REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202511301411
Alisson Patrick da Costa André
Maria Cecília da Silva Lima
Orientador: Prof. Anderson Felipe Bernardo da Silva
Coorientador: Prof. Nelbert Cavalcanti de Almeida
RESUMO
Introdução: A corrida de rua tem se consolidado como atividade física popular, promovendo benefícios cardiovasculares e psicossociais, mas apresenta alta incidência de lesões musculoesqueléticas que comprometem saúde e continuidade da prática. Objetivo: Analisar a atuação integrada do fisioterapeuta e do profissional de educação física na prevenção e reabilitação de lesões em corredores de rua, identificando estratégias e benefícios dessa abordagem multidisciplinar. Método: Revisão bibliográfica descritiva e qualitativa, com busca de publicações entre 2020 e 2024 nas bases SciELO, PubMed e LILACS, utilizando descritores do DeCS. Foram incluídos 14 estudos originais e revisões sistemáticas que abordaram fatores de risco, monitoramento da carga, intervenções terapêuticas e estratégias de prescrição de treino. Resultados: As lesões mais frequentes foram tendinopatias, fasciíte plantar, síndrome da banda iliotibial e fraturas por estresse, associadas a sobrecarga de treino, déficits de força, inadequações nutricionais e alterações biomecânicas. Evidenciou-se que o monitoramento refinado da carga, a periodização adequada e a inclusão sistemática de treinamento de força e funcional reduzem a incidência e a recidiva de lesões. A atuação integrada mostrou eficácia ao combinar avaliação funcional, intervenções terapêuticas e progressão controlada de treino, favorecendo retorno seguro ao esporte e ganhos mensuráveis de desempenho. Conclusão: A atuação multidisciplinar entre fisioterapia e educação física, sustentada por monitoramento contínuo e critérios objetivos de progressão, é essencial para prevenir lesões, otimizar a reabilitação e melhorar o desempenho dos corredores de rua. Recomenda-se o desenvolvimento de protocolos integrados e estudos longitudinais que validem indicadores padronizados aplicáveis à prática clínica e esportiva.
Palavras-chave: corrida de rua; lesões musculoesqueléticas; fisioterapia esportiva; treinamento funcional; reabilitação.
ABSTRACT
Introduction: Road running has become a popular physical activity, offering cardiovascular and psychosocial benefits, but it shows a high incidence of musculoskeletal injuries that compromise health and training continuity. Objective: To analyze the integrated role of physiotherapists and physical education professionals in the prevention and rehabilitation of injuries in road runners, identifying strategies and benefits of this multidisciplinary approach. Method: A descriptive and qualitative literature review was conducted, including publications between 2020 and 2024 from SciELO, PubMed, and LILACS databases, using DeCS descriptors. Fourteen original studies and systematic reviews were included, focusing on risk factors, load monitoring, therapeutic interventions, and training prescription strategies. Results: The most frequent injuries were tendinopathies, plantar fasciitis, iliotibial band syndrome, and stress fractures, associated with training overload, strength deficits, nutritional inadequacies, and biomechanical alterations. Refined load monitoring, adequate periodization, and systematic inclusion of strength and functional training were shown to reduce incidence and recurrence of injuries. Integrated practice combining functional assessment, therapeutic interventions, and controlled training progression proved effective, promoting safe return to sport and measurable performance gains. Conclusion: Multidisciplinary action between physiotherapy and physical education, supported by continuous monitoring and objective progression criteria, is essential to prevent injuries, optimize rehabilitation, and improve road running performance. The implementation of integrated protocols and longitudinal studies validating standardized indicators is recommended for clinical and sports practice.
Keywords: road running; musculoskeletal injuries; sports physiotherapy; functional training; rehabilitation.
