REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/dt10202507241437
Fábio Virginio da Silva¹; Gabrielle Castro Sousa²; João Pedro Ribeiro Rocha Ferreira³; Jonas Felipe Leal Teixeira4; Juliana Cardoso Estrela5; Karina Suyanne Araújo de Moura6; Késia Maria Miranda da Silva7; Kírya Helles Brito Monteiro8; Luiz Henrique Moura Lins9; Maria Izabel Ferreira de Sousa Oliveira10; Tiago de Melo Lima11; Klégea Maria Câncio Ramos Cantinho12
RESUMO
Introdução: O Polo Cerâmico de Teresina, localizado na região ribeirinha do bairro Poty Velho, representa um importante centro de preservação cultural, geração de renda e inclusão social. Contudo, sua localização periférica e o perfil socioeconômico dos artesãos dificultam o acesso a serviços de emergência, tornando relevante a capacitação em primeiros socorros e suporte básico à vida (SBV). O projeto de extensão desenvolvido por discentes do curso de Medicina teve como objetivo capacitar esses trabalhadores para agir em situações de urgência, reforçando a cultura de prevenção e cuidado comunitário. Objetivo: Capacitar os artesãos do Polo Cerâmico de Teresina quanto às principais técnicas de suporte básico à vida, com ênfase em manobras de desengasgo, ressuscitação cardiopulmonar (RCP) e uso do desfibrilador externo automático (DEA), por meio de metodologia ativa e acessível. Metodologia: Trata-se de um estudo descritivo, do tipo relato de experiência, vinculado à disciplina de Metodologia de Pesquisa e Extensão. A atividade foi precedida por visitas técnicas ao Polo Cerâmico, com o objetivo de reconhecer o ambiente e adaptar a abordagem pedagógica. No dia da ação, a capacitação foi realizada em três etapas: (1) palestra expositiva com linguagem simplificada sobre situações de emergência, noções de primeiros socorros, cadeia de sobrevivência e manobras de SBV; (2) atividades práticas em pequenos grupos, utilizando manequins e simulações para treinamento de RCP e desengasgo em adultos e crianças; e (3) distribuição de panfletos informativos e roda de conversa, promovendo troca de experiências e esclarecimento de dúvidas. Ao final, foi realizado um coffee break para fortalecer o vínculo entre participantes e equipe. Resultados e Discussão: Participaram da ação 13 artesãos e 11 organizadores. Os resultados apontaram melhora significativa na segurança e autoconfiança dos participantes para intervir em situações de emergência, especialmente no reconhecimento de obstruções respiratórias e na realização de compressões torácicas. A abordagem prática e contextualizada permitiu que os conhecimentos fossem assimilados de forma concreta, valorizando o saber popular e promovendo integração entre ciência e cultura. A ação contribuiu ainda para despertar o interesse dos participantes por novas capacitações em saúde. Conclusão: O projeto de extensão alcançou com êxito seus objetivos de promover educação em saúde e desenvolver competências práticas entre os participantes. Para os discentes, a vivência fortaleceu habilidades comunicativas, empáticas e de atuação em equipe, fundamentais para a formação médica humanizada. A replicabilidade da ação é viável em outros contextos comunitários com baixa cobertura de urgência e emergência.
Palavras-chave: Educação em Saúde; Primeiros Socorros; Suporte Básico à Vida.
