CHALLENGES IN DENTAL CARE FOR PATIENTS WITH PSYCHIATRIC DISORDERS: A CASE REPORT OF SCHIZOPHRENIA
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ni10202511301321
Élida Marília De Oliveira Cordeiro1
Liliane Amanda Pantoja Araújo1
Eloilson Cassaro Celin Filho1
Daniel Cavallero Colares Uchôa2
Resumo
A esquizofrenia, enquanto transtorno mental crônico, demanda cuidados específicos no atendimento odontológico, em virtude do uso contínuo de psicofármacos e das repercussões orais associadas. Este estudo tem como objetivo analisar os desafios e as estratégias no manejo odontológico de pacientes com esquizofrenia, a partir do relato de um caso clínico atendido na clínica-escola do Centro Universitário Metropolitano da Amazônia (UNIFAMAZ). Trata-se de um estudo descritivo, do tipo relato de caso, fundamentado em revisão de literatura realizada nas bases PubMed, SciELO, MEDLINE, UNASUS e Biblioteca Virtual em Saúde (BVS). O desenvolvimento do trabalho seguiu cinco eixos temáticos: esquizofrenia e outros transtornos mentais; implicações dos psicofármacos no atendimento odontológico; manejo clínico de pacientes com esquizofrenia; repercussões orais dos transtornos psiquiátricos; e desafios enfrentados pelos cirurgiões-dentistas. O estudo destaca a importância da atuação multiprofissional, da elaboração de planos de tratamento individualizados e da construção do vínculo entre profissional e paciente. Evidencia ainda a presença de manifestações clínicas, como a xerostomia, e seus impactos no planejamento odontológico. Conclui-se que são necessárias condutas éticas, humanizadas e sensíveis, que promovam uma assistência odontológica mais inclusiva e alinhada à saúde mental.
Palavras-chave: Esquizofrenia. Saúde mental. Saúde bucal. Xerostomia. Psicofármaco.
Abstract
Schizophrenia, as a chronic mental disorder, requires specific care in dental treatment due to the continuous use of psychotropic drugs and the associated oral repercussions. This study aims to analyze the challenges and strategies in the dental management of patients with schizophrenia, based on the report of a clinical case treated at the teaching clinic of the Centro Universitário Metropolitano da Amazônia (UNIFAMAZ). This is a descriptive, case report-type study based on a literature review conducted in the PubMed, SciELO, MEDLINE, UNASUS, and Virtual Health Library (VHL) databases. The study was developed along five thematic axes: schizophrenia and other mental disorders; implications of psychotropic drugs in dental care; clinical management of patients with schizophrenia; oral repercussions of psychiatric disorders; and challenges faced by dental surgeons. The study highlights the importance of multidisciplinary care, the development of individualized treatment plans, and the establishment of a bond between professional and patient. It also highlights the presence of clinical manifestations, such as xerostomia, and their impact on dental planning. It concludes that ethical, humanized, and sensitive approaches are necessary to promote more inclusive dental care that is aligned with mental health.
Keywords: Schizophrenia. Mental health. Oral health. Xerostomia. Psychotropic drugs
1 INTRODUÇÃO
Nas últimas décadas, os transtornos mentais têm ganhado crescente atenção mundial devido ao seu impacto profundo na saúde pública. Estima-se que quase 1 bilhão de pessoas vivam com algum transtorno mental, sendo que muitos ainda não recebem tratamento adequado. Esses distúrbios, embora diversos, compartilham consequências significativas para a funcionalidade, o convívio social e a qualidade de vida dos indivíduos. Entre eles, destaca-se a esquizofrenia. (OMS, 2022).
A esquizofrenia é um dos transtornos mentais mais graves, devido à sua complexidade e aos impactos funcionais que provoca. No DSM-5-TR, da American Psychiatric Association (APA), integra o espectro dos transtornos psicóticos, sendo marcada por sintomas ativos e prejuízo funcional significativo (APA, 2022).
