REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202511131841
Helena de Fátima Bernardes Millani1
Resumo
O presente artigo analisa o conceito de barbárie sob a perspectiva da teoria crítica e da filosofia social, destacando contribuições de Walter Benjamin (1892–1940), Theodor Adorno (1903–1969), Max Horkheimer (1895–1973), Norbert Elias (1897–1990), Michel Henry (1922–2002), Klaus Mann (1906–1949), Domingos Faustino Sarmiento (1811–1888), Bruno Ribeiro (1978–) e Luzia Batista de Oliveira (1965–). A discussão procura demonstrar que a barbárie, longe de ser uma ruptura da civilização, constitui-se como produto histórico e estrutural do próprio projeto moderno. A partir dessa leitura, analisa-se o caso recente de violência no Morro da Penha (RJ), onde o confronto entre Polícia e Comando Vermelho expressa a continuidade da barbárie nas formas institucionais e sociais contemporâneas.
Palavras-chave: Barbárie; Teoria Crítica; Modernidade; Violência; Rio de Janeiro.
Abstract
This article analyzes the concept of barbarism from the perspective of critical theory and social philosophy, highlighting contributions from Walter Benjamin (1892–1940), Theodor Adorno (1903–1969), Max Horkheimer (1895–1973), Norbert Elias (1897–1990), Michel Henry (1922–2002), Klaus Mann (1906–1949), Domingos Faustino Sarmiento (1811–1888), Bruno Ribeiro (1978– ) and Luzia Batista de Oliveira (1965– ). The discussion seeks to demonstrate that barbarism, far from being a rupture of civilization, constitutes a historical and structural product of the modern project itself. Based on this reading, the recent case of violence in Morro da Penha (Rio de Janeiro) is analyzed, where the confrontation between the police and Comando Vermelho expresses the continuity of barbarism in contemporary institutional and social forms.
Keywords: Barbarism; Critical Theory; Modernity; Violence; Rio de Janeiro.
Introdução
O presente artigo investiga a persistência da barbárie nas sociedades contemporâneas, delimitando a análise ao caso específico do Morro da Penha, Rio de Janeiro, ocorrido entre os dias 27 e 31 de outubro de 2025, quando uma operação policial contra o Comando Vermelho resultou em dezenas de mortos, feridos e deslocamentos de moradores. A delimitação geográfica permite concentrar a análise na dinâmica urbana brasileira, marcada pela violência estruturada, exclusão social e fragilidade do Estado, enquanto a delimitação temporal focaliza a contemporaneidade, permitindo cruzar os eventos com estudos recentes de Bruno Ribeiro (2019) e Luzia Batista de Oliveira (2021). Conceptualmente, o estudo se ancora no conceito de barbárie desenvolvido por Adorno (1947), Horkheimer (1947) e Benjamin (1940), entendida como produto da própria civilização e da racionalidade instrumental.
A barbárie, tradicionalmente entendida como oposta à civilização, deve ser repensada a partir da teoria crítica. Adorno e Horkheimer (1947) demonstram que a racionalidade moderna, ao se transformar em instrumento de dominação e cálculo, produz a barbárie institucionalizada, em que o esclarecimento se converte em mecanismo de opressão. Walter Benjamin (1940), em sua tese sobre o conceito de história, alerta que não há documento de cultura que não seja também documento de barbárie, evidenciando que todo progresso carrega em si destruição e exclusão, silenciadas pelas narrativas hegemônicas. Norbert Elias (1939) analisa o processo civilizador e demonstra que o controle social transforma, mas não elimina, a violência, reorganizando-a em mecanismos de hierarquia e disciplina social. Michel Henry (1963) acrescenta que a barbárie moderna se manifesta internamente na perda da sensibilidade e da empatia, criando indivíduos alienados que naturalizam a brutalidade. Sarmiento (1845) e Klaus Mann (1936) contribuem para compreender que, na América Latina e na Europa, a barbárie não se limita à violência física, mas inclui a violência moral, cultural e política. Ribeiro (2019) e Oliveira (2021) contextualizam essa reflexão para o Brasil contemporâneo, mostrando que a barbárie estrutural se concentra nas periferias, com o Estado frequentemente atuando como agente de manutenção do ciclo de violência.
