THE CONTRIBUTION OF PHYSIOTHERAPY IN THE PREVENTION OF THE MAIN EXTRINSIC AND INTRINSIC FACTORS IN SOCCER INJURIES
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202510291637
Vinicius Nascimento Sales1
Orientador: João Victor Gonçalves Lino2
Coorientador: Alif Neves Broechl3
RESUMO: futebol é uma modalidade esportiva de alta exigência física e técnica, caracterizada por movimentos intensos e intermitentes que predispõem os atletas a diversas lesões musculoesqueléticas. Fatores intrínsecos, como idade e biomecânica, e extrínsecos, como tipo de gramado e carga de jogos, aumentam a vulnerabilidade dos jogadores, tornando essencial a atuação fisioterapêutica na prevenção de lesões. Objetivo: analisar a contribuição da fisioterapia na prevenção dos principais fatores de risco para lesões no futebol, destacando os programas e estratégias mais eficazes descritos na literatura. Metodologia: trata-se de uma revisão integrativa realizada entre 2014 e 2024, nas bases PubMed, SciELO e PEDro, utilizando descritores em português e inglês relacionados à fisioterapia, prevenção e lesões no futebol. Após aplicação dos critérios de inclusão e exclusão, sete ensaios clínicos randomizados foram selecionados para análise. Resultados: os resultados demonstraram que programas fisioterapêuticos estruturados, como o FIFA 11+, o FUNBALL, o Extended Knee Control e o Adductor Strengthening Programme, reduzem significativamente a incidência e a gravidade de lesões em diferentes faixas etárias e níveis competitivos. As intervenções abordaram o fortalecimento muscular, o controle neuromuscular, a propriocepção e a estabilidade do core, resultando em menor número de entorses, distensões e lesões ligamentares, especialmente no joelho e na virilha. Conclusão: conclui-se que a fisioterapia exerce papel indispensável na prevenção de lesões no futebol. A implementação sistemática desses protocolos deve ser considerada prioridade em clubes e equipes, contribuindo para a redução de afastamentos, a melhora do desempenho atlético e a longevidade da carreira esportiva.
Palavras–Chave: Fisioterapia. Futebol. Prevenção. Lesões.
ABSTRACT: is a sport of high physical and technical demand, characterized by intense and intermittent movements that predispose athletes to various musculoskeletal injuries. Intrinsic factors such as age and biomechanics, and extrinsic factors such as field type and game load, increase players’ vulnerability, making physiotherapeutic intervention essential for injury prevention. Objective: to analyze the contribution of physiotherapy in preventing the main risk factors for soccer injuries, highlighting the most effective programs and strategies described in the literature. Methodology: this is an integrative review conducted between 2014 and 2024, using the PubMed, SciELO, and PEDro databases, with descriptors in Portuguese and English related to physiotherapy, prevention, and soccer injuries. After applying inclusion and exclusion criteria, seven randomized clinical trials were selected for analysis. Results: The findings showed that structured physiotherapy programs, such as FIFA 11+, FUNBALL, Extended Knee Control, and the Adductor Strengthening Programme, significantly reduce the incidence and severity of injuries across different age groups and competitive levels. The interventions focused on muscle strengthening, neuromuscular control, proprioception, and core stability, resulting in fewer sprains, strains, and ligament injuries, especially in the knee and groin regions. Conclusion: physiotherapy plays an essential role in preventing soccer injuries. The systematic implementation of these preventive protocols should be considered a priority within clubs and teams, contributing to reduced absences, improved athletic performance, and greater career longevity for athletes.
Keywords: Physiotherapy. Soccer. Prevention. Injuries.
1. INTRODUÇÃO
O futebol consiste em uma modalidade esportiva amplamente reconhecida em nível mundial pela beleza e plasticidade de suas ações motoras durante as partidas. A prática do esporte demanda atletas bem condicionados, capazes de suportar elevadas cargas físicas e seus impactos sobre o desempenho. Isso se deve à necessidade constante de realizar movimentos intermitentes, mudanças bruscas de direção, passes, dribles e diferentes tipos de chutes, que, por sua vez, podem favorecer o surgimento de diversas lesões (Afonso et al., 2020). As competições no futebol representam um dos maiores desafios enfrentados tanto por atletas profissionais quanto amadores. Por ser um esporte de contato, que envolve movimentos intensos e dinâmicos, eleva o risco de lesões, que resultam de fatores intrínsecos, como idade e biomecânica, e extrínsecos, como gramado, condições climáticas e materiais utilizados (González, 2020).