ABSTRACT
Introduction: The Ceramics Center of Teresina, located in the riverside region of Poty Velho, is an important hub of cultural preservation, income generation, and social inclusion. However, its peripheral location and the artisans’ socioeconomic profile hinder access to emergency services, emphasizing the relevance of basic life support (BLS) training. This outreach project, developed by medical students, aimed to empower workers with first aid skills and promote a culture of prevention. Objective: To train artisans from the Teresina Ceramics Center in basic life support techniques, focusing on choking maneuvers, cardiopulmonary resuscitation (CPR), and the use of the automated external defibrillator (AED), through an accessible and interactive methodology. Methodology: This is a descriptive study, structured as an experience report, linked to the Research and Extension Methodology course. Prior technical visits were conducted to understand the environment and adapt the pedagogical strategy. On the action day, the training was divided into three stages: (1) an expository lecture on emergency response, first aid, and the survival chain; (2) practical activities in small groups using simulation mannequins for CPR and choking procedures in adults and children; and (3) distribution of informative pamphlets and an open conversation circle. A coffee break concluded the event, reinforcing community ties. Results and Discussion: The project engaged 13 artisans and 11 organizers. Participants showed increased self-confidence and awareness in handling emergencies, particularly airway obstructions and CPR application. The hands-on, culturally sensitive approach facilitated knowledge retention and enhanced the integration between technical knowledge and local culture. The experience also sparked interest in continued health education among participants. Conclusion: The outreach project successfully achieved its goals of health education and skill development. For the students, the experience fostered essential skills such as communication, empathy, and teamwork, contributing to a more humanized medical education. The initiative can be replicated in other underserved communities with limited access to emergency services.
Keywords: Health Education; First Aid; Basic Life Support.
1 INTRODUÇÃO
O Polo Cerâmico de Teresina, situado na região ribeirinha do bairro Poty Velho, representa um importante espaço de preservação cultural, geração de renda e inclusão social para dezenas de famílias. Nesse local, homens e mulheres dedicam-se à produção artesanal de peças cerâmicas, perpetuando saberes tradicionais transmitidos por gerações. No entanto, apesar de seu valor simbólico e econômico, a comunidade do polo enfrenta desafios históricos relacionados à infraestrutura, acesso a políticas públicas e vulnerabilidades sociais (BRASIL, 2018).
Entre os principais entraves, destaca-se a dificuldade de acesso a serviços de saúde, sobretudo em situações de urgência e emergência, como engasgos, desmaios e paradas cardiorrespiratórias. Em ambientes de trabalho com exposição a materiais cortantes, calor intenso e riscos mecânicos, a ausência de conhecimentos básicos sobre primeiros socorros pode representar fator agravante para a morbimortalidade em acidentes. Nesse cenário, ações educativas em saúde tornam-se estratégias fundamentais para promover a autonomia dos trabalhadores e fortalecer os cuidados coletivos no território (CECCIM; FEUERWERKER, 2004; MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2012).
O suporte básico à vida (SBV) constitui um conjunto de intervenções imediatas destinadas a manter a circulação sanguínea e a ventilação até que o atendimento especializado esteja disponível. O conhecimento e a prática dessas técnicas são essenciais para o aumento das taxas de sobrevivência em situações críticas, sendo recomendado seu ensino à população leiga como forma de ampliar a rede de resposta às emergências, especialmente em regiões de difícil acesso ao sistema de saúde (OLIVEIRA et al., 2020; GALLIAN, 2017).
Diante dessa realidade, o presente trabalho propõe relatar uma experiência extensionista que teve como objetivo capacitar os artesãos do Polo Cerâmico de Teresina para o reconhecimento e a intervenção em situações de urgência e emergência, por meio de estratégias lúdicas e acessíveis de ensino sobre o suporte básico à vida. A ação buscou articular os saberes científicos à realidade cultural local, promovendo a educação em saúde como ferramenta de empoderamento comunitário (SILVA; SANTOS; PEREIRA, 2018).
2 METODOLOGIA
Trata-se de um estudo descritivo, do tipo relato de experiência, vinculado ao projeto de extensão universitária “Educação em Suporte Básico à Vida para Comunidades Tradicionais”, desenvolvido por discentes do curso de Medicina da UNIFACID/IDOMED, em Teresina-PI. A atividade foi realizada no dia 10 de maio de 2024, no Polo Cerâmico do bairro Poty Velho, zona norte da capital piauiense, com a participação de artesãos locais.
A ação foi organizada em cinco etapas principais, descritas a seguir:
1. Planejamento e visita técnica:Previamente à execução da atividade, foi realizada uma visita técnica ao local com o objetivo de conhecer a estrutura física, mapear riscos ambientais e compreender as rotinas da comunidade, permitindo a adaptação da linguagem e das estratégias pedagógicas.
