REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/dt10202511101811
Dalzirene Araujo do Nascimento; Francisca da Silva Sousa; Gizelia Samia Verde Caldeira; Jeane Carvalho Oliveira; Poliana Marinho Santana; Samara Cardoso Pereira; Sandeyvison Oliveira da Silva; Pedro Henrique Rodrigues Alencar
RESUMO
O Transtorno do Espectro Autista (TEA) constitui uma condição do neurodesenvolvimento caracterizada por déficits na comunicação, interação social e comportamentos repetitivos, exigindo cuidados especializados e contínuos. Nesse contexto, a enfermagem desempenha papel essencial na promoção do cuidado integral, na orientação familiar e na construção de práticas inclusivas. O presente estudo teve como objetivo analisar a atuação da enfermagem na assistência a crianças com TEA, identificando práticas eficazes, dificuldades enfrentadas e estratégias de intervenção adotadas, por meio de uma revisão de literatura. A pesquisa foi desenvolvida entre os meses de julho e agosto de 2025, por meio de busca nas bases de dados Science Direct, PubMed e Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), resultando em 1.099 artigos inicialmente encontrados. Após aplicação dos critérios de inclusão e exclusão, foram selecionados 10 estudos para compor a amostra final. Os resultados evidenciaram que aproximadamente 30% dos estudos enfatizaram o papel da enfermagem no diagnóstico precoce e na identificação de sinais do TEA, enquanto 40% destacaram a importância da capacitação profissional e da atuação multiprofissional. Os demais artigos abordaram práticas de acolhimento familiar, estratégias educativas e desafios enfrentados no cotidiano assistencial. Observou-se que, apesar do reconhecimento da relevância do enfermeiro nesse contexto, ainda há lacunas quanto à formação específica e à padronização de protocolos de cuidado. Conclui-se que o objetivo proposto foi alcançado, demonstrando que a enfermagem possui papel central na assistência humanizada e integral a crianças com TEA, sendo fundamental fortalecer políticas públicas e investimentos em capacitação profissional voltados a essa demanda.
Palavras-chave: Enfermagem. Transtorno do Espectro Autista. Assistência Infantil.
ABSTRACT
Autism Spectrum Disorder (ASD) is a neurodevelopmental condition characterized by deficits in communication, social interaction, and repetitive behaviors, requiring specialized and continuous care. In this context, nursing plays a fundamental role in promoting comprehensive care, providing family guidance, and developing inclusive practices. This study aimed to analyze nursing performance in the care of children with ASD, identifying effective practices, challenges faced, and intervention strategies adopted through a literature review. The research was conducted between July and August 2025, using the Science Direct, PubMed, and Virtual Health Library (VHL) databases, resulting in an initial total of 1,099 articles. After applying inclusion and exclusion criteria, 10 studies were selected for the final sample. The results showed that approximately 30% of the studies emphasized the role of nursing in early diagnosis and identification of ASD symptoms, while 40% highlighted the importance of professional training and multidisciplinary collaboration. The remaining studies addressed family support, educational strategies, and challenges in daily clinical practice. Although the relevance of the nurse in this context is widely recognized, gaps remain regarding specific training and the standardization of care protocols. It is concluded that the proposed objective was achieved, demonstrating that nursing plays a central role in providing humanized and comprehensive care for children with ASD. Strengthening public policies and investing in continuous professional education are essential to improving the quality of nursing care for this population.
Keywords: Nursing. Autism Spectrum Disorder. Child Care.
1. INTRODUÇÃO
O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é uma condição neurobiológica caracterizada por múltiplas manifestações que afetam o desenvolvimento infantil, sobretudo nas áreas de comunicação, interação social e comportamento (Araujo, 2025). De acordo com o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, 5ª edição (DSM-5), o TEA abrange condições antes classificadas de forma independente, como o autismo clássico, a síndrome de Asperger e o transtorno desintegrativo da infância. Embora distintas, tais condições compartilham características semelhantes, variando na intensidade e gravidade dos sintomas, justificando o uso do termo “espectro” para abarcar a diversidade dessa manifestação (American Psychiatric Association, 2013).
No Brasil, o impacto do TEA é significativo, sendo estimado que aproximadamente 2 milhões de pessoas convivam com a condição, representando cerca de 1% da população nacional. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) aponta que a prevalência é de 1 caso para cada 44 nascimentos, evidenciando a magnitude do tema. A inclusão do autismo no Censo Demográfico de 2020 representou um marco importante, pois possibilitou maior visibilidade para esse grupo social e permitiu o aprimoramento das políticas públicas e da destinação de recursos para a população com TEA (IBGE, 2020).
