REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ni10202511201602
Dayany Sampaio Barros Nascimento
Orientadora: Anna Júlia Leão Pereira Martins
RESUMO
Esta revisão integrativa explora a complexa relação entre o estresse psicológico e a saúde bucal, analisando estudos recentes que abordam os impactos do estresse em diversas condições orais e na qualidade de vida relacionada à saúde bucal. A pesquisa foi conduzida com base em uma bibliografia selecionada, focando em artigos que investigam a associação entre fatores psicossociais, estresse e manifestações bucais, bem como a percepção dos indivíduos sobre essa relação. Os resultados indicam que o estresse pode influenciar negativamente a saúde bucal, contribuindo para o desenvolvimento ou agravamento de condições como bruxismo, xerostomia, doenças periodontais e disfunções temporomandibulares. Além disso, a qualidade de vida relacionada à saúde bucal é significativamente afetada por altos níveis de estresse e outros aspectos psicossociais. A análise dos estudos ressalta a importância de uma abordagem multidisciplinar no tratamento de pacientes, considerando os fatores emocionais e psicossociais como parte integrante da saúde bucal. Conclui-se que a compreensão aprofundada dessa interconexão é fundamental para o desenvolvimento de estratégias de prevenção e tratamento mais eficazes, visando a melhoria da saúde geral e bucal da população.
Palavras-chave: Estresse psicológico, Saúde bucal, Bruxismo, Disfunção temporomandibular, Qualidade de vida.
ABSTRACT
This systematic review explores the complex relationship between psychological stress and oral health, analyzing recent studies that address the impacts of stress on various oral conditions and oral health-related quality of life. The research was conducted based on a selected bibliography, focusing on articles that investigate the association between psychosocial factors, stress, and oral manifestations, as well as individuals’ perception of this relationship. The results indicate that stress can negatively influence oral health, contributing to the development or worsening of conditions such as bruxism, xerostomia, periodontal diseases, and temporomandibular disorders. Furthermore, oral health-related quality of life is significantly affected by high levels of stress and other psychosocial aspects. The analysis of the studies highlights the importance of a multidisciplinary approach in patient treatment, considering emotional and psychosocial factors as an integral part of oral health. It is concluded that a deep understanding of this interconnection is fundamental for the development of more effective prevention and treatment strategies, aiming to improve the general and oral health of the population.
Keywords: Psychological stress, Oral health, Bruxism, Temporomandibular disorder, Quality of life
1 INTRODUÇÃO
A saúde bucal é um componente essencial da saúde geral e do bem-estar, influenciando a qualidade de vida, a capacidade de comunicação, a alimentação e a autoestima dos indivíduos. No entanto, diversos fatores podem comprometer a integridade do sistema estomatognático, e entre eles, o estresse psicológico tem emergido como um campo de crescente interesse na literatura científica. A vida moderna, caracterizada por ritmos acelerados e múltiplas demandas, expõe os indivíduos a níveis elevados de estresse, que podem desencadear uma série de respostas fisiológicas e comportamentais com repercussões diretas e indiretas na cavidade bucal. A compreensão dessa interconexão é fundamental para a promoção de uma abordagem mais holística e integrada no cuidado à saúde. (Moreira, 2024).
A crescente prevalência de condições bucais associadas ao estresse, como o bruxismo, a disfunção temporomandibular e as lesões na mucosa bucal, ressalta a urgência de aprofundar o entendimento sobre os mecanismos subjacentes a essa relação. Ao compilar e analisar criticamente os achados de estudos relevantes, esta revisão visa fornecer subsídios para profissionais da saúde, pesquisadores e formuladores de políticas públicas, contribuindo para o desenvolvimento de estratégias de prevenção, diagnóstico e tratamento mais eficazes que considerem a dimensão psicossocial da saúde bucal. (Novais, 2022, De Araújo e De Andrade, 2025; Lima, 2025)
O objetivo geral desta revisão integrativa é analisar a literatura científica sobre a relação entre estresse psicológico e saúde bucal, identificando os principais impactos do estresse nas condições orais e na qualidade de vida dos indivíduos. Os objetivos específicos são: Identificar as principais manifestações bucais associadas ao estresse psicológico, como bruxismo, xerostomia, doenças periodontais e lesões na mucosa; Avaliar o impacto do estresse na qualidade de vida relacionada à saúde bucal em diferentes grupos populacionais, incluindo adultos e estudantes universitários; Discutir a influência de fatores psicossociais, como apoio social e discriminação, na modulação da relação entre estresse e saúde bucal.
