A DEFINIÇÃO DE CORPO IDEAL A PARTIR DAS MÍDIAS E A INFLUÊNCIA SOBRE A SAÚDE MENTAL DE MULHERES

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/pa10202507301914


Samira Paola Novaes Maria; João Pedro Lobato Bastos; Amanda Quaresma de Castro; Isabelle Christine Franco Brandão; Lana Carolina Silva Carneiro; Marcela Pantoja Farias; Nathália Guimarães Lopes; Raquel da Silva Sousa; Orientador: Leonardo Fabiano Sousa Malcher


Resumo:

O presente artigo, elaborado a partir de uma Revisão Integrativa da Literatura (RIL), tem como objetivo analisar de que forma a definição de corpo ideal, influenciada pela mídia, reflete na saúde mental de mulheres. Historicamente, os padrões estéticos sofreram diversas transformações, intensificadas pela cultura midiática contemporânea, que impõe um ideal de beleza pautado em magreza, juventude e simetria. A partir da análise de seis artigos científicos, foi possível observar que a mídia, ao propagar imagens estereotipadas e inalcançáveis de corpos femininos, colabora significativamente para o aumento de insatisfações corporais, distorções da autoimagem e transtornos alimentares. Os discursos midiáticos reforçam a lógica capitalista de consumo, transformando o corpo em objeto de mercado e estimulando práticas que, embora revestidas de promessas de saúde, muitas vezes geram sofrimento físico e psíquico. A influência das redes sociais e da cultura visual do “corpo perfeito” contribui para o adoecimento emocional das mulheres, que se submetem a dietas restritivas, procedimentos estéticos e padrões irreais em busca de aceitação e pertencimento social. Evidencia-se, portanto, a urgência de discutir criticamente o impacto desses ideais sobre a saúde mental feminina e a necessidade de promover discursos mais inclusivos e realistas sobre os corpos. A RIL aqui apresentada cumpre seu papel ao fomentar reflexões sobre os efeitos da padronização estética midiática e reforça a importância de novas pesquisas que deem visibilidade às subjetividades femininas diante dessa pressão social.

Palavras-chave: Mulheres; Saúde Mental; Redes Sociais; Aparência Corporal; Padrões de Beleza.

Abstract:

This article, based on an Integrative Literature Review (ILR), aims to analyze how the definition of the ideal body, influenced by the media, reflects on women’s mental health. Historically, aesthetic standards have undergone various transformations, intensified by contemporary media culture, which imposes an ideal of beauty based on thinness, youth and symmetry. From the analysis of six scientific articles, it was possible to observe that the media, by propagating stereotypical and unattainable images of female bodies, contributes significantly to the increase in body dissatisfaction, distortions of self-image and eating disorders. Media discourse reinforces the capitalist logic of consumption, transforming the body into a market object and encouraging practices which, although they promise health, often cause physical and psychological suffering. The influence of social networks and the visual culture of the “perfect body” contributes to the emotional illness of women, who submit to restrictive diets, aesthetic procedures and unrealistic standards in search of acceptance and social belonging. This highlights the urgency of critically discussing the impact of these ideals on women’s mental health and the need to promote more inclusive and realistic discourses about bodies. The RIL presented here fulfills its role by encouraging reflection on the effects of media aesthetic standardization and reinforces the importance of new research that gives visibility to female subjectivities in the face of this social pressure.

Keywords: Women; Mental Health; Social Networks; Body Appearance; Beauty Standards.

Resumen:

