A EDUCAÇÃO EM SAÚDE COMO FERRAMENTA DA ENFERMAGEM PARA MÃES SOROPOSITIVAS NO PRÉ-NATAL

HEALTH EDUCATION AS A NURSING TOOL FOR SEROPOSITIVE MOTHERS DURING PRENATAL CARE

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ch10202510311348


Ana Paula De Lima E Silva1
Aldeniza Maia Dos Santos Rodrigues2
Susana Maria Melo Silva3


Resumo

Este artigo analisa a contribuição da Educação em Saúde promovida pela enfermagem nos Serviços de Assistência Especializada (SAE) do Sistema Único de Saúde (SUS), com foco na adesão ao tratamento antirretroviral (TARV) por gestantes soropositivas e na prevenção da transmissão vertical do HIV. A pesquisa, de natureza qualitativa e teórica, baseou-se em uma revisão integrativa da literatura publicada entre 2018 e 2025, totalizando 225 produções científicas. Os resultados evidenciam que a atuação da enfermagem é estratégica para o fortalecimento do cuidado pré-natal, especialmente por meio de práticas educativas como orientações individualizadas, rodas de conversa, oficinas temáticas e uso de materiais didáticos acessíveis. A escuta qualificada, a empatia e o acolhimento humanizado são elementos centrais para a construção de vínculos terapêuticos e para a superação de barreiras como o estigma, a desinformação e as vulnerabilidades sociais. O perfil das gestantes atendidas nos SAE é marcado por baixa escolaridade, desemprego, monoparentalidade e diagnóstico recente de HIV, o que exige uma abordagem sensível e contextualizada por parte da equipe de enfermagem. Por outro lado, os profissionais enfrentam desafios como sobrecarga de trabalho, escassez de recursos e falta de capacitação específica. O estudo aponta a necessidade de investimentos em formação continuada, protocolos educativos padronizados e integração multiprofissional. Conclui-se que a Educação em Saúde é uma ferramenta potente para promover a adesão ao TARV, reduzir a transmissão vertical e fortalecer a cidadania das mulheres vivendo com HIV. 

Palavras-chave: Educação em Saúde. HIV/AIDS. Enfermagem no pré-natal. 

Abstract

This article analyzes the contribution of Health Education promoted by nursing professionals in the Specialized Care Services (SAE) of Brazil’s Unified Health System (SUS), focusing on adherence to antiretroviral treatment (ART) by seropositive pregnant women and the prevention of vertical transmission of HIV. This qualitative and theoretical research was based on an integrative literature review of 225 scientific publications from 2018 to 2025. The findings show that nursing plays a strategic role in strengthening prenatal care, especially through educational practices such as individualized guidance, group discussions, thematic workshops, and the use of accessible educational materials. Qualified listening, empathy, and humanized care are central elements in building therapeutic bonds and overcoming barriers such as stigma, misinformation, and social vulnerability. The profile of pregnant women assisted in SAE is marked by low educational attainment, unemployment, single motherhood, and recent HIV diagnosis, which demands a sensitive and contextualized approach from the nursing team. On the other hand, professionals face challenges such as work overload, lack of resources, and insufficient specialized training. The study highlights the need for investment in continuing education, standardized educational protocols, and multiprofessional integration. It concludes that Health Education is a powerful tool to promote ART adherence, reduce vertical transmission, and strengthen the citizenship of women living with HIV. 

Keywords: Health Education. HIV/AIDS. Prenatal Nursing. 

INTRODUÇÃO 

A epidemia de HIV/AIDS representa um dos maiores desafios sanitários enfrentados pelo Brasil nas últimas décadas. Desde os primeiros casos registrados na década de 1980, o país tem desenvolvido políticas públicas voltadas à prevenção, diagnóstico precoce e tratamento da infecção pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV). Apesar dos avanços científicos e da ampliação do acesso ao tratamento antirretroviral (TARV), o enfrentamento da epidemia ainda exige esforços contínuos, especialmente no que diz respeito à prevenção da transmissão vertical, aquela que ocorre da mãe para o bebê durante a gestação, o parto ou a amamentação. 

A transmissão vertical do HIV é considerada um marcador importante da qualidade da atenção à saúde materno-infantil. Dados recentes do Ministério da Saúde indicam que o Brasil tem avançado na redução dessa forma de transmissão, com taxas inferiores a 2% em algumas regiões, o que aproxima o país da certificação internacional de eliminação da transmissão vertical. No entanto, esses resultados ainda não são homogêneos em todo o território nacional, sendo influenciados por fatores como desigualdade social, acesso limitado aos serviços especializados e barreiras culturais que dificultam a adesão ao tratamento por parte das gestantes.

Nesse contexto, a atuação da enfermagem nos Serviços de Assistência Especializada (SAE) do Sistema Único de Saúde (SUS) torna-se fundamental. Os enfermeiros desempenham papel estratégico na promoção da Educação em Saúde, oferecendo informações claras, acolhimento humanizado e acompanhamento contínuo às gestantes soropositivas. Essa prática educativa é essencial para garantir que as pacientes compreendam a importância do TARV, superem o medo do estigma e se engajem no cuidado pré-natal de forma ativa e consciente. 

A Educação em Saúde, quando realizada de forma sensível e contextualizada, contribui para a construção de vínculos de confiança entre profissionais e pacientes, favorecendo a escuta qualificada e a adaptação da linguagem às necessidades individuais. Estudos apontam que a orientação contínua por parte da equipe de enfermagem é um dos fatores determinantes para o sucesso do tratamento e para a redução dos índices de transmissão vertical do HIV. 

Apesar da relevância dessa prática, ainda são escassos os estudos que aprofundam a atuação da enfermagem na Educação em Saúde voltada às gestantes soropositivas atendidas nos SAE. Muitos desafios persistem, como a falta de capacitação específica, a sobrecarga de trabalho, e a ausência de protocolos educativos padronizados que considerem as realidades socioculturais das pacientes. Além disso, o medo do julgamento e a desinformação sobre o HIV continuam sendo obstáculos significativos à adesão ao tratamento. 

Diante desse cenário, a presente pesquisa tem como objetivo analisar a contribuição da Educação em Saúde promovida pela equipe de enfermagem nos SAE do SUS, com ênfase na adesão ao TARV por gestantes soropositivas e na prevenção da transmissão vertical do HIV. Parte-se da hipótese de que o acolhimento humanizado e a orientação contínua promovem uma melhor percepção sobre o tratamento, aumentando a segurança emocional das pacientes e seu engajamento no pré-natal. 

Considera-se também que a ausência de informações claras, acessíveis e contextualizadas pode dificultar a adesão ao tratamento, elevando os riscos de transmissão vertical do HIV. Tal dificuldade pode ser ainda mais acentuada em contextos marcados por vulnerabilidades sociais, como baixa escolaridade, falta de rede de apoio e medo do estigma, o que reforça a necessidade de práticas comunicacionais eficazes e culturalmente sensíveis por parte da equipe de enfermagem. 

Pressupõe-se que a capacitação permanente da equipe de enfermagem é um fator determinante para a efetividade das estratégias educativas e, consequentemente, para a melhoria da qualidade da atenção prestada às gestantes soropositivas. Profissionais devidamente preparados são mais capazes de identificar barreiras individuais e coletivas à adesão, de adaptar a linguagem às necessidades das pacientes e de promover uma escuta qualificada, fortalecendo o vínculo terapêutico e contribuindo para o sucesso do cuidado integral à saúde da mulher e à prevenção da transmissão vertical do HIV. 

A pesquisa busca responder à seguinte questão: Como a Educação em Saúde pode ser utilizada pela enfermagem nos Serviços de Assistência Especializada do SUS para fortalecer a adesão ao tratamento antirretroviral e reduzir os riscos de transmissão vertical do HIV em gestantes soropositivas durante o pré-natal? 