Nesse sentido, as lesões musculoesqueléticas continuam sendo predominantes no futebol profissional, correspondendo a aproximadamente 65-70% do total de lesões sofridas pelos atletas, especialmente em competições de alto rendimento. Essas lesões incluem traumas como entorses e lesões musculares, que são as mais comuns, destacando a sobrecarga física que o esporte impõe aos jogadores (Santos; Almeida; Carvalho, 2022).
Além de comprometer o desempenho dos atletas, as lesões acarretam impactos econômicos consideráveis para os clubes, uma vez que o tempo de recuperação pode variar de dias a meses, dependendo da gravidade (Fernandes; Moura, 2017). Esses traumas também têm um impacto significativo na longevidade da carreira dos jogadores, sendo que lesões crônicas podem afetar permanentemente sua saúde, resultando em condições como osteoartrite e mobilidade reduzida no pós-carreira (Carvalho; Nascimento, 2020).
Vinculada a essa concepção, fatores como número elevado de treinamentos e jogos e a grande extensão dos gramados, que exige alta capacidade física dos atletas quanto à velocidade, resistência, força, agilidade e flexibilidade, têm levado ao limite de exaustão dos atletas e a lesões ósseas, articulares e/ou musculares. Essas lesões podem ser classificadas como síndromes dolorosas, prejudicando o desempenho do atleta e impedindo-o de desempenhar suas atividades adequadamente (Afonso et al., 2020).
Sabe-se que, além dos fatores físicos, as lesões no futebol são influenciadas por aspectos psicológicos. O estresse competitivo, a pressão por resultados e o medo de uma nova lesão, especialmente após traumas graves, aumentam o risco de lesões futuras. Atletas que retornam às competições após longos períodos de reabilitação são mais suscetíveis a novas lesões, devido ao impacto psicológico do trauma prévio, evidenciando a necessidade de suporte emocional aliado ao tratamento físico (Santos; Almeida; Carvalho, 2022).
Sob essa ótica, dentre os principais fatores associados às lesões do futebol, o tipo de gramado utilizado em jogos destaca-se por exercer uma influência específica sobre a incidência de lesões. Gramados artificiais, por exemplo, são relacionados a uma maior incidência de lesões em membros inferiores, em comparação com gramados naturais, devido à menor capacidade de amortecimento do impacto, das condições de aderência e uso inadequado de equipamentos, como chuteiras que não são adaptadas ao tipo de superfície, que amplificam os riscos, tornando as condições de jogo um fator determinante para a ocorrência de lesões (Monteiro et al., 2025).
Contudo, a sobrecarga de jogos, causada por calendários intensos, vem sendo uma das maiores preocupações no futebol de alto rendimento. Os jogadores enfrentam frequentemente sequências de jogos sem o tempo adequado para recuperação, o que aumenta significativamente o risco de lesões por fadiga muscular e o desenvolvimento de condições crônicas, como tendinites (Fernandes; Moura, 2017).
Para tanto, este estudo teve como objetivo analisar a abordagem fisioterapêutica na prevenção dos principais fatores associados às lesões no futebol.
2. MATERIAIS E MÉTODOS
O presente estudo consiste em uma revisão integrativa, método que possibilita reunir, analisar e sintetizar os resultados de pesquisas já publicadas, promovendo um panorama abrangente sobre o tema em questão. Para a construção da pergunta norteadora, utilizou-se a estratégia PICo, que contribui para a definição clara e objetiva do problema de pesquisa, garantindo maior precisão e direcionamento na busca por evidências científicas. Essa sistematização encontra-se detalhada no Quadro 1, a partir do qual foi possível estruturar a questão de investigação: como a fisioterapia contribui para a prevenção das principais lesões de atletas no futebol?
