A MORADIA ESTUDANTIL E SEU IMPACTO NAS TRAJETÓRIAS FORMATIVAS: UMA ABORDAGEM AUTOBIOGRÁFICA NO IF GOIANO – CAMPUS CERES

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/pa10202510271843


Adriel José Pereira1
Gustavo Lopes Ferreira2


Resumo  

Este estudo investiga os impactos da moradia estudantil na formação de alunos do Instituto Federal Goiano, Campus Ceres, a partir de uma abordagem qualitativa e (auto)biográfica. A pesquisa foca nos estudantes que residem no alojamento, buscando compreender como essa experiência, muitas vezes marcada pelo distanciamento familiar, influencia suas trajetórias acadêmicas, pessoais e sociais. O programa de moradia, voltado para grupos historicamente marginalizados, como os oriundos de assentamentos da reforma agrária, quilombolas, e estudantes pretos, pardos e indígenas, proporciona acesso à educação profissional e tecnológica. Contudo, a adaptação ao novo ambiente de moradia representa um desafio significativo, exigindo o desenvolvimento de autonomia e a gestão do desempenho escolar. A moradia, portanto, vai além de um espaço físico, desempenhando importante papel na construção da identidade acadêmica e social dos estudantes. A pesquisa utiliza entrevistas semiestruturadas e uma abordagem autobiográfica para explorar os desafios enfrentados, incluindo aspectos emocionais como a solidão e o distanciamento da família. Além disso, investiga como a convivência nesse ambiente contribui para o fortalecimento da autonomia. Com base em relatos e na análise das políticas de assistência estudantil, a pesquisa revela como essas iniciativas influenciam a permanência no ensino técnico e superior. O resultado esperado é que a vivência na moradia contribua para o sucesso acadêmico e para a inclusão social.

Palavras-chave: Educação profissional; Inclusão social; Moradia estudantil; Autonomia; Trajetórias formativas.

Abstract

This study explores the impact of student housing on the academic development of students at Instituto Federal Goiano, Ceres Campus, using a qualitative and (auto)biographical approach. Focusing on students living in the dormitories, the research aims to understand how this experience often characterized by distance from famil affects their academic, personal, and social journeys. The student housing program, designed to support historically marginalized groups, including those from land reform settlements, quilombolas, and black, brown, and indigenous students, offers access to professional and technological education. However, adjusting to this new living environment presents a significant challenge, requiring students to develop autonomy and manage their academic responsibilities. Therefore, student housing plays a crucial role not just as a physical space but in shaping students’ academic and social identities. The research uses semi-structured interviews and an autobiographical approach to gain insight into the challenges students face, including emotional aspects like loneliness and family separation. It also investigates how living in the dormitories contributes to fostering autonomy. Based on student testimonials and an analysis of the institution’s student assistance policies, the study highlights how these initiatives impact students’ persistence in both technical and higher education. The expected outcome is that the experience of living in student housing will promote academic success and foster greater social inclusion.

Keywords: Professional education; Social inclusion; Student housing; Autonomy; Educational trajectories.

1 INTRODUÇÃO

A Educação Profissional e Tecnológica (EPT) tem desempenhado um papel essencial na formação de profissionais qualificados, que atendem às necessidades do mundo do trabalho e, ao mesmo tempo, contribuem para o desenvolvimento social e econômico do Brasil. Ao longo dos anos, a EPT vem proporcionando não apenas habilidades técnicas, mas também promovendo o desenvolvimento pessoal dos estudantes. A criação dos Institutos Federais, com sua proposta de integrar ensino, pesquisa e extensão, foi um passo importante nessa transformação, visando tornar a educação mais acessível e equitativa para todos os estudantes, especialmente aqueles em situações de vulnerabilidade social.

Entretanto, embora o acesso à educação seja um passo fundamental, a permanência e o sucesso dos estudantes nas instituições de ensino ainda representam grandes desafios. A evasão escolar é um problema persistente, sendo frequentemente associada a dificuldades financeiras, distanciamento familiar e a falta de suporte emocional. Nesse contexto, as políticas de assistência estudantil, como o Programa de Moradia Estudantil, têm sido decisivas para garantir que os alunos, especialmente os de origens mais humildes, possam continuar seus estudos e concluir sua formação.

