THE IMPORTANCE OF TECHNICAL KNOWLEDGE IN PREVENTING COMPLICATIONS IN BICHECTOMY PROCEDURES
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202511162204
ROCHA, M. E. M. A;
PEDROSA, J. M;
ALBUQUERQUE, S. R. F
Resumo
A bichectomia é um procedimento cirúrgico cada vez mais procurado na Harmonização Orofacial, tendo como objetivo o afinamento do terço médio da face por meio da remoção parcial da Bola de Bichat¹,²,³. Apesar de seu apelo estético, a literatura demonstra que o desconhecimento anatômico e a execução técnica inadequada estão diretamente relacionados ao aumento de intercorrências. Este estudo tem como objetivo analisar, à luz de artigos científicos, as principais complicações associadas à bichectomia e a importância do conhecimento técnico na sua prevenção. Os estudos revisados¹²,¹⁸,¹⁹,²²,²⁴ apontam que as complicações mais frequentes incluem lesões de ramos do nervo facial, hemorragias, hematomas, edemas, infecções, assimetrias e trismo, frequentemente decorrentes de deficiência técnica e falta de domínio anatômico. Conclui-se que o sucesso do procedimento depende do preparo profissional, do conhecimento detalhado das estruturas anatômicas e da execução precisa, sendo a qualificação técnica fundamental para prevenir intercorrências e garantir resultados estéticos e funcionais seguros.
Palavras-chave: bichectomia; complicações cirúrgicas; intercorrências; Bola de Bichat; conhecimento técnico; harmonização orofacial.
1 INTRODUÇÃO
A crescente valorização da estética facial tem impulsionado a busca por procedimentos capazes de realçar traços considerados socialmente atraentes, como a face alongada e as bochechas mais definidas. Esse fenômeno, fortemente influenciado por padrões midiáticos, afeta especialmente o público feminino, historicamente exposto a pressões estéticas mais intensas¹⁰. Nesse sentido, autores destacam que “o desejo de liberdade que marcou o ideal feminino de emancipação […] sucumbiu à ditadura de uma estética corporal que se opõe veementemente à obesidade e ao envelhecimento”².
Nesse contexto, destaca-se a bichectomia, procedimento cirúrgico que consiste na remoção do corpo adiposo da bochecha, conhecido como Bola de Bichat. Essa estrutura é composta por tecido adiposo envolto por uma fina cápsula de tecido conjuntivo³,⁸, localizada entre os músculos bucinador e masseter, com prolongamentos que alcançam a fossa infratemporal e mantêm íntimas relações anatômicas com estruturas como os músculos pterigoideos e temporais¹³,¹⁴,¹⁵. Além de sua relevância estrutural, a Bola de Bichat possui importante função mecânica, atuando como um coxim que facilita o deslizamento entre os músculos da mastigação, além de contribuir para o contorno externo da face²,⁴,⁶. Diferentemente de outras regiões adiposas, sua composição não sofre alterações significativas em processos de emagrecimento¹⁵,⁹.
Anatomicamente, divide-se em um corpo central e seis prolongamentos anatômicos: massatérico, temporal superficial, temporal profundo, pterigomandibular, esfenopalatino e orbitário inferior, sendo a porção oral a mais frequentemente utilizada em procedimentos cirúrgicos¹¹. Sua irrigação é garantida por ramos da artéria maxilar, artéria temporal superficial e artéria facial, o que evidencia a complexidade anatômica da região.
Embora inicialmente indicada em cirurgias reconstrutivas, como em pacientes fissurados ou no fechamento de fístulas bucossinusais, a bichectomia tem ganhado notoriedade por sua aplicação estética, voltada à harmonização facial. No entanto, a banalização do procedimento e sua crescente procura por razões exclusivamente estéticas têm gerado preocupações na comunidade científica. Isso porque, como toda intervenção cirúrgica, a bichectomia envolve riscos que variam de complicações leves a danos permanentes²². Entre as intercorrências mais relatadas estão lesões de ramos do nervo facial, hemorragias, infecções, assimetrias faciais e alterações funcionais, como comprometimento da musculatura envolvida. Tais complicações, muitas vezes, decorrem do desconhecimento anatômico da região ou da realização do procedimento por profissionais não habilitados¹⁹,²⁴.