Este artículo, basado en una Revisión Integradora de la Literatura (RIL), pretende analizar cómo la definición del cuerpo ideal, influida por los medios de comunicación, repercute en la salud mental de las mujeres. Históricamente, los cánones estéticos han sufrido diversas transformaciones, intensificadas por la cultura mediática contemporánea, que impone un ideal de belleza basado en la delgadez, la juventud y la simetría. Mediante el análisis de seis artículos científicos, fue posible observar que los medios de comunicación, al propagar imágenes estereotipadas e inalcanzables del cuerpo de las mujeres, contribuyen significativamente al aumento de la insatisfacción corporal, las distorsiones de la autoimagen y los trastornos alimentarios. Los discursos mediáticos refuerzan la lógica capitalista del consumo, transformando el cuerpo en un objeto de mercado y fomentando prácticas que, aunque revestidas de promesas de salud, a menudo generan sufrimiento físico y psicológico. La influencia de las redes sociales y la cultura visual del «cuerpo perfecto» contribuyen a la enfermedad emocional de las mujeres, que se someten a dietas restrictivas, procedimientos estéticos y estándares poco realistas en busca de aceptación y pertenencia social. Esto pone de relieve la urgencia de debatir críticamente el impacto de estos ideales en la salud mental de las mujeres y la necesidad de promover discursos más inclusivos y realistas sobre los cuerpos. El RIL aquí presentado cumple su función de incitar a la reflexión sobre los efectos de la estandarización estética mediática y refuerza la importancia de nuevas investigaciones que den visibilidad a las subjetividades femeninas frente a esta presión social.

Palabras clave: Mujeres; Salud mental; Redes sociales; Apariencia corporal; Cánones de belleza.

1. INTRODUÇÃO

Ao longo da história, a perspectiva acerca do corpo ideal passou por transformações, as quais têm sido fortemente relacionadas, dentre outros fatores, ao crescimento e fortalecimento das mídias no cotidiano. A partir da divulgação midiática de um corpo “perfeito”, tem-se uma reverberação na saúde mental, especialmente em mulheres por serem o principal público-alvo das mídias. Dessa forma, é importante compreender o contexto histórico da noção de estética corporal e como essa concepção tem sido transformada até os dias atuais.

Na Grécia antiga, a sociedade possuía uma forte admiração pela beleza e pelo ideal de perfeição que era expressa em obras de artes, como estátuas e pinturas. Durante o século V A.C e IV A.C (Período Clássico), desenvolveu-se uma maior vontade em se chegar a uma beleza ideal. Esse conceito de beleza era amparado na ideia de perfeição e se baseava em medidas de corpos proporcionais, em que esse padrão de beleza continuou firme e progredindo na tentativa de se chegar à perfeição. No entanto, durante o período da Idade Média, essa noção de que o corpo humano deveria ser belo e perfeito foi abandonado devido ao fortalecimento do Catolicismo e o seu forte pensamento estabelecido de que o corpo era considerado fonte de pecado (Medeiros, 2011).

Posteriormente, durante o período do Renascimento, a definição de beleza foi retomada com a revalorização dos ideais clássicos e a uma noção de existência de uma simetria, equilíbrio e harmonia do corpo, que está presente na obra “O Homem Vitruviano”, de Leonardo Da Vinci (Souza; Lopes; Souza, 2018). Já no contexto atual, conforme Fin (2015), a definição de corpo ideal feminino tem sido fortemente vinculada a um estereótipo cujo traço principal é um corpo magro e com curvaturas, mas que também exige um padrão relacionado à estatura, idade, pele (por meio de linhas de expressão, flacidez corporal, cor da pele, rugas, etc.) e à textura do cabelo. Todas essas exigências estão intimamente ligadas a um padrão de corpo considerado belo e desejável, isto é, existe um parâmetro em que os corpos que não seguem essas exigências, não são considerados bonitos.

No contexto contemporâneo, a configuração do capitalismo é um fator de demasiada importância na construção da concepção do corpo ideal, tendo em vista que o mercado de consumo voltado para a estética exerce forte influência na busca pelo corpo perfeito. Nesse sentido, o capitalismo espera que as pessoas estejam insatisfeitas com seus corpos, sempre buscando melhorias com produtos e/ou procedimentos estéticos.

Portanto, o corpo se torna alvo de um sistema que impulsiona a busca incessante para se chegar ao ideal de perfeição (Santos et al., 2021).

As mídias sociais apresentam um papel importante nesse mundo da contemporaneidade, na questão de divulgação de padrões de beleza, através das redes sociais. Porém, essa nova forma de relatar os conteúdos midiáticos está causando uma idealização de “corpos perfeitos”, que acaba sendo nomeada por Debord (1998) como uma “sociedade do espetáculo”. Desse modo, as redes sociais estão sendo o palco do “espetáculo” para fazer a divulgação de “corpo perfeito”, enquanto que as pessoas são a sociedade que idealiza esse tipo de vida que é divulgado como ideal para elas.

