REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ch102025111605
Heder Soares Azevedo Cordeiro Junior1
Vitória Kelly Morais Santos Alencar2
Isabel Rodrigues da Silva3
Sandra Maria Oliveira Rodrigues4
Hytalo Mangela de Sousa Faria5
RESUMO
O presente estudo analisou a influência das redes sociais na construção da autoimagem durante a adolescência. Considerando o papel dessas plataformas digitais como espaços de interação e validação social, buscou-se compreender como o tempo de exposição e o contato com conteúdos idealizados impactam a percepção que o adolescente tem de si mesmo. O trabalho foi desenvolvido por meio de uma revisão integrativa da literatura, com abordagem qualitativa e caráter exploratório. As principais fontes utilizadas incluíram artigos científicos, dissertações e teses publicadas entre 2014 e 2024. Os resultados apontaram que a exposição prolongada a padrões estéticos e de sucesso disseminados nas redes sociais está associada a sentimentos de inadequação e à distorção da autoimagem. Conclui-se que o uso excessivo das redes sociais pode contribuir para o desenvolvimento de inseguranças e baixa autoestima, sendo fundamental o papel da Psicologia, da escola e da família na orientação do uso consciente das mídias digitais.
Palavras-chave: redes sociais; autoimagem; adolescência; comparação social; influência digital.
ABSTRACT
This study analyzed the influence of social networks on the construction of self-image during adolescence. Considering the role of these digital platforms as spaces for interaction and social validation, the research sought to understand how exposure time and contact with idealized content impact adolescents’ self-perception. The work was carried out through an integrative literature review, with a qualitative and exploratory approach. The main sources included scientific articles, dissertations, and theses published between 2014 and 2024. The results showed that prolonged exposure to aesthetic and success standards disseminated on social media is associated with feelings of inadequacy and self-image distortion. It is concluded that excessive use of social networks can contribute to the development of insecurities and low self-esteem, highlighting the importance of Psychology, schools, and families in guiding the conscious use of digital media.
Key-words: social networks; self-image; adolescence; social comparison; digital influence.
1. INTRODUÇÃO
A adolescência constitui um período singular do desenvolvimento humano, marcado por intensas transformações biopsicossociais e pela complexa tarefa de construção da identidade pessoal e social. De acordo com Harter (1999), é nessa fase que o autoconceito se torna mais abstrato, reflexivo e multifacetado, acompanhando o amadurecimento cognitivo e emocional do indivíduo. Trata-se de um momento em que a busca por pertencimento, reconhecimento e validação social assume papel central, uma vez que o adolescente está constantemente envolvido em um processo de autodefinição e de elaboração de sentido sobre “quem sou eu” e “como sou percebido pelos outros”. Assim, a percepção da autoimagem desponta como um elemento fundamental na formação da identidade e na regulação da autoestima.
Nas últimas décadas, o avanço das tecnologias digitais transformou de maneira significativa as formas de interação e de construção do self. As redes sociais, como Instagram, TikTok e outras plataformas emergentes, passaram a exercer influência direta sobre a maneira como os indivíduos, especialmente os adolescentes, percebem a si mesmos e se relacionam com o mundo. Conforme discute Turkle (2011), esses ambientes digitais configuram-se como “palcos performáticos”, nos quais a identidade é constantemente negociada, apresentada e validada. A lógica de visibilidade e performance que rege essas plataformas introduz uma nova dimensão de socialização, na qual a aceitação e o valor pessoal são frequentemente quantificados por métricas de engajamento, como curtidas, seguidores e comentários, convertendo a autoimagem em um produto mediado por algoritmos.
O cerne da problemática investigada neste estudo reside justamente na intersecção entre a vulnerabilidade emocional característica da adolescência e a arquitetura persuasiva das redes sociais. O design algorítmico dessas plataformas intensifica a exposição a conteúdos idealizados e filtrados, apresentando padrões estéticos, estilos de vida e modelos de sucesso frequentemente inalcançáveis. Tal dinâmica potencializa o fenômeno da comparação social, descrito originalmente por Festinger (1954) e aprofundado por Perloff (2014), segundo o qual os indivíduos avaliam suas próprias qualidades e realizações em contraste com as de outros, o que pode desencadear sentimentos de inadequação, baixa autoestima e distorções da autoimagem.
