento da memória, especialmente a memória auditiva e sequencial. Ao aprender canções, acompanhar ritmos, reproduzir padrões melódicos ou lembrar a ordem de sons em uma atividade, a criança exercita a retenção e a evocação de informações. Brito (2003) destaca que a repetição natural presente nas músicas infantis auxilia na fixação de conteúdos, ao mesmo tempo em que estimula a organização mental de ideias e acontecimentos. A música, nesse sentido, funciona como estrutura que ajuda a criança a ordenar o tempo, compreender inícios, meios e fins, e estabelecer relações entre acontecimentos, o que impacta positivamente outras aprendizagens escolares.

Outro benefício cognitivo importante diz respeito ao desenvolvimento do pensamento simbólico e da imaginação. Ao ouvir ou criar músicas, a criança é convidada a representar situações, emoções, personagens e histórias por meio de sons e gestos. Swanwick (2003) observa que a experiência musical possibilita que a criança pense de forma não verbal, elaborando significados por meio de uma linguagem própria, que integra som, movimento e expressão corporal. Essa capacidade de simbolizar é fundamental para o desenvolvimento cognitivo, pois amplia as formas de pensar, de compreender e de interpretar a realidade, contribuindo para a criatividade e para a resolução de problemas.

Teca Alencar de Brito reforça que a musicalização também estimula processos de atenção e concentração. Em jogos rítmicos, por exemplo, a criança precisa ouvir com cuidado, aguardar o momento certo de responder, imitar padrões, completar frases musicais ou acompanhar mudanças de intensidade e velocidade. Essas situações exigem foco, autocontrole e capacidade de observação, habilidades que se estendem para outras áreas do conhecimento. Brito (2003) ressalta que a musicalização, quando desenvolvida de forma lúdica e significativa, favorece uma atenção voluntária, ou seja, a criança se concentra porque está envolvida e interessada no que faz, e não apenas por exigência externa.

Além disso, as atividades musicais podem contribuir para a organização do pensamento lógico e do raciocínio matemático. A percepção de pulsação, de regularidade rítmica, de subdivisões do tempo, de estruturas repetitivas e de variações em sequência se aproxima de conceitos como contagem, proporção e ordem, presentes na matemática. Ao bater palmas em determinado compasso, marcar tempos, alternar sons fortes e fracos ou acompanhar padrões rítmicos, a criança vivencia, de maneira concreta, noções que mais tarde serão formalizadas em conteúdos escolares. Desse modo, a musicalização amplia as possibilidades de construção de raciocínios lógicos e abstratos.

Diante disso, pode-se afirmar que os benefícios cognitivos da musicalização na educação infantil não se restringem ao campo musical, mas se estendem a diversas aprendizagens e processos intelectuais. Ao articular atenção, memória, consciência fonológica, pensamento simbólico e raciocínio lógico, a musicalização contribui para que a criança desenvolva formas mais complexas de pensar e aprender. Quando planejadas com intencionalidade pedagógica, as experiências musicais tornam-se poderosas aliadas no processo de ensino-aprendizagem, favorecendo a construção de conhecimentos de maneira prazerosa, significativa e integrada às demais áreas do currículo.

2.6 BENEFÍCIOS MOTORES DA MUSICALIZAÇÃO

Os benefícios motores proporcionados pela musicalização na educação infantil estão diretamente relacionados à forma como a criança vivencia o corpo, o movimento e o ritmo em suas experiências cotidianas. A música, por natureza, mobiliza o corpo e convida a criança a explorar diferentes gestos, deslocamentos, velocidades e intensidades. Ilari (2011) destaca que atividades musicais estimulam a coordenação motora ampla e fina, favorecendo a organização do movimento e contribuindo para a construção do esquema corporal. Assim, a musicalização se integra ao desenvolvimento motor de maneira espontânea, lúdica e prazerosa, respeitando o ritmo e as singularidades de cada criança.

Um dos principais referenciais teóricos que fundamentam a relação entre música e movimento é Émile Jaques-Dalcroze, que desenvolveu a rítmica, metodologia que propõe que o corpo seja o primeiro instrumento musical. Para Dalcroze, aprender música por meio do movimento ajuda a criança a compreender pulsação, acentuação, tempo e dinâmica de forma concreta e sensorial. Ao caminhar no ritmo, variar passos conforme mudanças musicais ou usar o corpo para marcar acentos e pausas, a criança experimenta conceitos musicais e, simultaneamente, desenvolve equilíbrio, lateralidade, coordenação e controle motor.

