REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202507041702
Marcos Antônio Vasconcelos Rodrigues1
Resumo
Este artigo é, antes de tudo, um convite. Um chamado à reflexão sobre a necessidade de promover, no ambiente escolar, uma educação que ultrapasse o repasse mecânico de conteúdos e alcance também aquilo que nos faz verdadeiramente humanos. Em meio a uma sociedade marcada pela violência, pela desagregação familiar, pela corrupção e pela perda de referências éticas e afetivas, sinto que a escola pode se tornar — e muitas vezes se torna — um espaço decisivo para formar pessoas mais conscientes, empáticas e solidárias. Amparo-me nas ideias de autores como Daniel Goleman, Edgar Morin, Antonio Candido, Lawrence Kohlberg e Nel Noddings, ao mesmo tempo em que compartilho fragmentos de uma experiência docente que se estende por quase três décadas. O objetivo é oferecer caminhos que dialoguem com a mente, mas, sobretudo, com o sentimento, em sintonia com os princípios da Base Nacional Comum Curricular (BNCC).
Palavras-chave: educação do sentimento; empatia; formação ética; BNCC; humanização.
1. Introdução
Drogas. Corrupção. Violência. Gravidez precoce. Famílias em ruptura. São cenas e histórias que, dia após dia, vão roubando um pouco da nossa esperança. E cresce, nesse cenário, um sentimento coletivo de impotência que não encontra respostas fáceis.
Por muito tempo, insistimos em apontar a “falta de escolarização” como causa de tudo. Mas basta ligar a televisão ou escutar uma conversa despretensiosa para perceber que há pessoas muito instruídas envolvidas em práticas desumanas. Pessoas que perderam, em algum ponto do caminho, a capacidade de reconhecer o outro como alguém digno de respeito.
E então surge a pergunta que não cala: o que está faltando, afinal?
Talvez o que nos falte seja a educação do sentimento — aquela que molda o caráter, que nos ensina a conter impulsos que ferem e vontades que afastam. Sem essa dimensão sensível e ética, as escolas acabam se tornando espaços que transmitem conteúdos, mas não acolhem. Salas que informam, mas não transformam.
2. Revisão de Literatura
Daniel Goleman (1995) afirma que a inteligência emocional é fator decisivo para o sucesso pessoal e social. Edgar Morin (2001) defende que a ética do cuidado com a vida deve inspirar uma educação capaz de integrar razão e sensibilidade. Lawrence Kohlberg (1981) sugere que o desenvolvimento moral acontece em estágios e pode ser estimulado pelo debate de dilemas éticos. Nel Noddings (1984) propõe o cuidado como fundamento essencial das relações pedagógicas. Antonio Candido (2011) lembra que a literatura humaniza, pois nos permite enxergar o mundo pelos olhos do outro.
De certa forma, todas essas ideias se entrelaçam com aquilo que tento praticar, há quase três décadas, no chão da escola. Uma pedagogia feita de presença e escuta. Um jeito de ensinar que reconhece a necessidade de frear pensamentos e vontades que ferem — em nós e nos outros.
3. Metodologia
Talvez seja importante esclarecer que esta reflexão nasce de um movimento que mistura memória, vivência e pesquisa. Uma autoetnografia. Ou seja: uma forma de olhar para a educação a partir do que vivi, senti e questionei.
Optei por uma abordagem qualitativa, de natureza teórico-reflexiva. Não há, aqui, coleta sistemática de dados numéricos, mas há observação atenta, diálogo com autores e a convicção de que a experiência cotidiana do professor também é uma fonte legítima de conhecimento.
Desde 2009, tenho atuado em escolas públicas na periferia de Fortaleza. Ambientes onde a vulnerabilidade social é parte do contexto e desafia diariamente quem ensina. Foi nesse cenário que comecei a perceber a força da escuta e do afeto como instrumentos pedagógicos.
Por outro lado, compreendi que o autocuidado não é um capricho. É quase uma condição de sobrevivência emocional. Caminhar, respirar com consciência, meditar, ler — pequenos gestos que me ajudam a manter acesa a chama que faz a educação valer a pena.
4. Discussão e Análise
Ser tolerante e cultivar empatia não significam, em hipótese alguma, abrir mão da autoridade legítima do educador. Ao longo do tempo, fui entendendo que, quando o professor domina seu conteúdo, demonstra equilíbrio e clareza de propósito, até mesmo aqueles alunos mais resistentes acabam, em algum momento, reconhecendo e respeitando sua presença.
Acredito que esse respeito surge de dois pilares que andam juntos: uma autoridade que se constrói no diálogo e uma aula que faça sentido de verdade. Manter a serenidade, estar disposto a reavaliar a própria prática e ter a humildade de escutar são, para mim, os alicerces de uma docência que, de fato, transforma.
Construir o diálogo e a empatia não é simples. Pelo contrário: essas atitudes nascem também das nossas frustrações, da resiliência que a profissão nos exige e da insistência paciente, porém firme, de quem não desiste com facilidade.