Quadro 1. Descrição da estratégia PICo para a elaboração da pergunta norteadora.
| Acrômio | Definição | Descrição |
| P | População | Atletas no futebol |
| I | Intervenção | Prevenção das principais lesões |
| Co | Contexto | Como a fisioterapia contribui |
Fonte: Autoria própria, 2025.
Foram incluídos estudos primários, sendo eles ensaios clínicos randomizados, estudos de incidência e prevalência, estudos de coortes, estudos de caso-controle, publicados em português ou inglês, disponíveis na íntegra, no período de 2014 e 2025, que investigassem a contribuição fisioterapêutica na prevenção dos principais fatores extrínsecos e intrínsecos nas lesões do futebol. Como critérios de exclusão, foram desconsiderados editoriais, cartas ao editor, relatos de caso, monografias, dissertações, teses, resumos de anais, pesquisas qualitativas, estudos descritivos, artigos de revisão de qualquer natureza metodológica, bem como investigações que não abordassem diretamente a temática proposta.
A amostra deste estudo foi composta por artigos científicos publicados em bases de dados reconhecidas, como National Library of Medicine (PubMed), Scientific Electronic Library Online (SciELO) e Physiotherapy Evidence Database (PEDro). Nessas plataformas foram localizados artigos que contemplavam temáticas relacionadas aos Descritores em Ciências da Saúde (DeCS)/Medical Subject Headings (MESH): “Fisioterapia”, “Prevenção”, “Lesões”, “Futebol”, “Physical Therapy”, “Prevention”, “Injuries”, “Football”. Combinados por meio do operador booleano AND.
Os achados da pesquisa foram submetidos a diferentes etapas de seleção. Inicialmente, os artigos identificados nas bases de dados passaram por uma triagem a partir da leitura do título e do resumo. Em seguida, os estudos que atenderam a essa primeira análise foram lidos na íntegra. Após a aplicação rigorosa dos critérios de inclusão e exclusão, apenas 7 estudos permaneceram elegíveis para análise, conforme apresentado no fluxograma (Figura 1).
A partir dos artigos selecionados, realizou-se uma revisão sistematizada do conteúdo, visando à extração dos dados mais relevantes. As informações obtidas contemplaram fatores intrínsecos e extrínsecos relacionados às lesões, às intervenções fisioterapêuticas propostas e aos resultados descritos pelos autores. Esses dados foram organizados em uma tabela, possibilitando assim a categorização dos resultados encontrados nas literaturas pesquisadas (Quadro 2).
Figura 1. Fluxograma da seleção dos estudos incluídos na revisão integrativa.

Fonte: Autoria própria, 2025.
3. RESULTADOS
Esta revisão integrativa incluiu sete artigos científicos, publicados entre 2015 e 2024, que investigaram a atuação fisioterapêutica na prevenção de lesões no futebol. A média de idade dos participantes dos estudos variou consideravelmente, abrangendo desde adolescentes de 13 anos até adultos de 46 anos, refletindo uma amostra diversificada de atletas amadores, semiprofissionais e universitários. O método de pesquisa predominante em todos os estudos selecionados foi o ensaio clínico randomizado, considerado o padrão-ouro para avaliar a eficácia de intervenções.
As principais intervenções fisioterapêuticas aplicadas e analisadas foram programas de exercícios preventivos estruturados. Dentre os protocolos mais notáveis, destacaram-se o FIFA 11+, o FUNBALL e o Extended Knee Control, que atuavam de forma multicomponente. Esses programas incorporavam exercícios de fortalecimento muscular, especialmente de core e membros inferiores, treinamento de equilíbrio, propriocepção, pliometria e técnicas de controle neuromuscular. Programas mais focados, como o Adductor Strengthening Programme, também foram testados para prevenir lesões específicas na virilha.
A aplicação dessas intervenções demonstrou resultados significativos na redução da incidência e gravidade de lesões comuns no futebol. A análise consolidada dos sete artigos, todos conduzidos como ensaios clínicos randomizados, forneceu evidências robustas sobre a eficácia dessas práticas. A diversidade etária dos participantes reforça que tais estratégias preventivas são benéficas para diferentes faixas etárias e níveis competitivos. Portanto, a síntese dos dados confirma o papel indispensável de protocolos fisioterapêuticos estruturados na prevenção de lesões no contexto do futebol moderno.
