A IMPORTÂNCIA DA GLÂNDULA DE SKENE E SUA RELAÇÃO NA FUNÇÃO SEXUAL FEMININA: UMA REVISÃO SISTEMÁTICA

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202510311007


Priscilla Garcia Eluan1


Resumo 

A Glândula de Skene, também conhecida como “próstata feminina”, tem sido amplamente debatida quanto ao seu papel na resposta sexual da mulher, especialmente em relação à ejaculação feminina, popularmente chamada de “squirt”. Apesar das evidências que sugerem sua semelhança com a próstata masculina, sua importância clínica e funcional ainda é controversa. O presente estudo tem como objetivo realizar uma revisão sistemática da literatura científica para analisar criticamente as evidências disponíveis sobre a participação da Glândula de Skene na função sexual feminina, incluindo o fenômeno do squirt. A pesquisa foi conduzida nas bases de dados PubMed, Scielo, Web of Science e ScienceDirect, abrangendo o período de 2000 a 2025, utilizando os descritores “Skene’s gland”, “female prostate”, “female ejaculation”, “female sexual function” e “squirt”. Os estudos analisados revelam a expressão de marcadores prostáticos, como o Antígeno Prostático Específico (PSA) e a Fosfatase Ácida Prostática (PSAP), indicando uma possível semelhança funcional com a próstata masculina (Aoki et al., 2001; Furuya et al., 2001). Além disso, há indícios de que as secreções da Glândula de Skene podem estar envolvidas na ejaculação feminina, um fenômeno que algumas mulheres associam a um prazer intenso e à experiência de múltiplos orgasmos (Gravina et al., 2008; Jannini et al., 2012). No entanto, a prevalência e a fisiologia exata do squirt ainda são pouco compreendidas pela população feminina e pela comunidade científica, e a ausência de dados detalhados sobre a composição do fluido expelido, incluindo a quantidade de ureia, volume, cor, odor e textura, dificulta a comprovação definitiva de sua relevância na satisfação sexual feminina. Em conclusão, embora a Glândula de Skene apresente um potencial papel funcional na sexualidade feminina e no fenômeno do squirt, ainda existem lacunas significativas no conhecimento científico que impedem a afirmação de sua real importância. 

Palavras-chave: Glândula de Skene; ejaculação feminina; squirt; próstata feminina; função sexual; revisão sistemática. 

Abstract 

The Skene’s gland, also known as the “female prostate,” has been widely debated regarding its role in women’s sexual response, especially concerning female ejaculation, popularly called “squirt.” Despite evidence suggesting its similarity to the male prostate, its clinical and functional significance remains controversial. This study aims to conduct a systematic review of the scientific literature to critically analyze the available evidence on the participation of the Skene’s gland in female sexual function, including the squirt phenomenon. The research was conducted in the PubMed, Scielo, Web of Science, and ScienceDirect databases, covering the period from 2000 to 2025, using the descriptors “Skene’s gland,” “female prostate,” “female ejaculation,” “female sexual function,” and “squirt.” The analyzed studies reveal the expression of prostatic markers, such as Prostate-Specific Antigen (PSA) and Prostatic Acid Phosphatase (PSAP), indicating a possible functional similarity to the male prostate (Aoki et al., 2001; Furuya et al., 2001). Furthermore, there are indications that the secretions of the Skene’s gland may be involved in female ejaculation, a phenomenon that some women associate with intense pleasure and the experience of multiple orgasms (Gravina et al., 2008; Jannini et al., 2012). However, the prevalence and exact physiology of squirt are still poorly understood by the female population and the scientific community, and the absence of detailed data on the composition of the expelled fluid, including the amount of urea, volume, color, odor, and texture, makes it difficult to definitively prove its relevance in female sexual satisfaction. In conclusion, although the Skene’s gland presents a potential functional role in female sexuality and the squirt phenomenon, there are still significant gaps in scientific knowledge that prevent the affirmation of its real importance. 

Keywords: Skene’s gland; female ejaculation; squirt; female prostate; sexual function; systematic review. 

