REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202510081323
Marcela Navarro do Nascimento
Rodrigo Augusto Silva Filho
Resumo
A blastomicose é uma micose sistêmica causada pelo fungo dimórfico Blastomyces dermatitidis, que afeta principalmente cães e humanos. Em cães, manifestações oculares ocorrem em até 48% dos casos, sendo frequentemente bilaterais. As alterações oftálmicas incluem uveíte anterior, coroidite piogranulomatosa, descolamento de retina, neurite óptica e glaucoma secundário, resultando em perda visual significativa. O diagnóstico é estabelecido por cultura fúngica, exames citológicos ou testes de antígeno urinário. O tratamento envolve antifúngicos sistêmicos, sendo o itraconazol o mais indicado, associado ou não a anfotericina B e fluconazol em casos graves. O prognóstico sistêmico é geralmente favorável, mas reservado quando há envolvimento ocular ou do sistema nervoso central. A detecção precoce e o manejo terapêutico adequado são essenciais para preservar a visão e melhorar a sobrevida.
Palavras-chave: blastomicose; cães; oftalmologia veterinária; micose sistêmica.
Abstract
Blastomycosis is a systemic mycosis caused by the dimorphic fungus Blastomyces dermatitidis, affecting primarily dogs and humans. In dogs, ocular involvement occurs in up to 48% of cases, often bilaterally. Ocular manifestations include anterior uveitis, pyogranulomatous choroiditis, retinal detachment, optic neuritis, and secondary glaucoma, frequently leading to severe vision loss. Diagnosis is based on fungal culture, cytological examination, or urinary antigen testing. Systemic antifungal therapy, primarily itraconazole, with amphotericin B or fluconazole for severe cases, remains the treatment of choice. Prognosis is generally favorable systemically but poor when ocular or central nervous system involvement is present. Early detection and adequate therapeutic management are essential for vision preservation and improved survival.
Keywords: blastomycosis; dogs; veterinary ophthalmology; systemic mycosis.
Introdução
A blastomicose é uma micose sistêmica de caráter endêmico causada pelo fungo dimórfico Blastomyces dermatitidis, relatada pela primeira vez em 1894 (CASTILLO; KAUFFMAN; MICELI, 2016). Essa zoonose acomete principalmente cães e humanos, embora a transmissão direta animal-homem seja rara (SAFATLE; GALERA, 2023). O fungo é encontrado em solos úmidos ricos em matéria orgânica, e a infecção ocorre geralmente pela inalação de conídios, que se instalam no tecido pulmonar e podem se disseminar por via hematógena ou linfática para outros órgãos, incluindo os olhos (SCHWARTZ, 2018). As manifestações clínicas mais comuns em cães incluem sinais respiratórios, cutâneos e linfadenomegalias; entretanto, alterações oculares são descritas em quase metade dos casos, podendo ser bilaterais e progressivas. Tais manifestações representam não apenas um desafio diagnóstico e terapêutico, mas também um fator prognóstico determinante para a visão e a qualidade de vida do animal. Diante disso, torna-se relevante revisar a literatura disponível acerca da sintomatologia ocular associada à blastomicose em cães, enfatizando os aspectos clínicos, diagnósticos, terapêuticos e prognósticos.
Materiais e métodos
Este trabalho trata-se de uma revisão narrativa da literatura sobre blastomicose em cães com ênfase nas manifestações oculares. A busca bibliográfica foi realizada em bases de dados científicas, incluindo PubMed, Scielo, ScienceDirect e Google Scholar. Foram selecionados artigos publicados entre 2000 e 2025, além de obras clássicas de referência sobre microbiologia médica e oftalmologia veterinária. A análise foi conduzida de forma descritiva e comparativa, buscando identificar padrões de manifestação clínica, métodos diagnósticos recomendados e estratégias terapêuticas, a fim de fornecer uma visão atualizada e aplicada à prática clínica veterinária.
Revisão de literatura
A blastomicose é uma infecção sistêmica endêmica causada pelo fungo dimórfico Blastomyces dermatitidis, sendo a espécie clinicamente relevante, relatado pela primeira vez em 1894 (CASTILLO; KAUFFMAN; MICELI, 2016). Tal fungo pertence à Ordem Onygenales da Família Ajellomycetaceae e apresenta duas fases de morfologia (dimórfico), variando de acordo com a temperatura, disponibilidade de nutrientes e tensão de oxigênio. A fase de micélio, fase infectante, é presente em temperatura ambiente e formam hifas ramificadas, com conídeos (esporos). Já em fase de levedura, presentes já no organismo do hospedeiro, possuem parede celular espessa, ocorrem em 37 graus Celsius e se reproduzem assexualmente por gemulação (LEVINSON, 2014).