2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
2.1 Estresse e suas Manifestações Orais
O estresse, compreendido como uma resposta do organismo a demandas que excedem sua capacidade de adaptação, tem sido consistentemente associado a diversas manifestações na cavidade bucal. A ativação crônica da resposta ao estresse pode perturbar a regulação autonômica e a função imunológica sistêmica, exacerbando condições de saúde bucal (Suski et al., 2025). Essa desregulação neuroendócrino-imune explica a participação de fatores psíquicos no desenvolvimento de determinadas condições na mucosa bucal (Moreira et al., 2024). Entre as manifestações mais comuns, destaca-se o bruxismo, que é o ranger ou apertar dos dentes, frequentemente associado a níveis elevados de estresse e que pode resultar em desgaste significativo dos dentes, dor orofacial e distúrbios temporomandibulares (Suski et al., 2025, Saldanha e De Melo, 2025).
Além disso, a xerostomia, ou boca seca, é uma condição frequentemente causada por tratamentos farmacológicos para o estresse, como inibidores seletivos de recaptação de serotonina, aumentando o risco de cáries dentárias e doenças periodontais (Suski et al., 2025).
Outras condições bucais diretamente influenciadas pelo estresse incluem a doença periodontal, o líquen plano, a língua geográfica, o herpes simples e a ulceração aftosa (Moreira et al., 2024). O estresse emocional também pode desencadear ou agravar problemas oclusais e disfunções temporomandibulares. É fundamental que cirurgiões-dentistas estejam atentos a essas manifestações e considerem o encaminhamento a profissionais especializados para uma terapia adjunta, visando melhorar o resultado do tratamento odontológico (Moreira et al., 2024).
2.2 Impacto do Estresse na Qualidade de Vida Relacionada à Saúde Bucal (QVRSB)
A qualidade de vida relacionada à saúde bucal (QVRSB) é uma medida importante dos impactos da saúde bucal na vida diária dos indivíduos, e o estresse psicológico representa um risco significativo para essa dimensão da saúde (Pinheiro, 2021). Estudos têm demonstrado que indivíduos com alto nível de estresse possuem maior chance de relatar um pior impacto da condição bucal na qualidade de vida (Ferreira et al., 2020). A percepção do impacto da saúde bucal na qualidade de vida é influenciada por diversos aspectos psicossociais, incluindo o estresse (Ferreira et al., 2020). Em idosos, por exemplo, a saúde bucal é um fator crítico para a qualidade de vida, e há uma relação significativa entre as dimensões da saúde mental, como estresse, ansiedade e depressão, e a saúde bucal (Papi et al., 2022).
Além do estresse, outros fatores como a discriminação também afetam negativamente a qualidade de vida, e a interação desses elementos pode agravar o impacto na QVRSB (Pinheiro et al., 2024). Indivíduos que relataram níveis mais elevados de estresse psicológico e discriminação apresentaram pior QVRSB (Pinheiro et al., 2024). A compreensão dessa correlação é importante para a implementação de intervenções odontológicas apropriadas e oportunas, que podem, por sua vez, melhorar a saúde mental, especialmente em populações vulneráveis como os idosos (Papi et al., 2022). A avaliação do estresse auto-percebido e sua relação com a QVRSB é um campo de estudo relevante, especialmente em grupos étnicos específicos que podem ter acesso limitado a tratamentos de saúde bucal (Chellappa et al., 2023).
2.3 Fatores Psicossociais e a Modulação da Relação Estresse-Saúde Bucal
Os fatores psicossociais desempenham um papel importante na modulação da relação entre estresse e saúde bucal. O apoio social, por exemplo, pode atuar como um amortecedor dos efeitos negativos do estresse e da discriminação na qualidade de vida (Pinheiro et al., 2024). A resiliência, o senso de coerência e a espiritualidade são outros aspectos psicossociais que, juntamente com o apoio social, podem influenciar a percepção do impacto da condição bucal na qualidade de vida (Ferreira et al., 2020).
A negligência da abordagem dos aspectos psicoemocionais por estudantes de ciências da saúde, como a Odontologia, é um ponto de preocupação, uma vez que o estresse emocional é um fator importante na manutenção de danos à saúde bucal (Lima, 2021).