A musicalização também contribui para o refinamento da coordenação motora fina. Atividades que envolvem instrumentos musicais simples, como chocalhos, tambores, teclas, xilofones ou objetos sonoros  exigem precisão, controle dos dedos, dissociação de movimentos e atenção às ações manuais. Swanwick (2003) ressalta que a manipulação de instrumentos contribui para o desenvolvimento da destreza manual e para a percepção sensório-motora, elementos fundamentais para aprendizagens futuras como a escrita e o desenho. Dessa forma, a música atua como apoio significativo para outras áreas do desenvolvimento que dependem do uso coordenado de mãos e dedos.

Teca Alencar de Brito reforça que a musicalização deve considerar o corpo como parte indissociável da experiência musical. Para ela, o gesto expressivo da criança, seja uma palma, um giro, um balanço, um salto ou um gesto espontâneo é forma legítima de vivência musical. Brito (2003) critica práticas que restringem a música a uma atividade estática, defendendo que a criança aprende música quando pode se mover, explorar e sentir o ritmo no próprio corpo. Essa concepção fortalece a ideia de que o desenvolvimento motor não está separado do desenvolvimento musical, mas ao contrário: ambos acontecem de forma integrada e simultânea.

Outro aspecto importante é que a musicalização promove percepções relacionadas ao espaço, ao tempo e à orientação corporal. Ao mover-se em diferentes direções, alternar níveis (alto, médio, baixo), ajustar a velocidade do corpo ao ritmo da música ou participar de danças e jogos rítmicos em grupo, a criança amplia sua noção espacial e sua consciência corporal. Ilari (2011) destaca que essas experiências contribuem para o desenvolvimento psicomotor, favorecendo habilidades como equilíbrio, postura, deslocamento e rapidez de resposta, fundamentais para atividades escolares e para o cotidiano infantil.

Além disso, a musicalização fortalece a coordenação global e a integração entre diferentes partes do corpo. Em brincadeiras como bater palmas enquanto se desloca, marcar o pulso com os pés ou acompanhar músicas com gestos simbólicos, a criança precisa sincronizar movimentos, ajustar ritmos e combinar estímulos auditivos e motores. Essas experiências ampliam a conexão entre corpo e mente, estimulando o sistema nervoso central e contribuindo para a organização do movimento. A música, assim, torna-se meio através do qual a criança integra múltiplas habilidades motoras de maneira divertida e significativa.

Por fim, os benefícios motores da musicalização vão além da saúde física: envolvem também a autonomia, a expressividade e a confiança corporal. Quando a criança se percebe capaz de acompanhar ritmos, criar movimentos, explorar gestos e controlar seu corpo com mais precisão, ela desenvolve autoestima e segurança em suas capacidades. Dessa forma, a musicalização assume papel central no desenvolvimento motor, contribuindo para que a criança explore o mundo com mais domínio corporal, iniciativa e liberdade expressiva.

2.7 BENEFÍCIOS SOCIAIS E EMOCIONAIS DA MUSICALIZAÇÃO

Os benefícios sociais da musicalização na educação infantil são amplos e se relacionam à capacidade da música de promover interações, vínculos e experiências coletivas. A música, por sua natureza, convida à convivência e à participação conjunta, fazendo com que as crianças compartilhem ritmos, gestos, olhares e movimentos. Ilari (2011) destaca que atividades musicais em grupo favorecem a cooperação, a escuta ativa e o respeito às diferenças, elementos essenciais para a construção da vida em comunidade. Ao participar de rodas de canto, jogos rítmicos ou danças coletivas, as crianças aprendem a agir em colaboração, a esperar sua vez e a integrar suas ações às de outras crianças.

Sob a perspectiva sociocultural, Vygotsky contribui com a compreensão de que o desenvolvimento humano ocorre nas interações sociais. A musicalização, ao promover atividades compartilhadas, cria oportunidades para que as crianças aprendam umas com as outras, construam significados coletivamente e desenvolvam habilidades comunicativas. A música funciona como mediadora dessas interações, favorecendo trocas, negociações e formas de expressão que fortalecem a participação infantil nos grupos. Assim, a musicalização ajuda a estruturar relações sociais mais ricas e colaborativas na educação infantil.