A moradia estudantil vai muito além de proporcionar apenas um lugar para os estudantes morarem durante sua formação escolar. Ela se torna um espaço de convivência que favorece o aprendizado, a integração social e o fortalecimento da identidade acadêmica dos alunos. Para muitos, morar dentro da instituição e ensino, é a primeira experiência de viver longe da família e da comunidade, o que impõe desafios, mas também oferece oportunidades de crescimento pessoal e de desenvolvimento de autonomia.

O Instituto Federal Goiano, Campus Ceres, como parte da Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica, tem se esforçado para promover uma educação de qualidade e inclusiva. Localizado no interior de Goiás, o Campus recebe estudantes de diversas partes do país, muitos dos quais enfrentam grandes desafios sociais e econômicos. O Programa de Moradia Estudantil do IF Goiano é uma das principais ferramentas para garantir que esses estudantes possam concluir seus estudos sem que as barreiras financeiras e logísticas os impeçam de alcançar seus objetivos acadêmicos.

O objetivo, portanto, é investigar como a experiência de morar na moradia estudantil do IF Goiano (Campus Ceres) influencia a formação dos estudantes, tanto do ponto de vista escolar quanto pessoal. Focando em estudantes que pertencem a grupos historicamente marginalizados, como os oriundos de assentamentos da reforma agrária, remanescentes quilombolas, e povos indígenas, a pesquisa busca entender como a vivência nesse espaço afeta suas trajetórias formativas e como essa experiência contribui para o desenvolvimento de suas habilidades sociais e acadêmicas.

Por meio de uma abordagem autobiográfica, o estudo se propõe a ouvir as histórias dos estudantes, permitindo que compartilhem suas experiências de forma aberta e pessoal e com todas as garantias éticas respeitadas. Essa metodologia oferece uma visão única sobre as vivências dos estudantes, revelando como a moradia estudantil pode impactar suas vidas de maneiras profundas, influenciando suas escolhas e seu desempenho educacional, bem como o desenvolvimento de sua identidade social e profissional.

A pesquisa busca também compreender o impacto da moradia estudantil no desenvolvimento da autonomia dos estudantes. Muitos desses alunos, ao morarem pela primeira vez sozinhos, enfrentam a responsabilidade de gerenciar suas próprias rotinas e decisões. Como lidam com o tempo, com as tarefas diárias e com as demandas escolares? O estudo visa explorar como esses desafios influenciam a formação escolar dos estudantes e como a moradia estudantil pode contribuir para o seu amadurecimento pessoal e profissional.

Além dos desafios individuais, o estudo aborda a importância da convivência no ambiente da moradia. A interação social com outros estudantes e com os servidores da instituição pode ser uma fonte significativa de apoio emocional e acadêmico. A troca de experiências e a criação de redes de solidariedade dentro da moradia são fatores que podem aliviar o estresse e ajudar os estudantes a se adaptarem ao novo ambiente acadêmico, favorecendo a integração e o sucesso acadêmico.

A partir das entrevistas, serão coletadas as narrativas de vida dos estudantes, com o objetivo de entender como cada um percebe a sua trajetória e como a moradia estudantil impacta essa jornada.

Como parte da pesquisa, será produzido um curta-metragem documental que visa retratar de forma sensível e realista o cotidiano dos estudantes residentes no alojamento estudantil. Este documentário servirá como uma ferramenta educativa, mostrando não apenas os desafios que esses estudantes enfrentam, mas também as conquistas e transformações que a vivência na moradia estudantil pode proporcionar.

A expectativa é que os resultados da pesquisa revelem o papel crucial da moradia estudantil na vida acadêmica e pessoal dos estudantes. Mais do que uma estrutura física, a moradia estudantil pode se tornar um espaço de aprendizado, crescimento e fortalecimento de vínculos, que contribui diretamente para o sucesso acadêmico e a permanência dos estudantes na instituição.

Este estudo também visa contribuir para o aprimoramento das políticas de assistência estudantil no IF Goiano, Campus Ceres, e em outras instituições de ensino técnico e superior. Ao compreender as necessidades e as experiências dos estudantes, é possível pensar em estratégias mais eficazes para promover a inclusão e reduzir as desigualdades educacionais que ainda existem no Brasil.