Diante desse cenário, este trabalho tem como objetivo analisar, à luz da literatura científica, as principais intercorrências relacionadas à bichectomia, ressaltando a importância da avaliação clínica criteriosa e da atuação de profissionais habilitados na indicação e execução do procedimento.
A literatura recente tem demonstrado crescente preocupação quanto ao uso indiscriminado da bichectomia como ferramenta estética, especialmente porque sua execução inadequada pode gerar repercussões permanentes²⁷,³². Estudos apontam que, diferentemente de outros procedimentos estéticos reversíveis ou minimamente invasivos, a retirada do corpo adiposo bucal é definitiva, sem possibilidade de reposição natural do tecido²⁹,³¹. Essa característica exige extrema cautela na indicação, pois alterações no formato da face podem se acentuar ao longo dos anos, sobretudo devido à ptose dos tecidos do terço médio durante o envelhecimento fisiológico²⁹.
Além disso, pesquisas em anatomia cirúrgica têm enfatizado que a região jugal apresenta variações anatômicas consideráveis entre indivíduos, especialmente no trajeto dos ramos bucais do nervo facial, da artéria facial transversa e das estruturas ductais³³,³⁰. Tais variações tornam a técnica ainda mais desafiadora e evidenciam a necessidade de conhecimento atualizado e formação aprofundada para evitar danos irreversíveis³². A complexidade anatômica da região contrasta com a popularização do procedimento, criando uma dicotomia entre demanda estética crescente e a real capacidade técnica de muitos profissionais.
Assim, compreender profundamente os riscos, a indicação precisa e as estruturas anatômicas envolvidas é essencial para evitar intercorrências e garantir que a bichectomia seja executada com responsabilidade técnica e ética²⁷,³⁰.
2 REVISÃO DA LITERATURA
2.1 Aspectos anatômicos da bola de Bichat
A Bola de Bichat, também conhecida como corpo adiposo bucal, é uma estrutura de gordura branca localizada profundamente na região jugal, situada entre o músculo masseter e o músculo bucinador, estendendo-se até a fossa infratemporal¹,²,²⁷. É formada por um corpo central e seis prolongamentos anatômicos: massetérico, temporal superficial, temporal profundo, pterigomandibular, esfenopalatino e orbitário inferior — todos envolvidos por uma cápsula fascial própria que a distingue das demais estruturas adiposas faciais³³.
A vascularização da região é abundante, realizada principalmente pelas artérias facial, bucal e temporal superficial, enquanto a drenagem venosa ocorre pelas veias facial profunda e maxilar¹⁶,³¹. Essa característica explica a boa vitalidade do tecido e o baixo índice de necrose quando a estrutura é utilizada em cirurgias reconstrutivas¹⁶. A inervação sensitiva é realizada pelos ramos bucais do nervo facial, o que justifica a ocorrência de parestesias transitórias em situações de manipulação excessiva³²,³⁰.
Funcionalmente, a Bola de Bichat atua como facilitadora do deslizamento dos músculos mastigatórios e como elemento de sustentação do terço médio da face. Em recém-nascidos, sua proporção aumentada desempenha papel fundamental no ato de sucção¹,²,²⁷.
2.2 Aspectos embriológicos e fisiológicos
O corpo adiposo bucal é a primeira estrutura gordurosa a surgir no feto, por volta da 17ª semana intrauterina, derivando de células-tronco mesenquimais multipotentes, responsáveis pela formação dos tecidos moles faciais⁷.
A Bola de Bichat é composta predominantemente por tecido adiposo branco, que difere da gordura marrom, estrutura termogênica comum em recém-nascidos e animais hibernantes. O tecido adiposo branco exerce funções mecânicas, metabólicas e de sustentação, representando cerca de 10% a 20% do peso corporal em adultos¹⁶.
Metabolicamente, o tecido adiposo é ativo e participa da regulação hormonal e energética. Seus adipócitos secretam substâncias bioativas, como leptina, estrógenos, prostaglandinas e citocinas angiogênicas, envolvidas na angiogênese, homeostase metabólica e reparação tecidual. A Bola de Bichat também contém células-tronco derivadas do tecido adiposo (ADAS), com potencial osteogênico e regenerativo, amplamente estudadas para reconstruções ósseas e aplicações maxilofaciais⁶,⁸.
