REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ch10202511201455
Bianca Bispo De Souza¹
Aquila Lima²
RESUMO
A crescente demanda por exames laboratoriais e a necessidade de maior precisão nos resultados tornam indispensável a adoção de medidas rigorosas de controle de qualidade. O controle de qualidade na fase pré-analítica dos laboratórios de análises clínicas é essencial para garantir a confiabilidade dos exames laboratoriais e a segurança dos pacientes. Essa fase compreende todas as etapas anteriores à análise propriamente dita, como a identificação do paciente, coleta, armazenamento e transporte das amostras. Erros nesse estágio representam uma das principais causas de resultados imprecisos, podendo levar a diagnósticos errôneos e tratamentos inadequados. A implementação de protocolos padronizados, o treinamento contínuo dos profissionais e o uso de tecnologias para monitoramento das amostras são estratégias fundamentais para minimizar falhas. Este estudo busca avaliar a importância do controle de qualidade na fase pré-analítica, analisando os principais erros que ocorrem nesse processo e seus impactos nos diagnósticos médicos. Além disso, propõe recomendações para a otimização das práticas laboratoriais, visando maior eficiência operacional e confiabilidade dos resultados. A capacitação profissional e a comunicação clara com o paciente também se mostram essenciais. Além da adoção de normas internacionais, que fortalecem o controle de qualidade ao padronizar processos, ampliar a rastreabilidade e conferir credibilidade institucional. Assim, o controle de qualidade na fase pré-analítica deve ser entendido como um processo multidimensional, que envolve gestão, capacitação, tecnologia e cultura organizacional.
Palavras-chave: Laboratório. Análises clínicas. Fase pré-analítica. Controle de qualidade.
ABSTRACT
The growing demand for laboratory tests and the need for greater accuracy in results make it essential to adopt rigorous quality control measures. Quality control in the pre-analytical phase of clinical analysis laboratories is essential to ensure the reliability of laboratory tests and patient safety. This phase encompasses all steps prior to the analysis itself, such as patient identification and sample collection, storage, and transportation. Errors at this stage represent one of the main causes of inaccurate results, potentially leading to misdiagnoses and inappropriate treatments. The implementation of standardized protocols, ongoing training of professionals, and the use of technology to monitor samples are fundamental strategies for minimizing errors. This study seeks to assess the importance of quality control in the pre-analytical phase, analyzing the main errors that occur in this process and their impact on medical diagnoses. Furthermore, it proposes recommendations for optimizing laboratory practices, aiming for greater operational efficiency and reliable results. Professional training and clear communication with patients are also essential. In addition to adopting international standards, which strengthen quality control by standardizing processes, increasing traceability, and conferring institutional credibility, quality control in the pre-analytical phase must be understood as a multidimensional process, involving management, training, technology, and organizational culture.
Keywords: Laboratory. Clinical analysis. Pre-analytical phase. Quality control.
1. INTRODUÇÃO
Os laboratórios clínicos são essenciais no diagnóstico e tratamento de doenças, sendo fundamentais para a assistência à saúde. Dessa forma, compreender como a qualidade é aplicada nesses estabelecimentos e qual sua finalidade torna-se indispensável. O controle de qualidade nos laboratórios de análises clínicas garante maior confiabilidade dos resultados laboratoriais e, consequentemente, na segurança do paciente e na eficácia dos tratamentos médicos (Manso e Seabra, 2020).
Diante da crescente exigência por precisão nos exames laboratoriais, torna-se essencial a implementação de boas práticas e medidas de controle de qualidade na fase pré-analítica. Além de garantir a segurança do paciente, tais práticas otimizam os recursos laboratoriais, reduzindo desperdícios e melhorando a eficiência operacional (Santos e Trevisan, 2021).
A fase pré-analítica abrange desde a solicitação do exame até o transporte da amostra para análise, incluindo etapas como identificação correta do paciente, preparo adequado, coleta, armazenamento e transporte das amostras biológicas. Equívocos nessa fase podem comprometer significativamente os resultados, levando a diagnósticos incorretos e tratamentos inadequados (Oliveira e Silva, 2022).