Essa tensão entre o self real e o self idealizado, ou, na terminologia de Rogers (1951), entre o self real e o self ideal, reflete a incongruência vivida por muitos adolescentes na contemporaneidade. A pressão para sustentar uma identidade digital socialmente validada pode gerar afastamento da experiência autêntica, favorecendo o surgimento de quadros de ansiedade, depressão e insatisfação corporal. A cultura da aparência e da performance, amplamente reproduzida por influenciadores e pelos próprios pares, contribui para a internalização de padrões irreais e para o reforço de mecanismos de autoavaliação negativos.
Diante desse cenário, torna-se imprescindível que a Psicologia, enquanto ciência e profissão, aprofunde a compreensão sobre o impacto das redes sociais na formação da autoimagem durante a adolescência. Este estudo tem como objetivo geral analisar, por meio de uma revisão integrativa da literatura, de que forma o uso das redes sociais e os processos de comparação social influenciam a construção da autoimagem em adolescentes. A relevância desta investigação reside na necessidade de atualizar o olhar científico sobre os fenômenos psicossociais contemporâneos e de oferecer subsídios teóricos e práticos para o desenvolvimento de estratégias de prevenção e intervenção, sejam elas psicológicas, familiares ou educacionais, que favoreçam o uso consciente das mídias digitais e o fortalecimento da autoestima juvenil.
2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
A autoimagem pode ser compreendida como a representação mental que o indivíduo possui de si mesmo, envolvendo aspectos físicos, emocionais, cognitivos e sociais. Rogers (1951) descreve a autoimagem como parte central do self, ou seja, do conjunto de percepções e valores que uma pessoa possui sobre si. Durante a adolescência, esse processo é fortemente influenciado pelas relações interpessoais e pelo feedback recebido do meio social (HARTER, 1999). Trata-se de um período no qual o indivíduo está mais sensível à avaliação externa, o que torna a construção da identidade e da autoimagem um processo dinâmico e vulnerável às influências do contexto.
Segundo Erikson (1968), a adolescência é uma fase marcada pela chamada “crise de identidade”, na qual o sujeito busca integrar experiências passadas e expectativas futuras em uma visão coerente de si mesmo. As redes sociais amplificam essa crise, uma vez que oferecem múltiplas possibilidades de representação e comparação, levando o adolescente a experimentar diferentes “eus” e, em muitos casos, a depender da aprovação dos outros para se sentir valorizado. Essa multiplicidade de identidades virtuais pode dificultar a formação de um self coeso, o que gera insegurança e confusão emocional.
Boyd (2014) define as redes sociais como “espaços públicos mediados”, nos quais adolescentes negociam identidade, normas e sentimento de pertencimento grupal. Nesse ambiente, o contato constante com imagens idealizadas reforça padrões de beleza e sucesso que impactam diretamente a autoestima e o bem-estar psicológico. Além disso, a exposição contínua a conteúdos editados e filtrados cria uma realidade distorcida, que leva o jovem a acreditar que a perfeição é uma meta possível e desejável.
Festinger (1954), ao desenvolver a Teoria da Comparação Social, explica que os indivíduos avaliam suas próprias capacidades e atributos em relação aos outros. Nas redes sociais, esse processo é intensificado, pois os adolescentes estão constantemente comparando suas vidas com as representações idealizadas de seus pares e de influenciadores digitais. Essa comparação tende a gerar sentimentos de inferioridade e insatisfação pessoal. Como destaca Perloff (2014), o impacto emocional dessa exposição não se restringe à aparência física, mas afeta também o senso de competência e de valor próprio.
De acordo com Rogers (1951, p. 136):
O indivíduo tem a tendência básica para a realização, atualização e manutenção do seu eu. Esse impulso de autorrealização é a força principal que dirige o comportamento humano, e a discrepância entre o self real e o self ideal constitui a fonte primária de desconforto psicológico. Quando o meio social reforça valores e percepções distorcidas de aceitação, o indivíduo tende a afastar-se de sua experiência autêntica, buscando aprovação externa em detrimento de seu próprio crescimento interior.
Essa citação ilustra a base teórica que sustenta a presente discussão, evidenciando que a busca por aceitação nas redes sociais pode intensificar a incongruência entre o self real e o ideal, comprometendo o desenvolvimento emocional saudável.