2.3 Considerações descritivas e aplicações clínicas
O tecido gorduroso bucal foi descrito pela primeira vez em 1732 por Heister¹, que acreditava tratar-se de uma “glândula malar”. Em 1802, Xavier Bichat² identificou sua real natureza adiposa. Esse tecido apresenta íntima relação com os músculos da mastigação, auxiliando no deslizamento entre as estruturas mastigatórias e contribuindo para a sucção em lactentes¹⁴,¹⁵.
A Bola de Bichat, também chamada Buccal Fat Pad, é uma estrutura anatômica bem definida e com papel significativo no contorno facial. Sua projeção diminui progressivamente com o envelhecimento, devido à redução do volume adiposo e às alterações estruturais características do processo de senescência¹⁵,¹⁶. Apresenta peso médio de 3,9 g e espessura aproximada de 6 mm, podendo variar entre os lados. Possui dois compartimentos: um branco-amarelado e outro castanho, histologicamente semelhantes à gordura orbitária⁵.
Além de seu papel estético, a Bola de Bichat possui ampla aplicação clínica, especialmente em cirurgias reconstrutivas, como no fechamento de fístulas oronasais e na correção de fendas palatinas¹⁴. É constituída por um corpo central e seis extensões distribuídas nas regiões massetérica, temporal superficial e profunda, pterigomandibular, esfenopalatina e orbitária inferior¹⁶,¹¹.
2.4 Técnica cirúrgica
Apesar de ser considerada uma técnica relativamente simples, a literatura destaca que o procedimento permanece sem padronização cirúrgica universal, o que contribui para sua natureza controversa e reforça a necessidade de profundo conhecimento anatômico da região¹⁹.
Em grande parte dos relatos, o procedimento pode ser realizado sob anestesia local, embora alguns autores recomendem anestesia geral quando há associação com outras cirurgias faciais. Independentemente do tipo anestésico, enfatiza-se a importância de evitar infiltrações volumosas, a fim de não distorcer os planos anatômicos e dificultar a identificação da gordura bucal¹⁹.
A incisão intraoral é tradicionalmente feita logo abaixo e posteriormente ao ducto de Stenon, com cerca de 1,0 a 1,5 cm, limitando-se à mucosa oral. Entretanto, técnicas mais recentes propõem o uso de referências anatômicas adicionais, como a veia bucal e o sulco gengivobucal para traçar uma linha de acesso mais precisa, aumentando a previsibilidade e reduzindo o risco de lesão de estruturas nobres. Em todas as abordagens, há consenso de que a incisão deve permitir um acesso direto ao músculo bucinador¹⁹.
A dissecção dos planos anatômicos deve ser realizada de forma romba e delicada, utilizando pinças atraumáticas e divulsionando as fibras do bucinador paralelamente ao seu trajeto natural. Essa conduta reduz sangramentos e minimiza o risco de lesões inadvertidas aos ramos bucais do nervo facial e ao ducto parotídeo¹⁹. Uma vez acessado o espaço bucal, identifica-se o corpo adiposo de Bichat, facilmente reconhecido por seu aspecto amarelo-intenso, homogêneo, encapsulado e altamente móvel¹⁹.
Após exposição, a literatura descreve que apenas uma porção do corpo adiposo deve ser removida. Estudos variam quanto ao volume ideal, mas há concordância em se retirar aproximadamente um terço a até 90–95% do processo bucal, preservando sua porção mais posterior, que apresenta aderência ao ligamento zigomático posterior. Técnicas como a divulsão circular da cápsula, com tração suave (“técnica da vassourinha”), são valorizadas por reduzir o trauma e a possibilidade de sangramento¹⁹.
A síntese é realizada com suturas absorvíveis, geralmente catgut 5-0 ou materiais equivalentes, envolvendo tanto mucosa quanto fibras do bucinador para evitar deiscências. O edema pós-operatório pode perdurar por várias semanas, sendo o resultado estético plenamente perceptível entre quatro e seis meses, período necessário para acomodação dos tecidos e reabsorção completa do conteúdo inflamatório¹⁹.