Para alcançar esse objetivo, o artigo está estruturado em três partes principais. A primeira corresponde à fundamentação teórica, dividida em seções que abordam a transmissão vertical do HIV, os fundamentos da Educação em Saúde, e o papel da enfermagem nos SAE. Em seguida, apresenta-se a metodologia qualitativa adotada, com a descrição dos procedimentos de coleta e análise dos dados. Por fim, são discutidos os resultados obtidos, à luz da literatura científica, com destaque para as estratégias educativas identificadas, os desafios enfrentados pelas gestantes e profissionais, e as recomendações para o aprimoramento das práticas de cuidado no contexto do SUS. 

1 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA 

1.1 HIV/AIDS e Transmissão Vertical 

A infecção pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV) continua sendo um dos principais desafios de saúde pública no Brasil e no mundo. Desde os primeiros registros da epidemia na década de 1980, o país tem avançado significativamente na formulação de políticas públicas voltadas à prevenção, diagnóstico e tratamento da doença. No entanto, a transmissão vertical aquela que ocorre da mãe para o bebê durante a gestação, o parto ou a amamentação permanece como uma preocupação central, especialmente no contexto da atenção materno-infantil. Essa forma de transmissão é considerada evitável, desde que sejam adotadas medidas eficazes de prevenção, como o uso correto do tratamento antirretroviral (TARV), o acompanhamento pré-natal especializado e a substituição do aleitamento materno por fórmulas infantis. 

Os mecanismos de transmissão vertical do HIV envolvem diferentes momentos da gestação e do pós-parto. Durante a gravidez, o vírus pode atravessar a barreira placentária, principalmente em casos de carga viral elevada ou presença de infecções oportunistas. No parto, o contato do recém-nascido com secreções cervicais e sangue materno representa um risco adicional. Já na fase de amamentação, o HIV pode ser transmitido pelo leite materno, razão pela qual o Ministério da Saúde contraindica o aleitamento por mães soropositivas, recomendando a oferta de fórmulas infantis como alternativa segura. A carga viral materna é o principal fator de risco para a transmissão vertical, sendo diretamente influenciada pela adesão ao TARV e pela regularidade do acompanhamento clínico. 

Os indicadores epidemiológicos brasileiros demonstram avanços importantes na redução da transmissão vertical do HIV. Segundo dados do Departamento de HIV/AIDS e Hepatites Virais do Ministério da Saúde, o país registrou uma queda significativa no número de crianças infectadas por essa via nos últimos anos. Em 2019, foram notificados 882 casos de transmissão vertical, enquanto em 2023 esse número caiu para 91, representando uma taxa de apenas 1,1% entre gestantes vivendo com HIV. Essa redução aproxima o Brasil da meta de certificação internacional de eliminação da transmissão vertical, estabelecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Contudo, os dados revelam disparidades regionais, com estados do Norte e Nordeste apresentando taxas mais elevadas, o que evidencia a necessidade de fortalecer a atenção especializada e a atuação da enfermagem em áreas de maior vulnerabilidade.

Para enfrentar esse desafio, o Ministério da Saúde publicou em 2022 o “Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Prevenção da Transmissão Vertical do HIV, Sífilis e Hepatites Virais”. Esse documento estabelece orientações detalhadas para o cuidado integral à gestante soropositiva, incluindo o início precoce do TARV preferencialmente no primeiro trimestre da gestação, a realização de exames regulares como carga viral e contagem de linfócitos CD4, e o acompanhamento da criança exposta ao HIV desde o nascimento. O protocolo também reforça a contraindicação do aleitamento materno e orienta sobre o uso de antirretrovirais profiláticos no recém-nascido, além de prever ações de vigilância epidemiológica e notificação compulsória dos casos. 

A atuação da equipe de enfermagem é destacada como essencial na implementação dessas diretrizes. Os enfermeiros são responsáveis por promover a Educação em Saúde, realizar o acolhimento humanizado, monitorar a adesão ao tratamento e garantir que as gestantes compreendam os riscos e as medidas preventivas. A comunicação clara, a escuta ativa e o vínculo terapêutico são considerados elementos fundamentais para o sucesso das estratégias de prevenção da transmissão vertical. Nesse sentido, a qualificação contínua dos profissionais de enfermagem e a adoção de práticas educativas sensíveis às realidades socioculturais das pacientes são indispensáveis para consolidar os avanços obtidos e superar os desafios persistentes 

1.2 Educação em Saúde no Pré-natal 

A Educação em Saúde é uma prática fundamental no campo da enfermagem, especialmente no contexto do cuidado pré-natal de gestantes soropositivas. Trata-se de um processo pedagógico que visa promover o conhecimento, a autonomia e o protagonismo dos indivíduos em relação à sua saúde, por meio da troca de saberes, da escuta ativa e da construção de vínculos. No âmbito da atenção básica e especializada, a Educação em Saúde ultrapassa a simples transmissão de informações técnicas, assumindo um papel transformador que considera as dimensões sociais, culturais e emocionais dos sujeitos envolvidos.

Os fundamentos da Educação em Saúde estão ancorados em princípios como a integralidade do cuidado, a humanização das práticas de saúde e o respeito à diversidade. Inspirada em autores como Paulo Freire, essa abordagem valoriza o diálogo como ferramenta central para a construção do conhecimento, reconhecendo o saber popular e promovendo a participação ativa dos usuários nos processos de cuidado. No caso das gestantes soropositivas, essa prática educativa é essencial para enfrentar o estigma associado ao HIV, esclarecer dúvidas sobre o tratamento antirretroviral (TARV) e fortalecer a adesão às medidas de prevenção da transmissão vertical. 

A atuação da enfermagem na Educação em Saúde durante o pré-natal envolve diversas estratégias que buscam adaptar a linguagem técnica à realidade das pacientes, respeitando suas crenças, medos e expectativas. Entre essas estratégias, destacam-se as orientações individuais durante as consultas, as rodas de conversa em grupo, o uso de materiais educativos ilustrados, e a realização de oficinas temáticas sobre saúde sexual, prevenção de infecções e cuidados com o bebê. Essas ações permitem que as gestantes compreendam os riscos da transmissão vertical, os benefícios do TARV e os cuidados necessários no parto e no pós-parto. 

Além disso, a escuta qualificada e o acolhimento humanizado são elementos centrais na prática educativa da enfermagem. Ao estabelecer uma relação de confiança com as gestantes, os profissionais criam um ambiente seguro para que elas expressem suas dúvidas, angústias e experiências, favorecendo o engajamento no tratamento e a superação de barreiras emocionais. A empatia, o respeito à singularidade e a disponibilidade para o diálogo são atitudes que fortalecem o vínculo terapêutico e contribuem para a construção de uma rede de apoio efetiva. 

É importante destacar que a Educação em Saúde no pré-natal não se limita à transmissão de conteúdos biomédicos, mas envolve também a promoção da cidadania, da autoestima e da autonomia das mulheres. Ao compreenderem sua condição sorológica e os cuidados necessários, as gestantes tornam-se agentes ativos na proteção da própria saúde e na prevenção da transmissão do HIV aos seus filhos. Essa perspectiva educativa exige dos profissionais de enfermagem uma formação contínua, sensível às questões de gênero, vulnerabilidade social e diversidade cultural. 

Portanto, a Educação em Saúde promovida pela enfermagem nos Serviços de Assistência Especializada (SAE) configura-se como uma ferramenta potente para a qualificação do cuidado pré-natal de gestantes soropositivas. Ao integrar conhecimento técnico, sensibilidade humana e compromisso ético, essa prática contribui para a redução dos índices de transmissão vertical do HIV, para a melhoria da qualidade de vida das mulheres atendidas e para o fortalecimento do Sistema Único de Saúde como espaço de promoção da equidade e da justiça social. 

1.3 Enfermagem nos Serviços de Assistência Especializada (SAE) 

Os Serviços de Assistência Especializada (SAE) do Sistema Único de Saúde (SUS) são unidades voltadas ao atendimento de pessoas vivendo com HIV/AIDS, oferecendo acompanhamento clínico, tratamento antirretroviral (TARV), exames laboratoriais e ações educativas. No contexto do cuidado às gestantes soropositivas, esses serviços assumem papel estratégico na prevenção da transmissão vertical do HIV, sendo a atuação da equipe de enfermagem um dos pilares para a efetividade das ações propostas pelo Ministério da Saúde (BRASIL, 2022). 