Em geral, os sintomas da esquizofrenia podem ser classificados em quatro tipos: Segundo Costa et al. (2023) os sintomas positivos incluem alucinações, delírios e fala desorganizada, sendo mais evidentes no início do quadro. Borges et al. (2019) refere os sintomas negativos, como apatia, isolamento social, falta de motivação e empobrecimento da expressão emocional, tendem a ser mais persistentes e estão associados a maiores prejuízos sociais e funcionais. Já Frutoso, Porto & Sousa (2022) defendem que os sintomas cognitivos abrangem problemas com a memória de trabalho, atenção e resolução de problemas, déficits na iniciação e supressão da resposta, enquanto os sintomas de humor são aqueles em que estão ligados a questões emocionais, sendo comum o paciente apresentar comportamentos depressivos.
Apesar dos avanços nas áreas da psiquiatria e da medicina, o cuidado com a saúde bucal de pessoas com esquizofrenia ainda é amplamente negligenciado, tanto nas práticas clínicas quanto nas políticas públicas de saúde. Esse distanciamento entre a população afetada e os serviços odontológicos adequados decorre de múltiplos fatores, incluindo os efeitos adversos dos psicofármacos, dificuldades no autocuidado, estigmas sociais e o preparo inadequado dos profissionais da saúde para lidar com as demandas específicas dessa população (Urien et al., 2024).
O medo, a desinformação e o preconceito ainda representam barreiras significativas, dificultando o acesso desses pacientes a cuidados odontológicos contínuos e qualificados. Para superar essas dificuldades, é essencial adotar estratégias que tornem o atendimento mais acessível e eficaz. Estudos demonstram de maneira consistente a precariedade da saúde bucal entre pessoas com esquizofrenia, o que impacta diretamente a autoestima, a sociabilidade e a qualidade de vida desses indivíduos (Carvalhaes, 2014).
Em um sistema público de saúde já sobrecarregado e com dificuldades estruturais, os pacientes com esquizofrenia enfrentam o duplo fardo de uma doença mental grave e a invisibilidade nos serviços de saúde. Quando recebem atendimento odontológico, muitas vezes o foco está apenas na resolução imediata de problemas emergenciais, sem continuidade do cuidado. Essa abordagem fragmentada dificulta o desenvolvimento de um tratamento odontológico eficaz e duradouro. Além disso, a formação dos profissionais de odontologia ainda apresenta lacunas consideráveis. Apesar da crescente conscientização sobre a importância do atendimento odontológico a pacientes com transtornos mentais, o ensino sobre a interação entre saúde mental e saúde bucal continua sendo insuficiente nas universidades (Sousa, 2016).
Diante desse cenário, o presente estudo tem como objetivo relatar e analisar um caso clínico de atendimento odontológico a um paciente com esquizofrenia, discutindo os principais desafios enfrentados e as estratégias adotadas para garantir um cuidado seguro, ético e eficaz. Espera-se que este estudo contribua para o fortalecimento de uma prática odontológica mais humanizada, inclusiva e alinhada aos princípios do cuidado integral aos pacientes com transtornos mentais graves.
2 METODOLOGIA
Trata-se de um estudo do tipo relato de caso, desenvolvido nas clínicas-escola do Centro Universitário Metropolitano da Amazônia (UNIFAMAZ), localizado em Belém – PA. O local oferece atendimento odontológico gratuito à comunidade, atuando como campo de prática supervisionada para os discentes do curso de Bacharelado em Odontologia da instituição.
O presente estudo tem como objetivo relatar o atendimento odontológico de um paciente do sexo masculino, com diagnóstico de esquizofrenia, atendido durante as atividades clínicas supervisionadas do curso de graduação. A seleção do caso ocorreu por meio de triagem realizada na própria clínica odontológica da instituição, a qual identificou, além da condição psiquiátrica, a necessidade de tratamento odontológico.