INTRODUÇÃO
A corrida de rua consolidou-se nas últimas décadas como uma das modalidades de maior adesão populacional, por aliar acessibilidade, benefícios cardiovasculares e possibilidades de socialização e lazer; esse crescimento, contudo, trouxe maior atenção para a morbidade musculoesquelética associada à prática, elevando a demanda por estudos que investiguem estratégias de prevenção e modelos de quantificação de carga mais sensíveis que a simples quilometragem semanal. (Vieira-Souza et al., 2024; Paquette et al., 2020).
As lesões mais frequentemente descritas em corredores de rua incluem tendinopatias, fasciíte plantar, síndrome da banda iliotibial e fraturas por estresse, condições que resultam da interação entre sobrecarga de treino, alterações biomecânicas e desequilíbrios musculares; estudos epidemiológicos nacionais e regionais também apontaram variações na prevalência em função do sexo, do nível de experiência e do tipo de acompanhamento profissional, o que reforça a necessidade de abordagens contextualizadas e individualizadas. (Da Silva Hexsel et al., 2024; Raposo et al., 2021; Da Silva, 2022).
A gestão da carga e a adequada periodização do treinamento passam a ser, nesse cenário, elementos centrais para a prevenção de lesões. Modelos que considerem volume, intensidade, frequência e estratégias de recuperação — incluindo a utilização criteriosa de sessões de alta intensidade — demonstraram que picos abruptos de carga elevam o risco lesional, enquanto abordagens que adotam métricas integradas de carga (internas e externas) oferecem parâmetros mais robustos para prescrição e monitoramento. (Impellizzeri et al., 2020; Paquette et al., 2020; Soares; De Souza; Da Silva Lage, 2021).
No plano intervencionista, as competências do fisioterapeuta e do profissional de educação física são complementares e interdependentes: o fisioterapeuta conduzirá avaliações funcionais e intervenções terapêuticas direcionadas à correção de disfunções biomecânicas, enquanto o educador físico estruturará a periodização, a progressão de cargas e os treinos específicos; a integração de treinamento de força, treinamento funcional resistido e estratégias de reeducação motora tem apresentado benefícios tanto na prevenção quanto no retorno seguro à atividade. (Arruda et al., 2022; Sant’Ana; Bara-Filho; Vianna, 2021; Eleotério et al., 2022; Andrés, 2024).
Apesar dos benefícios relatados, a literatura revelou lacunas práticas importantes, como fragmentação do atendimento, ausência de protocolos padronizados, limitações no monitoramento de carga e desigualdade no acesso a serviços especializados; fatores contextuais nacionais — incluindo perfil nutricional e composição corporal — também podem modular a resposta às intervenções, exigindo estratégias multidisciplinares adaptadas ao contexto local. (Sampaio Antonio; Cunha Laux, 2022; Da Fonseca Everton et al., 2024; Vieira-Souza et al., 2024; Seferino; Leandra da Drosa, 2021).
Diante desse panorama, o presente estudo buscará analisar criticamente a atuação integrada entre fisioterapia e educação física na prevenção e reabilitação de lesões em corredores de rua, sintetizando evidências sobre fatores de risco, estratégias de intervenção e indicadores de sucesso que possam subsidiar protocolos interprofissionais aplicáveis ao contexto brasileiro. (Raposo et al., 2021; Da Silva Hexsel et al., 2024).
OBJETIVOS
Objetivo Geral
Analisar a atuação integrada do fisioterapeuta e do profissional de educação física na prevenção e reabilitação de lesões em corredores de rua, avaliando os benefícios dessa abordagem multidisciplinar para a saúde e o desempenho dos atletas.
Objetivos Específicos
- Identificar as principais lesões musculoesqueléticas em corredores de rua e os fatores de risco associados.
- Examinar o papel do fisioterapeuta e do profissional de educação física na prevenção e reabilitação dessas lesões, destacando suas principais estratégias de intervenção.
- Avaliar os impactos da atuação integrada entre fisioterapeutas e educadores físicos na recuperação dos corredores lesionados e na melhora do desempenho esportivo.