Embora a bichectomia seja amplamente difundida, os autores destacam que sua execução exige domínio anatômico e precisão técnica, pois estruturas nobres como o ducto parotídeo, a artéria facial transversa e os ramos bucais do nervo facial encontramse intimamente relacionadas ao campo operatório. Assim, complicações como neuropraxias transitórias, sangramentos e formação de sialocele podem ocorrer, embora geralmente sejam raras e autolimitadas quando a técnica é conduzida dentro dos planos adequados¹⁹.
2.5 Principais intercorrências
Entre as complicações mais frequentes estão hematomas, infecções, parestesias, lesões nervosas, assimetrias faciais, trismo e lesões ductais³². Estudos recentes reforçam que essas intercorrências ocorrem, em grande parte, devido a falhas técnicas ou à falta de capacitação profissional. De acordo com os achados de Klüppel et al.³², as complicações mais prevalentes incluem hematomas e alterações neurossensoriais transitórias, geralmente associadas à execução inadequada do procedimento.
Os dados apresentados por Klüppel et al.³² ampliam essa compreensão ao demonstrar que a bichectomia envolve uma região anatômica densamente povoada por estruturas nobres, como o ducto parotídeo, os ramos bucais do nervo facial e vasos faciais de médio calibre, o que justifica a ocorrência de intercorrências quando há deficiência técnica ou manipulação excessiva dos tecidos. Segundo os autores, além das complicações já citadas, são descritos: edema exacerbado e prolongado, seroma, deiscência de sutura, dor intensa e persistente, infecção localizada, assimetria facial tardia, trismo e formação de fibrose. Tais manifestações são frequentemente relacionadas à tração inadequada do corpo adiposo, à dissecação agressiva ou à remoção excessiva da gordura bucal³².
O estudo também destaca que lesões do ducto parotídeo podem ocorrer quando a incisão é posicionada de forma inadequada ou quando há dissecção profunda além do plano seguro, podendo resultar em sialocele, fístula salivar ou edema persistente. Já as lesões dos ramos do nervo facial tendem a manifestar-se como parestesia, paresia ou assimetrias dinâmicas, geralmente transitórias, mas que podem se prolongar em casos de compressão intensa ou hematoma volumoso³².
Quanto ao manejo das complicações, Klüppel et al.³² ressaltam que o tratamento deve ser direcionado ao quadro clínico apresentado. Hematomas pequenos podem ser conduzidos com compressão local e acompanhamento, enquanto os volumosos podem demandar drenagem cirúrgica. Infecções requerem antibioticoterapia, controle inflamatório e reforço da higiene oral. Parestesias e alterações neuromotoras são, em sua maioria, autolimitadas, sendo recomendado acompanhamento periódico para avaliar regressão espontânea. Nos casos de lesão ductal, pode ser necessária drenagem, aspiração e, ocasionalmente, intervenção especializada. Assimetrias tardias devem ser reavaliadas após resolução completa do edema, podendo necessitar de correção cirúrgica apenas quando persistentes. O seroma é manejado por punção e drenagem, enquanto a deiscência exige nova sutura ou conduta conservadora, conforme o grau de exposição tecidual³².
Assim, o conjunto dos estudos evidencia que a maior parte das intercorrências associadas à bichectomia decorre de técnica inadequada, ausência de domínio anatômico ou má indicação cirúrgica, reforçando a necessidade de preparo profissional, padronização de condutas e seleção criteriosa dos pacientes³².
2.6 Avaliação pré-operatória e critérios para indicação
A definição adequada da indicação cirúrgica é um dos fatores mais importantes para a prevenção de intercorrências em bichectomia. Entretanto, a literatura destaca que não existem exames complementares verdadeiramente viáveis e amplamente acessíveis capazes de mensurar com precisão o volume da gordura de Bichat, o que limita a objetividade da avaliação pré-operatória³⁰. Assim, a indicação do procedimento permanece fortemente dependente da avaliação clínica e da manobra bidigital, métodos que, embora úteis, apresentam limitações consideráveis³⁰.