Do ponto de vista emocional, a musicalização possibilita à criança expressar sentimentos, organizar emoções e vivenciar experiências afetivas de forma simbólica. Penna (2010) ressalta que a música é linguagem capaz de comunicar aquilo que muitas vezes não é dito pela fala, permitindo que a criança expresse alegria, tristeza, medo, entusiasmo ou tranquilidade por meio do ritmo, da melodia e do movimento. Essa expressão simbólica ajuda no desenvolvimento da autoestima e da autoconfiança, pois a criança reconhece no próprio corpo e na própria voz meios legítimos de comunicar o que sente.

A musicalização contribui também para o desenvolvimento da empatia. Ao ouvir o outro cantar, tocar ou improvisar, a criança aprende a perceber diferentes emoções e formas de expressão. As atividades musicais coletivas favorecem a sensibilidade e a capacidade de compreender o outro, fortalecendo a convivência respeitosa. Ilari (2011) afirma que a música promove um ambiente afetivo no qual as crianças constroem vínculos e experimentam sentimentos de pertencimento e acolhimento, fundamentais para o desenvolvimento emocional.

Teca Alencar de Brito reforça que a musicalização deve ser vivenciada como experiência sensível que envolve corpo, gesto e emoção. Para ela, a música permite à criança perceber o mundo por meio de sensações e sentimentos, ampliando sua capacidade de se expressar e de reconhecer suas próprias emoções. Brito (2003) critica práticas musicais que se restringem à repetição mecânica de canções, defendendo que a musicalização precisa considerar a subjetividade infantil, criando espaços de escuta, acolhimento e expressão emocional. Essa visão é fundamental para que a música contribua de forma significativa para o desenvolvimento socioemocional.

Outro aspecto relevante é a relação entre musicalização e autorregulação emocional. Atividades musicais que envolvem mudanças de intensidade, velocidade ou dinâmica, como canções lentas ou ritmos acelerados, ajudam a criança a identificar estados emocionais e a experimentar formas de organizá-los. A música pode tranquilizar, energizar, acalmar e estimular, oferecendo recursos para que a criança desenvolva habilidades de autocontrole, concentração e manejo das próprias emoções. Esse processo é fundamental na educação infantil, pois auxilia na construção de autonomia e equilíbrio emocional.

Por fim, a musicalização fortalece a identidade e o sentimento de pertencimento cultural das crianças. Ao cantar músicas de diferentes tradições, explorar repertórios regionais, ouvir canções da família ou criar suas próprias músicas, a criança reconhece sua história e se reconhece como parte de um grupo. Essa dimensão simbólica e cultural reforça os vínculos sociais e contribui para a construção de uma identidade segura, autônoma e participativa. Portanto, os benefícios sociais e emocionais da musicalização vão muito além do campo artístico: envolvem relações, afetos, comunicação, cultura e desenvolvimento da personalidade.

2.8 A MUSICALIZAÇÃO NA BNCC, NA LDB E NAS PRÁTICAS PEDAGÓGICAS

A presença da musicalização na educação infantil é respaldada por um conjunto de legislações e documentos normativos que reconhecem a arte como dimensão fundamental do desenvolvimento humano. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB — Lei nº 9.394/1996), em seu artigo 26, determina que o ensino de arte é componente curricular obrigatório na educação básica, destacando expressamente a música como uma de suas linguagens constitutivas. Essa inclusão representa um avanço significativo, pois rompe com a visão de que a música seria apenas atividade recreativa e afirma sua relevância pedagógica e cultural no processo formativo.

As Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil (DCNEI), instituídas em 2009, reforçam esse entendimento ao estabelecer princípios que orientam o trabalho pedagógico na primeira infância. As DCNEI reconhecem que a educação infantil deve promover experiências que valorizem as múltiplas linguagens, permitindo que as crianças se expressem, criem e conheçam o mundo. Nesse contexto, a música é entendida como linguagem simbólica e cultural, que contribui para a construção da identidade, do pensamento e da sensibilidade. Assim, a musicalização deixa de ser uma atividade complementar e passa a ocupar posição central no currículo da educação infantil.

