THE INFLUENCE OF HIERARCHY AND DISCIPLINE ON RESISTANCE TO THE ADOPTION OF PARTICIPATIVE LEADERSHIP: A LITERATURE REVIEW APPLIED TO PMPR
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202602202226
Jamerson de Moura1
Matheus Marques de Almeida2
Resumo
Este estudo analisa a tensão dialética entre a cultura organizacional militar — alicerçada nos pilares constitucionais da hierarquia e disciplina — e a implementação de modelos de liderança participativa no contexto da Polícia Militar do Paraná (PMPR). Por meio de uma pesquisa teórico-bibliográfica, a análise explora como o processo de socialização militar internaliza valores de autoridade vertical e obediência, elementos que, embora vitais para a coesão em cenários de crise, podem atuar como barreiras estruturais à descentralização e ao empoderamento de subordinados. A investigação demonstra que a resistência à modernização da gestão manifesta-se de formas ativa, passiva e sistêmica, enraizada em uma incompatibilidade entre a comunicação horizontal e os fluxos tradicionais de poder. Discute-se que a transição para modelos colaborativos não deve ser encarada como uma imposição externa, mas como uma evolução necessária para a saúde mental da tropa, a retenção de talentos e a eficiência operacional frente aos desafios contemporâneos da segurança pública. Conclui-se que a viabilidade da liderança participativa na PMPR depende de uma abordagem adaptativa e gradual, capaz de sopesar a manutenção da ordem com o engajamento institucional, promovendo uma modernização que respeite a identidade militar enquanto aprimora a gestão de pessoas.
Palavras-chave: Cultura Organizacional Militar. Liderança Participativa. Hierarquia. Disciplina. PMPR. Gestão de Pessoas.
Abstract
This study analyzes the dialectical tension between military organizational culture—grounded in the constitutional pillars of hierarchy and discipline—and the implementation of participative leadership models within the context of the Military Police of Paraná (PMPR). Through theoretical-bibliographic research, the analysis explores how the military socialization process internalizes values of vertical authority and obedience, elements that, while vital for cohesion in crisis scenarios, can act as structural barriers to decentralization and subordinate empowerment. The investigation demonstrates that resistance to management modernization manifests in active, passive, and systemic forms, rooted in an incompatibility between horizontal communication and traditional power flows. It argues that the transition to collaborative models should not be seen as an external imposition, but as a necessary evolution for the mental health of the troops, talent retention, and operational efficiency in the face of contemporary public security challenges. The study concludes that the feasibility of participative leadership within the PMPR depends on an adaptive and gradual approach, capable of balancing the maintenance of order with institutional engagement, promoting a modernization that respects military identity while enhancing personnel management.
Keywords: Military Organizational Culture; Participative Leadership; Hierarchy; Discipline; PMPR; Human Resources Management.
1 INTRODUÇÃO
A contemporaneidade impõe às organizações, sejam elas públicas ou privadas, a necessidade de adaptabilidade e inovação frente aos desafios e demandas, a fim de se manterem como referências em seus respectivos nichos. No contexto brasileiro, especificamente nas instituições policiais militares, esse desafio é amplificado pela complexidade dos problemas sociais, pela demanda por maior transparência e responsabilidade, e pela necessidade de otimizar a gestão de recursos humanos às demais variáveis e indicadores que envolvem a Segurança Pública. Contudo, a natureza intrínseca dessas organizações, forjada em séculos de tradição militar, apresenta características culturais que podem colidir com as premissas de modelos de gestão modernos, como a liderança participativa.
Considerando que a cultura organizacional constitui o sistema de significados que orienta implicitamente o comportamento coletivo (Schein; Schein, 2022), em se tratando das instituições policiais militares, esses pressupostos culturais não apenas organizam as rotinas internas, mas legitimam padrões de autoridade e de obediência que se tornam naturalizados ao longo do processo de socialização profissional. A internalização contínua desses valores molda percepções sobre comando, responsabilidade e tomada de decisão, restringindo espaços de autonomia e participação decisória. Nesse ambiente, práticas de liderança que pressupõem diálogo, corresponsabilização e descentralização tendem a ser percebidas como dissonantes da lógica institucional dominante, o que contribui para a emergência de resistências à adoção de modelos participativos.
A Polícia Militar do Paraná (PMPR), assim como outras forças congêneres no Brasil, opera sob um arcabouço legal e institucional estabelecido sobre uma estrutura vertical de comando e de obediência estrita às normas. O processo formativo de seus integrantes enfatiza a assimilação desses valores como condição para a coesão e a eficácia organizacional, moldando identidades profissionais fortemente alinhadas à lógica hierárquica. Nesse contexto, iniciativas de gestão que propõem alterações nos padrões tradicionais de liderança enfrentam desafios específicos, relacionados não apenas à estrutura formal da organização, mas também à forma de como seus membros interpretam autoridade, legitimidade e papel institucional.
O problema central que este artigo busca abordar reside na lacuna teórica e prática sobre como a hierarquia e a disciplina, pilares da cultura organizacional militar, influenciam a resistência à implementação de lideranças participativas na PMPR. Embora a literatura sobre liderança participativa e cultura organizacional seja vasta, a intersecção específica entre a rigidez militar e a flexibilidade participativa, sob uma perspectiva teórica aprofundada, ainda carece de maior exploração, sobretudo no contexto institucional da PMPR. A compreensão dessa dinâmica é fundamental para o desenvolvimento de estratégias de gestão de pessoas mais eficazes e para a promoção de uma cultura organizacional que, sem comprometer a segurança e a ordem, possa incorporar elementos de colaboração e inovação.
Diante da dicotomia apresentada, este estudo justifica-se pela necessidade de compreender se a resistência à liderança participativa é uma barreira intransponível ou se existem espaços de convergência que permitam a evolução da gestão de pessoas na PMPR sem o comprometimento de seus pilares fundamentais.
O objetivo geral deste artigo é analisar teoricamente como a liderança participativa pode incidir sobre uma estrutura rígida e hierarquizada militarmente como a PMPR. Para tanto, serão perseguidos os seguintes objetivos específicos: (a) caracterizar a cultura organizacional militar, destacando os papéis da hierarquia e da disciplina; (b) apresentar os fundamentos teóricos da liderança participativa e seus benefícios potenciais; (c) discutir as incompatibilidades estruturais e culturais entre o modelo de liderança militar hierárquico e o modelo de liderança participativa; (d) sopesar as possibilidades e os limites de convergência entre o rigor da disciplina militar e a adoção de estratégias de liderança participativa na PMPR.
A relevância deste estudo é multifacetada: para a academia, ele contribui para aprofundar o debate sobre a tensão entre cultura organizacional militar e modelos contemporâneos de liderança, oferecendo uma síntese teórica original sobre as incompatibilidades estruturais e culturais; para a PMPR, o artigo visa fornecer subsídios teóricos para a compreensão dos desafios internos na implementação de novas abordagens de liderança, auxiliando na formulação de políticas e programas de desenvolvimento de pessoal que considerem as particularidades da cultura militar. A análise proposta busca ir além da mera constatação da resistência, examinando suas raízes profundas e suas implicações para a eficácia organizacional e o bem-estar dos policiais militares. A expectativa é de que este trabalho possa servir como um ponto de partida para discussões mais amplas sobre a modernização da gestão de pessoas na PMPR, sem descaracterizar sua missão essencial.