A padronização do corpo “ideal” pelas mulheres vem se tornando uma problemática na sociedade atual, com a influência da mídia que usa todos os tipos de marketing para aumentar o desejo na busca por corpos perfeitos. De acordo com Duarte et al. (2023), a influência da mídia nas mulheres, na busca de corpos perfeitos, pode ocasionar vários tipos de problemas, como distúrbios relacionados à autoimagem e transtornos alimentares.

Segundo Diniz (2015), a procura pelo corpo perfeito faz com que as pessoas busquem formas que não são aconselhadas para seguirem o padrão imposto pela mídia. Dessa forma, as mulheres acabam sendo “escravas” da beleza, pois sempre visam se adequar aos padrões que a mídia impõe, causando prejuízos para saúde física, mental e emocional.

Araújo e Silva (2018) realizaram um estudo qualitativo, constituído por meio de uma revisão de literatura narrativa, e apresentaram que as mulheres fazem parte do público que mais é atingido com essa temática, além de que elas apresentam um fator de risco devido à exposição aos discursos apresentados pela mídia que enaltecem a padronização do corpo magro. Além disso, chegaram à conclusão de que os motivos de insatisfação constante com o próprio corpo e o desejo intenso de emagrecer podem acarretar o uso de técnicas alimentares rigorosas e o uso de substâncias para o emagrecimento forçado que afetam a saúde, podendo, assim, ser um fator para o desenvolvimento de Transtornos Alimentares (TAs).

Nesse contexto, salienta-se também a discussão a respeito da exposição da imagem feminina nas redes sociais – através de modelos e influencers – que reforçam o estereótipo de mulher bela e atraente por meio do compartilhamento de imagens e da rotina de exercícios e dietas, de forma que, de modo geral, os aspectos genéticos não são levados em consideração e essa imagem da mulher é imposta como um critério de visibilidade e sucesso no contexto social. Dessa forma, o alcance desse corpo ideal é entendido como sinônimo de felicidade e satisfação pessoal, e acaba se tornando uma prioridade para as mulheres (Araujo; Silva, 2018).

De modo complementar, Lima e Silva (2021), a partir do seu estudo qualitativo realizado em uma cidade do interior de Minas Gerais, apresenta que o bombardeamento de imagens nas redes sociais reforça a padronização de beleza dos corpos, e, com isso, promovem o adoecimento do público feminino, afetado principalmente pela distorção da percepção corporal e baixa autoestima. A partir de tudo o que é exposto na mídia, a imagem do corpo ideal é, muita das vezes, entendido como um resultado alcançado de forma fácil, reforçando ainda mais a insatisfação do público feminino quando não se sente satisfeita com o seu próprio corpo. Dessa forma, levando em consideração a imagem do corpo ideal que se tem no contexto atual – magro e com o mínimo de gordura –, nota-se que há uma crescente preocupação de engordar, observada a partir do rigor dos métodos de alimentação e da prática de exercícios físicos em excesso.

É possível identificar, portanto, um estilo de vida marcado por hábitos alimentares e procedimentos estéticos danosos à saúde atrelados à lógica de um padrão de beleza ideal fomentada ainda mais pela mídia. Sabe-se que essa busca desenfreada pela transformação corporal pode desenvolver transtornos, como os transtornos de autoimagem e os transtornos alimentares.

Vianna (2005) afirma que desde cedo as mulheres são incentivadas socialmente a modificarem seu corpo. Gonçalves et al. (2020) destacam que o público feminino se ajusta mais facilmente às condições impostas pelas mídias em relação aos ideais de imagem. Logo, a insatisfação com o corpo e a tentativa de se enquadrar às exigências sociais tem levado muitas delas a recorrerem aos métodos radicais de mudança corporal. Com base em informações da Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica e Estética (2019), as mulheres representam cerca de 87,4% dos indivíduos que recorrem a procedimentos estéticos.

No que diz respeito aos Transtornos Alimentares (TAs), de acordo com o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso), a Anorexia Nervosa afeta 1% da população feminina mundial, enquanto a Bulimia Nervosa atinge 5% das mulheres do mundo, assim, os TAs apresentam 20% de taxa de letalidade por desnutrição e suicídio. Segundo a OMS, 4,7% da população brasileira é afetada por esses distúrbios, sendo que há uma predominância das jovens mulheres. A proporção do público feminino com Anorexia Nervosa e Bulimia Nervosa em relação o ao masculino é de 10:1, isto é, dez mulheres para um homem, com base nas informações da American Psychiatric Association (2014).