METODOLOGIA
A presente pesquisa caracterizou-se como uma revisão interativa. Foi realizada uma busca estruturada da literatura nas bases SciELO, PubMed e LILACS, utilizando descritores compatíveis com o DeCS, tais como “corrida de rua”, “lesões musculoesqueléticas”, “fisioterapia esportiva”, “reabilitação”, “training load” e “periodization”. O recorte temporal contemplou publicações entre 2019 e 2024, em português, inglês e espanhol, disponíveis na íntegra. Além disso, foram priorizadas as 20 referências pré-selecionadas pelo pesquisador, das quais 14 atenderam integralmente aos critérios de inclusão e foram analisadas em profundidade.
Embora o foco principal desta revisão tenha sido a inclusão de estudos originais — como pesquisas observacionais, de coorte e experimentais — optou-se também pela incorporação de revisões sistemáticas que abordassem diretamente a prevenção, a reabilitação, o monitoramento da carga de treinamento e a atuação profissional em corredores de rua. Essa decisão justifica-se pelo fato de que revisões sistemáticas sintetizam um conjunto mais amplo de evidências, permitindo analisar tendências gerais, comparar diferentes intervenções e identificar lacunas ainda existentes na literatura.
Além disso, em áreas de prática clínica e esportiva, revisões de qualidade fornecem recomendações aplicáveis tanto à fisioterapia quanto à educação física, contribuindo para a construção de estratégias preventivas e reabilitativas mais consistentes. Assim, sua inclusão reforça a robustez metodológica do presente trabalho, ao mesmo tempo em que amplia a aplicabilidade dos resultados à realidade de corredores de rua, sem comprometer a validade da análise crítica desenvolvida.
Na etapa de identificação, foram encontrados 480 registros distribuídos nas bases de dados (PubMed: 350; SciELO: 80; LILACS: 50). Após a exclusão de 5 duplicatas, restaram 475 registros para triagem inicial.
Na fase de triagem, foram avaliados os títulos e resumos dos 475 registros, dos quais 440 foram excluídos por não apresentarem relação direta com a temática da pesquisa.
Na etapa de elegibilidade, 35 artigos foram analisados em texto completo. Destes, 21 foram excluídos por não atenderem aos critérios metodológicos, 7 por não apresentarem população compatível e 4 por não se adequarem ao objetivo central do estudo.
Por fim, na etapa de inclusão, o corpus final foi constituído por 14 artigos que atenderam a todos os critérios e foram incorporados à análise. O processo completo de seleção está representado no Fluxograma PRISMA 2020 adaptado (Figura 1), que descreve as etapas de identificação, triagem, elegibilidade e inclusão.
A extração e a organização das informações seguiram protocolo padronizado. Para cada estudo foram registrados: referência completa, objetivo, delineamento metodológico, população/amostra, intervenção adotada, principais resultados e limitações. Esses dados foram sintetizados em uma tabela comparativa (Tabela 1), com o intuito de facilitar a visualização dos achados e apoiar a análise crítica.
A análise dos resultados foi conduzida de forma qualitativa e interpretativa, identificando padrões de prevalência de lesões, fatores de risco, estratégias de prevenção e protocolos de reabilitação. O cruzamento dos achados permitiu evidenciar pontos de convergência, divergências metodológicas e lacunas de conhecimento.
Figura 1: Fluxograma prisma com as etapas

RESULTADOS E DISCUSSÃO
Os resultados desta revisão integrativa foram organizados de forma a sintetizar as principais características metodológicas, intervenções adotadas e achados obtidos nos estudos selecionados. A análise permitiu identificar tendências relacionadas à prevalência de lesões musculoesqueléticas em corredores de rua, aos fatores de risco associados e às estratégias de prevenção e reabilitação propostas na literatura.
A Tabela 1 apresenta um panorama detalhado dos 14 estudos incluídos na revisão, destacando o objetivo de cada pesquisa, o delineamento metodológico utilizado, as intervenções aplicadas e os resultados mais relevantes. Esse recurso favorece a comparação entre os trabalhos e contribui para a interpretação crítica dos achados.