2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
A compreensão da dinâmica entre a cultura organizacional militar e os modelos de liderança participativa exige uma fundamentação teórica robusta, que abranja tanto as características intrínsecas das instituições policiais militares quanto os princípios que regem as abordagens de liderança mais colaborativas. Esta seção se propõe a desdobrar esses conceitos, estabelecendo as bases para a análise das incompatibilidades e da resistência.
2.1 CULTURA ORGANIZACIONAL MILITAR COMO SISTEMA DE VALORES
A cultura organizacional militar é um fenômeno complexo, enraizado em séculos de história e adaptado às exigências de ambientes de alto risco e de tomada de decisão rápida. Para Edgar e Peter Schein (2022), cultura organizacional não é apenas um conjunto de normas visíveis, mas a base implícita que orienta como o grupo interpreta problemas e decide agir. Esses pressupostos coletivos se estabilizam quando a organização aprende, na prática, a responder às demandas do ambiente e a manter sua coesão interna; com o tempo, tornam-se um “referencial padrão” transmitido aos recém-ingressos como a forma adequada de compreender e conduzir situações recorrentes. No contexto militar, esses pressupostos são profundamente moldados pela necessidade de coesão, disciplina e eficácia em situações de combate ou de manutenção da ordem pública.
A hierarquia e a disciplina emergem como os pilares fundamentais dessa cultura. A hierarquia, expressa na estrutura de postos e graduações, estabelece uma cadeia de comando clara e inquestionável, onde a autoridade é conferida pela posição formal. Essa estrutura vertical é percebida como essencial para a coordenação de grandes contingentes e para a execução de ordens em cenários de alta pressão, onde a ambiguidade pode ser fatal. A disciplina, por sua vez, é o mecanismo que garante a obediência às ordens e a conformidade com as normas e regulamentos. Ela é internalizada desde a formação, como evidenciado por estudos sobre as concepções de professores da Academia de Polícia Militar de Brasília acerca de seus alunos (Nascimento; Cerqueira, 2015), que demonstram como os valores de subordinação e respeito à autoridade são transmitidos e reforçados. A disciplina não é apenas um conjunto de regras, mas um valor moral que permeia todas as esferas da vida militar, moldando o comportamento individual e coletivo.
A socialização militar é um processo intensivo que visa inculcar esses valores e pressupostos básicos. Poncioni (2005), ao analisar o modelo policial profissional e a formação do futuro policial no estado do Rio de Janeiro, destaca como a cultura militar é transmitida e internalizada, criando uma identidade profissional que valoriza a força, a ordem e a obediência. Essa identidade é reforçada por rituais, símbolos e um sistema de recompensas e punições que legitimam a estrutura hierárquica e a disciplina. A centralidade do controle e da conformidade na manutenção da ordem interna reflete a importância da disciplina como um mecanismo de coesão e controle social dentro da instituição. De acordo com Pontes (2023), o poder disciplinar nas esferas militares federais opera como um instrumento crítico de regulação comportamental, onde o controle jurisdicional sobre esse poder revela tanto sua necessidade operacional quanto seus potenciais abusos.
No contexto brasileiro, a militarização e profissionalização das polícias militares, segundo Costa (2023), reforçam a persistência desses traços culturais. A estrutura militar é vista não apenas como um modelo organizacional, mas como um componente intrínseco da identidade e da missão dessas forças. Isso gera uma cultura onde a hierarquia e a disciplina são percebidas como garantias de eficácia e segurança, tanto para os membros da instituição quanto para a sociedade. Ressalte-se que a hierarquia e a cultura organizacional nas Polícias Militares brasileiras estruturam relações de poder verticalizadas que afetam o ambiente de trabalho e as interações interpessoais, criando tensões e desafios recorrentes para a gestão de pessoas (Brasil, 2016).
A cultura policial militar, portanto, não é meramente um conjunto de regras, mas um sistema de valores profundamente arraigados que moldam a percepção, o pensamento e o comportamento de seus membros. A obediência, a lealdade, a coragem e o sacrifício são valores que, embora essenciais para a missão policial, podem criar um ambiente onde a iniciativa individual, o questionamento e a participação em processos decisórios são vistos com desconfiança ou como desvios da norma. Esses elementos constituem a base cultural a partir da qual se tornam inteligíveis as manifestações de resistência analisadas nas seções seguintes.
A cultura das instituições policiais militares brasileiras, como se vê em Brasil (2016), ao discutir os efeitos da hierarquia e de aspectos da cultura organizacional sobre a dinâmica institucional, demonstra como os pressupostos básicos da cultura militar podem gerar resistência a novos paradigmas, mesmo aqueles que visam aprimorar a atuação policial e a relação com a comunidade. A resistência a mudanças organizacionais, como estudado por Figueiredo e Bianco (2020) em uma instituição militar, é uma manifestação direta dessa cultura arraigada, que tende a preservar o status quo e a rejeitar inovações que possam ameaçar seus pressupostos básicos. Esses elementos constituem a base cultural a partir da qual se tornam inteligíveis as manifestações de resistência analisadas nas seções seguintes.
2.2 LIDERANÇA PARTICIPATIVA: FUNDAMENTOS TEÓRICOS
Um dos referenciais clássicos para a compreensão da liderança participativa é o modelo desenvolvido por Tannenbaum e Schmidt (1973), que propõe a liderança como um fenômeno variável distribuído ao longo de um espectro. A apresentação desses fundamentos não tem caráter prescritivo, mas analítico, permitindo compreender os pontos de tensão entre esse modelo e a cultura organizacional militar. Nesse continuum, o grau de autoridade concentrada no líder pode ser gradualmente reduzido à medida que aumenta a participação dos subordinados. A liderança participativa emerge não como a negação da autoridade formal, mas como uma escolha deliberada de ampliar a influência dos membros da equipe nos processos decisórios, considerando fatores como maturidade profissional, contexto organizacional e natureza da tarefa.
A liderança participativa representa um paradigma de gestão que contrasta significativamente com os modelos tradicionais de comando e controle, especialmente aqueles observados em organizações militares. Em sua essência, a liderança participativa envolve o compartilhamento de poder e a inclusão dos subordinados nos processos de tomada de decisão, visando aumentar o engajamento, a motivação e a qualidade das decisões. Este modelo baseia-se na premissa de que os membros da equipe, por estarem mais próximos da operação e possuírem conhecimentos específicos, podem contribuir de forma valiosa para a resolução de problemas e para a inovação.
Complementarmente, Vroom e Jago (1974) deslocam o debate sobre liderança participativa para o campo da tomada de decisão, enfatizando que o nível de envolvimento dos subordinados deve ser definido de forma estratégica, e não ideológica. Para esses autores, a participação não constitui um valor absoluto, mas um recurso gerencial cujo uso depende de variáveis como a complexidade do problema, a necessidade de comprometimento da equipe e as restrições de tempo impostas à decisão. Dessa perspectiva, a liderança participativa é compreendida como uma ferramenta contingencial, empregada quando a contribuição dos subordinados agrega valor ao processo decisório e fortalece a legitimidade das escolhas realizadas.