As funções e atribuições dos enfermeiros nos SAE são amplas e envolvem desde o acolhimento inicial da paciente até o monitoramento da adesão ao tratamento. Entre suas responsabilidades estão a realização de consultas de enfermagem, a administração e orientação sobre o uso correto dos antirretrovirais, a solicitação e interpretação de exames, o encaminhamento para outros profissionais da equipe multiprofissional, e a promoção da Educação em Saúde. Além disso, os enfermeiros atuam na vigilância epidemiológica, na notificação de casos e na construção de planos de cuidado individualizados, considerando as especificidades de cada gestante (HOLZMANN et al., 2020).

A humanização do atendimento é um dos princípios que norteiam a prática da enfermagem nos SAE. Essa abordagem busca superar modelos biomédicos centrados na doença, valorizando o sujeito em sua integralidade e promovendo o cuidado com empatia, respeito e escuta ativa. Segundo Gomes e Sena (2020), o enfermeiro que adota práticas humanizadas contribui para a construção de vínculos terapêuticos sólidos, capazes de fortalecer a confiança da paciente e favorecer sua adesão ao tratamento. No caso das gestantes soropositivas, esse vínculo é especialmente importante, pois muitas enfrentam sentimentos de culpa, medo do julgamento social e insegurança quanto à saúde do bebê. 

A escuta ativa é uma ferramenta essencial na construção desse vínculo. Trata-se de uma postura profissional que envolve atenção plena, acolhimento das emoções e validação das experiências da paciente. Ao escutar sem julgamentos e com sensibilidade, o enfermeiro cria um espaço seguro para que a gestante compartilhe suas dúvidas, angústias e expectativas. Essa prática favorece o empoderamento da mulher, permitindo que ela compreenda sua condição sorológica, tome decisões informadas e participe ativamente do cuidado (FREIRE, 2020). 

O vínculo terapêutico estabelecido entre enfermeiro e gestante é um fator determinante para o sucesso do acompanhamento pré-natal. Estudos apontam que gestantes que se sentem acolhidas e respeitadas tendem a aderir com mais regularidade ao TARV, comparecer às consultas e seguir as orientações recebidas (VEIGA JÚNIOR; SANTOS, 2021). Esse vínculo não se constrói apenas por meio de ações técnicas, mas também pela disponibilidade emocional do profissional, pela linguagem acessível utilizada nas orientações e pela capacidade de reconhecer as singularidades de cada paciente. 

Dessa forma, a atuação da enfermagem nos SAE vai além da execução de procedimentos clínicos. Ela envolve um compromisso ético com a promoção da saúde, a redução das desigualdades e a valorização da vida. Ao integrar conhecimento técnico, sensibilidade humana e práticas educativas, os enfermeiros contribuem de forma decisivapara a prevenção da transmissão vertical do HIV e para a melhoria da qualidade de vida das gestantes soropositivas atendidas no SUS. 

1.4 Barreiras à Adesão tratamento antirretroviral (TARV) 

A adesão ao tratamento antirretroviral (TARV) por gestantes soropositivas é um dos fatores mais determinantes para a prevenção da transmissão vertical do HIV. Embora o Brasil ofereça acesso gratuito aos medicamentos e ao acompanhamento especializado por meio do Sistema Único de Saúde (SUS), diversos obstáculos ainda comprometem a continuidade e a efetividade do tratamento. Entre os principais desafios estão o estigma social, a desinformação sobre o HIV, e as vulnerabilidades sociais que afetam diretamente a capacidade das mulheres de se engajarem no cuidado pré-natal. 

O estigma relacionado ao HIV/AIDS permanece como uma barreira significativa, mesmo após décadas de campanhas educativas e avanços científicos. Muitas gestantes soropositivas relatam medo de serem julgadas por familiares, profissionais de saúde ou pela comunidade, o que pode levá-las a esconder sua condição, evitar consultas ou interromper o tratamento (UNAIDS, 2022). Esse estigma é alimentado por preconceitos históricos que associam o HIV a comportamentos considerados desviantes, como o uso de drogas ou a promiscuidade, ignorando as múltiplas formas de transmissão e os contextos de vulnerabilidade em que muitas mulheres estão inseridas. 

A desinformação também contribui para a baixa adesão ao TARV. Algumas gestantes desconhecem os benefícios do tratamento, os riscos da transmissão vertical e os cuidados necessários durante o parto e a amamentação. Em muitos casos, a linguagem técnica utilizada pelos profissionais de saúde dificulta a compreensão das orientações, gerando insegurança e resistência ao tratamento (BATISTA; NASCIMENTO, 2021). A ausência de materiais educativos acessíveis e a falta de tempo para esclarecimentos durante as consultas são fatores que agravam esse cenário. 

As vulnerabilidades sociais, como baixa escolaridade, desemprego, ausência de rede de apoio e dificuldade de acesso aos serviços especializados, também influenciam negativamente a adesão ao TARV. Mulheres que vivem em contextos de pobreza extrema ou em áreas rurais enfrentam barreiras logísticas para comparecer às consultas, adquirir alimentos adequados ou manter o cuidado com os filhos. Além disso, a sobrecarga de responsabilidades domésticas e a violência de gênero são fatores que limitam a autonomia das gestantes e dificultam o seguimento do tratamento (OLIVEIRA; SANTOS, 2021). 

Nesse cenário, a comunicação acessível e o acolhimento humanizado por parte da equipe de enfermagem tornam-se estratégias fundamentais para superar essas barreiras. A escuta ativa, o uso de linguagem simples e a valorização das experiências das pacientes são práticas que fortalecem o vínculo terapêutico e promovem o empoderamento das gestantes. Segundo Freire (2020), o diálogo é a base da educação libertadora, permitindo que os sujeitos compreendam sua realidade e atuem sobre ela de forma consciente e transformadora. 

A atuação da enfermagem, portanto, deve transcender os limites da assistência clínica tradicional, incorporando uma compreensão ampliada das dimensões sociais, culturais e emocionais que permeiam a experiência das gestantes soropositivas. O cuidado não pode ser reduzido à prescrição de medicamentos ou à realização de procedimentos técnicos; ele deve ser compreendido como um processo relacional, que envolve escuta, acolhimento e construção de vínculos. Muitas dessas mulheres enfrentam contextos de vulnerabilidade marcados por pobreza, baixa escolaridade, violência de gênero e ausência de rede de apoio, o que impacta diretamente sua capacidade de compreender, aceitar e manter o tratamento antirretroviral (TARV). Nesse sentido, a enfermagem precisa desenvolver competências comunicacionais e afetivas que permitam identificar essas barreiras e atuar de forma propositiva, respeitosa e transformadora. 

A construção de um ambiente acolhedor, livre de julgamentos, é uma estratégia fundamental para romper com o estigma que ainda recai sobre pessoas vivendo com HIV. O acolhimento não se limita à recepção física no serviço de saúde, mas envolve atitudes concretas de respeito, empatia e valorização da subjetividade da paciente. A oferta de informações contextualizadas, adaptadas ao nível de compreensão da gestante e à sua realidade sociocultural, é igualmente essencial. Quando a mulher se sente segura para expressar suas dúvidas e percebe que suas angústias são legitimadas pela equipe, há um fortalecimento do vínculo terapêutico e uma maior disposição para aderir ao tratamento. Como destacam Veiga Júnior e Santos (2021), o sucesso do cuidado depende da capacidade dos profissionais de reconhecer as singularidades de cada paciente e adaptar suas práticas às necessidades reais da população atendida, o que exige sensibilidade, escuta ativa e compromisso com a equidade. 

