REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202511091902
Beatriz Silva Santos Gonçalves
Eva dos Santos Vieira
Juliana Clarinda do Carmo de Jesus
Lais Bastos Teixeira Dias Barbosa
Orientador: Renata Bahia Bitencourt
Co-orientador: Priscylla Marques Carvalho Geraldo.
RESUMO
A saúde ocupacional vem se consolidando como um campo essencial da saúde coletiva, reconhecendo que o ambiente de trabalho influencia diretamente o bem-estar dos indivíduos. Nas Unidades Básicas de Saúde (UBS), os profissionais enfrentam longas jornadas, mobiliário inadequado e posturas repetitivas, fatores que favorecem o surgimento de dores, estresse e distúrbios osteomusculares. Nesse cenário, a ginástica laboral (GL) destaca-se como uma estratégia eficaz para prevenir doenças ocupacionais, melhorar a qualidade de vida e fortalecer o vínculo entre equipes.
O presente estudo teve como objetivo analisar os principais impactos da GL no cotidiano das UBS, evidenciando seus benefícios para trabalhadores e instituições. Trata-se de uma revisão bibliográfica de abordagem quantitativa, por meio das bases de dados Google Acadêmico, SciELO e Biblioteca Virtual em Saúde, utilizando os descritores “ginástica laboral”, “fisioterapia” e “funcionários de UBS”. Foram incluídos artigos em português publicados entre 2015 e 2025, atendendo aos critérios de relevância e exclusão de duplicidade.
Os resultados apontaram que a GL se mostrou benéfica para os colaboradores das UBS, promovendo melhora na postura e redução de dores musculoesqueléticas, além de contribuir para uma melhor produtividade no trabalho. Dessa forma, conclui-se que a prática da GL nas UBS, é uma estratégia de promoção da saúde ocupacional, acarretando benefícios para os funcionários.
PALAVRAS-CHAVE: Ginástica laboral; Saúde ocupacional; Unidades Básicas de Saúde; Qualidade de vida no trabalho; Fisioterapia; LER/DORT.
INTRODUÇÃO
A ginástica laboral (GL) é uma prática desenvolvida no ambiente de trabalho, geralmente composta por alongamentos, exercícios de fortalecimento muscular, realizados em curtos períodos, durante a jornada de trabalho, podendo ser individuais ou em grupo, com acompanhamento de um profissional da saúde, como fisioterapeuta. Tem como objetivo prevenir lesões e doenças ocupacionais, além de melhorar as condições laborais, promover a saúde dos trabalhadores e fortalecer o vínculo entre a equipe, corroborando Silva et al. (2021)
Entre os principais problemas que a GL busca prevenir, destacam-se as lesões por esforços repetitivos (LER) e os distúrbios osteomusculares (DORT), relacionados ao trabalho. Esses termos não se referem a uma patologia em específica, mas sim síndromes musculoesqueléticas que impactam diretamente a vida de inúmeros trabalhadores brasileiros, causando limitações. Nesse sentido, Zavarizzi et al. (2019) destacam que as lesões LER/DORT “podem ser incapacitantes, levando os trabalhadores ao afastamento do trabalho, o qual causam ruptura dos laços e das relações sociais que servem de suportes no cotidiano”. Os autores ainda complementam que os trabalhadores afastados convivem com dores crônicas e apresentam um sentimento de incapacidade para o desempenho de atividades básicas do cotidiano.
Nesse contexto, torna-se fundamental considerar a realidade dos profissionais das Unidades Básicas de Saúde, que frequentemente enfrentam longas jornadas de trabalho, e acabam executando movimentos repetitivos durante a jornada. Soma-se a isso a ausência de mobiliário adequado e a permanência por várias horas consecutivas em pé ou sentados em posturas inadequadas, fatores que favorecem o surgimento de problemas de saúde físicos e emocionais. Como consequência, é comum que esses trabalhadores relatem dores musculares, estresse e até sinais de exaustão, aspectos que impactam diretamente na qualidade do atendimento prestado à população.
Estudos recentes indicam que a implementação de programas de GL em órgãos públicos, traz muitos benefícios, especialmente na prevenção de lesões musculoesqueléticas e problemas posturais. Uma pesquisa realizada no Tribunal de Justiça de Pernambuco mostrou que a ginástica é uma ferramenta importante para prevenir doenças relacionadas ao trabalho e, ao mesmo tempo, contribui para a qualidade de vida dos servidores públicos. (Oliveira & Souza, 2025).
O objetivo desse artigo é analisar e ressaltar os principais impactos que a fisioterapia na saúde do trabalhador pode gerar nas UBS, através da realização da GL, no contexto das unidades básicas de saúde, visando promover qualidade de vida para os colaboradores por meio da prática nas unidades.