A liderança transformacional, embora não seja estritamente sinônimo de liderança participativa, compartilha muitos de seus princípios e é frequentemente associada a resultados positivos em termos de engajamento e desempenho. Deinert et al. (2015), em seu estudo sobre as subdimensões da liderança transformacional e sua ligação com a personalidade e o desempenho dos líderes, destacam como líderes transformacionais inspiram e motivam seus seguidores a transcender seus interesses próprios em prol do bem maior da organização. Isso é alcançado através de atributos como influência idealizada, motivação inspiradora, estimulação intelectual e consideração individualizada. A estimulação intelectual, em particular, encoraja os subordinados a questionar o status quo, a pensar de forma criativa e a participar ativamente na resolução de problemas, o que se alinha diretamente com os princípios da liderança participativa.
A literatura internacional também oferece um arcabouço valioso sobre a liderança em contextos organizacionais diversos. De acordo com Jackson e colaboradores (2020), é necessário adaptar os estilos de liderança às especificidades de cada ramo das forças armadas, indicando uma abertura, ainda que limitada, para a flexibilização dos modelos tradicionais. Embora a hierarquia e a disciplina permaneçam centrais, há um reconhecimento crescente da importância de desenvolver líderes que possam inspirar e engajar seus subordinados de maneiras mais sofisticadas do que o mero comando e controle.
A revisão de Wong, Bliese e McGurk (2003), em “Military leadership: A context specific review”, embora focada na liderança militar, também aponta para a evolução das expectativas em relação aos líderes, que precisam equilibrar a autoridade com a capacidade de motivar e desenvolver suas equipes. Isso sugere que, mesmo em ambientes tradicionalmente hierárquicos, há um espaço crescente para elementos de liderança que se aproximam do participativo, especialmente em níveis táticos e operacionais onde a iniciativa e a adaptabilidade são cruciais.
A liderança participativa, portanto, não é apenas um ideal democrático, mas uma estratégia de gestão que busca otimizar o capital humano, promover a inovação e aumentar a resiliência organizacional em um ambiente em constante mudança. Seus fundamentos teóricos apontam para uma abordagem mais flexível e adaptativa, que reconhece o valor da contribuição individual e coletiva para o sucesso organizacional.
2.3 A LIDERANÇA NO CONTEXTO MILITAR BRASILEIRO
A liderança em instituições militares brasileiras, como no Exército e nas Polícias Militares, é um campo de estudo que reflete a complexidade de conciliar a rigidez de uma estrutura hierárquica com as demandas por uma gestão de pessoas mais moderna e eficaz. Tradicionalmente, o modelo de liderança militar é pautado pelo comando e controle, onde a autoridade é exercida de forma vertical e a obediência constitui valor inegociável e corolário da hierarquia e disciplina, consolidando-se como bem jurídico tutelado pela pretensão punitiva estatal no âmbito castrense, inclusive. No entanto, a crescente complexidade das missões, a necessidade de adaptação a novos cenários e a valorização do capital humano têm impulsionado discussões sobre a evolução desses modelos.
Estudos sobre a liderança em organizações militares brasileiras revelam uma busca por conciliar a tradição com a inovação. A pesquisa de Moreira e Schmitt (2016) sobre o processo de transformação do Exército Brasileiro a partir da percepção de oficiais da Força, por exemplo, indica que, embora a hierarquia e a disciplina sejam mantidas como pilares, há um reconhecimento da necessidade de desenvolver líderes que possam inspirar e motivar seus subordinados. Essa percepção aponta para uma abertura, ainda que gradual, para a incorporação de elementos de liderança que se aproximam do transformacional e, por extensão, do participativo. Essas iniciativas, contudo, permanecem condicionadas aos limites impostos pela hierarquia e pela disciplina, não configurando uma substituição do modelo tradicional. Ainda de acordo com Moreira e Schmitt (2016), os oficiais percebem que a eficácia não reside apenas na imposição de ordens, mas na capacidade de engajar a tropa em torno de um propósito comum.
A liderança transformacional, em particular, tem sido objeto de estudo em contextos militares, como demonstrado por García (2015), em um estudo de caso no Exército Português. As conclusões desse estudo sobre a aplicabilidade da liderança transformacional em uma organização em mudança são altamente relevantes para o cenário brasileiro. A liderança transformacional, ao focar na inspiração, na estimulação intelectual e na consideração individualizada, pode ser uma ponte entre o modelo tradicional de comando e controle e as abordagens mais participativas, permitindo que os líderes militares motivem seus subordinados a irem além do cumprimento estrito do dever, fomentando a iniciativa e a criatividade dentro dos limites da disciplina.
No âmbito específico do Exército Brasileiro, a liderança é frequentemente analisada sob a ótica de sua funcionalidade e eficácia. A pesquisa de Del Cantone Junior (2018), explora as práticas de liderança em diferentes unidades, revelando a coexistência de estilos que variam do autocrático ao mais consultivo, dependendo da situação e do nível hierárquico. Isto sugere que, na prática, os líderes militares já adaptam seus estilos, mesmo que informalmente, para otimizar o desempenho de suas equipes. A gestão de pessoas, como abordado por Bandeira (2019), é uma área onde se evidencia a necessidade de abordagens mais participativas, considerando que a motivação dos militares não pode ser sustentada apenas pela disciplina e pela hierarquia: ela requer o reconhecimento, o desenvolvimento e o engajamento, elementos que são centrais à liderança participativa.
Apesar dessas tendências, a cultura organizacional militar brasileira ainda impõe desafios significativos à plena adoção de lideranças participativas. A hierarquia e a disciplina são valores tão arraigados, até mesmo pré-existentes e determinantes na escolha profissional dos militares, que qualquer tentativa de descentralização da decisão ou de empoderamento dos subordinados pode ser percebida como uma ameaça à ordem e à coesão. A dissertação de Chizek (2025), embora focada em unidades de combate dos EUA, explora a relação entre estilos de liderança e eficácia organizacional em um contexto militar, sublinhando que, mesmo em ambientes de alta performance, a escolha do estilo de liderança é crucial e pode impactar diretamente os resultados. Isso reforça a ideia de que a liderança participativa, se bem aplicada e adaptada, pode trazer benefícios mesmo em contextos militares, desde que haja uma compreensão clara de seus limites e de como ela pode coexistir com os valores fundamentais da instituição.
Em suma, a liderança no contexto militar brasileiro está em um processo de evolução, buscando equilibrar a necessidade de uma estrutura hierárquica e disciplinada com as demandas por maior engajamento e motivação dos militares. A liderança transformacional e os elementos da liderança participativa se mostram como caminhos potenciais para essa conciliação, mas a resistência cultural e as barreiras institucionais ainda representam desafios significativos. A compreensão dessas dinâmicas é crucial para instituições policiais militares brasileiras, que buscam aprimorar sua gestão de pessoas e sua capacidade de resposta aos desafios da Segurança Pública.
2.4 INCOMPATIBILIDADES ESTRUTURAIS
A análise comparativa entre a cultura organizacional militar e os fundamentos da liderança participativa evidencia incompatibilidades estruturais profundas, enraizadas nos pressupostos que orientam a organização do poder, os fluxos de comunicação e os níveis de autonomia decisória nas instituições policiais militares. Essas incompatibilidades não se manifestam como disfunções pontuais, mas como diferenças estruturais entre dois modelos de organização e gestão baseados em lógicas distintas de autoridade e coordenação (Vroom; Jago, 1974; Schein; Schein, 2022).