As intervenções clínicas foram conduzidas no período de 2023 a 2025, durante o qual o paciente foi acompanhado em diversas consultas, conforme a complexidade do plano terapêutico previamente estabelecido.
As informações clínicas foram coletadas por meio de observação direta sistematizada, análise do prontuário odontológico, anamnese detalhada e revisão do histórico de saúde, sempre mediante a autorização da representante legal do paciente. O responsável assinou o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), permitindo a inclusão do caso no estudo e a utilização das informações clínicas para fins acadêmicos. Este relato de caso foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da UNIFAMAZ, sob o parecer nº 7.934.213.
O atendimento foi realizado por uma discente do curso de Odontologia, sob orientação e supervisão direta de docentes, que acompanharam todas as etapas do tratamento para garantir a segurança e a qualidade dos procedimentos. A análise dos dados foi realizada de forma qualitativa e descritiva, com ênfase nos desafios enfrentados durante o atendimento, nas alterações bucais associadas ao uso de psicofármacos e nas estratégias terapêuticas e comportamentais adotadas, com o intuito de promover um cuidado humanizado e integral.
Para a fundamentação teórica, foi realizada uma revisão bibliográfica em bases de dados científicas, incluindo PubMed, SciELO, MEDLINE, UNASUS e a Biblioteca Virtual em Saúde (BVS). Foram utilizados os Descritores em Ciências da Saúde (DeCS): “Esquizofrenia”, “Saúde mental”, “Saúde bucal”, “Xerostomia” e “Psicofármacos”, com o objetivo de embasar a análise clínica do caso e relacionar os achados clínicos com as evidências disponíveis na literatura científica atual.
3 RELATO DE CASO
O presente estudo trata-se de um relato de caso clínico realizado na Clínica Odontológica da UNIFAMAZ, onde foi atendido um paciente do sexo masculino, 46 anos, diagnosticado com esquizofrenia. O paciente compareceu à clínica acompanhado de sua irmã, relatando incômodo estético relacionado à saúde bucal.
Foi relatado que o paciente faz uso contínuo dos seguintes medicamentos: Carbonato de Lítio 300mg (ambos 01 comprimido de 12 em 12 horas), Clorpromazina 100mg (01 comprimido de 12 em 12 horas), Risperidona 3mg (01 comprimido de 12 em 12 horas) e Prometazina 25mg (01 comprimido à noite). Ressalta-se que os fármacos citados apresentam como uma característica em comum um efeito colateral nocivo a saúde bucal, a Xerostomia.
Durante o exame clínico intraoral, foram observadas raízes residuais nos elementos 17, 26 e 27, sinais de bruxismo, restaurações anteriores e presença de doença periodontal. O plano de tratamento foi estabelecido com foco na reabilitação funcional e estética, bem como na educação em saúde bucal, considerando de forma integrada as condições clínicas, emocionais e comportamentais do paciente. A responsável relatou que, em atendimentos odontológicos anteriores, o paciente havia interrompido o tratamento devido ao medo e à dificuldade de adaptação ao ambiente clínico. Diante desse histórico, estabeleceu-se que a realização de um processo de condicionamento prévio seria imprescindível antes da execução de procedimentos invasivos, com o intuito de favorecer o desenvolvimento de confiança, minimizar a ansiedade e proporcionar maior conforto ao longo das sessões. Dessa forma, optou-se pela realização dos procedimentos restauradores inicialmente, deixando a exodontia para uma etapa posterior, quando o paciente já apresentava melhor adaptação ao atendimento, garantindo um manejo mais seguro, humanizado e alinhado às suas necessidades. Antes do início do tratamento, o paciente e sua responsável legal assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) e o Termo de Assentimento Livre e Esclarecido (TALE), autorizando a divulgação do caso para fins acadêmicos.