3 METODOLOGIA
A presente revisão de literatura integrativa foi desenvolvida com o propósito de sintetizar o conhecimento científico disponível sobre a relação entre estresse psicológico e saúde bucal. A abordagem metodológica adotada seguiu os princípios de revisões integrativas, que visam identificar, selecionar, avaliar e sintetizar evidências relevantes de forma transparente e reprodutível (Gil, 2002).
A estratégia de busca foi desenvolvida utilizando descritores controlados (DeCS/MeSH) e palavras-chave em português, inglês e espanhol, combinados através dos operadores booleanos AND e OR.
Os termos de busca incluíram: (“estresse psicológico” OR “psychological stress” OR “estrés psicológico”) AND (“saúde bucal” OR “oral health” OR “salud bucal”) AND (“qualidade de vida” OR “quality of life” OR “calidad de vida”); (“estresse” OR “stress” OR “estrés”) AND (“bruxismo” OR “bruxism” OR “bruxismo”) OR (“xerostomia” OR “xerostomia” OR “xerostomía”) OR (“doença periodontal” OR “periodontal disease” OR “enfermedad periodontal”); (“aspectos psicossociais” OR “psychosocial aspects” OR “aspectos psicosociales”) AND (“saúde oral” OR “oral health” OR “salud oral”); (“ansiedade” OR “anxiety” OR “ansiedad”) AND (“depressão” OR “depression” OR “depresión”) AND (“condições bucais” OR “oral conditions” OR “condiciones bucales”).
Como critérios de inclusão foram considerados: artigos originais e revisões de literatura publicados entre 2020 e 2025; estudos que investigassem a relação entre estresse, fatores psicológicos e manifestações bucais; pesquisas que avaliassem qualidade de vida relacionada à saúde bucal; estudos realizados com diferentes populações (adultos, idosos, universitários); artigos disponíveis em português, inglês ou espanhol com texto completo acessível. Os critérios de exclusão contemplaram: estudos com menos de 50 participantes; pesquisas que não estabelecessem relação clara entre variáveis psicológicas e saúde bucal; artigos de opinião, editoriais ou cartas ao editor; estudos exclusivamente laboratoriais ou in vitro; pesquisas com metodologia inadequada ou dados incompletos; duplicatas e estudos que focassem apenas em aspectos clínicos sem abordar componentes psicossociais.
Foram encontrados inicialmente 1600 resultados, após a aplicação do filtro de data, o número de pesquisa decaiu para 1020 e após aplicação dos critérios de inclusão e exclusão restaram selecionados nove para revisão de literatura. A base de dados utilizada foi o Google Scholar.
As informações relevantes de artigo foram extraídas e organizadas para facilitar a compreensão e a comparação entre os diferentes estudos. A análise crítica dos artigos focou na identificação das manifestações bucais associadas ao estresse, no impacto do estresse na qualidade de vida relacionada à saúde bucal e na influência de fatores psicossociais na modulação dessa relação. A síntese dos resultados foi realizada, agrupando os achados por similaridade temática e destacando as principais contribuições de cada pesquisa para o entendimento do problema em questão (Creswell, 2010).
A seção de resultados foi elaborada com o intuito de apresentar de forma organizada os dados extraídos dos artigos, permitindo uma visualização clara das informações. A discussão, por sua vez, foi construída para promover uma análise aprofundada das similaridades e divergências entre os estudos, correlacionando os achados com o tema central da revisão (Severino, 2007).
4 RESULTADOS
A análise da bibliografia selecionada permitiu a identificação de diversos estudos que investigam a relação entre estresse psicológico e saúde bucal. Os principais achados desses artigos foram sintetizados na Tabela 1, que apresenta o autor e ano, título, objetivos e os achados mais relevantes de cada pesquisa.