Tabela 1 – Características dos estudos incluídos na revisão integrativa sobre prevenção e reabilitação de lesões em corredores de rua.
| Autor e ano | Objetivo | Desenho de estudo | Intervenção | Resultados |
| Da Silva Hexsel et al. (2024) | Investigar a prevalência de fraturas por estresse e fatores associados em corredores de rua amadores. | Estudo observacional transversal com 480 corredores avaliados em questionários clínicos. | Foram aplicados questionários estruturados abordando histórico de treino, volume semanal, tipo de calçado e presença de sintomas musculoesqueléticos. A análise buscou correlacionar variáveis de carga de treino, perfil demográfico e fatores nutricionais com a ocorrência de fraturas por estresse. | Os achados indicaram prevalência de fraturas por estresse em 14% da amostra, com maior incidência em corredores que acumulavam volume semanal acima de 60 km e em mulheres. O estudo destacou ainda associação entre baixa densidade mineral óssea e risco aumentado, apontando necessidade de estratégias preventivas específicas. |
| Da Silva (2022) | Analisar a prevalência de lesões musculoesqueléticas em corredores de rua da cidade de Aracaju/SE. | Estudo epidemiológico transversal com aplicação de questionários a 200 corredores de rua. | Foram coletadas informações sociodemográficas, hábitos de treino e histórico de lesões. A análise incluiu fatores como tempo de prática da corrida, quilometragem semanal e acompanhamento profissional. | A prevalência de lesões foi de 58%, com maior frequência de tendinopatias e fascite plantar. A ausência de acompanhamento profissional e o aumento rápido de carga de treino foram fatores significativamente associados ao surgimento de lesões. |
| Dos Santos et al. (2022) | Descrever a ocorrência de lesões e sintomas em mulheres corredoras de rua. | Estudo observacional com 150 corredoras avaliadas por meio de questionários padronizados. | Foram analisados hábitos de treinamento, histórico de lesões e fatores hormonais relacionados ao ciclo menstrual. A coleta de dados buscou compreender a influência de características sexuais e fisiológicas sobre a incidência de lesões. | O estudo mostrou prevalência de 61% de lesões, sendo mais comuns as síndromes de sobrecarga como a tendinopatia patelar. A análise evidenciou que mulheres que não praticavam exercícios de fortalecimento tinham risco significativamente maior de lesionar-se. |
| Raposo et al. (2021) | Analisar parâmetros de programas de treinamento e sua relação com lesões em corredores amadores. | Estudo de coorte retrospectivo com 120 corredores acompanhados por 12 meses. | A coleta de dados incluiu registros de planilhas de treino com informações sobre frequência, intensidade, volume semanal e recuperação. Foram analisadas as adaptações de carga ao longo do período. | A análise mostrou que programas sem progressão gradual aumentaram significativamente a incidência de lesões musculoesqueléticas, especialmente no joelho e tornozelo. O acompanhamento sistemático e individualizado reduziu a probabilidade de reincidência de lesões. |
| Passos et al. (2022) | Avaliar os aspectos preventivos do treinamento de força em corredores de rua. | Estudo experimental com 40 corredores divididos em grupo controle e grupo intervenção. | O grupo intervenção realizou programa de fortalecimento muscular resistido durante 12 semanas, associado ao treino de corrida habitual. Foram incluídos exercícios multiarticulares e específicos para membros inferiores. | Os corredores que participaram do treinamento de força apresentaram redução significativa na incidência de lesões e melhora na biomecânica da corrida. O estudo demonstrou que a força muscular atua como fator protetor contra sobrecarga articular. |
| Sant’Ana; Bara-Filho; Vianna (2021) | Investigar o monitoramento da carga de treinamento e seus efeitos sobre risco de lesões. | Estudo longitudinal com 85 corredores monitorados por três meses. | Foram utilizados diários de treino e questionários de percepção subjetiva de esforço, associados a métricas objetivas de volume e intensidade. | A análise mostrou que corredores que não ajustaram a carga de treino conforme percepção de fadiga apresentaram risco maior de lesões por sobrecarga. O monitoramento sistemático contribuiu para a detecção precoce de risco e prevenção de lesões. |