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC, 2017) aprofunda essa perspectiva ao organizar a música dentro do campo das Artes, enfatizando que a criança deve vivenciar práticas de criação, apreciação e reflexão musical. A BNCC estabelece que, na educação infantil, as experiências com música devem ser fundamentadas na exploração sonora, na improvisação, na escuta sensível e no movimento, permitindo que as crianças experimentem ritmos, timbres, melodias e gestos. Essa abordagem reconhece a musicalização como componente do desenvolvimento integral, articulando aspectos cognitivos, motores, sociais e emocionais.

Além disso, a BNCC destaca os direitos de aprendizagem e desenvolvimento, como conviver, brincar, participar, expressar e explorar, que se relacionam profundamente com a musicalização. Ao cantar, dançar, ouvir música ou experimentar instrumentos, a criança vivencia exatamente esses direitos, ampliando suas formas de expressão e interação. Assim, a musicalização não aparece na BNCC como conteúdo isolado, mas como prática transversal que perpassa as experiências educativas e fortalece o protagonismo infantil.

A LDB e a BNCC, portanto, conferem à musicalização o status de direito da criança e de responsabilidade da instituição escolar. Isso implica que as escolas devem garantir espaços, tempos e materiais que favoreçam a exploração sonora, bem como assegurar que os professores tenham condições de planejar e desenvolver atividades musicais significativas. A legislação não se limita a determinar que a música esteja presente no currículo, mas indica que ela deve ser vivida de forma intencional, contextualizada e articulada com o projeto pedagógico da instituição.

Nesse contexto, o papel do professor torna-se central. Teca Alencar de Brito enfatiza que a musicalização na educação infantil deve ser orientada por uma escuta sensível e por práticas que respeitem a expressão e o corpo da criança. Para ela, musicalizar não é repetir canções prontas, mas criar ambientes que favoreçam a descoberta, o brincar sonoro, a improvisação e o gesto musical espontâneo. Brito também alerta que as exigências legais, quando não acompanhadas de formação adequada, podem levar a práticas superficiais. Por isso, destaca a importância de docentes preparados para compreender a música como linguagem que integra cultura, emoção, movimento e imaginação.

Outro aspecto relevante é a forma como a musicalização dialoga com os campos de experiência propostos pela BNCC. No campo “Traços, sons, cores e formas”, por exemplo, a música está diretamente inserida nas explorações sonoras e nas criações musicais. No campo “Corpo, gestos e movimentos”, ela fortalece a expressão corporal e o desenvolvimento motor. Já no campo “O eu, o outro e o nós”, contribui para a construção da convivência, do respeito e da identidade cultural. Essa transversalidade mostra que a musicalização é recurso potente para articular diferentes dimensões da aprendizagem infantil.

As práticas pedagógicas também devem favorecer o contato das crianças com diferentes repertórios musicais, ampliando horizontes culturais e valorizando a diversidade. Canções tradicionais, músicas regionais, ritmos populares, sons da natureza e produções contemporâneas podem fazer parte das vivências, sempre respeitando o contexto cultural da comunidade escolar. A BNCC incentiva que as experiências musicais promovam a escuta ativa, a criatividade e o diálogo entre culturas, reforçando a ideia de que a música é elemento fundamental da formação humana.

Por fim, a musicalização na educação infantil, quando articulada à LDB, às DCNEI e à BNCC, consolida-se como prática pedagógica indispensável para o desenvolvimento integral das crianças. Ela articula legislação, teoria e prática, respondendo às demandas da escola contemporânea por experiências sensíveis, criativas e culturalmente significativas. Ao reconhecer a música como direito e como linguagem essencial da infância, os documentos normativos reforçam o papel da musicalização como caminho para aprendizagens profundas, para a expressão da subjetividade e para a construção de relações sociais e afetivas positivas.