1. Introdução 

A função sexual feminina é um fenômeno complexo e multifacetado, resultante da intrincada interação entre fatores anatômicos, hormonais, psicológicos e sociais (Basson, 2000). Nesse contexto, a Glândula de Skene, descrita inicialmente no século XVII, tem sido tradicionalmente associada à lubrificação uretral e à produção de fluidos durante o orgasmo (Levin, 2015). A controvérsia reside na divergência de opiniões sobre o papel da Glândula de Skene na ejaculação feminina, um fenômeno que, quando abundante, é popularmente conhecido como “squirt”. Enquanto alguns autores defendem que a glândula seria a principal responsável por este fenômeno, que muitas mulheres relatam estar associado a um prazer sexual intenso e à capacidade de múltiplos orgasmos (Levin, 2016; Wimpissinger et al., 2007), outros o consideram uma confusão com a incontinência urinária (Pastor & Chmel, 2013). A falta de conhecimento e a desinformação sobre o squirt são prevalentes entre as mulheres e a comunidade médica, tornando este um tema de grande interesse e necessidade de elucidação científica (Salama, 2015). A persistência desta controvérsia e a crescente discussão sobre o squirt justificam a necessidade de uma revisão sistemática das evidências científicas disponíveis, com o objetivo de avaliar se a participação da Glândula de Skene na função sexual feminina e na ejaculação feminina é um fato fisiológico comprovado ou um conceito ainda controverso. Além disso, a carência de dados detalhados sobre a composição do fluido expelido, incluindo a quantidade de ureia, volume, cor, odor e textura, limita a compreensão completa do fenômeno do squirt e sua relação com a função sexual feminina. 

2. Objetivo 

O presente estudo tem como objetivo analisar criticamente a literatura científica disponível sobre a importância da Glândula de Skene na função sexual feminina, com foco especial no fenômeno da ejaculação feminina (squirt), a fim de determinar se sua atuação constitui uma realidade fisiológica comprovada ou um conceito ainda controverso e carente de evidências robustas, e discutir a percepção e o impacto deste fenômeno na experiência sexual feminina. Adicionalmente, busca-se identificar as lacunas existentes no conhecimento sobre a composição do fluido expelido durante o squirt, incluindo a quantidade de ureia, volume, cor, odor e textura, e destacar a necessidade de futuras pesquisas para preencher essas lacunas. 

3. Metodologia 

Foi realizada uma revisão sistemática da literatura científica, abrangendo artigos publicados entre 2000 e 2025 nas bases de dados PubMed, Scielo, Web of Science e ScienceDirect. A estratégia de busca utilizou os seguintes descritores: “Skene’s gland”, “female prostate”, “female ejaculation”, “female sexual function” e “squirt”. Os critérios de inclusão foram: estudos originais, revisões sistemáticas, meta-análises e ensaios clínicos que abordassem a função da Glândula de Skene na sexualidade feminina e/ou o fenômeno da ejaculação feminina. Foram incluídos estudos que investigaram a composição do fluido expelido durante o squirt, incluindo a quantidade de ureia, volume, cor, odor e textura. Foram excluídos artigos sem acesso ao texto completo, publicações em idiomas diferentes de inglês, português e espanhol, e estudos que não apresentavam relação direta com a função sexual feminina ou o squirt. A seleção dos estudos foi realizada por dois revisores independentes, e as divergências foram resolvidas por consenso. 

4. Discussão 

4.1 Evidências Anatômicas e Bioquímicas: A Glândula de Skene apresenta características histológicas e ultraestruturais semelhantes ao tecido prostático masculino, incluindo a presença de células epiteliais secretoras e a expressão de marcadores prostáticos, como o PSA e o PSAP (Aoki et al., 2001; Furuya et al., 2001). Esses achados sugerem uma homologia funcional entre a Glândula de Skene e a próstata masculina, reforçando a hipótese de que a glândula feminina possa desempenhar um papel na produção de fluidos durante a excitação sexual. 

4.2 Ejaculação Feminina e “Squirt”: Diversos estudos têm demonstrado que o fluido liberado por algumas mulheres durante o orgasmo, frequentemente denominado “squirt”, contém PSA, o que reforça a hipótese de que a Glândula de Skene seja a fonte deste fluido (Gravina et al., 2008; Jannini et al., 2012). O squirt é caracterizado pela expulsão de um volume considerável de líquido claro e inodoro pela uretra durante o orgasmo, distinguindo-se da ejaculação feminina de menor volume e consistência leitosa. No entanto, a diferenciação entre a ejaculação feminina e a incontinência urinária durante o ato sexual ainda representa um desafio diagnóstico, embora a análise imunohistoquímica da urina possa auxiliar na distinção entre esses dois fenômenos (Pastor & Chmel, 2013). 