A ultrassonografia tem sido citada como um recurso potencial, porém ainda enfrenta grandes restrições, como custo, variabilidade técnica e dificuldade de interpretação³⁰. Além disso, os autores destacam que, mesmo quando utilizada, a ecografia pode revelar volumes reduzidos de gordura, levando à contraindicação do procedimento em parcela significativa dos pacientes, mas não é considerada exame de uso rotineiro³⁰. Já a tomografia computadorizada, embora forneça boa definição anatômica, não se justifica como exame pré-operatório devido ao custo elevado e à exposição desnecessária à radiação, especialmente em um procedimento de finalidade estética³⁰.
Essa escassez de métodos complementares confiáveis contribui diretamente para o aumento das intercorrências descritas na literatura. Indicações imprecisas, muitas vezes baseadas em avaliação clínica insuficiente ou interpretação subjetiva da queixa estética, podem resultar em retirada excessiva de tecido, assimetrias, resultados insatisfatórios e maior risco de lesões nervosas ou ductais³⁰. Os autores enfatizam que a dependência exclusiva do exame clínico, sem ferramentas diagnósticas adicionais, exige conhecimento anatômico rigoroso e criteriosa seleção dos casos, a fim de evitar intervenções desnecessárias e reduzir complicações pós-operatórias³⁰.
2.7 Bichectomia a longo prazo
Apesar da crescente popularização da bichectomia, a literatura ainda carece de estudos bem conduzidos que avaliem seus efeitos a longo prazo, o que limita a compreensão das repercussões funcionais e estéticas decorrentes da remoção definitiva do corpo adiposo de Bichat³⁴. Conforme destacado por Quaresma et al.³⁵, os trabalhos disponíveis concentram-se majoritariamente em relatos de caso, frequentemente associados a outros procedimentos cirúrgicos, impossibilitando conclusões sólidas sobre a evolução clínica ao longo dos anos. Essa lacuna científica torna-se especialmente relevante no contexto das intercorrências, uma vez que a ausência de evidências robustas dificulta a previsão de consequências tardias, como alterações do contorno facial, assimetrias progressivas, impacto no envelhecimento do terço médio e possíveis alterações funcionais³⁴,³³. Assim, a indicação do procedimento deve ser pautada em criteriosa avaliação clínica, considerando que a falta de estudos longitudinais amplia o risco de resultados imprevisíveis e potenciais complicações decorrentes de uma excisão irreversível³⁴,³⁵.
2.8 Intercorrências estéticas tardias
A remoção irreversível do corpo adiposo bucal tem sido associada a alterações estéticas tardias, especialmente em pacientes com pouca reserva de gordura facial. Com o passar dos anos, a natural redução do volume adiposo e a perda de elasticidade dos tecidos resultam em acentuação do sulco nasogeniano, aprofundamento das linhas de marionete e aspecto facial mais envelhecido³³,¹²,⁹. Esses efeitos são mais evidentes em pacientes submetidos à retirada excessiva da gordura ou que possuem biotipo ectomórfico³³,²⁸.
Quaresma et al.³⁵ destacam que, embora a bichectomia possa proporcionar um terço médio mais delgado inicialmente, o envelhecimento fisiológico pode acentuar desproporções faciais, levando à necessidade posterior de preenchimentos volumizadores e reposição estrutural. Tais achados reforçam que o planejamento deve considerar não apenas os resultados imediatos, mas também as projeções estéticas futuras, de modo a evitar consequências indesejáveis a longo prazo.
2.9 Importância do conhecimento técnico e da qualificação do profissional
A execução da bichectomia exige conhecimento detalhado da anatomia facial e domínio da técnica cirúrgica. O cirurgião-dentista deve compreender a localização precisa das estruturas, as variações anatômicas e os riscos envolvidos, aplicando protocolos de biossegurança e ética profissional¹⁶.
Segundo a American Dental Association¹⁵, a competência técnica e a conduta ética são pilares fundamentais da prática odontológica. A banalização da bichectomia, impulsionada pela popularização das redes sociais, reforça a necessidade de que o procedimento seja realizado exclusivamente por profissionais habilitados e devidamente capacitados, garantindo segurança e previsibilidade estética e funcional ao paciente.