Mesmo assim, há dias em que tudo parece escapar das mãos e o desalento nos visita. Eu já passei por momentos assim. Nessas horas, em vez de carregar culpa, aprendi a cultivar uma autocompaixão que me lembra que ensinar é, acima de tudo, um exercício constante de recomeçar.
As ideias de Goleman, Morin, Noddings, Kohlberg e Candido dão sustentação a essas percepções. Daniel Goleman alerta que habilidades emocionais pouco desenvolvidas podem produzir adultos competentes na técnica, mas imaturos na convivência. Edgar Morin sugere que o conhecimento precisa caminhar junto com o cuidado. Nel Noddings nos recorda que o ato de ensinar é, em essência, um ato de cuidar. Kohlberg defende a importância dos dilemas éticos como ferramenta formativa. Antonio Candido reafirma que a literatura tem um poder raro de nos aproximar uns dos outros.
De certa forma, todas essas ideias se harmonizam com a Base Nacional Comum Curricular, que inclui entre suas competências a empatia, a escuta ativa e a cultura de paz.
5. Resultados
A seguir, compartilho três episódios que me acompanharam ao longo da vida profissional. São histórias que, até hoje, me ensinam algo sobre a importância da escuta e do afeto.
5.1 A arma no fundo da sala
O ano era 2011. Eu dava aula para uma turma do oitavo ano em uma escola pública localizada numa comunidade marcada por muitos conflitos. Entre todos, havia um aluno que me chamava atenção. Não era apenas sua inquietação. Era o jeito como ele mantinha a mão na cintura, num movimento repetido, como se quisesse proteger alguma coisa — ou a si mesmo.
Esperei alguns dias. Naquele início de semana, pedi que ficasse depois da aula. Quando ficamos a sós, respirei fundo e perguntei com cuidado:
— Você está portando uma arma?
Ele me olhou, sem hesitar, e disse que sim.
Naquele momento, entendi que minha função ia além de fiscalizar. Eu precisava ser humano. Expliquei que não avisaria a direção nem a polícia. Que tentaríamos resolver juntos. Ele respirou aliviado e contou que estava sendo ameaçado e carregava a arma por medo. Sugeri que se afastasse da escola por uns dias. Combinei que justificaria suas faltas.
Quatro dias depois, três adolescentes armados entraram na escola, procurando por ele. Naquele instante, senti que a decisão de afastá-lo tinha, talvez, salvo sua vida. Nunca mais o vi. Mas guardo o desejo sincero de que ele tenha encontrado caminhos mais seguros para existir.
Até hoje, lembro desse dia como um alerta: às vezes, o afeto precisa ser mais urgente do que a regra.
5.2 Uma sala hostil, um convite à escuta
Em 2009, assumi uma turma do segundo ano do ensino médio que, entre os professores, era vista como “problemática”. O professor anterior pediu transferência depois de ter sido ameaçado. Eu sabia que não adiantava chegar com receitas prontas.
Na primeira aula, não dei conteúdo. Arrumei as cadeiras em círculo e perguntei:
— O que a gente pode fazer, juntos, para que essas aulas tenham algum sentido?
Conversei com quem mais resistia. Pedi que, mesmo sem gostar da disciplina, me deixassem ensinar. Combinei alguns acordos. Propus atividades que misturavam recortes de revistas, debates sobre temas atuais e pequenos trabalhos em grupo.
Com o tempo, aquele clima de hostilidade deu lugar a uma curiosidade. A indisciplina foi sendo substituída por diálogo. As aulas passaram a ter ritmo. E a relação professor-aluno foi se tornando, pouco a pouco, um espaço de respeito.
5.3 O olhar mal interpretado
Em 1999, eu dava aula para uma turma do terceiro ano do ensino médio em uma escola particular de Fortaleza. Era noite, e eu falava sobre figuras de linguagem. Como sempre fiz, procurava alternar meu olhar entre o quadro e o fundo da sala.
De repente, um aluno ergueu a voz, visivelmente desconfortável:
— Professor, por que o senhor fica me encarando o tempo todo? Isso não é a primeira vez.
A sala inteira silenciou. Eu poderia ter rebatido com ironia ou impaciência. Mas respirei fundo e respondi:
— Se você sentiu isso, me desculpe. Não era minha intenção. Costumo olhar para o fundo da sala para alcançar todos, mas respeito o que você percebeu.
Foi o bastante para que a tensão se dissolvesse. Essa cena me ensinou que até gestos inocentes podem ser mal interpretados — e que um pedido de desculpas, quando verdadeiro, pode evitar conflitos maiores.
Esses episódios, tão diferentes entre si, ainda hoje me lembram que a escuta, a empatia e o respeito não são acessórios. São a própria essência de qualquer prática educativa que se proponha humana.