A pesquisa, ao integrar a análise das trajetórias formativas com a experiência vivida pelos estudantes, busca oferecer uma compreensão mais profunda do impacto da moradia estudantil nas suas vidas, e como ela pode ser um fator determinante para o seu sucesso escolar. Ao dar voz aos estudantes, a pesquisa pretende mostrar como a educação pode ser um instrumento de transformação social, promovendo a inclusão e a equidade de oportunidades para todos.

Com isso, espera-se que este estudo contribua para o debate sobre a importância da moradia estudantil como um componente essencial para o sucesso educacional e para a inclusão social, sendo um modelo a ser seguido em outras instituições de ensino, no intuito de garantir que mais estudantes possam concluir sua formação e, com isso, transformar suas vidas e suas comunidades.

2. Revisão de Literatura

2.1. A Educação Profissional e Tecnológica no Brasil

A Educação Profissional e Tecnológica (EPT) desempenha um papel crucial na transformação social e econômica do Brasil, oferecendo uma formação que articula conhecimento técnico e científico com habilidades práticas, preparando os indivíduos para os desafios do mercado de trabalho. Com sua origem no contexto da industrialização do país, a EPT foi estruturada ao longo dos anos, porém sem grande amplitude de acesso, especialmente entre as classes populares. A criação de instituições especializadas, como as Escolas Técnicas, e a inclusão da EPT no ensino superior só ocorreram mais tardiamente, após a década de 1990. A verdadeira democratização da EPT se dá com a ampliação da rede de Institutos Federais, após a Lei nº 11.892 de 2008, que permitiu a expansão da educação pública, gratuita e de qualidade (Ciavatta, 2011).

Esses institutos têm sido responsáveis pela formação de profissionais altamente qualificados, fundamentais para o desenvolvimento regional, tecnológico e econômico do Brasil. A política pública de expansão e interiorização da educação profissional e tecnológica promoveu uma verdadeira revolução no acesso ao ensino técnico, aproximando-o das regiões mais distantes e carentes. Esse processo, além de promover a inclusão educacional, visa reduzir as desigualdades sociais e econômicas que marcam a história do país (Silva, 2016).

A educação oferecida pelos Institutos Federais tem se destacado pela sua qualidade, em função da estrutura pedagógica que integra teoria e prática, permitindo que o estudante tenha uma formação ampla e articulada com o mercado de trabalho. No entanto, a inclusão educacional deve ser entendida de forma mais abrangente, considerando não apenas o acesso ao ensino, mas também a permanência e o sucesso dos estudantes nas instituições. Nesse sentido, as políticas de assistência estudantil têm se mostrado fundamentais para a concretização dessa inclusão, garantindo que os estudantes possam concluir seus cursos com qualidade.

2.2. A Assistência Estudantil e a Inclusão Educacional

A implementação de políticas de assistência estudantil no Brasil, com destaque para o Programa Nacional de Assistência Estudantil (PNAES), criado pelo Decreto nº 7.234 de 2010, foi um avanço importante para a inclusão educacional no país. Essas políticas têm como objetivo garantir as condições necessárias para que estudantes, especialmente os de baixa renda, possam acessar e permanecer na educação superior e técnica, superando as dificuldades financeiras e sociais que muitas vezes dificultam sua trajetória acadêmica (Brasil, 2010).

O PNAES é uma iniciativa do Ministério da Educação (MEC) que tem sido fundamental para garantir a permanência dos alunos nas instituições de ensino. A assistência estudantil abrange diversos tipos de apoio, como alimentação, transporte, auxílio à moradia e saúde. Tais benefícios são essenciais para que os estudantes possam se concentrar no desempenho acadêmico, sem as preocupações constantes com questões financeiras e logísticas (Gomes, 2015).

A moradia estudantil, uma das principais formas de assistência oferecidas pelos Institutos Federais, tem se mostrado um ponto crucial para a inclusão educacional. Para muitos alunos, especialmente aqueles oriundos de regiões distantes e de famílias com baixa renda, a possibilidade de morar perto da instituição de ensino torna-se fundamental para que possam estudar sem as dificuldades relacionadas ao deslocamento diário ou à impossibilidade de permanecer na cidade onde o campus está localizado. Assim, a moradia estudantil vai além de um benefício logístico, representando um apoio fundamental para garantir que o estudante se sinta acolhido e integrado ao ambiente universitário (Costa, 2013).