Dessa forma, enfrentar as barreiras à adesão ao TARV exige uma abordagem integrada e interdisciplinar, que articule conhecimento técnico, sensibilidade humana e compromisso ético com a promoção da saúde. A enfermagem, ao assumir esse papel educativo e acolhedor, torna-se agente fundamental na transformação das trajetórias de vida das gestantes soropositivas. O profissional que compreende o contexto social da paciente, que respeita seus tempos subjetivos e que oferece informações de forma clara e empática, contribui não apenas para a adesão ao tratamento, mas também para o fortalecimento da autoestima, da autonomia e da cidadania dessas mulheres. Essa atuação qualificada impacta diretamente os indicadores de saúde materno-infantil, reduzindo os riscos de transmissão vertical do HIV e promovendo um cuidado integral, humanizado e comprometido com a justiça social. 

2 METODOLOGIA ADOTADA 

Esta pesquisa é de natureza qualitativa, com abordagem teórica, descritiva e exploratória. Seu objetivo é analisar, com profundidade, a atuação da enfermagem na promoção da Educação em Saúde para gestantes soropositivas durante o pré-natal, especialmente no contexto dos Serviços de Assistência Especializada (SAE) do Sistema Único de Saúde (SUS). A escolha por uma metodologia teórica justifica-se pela intenção de reunir, interpretar e discutir os principais achados científicos sobre o tema, a fim de construir um embasamento sólido que contribua para a qualificação das práticas de cuidado. A investigação foi realizada por meio de uma revisão integrativa da literatura, utilizando como fonte principal bases de dados acadêmicas e científicas disponíveis online. Foram consultadas plataformas como SciELO, LILACS, BVS, Google Scholar e periódicos especializados em saúde pública, enfermagem e HIV/AIDS. O recorte temporal adotado abrangeu publicações entre os anos de 2018 a 2025, com prioridade para os estudos mais recentes e relevantes, que abordassem diretamente a temática da Educação em Saúde, a atuação da enfermagem e a prevenção da transmissão vertical do HIV. 

O processo de busca inicial resultou em 225 produções científicas, entre artigos, protocolos, relatórios técnicos e livros. Após a aplicação dos critérios de inclusão como pertinência ao tema, clareza metodológica, acesso ao texto completo e qualidade editorial, foram selecionados os materiais que apresentavam maior contribuição teórica para os objetivos da pesquisa. Os critérios de exclusão envolveram duplicidade de conteúdo, ausência de abordagem específica sobre gestantes soropositivas ou práticas educativas da enfermagem, e publicações com limitações metodológicas evidentes. 

A análise dos textos selecionados foi realizada com base na técnica de análise de conteúdo, conforme proposta por Bardin (2011), permitindo a categorização dos achados em eixos temáticos: mecanismos de transmissão vertical do HIV, indicadores epidemiológicos no Brasil, protocolos clínicos e diretrizes do Ministério da Saúde, fundamentos da Educação em Saúde, estratégias educativas aplicadas no pré-natal, atuação da enfermagem nos SAE, barreiras à adesão ao tratamento antirretroviral (TARV), e impacto da comunicação acessível e do acolhimento humanizado.

A sistematização dos dados permitiu identificar padrões, lacunas e convergências entre os estudos, favorecendo uma interpretação crítica e contextualizada dos resultados. A abordagem qualitativa adotada possibilitou compreender os significados atribuídos às práticas educativas da enfermagem e os fatores que influenciam a adesão ao tratamento por parte das gestantes soropositivas, respeitando a complexidade e a subjetividade envolvidas nesse processo. 

Por tratar-se de uma pesquisa exclusivamente teórica, não houve coleta de dados com seres humanos, o que dispensa a submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa (CEP). No entanto, todas as fontes utilizadas foram devidamente referenciadas, respeitando os princípios éticos da produção científica e a integridade acadêmica. 

Dessa forma, a metodologia adotada nesta pesquisa garante rigor na seleção e análise dos materiais, permitindo a construção de um referencial teórico robusto e atualizado, capaz de subsidiar reflexões e propostas para o aprimoramento da atuação da enfermagem na promoção da Educação em Saúde para gestantes soropositivas no contexto do SUS. 

3 RESULTADOS E DISCUSSÃO 

3.1 Perfil das Participantes 

A análise dos estudos selecionados revelou um perfil sociodemográfico recorrente entre as gestantes soropositivas atendidas nos Serviços de Assistência Especializada (SAE) do Sistema Único de Saúde (SUS). Em sua maioria, essas mulheres estão inseridas em contextos de vulnerabilidade social, o que influencia diretamente sua relação com o tratamento antirretroviral (TARV) e com os serviços de saúde. Os dados apontam que grande parte das gestantes possui baixa escolaridade, com predominância de ensino fundamental incompleto ou médio não concluído, o que pode dificultar a compreensão das orientações clínicas e comprometer a adesão ao tratamento (BATISTA; NASCIMENTO, 2021). 

A faixa etária das gestantes varia entre 18 e 35 anos, com maior concentração entre os 20 e 29 anos, período considerado de maior fertilidade. Muitas delas são mães de múltiplos filhos e vivem em união estável ou em situação de monoparentalidade, o que reforça a sobrecarga de responsabilidades domésticas e limita o tempo disponível para o cuidado com a própria saúde. Além disso, os estudos indicam que uma parcela significativa dessas mulheres está desempregada ou inserida em atividades informais, o que dificulta o acesso regular aos serviços especializados e à alimentação adequada durante o tratamento (OLIVEIRA; SANTOS, 2021). 

Quanto à condição sorológica, a maioria das gestantes foi diagnosticada com HIV durante o pré-natal, o que gera impacto emocional significativo. O momento do diagnóstico é frequentemente marcado por sentimentos de medo, culpa e insegurança, especialmente em relação à saúde do bebê e à possibilidade de rejeição por parte da família ou da comunidade. Essa carga emocional, somada à desinformação sobre o HIV, pode comprometer o vínculo com a equipe de saúde e dificultar a continuidade do tratamento (VEIGA JÚNIOR; SANTOS, 2021). 

Em relação aos profissionais de enfermagem atuantes nos SAE, os estudos analisados indicam que a maioria possui formação superior completa em enfermagem, com especialização em saúde pública, obstetrícia ou áreas afins. Muitos profissionais têm entre cinco e quinze anos de experiência na atenção especializada, o que contribui para a construção de práticas educativas mais sensíveis, contextualizadas e alinhadas às diretrizes do SUS. No entanto, também foram identificadas dificuldades relacionadas à sobrecarga de trabalho, à escassez de recursos materiais e humanos, e à ausência de capacitação contínua voltada especificamente para o cuidado de gestantes soropositivas (GOMES; SENA, 2020). 

A atuação dos enfermeiros é marcada pelo compromisso com a humanização do atendimento, pela escuta ativa e pela construção de vínculos terapêuticos. Esses profissionais reconhecem a importância da Educação em Saúde como ferramenta para promover a adesão ao TARV e reduzir os riscos de transmissão vertical do HIV. No entanto, muitos relatam desafios na comunicação com as pacientes, especialmente quando há barreiras linguísticas, baixa escolaridade ou resistência ao tratamento. A necessidade de adaptar a linguagem técnica, respeitar os tempos subjetivos das gestantes e lidar com o estigma social são aspectos que exigem sensibilidade, preparo e formação contínua por parte da equipe (FREIRE, 2020). 

Dessa forma, o perfil das participantes tanto gestantes quanto profissionais, evidencia a complexidade do cuidado no contexto dos SAE. As características sociodemográficas, emocionais e profissionais influenciam diretamente a qualidade da atenção prestada e os resultados obtidos na prevenção da transmissão vertical do HIV. Compreender essas especificidades é fundamental para propor estratégias educativas mais eficazes, fortalecer o vínculo entre enfermeiros e pacientes e garantir que o cuidado seja pautado na equidade, no respeito e na promoção da saúde integral. 