Bauman (2001) descreve a sociedade contemporânea como uma “modernidade líquida”, na qual as relações se tornaram mais frágeis e efêmeras. Essa fluidez também se manifesta no ambiente digital, onde vínculos são facilmente criados e desfeitos. A superficialidade das interações e a busca incessante por aprovação social reforçam a instabilidade emocional e a insegurança em relação à autoimagem. Assim, o sujeito se vê constantemente pressionado a se adequar a padrões de aparência e comportamento para manter um senso de pertencimento.
Outro aspecto relevante é o papel da mídia e da publicidade na manutenção dos ideais de beleza. Desde a infância, crianças e adolescentes são expostos a modelos corporais e estéticos padronizados, que moldam suas percepções sobre o que é bonito, desejável e socialmente aceito. No contexto das redes sociais, essa pressão é amplificada, uma vez que o jovem não apenas consome conteúdo, mas também o produz, buscando se encaixar nos moldes que observa. O fenômeno dos influenciadores digitais, por exemplo, intensifica esse ciclo, pois eles representam figuras de identificação para milhões de jovens e frequentemente estabelecem padrões de comportamento, consumo e estética. A tentativa de reproduzir essas referências pode gerar frustração e sentimentos de inadequação, especialmente quando o adolescente não alcança o mesmo reconhecimento.
A cultura do “like”, das curtidas e dos seguidores, funciona como um sistema de recompensa social. Pesquisas em neuropsicologia demonstram que receber curtidas ativa os mesmos circuitos cerebrais relacionados ao prazer, o que explica a necessidade constante de aprovação digital. Esse mecanismo de reforço positivo leva o adolescente a ajustar sua autoimagem e comportamento de acordo com a resposta do público, criando um ciclo de dependência emocional e validação externa.
Por outro lado, Bandura (1986) ressalta que o comportamento humano é fortemente influenciado pela observação e pela imitação de modelos sociais. Quando os jovens têm acesso a conteúdos positivos, que promovem aceitação, diversidade e autenticidade, podem desenvolver uma autoimagem mais saudável e realista. Isso demonstra que as redes sociais, embora possam gerar riscos psicológicos, também apresentam potencial educativo e formativo quando utilizadas de maneira crítica e construtiva.
Essas evidências reforçam a importância de compreender o papel das redes sociais como mediadoras de processos psicológicos e sociais. O ambiente digital não se limita a um espaço de comunicação, mas constitui um campo simbólico de construção identitária, no qual o adolescente negocia constantemente sua percepção de si e de seu valor pessoal. Assim, compreender essas dinâmicas é essencial para o desenvolvimento de práticas psicológicas e educacionais que visem à promoção da saúde mental e ao fortalecimento da autoestima juvenil.
3. MATERIAIS E MÉTODOS
O presente estudo caracteriza-se como uma pesquisa de abordagem qualitativa e de caráter exploratório, tendo como procedimento técnico a revisão integrativa da literatura. Esse método foi selecionado por sua capacidade de reunir, analisar e sintetizar o conhecimento científico existente sobre determinado fenômeno, permitindo integrar estudos com diferentes delineamentos metodológicos (teóricos e empíricos). Tal escolha possibilita uma compreensão mais ampla e contextualizada do tema, fornecendo subsídios relevantes para a área da Psicologia.
De acordo com Souza, Silva e Carvalho (2010), a revisão integrativa é uma metodologia que busca identificar lacunas de conhecimento e orientar futuras pesquisas, ao mesmo tempo em que consolida evidências científicas sobre um tema específico. Por essa razão, constitui-se como um recurso metodológico amplamente utilizado em estudos da área da saúde e das ciências humanas, em que a complexidade dos fenômenos requer análises interpretativas e integradoras.
Para assegurar o rigor científico, este trabalho seguiu as etapas propostas por Souza, Silva e Carvalho (2010), a saber: (1) identificação do tema e formulação da questão de pesquisa; (2) estabelecimento dos critérios de inclusão e exclusão; (3) definição das bases de dados e estratégias de busca; (4) coleta e organização dos estudos; (5) análise crítica e categorização dos achados; e (6) síntese e apresentação dos resultados obtidos.