Além disso, a moradia estudantil também favorece a construção de um ambiente acadêmico mais inclusivo, onde os estudantes podem interagir, trocar experiências e formar redes de apoio. A convivência em comunidade favorece a integração social, além de contribuir para o desenvolvimento de habilidades interpessoais, essenciais para o sucesso acadêmico e profissional. A experiência de morar com outros estudantes, em sua maioria provenientes de contextos sociais semelhantes, proporciona um espaço de troca e apoio emocional, fundamental para superar os desafios da vida universitária (Pereira, 2019).

2.3. Desafios Emocionais e Psicológicos dos Estudantes Moradores Fora de Casa

Morar fora de casa para estudar envolve uma série de desafios emocionais, sociais e logísticos que podem afetar diretamente o bem-estar dos estudantes. A adaptação a um novo ambiente acadêmico, longe do apoio da família e da comunidade, gera sentimentos de solidão e insegurança, o que pode, em alguns casos, impactar negativamente o desempenho escolar dos estudantes. As dificuldades emocionais enfrentadas pelos alunos residentes em moradia estudantil são frequentemente subestimadas, mas têm grande importância para o sucesso acadêmico e para a permanência dos estudantes na instituição (Lima et al., 2019).

Para superar esses desafios emocionais, as instituições têm adotado programas de apoio psicológico e serviços de acompanhamento emocional, proporcionando aos estudantes a oportunidade de expressar suas dificuldades e receber suporte adequado. A criação de grupos de convivência e a promoção de atividades de integração também são estratégias importantes para reduzir a solidão e promover a saúde mental dos estudantes (Oliveira, 2020).

Ademais, a experiência de viver em uma moradia estudantil também traz oportunidades de crescimento pessoal. Ao ter que gerenciar sua rotina e lidar com questões cotidianas, os estudantes desenvolvem habilidades de autonomia e responsabilidade. Essas competências são fundamentais tanto para o sucesso acadêmico quanto para a vida pessoal e profissional (Costa, 2015). Portanto, a convivência na moradia estudantil, apesar de seus desafios emocionais, também contribui significativamente para o desenvolvimento dos estudantes como indivíduos mais autossuficientes e resilientes.

2.4. O Papel da Moradia Estudantil na Integração Acadêmica e Social

A moradia estudantil desempenha um papel central na integração acadêmica e social dos estudantes, especialmente em instituições de ensino superior e técnico. Para muitos alunos, especialmente aqueles oriundos de famílias com pouca ou nenhuma experiência acadêmica, morar na residência estudantil significa acessar um novo universo, onde terão a oportunidade de aprender com colegas de diferentes realidades sociais e culturais. Essa interação entre estudantes de diferentes regiões e culturas enriquece a experiência universitária e favorece a construção de uma comunidade acadêmica mais diversa e inclusiva (Cunha; Ferreira, 2017).

A convivência na moradia estudantil também favorece a formação de grupos de estudo e redes de apoio que contribuem para o desenvolvimento acadêmico. Os estudantes, ao compartilharem suas experiências e desafios, muitas vezes se ajudam mutuamente a superar obstáculos acadêmicos e pessoais. Essas redes de apoio são essenciais para garantir que os alunos permaneçam motivados e engajados com o curso, reduzindo as taxas de evasão escolar (Teixeira, 2016).

Além disso, a moradia estudantil oferece um ambiente propício para a construção de habilidades sociais, como a comunicação, a cooperação e a empatia, essenciais para o sucesso na vida acadêmica e profissional. A experiência de morar com outros estudantes e participar de atividades coletivas dentro da residência estimula o desenvolvimento de uma cidadania ativa e responsável, fundamentada no respeito mútuo e na solidariedade (Fernandes, 2014).