METODOLOGIA
A metodologia adotada neste estudo baseia-se em uma revisão bibliográfica de abordagem quantitativa, com o objetivo de investigar os benefícios da GL em UBS.
A coleta de dados foi realizada nas bases Google Acadêmico e SciELO (Scientific Electronic Library Online), por meio da aplicação de descritores combinados como “ginástica laboral”, “fisioterapia” e “colaboradores de UBS”. Foram priorizadas publicações em língua portuguesa, no período de 2015 a 2025, a fim de assegurar a atualidade e relevância das informações obtidas.
Na seleção dos materiais, estabeleceram-se critérios de inclusão, como a pertinência ao tema e a disponibilidade integral do texto, bem como critérios de exclusão, que abrangeram a duplicidade de artigos, a incompatibilidade temática e a publicação do artigo superior a dez anos.
O levantamento de dados foi conduzido de forma estruturada, seguindo as fases de identificação, nas bases de dados com buscas de publicações relacionadas aos descritores definidos. Em seguida, na triagem inicial, realizou a leitura dos títulos, resumos e introduções, buscando eliminar os estudos que não atendam aos objetivos da pesquisa. Na avaliação crítica do conteúdo, analisou-se a qualidade metodológica e a relevância do trabalho. Por fim, na integração dos resultados, os estudos que preencheram todos os critérios foram incluídos no corpo da pesquisa, enquanto os que não atenderam às exigências foram excluídos.
Ao término do processo, foram identificados 14 estudos, dos quais 4 foram excluídos por não atenderem aos critérios estabelecidos, resultando em 10 trabalhos selecionados para compor o corpo final desta pesquisa.
Tabela 1 – Fluxograma

Fonte: Elaborada pelos autores (2025)
RESULTADOS
Tabela 1 – Artigos.
| Autor, ano | População | Intervenção | Resultado principal |
| ZAVARIZZI, C. P.; CARVALHO, R. M. M.; ALENCAR, M. C. B., 2023 | Grupos de pacientes acometidos com LER/DORT. | Relato de experiência de atendimentos em grupo, durante o período de fevereiro a novembro 2017. | A abordagem grupal permitiu que os trabalhadores compartilhassem as ansiedades e os medos diante das dificuldades e desafios encontrados, possibilitando a criação de estratégias individuais e coletivas que potencializam o enfrentamento e a ressignificação do sofrimento. |
| COSTA, L. M. C. L.; PIMENTA, I. C.; SALES, E. M. et al. 2024. | Trabalhadores da saúde em geral. | Ensaios randomizados controlados e comparando a eficácia da ginástica laboral em trabalhadores da saúde | A GL demonstra que comparada a nenhuma intervenção ou intervenção mínima, pode contribuir para diminuir a dor musculoesquelética, o numero de dias de afastamento e o nível de estresse em profissionais de saúde. |
| OLIVEIRA, J. R. R.; SOUZA, C. M. de. , 2025 | Servidores Públicos do Tribunal de Justiça Pernambucano | Abordagem quantitativa, utilizando abordagem por conveniência e aplicação de questionário via google forms. | Os resultados evidenciam que a GL desempenha um papel relevante na redução de lesões musculoesqueléticas e distúrbios posturais, além de favorecer o bem-estar físico e mental dos participantes. |
| OLIVEIRA, J. R. R.; SOUZA, C. M. de; COSTA, L. M. C. L. et al. 2023. | População da Região Sul do Brasil. | Estudo ecológico, descritivo e com abordagem quantitativa com recorte de tempo de 2012-2022. | Foi observado grande incidência de causas de LER/DORT no SUL do país, devido ao trabalho. A partir dai foi possível traçar faixa etária, sexo e raça. |
| CARDOSO, B. B. S., 2021 | Agente comunitário de saúde (ACS) | Sessões de GL com ACS de uma unidade de Saúde da Família no município de Itabuna-BA. | Houve baixa adesão dos ACS durante as sessões, requerendo um trabalho posterior de educação em saúde do trabalhador, com atenção da gestão municipal. Os que participaram relataram melhoras. |
| VEIGA, F. C. L.,2019 | Trabalhadores atendidos na UBS Oswaldo de Mello. | Atividades teóricas e práticas para trabalhadores atendidos na UBS, também acompanhamento desses pacientes e avaliação dos resultados obtidos com a finalidade de nortear ações futuras. | As ações planejadas tiveram um resultado positivo e toda a população assistida se sentiu acolhida e beneficiada com os resultados das atividades. |