3 RESULTADOS E DISCUSSÃO

A análise da literatura consultada permitiu identificar uma ampla convergência entre os autores quanto à importância da musicalização na educação infantil e à sua contribuição para o desenvolvimento integral da criança. A leitura das obras de Brito, Ilari, Penna, Swanwick, Dalcroze, Orff e Kodály revelou que a música, quando vivenciada de maneira significativa e contextualizada, atua como linguagem expressiva capaz de favorecer múltiplas dimensões do desenvolvimento infantil. Esse conjunto teórico evidencia que a musicalização não é um recurso acessório ou complementar, mas sim elemento estruturante das experiências educativas na primeira infância.

De modo geral, os autores analisados concordam que a musicalização mobiliza processos que envolvem percepção, imaginação, movimento, simbolização, expressão emocional e interação social. Independentemente da abordagem, todos destacam que a música possui natureza integradora, isto é, articula aspectos cognitivos, motores, sociais e afetivos de forma simultânea. A literatura também converge ao afirmar que a musicalização possibilita que a criança explore e amplie sua sensibilidade estética, estimulando a criatividade, o pensamento simbólico e a construção de vínculos afetivos. Assim, observa-se um consenso teórico de que a música atua como experiência que transcende o campo artístico e se insere como prática pedagógica de grande alcance no cotidiano infantil.

Nesse cenário, a obra de Teca Alencar de Brito emerge como eixo interpretativo central, pois sintetiza elementos fundamentais da musicalização na educação infantil ao mesmo tempo em que dialoga com diferentes correntes teóricas. Brito defende que a música deve ser vivida pela criança de forma sensível, corporal e expressiva, respeitando sua natureza curiosa, criativa e espontânea. Sua crítica ao tecnicismo e sua defesa de práticas musicais vivenciais dialogam com concepções contemporâneas de infância e com o princípio de que a aprendizagem significativa ocorre na interação entre corpo, emoção, gesto, movimento e imaginação.

A leitura do conjunto de autores históricos, como Dalcroze, Orff e Kodály, permitiu observar uma forte aproximação entre suas metodologias e as concepções apresentadas por Brito. Dalcroze, ao defender que o corpo é o primeiro instrumento musical, reforça a ideia de que a experiência rítmica deve emergir do movimento espontâneo da criança. Orff, por sua vez, aproxima música e brincadeira, propondo atividades lúdicas que envolvem percussão corporal, improvisação e expressão rítmica. Já Kodály valoriza o canto e a escuta como elementos essenciais para o desenvolvimento musical. Brito articula esses princípios ao enfatizar que a musicalização deve permitir à criança explorar, criar e descobrir, e não apenas reproduzir conteúdos prontos. Assim, Teca atua como síntese contemporânea das contribuições desses pedagogos, adaptando-as à realidade da educação infantil brasileira.

A relação entre Brito e autores contemporâneos como Penna, Ilari e Swanwick também se mostra evidente. Penna destaca o caráter expressivo da música, reforçando que o trabalho pedagógico deve considerar a subjetividade e as emoções da criança. Ilari acrescenta evidências científicas sobre os impactos da música no desenvolvimento cognitivo e socioemocional. Swanwick, por sua vez, enfatiza a música como forma de pensar, sentir e interpretar o mundo. Todas essas concepções se conectam às ideias de Brito, que propõe uma musicalização que valoriza a sensibilidade, a escuta atenta, o gesto expressivo e a criação musical. Assim, os autores não apenas se complementam, mas fortalecem o argumento central de que a música é experiência fundamental na infância.

No diálogo entre a literatura e os documentos normativos, observa-se que as concepções apresentadas pelos autores se alinham diretamente à BNCC, à LDB e às DCNEI. A legislação educacional brasileira determina que a música seja parte integrante do currículo da educação básica, reconhecendo-a como linguagem artística indispensável ao desenvolvimento integral. A BNCC destaca que a educação infantil deve promover experiências de exploração sonora, criação musical, escuta sensível e movimentos corporais que favoreçam a expressão e a interação. Esse alinhamento entre teoria e norma reforça a legitimidade da musicalização como prática pedagógica essencial e como direito da criança.

Ao analisar os benefícios cognitivos apontados pelos autores, percebe-se que a musicalização contribui significativamente para o desenvolvimento da atenção, da memória, da percepção auditiva e do raciocínio lógico. Ilari demonstra que atividades musicais fortalecem a consciência fonológica, um dos pilares da alfabetização. Swanwick destaca que a percepção musical organiza o pensamento e estimula a imaginação. Brito reforça que a música permite à criança compreender ritmos, sequências e padrões, mobilizando processos cognitivos complexos. Esses achados confirmam o primeiro objetivo específico do estudo, relacionado ao desenvolvimento cognitivo das crianças na educação infantil.