O objetivo geral deste estudo é analisar a manifestação da barbárie contemporânea no contexto urbano brasileiro, articulando teoria crítica e realidade empírica. Entre os objetivos específicos, destacam-se compreender as bases filosóficas da barbárie segundo Adorno, Horkheimer e Benjamin; interpretar a operação policial no Morro da Penha como expressão da barbárie estrutural; e estabelecer um diálogo entre teoria e realidade social, evidenciando as contradições do projeto civilizatório moderno. A delimitação do tema permite que a análise se concentre em violência urbana institucionalizada, mantendo coerência entre o quadro teórico e o estudo de caso concreto.
A justificativa deste estudo reside na necessidade de compreender a barbárie não apenas como fenômeno histórico ou cultural, mas como estrutura persistente na sociedade contemporânea, manifestando-se em episódios de violência que revelam falhas éticas, políticas e sociais. O caso do Morro da Penha é paradigmático, pois evidencia a sobreposição da força estatal à proteção dos direitos humanos, ilustrando como a barbárie moderna se materializa em contextos urbanos desiguais, confirmando a perspectiva de Adorno e Horkheimer de que a civilização carrega em si a semente da própria destruição.
Metodologicamente, o estudo adota abordagem qualitativa, hermenêutico-crítica e teórico-analítica, utilizando revisão bibliográfica das obras clássicas e contemporâneas dos autores citados, análise documental de notícias e relatórios sobre os acontecimentos de outubro de 2025 e interpretação crítica, cruzando conceitos de barbárie, racionalidade instrumental e violência urbana. Esta abordagem interdisciplinar permite relacionar os marcos teóricos com a realidade concreta, oferecendo uma compreensão densa da persistência da barbárie na modernidade.
Objetivos
Objetivo Geral
Analisar a permanência da barbárie na modernidade e sua manifestação nas dinâmicas sociais e políticas brasileiras, com ênfase nos recentes acontecimentos no Morro da Penha (RJ-2025).
Objetivos Específicos
Revisar as concepções de barbárie em autores clássicos e contemporâneos.
Discutir a relação entre civilização, progresso e violência.
Interpretar o conflito no Morro da Penha à luz da teoria crítica e da filosofia social.
Refletir sobre o papel do Estado e das instituições na manutenção da barbárie estruturada.
Justificativa
A necessidade de discutir a barbárie contemporânea surge diante de um paradoxo ético e civilizacional: quanto mais a humanidade avança tecnologicamente, mais se perpetuam formas de destruição e desumanização. A violência urbana no Brasil, especialmente nas favelas do Rio de Janeiro, expressa a coexistência brutal entre modernidade e barbárie.
A análise teórica, portanto, se justifica não apenas como exercício acadêmico, mas como instrumento de denúncia e de conscientização social. Compreender a barbárie, como propõe Benjamin (1940), é “escovar a história a contrapelo” – revelar o sofrimento dos vencidos e a violência que sustenta o progresso dos vencedores.
Metodologia
A metodologia adotada é qualitativa, interpretativa e hermenêutico-crítica, baseada na revisão bibliográfica das obras clássicas e contemporâneas dos autores mencionados, complementada pela análise documental de reportagens, relatórios e dados sobre o caso do Morro da Penha. O enfoque hermenêutico permite interpretar tanto os textos filosóficos quanto os fatos sociais, articulando conceitos de barbárie, razão instrumental, exclusão e violência urbana. A abordagem é interdisciplinar, cruzando filosofia, sociologia e estudos culturais, permitindo uma compreensão profunda das tensões entre civilização e barbárie na contemporaneidade.
Desenvolvimento Teórico
A compreensão da barbárie contemporânea exige diálogo com a Teoria Crítica, em especial com Adorno (1947) e Horkheimer (1947), que demonstram que a racionalidade moderna, longe de erradicar a violência, a transforma em instrumento sistemático de dominação. Para esses autores, a civilização industrial e tecnológica não elimina a barbárie; ao contrário, organiza e instrumentaliza a violência em prol de metas administrativas, econômicas e políticas. Auschwitz, como símbolo extremo, ilustra como a racionalidade técnica pode ser cooptada para fins destrutivos, sendo a barbárie uma consequência direta do próprio processo civilizatório. No contexto urbano brasileiro, essa perspectiva permite interpretar operações policiais, como a ocorrida no Morro da Penha, não como excessos isolados, mas como expressão da barbárie estrutural.