O fungo apresenta fatores de virulência, os quais dificultam o organismo hospedeiro no combate a infecção, sendo eles: paredes celulares espessas, que conferem resistência a fagocitose; glicoproteina adesina, a qual permite a ligação às células do hospedeiro e prejudicam a resposta pró-inflamatória (SANTOS et al., 2012; ROCCO et al., 2011). O B. dermatitidis apresenta uma grande resistência a fagocitose por macrófagos alveolares e ainda não se sabe ao certo, seus mecanismos de escape (MURRAY; ROSENTHAL; PFALLER, 2014).
Figura 24 – Ciclo Biológico do fungo Blastomyces dermatitidis.

Fonte: Center for Disease Control and Prevention, 2015.
Legenda: 1- forma saprofítica do B. dermatitidis em solo úmido rico em matéria orgânica, apresentando hifas com conídeos. 2- Inalação de conídeos infectantes. 3- Entrada e instalação nos tecidos pulmonares. 4- Transformação em levedura. 5- Chegada de macrófagos residentes, que internalizam o fungo e produção de citocinas no combate ao patógeno.
A blastomicose é uma zoonose, afetando mais comumente cães e humanos, no entanto a transmissão animal-homem é rara. A doença é prevalente na América do Norte, América Central e África, sendo endêmica nas regiões dos Grandes Lagos (Canadá), Sudeste dos Estados Unidos e nos vales dos rios Ohio e Mississipi. Geralmente acomete animais de 1 a 5 anos, sem predileção por sexo ou raça (SAFATLE & GALERA, 2023). O fungo pode ser encontrado no solo úmido e em materiais em decomposição, local onde os conídeos são aerossolizados e os mesmo são inalados, levando à instalação fúngica no tecido pulmonar. No entanto, pode haver invasão através de feridas cutâneas em cães, apesar de raras. A disseminação ocorre através da via hematógena ou linfática, incluindo os olhos (SCHWARTZ, 2018).
Além dos olhos, lesões pulmonares são bastante comuns (até 85%) e aproximadamente 60% desenvolvem linfadenopatia, enquanto lesões cutâneas são reportadas em 30% dos animais e lesões cardiovasculares também foram descritas em regiões endêmicas. Além disso, animais acometidos podem apresentar dispneia, febre, letargia e perda de peso progressiva (SAFATLE & GALERA, 2023; BRÖMEL & SYKES, 2005).
As manifestações oculares foram reportadas em até 48% dos cães com a doença, sendo 50% dos casos bilaterais. Acredita-se que a lesão inicial seja uma coroidite piogranulomatosa, ou seja, uma inflamação da túnica vascular (íris, coróide e corpo ciliar) com presença de granulomas sub-retinianos que podem progredir para o descolamento de retina (HENDRIX, 2021), e inicialmente esta lesão pode não ser percebida.
Geralmente a primeira alteração visível é a uveíte anterior, a qual é atribuída a difusão de células inflamatórias para o segmento anterior, e não a invasão dos fungos no mesmo. É acompanhada de sinais de hiperemia, miose e sinéquia. Lesões oculares adicionais incluem neurite óptica, hemorragias retiniana e vítreas, descolamento de retina e obstrução do ângulo iridocorneano com material inflamatório, que pode levar ao glaucoma secundário e perda de visão (SAFATLE & GALERA, 2023; FERNANDEZ et al., 2018).
O diagnóstico padrão ouro é a cultura fúngica em ágar Sabouraud dextrose ou BHI para o diagnóstico da blastomicose, onde serão visualizados respectivamente, colônias filamentosas com hifas, de coloração branca ou marrom e colônias com aspecto granular ou enrugado, de cor branca a creme com células leveduriformes formadas a partir dos conídeos (MEZEZZARI & FUENTEFRIA, 2012).
Se não for possível realizar tal método, pode ser realizado teste de identificação de antígeno na urina, com sensibilidade de 93,5%. (HENDRIX, 2021; SACCENTE & WOODS, 2010). Além disso, a identificação histopatológica (enucleação ocular) do fungo e citológica (aspiração do vítreo), também são possíveis (SAFATLE & GALERA, 2023). O isolamento do fungo a partir de amostras de solo é difícil devido aos requisitos ambientais específicos de que precisa para crescer, tornando a identificação desta espécie pouco precisa (CASTILLO; KAUFFMAN; MICELI, 2016).