Tais informações revelam o grande poder de influência que a mídia social possui na vida dos usuários, bem como a seriedade das doenças e outros prejuízos que podem surgir à saúde integral dos indivíduos, sobretudo da mulher. Logo, é importante aprofundar o estudo e discutir a questão levantada uma vez que a pressão para seguir um estereotipado padrão de beleza tem afetado a saúde física, mental, emocional de tantas mulheres ao redor do mundo.

Dessa forma, procura-se entender: “De que forma a definição de corpo ideal, a partir da influência da mídia, reflete na saúde mental de mulheres?”. Diante o exposto, esta Revisão Integrativa da Literatura tem como objetivo analisar, tendo como base a literatura acadêmica, de que forma a definição de corpo ideal, a partir da influência da mídia, reflete na saúde mental das mulheres.

2.  METODOLOGIA

Este artigo é uma Revisão Integrativa da Literatura (RIL), que consiste em um método específico que proporciona um entendimento mais abrangente de um fenômeno particular, a partir de um resumo da literatura empírica ou teórica (Botelho et al., 2011). O artigo possui formato qualitativo, pois objetiva a explicação ou compreensão de comportamentos, experiências e processos de um objeto de estudo, fenômeno ou determinada população, incluindo a sua análise de dados e interpretações (Creswell, 2010).

A elaboração desta RIL foi estruturada nas seguintes fases: 1) elaboração da pergunta norteadora; 2) o estabelecimento dos critérios de inclusão e exclusão; 3) definição das informações a serem extraídas dos artigos levantados; 4) análise das informações coletadas; 5) interpretação dos resultados; 6) apresentação da síntese integrativa (Ferreira et al., 2020).

Para a busca da leitura, foram utilizadas as seguintes bases de dados virtuais: Scientific Eletronic Libary Online (SCIELO) e Periódicos Eletrônicos de Psicologia (PePsic), utilizando os descritores “corpo ideal”, “corpo”, “mulher”, “saúde mental” e “mídia”, tendo como estratégias de busca a combinação dos descritores em duplas e trios a partir da aplicação dos operadores booleanos AND e OR.

Para a seleção da amostra desta RIL, foram aplicados os seguintes critérios de inclusão: (i) artigos científicos publicados no período de 2014 a 2021; (ii) disponíveis de forma gratuita; (iii) em idioma português – incluindo trabalhos que abordam o tema fora do Brasil –; e (iv) que respondam a pergunta-problema. Como critérios de exclusão foram definidos: (i) artigos repetidos; (ii) com temática diferente do foco de investigação desta RIL; (iii) publicações fora do período estabelecido e (iv) artigos incompletos.

3.  RESULTADOS E DISCUSSÕES

O levantamento de literatura realizado resultou nos seguintes achados: na PePsic, foram levantadas inicialmente 331 publicações com a aplicação dos descritores, sendo pré-selecionados 09 artigos após a aplicação dos critérios de inclusão, incluindo a leitura dos títulos e resumos, sendo excluídos 08 após a leitura completa; na SciElo, foram levantadas inicialmente o total de 76 publicações com a aplicação dos descritores, dos quais foram pré-selecionados 09 após a aplicação dos critérios de inclusão, incluindo a leitura do título e do resumo, sendo excluídos 04 artigos após a leitura completa. A exclusão dos artigos justifica-se pela repetição e por não estarem relacionados à temática desta RIL. Dessa forma, a amostra foi composta por 06 artigos. A figura a seguir detalha o total de artigos encontrados por base de dados e como se chegou à composição da amostra.

Figura 01: Fluxograma de seleção da Amostra.
Fonte: Elaboração dos autores (2023).

O quadro a seguir mostra as informações sobre os artigos que compuseram a amostra desta RIL.

Quadro 01 – Amostra da pesquisa

Fonte: Elaboração dos autores (2023).

É possível observar que, dentre os artigos que compuseram a mostra desta RIL, a maior parte dos que foram selecionados foi encontrada na base de dados SciELO, com 05 artigos selecionados e 01 artigo estava na PePsic.