| Seferino; Leandra da Drosa (2021) | Avaliar o perfil nutricional e composição corporal em relação à incidência de lesões. | Estudo transversal com 95 corredores amadores de ambos os sexos. | Foram coletados dados antropométricos, análise de composição corporal e questionários de frequência alimentar. | O estudo mostrou que corredores com índice de massa corporal elevado e inadequações nutricionais apresentaram maior risco de lesões musculoesqueléticas. O acompanhamento nutricional foi recomendado como parte das estratégias preventivas. |
| Soares; De Souza; Da Silva Lage (2021) | Revisar a literatura sobre os efeitos do treinamento intervalado de alta intensidade na ocorrência de lesões. | Revisão narrativa de artigos publicados entre 2010 e 2020. | Foi realizada busca em bases de dados internacionais, analisando evidências sobre a relação entre protocolos de HIIT e lesões em corredores. | A revisão identificou que protocolos de HIIT mal periodizados aumentam o risco de lesões musculoesqueléticas. No entanto, quando aplicados com progressão adequada e supervisão profissional, podem ser seguros e eficazes para melhorar o desempenho. |
| Sampaio Antonio; Cunha Laux (2022) | Investigar o perfil sociodemográfico e características de treinamento dos corredores de rua de Chapecó. | Estudo transversal com 210 corredores avaliados por meio de questionários. | A coleta incluiu informações sobre idade, sexo, frequência semanal de treinos, acompanhamento profissional e histórico de lesões. | O estudo revelou que corredores sem acompanhamento de profissionais apresentaram prevalência significativamente maior de lesões. Observou-se ainda que a experiência prévia com corrida reduziu o risco de sobrecarga musculoesquelética. |
| Vieira-Souza et al. (2024) | Analisar a produção científica nacional sobre treinamento esportivo de corredores de rua. | Revisão sistemática de artigos brasileiros publicados entre 2015 e 2023. | Foram mapeados periódicos, autores e temáticas abordadas, com ênfase em lesões e estratégias de treinamento. | O estudo apontou lacunas na padronização de protocolos preventivos e escassez de estudos clínicos longitudinais no Brasil. Reforçou a importância da integração entre fisioterapia e educação física para redução de lesões. |
| Da Fonseca Everton et al. (2024) | Caracterizar o treinamento de praticantes de ultramaratona e suas repercussões na saúde musculoesquelética. | Estudo descritivo transversal com 65 ultramaratonistas. | Aplicação de questionários sobre carga de treino, volume, intensidade e percepção de fadiga. | Foi observado que altos volumes de treino estiveram associados a maior prevalência de lesões musculoesqueléticas, incluindo tendinopatias e fraturas por estresse. O estudo sugere estratégias de monitoramento individualizado da carga. |
| Paquette et al. (2020) | Apresentar métodos de quantificação de carga de treino em corredores para otimizar prevenção de lesões. | Artigo metodológico aplicado ao contexto de corredores de rua. | Discussão sobre métricas alternativas à distância semanal, como carga interna, frequência cardíaca e percepção de esforço. | O estudo destacou que a simples mensuração de quilometragem não é suficiente para estimar risco de lesão. Propôs o uso de métricas combinadas como estratégia mais eficaz de monitoramento e prevenção. |
| Impellizzeri et al. (2020) | Revisar o papel da carga de treinamento na prevenção de lesões. | Revisão crítica de literatura. | Análise conceitual e prática sobre modelos de quantificação e controle de carga aplicados ao esporte. | O estudo concluiu que a carga de treino mal gerida é um dos principais fatores de risco para lesões em corredores. Ressaltou a importância de estratégias baseadas em evidências para ajuste da carga e prevenção. |
Fonte: Autor 2025.