3.1. PROCEDIMENTOS DE COLETA DE DADOS
A coleta de dados foi realizada nas seguintes bases de dados eletrônicas: SciELO (Scientific Electronic Library Online), BVS-Psi (Biblioteca Virtual em Saúde – Psicologia), LILACS (Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde), PsycINFO (American Psychological Association) e Periódicos CAPES. Essas bases foram selecionadas por sua relevância científica e por reunirem publicações nacionais e internacionais de reconhecida qualidade acadêmica na área da Psicologia.
O recorte temporal adotado compreendeu o período de 2014 a 2024, contemplando a última década de produção científica — fase marcada pela consolidação e popularização das principais redes sociais digitais. Os idiomas definidos para a busca foram português, inglês e espanhol, de modo a garantir uma amostra representativa e internacional dos estudos.
Os descritores utilizados, em seus respectivos idiomas e combinados com operadores booleanos (AND, OR), foram: (“adolescência” OR “adolescence”) AND (“autoimagem” OR “self-image” OR “body image”) AND (“redes sociais” OR “social media”) AND (“comparação social” OR “social comparison”).
Essa estratégia de busca visou garantir amplitude e precisão, permitindo identificar estudos que abordassem de forma direta a relação entre redes sociais, comparação social e autoimagem na adolescência.
3.2. CRITÉRIOS DE INCLUSÃO E EXCLUSÃO
● Para a seleção dos estudos, foram definidos os seguintes critérios de inclusão:
● Artigos científicos, dissertações e teses publicados entre 2014 e 2024;
● Estudos que abordassem diretamente a relação entre o uso de redes sociais e a percepção da autoimagem;
● Pesquisas cujo público-alvo fossem adolescentes (faixa etária entre 10 e 19 anos, conforme a Organização Mundial da Saúde);
● Publicações redigidas em português, inglês ou espanhol;
● Textos disponíveis integralmente para leitura e análise.
● Os critérios de exclusão compreenderam:
● Estudos que tratassem exclusivamente de públicos adultos ou infantis;
● Pesquisas voltadas a transtornos alimentares específicos (como anorexia e bulimia) sem uma discussão direta sobre autoimagem;
● Editoriais, cartas ao editor, resenhas e revisões narrativas sem rigor metodológico;
● Artigos não disponíveis na íntegra ou sem acesso completo ao texto.
O processo de seleção ocorreu em três etapas sequenciais: leitura dos títulos para triagem inicial, leitura dos resumos para pré-seleção e leitura integral dos estudos elegíveis. Após a exclusão de duplicatas e aplicação dos critérios estabelecidos, foi obtida uma amostra final composta pelos estudos que apresentavam maior pertinência e relevância para os objetivos desta pesquisa.
3.3. ANÁLISE DOS DADOS
Os dados dos estudos selecionados foram extraídos e organizados em uma planilha no software Microsoft Excel, contemplando as seguintes variáveis: autor(es), ano de publicação, país de origem, objetivos, metodologia empregada, amostra estudada e principais resultados. Essa sistematização permitiu uma visualização comparativa e estruturada dos achados, facilitando a análise temática subsequente.
Para a análise qualitativa dos dados, empregou-se a técnica de Análise Temática de Conteúdo, conforme proposta por Bardin (2011). Esse método possibilita a identificação de núcleos de sentido e a categorização dos temas emergentes, permitindo a interpretação das regularidades e significados presentes nos textos analisados. A análise foi conduzida em três fases principais, conforme a autora: (1) Pré-análise – leitura flutuante dos textos e organização preliminar do material; (2) Exploração do material – codificação das unidades de registro e agrupamento em categorias temáticas emergentes; e (3) Tratamento dos resultados e interpretação – integração e discussão dos dados à luz da fundamentação teórica, permitindo observar convergências, divergências e lacunas na literatura.
Esse processo analítico possibilitou uma compreensão aprofundada do fenômeno estudado, fornecendo subsídios teóricos e empíricos para a discussão e para as implicações práticas no campo da Psicologia, especialmente no que diz respeito à relação entre redes sociais, autoimagem e adolescência.
4. RESULTADOS
A análise do corpus, composto pelos estudos selecionados, foi conduzida por meio da técnica de Análise Temática de Conteúdo, conforme proposto por Bardin (2016). Esse procedimento metodológico permitiu a identificação de padrões recorrentes e a emergência de temas centrais que se articulam de modo a responder ao problema de pesquisa, refletindo a complexidade das relações entre o uso das redes sociais, os processos de comparação social e a construção da autoimagem na adolescência.