Em nível regional, a realidade do Maranhão acompanha essa tendência de crescimento nos diagnósticos. Estima-se que cerca de 7 mil pessoas convivam com TEA no estado, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). Nacionalmente, uma pesquisa realizada pela Universidade de Passo Fundo (UPF) aponta que uma em cada 30 crianças brasileiras encontra se dentro do espectro, reforçando a necessidade de intervenção precoce e suporte contínuo. Nesse contexto, políticas públicas locais têm buscado ampliar o acolhimento, como a criação do Centro TEA 12+ em 2023, voltado ao atendimento de pessoas a partir dos 12 anos (Governo do Maranhão, 2023).
Essa realidade, marcada pelo aumento da prevalência e pela urgência em fortalecer estratégias de cuidado, insere o TEA como uma prioridade em saúde pública. Nunes et al. (2024) destacam que o atendimento dessas crianças requer medidas eficazes, tanto para o diagnóstico precoce quanto para a promoção de intervenções que favoreçam a qualidade de vida. Nesse sentido, a enfermagem emerge como uma área estratégica, já que os profissionais desempenham funções fundamentais no acompanhamento, orientação e promoção da saúde das crianças com autismo e de suas famílias.
A presença do enfermeiro é especialmente relevante nos primeiros contatos com a criança e sua família, visto que frequentemente são esses profissionais que identificam sinais precoces do transtorno. Souza, Abreu e Bubadué (2024) ressaltam que a atuação envolve não apenas o encaminhamento para avaliação especializada, mas também a elaboração de ações que promovam o bem-estar e a inclusão da criança em diferentes ambientes de cuidado, como unidades básicas de saúde, hospitais e escolas.
A assistência de enfermagem a crianças com TEA demanda um olhar humanizado, fundamentado na escuta qualificada, no respeito às singularidades e na criação de vínculos de confiança. Para Almeida et al. (2021) e Sousa et al. (2018), a capacitação dos profissionais é indispensável para garantir um cuidado ético, empático e eficaz, capaz de contemplar as especificidades sensoriais, comunicacionais e comportamentais dessas crianças. Complementando essa visão, Baumblatt (2024) reforça que tal cuidado deve ser multidisciplinar e adaptado às necessidades individuais, consolidando um ambiente acolhedor e seguro.
Diante desse panorama, torna-se evidente que os profissionais de enfermagem têm papel central na promoção de cuidados especializados e no apoio às famílias. No entanto, permanecem desafios quanto à formação, ao preparo técnico e às estratégias utilizadas no manejo cotidiano dessas crianças (Souza; Abreu; Bubadué, 2024). Assim, a questão norteadora deste estudo é: Como a enfermagem pode aprimorar a assistência a crianças com Transtorno do Espectro Autista, considerando suas necessidades específicas e os desafios enfrentados pelos profissionais da área? Dessa forma, o objetivo geral é analisar a atuação da enfermagem na assistência a crianças com TEA, identificando práticas eficazes, dificuldades enfrentadas e estratégias de intervenção adotadas, por meio de uma revisão de literatura.
2. REFERENCIAL TEÓRICO
2.1 Implicações do Transtorno do Espectro Autista (TEA) no Desenvolvimento Infantil
Os sintomas do TEA podem variar amplamente, mas em geral, incluem dificuldades significativas na interação social, comunicação verbal e não verbal, e a presença de interesses restritos e comportamentos repetitivos. De acordo com Santos, Oliveira e Fernandes (2024),
Os sintomas podem variar amplamente em termos de gravidade e apresentação, mas geralmente incluem dificuldades na interação social, comunicação verbal e não verbal, além de interesses restritos e comportamentos repetitivos (Santos; Oliveira; Fernandes, 2024, p. 05).
As crianças com TEA frequentemente apresentam dificuldades em interpretar sinais sociais, como expressões faciais, gestos e o tom de voz, o que compromete a construção de relações interpessoais (Araujo, 2025).
No que se refere à comunicação, embora muitas crianças com TEA apresentem desenvolvimento linguístico preservado, é comum a presença de déficits na pragmática da linguagem. Isso se traduz em dificuldades para iniciar ou manter diálogos, interpretar nuances sociais da fala ou adequar a comunicação ao contexto (Oliveira, 2024). Tais limitações repercutem diretamente na inserção da criança em grupos sociais e no desempenho escolar, gerando barreiras para o aprendizado e para a construção da autonomia.