2.5. O IF Goiano e a Inclusão através da Moradia Estudantil

O Instituto Federal Goiano tem se destacado pela implementação de políticas de inclusão que visam garantir a permanência e o sucesso acadêmico de seus estudantes. A moradia estudantil oferecida no campus Ceres, além de ser um recurso logístico importante, tem sido uma ferramenta essencial para promover a inclusão social e acadêmica. Ao atender a estudantes de diferentes regiões do país, o campus contribui para o processo de interiorização da educação profissional e tecnológica, garantindo que jovens de áreas mais afastadas possam continuar seus estudos sem a preocupação com a moradia, alimentação e o deslocamento diário (Gomes; Souza, 2020).

A política de assistência estudantil do IF Goiano não se limita à oferta de moradia, mas inclui também outros recursos essenciais, como auxílios alimentares e transporte, que garantem o acesso dos estudantes aos recursos necessários para sua formação acadêmica e social. Essas ações são fundamentais para que o estudante possa focar em seu desenvolvimento escolar, sem se preocupar com questões logísticas e financeiras, favorecendo seu desempenho e evitando a evasão escolar (Pereira, 2018).

2.6. Narrativas de Vida e o Impacto da Moradia Estudantil nas Trajetórias Formativas

A abordagem (auto)biográfica tem sido amplamente utilizada na educação como uma forma de explorar as experiências individuais e coletivas dos estudantes. Ao ouvir e registrar as histórias de vida dos alunos, os pesquisadores conseguem acessar uma compreensão mais profunda de como as experiências acadêmicas e sociais influenciam suas trajetórias formativas. No contexto da moradia estudantil, a narrativa de vida permite compreender de maneira única como essa experiência afeta a identidade e as escolhas dos estudantes ao longo de sua formação (Cunha, 2018).

O relato pessoal dos estudantes sobre suas experiências de vida na moradia estudantil fornece informações valiosas para a compreensão dos desafios enfrentados e dos benefícios adquiridos. Ao contar suas histórias, os estudantes não apenas refletem sobre suas experiências de adaptação ao novo ambiente acadêmico, mas também sobre como a moradia influenciou seu crescimento pessoal, emocional e acadêmico. Essas narrativas são fundamentais para identificar as dificuldades que os estudantes enfrentam e os recursos que encontram dentro do ambiente acadêmico para superá-las (Oliveira; Silva, 2017).

3. Metodologia

Esta pesquisa adota uma abordagem qualitativa, focada em entender como a experiência de morar no alojamento estudantil do Instituto Federal Goiano – Campus Ceres impacta as trajetórias formativas dos estudantes. A escolha por essa abordagem se deve à necessidade de explorar as experiências subjetivas dos participantes, especialmente considerando que o foco é entender a vivência de estudantes que enfrentam desafios sociais, como aqueles oriundos de assentamentos da reforma agrária, comunidades quilombolas, e povos indígenas.

Optamos pela metodologia das narrativas de vida para dar voz aos estudantes e compreender a fundo as histórias pessoais que moldam sua trajetória acadêmica e social. A narrativa de vida, como método, permite um olhar mais próximo sobre as experiências dos participantes, capturando suas perspectivas de maneira detalhada e pessoal. Ao contrário de uma pesquisa quantitativa, que foca em dados numéricos, a abordagem qualitativa e biográfica busca dar sentido às vivências individuais, reconhecendo a singularidade de cada história.

As entrevistas semiestruturadas foram escolhidas para permitir que os estudantes compartilhassem suas experiências de forma espontânea, mas também guiada por questões centrais que ajudaram a entender a relação deles com o ambiente acadêmico e as questões emocionais ligadas à moradia estudantil. Durante o processo de coleta, criamos um ambiente acolhedor para que os participantes se sentissem à vontade para falar abertamente sobre suas vivências.

Além das entrevistas, fizemos uma análise documental dos relatórios institucionais sobre o programa de moradia estudantil, o que nos permitiu entender como as políticas de assistência estudantil são implementadas na prática. A combinação das entrevistas com a análise dos documentos fortaleceu a pesquisa, oferecendo uma visão mais rica e completa das experiências vividas pelos estudantes.

A amostra de treze estudantes foi selecionada de forma voluntária, com o compromisso de resguardar que os participantes representassem a diversidade dentro da moradia estudantil. Para garantir a ética da pesquisa, todos assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), que assegurava a confidencialidade e o respeito aos direitos de cada participante.