O achado de maior recorrência entre os estudos evidenciou que a exposição contínua a padrões estéticos e comportamentais idealizados nas redes sociais constitui um gatilho significativo para o processo de comparação social. Os resultados analisados apontaram, de forma consistente, que essa comparação tende a assumir um caráter ascendente, isto é, o adolescente se compara com figuras percebidas como “superiores” em aparência, status ou popularidade. Tal movimento comparativo está fortemente associado à redução da autoestima, ao aumento da insatisfação corporal e ao surgimento de sentimentos de inadequação e inferioridade.
A literatura revisada sugere que esse processo é amplificado pela própria arquitetura das plataformas digitais, que operam segundo um sistema de reforço intermitente, pautado em métricas de aprovação, como curtidas, comentários e número de seguidores, reforçando a busca por validação social. Nesse contexto, a necessidade de aprovação se transforma em um ciclo de retroalimentação emocional, no qual o adolescente ajusta continuamente sua auto apresentação digital para atender às expectativas externas. Esse movimento, por sua vez, distancia o self digitalizado do self real, fomentando sentimentos de incongruência identitária.
Os estudos indicam que essa discrepância favorece o desenvolvimento de comportamentos compensatórios, como o uso excessivo de filtros, edições de imagem e a adoção de práticas alimentares restritivas, na tentativa de corresponder aos padrões percebidos como ideais. Esse quadro contribui para a distorção perceptiva da própria aparência, fenômeno que pode comprometer o bem-estar psicológico e o desenvolvimento saudável da autoimagem durante a adolescência, fase marcada por intensas transformações cognitivas, afetivas e sociais.
Além da natureza do processo comparativo, os resultados revelaram uma correlação direta entre o tempo de exposição diário às redes sociais e a intensidade dos efeitos psicológicos negativos. Os estudos analisados indicaram que adolescentes com maior frequência de uso (tempo de tela) tendem a apresentar níveis mais elevados de ansiedade, insegurança e sintomas de distorção da imagem corporal, evidenciando uma relação proporcional entre a dosagem da exposição e a vulnerabilidade psicológica.
Observou-se também que plataformas centradas em conteúdos visuais, como o Instagram e o TikTok, exercem maior influência negativa sobre a autoimagem. Essa influência decorre, em parte, do design algorítmico dessas plataformas, que prioriza conteúdos esteticamente padronizados e visualmente atrativos, reforçando ideais de beleza frequentemente inatingíveis. A análise interseccional dos dados apontou uma maior vulnerabilidade entre adolescentes do sexo feminino, que demonstraram maior preocupação com a aparência e dependência da aceitação social. Essa diferença, segundo os estudos analisados, decorre de pressões socioculturais históricas que associam o valor feminino à estética e ao reconhecimento social.
Contudo, verificou-se também um crescimento significativo da pressão estética entre adolescentes do sexo masculino, relacionada à busca por corpos musculosos e desempenho físico idealizado. Embora os ideais difiram entre gêneros, a lógica subjacente da comparação social e da busca por validação é semelhante, indicando que ambos os grupos se encontram expostos a riscos psicológicos análogos, ainda que manifestos de formas distintas.
Por fim, a análise destacou o caráter ambivalente das redes sociais, revelando que, apesar dos riscos evidentes, tais ambientes também podem funcionar como ferramentas de fortalecimento da autoimagem e de promoção da saúde mental, desde que utilizados de forma crítica, mediada e consciente. Diversos estudos relataram experiências positivas associadas à exposição a conteúdos educativos e campanhas de aceitação corporal, como o movimento body positive, que incentiva a valorização da diversidade e a desconstrução de ideais de beleza hegemônicos. Quando presentes no cotidiano digital do adolescente, esses conteúdos atuam como contra narrativas aos padrões idealizados, contribuindo para a formação de uma percepção mais realista e saudável do corpo.
Outro fator de proteção relevante identificado foi a educação midiática, ou letramento digital, que estimula o desenvolvimento do pensamento crítico diante do conteúdo consumido. A capacidade de compreender o caráter seletivo, performático e editado das postagens permite ao adolescente relativizar o processo de comparação e reduzir o impacto emocional negativo. Nesse sentido, o nível de letramento midiático atua como variável moderadora do impacto psicológico do uso das redes sociais.