A implementação de um controle de qualidade rigoroso na fase pré-analítica reduz significativamente a ocorrência de incidentes laboratoriais, garantindo maior confiabilidade nos resultados dos exames e impactando positivamente o diagnóstico e o tratamento dos pacientes. Essa hipótese considera que a adoção de protocolos padronizados, o treinamento adequado dos profissionais e a utilização de tecnologias para rastreamento e monitoramento são fatores essenciais para minimizar falhas nessa etapa do processo laboratorial (Sousa et al., 2021).
A fase pré-analítica é considerada uma das etapas mais críticas no processo laboratorial, sendo responsável por grande parte das condutas inadequadas que podem comprometer os resultados dos exames. Este estudo busca contribuir para a conscientização e aprimoramento das práticas de controle de qualidade nessa fase, fornecendo diretrizes que possam ser aplicadas para minimizar erros e melhorar a confiabilidade dos exames.
Dessa forma, este estudo tem como objetivo analisar a importância do controle de qualidade na fase pré-analítica dos laboratórios de análises clínicas, avaliando sua influência na minimização de erros e na garantia da confiabilidade dos resultados. Especificamente, busca-se investigar as principais falhas que ocorrem nessa etapa e seus impactos sobre os exames; avaliar a relação entre práticas de controle de qualidade e a redução de erros laboratoriais, identificar a relevância da capacitação profissional para a melhoria contínua, analisar a influência da padronização de processos na segurança diagnóstica, e, por fim, propor recomendações que auxiliem na otimização das práticas adotadas nos laboratórios clínicos.
2. REFERENCIAL TEÓRICO
2.1. Laboratório de análises clínicas
Definido como um serviço voltado à análise de materiais biológicos de pacientes, o laboratório clínico tem como objetivo fornecer suporte diagnóstico e terapêutico. As atividades desenvolvidas nesse ambiente são organizadas em três fases principais: pré-analítica, analítica e pós-analítica, cada uma desempenhando um papel crucial para a precisão dos resultados laboratoriais (Boechat e Menezes, 2021).
Dentre os exames mais frequentemente realizados nesses laboratórios, destacam-se hemograma completo, exames bioquímicos, exames parasitológicos, imunológicos, de hemostasia, além de antibiogramas e culturas bacteriológicas (Almeida, 2022). Esses procedimentos são essenciais para fornecer informações precisas que auxiliam os profissionais de saúde na definição de diagnósticos e condutas terapêuticas mais adequadas e eficazes.
A qualidade dos resultados laboratoriais é essencial para a confiabilidade dos diagnósticos médicos, visto que informações imprecisas podem comprometer decisões clínicas, levando a tratamentos inadequados e riscos à saúde dos pacientes. A implementação de sistemas rigorosos de controle de qualidade nos laboratórios clínicos é uma estratégia comprovada para minimizar erros e assegurar a segurança no atendimento médico (Santos e Trevisan, 2021).
Os laboratórios de análises clínicas desempenham um papel fundamental no sistema de saúde, contribuindo diretamente para a prevenção, diagnóstico, tratamento e monitoramento de diversas patologias (Shcolnik et al, 2019). Esses laboratórios realizam uma série de processos e técnicas que auxiliam na definição de condutas terapêuticas mais adequadas, sendo responsáveis por grande parte das informações que orientam os tratamentos médicos. Desde a coleta do espécime até a emissão do laudo, cada etapa do processo laboratorial é essencial para garantir a confiabilidade dos resultados (Santos e Trevisan, 2021).
Com o avanço das tecnologias na área da medicina laboratorial, surge o desafio de manter um equilíbrio entre produtividade, qualidade e custos reduzidos. Diante desse cenário, a implementação de um sistema de qualidade torna-se indispensável para padronizar processos, otimizar custos, aprimorar as análises laboratoriais e garantir a satisfação dos pacientes (Barbosa e Mansour, 2019).
2.2 A fase pré-analítica
A fase pré-analítica corresponde à primeira etapa do processo laboratorial e envolve todas as atividades que ocorrem antes da realização da análise propriamente dita. Essa fase abrange desde a solicitação do exame até a chegada da amostra ao setor de análise, incluindo procedimentos como a orientação do paciente, identificação correta, preparo adequado, coleta, acondicionamento, armazenamento e transporte das amostras biológicas (Santos e Trevisan, 2021).