No modelo organizacional militar, a distribuição do poder é fortemente centralizada e legitimada pela posição hierárquica formal, assegurando unidade de comando, previsibilidade decisória e capacidade de resposta rápida em contextos de risco. Em contrapartida, a liderança participativa pressupõe a ampliação seletiva da influência dos subordinados nos processos decisórios, reconhecendo sua competência técnica e proximidade com a execução das atividades. Essa divergência estrutural estabelece um contraste entre conformidade e iniciativa como princípios organizadores da ação coletiva.
De forma complementar, a estrutura comunicacional militar caracteriza-se pela predominância de fluxos verticais e descendentes, nos quais a transmissão de ordens e informações segue a cadeia de comando formal. A liderança participativa, por sua vez, depende da circulação multidirecional de informações, do feedback ascendente e do diálogo entre diferentes níveis organizacionais. A coexistência desses modelos gera tensões estruturais relacionadas à legitimidade da comunicação ascendente e ao papel do dissenso nos processos decisórios.
Uma terceira incompatibilidade refere-se à autonomia e à responsabilização individual. Enquanto a cultura militar enfatiza a padronização comportamental e a subordinação da ação individual aos objetivos institucionais definidos hierarquicamente, a liderança participativa fundamenta-se no empoderamento dos membros da organização e na ampliação da autonomia decisória em áreas específicas de atuação. Essa diferença expressa um conflito estrutural entre controle hierárquico e corresponsabilização baseada na competência técnica e no julgamento profissional.
Em síntese, as incompatibilidades estruturais entre a cultura organizacional militar e a liderança participativa decorrem de diferenças fundamentais na forma como poder, comunicação e autonomia são organizados e legitimados. A compreensão dessas incompatibilidades é essencial para analisar por que iniciativas de liderança participativa tendem a enfrentar resistência em instituições policiais militares, servindo de base para a análise das barreiras culturais e normativas que sustentam esse fenômeno.
3 METODOLOGIA
A presente pesquisa caracteriza-se como um estudo teórico-bibliográfico, cujo objetivo principal é analisar a influência da hierarquia e da disciplina na cultura organizacional de instituições policiais militares, especificamente no que tange à resistência à adoção de lideranças participativas. Este delineamento metodológico é intrinsecamente adequado para a exploração de fenômenos complexos que demandam uma compreensão aprofundada de conceitos, teorias e modelos existentes na literatura científica (Gil, 2017). A escolha por uma abordagem teórica pura, sem a necessidade de pesquisa de campo, justifica-se pela natureza do problema, que busca sintetizar conhecimentos já produzidos para gerar uma nova perspectiva sobre as incompatibilidades culturais e estruturais.
3.1 DELINEAMENTO DO ESTUDO
O delineamento do estudo é de natureza qualitativa e exploratória, com foco na revisão sistemática da literatura e na análise conceitual. A pesquisa exploratória é apropriada para temas que ainda não foram suficientemente investigados ou que demandam uma nova perspectiva, como a tensão específica entre a cultura militar e a liderança participativa no contexto da segurança pública brasileira. A abordagem qualitativa permite aprofundar a compreensão dos significados, valores e pressupostos que permeiam a cultura organizacional militar e os modelos de liderança, indo além da mera quantificação de dados (Gil, 2017).
A revisão da literatura, de natureza bibliográfica estruturada, embora não configurada como uma revisão sistemática no sentido estrito de uma metanálise, seguiu princípios de rigor na seleção, organização e análise das fontes. Foram priorizados artigos científicos publicados em periódicos revisados por pares, bem como teses, dissertações e obras de autores reconhecidos nas áreas de administração, sociologia organizacional, segurança pública e estudos militares. A seleção das referências baseou-se em sua pertinência direta ao tema central do artigo e em sua capacidade de sustentar, de forma consistente, os argumentos relacionados à cultura organizacional militar, à liderança participativa e aos mecanismos de resistência organizacional. Esse procedimento permitiu a construção de um arcabouço teórico coerente e integrado, adequado aos objetivos analíticos propostos.
A coleta de dados consistiu na identificação, leitura e fichamento das referências selecionadas. Cada documento foi analisado para extrair conceitos-chave, argumentos centrais, evidências teóricas e empíricas (quando presentes) que pudessem contribuir para a construção da análise. A atenção foi direcionada para a identificação de padrões, contradições e lacunas na literatura, permitindo a construção de uma argumentação coesa e original. A natureza teórica do estudo implica que a “análise de dados” se traduz na síntese e interpretação crítica das informações coletadas, visando construir um arcabouço conceitual que explique o fenômeno da resistência.
3.2 PROCEDIMENTOS DE ANÁLISE
Os procedimentos de análise foram estruturados em etapas sequenciais, garantindo a profundidade e a coerência da argumentação. Primeiramente, realizou-se a desconstrução conceitual dos termos “cultura organizacional militar”, “hierarquia”, “disciplina” e “liderança participativa”. Para a cultura organizacional, a obra de Schein e Schein (2022) foi fundamental, permitindo a compreensão dos níveis de cultura (artefatos, valores declarados e pressupostos básicos) e sua aplicação ao contexto militar. A hierarquia e a disciplina foram analisadas através de uma perspectiva multidimensional, considerando tanto suas manifestações estruturais quanto seus mecanismos de internalização. A análise examinou como hierarquia e disciplina, conforme documentado por Poncioni (2005) e Costa (2023), operam como pressupostos básicos que orientam implicitamente o comportamento coletivo nas instituições militares, transcendendo sua dimensão meramente normativa. Esse aprofundamento foi essencial para compreender por que a resistência à liderança participativa não é meramente uma questão de má vontade, mas uma defesa de um sistema de valores que se provou eficaz em seu contexto histórico.
Em seguida, procedeu-se à identificação das intersecções e tensões entre esses conceitos. O foco foi em como os pressupostos da cultura militar colidem com os princípios da liderança participativa. Por exemplo, a centralização da decisão militar versus a descentralização participativa; a comunicação vertical militar versus a comunicação multidirecional participativa; e a padronização comportamental militar versus o empoderamento individual participativo. Essa etapa envolveu a comparação e o contraste das características de cada paradigma, utilizando as referências para ilustrar e fundamentar cada ponto de incompatibilidade. Estudos sobre a cultura policial militar brasileira de Nascimento e Cerqueira (2015), Brasil (2016) e Figueiredo e Bianco (2020), assim como as pesquisas sobre liderança em contexto militar de García (2015), Moreira e Schmitt (2016), Del Cantone Junior (2018) e Bandeira (2019), foram cruciais para contextualizar essas tensões na realidade nacional.
A terceira etapa consistiu na construção de um modelo explicativo da resistência organizacional. A resistência não foi tratada como um fenômeno isolado, mas como uma consequência lógica das incompatibilidades estruturais e culturais. Foram exploradas as diferentes formas de manifestação da resistência (ativa, passiva, sistêmica) e as barreiras que a sustentam (normativas, culturais, identitárias). As publicações de Jackson et alii (2020), Marrone et alii (2021) e Meredith et alii (2017), sobre o desenvolvimento de líderes militares, as causas organizacionais de atrito e a mudança institucional , juntamente com estudos internacionais sobre liderança capacitadora, cultura organizacional militar e riscos morais no policiamento (Teixeira et al., 2024; Oling et al., 2022; Blumberg et al., 2020), forneceram insights sobre como as organizações militares lidam com a mudança e as causas da resistência em contextos semelhantes. A dissertação de Chizek (2025) sobre estilos de liderança e eficácia em unidades militares também contribuiu para entender como a cultura militar pode influenciar a aceitação de diferentes abordagens de liderança.