Outro ponto de destaque são os comportamentos repetitivos e os interesses restritos, característicos do espectro autista. Souza (2021) ressalta que tais comportamentos podem variar de movimentos estereotipados, como balançar o corpo ou repetir palavras, até fixações intensas por objetos ou temas específicos. Embora possam representar uma forma de autorregulação, esses padrões tendem a limitar a exploração do ambiente, dificultar a adaptação a mudanças e reduzir as oportunidades de desenvolvimento social e cognitivo.
Além disso, a resistência a mudanças de rotina é frequente entre crianças com TEA, o que pode gerar angústia e dificuldade em contextos de transição. Essa característica impacta o desenvolvimento da autonomia e da capacidade de adaptação, exigindo maior atenção dos profissionais de saúde e da educação (Almeida et al., 2021). Do mesmo modo, a presença de dificuldades sensoriais, como hipersensibilidade ou hipoatividade a estímulos, interfere na concentração e na participação em atividades cotidianas, prejudicando o processo de aprendizagem (José; Nunda, 2025; Almeida et al., 2021).
O comprometimento cognitivo também é uma implicação relevante, uma vez que o desenvolvimento da teoria da mente a capacidade de compreender os pensamentos, desejos e sentimentos alheios encontra-se prejudicado em muitas crianças com TEA. Tal dificuldade interfere em atividades que demandam cooperação, empatia e interação em grupo (Jacion, 2005). Dessa forma, a inserção em ambientes educacionais tradicionais pode se tornar um desafio, visto que as metodologias de ensino frequentemente exigem habilidades comunicacionais e sociais que crianças com TEA apresentam em menor grau.
Diante desse cenário, políticas públicas tornam-se fundamentais para assegurar o diagnóstico precoce, o tratamento adequado e o suporte contínuo às crianças e suas famílias. A Constituição Federal e a Lei Brasileira de Inclusão (Lei nº 13.146/2015) garantem os direitos das pessoas com deficiência, incluindo aquelas com TEA, assegurando acesso à saúde, à educação e a serviços de apoio (Brasil, 2015). Além disso, programas como a Política Nacional de Atenção à Saúde da Pessoa com Deficiência e a ampliação de serviços especializados, como os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), reforçam a importância de estratégias de intervenção precoce e de capacitação de profissionais para promover o desenvolvimento e a inclusão social (Santos; Oliveira; Fernandes, 2024).
2.2 O Papel da Enfermagem na Assistência a Crianças com TEA
A atuação da enfermagem no cuidado de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) é fundamental para garantir uma abordagem holística e integrada no processo de atendimento a essas crianças. Os profissionais de enfermagem, em sua prática clínica, desempenham um papel essencial tanto na promoção de um ambiente de cuidados que favoreça o desenvolvimento quanto na orientação e apoio às famílias (Souza; Abreu; Bubadué, 2024).
Esse apoio se dá através de estratégias de manejo comportamental, cuidados de saúde, educação e apoio psicossocial, sempre com a implementação de práticas que respeitem a individualidade de cada criança, a enfermagem é uma profissão que está presente em todas as esferas de cuidado, desde a atenção básica até os cuidados especializados, sendo um elo importante entre as necessidades clínicas e o atendimento multidisciplinar (Sousa et al., 2018).
Os enfermeiros desempenham um papel ativo na avaliação e monitoramento das necessidades de saúde das crianças com TEA. A identificação precoce de sinais e sintomas relacionados a essa condição é essencial, uma vez que a intervenção precoce pode impactar positivamente o desenvolvimento das habilidades sociais, comunicativas e cognitivas das crianças (Souza; Cardoso; Matos, 2023).
Nesse contexto, a enfermeira atua na triagem, no acompanhamento do desenvolvimento e na coordenação com outras especialidades, como psicólogos, fonoaudiólogos e terapeutas ocupacionais. Além disso, a educação em saúde para os familiares é uma das atribuições fundamentais dos profissionais de enfermagem, já que muitas vezes os pais e cuidadores enfrentam dificuldades em lidar com os desafios impostos pelo TEA e carecem de orientações adequadas sobre como atuar no cotidiano das crianças (Santos et al., 2022).
Outro aspecto relevante da atuação da enfermagem é a promoção da saúde mental e emocional da criança com TEA, já que muitas delas podem apresentar comorbidades, como ansiedade e depressão (Souza et al., 2022). O enfermeiro, como parte da equipe multidisciplinar, pode realizar intervenções terapêuticas que ajudem na redução de comportamentos agressivos, promovendo a calma e o bem-estar da criança.
Estratégias de intervenção como a criação de rotinas estruturadas e ambientes sensorialmente adequados podem contribuir para uma melhor adaptação das crianças com TEA. Além disso, é importante que os enfermeiros estejam atentos às necessidades de cuidados relacionados à saúde física, como alimentação, higiene e administração de medicamentos, sempre com um olhar cuidadoso para as características individuais de cada criança (José; Nunda, 2025; Almeida et al., 2021).