3.1 PLANO DE TRATAMENTO:
| 1ª sessão: Anamnese, exame intra e extraoral e raspagem em todos os elementos da arcada dentária; |
| 2ª sessão: Radiografia do elemento 11; raspagem sub e supra gengival e prescrição de bochecho com digluconato de clorexidina 0,12% para terapia periodontal. |
| 3ª sessão: Raspagem sub e supragengival complementar; profilaxia e aplicação tópica de flúor; |
| 4ª sessão: Solicitação de exames complementares, exames laboratoriais e radiografia panorâmica para planejamento da exodontia das raízes residuais dos elementos 17,27 e 28, nova sessão de raspagem em todos os elementos; |
| 5ª sessão: restauração do elemento 14 (classe II); |
| 6ª sessão: restauração do elemento 12 (classe III); |
| 7ª sessão: restauração elemento 21 e 22 (classe III); |
| 8ª sessão: Exodontia das raízes residuais elementos 17,27 e 28. |
| 9ª sessão: Retirada de pontos |
| 10ª sessão: Reavaliação, raspagem e profilaxia |
3.2 TRATAMENTO:
Ao longo da primeira sessão, após a anamnese e a realização dos exames intra e extraoral, foi executada a adequação do meio bucal através de raspagem supragengival com ultrassom odontológico em todos os elementos dentários devido a progressão de sua doença periodontal. Vale ressaltar que devido seu caso de esquizofrenia, os instrumentais perfurocortantes e ademais que pudessem apresentar riscos ao paciente e a equipe, foram mantidos fora de vista desse indivíduo.
O paciente esteve constantemente acompanhado por um responsável para assegurar seu bem-estar diante de um possível desconforto que o atendimento odontológico poderia lhe causar. Devido ao uso contínuo de seus remédios, durante grande parte da consulta apresentou sonolência, o que permitiu a equipe trabalhar sem maiores interrupções
Figura 4. Recessão gengival decorrente de doença periodontal.

Figura 5 e 6. Vista oclusal superior e inferior.

Figura 7. Odontograma

Legenda: Roxo (extração indicada); Preto (extraído); Azul (restaurado); Laranja (fraturado)
Fonte: Autores (2023)
Durante seu retorno, para a 2ª sessão de atendimento, ocorreu novamente o procedimento de raspagem, desta vez supragengival e subgengival também com ultrassom odontológico. Ao finalizar a raspagem, foi administrada solução de gluconato de clorexidina 0,12% para bochecho a fim de reduzir a quantidade de bactérias na cavidade oral, auxiliando na cicatrização da inflamação gengival, o mesmo enxaguante bucal foi receitado ao paciente para uso domiciliar como um adjuvante da higienização oral.
O atendimento finalizou-se com a realização de uma radiografia do elemento 11 onde se observou elevada reabsorção óssea, indicando o comprometimento do incisivo central superior direito.
Figura 8. Radiografia periapical do elemento 11.

Figura 9. Cavidade oral após a raspagem.

Ao retorno para seu 3º atendimento, o paciente apresentou retorno do cálculo dental devido à má higienização, uma consequência apresentada devido sua doença neurodegenerativa e dificuldade nos cuidados básicos. Diante do exposto, novamente foi realizado o procedimento de raspagem supra e subgengival com ultrassom em conjunto com profilaxia e aplicação de flúor em gel, produto indicado para remineralizar elementos dentais e prevenir lesões de cárie em pacientes de médio e alto risco, como é o caso deste paciente.
Em sua 4ª consulta, foram solicitados exames laboratoriais como hemograma, coagulograma e glicemia em jejum, além de uma radiografia panorâmica a fim de avaliar e planejar a exodontia dos elementos 17, 27 e 28. Novamente houve a necessidade de realizar uma nova raspagem e profilaxia para adequação do meio bucal, visando reestabelecer a saúde oral do paciente a fim de promover melhora da resposta tecidual e minimizar possíveis riscos de infecção durante as futuras exodontias.