Em síntese, os resultados indicam que as redes sociais não são intrinsecamente prejudiciais, mas seu impacto depende da qualidade do conteúdo consumido, do grau de criticidade do usuário e da presença de uma rede de apoio familiar, escolar ou terapêutica que favoreça o diálogo, o acolhimento e o uso consciente das mídias digitais. Assim, compreender as redes sociais como espaços multifacetados, de risco e de potencial, é essencial para o desenvolvimento de estratégias de prevenção e intervenção psicológica voltadas à promoção da autoestima e do bem-estar adolescente.
5. DISCUSSÃO
Os resultados apresentados na seção anterior, organizados por categorias temáticas, confirmam a hipótese central deste estudo: a construção da autoimagem na adolescência é, na sociedade contemporânea, fortemente influenciada pelas interações e pela dinâmica das redes sociais. Os achados corroboram diretamente os referenciais teóricos de Rogers (1951) e Harter (1999), ao evidenciarem que a autoimagem se forma por meio das experiências interpessoais e do feedback recebido do ambiente social, sendo um reflexo das percepções que o sujeito internaliza a partir das relações com o outro.
Contudo, observa-se que, quando esse feedback é mediado pela lógica algorítmica das redes, centrada em métricas de performance, visibilidade e aprovação, a percepção de si tende a ser moldada por critérios externos de validação. Nesse contexto, o adolescente passa a atribuir valor pessoal com base em indicadores quantitativos, como curtidas, comentários e número de seguidores, em detrimento de atributos internos, como competências, valores e autenticidade. Essa tendência reflete o fenômeno descrito por Perloff (2014), segundo o qual a busca por validação digital atua como um mecanismo de reforço psicológico, gerando dependência emocional e fragilidade na autoestima. A padronização estética imposta por filtros e influenciadores, por sua vez, compromete o senso de diversidade e dificulta a construção de uma identidade genuína, uma vez que promove modelos de beleza e sucesso frequentemente inatingíveis.
À luz da Psicologia Humanista e do conceito de self proposto por Rogers (1951), pode-se compreender que a incongruência entre o self real e o self idealizado, potencializada pelas redes sociais, contribui para o desenvolvimento de sentimentos de inadequação e insatisfação. Essa incongruência é intensificada pela exposição constante a comparações ascendentes, que reforçam a percepção de inferioridade e o desejo de aceitação social. Assim, o ambiente digital se apresenta como um espaço de vulnerabilidade emocional, mas também de potencial crescimento, dependendo das condições de mediação e do nível de criticidade do usuário.
Diante desse cenário, a Psicologia assume um papel fundamental na formulação de estratégias preventivas e interventivas voltadas ao público jovem. Os resultados deste estudo reforçam a necessidade de programas de educação digital e de ações psicossociais que promovam o desenvolvimento do senso crítico, da autoestima e da autonomia emocional. A psicoeducação digital, em especial, surge como uma ferramenta estratégica para conscientizar os adolescentes sobre o impacto das redes sociais em sua autoimagem e para capacitá-los a distinguir o real do idealizado.
A escola, como espaço privilegiado de formação integral, deve ser considerada um agente ativo nesse processo. A inclusão de debates sobre saúde mental, identidade, corpo e empatia digital no currículo escolar pode favorecer a construção de uma cultura de autocuidado e respeito à diversidade. O diálogo entre professores, psicólogos escolares e alunos contribui para desmistificar padrões e promover reflexões sobre o uso responsável das tecnologias. Da mesma forma, o ambiente familiar exerce papel determinante: pais e responsáveis precisam acompanhar o uso das mídias digitais de forma aberta e dialogada, oferecendo suporte emocional e promovendo espaços de acolhimento.
Para além das intervenções individuais, como a terapia cognitivo-comportamental e a psicoeducação, a discussão deve se estender ao campo coletivo e político. Os achados reforçam a urgência de políticas públicas voltadas à saúde mental infantojuvenil e ao uso ético e consciente das tecnologias digitais. Campanhas educativas que valorizem a diversidade corporal e a aceitação de diferentes expressões de identidade podem reduzir o impacto negativo das redes e fomentar uma cultura de pertencimento. A atuação interdisciplinar entre Psicologia, Educação e Comunicação é essencial para o desenvolvimento de práticas de promoção da saúde e de prevenção de sofrimento psíquico.