No que se refere aos benefícios motores, a literatura também se mostra unânime. Dalcroze evidencia que a experiência musical vivenciada pelo corpo contribui para a coordenação, o equilíbrio e a noção espacial. Orff valoriza o movimento natural da criança como base para a vivência musical. Brito reforça que a exploração corporal é parte essencial da musicalização e que gestos simples, como bater palmas, saltar, girar ou mover-se em diferentes direções, contribuem para a construção do esquema corporal e para a coordenação motora fina e ampla. Assim, os autores confirmam o segundo objetivo específico, relacionado ao desenvolvimento motor das crianças.

Em relação aos benefícios sociais e emocionais, a literatura demonstra que a musicalização favorece a construção de vínculos, a cooperação, a empatia e a expressividade. Penna ressalta que a música permite que a criança expresse sentimentos e organize emoções. Ilari destaca que atividades musicais coletivas promovem interação e senso de pertencimento. Brito reforça a importância da sensibilidade e da escuta no processo de musicalização, afirmando que a música cria ambientes afetivos e acolhedores. Esses achados confirmam o terceiro objetivo específico, relacionado ao desenvolvimento social e emocional.

Ao confrontar os achados teóricos com a pergunta de pesquisa  “Quais são os benefícios da musicalização na educação infantil?”, observa-se que todos os autores convergem ao afirmar que a musicalização contribui para o desenvolvimento integral da criança. A música favorece aprendizagens cognitivas, motoras, sociais e emocionais, articulando sensibilidade, criatividade, movimento e expressão. Além disso, a musicalização fortalece a autonomia, a identidade e o protagonismo infantil, aspectos fundamentais no processo educativo.

A teoria também confirma que a musicalização deve ser vivenciada de forma lúdica, significativa e respeitosa, considerando as características da infância. Brito, especialmente, demonstra que a música deve emergir da sensibilidade e da experiência corporal da criança, e não de práticas fragmentadas ou mecanizadas. Essa visão dialoga profundamente com a literatura e com os documentos normativos, mostrando que a musicalização é prática pedagógica coerente com as diretrizes da educação brasileira.

Os autores analisados reforçam, ainda, que a musicalização não é responsabilidade exclusiva de professores especialistas, mas pode ser desenvolvida por educadores que compreendam a música como linguagem da infância e que estejam abertos à escuta, à sensibilidade e à ludicidade. Brito destaca o papel do professor como mediador de experiências musicais, aquele que observa, incentiva e valoriza a expressão da criança. Essa concepção reforça a viabilidade da musicalização como prática cotidiana nas instituições de educação infantil.

Por fim, a análise da literatura permite concluir que a musicalização representa caminho essencial para o desenvolvimento integral da criança na educação infantil. Ela articula corpo, mente, emoção, cultura e interação social, oferecendo experiências ricas, sensíveis e significativas. A abordagem de Teca Alencar de Brito sintetiza e fortalece as contribuições dos demais autores, evidenciando que a música deve estar presente no currículo de forma intencional, integrada e respeitosa às características da infância. Assim, os resultados confirmam a pertinência do tema, respondem à pergunta de pesquisa e reafirmam a musicalização como prática indispensável ao processo educativo.

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

A presente pesquisa teve como objetivo analisar os benefícios da musicalização na educação infantil, considerando seus impactos no desenvolvimento cognitivo, motor, social e emocional das crianças, a partir de um olhar fundamentado na obra de Teca Alencar de Brito. Ao longo do estudo, foi possível perceber que a musicalização se configura como linguagem essencial da infância e como recurso pedagógico capaz de promover aprendizagens significativas, sensíveis e integradas. A pergunta de pesquisa “Quais são os benefícios da musicalização na educação infantil?” foi amplamente respondida pela literatura, que demonstrou que a música contribui para o desenvolvimento integral e para o fortalecimento das múltiplas dimensões que compõem o processo educativo.