Quadro 2. Categorização dos artigos encontrados.







Fonte: Autoria própria, 2025.
Legenda: Oslo Sports Trauma Research Center Overuse Injury Questionnaire (Uso Excessivo do Oslo Sports Trauma Research Center) (OSTRC-O2); Grupo experimental (GE); Grupo Controle (GC); Copenhagen Hip and Groin Outcome Score (HAGOS); National Collegiate Athletic Association (NCAA); Grupo intervenção (GI).
4. DISCUSSÃO
Os resultados desta revisão integrativa consolidam robustas evidências de que programas de exercícios preventivos, planejados e supervisionados sob a ótica fisioterapêutica, são altamente eficazes na redução da incidência e gravidade das lesões mais comuns no futebol. A análise dos sete estudos incluídos revela uma convergência de achados que suporta a hipótese central deste trabalho: a fisioterapia é uma ferramenta indispensável na prevenção de lesões, atuando sobre fatores de risco intrínsecos e extrínsecos (Lindblom et al., 2023; Obertinca et al., 2024; Zarei et al., 2019; Haroy et al., 2019; Silvers-granelli et al., 2017; Silvers-granelli et al. 2015; Sonesson; Lindblom; Hagglund, 2023).
Lindblom et al., (2023) conduziu um ensaio clínico robusto que comparou a eficácia de diferentes programas preventivos. Seu estudo demonstrou a superioridade do programa Extended Knee Control, que focava em força e controle neuromuscular dos membros inferiores através de exercícios como agachamento unilateral e bilateral, afundo, fortalecimento de isquiotibiais e core, e técnica de salto/aterrissagem. A redução significativa de 29% na incidência de lesões nos membros inferiores e de 42-48% nas lesões com perda de tempo, em comparação com um programa de adutores ou exercícios auto-selecionados, é um achado crucial. Isto indica que uma abordagem abrangente, que visa a estabilidade dinâmica da cadeia cinética completa do membro inferior, é mais eficaz para a prevenção global do que programas focados em um único grupo muscular (como os adutores) ou programas não padronizados (Lindblom et al., 2023).
Estes resultados encontram forte respaldo na literatura recente, como demonstrado pelo estudo de Van Dyk, Behan e Whiteley (2019), que evidenciou programas de exercícios multicomponentes, incluindo fortalecimento excêntrico, pliometria e treinamento de equilíbrio, são significativamente superiores na prevenção de lesões de isquiotibiais quando comparados a intervenções isoladas. Da mesma forma, Bahr et al. (2022) reforçam em seu consenso internacional que a abordagem integrada da cadeia cinética, tal como proposta no Extended Knee Control, é fundamental para modificar fatores de risco biomecânicos, como o valgo dinâmico de joelho, que está frequentemente associado a lesões nos membros inferiores (Van Dyk; Behan; Whiteley, 2019; Bahr et al., 2022).
Harøy et al., (2019) dedicou-se especificamente à prevenção de um problema prevalente: as lesões na virilha. O Adductor Strengthening Programme, baseado essencialmente no exercício de Adução de Copenhague com três níveis de progressão, mostrou-se altamente eficaz. A redução de 41% no risco de problemas na virilha entre jogadores semiprofissionais reforça a premissa de que o fortalecimento excêntrico dos adutores do quadril é fundamental para a estabilidade pélvica e para suportar as cargas de rotação e adução bruscas inerentes ao futebol. A simplicidade e a baixa demanda de tempo do programa (cerca de 5 minutos por sessão) são vantagens logísticas importantes para sua implementação em larga escala no contexto desportivo (Haroy et al., 2019).
Vinculada a essa concepção, o estudo de Ishoi et al., (2020), por exemplo, demonstrou que a adição do exercício de Copenhague Adduction a um programa de fortalecimento tradicional resultou em aumentos significativos na força dos adutores e no desempenho em atividades funcionais, superando o grupo que realizou apenas o treinamento padrão. Dessa forma, ênfase no fortalecimento excêntrico dos adutores como pilar da prevenção de lesões na virilha é ainda mais solidificada por uma meta-análise de Serner et al., (2020) concluindo que programas de exercícios específicos para a virilha, com o exercício de Copenhague sendo um componente central e consistentemente associado aos melhores resultados reduziram o risco de lesões na virilha em atletas em impressionantes 41% (Ishoi et al., 2020; Serner et al., 2020).