Durante este procedimento, o paciente apresentou novamente um quadro de sonolência, entretanto, perto de sua finalização expressou desconforto, fazendo com que a equipe acelerasse o fim da sua sessão.
Figura 10. Radiografia Panorâmica.

Em sua 5ª consulta, o paciente foi submetido ao procedimento de restauração classe III em resina composta do elemento 14, neste atendimento o paciente apresentou-se colaborativo apesar de haver uma desconfiança inicial devido o barulho ocasionado pelos instrumentos odontológicos, entretanto, com o reforço positivo de seu acompanhante e da equipe, foi possível realizar de maneira efetiva.
Durante seu 6º atendimento, foi realizada uma nova restauração classe III em resina composta, desta vez do elemento 12, sem grandes complicações ou alterações de humor.
Em sua 7ª sessão, o paciente novamente foi submetido ao procedimento de restauração classe III em resina composta, entretanto, os dentes 21 e o 22. Foi possível operar em mais de um elemento dentário devido a maior disponibilidade de tempo e disposição do próprio paciente, que se apresentava calmo no decorrer do atendimento.
Figura 11. Restaurações classe III dos elementos 21 e 22.

Para o seu 8° atendimento foram planejadas as exodontias dos elementos 17, 27 e 28. Foi aconselhado que seu acompanhante estivesse presente para o condicionamento do paciente durante o procedimento, que pode causar desconforto. Outra medida adotada foi ocultar os instrumentais cirúrgicos para evitar o máximo possível que o paciente sentisse medo e concomitantemente, uma medida de segurança para a equipe no decorrer do atendimento.
Satisfatoriamente, o paciente permaneceu calmo apesar de apresentar certa estranheza com as etapas realizadas durante a extração dentária, esta por sua vez, ocorreu de maneira rápida, segura e sem intercorrências. Ao término da sessão, foram fornecidas ao acompanhante as orientações pós-operatórias, incluindo a manutenção de adequada higiene bucal, ingestão de alimentos gelados e pastosos, aplicação de compressas frias, abstinência de bebidas alcoólicas durante o uso dos medicamentos prescritos e repouso.
Em sua prescrição medicamentosa foram receitados os seguintes fármacos: Amoxicilina 500mg (1 cápsula de 08 em 08 horas durante 07 dias), Ibuprofeno 600mg (1 comprimido de 12 em 12 horas durante 03 dias) e Dipirona Sódica 500mg (01 comprimido de 06 em 06 horas por 48, horas em casos de dor).
Figura 12. Discentes em atendimento, durante as exodontias.

Após 07 dias, em seu retorno para a remoção de sutura, o paciente apresentava boa cicatrização tecidual e pequena melhora em sua higienização oral, visto que, no pós-operatório esteve constantemente supervisionado por um acompanhante.
Em 2025, o paciente retornou para atendimento odontológico, dentre as queixas apresentadas, destacou-se a perda do incisivo central superior direito de maneira natural, elemento este que já apresentava pouca inserção periodontal. A partir deste relato, foi realizada uma nova anamnese e exame clínico que possibilitou identificar novas necessidades clínicas e pretensão de elaborar um plano de tratamento que atendesse suas demandas atuais. Inicialmente, optou-se por começar o atendimento com o procedimento de raspagem supragengival e subgengival, com o objetivo de controlar o biofilme e melhorar as condições periodontais.
No entanto, o acompanhamento odontológico foi prejudicado devido a dificuldades financeiras, que limitaram a frequência do paciente às consultas. Além disso, foi relatado que um dos medicamentos de uso contínuo se encontrava em falta, comprometendo o controle dos sintomas da esquizofrenia e, consequentemente, reduzindo a colaboração do paciente durante as consultas odontológicas.
Figura 14. Arcada dental do paciente em seu retorno.

Figura 15 e 16. Vista oclusal superior e inferior.