Considerada a etapa mais crítica do ciclo laboratorial, a fase pré-analítica é responsável pela maioria dos erros que podem comprometer a confiabilidade dos resultados. Paula e Gomes (2024) afirmam que falhas nesse estágio, como identificação incorreta do paciente, coleta inadequada, manipulação imprópria ou condições inadequadas de transporte e armazenamento, podem levar a resultados errôneos e, consequentemente, a diagnósticos imprecisos e tratamentos equivocados.
A padronização dos procedimentos na fase pré-analítica é essencial para minimizar erros e garantir a reprodutibilidade dos resultados. Para isso, é necessário que os profissionais estejam capacitados quanto às normas de coleta, conservação e transporte das amostras, respeitando as especificidades de cada exame. Além disso, a implementação de protocolos bem definidos colabora para a melhoria da qualidade e segurança do processo laboratorial como um todo (Oliveira e Silva, 2022).
A falha na transmissão de informações, como dados incompletos do paciente ou exames solicitados erroneamente, pode comprometer a validade dos resultados obtidos (Branco et al, 2023). Portanto, sistemas de registro eletrônicos integrados e treinamentos contínuos são medidas eficazes para reduzir falhas de comunicação nesse estágio.
O preparo do paciente também exerce influência direta na qualidade das amostras coletadas. Jejum inadequado, uso de medicamentos, prática de exercícios físicos antes da coleta e até mesmo o horário do exame podem interferir nos parâmetros laboratoriais. Dessa forma, a orientação clara e prévia ao paciente é indispensável para evitar viés nos resultados (Oliveira e Souza, 2020).
A rastreabilidade das amostras biológicas desde o momento da coleta até a análise final é uma estratégia que visa assegurar a integridade das informações e prevenir perdas ou trocas de material (Souza et al, 2020). A adoção de etiquetas com código de barras e o uso de sistemas informatizados contribuem significativamente para o controle de qualidade na fase pré-analítica.
Por fim, a avaliação contínua dos processos pré-analíticos por meio de indicadores de desempenho e auditorias internas permite a identificação precoce de não conformidades. Essa prática possibilita intervenções corretivas e preventivas, além de fortalecer a cultura de segurança dentro do ambiente laboratorial, promovendo a excelência nos serviços prestados (Souza et al, 2024).
2.3 Controle de qualidade
O controle de qualidade nos laboratórios clínicos consiste em um conjunto de auditorias internas e externas que asseguram a confiabilidade e a precisão dos exames realizados. Essas auditorias envolvem a verificação de manuais, procedimentos, fluxogramas e políticas internas, permitindo a rastreabilidade de possíveis erros. Assim, o programa de controle da qualidade deve ser contínuo e abranger todas as atividades laboratoriais, garantindo a reprodutibilidade e a exatidão dos resultados (Silva et al., 2020).
A implementação de um sistema de controle de qualidade em laboratórios de análises clínicas é essencial para a identificação e redução de erros pré analíticos, permitindo a avaliação do desempenho do laboratório e garantindo resultados confiáveis e seguros. Dessa forma, é fundamental compreender a importância desse controle, bem como as etapas envolvidas no processo, visto que sua aplicação rigorosa contribui para a obtenção de resultados precisos e úteis (Monteiro, 2024).
De acordo com Dos Santos, Palhari e Zanusso Junior (2025), a negligência nos métodos de procedimento, no manuseio e na avaliação de amostras pode comprometer a confiabilidade dos resultados. Por isso, as técnicas de controle devem ser direcionadas à melhoria da segurança dos resultados, aprimorando a exatidão, precisão, sensibilidade e especificidade dos métodos utilizados.
A necessidade de melhoria da qualidade e o aumento da competitividade no mercado tornam essencial a exigência do controle de qualidade por parte das empresas. No entanto, segundo Paula e Gomes (2024) esse controle não deve se restringir apenas à verificação do produto, mas envolver uma análise abrangente de todo o processo.
A adoção das normas ISO, especialmente a ISO 9001, evidencia-se como um fator crítico para a redução de falhas na fase pré-analítica. Estudos apontam que laboratórios que implementam sistemas padronizados de acordo com essas normas apresentam maior rastreabilidade das amostras, redução de erros de coleta e transporte e maior consistência nos resultados Leite e Senna Junior, 2023; Santos e Trevisan, 2021).