O Sistema Único de Saúde (SUS) e as políticas de inclusão têm se expandido para oferecer suporte a essas crianças e suas famílias, proporcionando o acesso a tratamentos especializados e a programas de intervenção precoce. O enfermeiro, dentro dessas políticas, atua de forma integrada com outras áreas da saúde e educação, assegurando a implementação das práticas inclusivas que favoreçam o desenvolvimento e a qualidade de vida dessas crianças. A Atenção Básica também desempenha um papel crucial na identificação precoce do TEA, sendo a equipe de enfermagem um dos primeiros pontos de contato para as famílias, promovendo o acolhimento e o encaminhamento adequado para tratamentos especializados (Queiroz; Martins; Paixão, 2021).
2.3 Estratégias de Intervenção e Cuidados Específicos para Crianças com TEA
As estratégias de intervenção para crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) são essenciais para promover o desenvolvimento e a inclusão social dessa população. O cuidado específico para crianças com TEA deve ser personalizado, considerando as necessidades individuais de cada criança e adaptando as intervenções conforme o perfil de comunicação, comportamento e habilidades de aprendizado (Almeida et al., 2021).
A intervenção precoce é amplamente reconhecida como um fator crucial para melhorar os resultados no desenvolvimento das crianças com TEA, favorecendo sua inserção social e escolar. O enfermeiro, ao atuar nesse processo, deve conhecer e aplicar diferentes abordagens terapêuticas que visem o fortalecimento das competências sociais, cognitivas e motoras dessas crianças (Souza, 2021).
Uma das estratégias mais amplamente adotadas é a Terapia Comportamental Aplicada (ABA, na sigla em inglês), que se baseia na análise do comportamento e visa reforçar comportamentos desejáveis enquanto diminui os comportamentos indesejáveis. Essa abordagem permite que as crianças desenvolvam habilidades essenciais, como a comunicação, a socialização e a adaptação a novas situações (Ribeira; França; Faria, 2023).
A Terapia Ocupacional, por sua vez, visa melhorar as habilidades motoras e sensoriais da criança, abordando a maneira como ela interage com o ambiente. O enfermeiro pode desempenhar um papel fundamental ao monitorar e apoiar o progresso das crianças nessas terapias, além de adaptar o ambiente para torná-lo mais acessível e acolhedor para essas intervenções (Fernandes; Santos; Morato, 2018).
Além das terapias comportamentais e ocupacionais, a intervenção fonoaudiológica é de extrema importância para crianças com TEA, uma vez que muitas delas apresentam dificuldades significativas na comunicação verbal e não verbal (Bastos; Neto, 2020).
A atuação do fonoaudiólogo, em parceria com a equipe de enfermagem, pode facilitar o desenvolvimento da linguagem, utilizando estratégias que incluem o uso de gestos, sinais e até dispositivos de comunicação alternativa para as crianças não verbais. A enfermagem também pode colaborar na implementação de sistemas de comunicação aumentativa e alternativa (CAA), que são ferramentas indispensáveis para facilitar a comunicação de crianças com TEA, especialmente em casos mais graves em que a comunicação verbal não é possível (Correia, 2022).
Outro ponto crucial no cuidado de crianças com TEA é a adaptação do ambiente educativo e familiar, para que estas crianças possam participar ativamente das atividades cotidianas. A criação de uma rotina estruturada e previsível é uma das estratégias mais eficazes para promover o bem-estar e reduzir a ansiedade nas crianças com TEA (Cardoso et al., 2024). O enfermeiro, nesse contexto, pode orientar a família sobre como estruturar o dia a dia da criança, criando rotinas consistentes e adaptando o ambiente para minimizar estímulos sensoriais excessivos, que podem causar desconforto. Além disso, o enfermeiro pode apoiar a família no gerenciamento do estresse e das demandas emocionais associadas ao cuidado de uma criança com TEA, oferecendo orientação e recursos para o autocuidado dos pais e cuidadores.
3. METODOLOGIA
O presente estudo caracteriza-se como uma revisão bibliográfica de caráter qualitativo e exploratório, com o objetivo de analisar criticamente produções científicas acerca da atuação da enfermagem no cuidado a crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Segundo Marconi e Lakatos (2017), a pesquisa qualitativa busca compreender e interpretar fenômenos sociais complexos, enfatizando significados, percepções e interações. Já o caráter exploratório permite reunir informações de diversas fontes, identificar lacunas de conhecimento e destacar práticas recomendadas para a assistência de enfermagem a esse público.
