REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ch10202510081330
LOPES, Renata Caroline dos Santos1; RICALDES, Maria Judilândia de Santana2; FRANCO, Tereza Cristina de Oliveira Costa3; ALMICI, Mirian da Silva4; MARTINS, Marilza Hilario5; MENDONÇA, Maria Margareth6
Resumo
A alfabetização midiática tem se configurado como uma importante ferramenta no processo de ensino e aprendizagem nos anos iniciais do ensino fundamental. Ao integrar diferentes linguagens e mídias, possibilita-se que os alunos desenvolvam habilidades de leitura, escrita, interpretação, escuta e criticidade, preparando-os para lidar com a sociedade contemporânea, marcada pela presença constante de tecnologias digitais. Segundo Freire (1996), a leitura da palavra está vinculada à leitura do mundo, o que reforça a importância de articular práticas e metodologias pedagógicas que promovam a compreensão crítica da realidade em que se vive. Nesse sentido, este relato apresenta a experiência vivenciada pela professora e também pela gestão escolar da Escola Municipal Santo Antônio do Caramujo, vale mencionar que trata-se de uma escola do/no campo, localizada no município de Cáceres – MT, por meio do desenvolvimento de um projeto de leitura utilizando como uma das ferramentas pedagógicas a criação de um podcast. O projeto de leitura surgiu da necessidade de estimular o interesse pela leitura e ampliar as práticas de alfabetização para além do tradicional texto escrito no papel. A proposta central adotada pela professora, consistiu em trabalhar com gêneros textuais a partir da produção do podcast, de forma que os alunos pudessem se reconhecer como autores e participantes ativos do processo comunicativo. Para Bakhtin (1997), todo enunciado se realiza dentro de um gênero discursivo, e ao compreenderem e produzirem diferentes tipos de gêneros as crianças podem exercitar sua inserção em práticas sociais concretas de linguagem.
Palavras-chave: aprendizagem. alfabetização midiática. Podcast
A intervenção proposta pela professora
As atividades iniciaram-se com a escuta de diferentes modelos de podcasts, a fim de que as crianças compreendessem suas características principais, como a oralidade, organização em episódios, a necessidade de elaboração de roteiros, gravações e a importância da clareza na comunicação. Em seguida, os alunos receberam instruções de como manusear as ferramentas digitais, como celular, notebook, e chromebook, foram desafiados a produzir episódios próprios, que envolviam desde a seleção do gênero textual a ser abordado até a gravação e edição do material, sempre com o apoio da professora. Esse processo vai ao encontro do que Soares (2009) define como práticas de letramento, nas quais o indivíduo não apenas aprende a decodificar palavras, mas a participar ativamente de contextos sociais de uso da língua.
Um dos momentos mais significativos do projeto foi a realização de uma entrevista com as gestoras da escola. Nesse processo, os alunos precisaram elaborar um roteiro com perguntas pertinentes, dividir funções entre entrevistador (a), responsáveis pela gravação e os organizadores de todo o material, além de participarem ativamente da edição final para publicação. Essa experiência proporcionou o desenvolvimento de competências como o trabalho coletivo, a autonomia, a responsabilidade e a criatividade, aspectos também ressaltados por Moran (2015), que destaca a relevância de metodologias ativas e do uso de tecnologias digitais na promoção de aprendizagens significativas.
Segundo a professora, o envolvimento dos alunos foi crescente ao longo do projeto. Demonstraram entusiasmo em cada etapa, desde a escolha dos gêneros textuais até a curiosidade em descobrir qual seria o tema abordado nos próximos episódios. Essa motivação refletiu-se em maior interesse pela leitura e escrita, fortalecendo o processo de alfabetização em um contexto lúdico e interativo. Para Jenkins (2009), a cultura participativa proporcionada pelas mídias digitais, tendem a ampliar o engajamento dos alunos e favorece seu protagonismo.
A perspectiva da gestão escolar
A alfabetização midiática é um conceito que vai além do uso básico de tecnologias, focando na habilidade crítica e reflexiva das pessoas ao lidar com conteúdo criados e consumidos por meio de diversas mídias. Hoje em dia, as crianças estão cada vez mais imersas no mundo digital, tendo acesso contínuo à internet, redes sociais, vídeos e jogos eletrônicos. Esse fenômeno, apesar de trazer vantagens, também apresenta dificuldades, como a exposição precoce a conteúdos frequentemente impróprios e a propagação de informações falsas.
Nesse cenário, a alfabetização midiática nas primeiras séries do Ensino Fundamental surge como um campo fundamental para a atuação pedagógica. Ao inserir as crianças nesse processo desde tenra idade, a escola tem a capacidade de não só prepará-las para usar a tecnologia de maneira eficiente, mas também desenvolver nelas habilidades críticas e éticas em relação ao uso das mídias. Na realização do Podcast foi possível observar que houve estimulo a leitura, escrita e a oralidade, pois, os alunos praticam roteiro, narrativa e argumentação, além de desenvolver as competências digitais, considerando que os mesmos realizaram a gravação, edição e a publicação com colaboração da professora, promovendo de fato o protagonismo dos alunos dando voz e permitindo compartilhar suas ideias. Desenvolvendo nas crianças a habilidade e competência de realizar pesquisa com foco em pensamento crítico incentivando-os a busca por informações confiáveis e seguras. Possibilitando também o fortalecimento da comunicação escolar aproximando alunos, professores, gestão escolar, familiares e toda comunidade escolar, dando visibilidade para o projeto de Leitura e Escrita como também para o Evento da Festa Campesina que tem como objetivo valorizar a cultura campesina considerando que os alunos são estudantes de Escola do/no campo.