3.2 Estratégias de Educação em Saúde Identificadas 

Claro, Genilde! Aqui está a versão aprofundada da seção que você compartilhou, com maior densidade argumentativa, articulação teórica e fluidez acadêmica: 

A análise dos estudos selecionados entre 2018 e 2025 revelou um conjunto consistente e diversificado de práticas educativas utilizadas por profissionais de enfermagem nos Serviços de Assistência Especializada (SAE) do Sistema Único de Saúde (SUS), voltadas ao cuidado de gestantes soropositivas durante o pré-natal. Essas estratégias não apenas visam promover a adesão ao tratamento antirretroviral (TARV), como também atuam na redução dos riscos de transmissão vertical do HIV e no fortalecimento do vínculo entre paciente e equipe de saúde. A Educação em Saúde, nesse contexto, assume um papel transformador, sendo compreendida como um processo dialógico, contínuo e humanizado, capaz de ressignificar experiências de vulnerabilidade e promover o protagonismo das mulheres no cuidado com sua saúde e a de seus filhos. 

Entre as práticas mais recorrentes está a orientação individualizada durante as consultas de enfermagem, momento privilegiado para o estabelecimento de uma relação de confiança entre profissional e paciente. Nessa interação, o enfermeiro adapta a linguagem técnica à realidade sociocultural da gestante, esclarece dúvidas sobre o HIV, o funcionamento do TARV, os cuidados com o bebê e os procedimentos recomendados no parto e no pós-parto. Essa abordagem personalizada permite que a gestante compreenda os riscos da transmissão vertical e os benefícios do tratamento, favorecendo sua autonomia, seu engajamento no cuidado e sua capacidade de tomar decisões informadas (BATISTA; NASCIMENTO, 2021). Além disso, a escuta ativa e o acolhimento das emoções durante essas consultas contribuem para a superação de medos e inseguranças, especialmente em casos de diagnóstico recente. 

Outra estratégia identificada é o uso de materiais didáticos acessíveis, como cartilhas ilustradas, vídeos educativos e folhetos informativos, que funcionam como ferramentas de apoio à comunicação entre profissionais e pacientes. Esses recursos são especialmente eficazes entre gestantes com baixa escolaridade, pois utilizam linguagem visual e simplificada, facilitando a assimilação dos conteúdos e a superação de barreiras comunicacionais. Além de promover o entendimento das informações clínicas, esses materiais permitem que as pacientes compartilhem o conhecimento adquirido com familiares e redes de apoio, ampliando o alcance das ações educativas e contribuindo para a construção de ambientes mais acolhedores e informados (VEIGA JÚNIOR; SANTOS, 2021). 

As rodas de conversa em grupo também se destacam como prática educativa eficaz e potente. Realizadas em espaços coletivos dos SAE, essas atividades promovem o diálogo horizontal entre gestantes, profissionais de saúde e, em alguns casos, representantes da comunidade. As rodas de conversa favorecem a troca de experiências, o acolhimento mútuo e a construção de redes de solidariedade, contribuindo para a redução do estigma associado ao HIV e para o fortalecimento emocional das participantes. Ao compartilhar vivências, medos e estratégias de enfrentamento, as gestantes constroem coletivamente um saber que transcende o biomédico, fortalecendo sua autoestima e sua capacidade de lidar com os desafios do tratamento (GOMES; SENA, 2020). 

Além dessas práticas, os enfermeiros utilizam oficinas temáticas sobre saúde sexual e reprodutiva, prevenção de infecções, cuidados com o recém-nascido e direitos das mulheres vivendo com HIV. Essas oficinas são planejadas com base nas demandas identificadas durante o atendimento e buscam promover o protagonismo das gestantes no cuidado com sua saúde. A abordagem participativa e dialógica, inspirada nos princípios da educação popular em saúde, permite que as pacientes se reconheçam como sujeitos ativos no processo de prevenção da transmissão vertical. Como destaca Freire (2020), a educação libertadora é aquela que parte da realidade dos sujeitos, valoriza seus saberes e promove a transformação social por meio do diálogo e da consciência crítica. 

A linguagem acessível é um elemento transversal a todas essas estratégias. Os profissionais de enfermagem reconhecem que o uso de termos técnicos pode gerar confusão, insegurança e distanciamento, especialmente entre gestantes com baixa escolaridade ou pouco contato com o sistema de saúde. Por isso, adotam uma comunicação clara, empática e respeitosa, utilizando exemplos do cotidiano, metáforas simples e recursos visuais para facilitar a compreensão. Essa postura não apenas favorece o entendimento das informações, como também contribui para a construção de um ambiente acolhedor, onde a paciente se sente valorizada, respeitada e segura para expressar suas dúvidas e sentimentos (HOLZMANN et al., 2020). 

Em síntese, as estratégias educativas identificadas nos SAE demonstram o compromisso da enfermagem com a promoção da saúde integral das gestantes soropositivas. Ao integrar conhecimento técnico, sensibilidade humana e práticas pedagógicas contextualizadas, os profissionais contribuem para a adesão ao TARV, para a redução da transmissão vertical do HIV e para a valorização da vida dessas mulheres e de seus filhos. Mais do que transmitir informações, a Educação em Saúde promovida pela enfermagem nos SAE é um ato político e ético, que reconhece a dignidade das pacientes, combate o estigma e fortalece o SUS como espaço de cuidado, acolhimento e transformação social. 

3.3 Fatores Facilitadores e Dificultadore 

A adesão ao tratamento antirretroviral (TARV) por gestantes soropositivas configura-se como um processo multifacetado e dinâmico, profundamente influenciado por uma série de fatores que se entrelaçam em níveis individuais, sociais, culturais e institucionais. Trata-se de uma experiência que transcende o campo biomédico, exigindo da equipe de saúde especialmente da enfermagem uma abordagem integral, sensível e comprometida com a realidade das mulheres atendidas. A análise dos estudos revisados entre 2018 e 2025 permitiu identificar elementos que atuam tanto como facilitadores quanto como dificultadores nesse processo, revelando que a adesão não depende apenas da disponibilidade dos medicamentos, mas também da qualidade das relações estabelecidas no cuidado, da estrutura dos serviços e das condições de vida das pacientes. 

Entre os fatores facilitadores, destaca-se o apoio familiar, especialmente o suporte emocional e prático oferecido por parceiros, mães, irmãs e outros membros da rede afetiva. A presença de uma rede de apoio sólida contribui para o fortalecimento emocional da gestante, reduz o medo do abandono e favorece a continuidade do tratamento, mesmo diante de adversidades. Estudos apontam que mulheres que recebem apoio constante tendem a apresentar maior adesão ao TARV, a comparecer com mais regularidade às consultas de pré-natal e a seguir com mais segurança as orientações recebidas (OLIVEIRA; SANTOS, 2021). Esse apoio, além de afetivo, pode se manifestar em ações concretas, como o acompanhamento às consultas, o cuidado com os filhos e o incentivo à autoestima da gestante, promovendo um ambiente mais propício à adesão. 

Outro fator relevante é o nível de escolaridade da gestante, que influencia diretamente sua capacidade de compreender os mecanismos de transmissão do HIV, os benefícios do TARV e os cuidados necessários durante a gestação, o parto e o puerpério. Mulheres com maior escolarização demonstram maior autonomia na tomada de decisões, maior capacidade de interpretar informações técnicas e maior disposição para dialogar com os profissionais de saúde. No entanto, a baixa escolaridade, ainda predominante entre muitas gestantes atendidas no SUS, pode dificultar a assimilação das orientações, gerar insegurança e comprometer a adesão ao tratamento. Nesses casos, torna-se imprescindível que os profissionais de enfermagem adotem estratégias comunicacionais acessíveis, adaptadas ao nível de compreensão das pacientes, utilizando linguagem simples, recursos visuais e exemplos do cotidiano (BATISTA; NASCIMENTO, 2021). 

O vínculo com a equipe de enfermagem também se mostrou um fator decisivo para a adesão ao tratamento. Quando as gestantes se sentem acolhidas, ouvidas e respeitadas, tendem a confiar mais nos profissionais e a seguir com maior comprometimento as orientações recebidas. A escuta ativa, a empatia e a continuidade do cuidado são elementos que fortalecem esse vínculo e promovem a construção de uma relação terapêutica baseada na confiança mútua. A presença constante do enfermeiro como referência no cuidado contribui para a segurança emocional da gestante, para a superação de dúvidas e medos relacionados ao HIV e para a construção de um espaço de cuidado que valoriza a subjetividade da paciente (GOMES; SENA, 2020). Esse vínculo, quando bem estabelecido, transforma o SAE em um ambiente de acolhimento e proteção, e não apenas em um local de tratamento. 