2. Ambientação e acolhimento dos participantes:No dia da atividade, os extensionistas organizaram o espaço de modo circular, com cartazes temáticos e panfletos ilustrativos sobre situações de emergência. A acolhida foi feita com uma breve apresentação dos objetivos do projeto e a importância do tema para a realidade do grupo.
3. Exposição teórica interativa:Os participantes assistiram a uma apresentação dialogada sobre noções básicas de urgência e emergência, cadeia de sobrevivência, sinais de parada cardiorrespiratória, obstrução das vias aéreas e princípios do suporte básico à vida. Foram utilizados recursos visuais e linguagem acessível, com estímulo à participação dos artesãos por meio de perguntas e exemplos do cotidiano.
4. Atividades práticas em grupo:Foram realizados três circuitos de simulação: (a) manobras de desengasgo em adultos e crianças; (b) reanimação cardiopulmonar (RCP) com o uso de manequins; e (c) demonstração do uso do desfibrilador externo automático (DEA). Cada grupo foi acompanhado por um discente facilitador e supervisionado por um docente.
5. Encerramento e confraternização:Ao final da capacitação, foi realizada uma roda de conversa para compartilhamento das experiências e esclarecimento de dúvidas. Os participantes receberam panfletos informativos e participaram de um coffee break coletivo, promovendo o fortalecimento dos vínculos entre comunidade e universidade.
A atividade foi orientada por docentes da instituição e contou com materiais de baixo custo, sendo, portanto, passível de replicação em outras comunidades em situação de vulnerabilidade social.
3 RESULTADOS E DISCUSSÃO
A ação extensionista contou com a participação de 13 artesãos do Polo Cerâmico do bairro Poty Velho e 11 membros da equipe organizadora, entre discentes e docentes da área da saúde. Os participantes demonstraram grande interesse e envolvimento durante toda a atividade, especialmente nos momentos práticos, o que favoreceu a aprendizagem experiencial e o fortalecimento dos vínculos entre universidade e comunidade.
No circuito prático, os artesãos realizaram, com o auxílio de manequins, as compressões torácicas e manobras de desobstrução das vias aéreas em adultos e crianças. Muitos relataram nunca ter recebido qualquer tipo de capacitação prévia na área de primeiros socorros. Após as simulações, verbalizaram maior segurança para atuar diante de situações de emergência, especialmente no ambiente de trabalho e em suas residências, onde frequentemente estão sozinhos ou em locais de difícil acesso ao serviço de urgência.
A utilização de linguagem acessível, o uso de materiais didáticos simples e a valorização das experiências dos próprios participantes favoreceram o engajamento e a construção coletiva do conhecimento. A literatura aponta que intervenções educativas em saúde, quando adaptadas à realidade local e culturalmente sensíveis, apresentam maior efetividade e adesão por parte da população (GALLIAN, 2017; SANTOS et al., 2021).
Além disso, os discentes envolvidos na organização e execução da atividade puderam desenvolver competências essenciais para a formação médica humanizada, como empatia, comunicação em saúde, trabalho em equipe e escuta qualificada. A atuação direta em comunidades fora do ambiente acadêmico reforça o compromisso social da universidade e contribui para uma formação crítica e comprometida com a realidade brasileira (CECCIM; FEUERWERKER, 2004).
As ações de educação em suporte básico à vida promovem a autonomia dos cidadãos para atuação imediata em situações críticas, ampliando as chances de sobrevivência até a chegada do socorro profissional. De acordo com a American Heart Association (2020), a aplicação precoce da RCP por leigos pode dobrar ou triplicar a taxa de sobrevivência em paradas cardiorrespiratórias extra-hospitalares.
O dia da ação teve seus registros fotográficos com permissão de todos os participantes (figura 1).
Figura 1. Registro fotográfico da ação de Suporte de Vida – Teresina – PI, 2024.

Da esquerda para a direita, de cima para baixo: A – Primeiro momento de teoria com a comunidade; B – Folders e lanche oferecido; C ao F – Momentos de teoria e prática com os presentes; G e H – registro da equipe e da docente orientadora.