Os objetivos específicos, que buscavam compreender os benefícios cognitivos, motores e socioemocionais da musicalização, também foram alcançados. A literatura evidenciou que a música estimula a atenção, a memória, a consciência fonológica e o raciocínio lógico, contribuindo de forma expressiva para o desenvolvimento cognitivo das crianças. No campo motor, ficou claro que a musicalização promove a coordenação motora ampla e fina, a organização corporal, o equilíbrio e a noção espacial, favorecendo o domínio progressivo do corpo e dos movimentos. No âmbito social e emocional, os autores destacam que a música fortalece vínculos, incentiva a cooperação, amplia a empatia e possibilita que a criança expresse e organize suas emoções, construindo uma relação mais saudável com o mundo e consigo mesma.

A obra de Teca Alencar de Brito mostrou-se fundamental para compreender a musicalização como prática que integra corpo, sensibilidade, gesto, movimento e imaginação. Sua crítica ao tecnicismo e sua defesa de práticas musicais vivenciais, lúdicas e expressivas reforçam a necessidade de que a musicalização na educação infantil respeite a natureza curiosa, espontânea e sensível da criança. A autora também contribui para o entendimento de que o professor deve atuar como mediador de experiências sonoras significativas, valorizando as expressões infantis e criando ambientes que favoreçam a escuta, a criação e o brincar musical.

Além disso, observou-se que a musicalização encontra respaldo nas principais legislações educacionais brasileiras, como a BNCC, a LDB e as DCNEI, que reconhecem a música como linguagem artística e como direito da criança. Esses documentos reforçam a importância de práticas pedagógicas que permitam a exploração sonora, a sensibilidade estética e a expressão corporal, reafirmando que a musicalização não deve ser tratada como atividade secundária, mas como parte essencial do currículo da educação infantil.

Dessa forma, conclui-se que a musicalização desempenha papel indispensável na formação integral das crianças, oferecendo experiências que articulam emoção, movimento, pensamento e cultura. Ao dialogar com autores clássicos e contemporâneos, e especialmente com as contribuições de Teca Alencar de Brito, esta pesquisa evidencia que a música deve estar presente na educação infantil de maneira intencional, consciente e sensível. Assim, reforça-se a necessidade de que professores e instituições valorizem a musicalização como prática educativa potente, capaz de enriquecer o cotidiano escolar e contribuir significativamente para o desenvolvimento infantil.

REFERÊNCIAS

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília: Senado Federal, 1988.

BRASIL. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Diário Oficial da União, Brasília, 23 dez. 1996.

BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2017.

BRASIL. Ministério da Educação. Conselho Nacional de Educação. Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil. Resolução CNE/CEB nº 5/2009. Brasília: MEC, 2009.

BRITO, Teca Alencar de. Música na educação infantil: propostas para a formação integral. São Paulo: Peirópolis, 2012.

DALCROZE, Émile Jaques-. Eurhythmics for Beginners. New York: G. Schirmer, 1921.

ILARI, Beatriz. A Música e o Desenvolvimento Infantil. Curitiba: Intersaberes, 2011.

KISHIMOTO, Tizuko Morchida. Educação infantil no Brasil. 3. ed. São Paulo: Pioneira, 2010.

KODÁLY, Zoltán. The Selected Writings of Zoltán Kodály. Boston: Boosey & Hawkes, 1974.

KRAMER, Sonia. A infância e sua singularidade na educação infantil. São Paulo: Moderna, 2006.

ORFF, Carl. The Schulwerk. New York: Schott Music, 1963.

PENNA, Maura. Música, cotidiano e educação. Porto Alegre: Mediação, 2010.

SWANWICK, Keith. Ensinando música musicalmente. São Paulo: Moderna, 2003.


¹Graduanda do curso de Pedagogia do Centro de Ensino Superior de São Gotardo – CESG. E-mail: Inesgiovana6@gmail.com.;
²Graduanda do curso de Pedagogia do Centro de Ensino Superior de São Gotardo – CESG. E-mail: Iedabomfim123@outlook.com.;
³Graduanda do curso de Pedagogia do Centro de Ensino Superior de São Gotardo – CESG. E-mail: Jamillyrio123@icloud.com.;
⁴Docente do curso de Pedagogia do Centro de Ensino Superior de São Gotardo – CESG. E-mail: lsfelice@gmail.com.