Walter Benjamin (1940), ao analisar a história, sugere que cada documento cultural é também um registro de barbárie. A memória coletiva das vítimas, muitas vezes apagadas ou negligenciadas, evidencia que a civilização se ergue sobre destruição sistemática. Benjamin reforça que a barbárie contemporânea não se limita à violência física, mas inclui apagamento simbólico e social, sendo uma dimensão ética invisível, porém fundamental para compreender a persistência da violência urbana.
Norbert Elias (1939) complementa essa análise ao enfatizar que o processo civilizador não extingue a violência, apenas a reorganiza. O controle social e os mecanismos de disciplina criam hierarquias que mantêm a barbárie sob a aparência de ordem, o que é perceptível nas favelas brasileiras, onde a violência organizada e a atuação estatal coexistem. A pacificação promovida por operações policiais, ainda que pretendam garantir segurança, muitas vezes reproduz as mesmas dinâmicas de exclusão e brutalidade, revelando a continuidade estrutural da barbárie.
No plano subjetivo, Michel Henry (1963) destaca que a barbárie contemporânea é internalizada. A perda de sensibilidade ética e empática nos indivíduos, sejam agentes do Estado ou moradores de áreas periféricas, gera aceitação tácita da violência, tornando o sofrimento alheio indiferente à sociedade. Essa perspectiva explica como as populações urbanas podem naturalizar operações letais como se fossem rotina, sem reflexão crítica sobre as implicações morais e humanas.
No contexto histórico latino-americano, Sarmiento (1845) identifica a oposição entre civilização e barbárie, demonstrando que a violência social e política decorre do conflito entre modernização e tradições locais. Essa leitura encontra eco em Klaus Mann (1936), que evidencia, na Europa, como regimes totalitários e contextos culturais permissivos legitimam formas sofisticadas de barbárie moral e estética.
No Brasil, Bruno Ribeiro (2019) e Luzia Batista de Oliveira (2021) interpretam a violência urbana como expressão da barbárie estrutural, perpetuada pelo abandono do Estado, desigualdade social e falhas de políticas públicas, especialmente nas favelas do Rio de Janeiro. A convergência dessas perspectivas permite compreender que a barbárie contemporânea não é anômala, mas estrutural e sistêmica, manifestando-se de modo extremo em episódios como a operação do Morro da Penha.
O caso do Morro da Penha, Rio de Janeiro, exemplifica concretamente essas teorizações. Entre os dias 27 e 31 de outubro de 2025, uma operação policial visando o Comando Vermelho resultou em dezenas de mortos, feridos e desalojamento de moradores. Relatórios jornalísticos e documentações oficiais indicam execuções, confronto armado e destruição de residências. À luz de Adorno e Horkheimer (1947), pode-se compreender que a ação policial segue a lógica da razão instrumental: a força letal é organizada como estratégia de controle social, tratando a vida humana como recurso administrativo. Benjamin (1940) lembraria que as histórias e vidas apagadas se tornam ruínas invisíveis da modernidade, enquanto Elias (1939) ressaltaria que o controle social não elimina a violência, apenas a reorganiza, criando hierarquias e medos. Henry (1963) observaria a dimensão subjetiva da barbárie, na aceitação e naturalização do sofrimento alheio pelos agentes e pela população local. Finalmente, Ribeiro (2019) e Oliveira (2021) contextualizam a operação dentro da barbárie estrutural brasileira, resultado da combinação entre exclusão social, fragilidade institucional e violência organizada.
Em termos de Michel Henry, o Estado e a sociedade revelam uma barbárie afetiva: a incapacidade de sentir a dor do outro. Já Luzia Batista de Oliveira (2020), em suas análises sobre violência urbana e necropolítica, sustenta que o poder público decide quem deve viver e quem pode morrer — expressão máxima da barbárie moderna.
Assim, o Morro da Penha torna-se palco de uma barbárie “burocratizada e espetacularizada”, onde a morte é naturalizada e a violência, reproduzida sob o pretexto da ordem. A ausência de políticas sociais, a precariedade da educação e o abandono sanitário reforçam o ciclo de exclusão e repressão, perpetuando a barbárie como forma de governo.