Fonte: acervo pessoal.
4 CONCLUSÃO
A realização da atividade de extensão voltada para a capacitação em suporte básico à vida junto aos artesãos do Polo Cerâmico de Teresina demonstrou-se uma estratégia efetiva para o fortalecimento da consciência comunitária sobre primeiros socorros. A integração entre exposição teórica, práticas simuladas e uso de materiais educativos facilitou o entendimento do conteúdo e ampliou a confiança dos participantes na aplicação das técnicas aprendidas.
Os relatos colhidos durante a atividade e a participação ativa dos artesãos indicaram o impacto positivo da ação, tanto no aspecto educacional quanto no fortalecimento do vínculo entre universidade e comunidade. Além disso, a experiência proporcionou aos discentes envolvidos o desenvolvimento de habilidades essenciais à prática médica, como comunicação em saúde, empatia e atuação em equipe multiprofissional.
A metodologia adotada mostrou-se de baixo custo, replicável e sensível ao contexto sociocultural dos participantes, reforçando o potencial transformador das ações extensionistas na promoção da saúde e na formação de profissionais comprometidos com a realidade social brasileira.
REFERÊNCIAS
AMERICAN HEART ASSOCIATION. 2020 American Heart Association Guidelines for CPR and ECC. Dallas: AHA, 2020. Disponível em: https://cpr.heart.org/en/resuscitation-science/cpr-and-ecc-guidelines. Acesso em: 20 jul. 2024.
CECCIM, R. B.; FEUERWERKER, L. C. M. O quadrilátero da formação para a área da saúde: ensino, gestão, atenção e controle social. Physis: Revista de Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 14, n. 1, p. 41–65, 2004.
GALLIAN, D. M. F. Humanização na saúde: trajetória histórica e desafios contemporâneos. Interface: Comunicação, Saúde, Educação, Botucatu, v. 21, supl. 1, p. 923–934, 2017.
MENDES, I. A.; SOARES, M. C. Educação em saúde: materiais educativos e estratégias de comunicação. Revista Brasileira de Enfermagem, Brasília, v. 70, n. 5, p. 1119–1125, 2017.
OLIVEIRA, A. C. et al. Educação em saúde para leigos: uma revisão sobre os primeiros socorros. Revista Saúde em Foco, Fortaleza, v. 7, n. 2, p. 78–84, 2020.
SANTOS, A. L. et al. Impacto de oficinas educativas sobre o suporte básico à vida na atenção primária. Revista de Educação Popular, Belo Horizonte, v. 20, n. 3, p. 116–128, 2021.
SILVA, M. L.; SANTOS, R. A.; PEREIRA, J. M. Visitas domiciliares e ações educativas em saúde: estratégias para o cuidado comunitário. Saúde & Transformação Social, Florianópolis, v. 9, n. 1, p. 42–50, 2018.
SOUZA, T. P.; NUNES, C. A. Oficinas práticas em primeiros socorros: impacto na autoconfiança dos participantes. Revista Cuidarte, Bogotá, v. 10, n. 3, p. 243–250, 2019.
1Discente, Curso de Medicina – UNIFACID IDOMED Teresina
2Discente, Curso de Medicina – UNIFACID IDOMED Teresina
3Discente, Curso de Medicina – UNIFACID IDOMED Teresina
4Discente, Curso de Medicina – UNIFACID IDOMED Teresina
5Discente, Curso de Medicina – UNIFACID IDOMED Teresina
6Discente, Curso de Medicina – UNIFACID IDOMED Teresina
7Discente, Curso de Medicina – UNIFACID IDOMED Teresina
8Discente, Curso de Medicina – UNIFACID IDOMED Teresina
9Discente, Curso de Medicina – UNIFACID IDOMED Teresina
10Discente, Curso de Medicina – UNIFACID IDOMED Teresina
11Discente, Curso de Medicina – UNIFACID IDOMED Teresina
12Bióloga, Doutorado em Desenvolvimento e Meio Ambiente (UFRN), Docente do Curso de Medicina – UNIFACID IDOMED Teresina