Tabela 1 – Síntese dos Artigos Selecionados
| Autor e Ano | Título do Artigo | Objetivos do Artigo | Principais Achados |
| Ferreira et al., 2020 | Aspectos psicossociais e percepção de impacto da saúde bucal na qualidade de vida em adultos do Sul do Brasil | Investigar a associação entre os aspectos psicossociais e o impacto das condições bucais sobre a qualidade de vida de adultos. | Indivíduos com baixo apoio social, baixo senso de coerência, baixa qualidade de vida e alto nível de estresse possuíam maior chance de relatar pior impacto da condição bucal na qualidade de vida. Aspectos psicossociais podem influenciar a avaliação do impacto da condição bucal na qualidade de vida. |
| Pinheiro, 2021 | Estresse psicológico e qualidade de vida relacionada à saúde bucal: qual o impacto das redes de apoio social nessa associação? | Investigar o impacto do estresse psicológico e das redes de apoio social na qualidade de vida relacionada à saúde bucal. | O estresse psicológico representa um risco para a qualidade de vida relacionada à saúde bucal. Fatores ambientais como redes sociais podem interagir com o estresse psicológico e seu impacto. |
| Lima, 2021 | Influência do estresse emocional na saúde bucal e orofacial de estudantes universitários | Analisar a influência do estresse emocional com o surgimento de alterações na cavidade bucal dos estudantes de Odontologia do Centro Universitário Unifacig. | Mais da metade dos alunos se consideram tensos e ansiosos (56%) e possuem pelo menos algum hábito parafuncional (68%). Hábitos parafuncionais são mais frequentes em quadros de estresse. O estresse emocional pode desencadear lesões, problemas oclusais e disfunções temporomandibulares. |
| Gabia et al., 2021 | Depressão, estresse e ansiedade e o impacto da saúde bucal na qualidade de vida em indivíduos com síndrome de Sjogren | Relatar casos clínicos de pacientes com Síndrome de Sjogren (SS), descrever dados epidemiológicos e condição bucal, avaliar qualidade de vida (QV) e condição psicológica, relacionando-os com a doença. | Pacientes com SS apresentaram impacto médio na QV pela condição bucal e graus severos de ansiedade, depressão e estresse. A condição bucal é afetada por fatores psicossociais. |
| Pinheiro et al., 2024 | Associações entre estresse psicológico, discriminação e qualidade de vida relacionada à saúde bucal: os efeitos amortecedores das redes de apoio social | (1) Examinar as associações entre estresse psicológico, discriminação e qualidade de vida relacionada à saúde bucal (QVRSB); e (2) avaliar se apoio social, estresse e discriminação interagem para modificar suas associações com QVRSB. | Indivíduos com níveis mais elevados de estresse psicológico e discriminação apresentaram pior QVRSB. O apoio social mostra interações inclusivas com níveis de estresse e discriminação, mas o efeito sinérgico com o apoio social não foi evidente. |
| Moreira et al., 2024 | Efeitos do estresse nas lesões bucais: revisão de literatura | Revisar a literatura sobre os efeitos do estresse nas lesões bucais. | O estresse pode originar doenças e patologias. O excesso de estresse pode produzir alterações neuroendócrino-imunes, explicando a participação de fatores psíquicos no desenvolvimento de condições na mucosa bucal, como doença periodontal, líquen plano, língua geográfica, herpes simples, ulceração aftosa e disfunções temporomandibulares. |
| Suski et al., 2025 | The Influence of chronic stress on oral health: a literature review | Revisar a literatura sobre a influência do estresse crônico na saúde bucal. | O estresse crônico, especialmente no contexto do transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), tem implicações significativas para a saúde bucal, aumentando a prevalência de periodontite, bruxismo, xerostomia e distúrbios temporomandibulares. Fatores comportamentais e tratamentos farmacológicos para TEPT também contribuem para problemas bucais. |
| Papi et al., 2022 | Oral problems and psychological status of older adults referred to hospital and its relationship with cognition status, stress, anxiety, and depression | Investigar problemas bucais e o estado psicológico de idosos encaminhados a um hospital e sua relação com o estado cognitivo, estresse, ansiedade e depressão. | Houve uma relação significativa entre as dimensões da saúde mental (estado cognitivo, estresse, ansiedade, depressão) e a saúde bucal. A saúde bucal correlaciona-se com o estado cognitivo e o estresse. |
| Chellappa et al., 2023 | Self Perceived Stress and Oral Health Related Quality of Life Among Tribal Gypsies in Chennai | Avaliar o estresse auto-percebido e a qualidade de vida relacionada à saúde bucal entre ciganos tribais em Chennai. | O estudo visa avaliar a relação entre estresse auto-percebido e QVRSB em um grupo étnico específico. |
Os estudos analisados demonstram a complexidade da relação entre estresse e saúde bucal, abordando diferentes aspectos e populações. Ferreira et al. (2020) destacam a influência dos aspectos psicossociais, incluindo o estresse, na percepção do impacto da saúde bucal na qualidade de vida, evidenciando que indivíduos com alto nível de estresse têm maior probabilidade de relatar um pior impacto. Este achado corrobora a ideia central de que o estresse não apenas afeta a saúde bucal fisicamente, mas também a forma como os indivíduos percebem sua própria saúde e bem-estar.