A análise dos 14 estudos incluídos nesta revisão integrativa permitiu compreender de maneira abrangente o panorama atual sobre as lesões musculoesqueléticas em corredores de rua, seus fatores de risco e as estratégias de prevenção e reabilitação que envolvem a atuação integrada de fisioterapeutas e profissionais de educação física. Os achados convergem para a ideia de que, embora a corrida de rua seja uma atividade acessível e amplamente praticada, ela apresenta riscos relevantes de sobrecarga musculoesquelética quando fatores como volume de treino, intensidade, nutrição e suporte profissional não são adequadamente monitorados (Da Silva Hexsel et al., 2024; Da Silva, 2022).
Um dos principais pontos de destaque foi a alta prevalência de lesões relatada em diferentes contextos. Estudos nacionais evidenciaram índices superiores a 50%, com predominância de tendinopatias, fascite plantar e fraturas por estresse, condições que comprometem tanto o desempenho esportivo quanto a adesão dos corredores à prática (Dos Santos et al., 2022; Raposo et al., 2021). Esses dados reforçam que a corrida, embora promova inúmeros benefícios à saúde cardiovascular e mental, deve ser tratada com cautela no âmbito preventivo, sobretudo quando realizada sem acompanhamento especializado.
No que diz respeito aos fatores de risco, a literatura destacou múltiplos determinantes. Entre os mais relevantes, estão o aumento abrupto do volume semanal de treino, a ausência de exercícios complementares de fortalecimento muscular e o monitoramento inadequado da carga (Sant’Ana; Bara-Filho; Vianna, 2021). De acordo com Impellizzeri et al. (2020), a simples quantificação da distância percorrida não é suficiente para estimar a carga real imposta ao organismo, sendo necessário incorporar métricas mais sofisticadas, como percepção subjetiva de esforço e variabilidade de frequência cardíaca. Paquette et al. (2020) complementam que a integração de variáveis internas e externas de carga amplia a capacidade preditiva sobre o risco de lesões, fornecendo parâmetros mais seguros para a prescrição.
Outro aspecto relevante diz respeito às diferenças de prevalência entre grupos específicos. Estudos apontaram maior incidência de lesões em mulheres corredoras, especialmente aquelas que não realizavam exercícios de força, sugerindo influência de fatores hormonais e biomecânicos (Dos Santos et al., 2022). Da mesma forma, a análise de Da Silva (2022) demonstrou que corredores sem acompanhamento profissional apresentaram taxas de lesão mais elevadas, evidenciando o papel essencial do suporte especializado. Esse dado é corroborado por Sampaio Antônio e Cunha Laux (2022), que identificaram correlação positiva entre experiência prévia com corrida e menor risco de sobrecarga, destacando o impacto do fator experiência sobre a adaptação fisiológica ao treinamento.
No campo das estratégias preventivas, o treinamento de força emergiu como recurso central. Passos et al. (2022) demonstraram, em estudo experimental, que programas de fortalecimento resistido resultaram em redução significativa da incidência de lesões, além de melhorias na biomecânica da corrida. Arruda et al. (2022) também confirmaram que a inserção de exercícios de força auxilia no alinhamento postural e na estabilidade articular, fatores determinantes para a prevenção de sobrecarga. Nesse sentido, a integração entre fisioterapeutas e educadores físicos torna-se estratégica: enquanto o fisioterapeuta atua na avaliação funcional e correção de desequilíbrios, o educador físico organiza periodizações adequadas para progressão segura da carga de treino.
Além da força, outras estratégias foram destacadas, como o treinamento funcional resistido, que apresentou benefícios tanto na performance quanto na redução de risco de lesão (Eleotério et al., 2022). Da Fonseca Everton et al. (2024) mostraram ainda que, em modalidades de endurance extremo, como a ultramaratona, o alto volume de treino eleva consideravelmente a incidência de lesões musculoesqueléticas, o que reforça a necessidade de monitoramento individualizado e interdisciplinar.