| REICHERT, R. M. M., CALZADILLA, V. C. R. , 2022 | Trabalhadores de uma empresa. | Revisão sistemática. | Evidências que certificam a importância da aplicação da ginástica laboral nas empresas com grande e pequeno fluxo de trabalhadores. |
| SILVA, C. C.; SOUZA, L. A.; ALMEIDA, C. G. et al. 2021. | Trabalhadores de empresas. | Revisão de Literatura. | Foi possível através deste estudo elucidar a disposição para trabalhar, aumento da Produtividade, diminuição da incidência de doenças ocupacionais e diminuição de despesas médicas, ao trabalhador, melhora da autoestima, no relacionamento interpessoal, redução de dores e estresse, diminuição da fadiga, melhora na saúde física, mental e emocional. |
| AQUINO, D. L.; COSTA, D. N.; SILVA, D. V. et al. 2022. | Trabalhadores em geral. | Revisão de Literatura. | Mediante análise dos estudos selecionados, verificou-se que a ginástica laboral atua na melhora da qualidade de vida dos colaboradores, proporcionando maior desempenho e motivação, o que acaba se refletindo nos resultados positivos que a empresa alcança. |
| AMORIM, C. B.; QUEIROZ, Â. A.; ALMEIDA, R. M. et al. 2015. | Trabalhadores de empresa. | Para a avaliação dos resultados, aplicou-se questionário com 6 (seis) questões fechadas e obteve-se cinquenta respondentes, entre homens e mulheres, compilando-se as informações para a análise de resultados da pesquisa. | Constata-se, portanto, que a Ginástica Laboral, ajuda na saúde dos colaboradores e para as organizações, sugerindo-se um campo importante para futuras pesquisas. |
Fonte: Elaborada pelos autores (2025)
DISCUSSÃO
O presente estudo teve como objetivo analisar a importância da GL como estratégia de promoção da saúde ocupacional nas Unidades Básicas de Saúde, destacando seus impactos sobre a prevenção de doenças ocupacionais, o bem-estar físico e mental e a produtividade dos trabalhadores. De modo geral, os resultados encontrados nos estudos analisados apontam que a prática regular da ginástica laboral proporciona melhoria na qualidade de vida, redução de dores musculoesqueléticas, diminuição do estresse e maior integração entre as equipes de trabalho, sendo, portanto, uma ferramenta de baixo custo e impacto positivo na saúde do trabalhador.
O principal achado refere-se à eficácia da Ginástica Laboral (GL) na prevenção das doenças osteomusculares relacionadas ao trabalho (DORT/LER). Aquino et al. (2022) destacam que a GL reduz dores musculares e melhora a flexibilidade e a postura, prevenindo lesões e sobrecargas físicas. De forma semelhante, Veiga (2019) observou melhora no desempenho funcional e redução do desgaste físico e psicológico entre trabalhadores de UBS. Oliveira et al. (2023) reforça essa importância ao relacionar a alta incidência de LER/DORT, na região Sul do Brasil, à falta de programas preventivos, evidenciando a necessidade de políticas permanentes de saúde ocupacional.
Outro aspecto relevante identificado foi o impacto psicológico e social positivo que a GL fornece. Cardoso (2021) destacou que, entre os agentes comunitários de saúde, a prática regular dessas atividades promoveu melhor autoestima, sensação de bem-estar e fortalecimento dos vínculos interpessoais no ambiente de trabalho. Esses benefícios estão alinhados com as observações de Amorim et al. (2015), que ressaltam a importância da GL para reduzir o estresse ocupacional e melhorar o ambiente organizacional. Dessa forma, a GL não apenas atua na prevenção de doenças físicas, mas também no equilíbrio emocional e motivacional dos colaboradores, tornando-se uma prática promotora da saúde de maneira integral.
Além da melhora física e emocional, diversos estudos destacam que a GL aumenta a produtividade e reduz o absenteísmo. Aquino et al. (2022) demonstram que os trabalhadores participantes de programas regulares apresentaram maior rendimento, menos afastamentos e melhor engajamento nas atividades. Esses achados coincidem com os de Veiga (2019), que observou uma diminuição nos índices de afastamento e queixas relacionadas à fadiga entre os profissionais das UBS após a adoção das práticas. Tais resultados reforçam que a GL pode ser incorporada como ferramenta de gestão em saúde pública, gerando benefícios tanto para os profissionais quanto para as instituições.