Pinheiro (2021) e Pinheiro et al. (2024) aprofundam a discussão sobre a qualidade de vida relacionada à saúde bucal (QVRSB), enfatizando que o estresse psicológico representa um risco para a QVRSB e que a discriminação, em conjunto com o estresse, pode agravar esse impacto. Embora o apoio social mostre interações com o estresse e a discriminação, seu efeito amortecedor não foi claramente evidenciado, sugerindo a necessidade de mais pesquisas sobre a modulação desses fatores na saúde bucal.
Lima (2021) focou na população universitária, revelando que o estresse emocional é um fator preponderante para o surgimento de alterações na cavidade bucal, como hábitos parafuncionais que podem levar a lesões e disfunções temporomandibulares. Este estudo ressalta a importância de considerar o estresse como um fator etiológico em problemas bucais, especialmente em grupos sob pressão acadêmica e social.
Gabia et al. (2021) exploraram a relação entre estresse, depressão, ansiedade e saúde bucal em pacientes com Síndrome de Sjogren, demonstrando que esses pacientes apresentam um impacto significativo na qualidade de vida devido à condição bucal e altos níveis de sofrimento psicológico. Este estudo sublinha a interconexão entre doenças sistêmicas, saúde mental e saúde bucal, reforçando a necessidade de uma abordagem integrada no tratamento.
Moreira et al. (2024) e Suski et al. (2025) apresentam revisões de literatura que consolidam os efeitos do estresse em diversas lesões bucais. Moreira et al. (2024) destacam que o estresse pode desencadear ou agravar condições como doença periodontal, líquen plano, herpes simples e disfunções temporomandibulares, enquanto Suski et al. (2025) enfatizam o impacto do estresse crônico, incluindo o transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), na prevalência de periodontite, bruxismo e xerostomia. Ambos os estudos reforçam a base fisiopatológica da relação estresse-saúde bucal, mediada por alterações neuroendócrino-imunes.
Papi et al. (2022) investigam a saúde bucal e o estado psicológico de idosos, encontrando uma correlação significativa entre a saúde mental (cognição, estresse, ansiedade, depressão) e a saúde bucal. Este estudo sugere que intervenções odontológicas podem ter um impacto positivo na saúde mental dos idosos, destacando a importância de uma abordagem integrada para essa população.
Por fim, Chellappa et al. (2023) buscou avaliar o estresse auto-percebido e a QVRSB em uma população específica de ciganos tribais, indicando a relevância de estudos em grupos étnicos com particularidades culturais e de acesso à saúde.
5 DISCUSSÃO
A análise dos estudos selecionados revela uma convergência significativa quanto à existência de uma relação intrínseca entre o estresse psicológico e a saúde bucal, corroborando a premissa de que o bem-estar emocional é um determinante crucial para a saúde oral. A maioria dos artigos, como os de Ferreira et al. (2020), Lima (2021), Gabia et al. (2021), Pinheiro et al. (2024), Moreira et al. (2024), Suski et al. (2025) e Papi et al. (2022), aponta para a influência negativa do estresse em diversas condições bucais e na qualidade de vida relacionada à saúde bucal. Essa consistência nos achados sugere que o estresse não é apenas um fator de risco isolado, mas um componente sistêmico que afeta a homeostase do organismo, com repercussões diretas e indiretas na cavidade oral.
Uma das principais similaridades observadas é a associação do estresse com manifestações bucais específicas. O bruxismo e as disfunções temporomandibulares são frequentemente citados como condições agravadas ou desencadeadas pelo estresse, conforme evidenciado por Lima (2021) e Suski et al. (2025). Além disso, a xerostomia, doenças periodontais, líquen plano, herpes simples e ulcerações aftosas são consistentemente mencionadas como condições influenciadas pelo estresse, como destacado por Moreira et al. (2024) e Suski et al. (2025). Essa recorrência de achados em diferentes contextos e populações reforça a plausibilidade biológica da relação estresse-saúde bucal, mediada por mecanismos neuroendócrino-imunes.
No que tange à qualidade de vida relacionada à saúde bucal (QVRSB), os estudos de Ferreira et al. (2020), Pinheiro (2021) e Pinheiro et al. (2024) convergem ao demonstrar que o estresse psicológico impacta negativamente a percepção dos indivíduos sobre sua saúde bucal e, consequentemente, sua qualidade de vida. A percepção do impacto é um elemento chave, pois reflete não apenas a condição clínica, mas também a dimensão subjetiva e psicossocial da saúde. A presença de estresse elevado, conforme apontado por Ferreira et al. (2020), aumenta significativamente a chance de um pior impacto na QVRSB, o que sublinha a necessidade de considerar a saúde mental na avaliação e tratamento odontológico.