A análise dos dados seguiu a técnica de análise de conteúdo de Bardin (2016), uma abordagem que nos permitiu categorizar e interpretar as falas dos estudantes, revelando temas recorrentes e aspectos fundamentais das suas trajetórias. A triangulação dos dados das entrevistas e documentos foi uma estratégia importante para garantir que a interpretação fosse o mais fiel possível à realidade dos participantes.

4. Resultados e Discussão

Ao longo da pesquisa, as entrevistas revelaram uma série de desafios e transformações vividas pelos estudantes durante sua permanência na moradia estudantil, além de evidenciar como essas experiências impactaram tanto seu desempenho acadêmico quanto seu desenvolvimento pessoal.

Desafios iniciais e adaptação ao novo ambiente

A adaptação ao ambiente de moradia foi um tema recorrente nas falas dos estudantes. O maior desafio foi, sem dúvida, a distância da família e a ruptura cultural com o ambiente acadêmico, especialmente para os estudantes oriundos de comunidades rurais e tradicionais. Esse afastamento não foi apenas físico, mas também cultural e emocional, já que muitos dos participantes estavam acostumados com uma vida comunitária mais próxima e com um forte vínculo familiar.

A sensação de solidão foi uma constante no início da experiência, mas a convivência no alojamento foi um fator determinante para a construção de redes de apoio. Os estudantes mencionaram que, ao longo do tempo, começaram a criar laços de amizade com colegas de diferentes partes do Brasil, o que fez com que a moradia se tornasse um espaço de acolhimento e integração. Essa dinâmica de troca cultural foi uma das principais fontes de aprendizado e adaptação. Assim, a experiência de morar na residência estudantil se transformou em um fator positivo, embora desafiador inicialmente, como apontam estudos de Oliveira e Santos (2019) sobre a importância da convivência no fortalecimento da identidade acadêmica e social.

Impacto na autonomia e no desempenho acadêmico

Outro aspecto destacado pelos participantes foi o desenvolvimento da autonomia. Para muitos estudantes, morar no campus foi a primeira experiência de ter que gerenciar a própria rotina, o que, em muitos casos, gerou um grande aprendizado. No entanto, essa autonomia trouxe tanto benefícios quanto desafios. Por um lado, muitos relataram que a gestão do tempo e das tarefas acadêmicas foi facilitada pela proximidade entre o alojamento e as salas de aula, e pela organização proporcionada pela moradia. Eles se sentiram mais motivados a participar de atividades extracurriculares e aproveitar os recursos acadêmicos da instituição.

Por outro lado, para alguns, a adaptação a essa nova rotina exigiu um esforço considerável. A pressão emocional e o acúmulo de responsabilidades como os estudos, as tarefas domésticas e a organização pessoal resultaram em momentos de stress, afetando temporariamente o desempenho acadêmico. A literatura de Costa (2013) e Pereira (2019) sugere que essa pressão é um ponto comum para muitos estudantes, especialmente os que estão longe da família pela primeira vez, e que o apoio institucional é crucial nesse processo de adaptação.

Contribuição para a formação pessoal e social

Um dos pontos mais positivos que emergiram das entrevistas foi a transformação pessoal proporcionada pela experiência na moradia estudantil. Para muitos, morar no alojamento não foi apenas uma questão logística, mas uma oportunidade de crescimento. A convivência com outros estudantes de diferentes contextos culturais e sociais proporcionou um ambiente de socialização, onde se formaram amizades que ultrapassaram os limites da vida acadêmica. Esse ambiente colaborativo foi fundamental para o desenvolvimento de habilidades interpessoais, como empatia, trabalho em equipe e comunicação, características que serão importantes ao longo de suas trajetórias profissionais.

A experiência de morar no alojamento também foi vista como uma oportunidade para fortalecer a identidade acadêmica, já que os estudantes passaram a se sentir mais parte da instituição, num contexto quase que orgânico, transcendendo, portanto a inclusão social como unidade e, com um maior pertencimento ao ambiente acadêmico. Estudos de Silva e Costa (2019) e Teixeira et al. (2021) apontam que a criação de laços dentro do campus ajuda a reduzir o estresse, melhora a saúde emocional e contribui para o sucesso acadêmico.