Através dessa experiencia pode-se destacar que para haver uma conexão com os recursos tecnológicos com práticas pedagógicas é necessário que tenham um planejamento, curadorias de bons instrumentos para garantir que os objetos de conhecimentos selecionados pela professora sejam alcançados. (Tereza Cristina)
Do ponto de vista da gestão, tanto a diretora quanto a coordenadora pedagógica da Escola Municipal Santo Antônio do Caramujo destacaram a relevância do projeto para o fortalecimento das práticas de leitura e escrita nos anos iniciais. Ao participarem da entrevista conduzida pelos próprios alunos, relataram que a experiência foi significativa não apenas pelo envolvimento estudantil, mas também pela oportunidade de perceberem as crianças como sujeitos ativos, capazes de elaborar perguntas pertinentes, organizar roteiros e conduzir um processo comunicativo com autonomia e responsabilidade.
Segundo as gestoras, responder às indagações das crianças foi uma experiência marcada por emoção e surpresa, pois os questionamentos revelaram criticidade e curiosidade genuína. Essa vivência reforçou a importância de iniciativas pedagógicas inovadoras, que rompem com a centralidade do professor e possibilitam que os alunos assumam papel de protagonistas. Além disso, reconheceram que o uso do podcast ampliou a visibilidade da escola e favoreceu a integração entre professores, estudantes, famílias e comunidade local, fortalecendo o vínculo entre ensino, cultura e território campesino.
As gestoras ressaltaram ainda que o projeto contribuiu para evidenciar a necessidade de formação continuada dos docentes no uso pedagógico das tecnologias digitais. Nesse sentido, enfatizaram que práticas como essa, quando planejadas e acompanhadas de forma sistemática, podem potencializar a aprendizagem, despertar maior interesse dos estudantes e consolidar uma cultura escolar mais participativa e conectada à realidade contemporânea.
Considerações Finais
A experiência revelou que a alfabetização midiática, quando aplicada de forma organizada, criativa e planejada, potencializa a aprendizagem e amplia as práticas de letramento. O uso do podcast como recurso pedagógico mostrou-se eficaz para envolver os alunos em atividades significativas, que uniram a leitura, produção textual, oralidade e tecnologia. A iniciativa contribuiu não apenas para o avanço da alfabetização, mas também para a formação de sujeitos críticos e participativos, capazes de dialogar com diferentes linguagens midiáticas. Assim, evidencia-se a importância de integrar praticas inovadoras ao currículo dos anos inicias do ensino fundamental, de modo a tornar o processo educativo mais dinâmico, atrativo e conectado com a realidade contemporânea.
Referências
BAKHTIN, Mikhail. Histérica da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 1997.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
JENKINS, Henry. Cultura da convergência. 2ª. Ed. São Paulo: Alef.2009.
MORAN, José Manuel. Metodologia ativas para aprendizagem mais profunda. 2015. Disponível em: https://moran.eca.usp.br/wp-content/uploads/2013/12/mudando_moran.pdf. Acesso: 15 de agosto de 2025.
SOARES, Magda. Letramento: um tema em três gêneros. Belo Horizonte: Autêntica, 2009.
1Mestra em educação pela Universidade do Estado de Mato Grosso – Unemat. Graduada em Pedagogia pela Universidade de Mato Grosso. Professora efetiva da educação básica lotada na Secretaria Municipal de Educação – Cáceres – MT
2Graduada em Ciências Biológicas na Universidade do Estado de Mato Grosso – Unemat, e Ciências Naturais com Habilitação em Química na Universidade Federal do Estado de Mato Grosso – UFMT. Especialista em educação interdisciplinar pelo Instituto Educacional Cuiabano. Professora efetiva da educação básica lotada na Secretaria Municipal de Educação – Cáceres – MT
3Graduação em Pedagogia pela Universidade Norte do Paraná ( Unopar) 2014, Especialização em Psicopedagogia Clínica e Institucional pela Faculdade do Pantanal Fapan (2016) .
4Graduação em Pedagogia pela Faculdade Cidade Verde(2024), graduação em Ciências Biológicas pela Universidade do Estado de Mato Grosso(2015), especialização em Educação Ambiental pela FACULDADE UNINA(2016) e mestrado em GENÉTICA E MELHORAMENTO DE PLANTAS pela Universidade do Estado de Mato Grosso(2022).
5Graduação em Pedagogia pela Faculdade Norte do Paraná (Unopar) 2016, Especialização em Psicopedagogia pela Faculdade de Educação de Tangará da Serra
6Graduada em Pedagogia pela Universidade do Estado de Mato Grosso – Unemat. Especialista em Educação Infantil e Letramento pela Faculdades Integradas de Cuiabá – FIC. Professora efetiva da educação básica lotada na Secretaria Municipal de Educação – Cáceres – MT