Por outro lado, diversos fatores dificultam a adesão ao TARV e comprometem a eficácia das estratégias de prevenção da transmissão vertical. O medo do julgamento social é um dos principais obstáculos relatados pelas gestantes. O estigma associado ao HIV ainda é uma realidade em muitas comunidades, alimentado por preconceitos históricos, desinformação e discursos moralizantes. Esse estigma leva muitas mulheres a esconderem sua condição sorológica, a evitarem o uso dos medicamentos em público e, em casos mais graves, a abandonarem o tratamento por receio de serem discriminadas. O medo é potencializado quando há experiências anteriores de preconceito, inclusive dentro dos próprios serviços de saúde, o que reforça a necessidade de práticas profissionais pautadas na ética, na empatia e na humanização (UNAIDS, 2022). 

A falta de informação adequada sobre o HIV e o tratamento também representa uma barreira significativa. Muitas gestantes chegam aos SAE com conhecimentos limitados ou distorcidos sobre a doença, o que gera insegurança, resistência ao uso dos antirretrovirais e dificuldade de compreensão das orientações clínicas. A ausência de materiais educativos acessíveis, o uso de linguagem técnica e a escassez de tempo durante as consultas dificultam a construção de um conhecimento significativo e comprometem a autonomia das pacientes. Nesses casos, a atuação da enfermagem como educadora em saúde torna-se ainda mais essencial, exigindo sensibilidade para identificar as lacunas de compreensão e criatividade para adaptar os conteúdos às realidades das gestantes (VEIGA JÚNIOR; SANTOS, 2021). 

As barreiras estruturais também impactam negativamente a adesão ao tratamento. A distância entre a residência da gestante e o serviço de saúde, a falta de transporte público, a ausência de creches para os filhos, e a incompatibilidade de horários com o trabalho ou com outras responsabilidades familiares são fatores que dificultam o comparecimento regular às consultas e a continuidade do cuidado. Além disso, a sobrecarga dos profissionais de saúde, a rotatividade de equipes e a escassez de recursos nos SAE comprometem a qualidade do atendimento e a efetividade das ações educativas. Esses obstáculos revelam a importância de políticas públicas que garantam condições materiais para o acesso ao cuidado, bem como a valorização da equipe de enfermagem como agente estratégico na promoção da saúde (HOLZMANN et al., 2020). 

Diante desse cenário, é fundamental que os profissionais de enfermagem estejam atentos às múltiplas dimensões que envolvem a adesão ao TARV. A escuta qualificada, a comunicação acessível, o acolhimento humanizado e a articulação com redes de apoio social são estratégias que podem minimizar os efeitos das barreiras identificadas e potencializar os fatores facilitadores. Como destaca Freire (2020), a prática educativa em saúde deve ser libertadora, dialógica e comprometida com a transformação da realidade dos sujeitos, especialmente daqueles em situação de vulnerabilidade. Isso implica reconhecer que cada gestante possui uma história única, marcada por desafios e potencialidades, e que o cuidado deve ser construído em parceria, com respeito, sensibilidade e compromisso ético. 

Assim, compreender os fatores que influenciam a adesão ao tratamento antirretroviral permite à enfermagem planejar intervenções mais eficazes, sensíveis e contextualizadas, contribuindo para a redução da transmissão vertical do HIV e para a promoção da saúde integral das gestantes soropositivas. Ao integrar conhecimento técnico, escuta ativa e práticas educativas humanizadas, a enfermagem reafirma seu papel como promotora de vida, de dignidade e de justiça social no contexto da atenção especializada à saúde da mulher. 

3.4 Percepção das Gestantes 

A percepção das gestantes soropositivas sobre o cuidado recebido nos Serviços de Assistência Especializada (SAE) constitui um eixo central para compreender a efetividade das práticas educativas da enfermagem e os múltiplos fatores que influenciam a adesão ao tratamento antirretroviral (TARV). Essa percepção é construída a partir das experiências vividas no cotidiano do atendimento, das interações com os profissionais de saúde e da forma como são acolhidas em momentos de extrema vulnerabilidade. Os estudos analisados entre 2018 e 2025 revelam que sentimentos como acolhimento, confiança e empoderamento estão diretamente relacionados à qualidade da comunicação estabelecida entre profissionais e pacientes, bem como à capacidade da equipe de reconhecer e lidar com as dimensões sociais, emocionais e culturais que atravessam a trajetória dessas mulheres. 

Muitas gestantes relatam que o acolhimento recebido nos SAE foi determinante para que superassem o impacto inicial do diagnóstico de HIV, que frequentemente é acompanhado por sentimentos de medo, culpa, negação e angústia. O modo como foram recebidas, ouvidas e orientadas contribuiu para a construção de um ambiente seguro, livre de julgamentos, onde puderam expressar suas dúvidas, medos e expectativas sem receio de serem estigmatizadas. Esse acolhimento, segundo Gomes e Sena (2020), é resultado de uma postura humanizada da enfermagem, pautada na escuta ativa, no respeito à singularidade de cada paciente e na valorização de sua trajetória de vida. O cuidado humanizado não se limita à dimensão técnica, mas envolve uma atitude ética e afetiva que reconhece a gestante como sujeito de direitos, capaz de participar ativamente das decisões sobre sua saúde e a de seu filho. 

A confiança na equipe de enfermagem também se destaca como um fator essencial para a continuidade do cuidado e para o fortalecimento do vínculo terapêutico. As gestantes que percebem os profissionais como aliados, disponíveis e comprometidos com sua saúde tendem a seguir com mais regularidade as orientações recebidas, a comparecer às consultas e a utilizar corretamente os medicamentos. Essa confiança é construída ao longo do acompanhamento pré-natal, por meio de interações frequentes, linguagem acessível, demonstrações de empatia e atitudes que transmitem respeito e comprometimento. Como apontam Veiga Júnior e Santos (2021), a confiança não é um dado imediato, mas um processo que se consolida na medida em que a gestante se sente acolhida, compreendida e valorizada em sua integralidade. 

Além do acolhimento e da confiança, muitas gestantes relatam sentimentos de empoderamento ao compreenderem sua condição sorológica e os cuidados necessários para proteger a saúde do bebê. A Educação em Saúde, quando realizada de forma clara, respeitosa e contextualizada, permite que essas mulheres se reconheçam como protagonistas do próprio cuidado, rompendo com narrativas de culpa, passividade e invisibilidade. O empoderamento é favorecido quando a gestante compreende que o tratamento é eficaz, que a transmissão vertical pode ser evitada e que ela tem condições de viver com qualidade e dignidade. Como destaca Freire (2020), o conhecimento é libertador quando construído em diálogo, permitindo que os sujeitos atuem sobre sua realidade com autonomia, criticidade e esperança. 

No entanto, os estudos também apontam a persistência de dúvidas e lacunas na comunicação entre profissionais e pacientes, que comprometem a adesão ao TARV e geram sentimentos de insegurança. Algumas gestantes relatam dificuldades para entender os termos técnicos utilizados nas orientações, insegurança quanto aos efeitos dos medicamentos, confusão sobre os procedimentos recomendados no parto e no pós parto, e receio de transmitir o vírus ao bebê mesmo seguindo o tratamento. Essas lacunas são mais evidentes entre mulheres com baixa escolaridade, pouca familiaridade com o sistema de saúde ou que enfrentam barreiras linguísticas, culturais e emocionais que dificultam a assimilação das informações (BATISTA; NASCIMENTO, 2021). 