No entanto, alguns estudos apontam desafios e limitações na adesão às atividades. Cardoso (2021) observou baixa participação dos trabalhadores nas sessões de GL l, o que foi atribuído à falta de tempo, sobrecarga de tarefas e ausência de cultura de autocuidado entre os profissionais da saúde. Esse achado sugere a necessidade de ações educativas e de sensibilização contínuas, além de uma adequada organização institucional, para garantir a participação efetiva dos servidores. Ademais, Oliveira et al. (2023) destacam que ainda há escassez de dados epidemiológicos atualizados e subnotificação de doenças ocupacionais, o que dificulta a implementação de políticas públicas mais precisas e eficazes, que previnem e tratam esses quadros patológicos.
Dessa forma, embora os resultados encontrados sejam amplamente positivos, é importante reconhecer que os estudos revisados apresentam limitações metodológicas, como amostras pequenas, curta duração das intervenções e falta de padronização das atividades aplicadas. Recomenda-se, portanto, que futuras pesquisas ampliem o número de participantes, avaliem os efeitos a longo prazo e explorem diferentes modalidades de GL adaptadas à realidade das UBS. Além disso, sua incorporação nas rotinas institucionais pode contribuir para consolidar uma cultura de promoção da saúde e valorização do trabalhador, fortalecendo os princípios da saúde integral que norteiam o Sistema Único de Saúde (SUS).
CONCLUSÃO
Com base na análise detalhada do conteúdo, conclui-se que a Fisioterapia ocupacional, por meio de programas estruturados de GL configura-se como uma estratégia eficaz de promoção da saúde ocupacional nas UBS, contribuindo significativamente para a prevenção de doenças ocupacionais, redução do absenteísmo e a melhoria do bem-estar físico e mental dos trabalhadores. A prática regular dessas atividades favorece o desempenho profissional, a motivação e a qualidade de vida no ambiente de trabalho.
Dessa forma, evidencia-se a relevância da implementação e continuidade de programas estruturados de Ginástica Laboral como parte integrante das ações permanentes de promoção da saúde do trabalhador nas Unidades Básicas de Saúde. Quando aplicada de forma contínua e orientada por profissionais qualificados, essa prática se revela uma estratégia acessível, preventiva e educativa, que valoriza o servidor público e favorece um ambiente de trabalho mais produtivo, saudável e humanizado. Investir em Ginástica Laboral significa investir na saúde e valorização dos profissionais, refletindo diretamente na eficiência, qualidade e humanização do atendimento à comunidade, além de fortalecer um modelo de gestão mais equilibrado, sustentável e comprometido com o bem-estar dos colaboradores.
REFERÊNCIAS
AMORIM, C. B. et al. A importância da Ginástica Laboral. Anais XVII Encontro Internacional sobre gestão empresarial e meio ambiente–ENGEMA, São Paulo, 2015.
COSTA, L. M. C. L. et al. Ginástica laboral em profissionais de saúde: uma revisão sistemática. Fisioterapia e Pesquisa, v. 31, p. e23002324en, 2024.
DE LIMA AQUINO, D.; DA COSTA, D. N. Benefícios da ginástica laboral na saúde do trabalhador: uma revisão de literatura.
DE OLIVEIRA, G. G. et al. Estudo de lesões por esforços repetitivos e distúrbios osteomusculares relacionado ao trabalho no sul brasileiro entre o período de 2012-2022. Brazilian Journal of Development, v. 9, n. 8, p. 23512-23523, 2023.
DE OLIVEIRA, J. R. R.; DE SOUZA, C. M. A ginástica laboral e a prevenção de doenças ocupacionais: um estudo de caso no Tribunal de Justiça de Pernambuco. Revista Ibero-Americana de Humanidades, Ciências e Educação, v. 11, n. 4, p. 1557-1585, 2025.
DOS SANTOS, B. B. O uso da ginástica laboral na promoção à saúde do agente comunitário de saúde. APS em Revista, v. 3, n. 2, p. 110-116, 2021.
REICHERT, R. M. M.; CALZADILLA, V. C. R. A importância da inclusão de programas de ginástica laboral na prevenção de LER e DORT nos trabalhadores dentro de uma empresa: uma revisão sistemática. Revista Acadêmica Online, v. 8, n. 42, p. e1025-e1025, 2022.
SILVA, C. C. et al. Identificando quais vantagens da ginástica laboral no dia a dia do trabalhador: revisão da literatura. Revista Saúde em Foco, São Paulo, v. 13, p. 88-94, 2021.
VEIGA, F. C. L. A ginástica laboral para trabalhadores atendidos na UBS Osvaldo de Mello.
ZAVARIZZI, Camilla de Paula; CARVALHO, Regina Mituyo Matsuo de; ALENCAR, Maria do Carmo Baracho de. Grupos de trabalhadores acometidos por LER/DORT: relato de experiência. Cadernos Brasileiros de Terapia Ocupacional, v. 27, n. 3, p. 663-670, 2019.