O tratamento tem como base antifúngicos sistêmicos, tendo como tratamento de escolha o itraconazol 5mg/kg PO,SID por pelo menos 60 dias, tendo sua frequência ajustada conforme melhora do quadro. É um tratamento longo e custoso, e muitas vezes os pacientes podem ter recaídas. No entanto, o paciente precisa ser monitorado durante o tratamento, já que o uso prolongado do medicamento pode causar danos hepáticos (LÓPEZ-MATÍNEZ & MÉNDEZ-TOVAR; 2005).
Em alguns pacientes, devido a presença de efeitos colaterais graves, é possível mudar o medicamento escolhido para o fluconazol. A anfotericina B combinada com cetoconazol também pode ser utilizada e é indicada em pacientes mais graves ou com sinais no SNC. Tal associação é indicada devido a rápida eficácia da anfotericina B e longa duração antimicótica do cetoconazol, reduzindo por sua vez, a toxicidade da anfotericina B, a qual pode ser nefrotóxica, se superdosada (SAFATLE & GALERA, 2023; HAGE; KNOX; WHEAT, 2012).
Já os sinais oculares são tratados com terapia anti-inflamatória não esteroidal e midriáticos. A terapia tópica isolada é suficiente em casos leves, porém em casos de uveíte posterior ou mais severa, é necessária combinação com terapia sistêmica. O uso de corticosteroides sistêmicos combinados com antifúngicos, apesar de contraditórios, muitas vezes demonstram melhora na preservação na visão dos animais e podem ser utilizados para melhora de sinais clínicos, como a uveíte anterior (SAFATLE & GALERA, 2023; HENDRIX, 2021).
O prognóstico da blastomicose normalmente é bom de forma sistêmica com a terapia necessária, porém pode ser reservado a ruim em casos de acometimento pulmonar severo ou do sistema nervoso central (SAFATLE & GALERA, 2023). Ademais, quando o fungo afeta os olhos, pode ter um prognóstico ruim devido a inabilidade do olho de expulsar o fungo e do itraconazol de penetrar no mesmo, podendo resultar na enucleação do olho afetado, mesmo com a realização das medicações (SANDMEYER, et. Al, 2017; FINN, et.al, 2007)
Discussão
A infecção ocular pela Blastomyces dermatitidis decorre da disseminação hematógena, sendo a coroidite piogranulomatosa considerada a lesão inicial. Esta pode evoluir para descolamento de retina, uveíte difusa, hemorragias intraoculares e glaucoma secundário. O processo inflamatório crônico, aliado à limitada penetração ocular de antifúngicos sistêmicos, justifica o prognóstico reservado para esses casos.
O tratamento de escolha é o itraconazol (5 mg/kg PO, SID), por pelo menos 60 dias, com monitoramento de possíveis efeitos hepatotóxicos (LÓPEZ-MATÍNEZ; MÉNDEZ-TOVAR, 2005). Em casos graves ou refratários, recomenda-se anfotericina B associada a azóis, combinando rápida ação antifúngica e manutenção do efeito terapêutico (HAGE; KNOX; WHEAT, 2012). A terapia ocular inclui anti-inflamatórios, midriáticos e, em casos de dor ou complicações irreversíveis, a enucleação (SANDMEYER et al., 2017).
Apesar da eficácia do tratamento sistêmico, o prognóstico visual é reservado, devido à baixa penetração ocular precoce é determinante para reduzir as complicações.
Conclusão
A blastomicose em cães pode manifestar-se com sinais oculares variados que vão desde uveíte anterior até envolvimento grave do segmento posterior, com descolamento de retina, neurite óptica, glaucoma secundário e panoftalmite. Estes sinais têm impactos não só sobre a visão, mas também sobre o prognóstico geral do paciente. O diagnóstico precoce — com exame oftalmológico cuidadoso, uso de histopatologia, cultura e outros métodos complementares — é crucial. O tratamento deve ser agressivo, com antifúngicos sistêmicos, e, quando necessário, intervenções oftálmicas ou enucleação para aliviar a dor ou controlar a doença. Em locais onde a doença é pouco reportada, é importante conscientizar clínicos veterinários da possibilidade de blastomicose como causa de uveíte ou lesões oculares, para evitar atrasos no diagnóstico e terapias inadequadas.
Referências
BRÖMEL, C.; SYKES, J. E. Epidemiology, diagnosis, and treatment of blastomycosis in dogs and cats. Clinical Techniques in Small Animal Practice, v. 20, n. 4, p. 233-239, 2005.