A pesquisa foi realizada em meio virtual, utilizando bases de dados científicas de ampla relevância, como Science Direct, PubMed e Biblioteca Virtual em Saúde (BVS). Além disso, a plataforma Google Scholar também foi empregada como ferramenta de apoio para localização de materiais relevantes disponíveis na literatura acadêmica. Foram analisados artigos, dissertações, teses e livros relacionados à temática, sendo excluída qualquer coleta de dados em campo, uma vez que se trata exclusivamente de uma revisão bibliográfica.
A população deste estudo corresponde a produções científicas que abordam a atuação da enfermagem no cuidado de crianças com TEA. Já a amostra foi constituída por artigos, teses, dissertações, livros e materiais científicos publicados no período de 2019 a 2024, de modo a garantir atualidade e relevância. A seleção se baseou em critérios de qualidade metodológica, relevância para o tema e adequação aos objetivos da pesquisa. Para a organização do processo de busca e seleção, foram utilizados os critérios do Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses (PRISMA), assegurando transparência, rigor metodológico e reprodutibilidade da revisão.
Foram definidos os seguintes critérios de inclusão: artigos, teses, dissertações, livros e demais publicações científicas que tratassem diretamente da atuação da enfermagem no cuidado a crianças com TEA, abordando práticas assistenciais, estratégias de intervenção e desafios da assistência especializada. Quanto aos critérios de exclusão, foram desconsideradas publicações que não abordassem a enfermagem de forma direta no contexto do cuidado a crianças com TEA. Foram excluídos também estudos de baixa qualidade metodológica, como resumos de eventos, materiais não revisados por pares, produções incompletas e documentos fora do recorte temporal estabelecido.
A coleta de dados ocorreu a partir da utilização de palavras-chave e descritores controlados e não controlados, como: “enfermagem”, “Transtorno do Espectro Autista”, “cuidados de saúde infantil”, “estratégias de intervenção” e “assistência especializada”. Após a busca inicial, realizou-se uma triagem dos estudos encontrados, seguida da leitura criteriosa dos resumos e, posteriormente, da leitura integral para verificar a pertinência com os objetivos da pesquisa.
A análise dos dados foi conduzida por meio da técnica de análise de conteúdo, permitindo a categorização das informações encontradas nos estudos selecionados. Foram identificadas categorias temáticas relacionadas às práticas de enfermagem no cuidado de crianças com TEA, como estratégias de intervenção, desafios da assistência e repercussões na qualidade de vida da criança e da família. Por fim, todos os estudos utilizados seguiram as normas éticas de pesquisa, respeitando a autoria e a devida referência às fontes consultadas. Ressalta-se que não houve necessidade de submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa nem de Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), visto que o estudo não envolveu coleta de dados primários com seres humanos, tratando-se exclusivamente de uma revisão de literatura.
4. RESULTADOS
Para a construção desta revisão de literatura, foi realizado um levantamento sistematizado de estudos nas bases de dados Science Direct, PubMed e Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), com o intuito de identificar produções científicas que abordassem a atuação da enfermagem na assistência a crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA).
A seleção dos artigos seguiu critérios de inclusão e exclusão previamente definidos, assegurando a relevância e a qualidade metodológica dos estudos escolhidos. O processo de identificação, triagem, elegibilidade e inclusão dos artigos é apresentado no fluxograma PRISMA a seguir.
Figura 1 – Fluxograma Prisma identificação dos estudos selecionados para o estudo de revisão

Conforme demonstrado no fluxograma, o processo de busca resultou inicialmente em 1.099 artigos, dos quais foram excluídos progressivamente aqueles que não atendiam aos critérios de elegibilidade, culminando em 10 estudos incluídos na amostra final. Esse rigor metodológico garantiu que apenas pesquisas pertinentes ao tema e alinhadas aos objetivos da revisão fossem analisadas, proporcionando uma base sólida para a síntese crítica dos resultados e a discussão das contribuições da enfermagem no cuidado a crianças com TEA.
A partir da seleção dos estudos que compuseram esta revisão de literatura, procedeu-se à sistematização das informações mais relevantes referentes à atuação da enfermagem na assistência a crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Os artigos selecionados foram analisados quanto ao ano de publicação, objetivos, metodologia empregada, principais resultados e conclusões. Essa síntese permitiu identificar lacunas no conhecimento, boas práticas assistenciais e tendências na produção científica sobre o tema. A seguir, apresenta-se a Tabela 1, que resume os principais achados dos estudos incluídos na revisão.