Contudo, algumas divergências e nuances emergem na forma como os fatores psicossociais modulam essa relação. Enquanto Ferreira et al. (2020) sugerem que o apoio social, resiliência e senso de coerência podem influenciar positivamente a percepção do impacto da saúde bucal, Pinheiro et al. (2024) observaram que o efeito sinérgico do apoio social com o estresse e a discriminação na QVRSB não foi evidente. Essa aparente contradição pode ser atribuída a diferenças metodológicas, populações estudadas ou à complexidade inerente à interação de múltiplos fatores psicossociais, indicando que o papel do apoio social na modulação do estresse e seus efeitos na saúde bucal ainda necessita de maior elucidação.
A inclusão de populações específicas, como estudantes universitários (Lima, 2021) e idosos (Papi et al., 2022), enriquece a discussão ao demonstrar que a influência do estresse na saúde bucal é transversal a diferentes faixas etárias e contextos de vida. A pesquisa de Lima (2021) com universitários, por exemplo, destaca a prevalência de hábitos parafuncionais associados ao estresse em um grupo sob pressão acadêmica, enquanto Papi et al. (2022) ressaltam a correlação entre saúde mental e bucal em idosos, sugerindo que intervenções odontológicas podem ter um impacto positivo na saúde mental dessa população. Essas abordagens específicas reforçam a necessidade de considerar as particularidades de cada grupo ao planejar intervenções.
Outro ponto de convergência é a ênfase na necessidade de uma abordagem multidisciplinar. Moreira et al. (2024) e Suski et al. (2025) destacam que o cirurgião-dentista, ao identificar condições bucais associadas ao estresse, deve considerar o encaminhamento do paciente a profissionais especializados para uma terapia adjunta. Essa perspectiva integrada reconhece que a saúde bucal não pode ser tratada isoladamente, mas como parte de um sistema complexo que inclui a saúde mental e o bem-estar geral. A colaboração entre dentistas e profissionais de saúde mental é, portanto, fundamental para um tratamento eficaz e abrangente.
Apesar das similaridades, a profundidade da análise dos mecanismos subjacentes à relação estresse-saúde bucal varia entre os estudos. Enquanto Moreira et al. (2024) e Suski et al. (2025) abordam os aspectos neuroendócrino-imunes, outros estudos focam mais nos impactos comportamentais e na percepção da qualidade de vida. Essa variação na abordagem metodológica e no foco da pesquisa é natural em um campo de estudo complexo, mas também aponta para a necessidade de futuras investigações que integrem diferentes níveis de análise, desde os mecanismos moleculares até os fatores psicossociais e comportamentais, para uma compreensão mais completa da interconexão.
Ou seja os artigos selecionados reforçam a natureza bidirecional da relação entre estresse e saúde bucal, onde o estresse pode precipitar ou agravar condições orais, e as condições bucais, por sua vez, podem influenciar o estado psicológico e a qualidade de vida. As similaridades nos achados sobre as manifestações bucais e o impacto na QVRSB são notáveis, enquanto as divergências em relação à modulação por fatores psicossociais indicam áreas para futuras pesquisas. A necessidade de uma abordagem multidisciplinar e a consideração das particularidades de diferentes populações são consensos que emergem desta revisão, orientando a prática clínica e a pesquisa futura no campo da saúde bucal e mental.
6 CONCLUSÃO
O estudo permitiu concluir que existe uma relação significativa entre estresse psicológico e saúde bucal, evidenciada através das múltiplas manifestações orais associadas ao estresse, como bruxismo, xerostomia, doenças periodontais e lesões na mucosa. A análise da literatura demonstrou que essa influência é universal, afetando diferentes grupos populacionais, embora apresente nuances específicas conforme o contexto.
A investigação sobre fatores psicossociais, como apoio social e discriminação, revelou sua importância na modulação da relação entre estresse e saúde bucal, podendo atenuar ou exacerbar os efeitos do estresse no ambiente oral.
As evidências compiladas reforçam que a saúde bucal transcende a mera ausência de doença, sendo intrinsecamente ligada ao bem-estar psicológico. A compreensão dessa conexão é fundamental para o desenvolvimento de abordagens de cuidado mais holísticas e eficazes, que reconheçam o indivíduo em sua totalidade.
REFERÊNCIAS
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