Obërtinca et al., (2024) desenvolveu e testou o programa FUNBALL, um protocolo multicomponente desenhado especificamente para jogadores adolescentes. A sua abordagem é notável por sua abrangência, incluindo categorias obrigatórias de equilíbrio, estabilidade do core, fortalecimento excêntrico de isquiotibiais (nórdico), ativação de glúteos, pliometria e corrida/sprint. A redução de 31% no total de lesões e a impressionante redução de quase 50% na carga de lesão (dias perdidos/1000h) demonstram que intervenções precoces e holísticas são capazes de preparar o corpo do jovem atleta para as demandas do esporte. O fato de o programa ter tido maior efeito em jogadores mais jovens (sub-15) sugere que a adolescência é uma janela de oportunidade crítica para instilar resiliência musculoesquelética através do treinamento neuromuscular.
Sob essa ótica, Emery et al., (2015), concluiu que programas de prevenção multicomponente, que combinam exercícios de força, pliometria, equilíbrio e agilidade, são os mais eficazes para reduzir lesões em atletas adolescentes, com reduções de incidência que variam de 30% a 50%, corroborando diretamente a magnitude do efeito observado com o FUNBALL.
Por outro lado, Zarei et al., (2019) focou sua investigação no treinamento do core. O programa de 8 semanas de exercícios de estabilização (prancha, ponte, bird-dog, etc.) resultou em melhoras significativas que vão além da prevenção, impactando diretamente o desempenho. O aumento da força do core, do equilíbrio dinâmico (Y-Balance), da agilidade (teste de Illinois), do salto vertical e da velocidade de sprint (40m) no grupo experimental evidencia a interconexão entre um tronco forte e a eficiência dos movimentos dos membros inferiores. Um core estável funciona como uma base sólida, permitindo uma transferência otimizada de forças e melhor controle corporal durante gestos esportivos, o que, por consequência, reduz o risco de lesões por mecanismos compensatórios e melhora a performance (Zarei et al., 2019).
Nessa perspectiva, o estudo de Prieske, Muehlbauer e Granacher (2016) demonstrou que um core bem condicionado atua como um ponto de ancoragem estável, permitindo uma transferência de força mais eficiente da extremidade inferior para o solo durante a fase de propulsão da corrida, o que explica diretamente as melhorias de velocidade e salto observadas acima. A melhoria no equilíbrio dinâmico, medida pelo teste Y-Balance, é outro resultado que encontra forte respaldo na literatura. A pesquisa de Huxel Bliven e Anderson (2013) salienta que a estabilidade do core é um pré-requisito fundamental para o controle postural dinâmico durante atividades esportivas unipodais, como cortes, fintas e chutes (Prieske; Muehlbauer; Granacher, 2016; Huxel Bliven; Anderson, 2013).
Silvers-Granelli et al., (2015, 2017) forneceram duas das evidências mais sólidas e impactantes desta revisão ao avaliarem o programa FIFA 11+ em atletas universitários. O estudo de 2015 mostrou uma redução drástica de 46,1% nas lesões totais e uma redução de 4,25 vezes no risco de lesão do Ligamento Cruzado Anterior (LCA). O estudo de 2017 reforçou esses achados, especificamente para lesões do LCA, mostrando uma redução de 77%. Estes resultados são monumentais, pois o LCA é uma das lesões mais temidas no futebol. O FIFA 11+, como um programa de aquecimento padronizado, atua melhorando a força funcional, o equilíbrio, a propriocepção e a técnica de salto e aterrissagem. A forte correlação dose-resposta encontrada – onde maior adesão levou a menor taxa de lesões – é um argumento irrefutável para a implementação consistente e obrigatória deste protocolo (Silvers-granelli et al., 2015; Silvers-granelli et al., 2017).