3.3 ANÁLISE DE DADOS
A análise de dados neste estudo bibliográfico não envolveu a manipulação de dados empíricos, mas sim a síntese interpretativa e a construção argumentativa a partir das referências selecionadas. Cada referência foi tratada como uma peça de um quebra-cabeça conceitual, e o processo de análise consistiu em encaixar essas peças para formar um quadro coerente e explicativo. A análise foi guiada pela pergunta de pesquisa: “Como a hierarquia e a disciplina influenciam a resistência à adoção de lideranças participativas em instituições policiais militares?”.
A interpretação dos textos foi realizada de forma crítica, buscando identificar não apenas o que os autores afirmam, mas também as implicações de suas afirmações para o problema em questão. Por exemplo, ao analisar a centralidade da disciplina (Pontes, 2023), a interpretação se estendeu para como essa centralidade pode inibir a iniciativa individual e a participação. Ao examinar a liderança transformacional (Deinert et al., 2015) em contextos militares (García, 2015; Moreira; Schmitt, 2016), a análise buscou identificar os pontos de convergência e divergência com a liderança participativa e os desafios de sua implementação em ambientes hierárquicos.
A argumentação foi construída por meio de um processo iterativo, no qual as ideias evoluíram e foram refinadas, sendo validadas e sustentadas por um robusto conjunto de referências, cuja interconexão entre suas categorias (cultura militar, liderança militar, estudos internacionais, teorias clássicas) foi fundamental para construir uma análise multidimensional. Por exemplo, a discussão sobre a cultura organizacional militar foi enriquecida pela teoria geral (Schein; Schein, 2022) e pelos estudos sobre a aculturação militar (Costa, 2023). A resistência à mudança (Figueiredo; Bianco, 2020) foi explicada pelas incompatibilidades estruturais (Brasil, 2016) e pelos pressupostos culturais (Nascimento; Cerqueira, 2015; Poncioni, 2005).
Finalmente, a análise culminou na formulação de implicações teóricas e práticas para a PMPR. As implicações teóricas buscam preencher a lacuna na literatura ao oferecer uma síntese original sobre a tensão entre cultura militar e liderança participativa. As implicações práticas visam fornecer subsídios para a Gestão de Pessoas na PMPR, sugerindo caminhos para a mitigação da resistência e para a adaptação de modelos de liderança que respeitem a identidade militar, mas que também incorporem elementos de participação e engajamento. A análise de dados, portanto, foi um exercício de construção de conhecimento a partir da literatura existente, visando oferecer uma contribuição significativa para o campo de estudo e para a prática organizacional.
4 RESULTADOS E DISCUSSÕES
A análise teórica empreendida, fundamentada nas referências selecionadas, revela um quadro complexo de interações da cultura organizacional militar, da hierarquia, da disciplina e da resistência à adoção de lideranças participativas. Os resultados e a discussão subsequente se desdobram em três eixos principais: as manifestações da resistência organizacional, as barreiras culturais e normativas que a sustentam e as implicações específicas para a Polícia Militar do Paraná (PMPR).
4.1 MANIFESTAÇÕES DA RESISTÊNCIA ORGANIZACIONAL
A resistência à adoção de lideranças participativas em instituições policiais militares não se manifesta de forma monolítica, mas através de um espectro de comportamentos e atitudes. A partir das referências selecionadas, é possível organizar essas manifestações em três categorias analíticas: resistência ativa, resistência passiva e resistência sistêmica.
4.1.1 A resistência ativa
É caracterizada por ações explícitas de oposição às iniciativas de liderança participativa. Isso pode incluir a rejeição discursiva de propostas, onde líderes e subordinados expressam abertamente ceticismo ou desaprovação em relação a modelos que consideram “brandos” ou “inadequados” para o ambiente militar. Essa rejeição discursiva manifesta-se através de argumentos operacionais que questionam a viabilidade da participação em contextos de risco, onde a rapidez decisória e a unidade de comando são percebidas como fatores críticos de sucesso. Estudos sobre a cultura policial militar brasileira, como as concepções de professores da Academia de Polícia Militar de Brasília (Nascimento; Cerqueira, 2015), revelam que a formação inicial já estrutura repertórios argumentativos que legitimam a rejeição de modelos menos hierárquicos, criando uma resistência discursiva institucionalizada que transcende posicionamentos individuais. A resistência ativa também pode se manifestar em sabotagem velada ou explícita de projetos-piloto de liderança participativa, onde a falta de cooperação ou a criação intencional de obstáculos impedem o sucesso das iniciativas. Figueiredo e Bianco (2020) documentam empiricamente esse fenômeno ao demonstrar como a colisão entre propostas de mudança e rotinas estabelecidas gera estratégias de obstrução institucional que, embora raramente explicitadas formalmente, comprometem sistematicamente a viabilidade de iniciativas transformadoras
4.1.2 A resistência passiva
Por sua vez, é mais sutil, mas igualmente prejudicial. Ela se manifesta através da inércia institucional, da falta de engajamento, do descrédito silencioso e da “implementação simbólica”. A inércia ocorre quando as iniciativas participativas são formalmente aceitas, mas não recebem o apoio necessário para sua efetivação, resultando em um processo lento e ineficaz. O descrédito silencioso se traduz na falta de entusiasmo e na crença de que “isso não vai funcionar aqui”, minando a moral e a motivação para a mudança. A implementação simbólica, por sua vez, envolve a adoção superficial de práticas participativas, sem uma mudança real nos pressupostos básicos e nos comportamentos. Por exemplo, reuniões participativas podem ser realizadas, mas as decisões finais continuam sendo tomadas de forma autocrática, esvaziando o propósito da participação. Essa dinâmica de silenciamento, documentada por estudos sobre cultura organizacional em Polícias Militares brasileiras (Brasil, 2016), manifesta-se por meio de comportamentos de autopreservação institucional, tais como: subordinados contribuem ativamente em reuniões deliberativas, mas evitam expressar opiniões divergentes ou propor inovações que possam ser interpretadas como críticas à hierarquia, efetivando uma participação cerimonial, que esvazia o propósito transformador das iniciativas. Os estudos de Del Cantone Junior (2018) e de Bandeira (2019) mostram que, embora haja um reconhecimento da necessidade de motivar os militares, a forma como essa motivação é buscada pode ser limitada pela estrutura hierárquica, gerando uma participação passiva em vez de ativa.