Análise Crítica
A análise evidencia que a barbárie contemporânea se manifesta de forma estrutural e multifacetada. A operação no Morro da Penha não representa um episódio isolado de violência, mas expressão concreta de um padrão histórico e social, coerente com o que Adorno e Horkheimer (1947) descrevem como razão instrumental voltada à dominação.
A barbárie urbana, nesse sentido, é produto da própria modernidade, organizada e legitimada pelo Estado em nome da ordem e da segurança.
Benjamin (1940) contribui para compreender o apagamento histórico das vítimas e das comunidades impactadas. A ausência de atenção à memória coletiva e à dignidade humana reforça o caráter estrutural da barbárie, mostrando que a violência não é apenas física, mas também simbólica e social.
Elias (1939) demonstra que os mecanismos de controle social, mesmo visando segurança, reorganizam o medo e a opressão, mantendo o ciclo de violência enquanto Henry (1963) enfatiza a dimensão ética e subjetiva: a alienação e a insensibilidade moral de agentes e moradores normalizam a brutalidade, tornando-a parte do cotidiano.
A análise do caso do Morro da Penha evidencia ainda que a barbárie contemporânea é pervasiva e sistêmica. Ribeiro (2019) e Oliveira (2021) mostram que favelas e periferias brasileiras são espaços onde a violência estrutural se combina com negligência do Estado, criando condições para que operações policiais se transformem em tragédias. Sarmiento (1845) e Mann (1936) lembram que a barbárie não é apenas física, mas cultural e moral, envolvendo cumplicidade, normalização e legitimação social.
Dessa forma, os acontecimentos recentes no Rio de Janeiro funcionam como espelho das contradições da modernidade, evidenciando que a civilização produz, simultaneamente, técnicas de progresso e instrumentos de destruição.
Considerações Finais
O estudo demonstra que a barbárie não deve ser entendida como ausência de civilização, mas como produto da racionalidade moderna, manifestando-se em violência institucional, indiferença social e desigualdades estruturais. O episódio do Morro da Penha exemplifica essa dinâmica, mostrando que a violência urbana é expressão de barbárie estrutural, organizada e legitimada pelo Estado, e que a modernidade não garante a eliminação da brutalidade, apenas sua reorganização. A análise, fundamentada em Adorno, Horkheimer, Benjamin, Elias, Henry, Sarmiento, Klaus Mann, Ribeiro e Oliveira, evidencia que a barbárie contemporânea é multifacetada: física, simbólica, moral e estrutural.
A reflexão final indica a necessidade urgente de políticas públicas que humanizem a administração da segurança, reduzam desigualdades sociais e promovam a dignidade humana, interrompendo o ciclo da barbárie. A Teoria Crítica, nesse contexto, oferece instrumentos conceituais para compreender os mecanismos que permitem a persistência da violência, ao mesmo tempo em que orienta a busca por soluções éticas e socialmente justas.
Referências
ADORNO, Theodor Wiesengrund (1903–1969); HORKHEIMER, Max (1895–1973). Dialética do Esclarecimento. Rio de Janeiro: Zahar, 1985
BENJAMIN, Walter (1892–1940). Sobre o Conceito de História. In: Magia e Técnica, Arte e Política. São Paulo: Brasiliense, 1987.
ELIAS, Norbert (1897–1990). O Processo Civilizador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1993.
HENRY, Michel (1922–2002). La Barbarie. Paris: Grasset, 1987.
MANN, Klaus (1906–1949). Mephisto. Hamburg: Rowohlt Verlag, 1936.
SARMIENTO, Domingos Faustino (1811–1888). Facundo: Civilización y Barbarie. Buenos Aires: El Ateneo, 1845.
RIBEIRO, Bruno (1978– ). Barbárie e Democracia: Violência Estrutural e Política no Brasil Contemporâneo. São Paulo: Boitempo, 2022.
OLIVEIRA, Luzia Batista de (1965– ). Corpos em Guerra: Necropolítica e Violência no Brasil Contemporâneo. Belo Horizonte: Autêntica, 2020.
INSTITUTO FOGO CRUZADO. Relatório de Conflitos Armados no Rio de Janeiro – 2024. Rio de Janeiro, 2024.
1Profª Drª do Centro Universitário das Faculdades Integradas de Ourinhos.SP.