4.3 Prazer Sexual e Múltiplos Orgasmos: A estimulação da região uretral proximal, onde se localiza a Glândula de Skene, tem sido associada a sensações de prazer intenso e à capacidade de experimentar múltiplos orgasmos em algumas mulheres que relatam o fenômeno do squirt (Levin, 2016; Wimpissinger et al., 2007). Mulheres que experimentam o squirt frequentemente descrevem a sensação como extremamente prazerosa e intensificadora do orgasmo. No entanto, a relação causal entre a estimulação da glândula, a ocorrência do squirt e a experiência de prazer e múltiplos orgasmos ainda não está totalmente esclarecida. A variabilidade anatômica da Glândula de Skene e a subjetividade da experiência sexual feminina dificultam a identificação de um padrão consistente. 

4.4 Prevalência e Conscientização: A prevalência da ejaculação feminina e do squirt varia amplamente na literatura, com estimativas que vão de 10% a 50% das mulheres relatando alguma forma de expulsão de fluido durante o orgasmo (Addiego et al., 1981; Wimpissinger et al., 2007). Apesar de ser um fenômeno relativamente comum, o squirt ainda é pouco conhecido e frequentemente mal compreendido pelas próprias mulheres e pela sociedade em geral. A falta de informação e a persistência de mitos podem levar à vergonha, confusão ou até mesmo à crença de que se trata de incontinência urinária, impactando negativamente a experiência sexual feminina e a comunicação sobre o tema (Jannini et al., 2012; Salama, 2015). 

4.5 Composição do Fluido do “Squirt”: Estudos bioquímicos preliminares sugerem que o fluido expelido no “squirt” se assemelha à urina diluída, contendo ureia, creatinina e ácido úrico. No entanto, a concentração exata desses componentes e a quantidade total de líquido excretado carecem de uma análise aprofundada. A pesquisa existente mostra uma variação considerável no volume do fluido, indo de alguns mililitros a centenas de mililitros, mas a falta de dados precisos impede uma caracterização completa do fenômeno. A cor do fluido do “squirt” é geralmente descrita como transparente e incolor, e a ausência de odor também é uma característica comum, embora variações individuais possam ocorrer. A textura é tipicamente aquosa, mas a falta de estudos detalhados impede uma compreensão completa dessas características. 

4.6 Controvérsias e Limitações: Apesar das evidências que sugerem um papel da Glândula de Skene na função sexual feminina e no fenômeno do squirt, parte da literatura científica considera este papel superestimado, atribuindo maior relevância a fatores neuro-hormonais e psicossociais na resposta sexual feminina (Basson, 2000). A ausência de ensaios clínicos randomizados e controlados que avaliem o impacto da manipulação da Glândula de Skene na função sexual feminina e na experiência do squirt representa uma importante limitação para a comprovação definitiva de sua relevância. Além disso, a carência de dados detalhados sobre a composição do fluido expelido durante o squirt, incluindo a quantidade de ureia, volume, cor, odor e textura, limita a compreensão completa do fenômeno e sua relação com a função sexual feminina. 

5. Conclusão 

A Glândula de Skene é uma estrutura anatômica real, com características semelhantes à próstata masculina, e pode estar envolvida na ejaculação feminina, incluindo o fenômeno do squirt. Este último é relatado por uma parcela significativa de mulheres como uma experiência altamente prazerosa, por vezes associada a múltiplos orgasmos. Contudo, as evidências atuais ainda não são suficientes para confirmar sua relevância definitiva na função sexual feminina, e o squirt permanece um fenômeno pouco compreendido e divulgado, gerando desinformação e potenciais impactos negativos na sexualidade feminina. A falta de dados detalhados sobre a composição do fluido expelido durante o squirt, incluindo a quantidade de ureia, volume, cor, odor e textura, representa uma importante lacuna no conhecimento científico. Assim, a questão sobre a real importância da Glândula de Skene e do squirt na sexualidade feminina permanece em aberto. A resposta a esta pergunta exige a realização de novos estudos clínicos e histológicos, com desenhos metodológicos rigorosos, que permitam esclarecer a real contribuição da Glândula de Skene para a sexualidade feminina e a fisiologia do squirt, bem como promover uma maior conscientização sobre este aspecto da resposta sexual feminina. Estudos futuros devem focar na quantificação precisa da ureia e outros componentes do fluido, na medição do volume expelido em diferentes indivíduos e na análise sensorial da cor, odor e textura do fluido, a fim de fornecer uma base científica sólida para entender o squirt e sua relação com a função sexual feminina. 

6. Referências 

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1https://orcid.org/0009-0009-7225-0303

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