4.1.3 A resistência sistêmica
É a mais profunda e difícil de ser superada, pois está enraizada nas próprias estruturas e normas da organização, manifestando-se por meio de barreiras normativas, estruturais e culturais que perpetuam o status quo. As normas e regulamentos militares, como o Código Penal Militar e os regulamentos disciplinares, reforçam a hierarquia e a disciplina, tornando difícil a implementação de modelos que pressupõem maior autonomia e flexibilidade. Essa estrutura normativa, ao criminalizar comportamentos participativos, como o questionamento de ordens e a comunicação horizontal excessiva, e ao recompensar a conformidade, cria um sistema de incentivos que sustenta a resistência como resposta racional à estrutura institucional vigente. À luz do documento “ Hierarquia, aspectos da cultura organizacional e implicações na qualidade de vida: um estudo nas polícias militares brasileiras” (Brasil, 2016), que discute a hierarquia e os padrões culturais como vetores de rigidez institucional, observa-se que a cultura da PMPR tende a produzir resistência a novos paradigmas de gestão e liderança, inclusive àqueles orientados à melhoria da efetividade e da qualidade do serviço policial. Estudos internacionais, como o de Marrone et al. (2021), apontam que a combinação entre cultura e estrutura pode produzir insatisfação e resistência organizacional, inclusive em níveis mais básicos. Do mesmo modo, análises sobre liderança transformacional em organizações militares (García, 2015; Moreira; Schmitt, 2016) e sobre estilos de liderança em unidades militares (Chizek, 2025) indicam que, embora haja iniciativas e expectativas de mudança, a resistência sistêmica impõe limites significativos à velocidade e à profundidade dessas transformações, reforçando seu alinhamento com valores organizacionais arraigados.
4.2 BARREIRAS CULTURAIS E NORMATIVAS
As incompatibilidades estruturais entre a cultura organizacional militar e os fundamentos da liderança participativa, discutidas na seção anterior, manifestam-se no plano institucional por meio de barreiras culturais e normativas que sustentam e reproduzem a resistência organizacional. Essas barreiras não atuam de forma isolada, mas de maneira interdependente, compondo um sistema de reforço mútuo que contribui para a preservação do status quo nas instituições policiais militares.
As barreiras culturais operam no nível dos pressupostos básicos compartilhados que orientam a percepção, o julgamento e o comportamento dos membros da organização (Schein; Schein, 2022). Em contextos militares, valores como obediência inquestionável, disciplina e lealdade hierárquica são incorporados como elementos centrais da identidade profissional, funcionando como filtros cognitivos que definem o que é considerado legítimo, eficaz ou aceitável. Nesse cenário, propostas de liderança participativa tendem a ser interpretadas como dissonantes da lógica institucional dominante, sendo frequentemente associadas à fragilização da autoridade, à perda de controle e à ameaça à coesão organizacional, independentemente de seus potenciais benefícios operacionais ou gerenciais.
Os efeitos do processo de formação e socialização profissional refletem diretamente na consolidação das barreiras culturais observadas no cotidiano institucional. As concepções de professores da Academia de Polícia Militar de Brasília (Nascimento; Cerqueira, 2015) evidenciam como valores hierárquicos, já internalizados ao longo da formação inicial, moldam a visão de mundo dos futuros policiais. A militarização e a profissionalização das polícias militares reforçam esses efeitos ao consolidarem uma identidade institucional fortemente ancorada na figura do “soldado-guerreiro”, conforme discutido por Costa (2023). Esse sistema de valores, historicamente validado pela eficácia operacional em contextos de risco, tende a resistir a modelos de liderança percebidos como incompatíveis com a autoridade e a disciplina. No caso da PMPR, a discussão sobre a centralidade da hierarquia e de aspectos da cultura organizacional nas polícias militares brasileiras (Brasil, 2016), ajuda a explicar como esses pressupostos culturais podem gerar resistência a novos paradigmas, mesmo quando orientados ao aprimoramento da atuação policial. Figueiredo e Bianco (2020) corroboram essa interpretação ao evidenciar que a resistência à mudança em instituições militares não constitui disfunção individual, mas resposta adaptativa coletiva à defesa de valores que historicamente garantiram a eficácia organizacional.
As barreiras normativas, por sua vez, materializam esses pressupostos culturais em dispositivos formais que regulam o comportamento organizacional. O arcabouço jurídico-disciplinar militar, ao institucionalizar a hierarquia e a disciplina, estabelece limites rígidos à autonomia e à participação. Conforme analisado por Pontes (2023), o Direito Disciplinar Militar opera por meio de atos administrativos dotados de presunção de legitimidade, transformando a obediência em imperativo legal e o questionamento crítico em potencial transgressão disciplinar. Essa arquitetura normativa cria um sistema de incentivos que desencoraja a comunicação ascendente, a proposição de inovações e o dissenso construtivo, ao mesmo tempo em que recompensa a conformidade acrítica com estabilidade e previsibilidade na carreira. Como resultado, práticas de liderança participativa, que exigem maior flexibilidade, diálogo e corresponsabilização, encontram restrições para sua implementação efetiva.
Evidências internacionais reforçam esse diagnóstico: Meredith et al. (2017), em estudo sobre processos de mudança institucional no Exército dos Estados Unidos, indicam que barreiras culturais e normativas constituem os principais obstáculos à inovação e à adaptação em organizações militares, corroborando a compreensão da resistência como consequência lógica das incompatibilidades estruturais e culturais. Esses achados reforçam que a resistência não deve ser interpretada como fenômeno isolado ou episódico, mas como produto de um arranjo institucional coerente com os valores que sustentam a organização.
Os efeitos dessas barreiras refletem diretamente no ambiente de trabalho e na gestão de pessoas. Pesquisas sobre hierarquia, cultura organizacional e qualidade de vida em polícias militares brasileiras (Brasil, 2016) demonstram que a rigidez de uma estrutura verticalizada pode gerar tensões interpessoais, limitar a iniciativa individual e reduzir o engajamento profissional, criando um ciclo de reforço no qual a ausência de participação fortalece a cultura hierárquica existente. Embora estudos como os de Moreira e Schmitt (2016) e Del Cantone Junior (2018) indiquem um reconhecimento crescente da necessidade de motivar os militares e adaptar estilos de liderança, a forma como essas iniciativas são conduzidas ainda tende a ser condicionada pelas restrições impostas pela estrutura tradicional. Bandeira (2019) também aponta que, embora a gestão de pessoas seja reconhecida como estratégica, sua efetividade permanece limitada pelas barreiras culturais e normativas que restringem o engajamento e a participação.
Em síntese, as barreiras culturais e normativas constituem mecanismos institucionais centrais de sustentação da resistência à liderança participativa em instituições policiais militares. Elas se expressam nos pressupostos culturais internalizados, na identidade profissional militar e no arcabouço jurídico-disciplinar que formaliza a hierarquia e a disciplina. Compreender essas barreiras é condição fundamental para o desenvolvimento de estratégias de gestão de pessoas que busquem incorporar elementos participativos de forma realista e compatível com a cultura organizacional militar, evitando abordagens simplificadoras que desconsiderem a profundidade dessas restrições estruturais.
4.3 IMPLICAÇÕES PARA A PMPR
As análises precedentes sobre a cultura organizacional militar, as incompatibilidades estruturais e as manifestações de resistência organizacional convergem para um conjunto de implicações diretas e significativas para a Polícia Militar do Paraná (PMPR). As implicações apresentadas têm caráter analítico-propositivo e não prescritivo, devendo ser interpretadas à luz das especificidades institucionais da Corporação. A compreensão dessas dinâmicas é crucial para a formulação de estratégias eficazes de gestão de pessoas e para a adaptação da instituição aos desafios contemporâneos da Segurança Pública.