A ISO também favorece a organização do trabalho em equipe, definindo responsabilidades claras e protocolos de comunicação, o que se reflete em menor ocorrência de falhas humanas (Souza et al, 2020). Além disso, a integração de tecnologias, como sistemas informatizados com código de barras e auditorias internas regulares, alinhados às diretrizes ISO, contribui para o monitoramento contínuo do processo e para a implementação de ações corretivas imediatas (Branco et al, 2023).
Para que um programa de controle de qualidade seja instalado e organizado de forma eficiente, é fundamental a implementação e o aprimoramento contínuo dos procedimentos, incluindo o treinamento técnico profissional, a conscientização e o comprometimento tanto dos profissionais quanto da equipe gerencial. Dessa maneira, o controle de qualidade nos laboratórios clínicos é indispensável desde a preparação do paciente até a liberação dos resultados (Nascimento, Cerqueira e Silva, 2023).
3. METODOLOGIA
O presente trabalho abordou uma revisão descritiva da literatura, de caráter qualitativo, com critérios de inclusão de artigos científicos dos últimos 10 anos, sob tema central, relacionado a importância do controle de qualidade na fase pré-analítica dos laboratórios de análises clínicas, destacando seus impactos na confiabilidade dos exames laboratoriais e na segurança do paciente.
Os critérios de exclusão foram: textos incompletos, assuntos que escapassem da proposta do tema, além de artigos fora do recorte temporal.
A análise dos dados se conduziu por meio da técnica de análise de conteúdo temática, permitindo a identificação de categorias e padrões nos textos selecionados. Essa técnica possibilitou compreender como a implementação de práticas de controle de qualidade pode influenciar na minimização de erros na fase pré-analítica. A seleção e avaliação crítica das fontes seguiu critérios de relevância científica, atualidade, coerência com os objetivos do estudo e respaldo teórico-metodológico.
4. RESULTADO E DISCUSSÃO
Os dados levantados por meio da revisão bibliográfica evidenciam que a fase pré-analítica é a etapa mais vulnerável a falhas no processo laboratorial, sendo responsável por até 70% dos erros laboratoriais (Monteiro, 2024). Entre os equívocos mais frequentes destacam-se a identificação incorreta do paciente, erros na rotulagem dos tubos, coleta inadequada e transporte incorreto das amostras (Santos e Trevisan, 2021).
A análise dos estudos demonstra que a adoção de protocolos padronizados contribui de forma significativa para a redução de falhas na fase pré-analítica. Laboratórios que aplicam rotinas bem definidas e promovem treinamentos frequentes para sua equipe apresentam menores índices de erros (Oliveira e Silva, 2022). O uso de listas de verificação, fluxogramas e instruções visuais são estratégias que auxiliam na uniformização das práticas, garantindo maior confiabilidade no processo (Souza et al, 2020).
Além disso, a educação continuada dos profissionais de saúde que atuam na coleta e manuseio das amostras se mostra essencial para a prevenção de erros evitáveis. Segundo Costa et al. (2021), a atuação de equipes bem treinadas é determinante para a segurança do paciente e a precisão dos resultados laboratoriais.
Outro aspecto relevante identificado foi a utilização de ferramentas tecnológicas para rastreabilidade e segurança das amostras. Sistemas informatizados com leitura por código de barras e registros eletrônicos minimizam erros humanos e facilitam o monitoramento de cada etapa do processo (Branco et al, 2023). Esse tipo de automação permite não apenas a redução de retrabalhos, como também agiliza a comunicação entre setores e fortalece a confiabilidade do serviço prestado.
De acordo com Fernandes e Lopes (2020), o investimento em soluções tecnológicas representa um avanço significativo na gestão da qualidade, especialmente em ambientes com grande volume de exames diários.
O preparo inadequado do paciente antes da coleta também foi identificado como um fator de interferência na qualidade da amostra. Falta de jejum, uso de medicamentos ou atividade física intensa podem alterar parâmetros laboratoriais, influenciando diretamente nos resultados (Ramos, Oliveira e Souza, 2020). Portanto, a correta orientação ao paciente deve ser parte integrante do protocolo pré-analítico, com linguagem acessível e entrega antecipada das instruções.
A negligência nesse aspecto pode gerar resultados imprecisos, necessidade de recoleta e atrasos no diagnóstico, além de aumentar os custos operacionais do laboratório (Souza et al, 2024).