CASTILLO, C. G.; KAUFFMAN, C. A.; MICELI, M. H. Blastomycosis. Infectious Disease Clinics of North America, v. 30, n. 1, p. 247-264, 2016.
CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION (CDC). Sources of Blastomycosis. Page last updated, 2015. Disponível em: https://www.cdc.gov/.
FERNANDEZ, C. J. et al. Ocular blastomycosis in dogs: clinical features, diagnosis, and outcome. Veterinary Ophthalmology, v. 21, n. 1, p. 76-85, 2018.
FERNANDEZ, N. J. et al. Multi-systemic disease in a dog. The Canadian Veterinary Journal, Ottawa, v. 49, n. 7, p. 714-722, 2008.
FINN, M. J. et al. Ocular manifestations of systemic mycoses in dogs. Veterinary Ophthalmology, v. 10, n. 6, p. 337-344, 2007.
FINN, Michael J.; STILES, Jean; KROHNE, Sheryl G. Visual outcome in a group of dogs with ocular blastomycosis treated with systemic antifungals and corticosteroids. National Library of Medicine, 2007.
HAGE, C. A.; KNOX, K. S.; WHEAT, L. J. Endemic mycoses: overlooked causes of community acquired pneumonia. Respiratory Medicine, v. 106, n. 6, p. 769-776, 2012.
HENDRIX, D. V. H. Diseases of the uvea. In: GELATT, K. N.; GILGER, B. C.; KERN, T. J. Veterinary Ophthalmology. 6. ed. Hoboken: Wiley-Blackwell, 2021. p. 1195-1278.
LEVINSON, Warren. Microbiologia Médica e Imunologia. 12. ed. Porto Alegre: AMGH, 2014.
LÓPEZ-MARTÍNEZ, R.; MÉNDEZ-TOVAR, L. J. Blastomycosis. Clinical Microbiology and Infection, v. 11, p. 40-43, 2005.
LÓPEZ-MARTÍNEZ, Rubén; MÉNDEZ-TOVAR, Luiz J. Blastomicose. Clinics in Dermatology, v. 30, n. 6, p. 565-572, 2012.
MEZZEZARI, A.; FUENTEFRIA, A. M. Diagnóstico laboratorial das micoses sistêmicas. Revista Brasileira de Análises Clínicas, v. 44, n. 3, p. 227-232, 2012.
MURRAY, P. R.; ROSENTHAL, K. S.; PFALLER, M. A. Microbiologia Médica. 7. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2014.
ROCCO, M. et al. Virulence factors of dimorphic fungi. Mycopathologia, v. 172, n. 6, p. 387-396, 2011.
ROCCO, Nicole M.; CARMEN, John C.; KLEIN, Bruce S. Blastomyces dermatitidis yeast cells inhibit nitric oxide production by alveolar macrophage inducible nitric oxide synthase. Infection and Immunity, v. 79, n. 6, p. 2385-2395, 2011.
SACCENTE, M.; WOODS, G. L. Clinical and laboratory update on blastomycosis. Clinical Microbiology Reviews, v. 23, n. 2, p. 367-381, 2010.
SANDMEYER, L. S. et al. Prognosis for vision in dogs with blastomycosis of the posterior segment of the eye. Veterinary Ophthalmology, v. 20, n. 5, p. 443-450, 2017.
SANDMEYER, Lynne S.; BAUER, Bianca; LEIS, M. L.; GRAHN, B. H. Diagnóstico oftalmológico. Canadian Veterinary Journal, v. 58, n. 1, p. 91-93, 2017.
SANTOS, A. R. et al. Virulence factors in Blastomyces dermatitidis. Journal of Medical Mycology, v. 22, n. 3, p. 245-252, 2012.
SANTOS, Rodrigo S. et al. Mecanismos celulares e moleculares envolvidos no processo de transição dimórfica em fungos patogênicos humanos. Revista da Universidade Vale do Rio Verde, Três Corações, v. 10, n. 1, p. 105-116, 2012.
SAFATLE, A. M. V.; GALERA, P. D. Blastomicose em cães: revisão atualizada. Clínica Veterinária, v. 28, n. 169, p. 60-72, 2023.
SAFATLE, Angélica de Mendonça V.; GALERA, Paula D. Oftalmologia Veterinária Clínica e Cirúrgica. 1. ed. Paypá, 2023.
SCHWARTZ, I. S. Blastomycosis. Seminars in Respiratory and Critical Care Medicine, v. 39, n. 1, p. 89-100, 2018.