A construção subjetiva do corpo ideal: cultura e família

Historicamente, o corpo representa múltiplas facetas, marcado pela cultura e impregnado pelos tabus e ditames sociais. Se antes se esperava da mulher a vida doméstica e o cuidado da família, na contemporaneidade há uma inversão: a feminilidade busca o belo e sensual, que oferta seu corpo como objeto narcísico de gozo e é bombardeada por ofertas de um corpo intocado pelas marcas do tempo (Lima; Batista; Lara Junior, 2013). Assim, a representação de corpo feminino ideal é constituída pela tríade beleza-saúde-juventude.

Entre os artigos que constituíram o escopo desta pesquisa, Silveira et al. (2021) buscam compreender os significados que são atribuídos ao corpo e produções subjetivas, haja vista a supervalorização da imagem corporal na contemporaneidade e o crescente sofrimento psíquico. Os autores destacam a ideia geral que Lacan propõe: o sujeito humano determinado por uma dimensão que lhe é originariamente externa (Silva, 2017). Sendo atribuído à família o papel primordial na transmissão da cultura, antes mesmo do filho nascer, articula-se o desejo dos pais a seu respeito e o veículo com o qual ele ingressa na ordem da linguagem, que pré-existe e se sobredetermina (Simanke, 2002, p. 250). A partir disso, compreende-se que o corpo é mediado pelas palavras, pelas representações, códigos morais, tecnologias e pelos discursos produzidos e reproduzidos de uma determinada cultura.

Lucena, Seixas e Ferreira (2020) abordam que, em uma concepção psicanalítica, Freud utiliza o conceito de fetiche a partir da teoria da sexualidade, sendo este tido como uma patologia e que se dá por ser um objeto sexual devido ao não reconhecimento da castração. Portanto, o fetiche assume o lugar do falo, atuando como um mecanismo de recusa que não reconhece a castração. Juntamente a isso, a não completude do ser humano coloca o indivíduo nessa constante busca em direção ao Eu que é idealizado, ou seja, seria um Eu completo e constituído de qualidades.

Logo, o corpo ideal, assumindo esse papel fetichista, apresenta essa possível satisfação completa na qual, originalmente, o sujeito não reconhece essa falta no seu psiquismo. Entende-se então que esse corpo idealizado recobre a angústia perante a falta, sendo esse corpo um objeto no qual os indivíduos investem libidinosamente de forma sucessiva. Em suma, Lucena, Seixas e Ferreira (2020) argumentam que as imagens propagadas, nos espaços virtuais ou não, com esse tal corpo, são compreendidas como um espelho das escolhas próprias, mas que na verdade são fetiches. De mesmo modo, os autores ponderam que o fetiche pelo corpo perfeito se manifesta em vários âmbitos, como nas áreas profissionais, nas mídias e no senso comum.

Mídia na construção do corpo: a sociedade do consumo.

Pereira e Penalva (2014) refletem sobre a cultura midiática como forte influência na construção e transformação do ideal de beleza feminina. Segundo os autores, a cultura juvenil, além de intensificar símbolos e valores de cunho individualizante, estimula a solidariedade e pertencimento a um grupo social. Entretanto, a mídia deturpa seu verdadeiro sentido transformando-a em comercialização através de tratamentos de antienvelhecimento, cirurgias plásticas e outras dicas de beleza.

Um ponto interessante deste assunto é apontado por Vieira e Bosi (2013), que diz respeito sobre como a mídia exerce uma forte influência na sociedade, através de fotos e textos, que levam para seus consumidores, conteúdos que o corpo ideal é qual eles apresentam nas suas propagandas. O intuito desses dispositivos é que as pessoas busquem consumir cada vez mais os seus produtos em busca do corpo “perfeito”. Outro fator encontrado sobre os meios de comunicação foi relatado por Pereira e Penalva (2014), os quais abordam que a mídia retrata o “espírito jovem” com imagens de indivíduos bonitos, saudáveis e bem-sucedidos, sendo essa imagem desejável para os adultos, que buscam imitar esse estilo de vida ou aproximar-se de uma linguagem jovem. Para esses indivíduos, “juveniliza-se” é necessário, visto que, no contexto atual da sociedade, a idade que aparenta se tornou algo mais relevante do que a idade que realmente tem.