Tabela 1 – Síntese dos estudos incluídos na revisão
| Autor/Ano | Objetivo do Estudo | Desenho Metodológico | Principais Resultados | Conclusão |
| Martins et al., (2019) | Conceber e validar uma tecnologia para nortear a Consulta de Enfermagem à criança com TEA. | Estudo metodológico, realizado no NAMI/UNIFOR, com análise de conteúdo por 11 especialistas. | O instrumento alcançou IVC de 0,91, apontando confiabilidade e relevância para o acompanhamento de crianças com TEA. | Evidenciou-se a importância de instrumentos específicos e da atuação do enfermeiro na avaliação precoce e no cuidado integral à criança autista. |
| Hurt et al., (2019) | Descrever os caminhos de cuidado para crianças com TEA conforme vivenciados por profissionais e famílias. | Estudo de métodos mistos com grupos focais, oficinas criativas e visualização de imagens. | Identificou diferenças na percepção dos percursos entre saúde, educação e família, com barreiras como comunicação deficiente e falta de integração. | Reforça a necessidade de serviços integrados e multidisciplinares que unam saúde e educação no cuidado à criança autista. |
| Bonfim et al., (2020) | Descrever a vivência da família no processo de descoberta e início do tratamento de crianças com TEA. | Estudo qualitativo e descritivo com entrevistas abertas a nove familiares. | As famílias enfrentam vulnerabilidade e falta de apoio; a escola foi essencial na identificação de sinais atípicos. | O apoio multiprofissional e o acompanhamento do enfermeiro são fundamentais para o enfrentamento do diagnóstico e fortalecimento familiar. |
| Kara; Alpgan, (2022) | Investigar a relação entre características da amamentação e TEA. | Estudo quantitativo com 141 crianças com TEA e 128 com desenvolvimento típico. | Crianças com TEA apresentaram menos contato visual e comportamento de sucção natural, fatores associados a risco aumentado de TEA. | Destacou-se a importância de observar precocemente padrões comportamentais e sensoriais durante a amamentação como possíveis indicadores de TEA. |
| Huber et al., (2022) | Descrever o desenvolvimento de um programa multidisciplinar hospitalar para crianças com TEA/DDI. | Relato de experiência de estruturação de programa hospitalar em ambiente pediátrico terciário. | Identificou-se falta de equipe especializada e desafios sensoriais e emocionais no ambiente hospitalar. | Propõe a criação de programas multidisciplinares para melhorar a experiência e o cuidado hospitalar de crianças com TEA/DDI. |
| Bonfim et al., (2023) | Sintetizar o cuidado prestado por profissionais de saúde às famílias de crianças com TEA. | Estudo qualitativo com 22 profissionais, baseado no Cuidado Centrado na Família. | O cuidado mostrou se fragmentado, com sobrecarga profissional e pouca valorização da família como unidade de cuidado. | Reforça a necessidade de reorganizar a rede multiprofissional e investir em educação permanente sobre cuidado familiar. |
| Almeida et al., (2024) | Avaliar conhecimento e prática de enfermeiros da atenção primária sobre o TEA. | Estudo transversal, quantitativo com 42 enfermeiros. | 95,2% relataram formação insuficiente; 85,7% desconheciam instrumentos de triagem. | Há lacunas significativas no conhecimento dos enfermeiros, sendo necessária capacitação e educação continuada. |
| Williams; Sokhela; Ngxongo, (2025) | Analisar desafios no envolvimento da família no cuidado hospitalar de crianças com TEA. | Estudo qualitativo com abordagem fenomenológica interpretativa. | Apontou falta de conhecimento, indiferença e escassez de tempo e pessoal de enfermagem. | Conscientizar enfermeiros sobre esses desafios podem fortalecer o envolvimento familiar e a qualidade do cuidado. |
| Kolukisa; Cinar, (2025) | Examinar experiências hospitalares de mães de crianças com TEA e suas expectativas sobre o cuidado de enfermagem. | Pesquisa qualitativa, fenomenológica com 30 mães em três regiões da Turquia. | Foram identificados 3 temas e 36 códigos relacionados à percepção do autismo e às práticas de enfermagem. | O estudo fornece subsídios para aprimorar o cuidado hospitalar, tornando-o mais sensível às diferenças e necessidades das famílias. |
| Oliveira et al., (2025) | Compreender a participação do enfermeiro na detecção precoce de sinais de TEA nas consultas de puericultura. | Pesquisa qualitativa, exploratória com 27 enfermeiros e análise via IRaMuTeQ®. | A consulta de puericultura revelou-se espaço estratégico para a detecção precoce, mas ainda há limitações na prática profissional. | Destaca o enfermeiro como agente central na identificação precoce e na comunicação com famílias em vulnerabilidade. |
Observa-se que os estudos convergem ao reconhecer o papel essencial do enfermeiro na identificação precoce, no cuidado integral e na promoção do bem-estar de crianças com TEA e suas famílias. Entretanto, persistem desafios relacionados à falta de capacitação, à fragmentação do cuidado e à necessidade de integração entre os diferentes níveis de atenção. Diante disso, reforça-se a importância de estratégias formativas e organizacionais que fortaleçam a prática de enfermagem baseada em evidências e sensível às particularidades do espectro autista.