A implementação das normas ISO é fundamental para assegurar a padronização e a confiabilidade nos processos laboratoriais. A ISO 9001, por exemplo, estabelece critérios para sistemas de gestão da qualidade, garantindo que procedimentos e resultados sejam consistentes e reprodutíveis (Leite e Senna Junior, 2023).
Além disso, a adoção dessas normas promove a melhoria contínua, reduzindo erros e aumentando a eficiência operacional (Leite e Senna Junior, 2023). Para laboratórios clínicos, a certificação ISO também fortalece a credibilidade institucional, uma vez que demonstra o compromisso com a qualidade e a segurança do paciente (Leite e Senna Junior, 2023).
As vistorias periódicas são instrumentos essenciais no controle de qualidade, permitindo verificar o cumprimento das normas e identificar não conformidades. Elas abrangem infraestrutura, equipamentos, materiais e procedimentos técnicos, garantindo que todos os aspectos do laboratório estejam dentro dos padrões estabelecidos (Brandelero e Tessari, 2022).
Além disso, quando bem estruturadas incentivam a cultura da responsabilidade e da atenção aos detalhes, promovendo ajustes rápidos quando falhas são identificadas (Santos e Trevisan, 2021). A documentação adequada desses processos possibilita rastreabilidade e monitoramento contínuo, fortalecendo a gestão da qualidade (Fernandes, Wollinger e Garrido, 2019).
A interação entre técnicos, analistas e gestores permite a padronização dos processos e a identificação precoce de falhas, garantindo resultados mais precisos (Pereira, Santos e Costa 2019). E, a colaboração fortalece a disseminação de boas práticas e o cumprimento das normas de segurança, fatores indispensáveis para laboratórios de excelência (França, Oliveira e Avelino, 2023). A ISO enfatiza a importância da comunicação clara e da capacitação contínua da equipe, destacando que a qualidade depende do engajamento de todos os profissionais envolvidos (Leite e Senna Junior, 2023).
Portanto, a combinação entre normas ISO, vistorias rigorosas e trabalho em equipe integrado constitui a base do controle de qualidade em laboratórios clínicos. Esses elementos garantem não apenas conformidade com padrões internacionais, mas também a segurança, confiabilidade e melhoria contínua dos processos (Santos e Trevisan, 2021). Investir em padronização, monitoramento sistemático e colaboração eficaz é essencial para alcançar excelência operacional e assegurar resultados confiáveis aos pacientes (Brandelero e Tessari, 2022).
O estudo demonstrou ainda que a implementação de rotinas padronizadas, treinamentos constantes e a utilização de tecnologias de rastreabilidade contribuem para a minimização de falhas evitáveis. A correta identificação do paciente, a coleta adequada e o armazenamento apropriado das amostras foram identificados como pontos críticos que necessitam de monitoramento contínuo, visto que pequenos equívocos podem levar a diagnósticos incorretos e tratamentos ineficazes (Oliveira e Silva, 2022). Assim, a conscientização dos profissionais de saúde que atuam nessa etapa e a adoção de estratégias educativas permanentes se configuram como ferramentas indispensáveis para a redução de incidentes laboratoriais.
Conforme evidenciado por Costa et al. (2021), fatores como jejum inadequado, prática de atividade física prévia ou uso de medicamentos podem alterar significativamente os parâmetros laboratoriais, comprometendo a qualidade da amostra e, consequentemente, o resultado do exame. Dessa forma, a comunicação clara e acessível com o paciente deve ser incorporada como parte integrante dos protocolos de qualidade, assegurando que este esteja devidamente preparado para o procedimento e reduzindo a necessidade de recoletas que aumentam custos e atrasam diagnósticos.
A integração de sistemas informatizados, códigos de barras e registros eletrônicos não apenas facilita a rastreabilidade das amostras, como também minimiza falhas humanas e aumenta a eficiência do processo (Branco et al, 2023). O uso de tais ferramentas fortalece a gestão laboratorial e permite maior confiabilidade no monitoramento de cada etapa, garantindo segurança ao paciente e credibilidade institucional.