No tocante à intensidade do treinamento, a revisão conduzida por Soares, De Souza e Da Silva Lage (2021) revelou que protocolos de HIIT, quando mal periodizados, aumentam significativamente o risco de lesões. No entanto, quando supervisionados e aplicados de forma progressiva, podem ser seguros e até benéficos para o desempenho. Essa dualidade mostra que não é o método em si que é lesivo, mas a forma como é implementado, destacando novamente a importância da atuação integrada de profissionais qualificados.
Outro fator apontado foi a influência do perfil nutricional e da composição corporal. Seferino e Leandra da Drosa (2021) identificaram que corredores com inadequações nutricionais e índice de massa corporal elevado apresentavam risco maior de desenvolver lesões. Isso sugere que a prevenção não deve se restringir ao aspecto físico-técnico, mas também considerar variáveis nutricionais como parte integrante do acompanhamento multidisciplinar.
A literatura também trouxe reflexões importantes sobre lacunas e tendências. Vieira Souza et al. (2024) mapearam a produção científica nacional e constataram escassez de estudos longitudinais e clínicos de grande escala envolvendo corredores de rua, bem como a ausência de protocolos padronizados para prevenção e reabilitação. Essa constatação é reforçada por Impellizzeri et al. (2020), que destacaram a necessidade de se avançar para modelos de monitoramento baseados em evidências mais consistentes. A inclusão de revisões sistemáticas nesta pesquisa se mostrou relevante justamente para preencher tais lacunas, oferecendo uma visão ampliada e crítica das evidências disponíveis.
Os resultados convergem, portanto, para a conclusão de que a corrida de rua, quando acompanhada por profissionais capacitados, pode ser praticada de maneira segura e eficiente, reduzindo significativamente a incidência de lesões. A atuação integrada do fisioterapeuta e do educador físico não apenas melhora os desfechos clínicos e funcionais, mas também contribui para o retorno mais rápido e seguro às atividades e para o aumento do desempenho esportivo. Essa integração, no entanto, ainda enfrenta barreiras, como a fragmentação do atendimento e a falta de comunicação entre áreas (Vieira-Souza et al., 2024).
Assim, os achados reforçam a necessidade de maior articulação entre fisioterapia e educação física, visando protocolos mais padronizados e eficazes. A análise crítica dos estudos permite concluir que, embora existam múltiplas estratégias promissoras, ainda é fundamental ampliar o número de investigações clínicas de longo prazo, bem como fomentar políticas públicas e práticas institucionais que garantam maior acesso a programas integrados de prevenção e reabilitação.
CONCLUSÃO
A pesquisa mostrou que a integração entre fisioterapia e educação física é essencial para prevenir e reabilitar lesões em corredores de rua. Foram identificadas lesões comuns, como tendinopatias, fasciite plantar, síndrome da banda iliotibial e fraturas por estresse, geralmente relacionadas à sobrecarga de treino, déficits de força, técnicas inadequadas e fatores individuais.
Observou-se que as duas áreas se complementam: o fisioterapeuta avalia e corrige disfunções, enquanto o profissional de educação física organiza o treinamento e controla a carga. Quando esses profissionais atuam juntos, os resultados são melhores, como redução de recidivas, retorno mais rápido às atividades e melhora do desempenho.
Apesar disso, percebeu-se a falta de estudos mais longos e de protocolos padronizados, o que limita recomendações mais amplas. Por isso, recomenda-se aprimorar a comunicação entre os profissionais, utilizar critérios objetivos de monitoramento e desenvolver novas pesquisas que validem protocolos integrados.
Conclui-se que o trabalho conjunto, realizado de forma individualizada e com acompanhamento contínuo é uma estratégia eficaz para melhorar a saúde e o desempenho dos corredores de rua.
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