Sonesson, Lindblom e Hägglund (2023), por fim, contribuíram com uma análise importante sobre os fatores de risco, que complementam os achados sobre intervenções. Seu estudo prospectivo identificou que idade avançada e a presença de uma lesão no início da temporada são fatores de risco significativos para novas lesões em atletas amadores. Este achado é crucial para a prática clínica, pois destaca a necessidade de: 1) adaptar os programas preventivos para atletas mais velhos, considerando possíveis limitações e déficits acumulados; e 2) assegurar que qualquer lesão, mesmo que leve, seja completamente reabilitada antes do retorno à atividade plena, sob o risco de iniciar a temporada em um estado de vulnerabilidade aumentada.
A associação entre histórico de lesão e risco de nova lesão é um dos achados mais consistentes na epidemiologia do esporte. Uma revisão sistemática de Whittaker et al., (2015) confirmou que uma lesão prévia no membro inferior é o preditor mais forte para uma lesão subsequente, aumentando o risco em até duas vezes, o que está em perfeita sintonia com os dados de Sonesson e colaboradores. Este efeito é atribuído a uma combinação de fatores, incluindo deficiências residuais de força, alterações nos padrões de movimento (como mecanismos compensatórios) e possíveis déficits proprioceptivos que persistem mesmo após o retorno aparente à função normal.
Em conjunto, estes autores pintam um quadro completo e multifacetado da fisioterapia preventiva no futebol. Os trabalhos de Silvers-Granelli et al., (2015, 2017), Obërtinca et al., (2024) e Lindblom et al., (2023) defendem a eficácia de programas estruturados e multicomponentes (FIFA 11+, FUNBALL, Extended Knee Control). Harøy et al., (2019) e Zarei et al., (2019) detalham a importância de se fortalecer grupos musculares-chave de forma específica (adutores e core, respectivamente). Finalmente, Sonesson, Lindblom e Hägglund (2023), alertam para a necessidade de individualizar essas estratégias com base no perfil de risco do atleta (idade e histórico de lesão).
5. CONCLUSÃO
Este estudo demonstrou, por meio de uma revisão integrativa da literatura, que a fisioterapia desempenha um papel fundamental e indispensável na prevenção de lesões no futebol. A análise de sete ensaios clínicos randomizados evidenciou que programas estruturados de exercícios, como o FIFA 11+, o FUNBALL, o Extended Knee Control e o Adductor Strengthening Programme, são altamente eficazes na redução da incidência e gravidade de lesões musculoesqueléticas comuns, como entorses, distensões e lesões ligamentares – especialmente LCA e na virilha. Essas intervenções, ao atuarem de forma multicomponente sobre o fortalecimento muscular, o controle neuromuscular, o equilíbrio e a propriocepção, abordam diretamente os principais fatores de risco intrínsecos, consolidando-se como uma estratégia basilar para a preparação física e a manutenção da integridade física dos atletas.
Portanto, conclui-se que a incorporação sistemática de protocolos fisioterapêuticos preventivos na rotina de clubes e equipes de futebol deve ser considerada uma prioridade estratégica. A implementação consistente desses programas, adaptados às diferentes faixas etárias e níveis competitivos, não apenas minimiza o risco de lesões e seus impactos econômicos e profissionais, como também potencializa o desempenho atlético. Dessa forma, a fisioterapia se consolida como um pilar essencial para a sustentabilidade da carreira dos jogadores e para o sucesso desportivo no futebol moderno.
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*Artigo apresentado ao Curso de Bacharelado em Fisioterapia do Instituto de Ensino Superior do Sul do Maranhão – IESMA/Unisulma.
1Acadêmico do curso de Bacharelado em Fisioterapia do Instituto de Ensino Superior do Sul do Maranhão – IESMA/Unisulma. E-mail: viniciussalles333@gmail.com.br
2Orientador do curso de Bacharelado em Fisioterapia do Instituto de Ensino Superior do Sul do Maranhão – IESMA/Unisulma. E-mail: dr.joaovictorlino@gmail.com.br
3Coorientador. Especializado em Osteopatia pela Escola Brasileira de Fisioterapia Manipulativa – EBRAFIM. E-mail: alifbroechl2017@gmail.com.br