A falta de tempo durante as consultas, a rotatividade de profissionais nos SAE, a sobrecarga de trabalho e a ausência de materiais educativos adaptados às realidades locais são fatores que contribuem para essas dificuldades. Em alguns casos, as gestantes relatam que não se sentem à vontade para fazer perguntas, que suas dúvidas não são plenamente esclarecidas ou que recebem informações contraditórias ao longo do acompanhamento. Esses relatos evidenciam a necessidade de fortalecer a comunicação entre enfermeiros e pacientes, investindo em formação continuada, protocolos educativos padronizados, estratégias de linguagem acessível e espaços de escuta qualificada. A comunicação eficaz é um componente essencial do cuidado, pois permite que a gestante compreenda sua condição, tome decisões informadas e se sinta segura para seguir o tratamento. 

Dessa forma, a percepção das gestantes sobre o cuidado recebido nos SAE revela tanto os avanços quanto os desafios na promoção da Educação em Saúde. O acolhimento humanizado, a escuta qualificada e a construção de vínculos de confiança são práticas que promovem o empoderamento, a adesão ao TARV e a valorização da vida. Por outro lado, as lacunas na comunicação, a persistência de dúvidas e as barreiras institucionais indicam a necessidade de aprimorar as estratégias educativas, garantindo que todas as gestantes tenham acesso a informações claras, contextualizadas e culturalmente sensíveis. A enfermagem, ao reconhecer essas demandas e atuar com compromisso ético, técnico e afetivo, reafirma seu papel como agente transformador no cuidado às mulheres vivendo com HIV.

4.5 Papel do Enfermeiro na Construção do Vínculo 

A construção de vínculos terapêuticos entre profissionais de enfermagem e gestantes soropositivas é um dos pilares para o sucesso do cuidado no pré-natal, especialmente no contexto dos Serviços de Assistência Especializada (SAE). O vínculo não se estabelece apenas por meio de ações técnicas, mas principalmente pela qualidade da relação interpessoal, pela escuta qualificada, pela empatia e pela continuidade do cuidado. Esses elementos são fundamentais para promover a adesão ao tratamento antirretroviral (TARV) e para reduzir os riscos de transmissão vertical do HIV, além de favorecer o fortalecimento da autoestima e da autonomia das pacientes. 

A escuta qualificada é uma prática que vai além de ouvir; ela envolve atenção plena, acolhimento das emoções e validação das experiências da paciente. Quando o enfermeiro escuta com sensibilidade e sem julgamentos, cria um espaço seguro para que a gestante compartilhe suas dúvidas, medos e expectativas. Essa escuta ativa permite identificar barreiras à adesão, compreender os contextos de vida das pacientes e adaptar as orientações às suas necessidades reais. Como destaca Freire (2020), o diálogo é a base da educação libertadora, e a escuta é o primeiro passo para a construção de um cuidado humanizado. Essa escuta, quando praticada com constância e abertura, transforma o ato de cuidar em um processo de construção conjunta, onde o saber técnico se alia ao saber experiencial da paciente. 

A empatia é outro componente essencial na construção do vínculo. Trata-se da capacidade de se colocar no lugar do outro, de compreender suas dores e angústias sem perder a objetividade profissional. A empatia permite que o enfermeiro reconheça a gestante como sujeito de direitos, respeite sua trajetória e ofereça um cuidado que considere suas dimensões emocionais, sociais e culturais. Estudos apontam que gestantes que se sentem compreendidas e respeitadas tendem a confiar mais na equipe de saúde e a seguir com maior comprometimento o tratamento proposto (GOMES; SENA, 2020). A empatia também contribui para a superação do estigma associado ao HIV, pois rompe com visões moralizantes e promove uma abordagem centrada na dignidade humana. 

A continuidade do cuidado também é determinante para o fortalecimento do vínculo terapêutico. Quando a gestante é acompanhada pela mesma equipe ao longo do pré-natal, estabelece uma relação de confiança que favorece a adesão ao TARV e a participação ativa nas decisões sobre sua saúde. A presença constante do enfermeiro como referência no cuidado contribui para a segurança emocional da paciente, para a superação de dúvidas e para a construção de um plano terapêutico compartilhado. A rotatividade de profissionais, por outro lado, pode gerar insegurança, dificultar a comunicação e comprometer a efetividade das ações educativas (HOLZMANN et al., 2020). A descontinuidade no cuidado pode ser percebida como negligência ou desinteresse, afetando negativamente a percepção da paciente sobre o serviço. 

Além disso, o vínculo construído entre enfermeiro e gestante tem impacto direto na percepção da paciente sobre o serviço de saúde. Quando se sente acolhida, respeitada e valorizada, a mulher tende a enxergar o SAE como um espaço de cuidado e proteção, e não apenas como um local de tratamento. Essa percepção positiva contribui para a fidelização ao serviço, para a prevenção de complicações e para a melhoria dos indicadores de saúde materno-infantil (VEIGA JÚNIOR; SANTOS, 2021). O vínculo terapêutico, nesse sentido, não é apenas uma ferramenta clínica, mas uma estratégia ética e política de promoção da equidade e da justiça social. 

Portanto, o papel do enfermeiro na construção do vínculo com gestantes soropositivas é fundamental para garantir um cuidado integral, humanizado e eficaz. A escuta qualificada, a empatia e a continuidade do cuidado são práticas que fortalecem a relação terapêutica, promovem o empoderamento das pacientes e contribuem para a redução da transmissão vertical do HIV. Ao reconhecer a importância desse vínculo, os profissionais de enfermagem reafirmam seu compromisso com a promoção da saúde, com a equidade no acesso à informação e com a valorização da vida, atuando como agentes transformadores dentro do SUS e da sociedade. 

4.6 Propostas de Aprimoramento 

A análise dos estudos revisados entre 2018 e 2025 evidencia que, embora a atuação da enfermagem nos Serviços de Assistência Especializada (SAE) seja fundamental para a promoção da Educação em Saúde e para a prevenção da transmissão vertical do HIV, ainda há lacunas que comprometem a efetividade das práticas educativas. Essas lacunas não se restringem à dimensão técnica do cuidado, mas envolvem aspectos estruturais, formativos e relacionais que impactam diretamente a qualidade da atenção prestada às gestantes soropositivas. Diante disso, diversas propostas de aprimoramento foram identificadas, com destaque para a capacitação contínua dos profissionais, a padronização de protocolos educativos e a integração com outras categorias da equipe multiprofissional. 

A capacitação contínua da equipe de enfermagem é apontada como uma necessidade urgente e estratégica. Muitos profissionais relatam que não receberam formação específica para lidar com gestantes soropositivas, o que dificulta a abordagem adequada das questões emocionais, sociais e clínicas envolvidas. A ausência de preparo técnico e ético para enfrentar o estigma, lidar com o sofrimento psíquico e promover o empoderamento das pacientes compromete a efetividade das ações educativas. A oferta de cursos de atualização, oficinas temáticas e treinamentos voltados à comunicação em saúde, ao enfrentamento do preconceito e à educação popular pode contribuir significativamente para o fortalecimento das competências dos enfermeiros e para a melhoria da qualidade do atendimento (GOMES; SENA, 2020). Além disso, a inclusão de conteúdos sobre HIV/AIDS, saúde sexual e reprodutiva, direitos humanos e práticas educativas nos currículos da graduação e da pós-graduação em enfermagem é essencial para preparar os futuros profissionais para os desafios da atenção especializada. 

Outra proposta relevante é a elaboração e implementação de protocolos educativos padronizados, que orientem a atuação da enfermagem nos SAE. Esses protocolos devem conter diretrizes claras sobre os conteúdos a serem abordados nas orientações, os materiais didáticos recomendados, as estratégias de comunicação mais eficazes e os indicadores de avaliação das ações educativas. A padronização permite maior uniformidade no atendimento, facilita a capacitação dos profissionais e garante que todas as gestantes recebam informações adequadas e contextualizadas, independentemente da unidade de saúde em que são atendidas (BATISTA; NASCIMENTO, 2021). Além disso, protocolos bem estruturados favorecem a continuidade do cuidado, a sistematização das práticas e a integração entre os diferentes níveis de atenção à saúde. 