A cada década os padrões de beleza impostos pelas mídias são diferentes. Dessa forma, as revistas produzem conteúdos pelo saber médico, ao mesmo tempo, fabricam produtos estéticos e alimentares para as pessoas que visam conquistar um corpo mais bonito, mais leve, que é mais aceito socialmente (Vieira; Bosi, 2013). A contemporaneidade obriga que o indivíduo faça escolhas e, com tantas possibilidades disponíveis, torna-se tentador optar por uma. Retardar o processo natural de envelhecimento e aparentar ser mais jovem já detém fórmulas – estas estão nos consultórios dermatológicos e capas de revistas (Pereira; Penalva, 2014).

Além disso, Pereira e Penalva (2014) abordam a ideia de que o corpo saudável torna-se resultado de um “estilo de vida” que o indivíduo cultiva, representados pela conquista de uma série de objetivos, como independência afetiva e financeira, segurança, liberdade sexual e autonomia. O investimento no corpo será sua conquista, uma vez que lhe proporcionará admiração e se transformará em um exemplo a ser seguido.

Na era capitalista contemporânea, a construção do “corpo saudável” passa a ser discutida como uma questão atrelada ao mercado de consumo. Nessa perspectiva, o autor Santos et al. (2019) discute a relação entre a estética corporal e o bem-estar na era contemporânea de consumo, baseado no pensamento de Baudrillard sobre o contemporâneo. Baudrillard entende o pós-modernismo como o período de emergência da sociedade de consumo, onde o sujeito é inserido como consumidor, os produtos são normalizados e os padrões de consumo são massificados. Assim, a sociedade passa a criar uma massa de consumidores influenciados por publicidades e técnicas eficientes de marketing nos veículos midiáticos.

A respeito do corpo, quando este é tomado pela cultura do consumo, também é convertido em signo partícipe nesse mercado, passa a ser atingido pelo processo de massificação, sendo um objeto mais investido, econômica, cultural e simbolicamente. Dessa forma, tal mercado entende a saúde como um ponto necessário que agrega valor ao corpo e assim trabalha na publicação de matérias voltadas à busca de um “corpo saudável”, temáticas sobre as práticas de exercícios físicos que prometem a perda rápida de peso, as dietas, os produtos alimentícios, suplementos e outras substâncias. (Santos et al., 2019).

Santos e Oliveira et al. (2019), comentam ainda sobre o vasto número de serviços que são comercializados no campo da medicina, nutrição, educação física e estética com o intuito da alcançar o modelo de corpo socialmente valorizado. Dessa forma, é construída uma sociedade cada vez mais preocupada em seguir padrões estéticos e utilizar métodos “saudáveis” que na realidade podem ser prejudiciais. Atrelado a isso, Vieira e Bosi (2013) abordam que as revistas enfatizam o poder de persuasão que elas têm nas pessoas, pois elas buscam tentar seguir o que é imposto como “bonito” e “ideal”. Dessa forma, Foucault (1979, p.147) na sua fala de poder e corpo, a vertente de poder que é investida não é mais na repressão como forma de controle, mas na estimulação.

4.  CONCLUSÃO

O conjunto de informações debatidas neste artigo apresenta uma ampla discussão a respeito de como os padrões de beleza se constituíram na história e como esses ideais afetam a vida de muitas mulheres no contexto atual, considerando principalmente a influência das redes sociais.

Diante deste cenário, é essencial a discussão a respeito do “corpo ideal” apresentado pelas mídias principalmente entre as mulheres, para que haja uma escuta a respeito de: até onde há essa idealização do corpo ideal? Será que estas mulheres entendem que o processo natural de envelhecimento do ser humano apresenta marcas no corpo? Essa conversa é importante para que compreendam se as práticas de alimentação, exercícios físicos e outros estão realmente sendo saudáveis, ou se estas pessoas estão utilizando métodos que de alguma forma prejudicam o seu bem-estar físico e emocional.

Dessa forma, considera-se que o objetivo de pesquisa foi alcançado e ressalta-se a importância desta RIL para contribuir e incentivar novas produções científicas acerca das implicações da definição midiática de corpo ideal na saúde mental de mulheres.

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