3. METODOLOGIA
Este trabalho foi desenvolvido por meio de uma revisão narrativa de literatura, com abordagem qualitativa, visando identificar e analisar as principais intercorrências associadas à bichectomia descritas na literatura científica. A escolha desse método justifica-se pela necessidade de consolidar conhecimentos atualizados e dispersos sobre o tema, promovendo uma reflexão crítica que auxilie na prática clínica responsável e fundamentada em evidências.
A pesquisa foi conduzida nas bases de dados SciELO, LILACS, PubMed e Google Acadêmico, por meio de uma busca estruturada com os seguintes descritores: bichectomia, complicações cirúrgicas, intercorrências, gordura de Bichat, anatomia da face e harmonização orofacial. Foram utilizados termos em português, inglês e espanhol, com o objetivo de ampliar o escopo da revisão e incluir publicações relevantes em diferentes contextos.
Foram incluídos artigos científicos, livros e capítulos de livros publicados entre os anos de 1980 e 2023, desde que abordassem diretamente as complicações relacionadas à bichectomia sob os aspectos anatômico, clínico ou cirúrgico. Foram excluídas publicações duplicadas, materiais com abordagem metodológica inconsistente ou que não apresentassem relevância direta para os objetivos do estudo.
A análise dos dados foi realizada de forma qualitativa e interpretativa, com foco na identificação, categorização e compreensão das principais intercorrências relatadas, suas possíveis causas, implicações clínicas e estratégias preventivas. Os resultados foram organizados de acordo com os objetivos propostos, de modo a fundamentar uma prática ética, segura e tecnicamente embasada.
Além da revisão narrativa, foi realizada uma análise comparativa entre os principais estudos encontrados nas bases de dados, buscando identificar convergências e divergências metodológicas referentes às técnicas cirúrgicas utilizadas, critérios de indicação e taxas de complicações relatadas.
As informações extraídas foram organizadas em categorias temáticas, anatômica, técnica e clínica, o que permitiu maior aprofundamento e uma visão integrada das causas e consequências das intercorrências. A metodologia adotada possibilita compreender não apenas quais complicações ocorrem, mas por que ocorrem, relacionando variáveis como indicação, técnica, experiência profissional e complexidade anatômica.
4. RESULTADOS E DISCUSSÕES
A análise dos estudos incluídos na presente revisão evidencia que as principais complicações associadas à bichectomia estão relacionadas à falta de domínio anatômico e à execução técnica inadequada¹⁹,²¹,¹⁶. Entre as intercorrências mais frequentemente relatadas encontram-se lesões de ramos do nervo facial, hemorragias, infecções, trismo, assimetrias faciais e alterações funcionais persistentes²⁰,⁴,⁸,⁹.
Os trabalhos também demonstram que o corpo adiposo bucal apresenta íntimas relações anatômicas com o ducto parotídeo e com os ramos bucais do nervo facial, fatores que tornam a técnica suscetível a complicações quando realizada sem o devido conhecimento anatômico¹⁹,²¹. Outro achado relevante é que o volume removido de gordura deve ser cuidadosamente controlado, uma vez que a retirada excessiva pode comprometer o suporte e a harmonia do terço médio da face²,¹⁰.
Além disso, os estudos apontam que a banalização do procedimento, estimulada principalmente por mídias sociais e clínicas não especializadas, tem contribuído para a realização da bichectomia sem indicação funcional ou estética adequada¹⁹,²¹. Essa tendência tem resultado em aumento de relatos de iatrogenias e insatisfação estética pós- operatória.
Os resultados encontrados reforçam a necessidade de um conhecimento anatômico detalhado e de capacitação técnica sólida para a realização segura da bichectomia. A proximidade do corpo adiposo bucal com estruturas nobres, como os ramos do nervo facial e o ducto da parótida, exige extrema cautela durante a dissecção¹⁹,²¹. A ausência dessa precisão pode levar a danos neuromusculares e complicações funcionais permanentes, conforme apontado por diferentes autores²⁰,⁴,⁸,⁹.