Para a PMPR, a análise sobre como a hierarquia e a cultura organizacional podem funcionar como mecanismos de rigidez institucional sugere um padrão de rejeição a inovações que tende a transcender temas específicos, indicando que iniciativas de liderança participativa podem enfrentar barreiras similares (Brasil, 2016). Essa constatação impõe, à gestão de pessoas, o desafio estratégico de assumir a resistência como fenômeno estrutural, que exige abordagens de mudança cultural de longo prazo, associadas à compreensão e à gestão dos valores organizacionais arraigados.
Além disso, a aculturação militar, a incorporação de conceitos, de valores, de deveres, de atributos e a profissionalização das polícias militares, conforme discutido por Costa (2023), demonstra que a característica militar é intrínseca à identidade das Polícias Militares e, por sua vez, à PMPR, moldando profundamente seus valores e comportamentos e, consequentemente, sua abertura a modelos de liderança mais colaborativos.
No que tange à gestão de pessoas e à qualidade de vida, a rigidez hierárquica, embora fundamental para a estrutura militar, pode ter impactos negativos no ambiente de trabalho e nas relações interpessoais: a estrutura de poder verticalizada nas Polícias Militares brasileiras pode gerar tensões e desafios (Brasil, 2016). Elementos de liderança participativa, se bem aplicados, podem mitigar esses impactos, promovendo um ambiente mais engajador e com maior bem-estar para os policiais militares.
A experiência de outras organizações militares, tanto nacionais quanto internacionais, oferece indícios valiosos para a PMPR: Jackson e colaboradores (2020), no artigo: “Raising the Flag” (que em uma tradução literal pode significar “levantando ou erguendo a bandeira”, mas nos contexto militar seria “hasteando a bandeira”), validam internacionalmente que os estilos de liderança devem ser adaptados às especificidades do contexto militar, reconhecendo a necessidade de flexibilidade. A revisão de Wong, Bliese & McGurk (2003), focada na liderança militar, aponta para a evolução das expectativas em relação aos líderes, que precisam equilibrar a autoridade com a capacidade de motivar e desenvolver suas equipes, sugerindo que mesmo em ambientes hierárquicos há espaço para elementos participativos.
A liderança transformacional emerge, nesse contexto, como um referencial já consolidado na literatura para mediar a aproximação entre o modelo tradicional de comando e controle e práticas que incorporam elementos participativos. Estudos como os de Deinert et al. (2015), García (2015) e Moreira e Schmitt (2016) indicam a viabilidade desse referencial em contextos militares, enquanto contribuições mais recentes, como as de Teixeira et al. (2024), oferecem subsídios práticos para sua aplicação estratégica em ambientes organizacionais hierarquizados.
A gestão de pessoas na PMPR é fundamental para esse processo de adaptação. O estudo de Bandeira (2019) oferece um bom exemplo de como adaptar práticas de gestão de pessoas para engajar militares. A motivação não pode ser sustentada apenas pela disciplina e pela hierarquia; ela requer reconhecimento, desenvolvimento e engajamento, elementos que são centrais à liderança participativa e que podem ser promovidos por uma gestão de pessoas estratégica e bem planejada.
Finalmente, é imprescindível reconhecer que a resistência é um fenômeno natural em instituições militares. Figueiredo e Bianco (2020) validam que a resistência é um fenômeno natural em instituições militares quando confrontadas com mudanças organizacionais. A superação dessas barreiras exige não apenas a introdução de novas práticas de liderança, mas uma mudança profunda nos pressupostos básicos que guiam a organização. Blumberg et al. (2020) sugerem que uma cultura de bem-estar pode ser promovida por meio de abordagens que valorizem a contribuição individual e o engajamento, o que pode ser um caminho para mitigar a resistência e promover uma transição mais suave para modelos de liderança mais participativos.
5 TRABALHOS RELACIONADOS
A presente análise teórica se insere em um campo de estudos múltiplo, que explora a dinâmica entre cultura organizacional, liderança e gestão de pessoas, com um foco particular em instituições militares e de segurança pública. A contribuição deste trabalho reside na síntese e na articulação de diferentes vertentes teóricas e empíricas para construir um modelo explicativo de como a liderança participativa incide sobre estruturas militares rígidas e hierarquizadas, com ênfase no contexto específico das polícias militares brasileiras. Para tanto, é essencial posicionar este estudo em relação a trabalhos relacionados, destacando suas convergências e divergências, e sublinhando a originalidade da abordagem.
A obra de Edgar H. Schein e de Peter A. Schein, “Cultura Organizacional e Liderança”, certamente é o fundamento teórico para a compreensão da cultura organizacional. Este trabalho está em sintonia com os Schein ao adotar uma perspectiva profunda da cultura, analisando-a não apenas como um conjunto de artefatos visíveis, mas como um sistema de pressupostos básicos compartilhados que moldam o comportamento e a resistência à mudança. A aplicação dos conceitos de cultura organizacional ao contexto militar brasileiro, como feito neste artigo, permite uma análise mais rica das raízes da hierarquia e da disciplina como elementos culturais arraigados, e não apenas como estruturas formais. A originalidade aqui reside em usá-los para explicar as dinâmicas de incidência da liderança participativa sobre estruturas militares, identificando as tensões e os mecanismos culturais que regulam essa interação, algo que Edgar e Peter Schein não exploram diretamente nesse contexto.
No campo da liderança, este estudo dialoga com os modelos clássicos de Tannenbaum e Schmidt (1973) e de Vroom e Jago (1974), amplamente consolidados na literatura sobre liderança participativa. A relevância desses referenciais reside na possibilidade de situar a liderança participativa em relação a estilos mais autocráticos, historicamente predominantes em organizações militares. A contribuição deste artigo consiste em demonstrar que, embora esses modelos apresentem consistência teórica, sua aplicação em instituições policiais militares encontra limites significativos impostos por barreiras culturais e estruturais, especialmente aquelas associadas aos pressupostos de autoridade, hierarquia e tomada de decisão. A análise não apenas descreve os modelos, mas explora as fricções inerentes à sua transposição para um ambiente militar.
A liderança transformacional, conforme explorado por Deinert et al. (2015) no estudo sobre subdimensões e desempenho, é outro trabalho intimamente relacionado a este artigo, que reconhece a liderança transformacional como uma ponte potencial entre os modelos tradicionais e participativos em contextos militares, como evidenciado por estudos sobre o Exército Português (GARCÍA, 2015) e o Exército Brasileiro (Moreira; Schmitt, 2016). A originalidade aqui é aprofundar a discussão sobre como a liderança transformacional, ao inspirar e estimular intelectualmente, pode facilitar a incidência de elementos participativos sobre estruturas militares, mas ainda assim precisa operar dentro dos limites impostos pela hierarquia e disciplina militares. A análise não propõe a liderança transformacional como uma solução mágica, mas como uma abordagem que, se adaptada, pode promover elementos de participação sem descaracterizar a essência militar.
A dissertação de Chizek (2025), que explora a relação entre estilos de liderança e eficácia organizacional em unidades militares dos EUA, é igualmente relevante. Este trabalho se relaciona ao estudo da Liberty University ao investigar como diferentes estilos de liderança interagem com a cultura militar e impactam os resultados. A contribuição deste artigo é estender essa análise para o contexto brasileiro das polícias militares, focando especificamente em como a liderança participativa incide sobre essas estruturas e nas dinâmicas culturais e normativas que regulam essa interação, algo que a dissertação de Jason A. Chizek não aborda com a mesma profundidade ou especificidade geográfica.