5. DISCUSSÕES
A análise dos dez estudos incluídos nesta revisão evidenciou que 30% das pesquisas (Martins et al., 2019; Almeida et al., 2024; Oliveira et al., 2025) abordaram diretamente a atuação do enfermeiro na detecção precoce e na sistematização do cuidado a crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Esses trabalhos convergem ao demonstrar que o reconhecimento antecipado dos sinais clínicos do espectro está diretamente relacionado à qualificação do profissional de enfermagem, especialmente nas consultas de puericultura. Esse dado reforça a relevância da capacitação técnica e teórica do enfermeiro para o rastreio e encaminhamento adequados, fundamentais para o desenvolvimento integral da criança autista.
Cerca de 20% dos estudos analisados (Bonfim et al., 2020; Bonfim et al., 2023) concentraram-se na experiência familiar e na importância do suporte multiprofissional. Ambas as pesquisas destacam que o enfermeiro é um elo fundamental entre a família, a escola e os serviços de saúde, exercendo papel educativo e acolhedor. Enquanto o estudo de 2020 enfatiza a vulnerabilidade das famílias no processo de diagnóstico, o de 2023 amplia a discussão ao apontar a necessidade de reorganizar o cuidado multiprofissional. Assim, percebe-se que a enfermagem atua como ponte entre o saber técnico e o apoio emocional, mitigando fragilidades no percurso terapêutico.
Em contrapartida, 10% dos estudos (Hurt et al., 2019) destacaram a integração entre saúde e educação, apontando falhas na comunicação intersetorial e na continuidade do cuidado. O estudo mostra que pais e profissionais frequentemente assumem papéis sobrepostos para suprir lacunas deixadas pelo sistema. Esse achado dialoga com Oliveira et al. (2025), que ressaltam que as consultas de enfermagem em puericultura são espaços potenciais para estreitar vínculos e promover integração interprofissional, especialmente quando o enfermeiro adota uma postura dialógica e colaborativa.
Outro grupo, representando 20% dos estudos (Huber et al., 2022; Kolukisa; Cinar, 2025), abordou o cuidado hospitalar e as dificuldades enfrentadas por crianças com TEA em ambientes de internação. Ambos destacam que a ausência de equipes multidisciplinares especializadas e a falta de sensibilidade ambiental podem gerar sobrecarga sensorial e emocional para a criança. Nesses contextos, o papel do enfermeiro é decisivo, pois sua atuação humanizada, pautada no acolhimento e na comunicação terapêutica, contribui para minimizar o estresse e promover conforto durante a hospitalização.
Os estudos de Williams, Sokhela e Ngxongo (2025) e Bonfim et al. (2023) também convergem ao enfatizar a relevância do envolvimento familiar no cuidado de enfermagem. Enquanto o primeiro identifica barreiras como falta de tempo, conhecimento e empatia dos profissionais, o segundo reforça a invisibilidade da família no planejamento assistencial. Tais achados demonstram que, embora o enfermeiro reconheça a importância do cuidado centrado na família, ainda existem desafios práticos e estruturais que dificultam sua efetivação, especialmente em ambientes hospitalares e redes de atenção fragmentadas.
Em 30% das pesquisas (Martins et al., 2019; Almeida et al., 2024; Oliveira et al., 2025), observou-se a necessidade de capacitação contínua dos enfermeiros frente ao TEA. A ausência de formação específica e de instrumentos padronizados limita a capacidade de intervenção e o acompanhamento efetivo da criança. Almeida et al. (2024) demonstraram que mais de 85% dos profissionais não conhecem protocolos de triagem, o que reforça a urgência de políticas de educação permanente voltadas à prática clínica em saúde mental infantil e desenvolvimento neuropsicomotor.
O estudo metodológico de Martins et al. (2019) apresentou uma contribuição significativa ao desenvolver um instrumento sistematizado para consulta de enfermagem, validado com alto índice de confiabilidade (IVC = 0,91). Essa iniciativa complementa os achados de Oliveira et al. (2025), que evidenciam a importância da consulta de puericultura como momento privilegiado para observar comportamentos atípicos e orientar as famílias. Juntos, esses estudos apontam para o avanço da enfermagem em direção à prática baseada em evidências e à utilização de tecnologias do cuidado voltadas ao público infantil autista.