Por fim, é imprescindível refletir sobre a responsabilidade ética das próprias plataformas digitais e dos criadores de conteúdo. O incentivo a produções que valorizem a pluralidade, a autenticidade e a transparência pode transformar o ambiente virtual em um espaço mais inclusivo e saudável. O uso de filtros e recursos de edição deve ser pautado por práticas éticas e pela clareza sobre o caráter construído das imagens, evitando a perpetuação de padrões estéticos inatingíveis. Assim, promover uma cultura digital mais crítica, empática e consciente é não apenas um desafio técnico, mas também ético e psicológico, que exige o engajamento conjunto de indivíduos, instituições e sociedade.
6. CONCLUSÃO
Com base na revisão integrativa realizada, conclui-se que as redes sociais exercem influência direta e significativa na formação da autoimagem during a adolescência. A exposição prolongada a conteúdos idealizados promove comparações constantes, que podem gerar distorções na percepção de si e comprometer a saúde emocional dos jovens. A busca por aceitação, mediada por curtidas, comentários e seguidores, tornou-se um fator determinante na forma como os adolescentes avaliam o próprio valor, refletindo um processo de construção identitária cada vez mais mediado por algoritmos e pela cultura da performance digital.
Os resultados analisados demonstram que a adolescência, por ser uma fase marcada pela construção do autoconceito e pela necessidade de pertencimento, encontra no ambiente digital um espaço de amplificação das pressões sociais e midiáticas. O que poderia ser um campo de expressão, criatividade e socialização frequentemente se transforma em um ambiente de autocrítica e comparação constante. Essa dinâmica reforça ideais de beleza e sucesso inatingíveis, gerando sentimentos de inadequação e insatisfação corporal.
Apesar dos riscos observados, é importante reconhecer que as redes sociais não são, por natureza, nocivas. Elas também podem funcionar como instrumentos de promoção da autoestima, do engajamento social e da conscientização sobre temas relacionados à saúde mental, desde que utilizadas de forma crítica e mediada. O desenvolvimento do letramento digital e o fortalecimento da educação emocional se mostram estratégias fundamentais para auxiliar os jovens a construírem uma relação mais equilibrada com o ambiente virtual.
Como limitações deste estudo, destaca-se que a revisão integrativa, embora tenha utilizado múltiplas bases de dados, se restringiu às publicações em português, inglês e espanhol, podendo ter excluído estudos relevantes em outros idiomas. Além disso, por se tratar de uma revisão de natureza qualitativa, os resultados não permitem generalizações estatísticas, mas sim a identificação de padrões e tendências que orientam futuras investigações.
Recomenda-se que pesquisas futuras explorem o impacto das redes sociais em diferentes contextos socioculturais e econômicos, levando em consideração variáveis como gênero, classe social e etnia. Estudos longitudinais poderão contribuir para compreender de que forma o uso contínuo das redes afeta a construção da autoimagem e os indicadores de saúde mental ao longo do tempo. Também se sugere que novas investigações abordem o potencial positivo das mídias digitais como ferramentas de apoio psicológico, autocuidado e construção de comunidades de acolhimento.
Conclui-se, portanto, que o desafio contemporâneo não reside em eliminar as redes sociais, mas em promover o uso consciente e equilibrado dessas plataformas. Cabe à Psicologia, em diálogo com a Educação e a Comunicação, desenvolver estratégias de prevenção e intervenção que fortaleçam o autoconhecimento, a empatia e a autenticidade. Assim, o adolescente poderá se reconhecer como protagonista de sua própria história, tanto no ambiente digital quanto fora dele, construindo uma autoimagem mais saudável, crítica e integrada à realidade social em que vive.
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1Graduando em Psicologia – Faculdade UNINASSAU Palmas.
2Graduando em Psicologia – Faculdade UNINASSAU Palmas.
3Graduando em Psicologia – Faculdade UNINASSAU Palmas.
4Graduando em Psicologia – Faculdade UNINASSAU Palmas.
5Professor orientador, graduado em Psicologia pela Faculdade Integrada de Ensino Superior de Colinas.