6. Recomendações Práticas para Desenvolver a Educação do Sentimento
Talvez seja importante dizer que não existem receitas definitivas. Cada escola, cada turma, cada professor vai encontrar caminhos singulares. Ainda assim, compartilho algumas estratégias e exemplos que podem inspirar reflexões e experiências:
1. Momentos de Partilha e Escuta Qualificada
Exemplo prático: reservar uma aula por semana para rodas de conversa, permitindo que estudantes compartilhem medos, alegrias e dúvidas, em um ambiente sem julgamentos.
2. Mediação Humanizada de Conflitos
Exemplo prático: diante de um desentendimento, convidar os envolvidos a contar o que sentiram usando frases como “Eu me senti…”. Depois, juntos, buscar alternativas.
3. Cultivo da Saúde Emocional do Docente
Exemplo prático: começar o turno com exercícios breves de respiração ou alongamento. Criar momentos em que professores possam compartilhar experiências e apoiar uns aos outros.
4. Integração da Arte e da Literatura
Exemplo prático: escolher um poema ou música que fale sobre empatia, projetar o texto e convidar a turma a discutir os sentimentos evocados.
5. Projetos Interdisciplinares de Convivência e Cidadania
Exemplo prático: desenvolver um projeto sobre “Gentileza e Solidariedade” envolvendo várias disciplinas, resultando em uma exposição coletiva.
6. Reflexão sobre Dilemas Éticos
Exemplo prático: propor situações-problema, como “Você viu alguém sendo humilhado, e ninguém interveio. O que faria?”, estimulando o debate em grupo.
7. Avaliação Formativa das Competências Socioemocionais
Exemplo prático: criar registros de atitudes de empatia e respeito e discutir esses aspectos com o aluno de maneira construtiva.
8. Formação Contínua sobre Educação Emocional
Exemplo prático: organizar encontros com psicólogos ou outros especialistas que tragam reflexões e dinâmicas sobre inteligência emocional.
Quadro 1 – Estratégias e Exemplos Práticos
Nº Estratégia Exemplo
1 Partilha e Escuta Rodas semanais de conversa sobre sentimentos.
2 Mediação Humanizada Diálogo com relatos pessoais e construção de acordos.
3 Autocuidado Docente Respiração consciente e partilha de vivências.
4 Arte e Literatura Leitura e discussão de textos que abordem empatia.
5 Projetos de Convivência Projeto interdisciplinar sobre solidariedade.
6 Dilemas Éticos Debates sobre situações-problema.
7 Avaliação Socioemocional Fichas de observação e devolutiva individual.
8 Formação Contínua Encontros com especialistas convidados.
7. Considerações Finais
Educar não é só repassar conteúdos. É, antes de tudo, cuidar. É olhar o outro e perguntar: “O que você sente? O que você carrega que eu não vejo?”. É ajudar o aluno a reconhecer suas emoções, a frear impulsos que ferem e a cultivar gestos que acolhem.
Ao longo das quase três décadas em que divido meus dias entre escolas públicas e privadas, entre manhãs, tardes e noites, aprendi que conhecimento técnico, sem humanidade, não transforma ninguém. A autoridade que só intimida pode calar, mas não cria vínculos. Já o professor que acolhe, até na hora de corrigir, deixa marcas que o tempo não apaga.
Este texto não é só uma leitura teórica sobre autores como Goleman, Morin, Kohlberg, Noddings e Candido. É também um testemunho vivo, nascido de uma prática que me desafiou a recomeçar muitas vezes.
A BNCC reconhece essa urgência ao destacar competências socioemocionais, empatia, escuta e respeito. Não se trata de modismo ou de romantismo ingênuo. É uma necessidade vital da escola de hoje.
Que possamos formar gerações que saibam resolver equações — e também conflitos. Que aprendam a brilhar — mas também a acolher. Porque, no fim das contas, uma escola que forma apenas cérebros, mas esquece os corações, está formando apenas metade de um ser humano.
Referências
BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2018.
CANDIDO, Antonio. O direito à literatura. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
GOLEMAN, Daniel. Inteligência emocional. Rio de Janeiro: Objetiva, 1995.
KOHLBERG, Lawrence. The philosophy of moral development. New York: Harper & Row, 1981.
MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro. São Paulo: Cortez; UNESCO, 2001.
NODDINGS, Nel. Caring: a feminine approach to ethics and moral education. Berkeley: University of California Press, 1984.
Nota Final
Este texto teve sua primeira versão publicada em abril de 2009, no Blog Sinto Muito, Mas Preciso Falar, criado como espaço de reflexão pessoal sobre educação e existência. Em setembro de 2013, foi republicado no Recanto das Letras. E, em junho de 2025, revisitado, ampliado e transformado em artigo acadêmico fundamentado na autoetnografia — uma abordagem que entrelaça vivência pessoal e investigação científica, sem abrir mão da sensibilidade que deu origem às primeiras palavras.
1Professor de Língua Portuguesa – Rede Pública e Privada de Ensino. Mestrando em Ciências da Educação – ORCID: [https://orcid.org/0009-0004-6665-3765]