Eficácia das políticas de assistência estudantil

Finalmente, a pesquisa evidenciou que as políticas de assistência estudantil, especialmente no que diz respeito à moradia, têm um impacto crucial na permanência e sucesso educacional dos estudantes. O programa da moradia estudantil foi visto como um suporte essencial, permitindo que os alunos se concentrassem em seus estudos sem as dificuldades logísticas e financeiras que, muitas vezes, limitam seu acesso e permanência à educação. No entanto, a pesquisa também sugere que existem áreas em que a política de assistência estudantil poderia ser aprimorada, principalmente no que diz respeito ao acompanhamento psicossocial contínuo para ajudar os estudantes a lidarem com os desafios emocionais decorrentes da adaptação à nova rotina estudantil.

Embora as políticas atuais tenham sido eficazes, a ampliação de recursos e a inclusão de mais suporte emocional e orientações práticas podem tornar a experiência da moradia estudantil ainda mais inclusiva e favorável ao sucesso acadêmico. O apoio contínuo ao desenvolvimento da autonomia e ao cuidado psicossocial será fundamental para garantir a efetividade dessas políticas para todos os estudantes.

4. Considerações finais

Esta pesquisa demonstrou que a moradia estudantil desempenha um papel fundamental na permanência e no sucesso acadêmico dos estudantes do Instituto Federal Goiano – Campus Ceres, especialmente para aqueles oriundos de contextos sociais vulneráveis, como os provenientes de assentamentos da reforma agrária, comunidades quilombolas e povos indígenas. Ao proporcionar um ambiente seguro e de apoio, a moradia contribui para o desenvolvimento acadêmico e pessoal, permitindo que os estudantes se concentrem em suas atividades acadêmicas sem as dificuldades logísticas e emocionais que o distanciamento de suas famílias muitas vezes impõe.

Os estudantes relataram que, apesar dos desafios iniciais, como a adaptação ao novo ambiente e o distanciamento familiar, a convivência no alojamento ofereceu oportunidades significativas de integração social. O apoio mútuo entre os colegas foi um fator essencial para a superação de dificuldades emocionais, como a solidão, e para a construção de uma rede de suporte. Essa rede, por sua vez, fortaleceu o sentimento de pertencimento ao campus, o que teve um impacto positivo no desempenho acadêmico e na formação da identidade acadêmica dos estudantes.

No entanto, a pesquisa também revelou que, para muitos estudantes, a adaptação à nova realidade, que inclui a gestão da autonomia, pode ser um desafio emocional e psicológico considerável. A pressão para equilibrar a vida escolar e as responsabilidades cotidianas, como a organização pessoal e a gestão do tempo, gerou momentos de stress que, em alguns casos, afetaram temporariamente o desempenho escolar. Esses resultados indicam que, embora as políticas de assistência estudantil, em especial a moradia, sejam eficazes, ainda existe uma lacuna no apoio psicossocial contínuo, que poderia ajudar os estudantes a lidarem com as dificuldades emocionais associadas à adaptação à vida universitária.

Portanto, a principal conclusão deste estudo é que, apesar dos avanços significativos proporcionados pelas políticas de assistência estudantil, há espaço para aprimoramento, especialmente no apoio psicossocial. A oferta de suporte contínuo para o desenvolvimento emocional e para a gestão da autonomia dos estudantes será essencial para garantir que todos, independentemente da sua origem social, tenham as condições adequadas para alcançar seu pleno potencial acadêmico e pessoal.

Este estudo destaca a moradia estudantil como um instrumento essencial não apenas na trajetória formativa, mas também como um espaço vital para o desenvolvimento social e pessoal. As políticas públicas de assistência estudantil, especialmente aquelas focadas na moradia, são fundamentais para garantir uma educação inclusiva, capaz de transformar vidas e reduzir desigualdades. Assim, é crucial que as instituições de ensino continuem a investir nessas políticas, criando condições para que mais estudantes possam superar desafios e alcançar o sucesso na educação.

REFERÊNCIAS

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1adriel.pereira@ifgoiano.edu.br

2gustavo.ferreira@ifgoiano.edu.br