A literatura também destaca que a bichectomia, embora amplamente difundida por seu apelo estético, deve ser indicada apenas após criteriosa avaliação clínica e funcional do paciente. Contudo, observa-se que ainda não existem parâmetros objetivos bem definidos para essa indicação. A ausência de exames complementares específicos, capazes de mensurar o volume do corpo adiposo bucal ou avaliar sua real interferência no contorno facial, torna o diagnóstico essencialmente subjetivo, baseado apenas na percepção estética do profissional e do paciente¹⁹,²¹. Essa limitação favorece a realização de cirurgias sem necessidade clínica ou proporcionalidade facial, contribuindo para resultados insatisfatórios e aumento das intercorrências relatadas²⁰,⁴,⁸,⁹.
A remoção indiscriminada de gordura pode causar resultados antinaturais e envelhecimento precoce da face¹⁵. Outro ponto discutido é o papel das redes sociais e do marketing estético na banalização da cirurgia. O incentivo à realização do procedimento sem respaldo técnico e ético vai de encontro aos princípios da American Dental Association¹⁵, que enfatizam a competência, a responsabilidade e a não maleficência na prática odontológica.
Dessa forma, a formação adequada e a atuação de profissionais habilitados são essenciais para garantir previsibilidade estética, segurança e ética na execução da técnica. A bichectomia deve ser encarada como uma cirurgia de precisão, e não como um simples procedimento estético de baixa complexidade¹⁹.
Os achados também dialogam com a crescente necessidade de regulamentação técnica na realização da bichectomia. Em muitos países, recomendações específicas sobre treinamento, certificação e capacitação em cirurgia bucal têm sido discutidas, com o objetivo de reduzir complicações evitáveis e assegurar práticas baseadas em evidências¹⁹,¹⁵. Essa movimentação reflete a preocupação global com a banalização do procedimento e destaca que a formação continuada é indispensável para garantir segurança e previsibilidade.
Além disso, observa-se que a falta de padronização técnica nos estudos avaliados contribui para variações significativas nas taxas de complicações relatadas. Essa heterogeneidade reforça a necessidade de protocolos padronizados, com descrição detalhada da abordagem cirúrgica, quantidade de tecido removido, manobras de dissecção e cuidados pós-operatórios¹⁹,²¹.
Adicionalmente, a discussão sobre intercorrências tardias demonstra que a bichectomia deve ser compreendida como procedimento cirúrgico estruturante e não meramente estético, capaz de alterar permanentemente as características faciais. Portanto, o cirurgião deve considerar fatores como espessura da pele, suporte esquelético, idade do paciente e tendência ao envelhecimento precoce antes da indicação²¹,¹⁰.
5. CONCLUSÃO
A bichectomia é um procedimento eficaz e seguro quando realizada com indicação correta, planejamento individualizado e conhecimento anatômico aprofundado¹⁸,²⁰. Apesar de sua aparente simplicidade, exige habilidade cirúrgica refinada e compromisso ético com a segurança do paciente¹⁶.
Conclui-se que o sucesso da técnica está diretamente relacionado ao preparo do profissional e à execução precisa, respeitando os limites anatômicos e funcionais da região. Assim, a bichectomia deve ser compreendida não como um simples procedimento estético, mas como uma cirurgia que demanda responsabilidade técnica e científica, consolidando-se como prática legítima e ética dentro da Odontologia moderna¹⁸.
Conclui-se ainda que a ausência de parâmetros objetivos para indicação reforça a necessidade de uma abordagem individualizada, embasada tanto na anatomia quanto nas expectativas reais do paciente²⁰,²¹. A literatura evidencia que a combinação de avaliação crítica, domínio técnico minucioso e conhecimento das repercussões futuras é o que determina a excelência no resultado cirúrgico²¹,¹⁰.
O desenvolvimento de novas pesquisas, especialmente estudos longitudinais e ensaios clínicos padronizados, é fundamental para ampliar o entendimento sobre o comportamento da gordura bucal ao longo do tempo e minimizar a ocorrência de intercorrências¹⁸,²⁰. Assim, a prática da bichectomia deve ser continuamente aprimorada, acompanhando o avanço das evidências científicas e mantendo o compromisso ético com a segurança e a integridade funcional e estética dos pacientes¹⁶.
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