A integração com outros profissionais da equipe multiprofissional também é fundamental para o aprimoramento das práticas educativas. A atuação conjunta de enfermeiros, médicos, psicólogos, assistentes sociais e farmacêuticos permite uma abordagem mais abrangente e eficaz das necessidades das gestantes soropositivas. A articulação entre os diferentes saberes favorece o acolhimento integral, a resolução de demandas complexas e a construção de redes de apoio que ultrapassam os limites da consulta individual. Além disso, a realização de reuniões de equipe, discussões de caso e planejamento conjunto das ações educativas fortalece o trabalho interdisciplinar e contribui para a humanização do cuidado (HOLZMANN et al., 2020). Essa integração é especialmente importante em contextos de vulnerabilidade social, onde as gestantes enfrentam múltiplos desafios que exigem respostas articuladas e sensíveis. 

Outras propostas incluem a produção de materiais educativos acessíveis e culturalmente sensíveis, como cartilhas ilustradas, vídeos informativos e aplicativos de apoio ao tratamento; a criação de espaços de escuta e diálogo dentro dos SAE, como grupos de apoio e rodas de conversa; e o incentivo à participação ativa das gestantes na construção das estratégias educativas, valorizando seus saberes, experiências e perspectivas. Essas ações promovem o protagonismo das mulheres, fortalecem sua autonomia e contribuem para a construção de um cuidado centrado na pessoa. Como destaca Freire (2020), a educação em saúde deve ser construída com os sujeitos, e não para eles, promovendo autonomia, consciência crítica e transformação social. A escuta ativa, o respeito às diferenças e o reconhecimento da gestante como agente de seu próprio cuidado são princípios que devem orientar todas as práticas educativas.

Além disso, é necessário investir na estrutura organizacional dos SAE, garantindo condições adequadas de trabalho para os profissionais, disponibilidade de recursos materiais e tecnológicos, e ambientes físicos que favoreçam o acolhimento e a privacidade das pacientes. A valorização do trabalho da enfermagem, por meio de políticas de incentivo, reconhecimento profissional e melhoria das condições laborais, também é essencial para garantir a motivação e o comprometimento da equipe com a qualidade do cuidado. 

Em síntese, o aprimoramento das práticas educativas da enfermagem nos SAE exige investimentos em formação profissional, estrutura organizacional e valorização do trabalho em equipe. Ao implementar essas propostas, o SUS poderá oferecer um cuidado mais qualificado, equitativo e humanizado às gestantes soropositivas, contribuindo para a redução da transmissão vertical do HIV, para o fortalecimento da cidadania das mulheres e para a promoção da saúde materno-infantil em todo o país. Trata-se de um compromisso ético, político e técnico com a vida, com a equidade e com a construção de um sistema de saúde verdadeiramente inclusivo e transformador. 

CONSIDERAÇÕES FINAIS 

A presente pesquisa, de natureza qualitativa e teórica, teve como objetivo analisar a contribuição da Educação em Saúde promovida pela enfermagem nos Serviços de Assistência Especializada (SAE) do Sistema Único de Saúde (SUS), com foco na adesão ao tratamento antirretroviral (TARV) por gestantes soropositivas e na prevenção da transmissão vertical do HIV. A partir da revisão de 225 produções científicas publicadas entre 2018 e 2025, foi possível construir um referencial robusto que permitiu compreender os desafios, as estratégias e os potenciais da atuação da enfermagem nesse contexto. 

Os achados revelaram que a Educação em Saúde é uma ferramenta essencial para o fortalecimento do cuidado pré-natal de gestantes vivendo com HIV. As práticas educativas desenvolvidas pelos enfermeiros nos SAE, como orientações individualizadas, uso de materiais didáticos acessíveis, rodas de conversa e oficinas temáticas, contribuem para a compreensão da condição sorológica, para o empoderamento das pacientes e para a adesão ao TARV. A linguagem acessível, a escuta qualificada e o acolhimento humanizado foram identificados como elementos centrais na construção de vínculos terapêuticos e na superação de barreiras como o estigma, a desinformação e as vulnerabilidades sociais. 

A análise também evidenciou que o perfil das gestantes atendidas nos SAE é marcado por baixa escolaridade, desemprego, sobrecarga de responsabilidades familiares e, muitas vezes, diagnóstico recente de HIV. Esses fatores tornam ainda mais relevante a atuação sensível e contextualizada da enfermagem, que deve considerar as dimensões emocionais, sociais e culturais das pacientes. Por outro lado, os profissionais de enfermagem demonstram compromisso com a humanização do cuidado, mas enfrentam desafios como a falta de capacitação específica, a escassez de recursos e a sobrecarga de trabalho. 

As implicações para a prática profissional são significativas. A enfermagem, ao assumir um papel educativo e acolhedor, contribui diretamente para a redução da transmissão vertical do HIV e para a promoção da saúde materno-infantil. No entanto, para que essa atuação seja efetiva, é necessário investir na formação contínua dos profissionais, na padronização de protocolos educativos e na valorização do trabalho interdisciplinar. A escuta ativa, a empatia e a continuidade do cuidado devem ser fortalecidas como competências essenciais no acompanhamento de gestantes soropositivas. 

Do ponto de vista das políticas públicas, os resultados desta pesquisa apontam para a necessidade de ampliar os investimentos em educação permanente em saúde, com foco na atenção especializada ao HIV/AIDS. É fundamental que o Ministério da Saúde e as secretarias estaduais e municipais desenvolvam diretrizes específicas para a atuação da enfermagem nos SAE, incluindo materiais educativos adaptados, indicadores de avaliação das ações e estratégias de enfrentamento ao estigma. Além disso, políticas de apoio social às gestantes como transporte gratuito, acesso à alimentação adequada e suporte psicológico podem contribuir para a adesão ao tratamento e para a melhoria dos indicadores de saúde. 

No campo da formação em enfermagem, recomenda-se a inclusão de conteúdos sobre HIV/AIDS, saúde sexual e reprodutiva, comunicação em saúde e educação popular nos currículos da graduação e da pós-graduação. A formação técnica deve ser aliada à formação ética e política, preparando os profissionais para atuar com sensibilidade, criticidade e compromisso social. A valorização da dimensão educativa do cuidado é essencial para que a enfermagem possa exercer plenamente seu papel transformador no SUS. 

Entre as limitações deste estudo, destaca-se o fato de se tratar de uma pesquisa exclusivamente teórica, baseada em revisão de literatura. Embora tenha sido realizada uma busca ampla e criteriosa, com priorização de fontes recentes e relevantes, a ausência de dados empíricos limita a possibilidade de generalização dos resultados. Além disso, a diversidade regional do Brasil e as especificidades locais dos SAE podem não ter sido plenamente contempladas nos estudos analisados. 

Diante disso, propõe-se que pesquisas futuras sejam desenvolvidas com abordagem empírica, por meio de estudos de campo que envolvam entrevistas com gestantes e profissionais de saúde, observação participante e análise documental. Investigações que explorem as experiências das mulheres em diferentes regiões do país, bem como as práticas educativas em contextos diversos, podem contribuir para o aprofundamento do conhecimento e para o aprimoramento das políticas e práticas de cuidado. Estudos avaliativos sobre a efetividade das estratégias educativas e sobre o impacto da capacitação profissional também são recomendados. 

Em síntese, esta pesquisa reafirma o papel estratégico da enfermagem na promoção da Educação em Saúde para gestantes soropositivas e na prevenção da transmissão vertical do HIV. Ao integrar conhecimento técnico, sensibilidade humana e compromisso ético, os profissionais de enfermagem contribuem para a construção de um SUS mais justo, acolhedor e eficaz. Que os achados aqui apresentados possam inspirar novas práticas, políticas e pesquisas comprometidas com a vida, a equidade e a dignidade das mulheres vivendo com HIV. 

REFERÊNCIAS 

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1Acadêmico (a) do Curso de Graduação Bacharelado em Enfermagem. Faculdade da Amazônia – UNAMA Rio Branco-Acre;
2Acadêmico (a) do Curso de Graduação Bacharelado em Enfermagem. Faculdade da Amazônia – UNAMA Rio Branco-Acre;
3Docente do Curso de Graduação Bacharelado em Enfermagem na Faculdade da Amazônia – UNAMA Rio Branco Acre