No que tange à cultura organizacional militar brasileira, este estudo se baseia em trabalhos como os de Poncioni (2005) sobre a formação policial, Costa (2023) sobre a militarização, e da Secretaria Nacional de Segurança Pública ‒ SENASP ‒, (Brasil, 2016), ao discutir hierarquia e aspectos da cultura organizacional em Polícias Militares brasileiras. A originalidade aqui reside em sintetizar essas perspectivas para construir um argumento coeso sobre como a hierarquia e a disciplina, em se tratando de elementos culturais, condicionam a incidência da liderança participativa, gerando tensões e resistências organizacionais. Enquanto aqueles trabalhos descrevem aspectos da cultura militar, este artigo os articula diretamente com o problema da interação entre liderança participativa e estruturas militares rígidas, oferecendo uma análise teórica visando as incompatibilidades e as potencialidades dessa relação.
Os estudos de Jackson et alii (2020); Marrone et alii (2021) e de Meredith et al. (2017), bem como outros trabalhos internacionais sobre liderança e cultura militar (Wong; Bliese; McGurk, 2003; Teixeira et al., 2024; Oling et al., 2022; Blumberg et al., 2020) fornecem um contexto comparativo valioso. Este artigo se relaciona a eles ao reconhecer a universalidade de certos desafios na gestão de organizações militares, mas se diferencia ao focar nas dinâmicas de incidência da liderança participativa sobre estruturas militares hierarquizadas e nas suas implicações para a PMPR. A contribuição é adaptar e interpretar esses insights internacionais para a realidade brasileira, identificando como as barreiras culturais e normativas se manifestam em um contexto particular.
Em suma, este trabalho se distingue dos trabalhos relacionados por sua síntese teórica original que articula a cultura organizacional militar (com ênfase na hierarquia e disciplina) com a liderança participativa, analisando as dinâmicas de incidência desse modelo sobre estruturas rígidas e identificando as tensões, resistências e potencialidades decorrentes dessa interação como consequências das incompatibilidades estruturais e culturais. Ao invés de apenas descrever a cultura ou os modelos de liderança, o artigo visa na tensão inerente entre eles e nas implicações práticas para uma instituição específica como a PMPR. A contribuição é oferecer um arcabouço conceitual que permite compreender como a liderança participativa incide sobre organizações militares, considerando a resistência não como um mero obstáculo, mas como uma manifestação de valores e pressupostos idiossincráticos, profundamente arraigados, abrindo caminho a outras estratégias de gestão de pessoas.
6 CONCLUSÃO
Fundamentada nos referenciais teóricos expostos, esta análise evidenciou as implicações da liderança participativa na estrutura hierarquizada da Polícia Militar do Paraná (PMPR). O exame das dinâmicas de interação entre esse modelo contemporâneo de gestão e a cultura organizacional castrense permitiu consolidar um arcabouço conceitual robusto, capaz de delimitar os desafios, as potencialidades e as limitações inerentes à convergência desses paradigmas.
A cultura organizacional militar foi caracterizada como um sistema de valores onde a hierarquia e a disciplina são pilares inquestionáveis, essenciais para a coesão e a eficácia operacional em ambientes de alto risco, sendo retomados os fundamentos da liderança participativa como base analítica para a compreensão de suas limitações e potencialidades em contextos militares, destacando a necessidade de adaptação de seus princípios de compartilhamento de poder, de descentralização da decisão e de empoderamento dos subordinados à cultura organizacional existente.
A discussão sobre as incompatibilidades estruturais e culturais evidenciou que a incidência da liderança participativa sobre estruturas militares rígidas produz tensões decorrentes do choque entre pressupostos organizacionais incompatíveis, especialmente no que se refere à distribuição de poder, aos fluxos de comunicação e à autonomia individual. Essa tensão manifesta-se como resistência organizacional, expressão de defesa de um sistema de valores profundamente incrustados que se provaram eficazes para a missão militar ao longo do tempo. Consequentemente, foram identificadas as manifestações dessa resistência (ativa, passiva, sistêmica) e as barreiras culturais e normativas que a sustentam, validadas por estudos sobre a cultura policial militar brasileira e internacional.
A hierarquia e a disciplina não são apenas estruturas formais, mas elementos culturais que moldam a identidade profissional e a percepção de eficácia. A incidência de modelos participativos sobre essa estrutura sem uma compreensão profunda dessas raízes culturais e sem uma estratégia de adaptação pode levar à ineficácia e ao reforço da resistência. Portanto, a gestão de pessoas na PMPR perpassa pelo reconhecimento de que a liderança participativa não pode ser implementada como um modelo pronto e padronizado, mas precisa ser adaptada à cultura militar existente por meio de quatro estratégias integradas:
(a) Desenvolvimento de lideranças adaptativas: a implementação de programas de capacitação que habilitem oficiais e praças a alternarem dinamicamente a liderança do tipo comando e controle (em situações críticas) e a liderança transformacional (em contextos de planejamento, desenvolvimento e inovação);
(b) Identificação de contextos apropriados: a aplicação de abordagens participativas em setores e situações onde a urgência operacional não é o fator dominante, como em áreas administrativas, de planejamento ou de desenvolvimento de projetos, onde a contribuição dos subordinados pode gerar maior inovação e engajamento.
(c) Criação de canais de comunicação e feedback: o estabelecimento de mecanismos formais e informais que permitam a comunicação ascendente e o feedback construtivo, sem que isso seja percebido como uma ameaça à hierarquia.
(d) Promoção de uma abertura cultural gradual: a mudança cultural é um processo de longo prazo que exige o envolvimento dos líderes e a demonstração dos benefícios concretos da participação para a eficácia organizacional e o bem-estar dos policiais militares.
Por se tratar de um estudo de natureza exploratória, qualitativa, bibliográfica e de revisão de literatura, as limitações esbarram justamente na impossibilidade de observação e de experimentação no campo de estudo, a PMPR. A aplicação prática das recomendações exigiria pesquisa de campo e estudos de caso específicos na Corporação, sugerindo-se, para futuras pesquisas, a realização de estudos empíricos a respeito da percepção dos policiais sobre liderança e participação, sobre a eficácia de programas de desenvolvimento de lideranças que busquem conciliar a cultura militar com abordagens mais participativas e sobre como a liderança transformacional pode ser adaptada para mitigar a resistência em diferentes níveis hierárquicos da PMPR, além de potenciais contribuições valiosas, podem ser pontos de partidas para pesquisas de clima organizacional.
Em última análise, a compreensão acerca da incidência da liderança participativa sobre estrutura organizacional da PMPR, pode impulsionar os Gestores de Pessoas a adotarem uma abordagem estratégica e adaptada à sua cultura organizacional, modernizando e promovendo um ambiente onde a hierarquia e a disciplina coexistem com o engajamento, a inovação e o desenvolvimento de seus efetivos, fortalecendo sua capacidade de servir à sociedade paranaense.
REFERÊNCIAS
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1 Major da Polícia Militar do Paraná; Graduando em Direito pela UFPR; e-mail: jamersondemoura@yahoo.it
2 Tenente da Polícia Militar do Paraná; Bacharel em Direito; e-mail: matheusmalmeida02@gmail.com