As normas ISO, em especial a ISO 9001, emergiram como referência fundamental para os laboratórios que buscam alinhar suas práticas aos padrões internacionais de qualidade. A adoção dessas normas contribui para a organização das rotinas, definição de responsabilidades, melhoria da comunicação interna e fortalecimento do trabalho em equipe (Leite e Senna Junior, 2023). Além disso, a certificação ISO é reconhecida como indicador de excelência, transmitindo confiança tanto à equipe técnica quanto aos pacientes que dependem dos resultados laboratoriais para seus tratamentos.
Outro ponto que merece destaque refere-se à importância das vistorias e auditorias internas e externas, tais mecanismos permitem identificar não conformidades, corrigir falhas de forma imediata e estimular a cultura de qualidade dentro das instituições (Santos e Trevisan, 2021). A documentação desses processos assegura rastreabilidade, além de servir como ferramenta de aprendizagem e melhoria contínua. Dessa forma, as auditorias não devem ser vistas apenas como instrumentos fiscalizadores, mas como estratégias educativas que contribuem para o fortalecimento das boas práticas laboratoriais.
A análise crítica dos estudos também demonstrou que a cultura organizacional exerce papel decisivo na manutenção da qualidade. Mais do que protocolos escritos, é necessário que os profissionais se apropriem do conceito de qualidade e compreendam sua importância no cotidiano do trabalho. Isso exige capacitação contínua, engajamento da equipe e comprometimento dos gestores, de modo a criar um ambiente colaborativo em que todos assumam corresponsabilidade pelos resultados obtidos (França, Oliveira e Avelino, 2023).
Ainda que este estudo tenha evidenciado avanços significativos no campo do controle de qualidade, persistem desafios importantes a serem superados. Entre eles, destacam-se a dificuldade de manter treinamentos contínuos diante da alta rotatividade de profissionais, a necessidade de investimentos financeiros em tecnologias modernas e a resistência de alguns ambientes laboratoriais em adotar normas de qualidade de forma integral (Barbosa e Mansour, 2019). Tais limitações reforçam a importância de políticas institucionais que incentivem a adesão às práticas de qualidade e garantam os recursos necessários para sua plena implementação.
Além disso, cabe ressaltar que a fase pré-analítica deve ser compreendida como parte integrante de um ciclo mais amplo, que inclui as fases analítica e pós-analítica. Embora este estudo tenha se debruçado com maior profundidade sobre a etapa inicial, fica evidente que o processo laboratorial exige integração entre todas as fases, de modo a garantir que o exame seja fidedigno desde a coleta até a liberação do laudo.
5. CONCLUSÃO
A análise realizada ao longo deste estudo evidenciou que a fase pré-analítica dos laboratórios de análises clínicas é determinante para a confiabilidade dos resultados laboratoriais, sendo considerada a etapa mais vulnerável do processo diagnóstico.
Os dados levantados demonstraram que falhas nesta fase podem representar até 70% dos erros laboratoriais, revelando o impacto direto sobre a segurança do paciente e sobre a precisão dos diagnósticos médicos (Paula e Gomes, 2024Monteiro, 2024). Nesse sentido, torna-se evidente que a adoção de práticas de controle de qualidade rigorosas, alinhadas a protocolos bem definidos e respaldadas por normas técnicas e certificações internacionais, é essencial para assegurar a integridade dos resultados emitidos pelos laboratórios. possível afirmar que o controle de qualidade na fase pré-analítica transcende o aspecto técnico e se configura como um processo multidimensional, que envolve gestão, capacitação, tecnologia e cultura organizacional. Não basta apenas implementar protocolos ou adotar softwares de rastreabilidade: é necessário promover uma transformação que envolva desde o preparo do paciente até a comunicação efetiva entre todos os setores do laboratório.
O fortalecimento do controle de qualidade na fase pré-analítica representa não apenas uma necessidade técnica, mas também uma exigência ética, uma vez que envolve diretamente a segurança do paciente e a responsabilidade social das instituições de saúde. Investir em padronização de processos, capacitação profissional, tecnologias de rastreabilidade e certificações de qualidade é investir em saúde pública, reduzindo riscos, prevenindo falhas e promovendo diagnósticos mais precisos e tratamentos mais eficazes. Portanto, torna-se imperativo que gestores, profissionais e instituições reconheçam a fase pré-analítica como prioridade estratégica dentro dos laboratórios clínicos.
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¹Discente do curso de Biomedicina, da Faculdade Madre Thaís
²Docente do curso de Biomedicina, da Faculdade Madre Thaís