Os achados de Kara e Alpgan (2022) oferecem uma perspectiva complementar ao relacionar indicadores precoces de TEA com o comportamento durante a amamentação, como menor contato visual e ausência de sucção natural. Esses dados, embora biomédicos, têm implicações diretas na prática de enfermagem, pois reforçam a necessidade de atenção aos sinais sutis do desenvolvimento infantil durante o acompanhamento de rotina. Assim, a atuação precoce do enfermeiro pode ser determinante para o encaminhamento e diagnóstico oportunos.
De modo geral, os estudos hospitalares (Huber et al., 2022; Kolukisa; Cinar, 2025; Williams et al., 2025) revelam um déficit estrutural na formação e no suporte organizacional aos enfermeiros, refletindo na dificuldade de lidar com comportamentos desafiadores e sensibilidades sensoriais típicas do TEA. Esses contextos demandam do profissional não apenas conhecimento técnico, mas também competências emocionais e comunicacionais.
Dessa forma, o desenvolvimento de programas institucionais, como o descrito por Huber et al. (2022), representa um avanço relevante na promoção de ambientes hospitalares mais inclusivos. O estudo de Bonfim et al. (2023) e o de Almeida et al. (2024) compartilham o enfoque na fragilidade das redes de atenção e na sobrecarga dos profissionais, evidenciando a necessidade de uma abordagem intersetorial e de maior investimento em educação continuada. O cuidado centrado na família, proposto teoricamente por Bonfim et al. (2023), depende diretamente da valorização e do preparo dos enfermeiros, conforme reforça Almeida et al. (2024). Essa convergência indica que a humanização do cuidado não é apenas uma prática individual, mas uma construção coletiva que requer suporte institucional. Comparando os estudos internacionais (Hurt et al., 2019; Kara; Alpgan, 2022; Williams et al., 2025; Kolukisa; Cinar, 2025) com os brasileiros (Martins et al., 2019; Bonfim et al., 2020; Bonfim et al., 2023; Almeida et al., 2024; Oliveira et al., 2025), nota-se que, apesar das diferenças contextuais, há consenso global sobre o papel estratégico do enfermeiro na triagem precoce, na comunicação com famílias e na articulação de cuidados. Contudo, os estudos nacionais ainda revelam maiores limitações estruturais e educacionais, apontando para a necessidade de avanços na formação acadêmica e nas políticas públicas de saúde mental infantil.
Por fim, a comparação geral dos dez estudos reforça que a enfermagem é eixo central na assistência ao TEA, tanto na atenção básica quanto hospitalar. Entretanto, a efetividade de sua atuação depende da integração entre saber técnico, sensibilidade interpessoal e apoio institucional. A construção de uma prática de enfermagem voltada à inclusão e ao cuidado integral de crianças autistas requer não apenas preparo científico, mas também empatia e comprometimento ético, valores que se destacam como pilares da profissão e da humanização da assistência.
6. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Com base nos dez estudos selecionados, observou-se que o papel do enfermeiro é fundamental tanto no diagnóstico precoce quanto no acompanhamento contínuo, orientando familiares, promovendo o cuidado integral e assegurando um ambiente terapêutico humanizado. Dessa forma, o objetivo proposto foi plenamente alcançado, possibilitando uma compreensão ampla e crítica sobre a relevância da enfermagem nesse contexto.
Além disso, constatou-se que, embora existam práticas exitosas relacionadas à capacitação profissional e à inclusão de abordagens multidisciplinares, ainda persistem desafios significativos. Entre eles, destacam-se a escassez de formações específicas sobre TEA na graduação e a carência de protocolos padronizados para o atendimento dessas crianças. Os estudos convergem quanto à necessidade de uma atuação pautada na empatia, na comunicação efetiva e na personalização do cuidado, elementos essenciais para o fortalecimento do vínculo entre enfermeiro, criança e família.
Portanto, conclui-se que a enfermagem exerce papel indispensável na assistência a crianças com TEA, contribuindo para a melhoria da qualidade de vida e para a inclusão social dessas crianças. Recomenda-se o incentivo à formação continuada, à produção científica e à elaboração de políticas públicas que garantam suporte aos profissionais de enfermagem e às famílias. Assim, este estudo não apenas alcançou seu objetivo, como também reforça a importância de ampliar o debate e o investimento em práticas assistenciais humanizadas e baseadas em evidências científicas.
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