4 RESULTADOS E DISCUSSÕES
O presente estudo possibilitou uma análise aprofundada sobre os desafios e estratégias envolvidas no atendimento odontológico de pacientes com esquizofrenia, destacando a relevância do olhar multiprofissional e humanizado no cuidado dessa população. A partir do relato de caso apresentado, foi possível observar que as repercussões orais decorrentes do uso contínuo de psicofármacos, somadas às limitações cognitivas e comportamentais do transtorno, interferem diretamente na adesão ao tratamento e na manutenção da saúde bucal. Como refere Ramirez et al. (2022) que indica que a baixa motivação para o autocuidado, medo de procedimentos odontológicos, efeitos colaterais de medicamentos e limitações psicomotoras aumentam a vulnerabilidade, favorecendo o surgimento de cáries, doenças periodontais e, em casos mais graves, perda dentária.
Macedo & Passos (2023) afirmam que distúrbios psicossomáticos estão associados a um aumento na incidência de cáries, doenças periodontais e alterações no fluxo salivar, impactando diretamente a saúde oral. Barros et al. (2024) complementa ao apontar que alterações emocionais podem não apenas ser consequência de problemas bucais, mas também atuar como fatores desencadeantes ou agravantes desses quadros. Estes levantamentos foram observados através das numerosas sessões de raspagens realizadas durante os atendimentos, visto que, devido ao seu transtorno mental, o paciente não apresentava maior destreza durante a higienização oral.
A discussão evidencia que a atuação do cirurgião-dentista deve ir além da técnica operatória, incorporando aspectos éticos, empáticos e comunicativos, fundamentais para a criação de um vínculo terapêutico sólido. Segundo Ulisses et al. (2020) entendimento das condições do paciente é essencial para o planejamento de estratégias de cuidado odontológico adequadas, humanizadas e eficazes. A equipe observou que técnicas como ambientação prévia, linguagem simplificada, consultas curtas e em horários adequados, além do envolvimento da família e dos profissionais de saúde mental, mostraram-se essenciais para o êxito do atendimento.
Constata-se, ainda, a necessidade de ampliar o preparo dos profissionais e acadêmicos de Odontologia quanto à abordagem de pacientes com transtornos mentais, promovendo a inclusão de conteúdos sobre saúde mental na formação universitária e incentivando práticas clínicas baseadas na integralidade do cuidado. Lima et al. (2024) retrata que é comum que os cursos de graduação abordem de forma superficial a saúde mental, o que compromete a capacidade do profissional de compreender e manejar adequadamente os comportamentos típicos desses pacientes no ambiente clínico
Por fim, conclui-se que o manejo odontológico de pacientes com esquizofrenia demanda sensibilidade, planejamento individualizado e integração com outros profissionais de saúde, de modo a garantir um atendimento seguro, digno e efetivo, contribuindo para a melhoria da qualidade de vida e da autoestima desses indivíduos.
5 CONCLUSÃO/CONSIDERAÇÕES FINAIS
O relato clínico evidencia os desafios do manejo odontológico de pacientes com esquizofrenia, ressaltando a importância do planejamento individualizado, da abordagem humanizada e do apoio familiar. As repercussões orais associadas ao uso de psicofármacos e às limitações cognitivas exigem uma conduta clínica adaptada e empática.
Dessa maneira, fica evidente que o atendimento a essa população requer não apenas conhecimento técnico, mas também preparo para lidar com as complexidades da saúde mental, promovendo um cuidado integral e ético.
REFERÊNCIAS
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1Discente do Curso Superior de Odontologia, do Instituto do Centro Universitário Metropolitano da Amazônia (UNIFAMAZ) Campus Doca. E-mail: elidamarilia@outlook.com / liliaraujo32687@gmail.com / eloilsonc@outlook.com
2Docente do Curso Superior de Odontologia do Instituto Centro Universitário Metropolitano da Amazônia (UNIFAMAZ) Campus Belém-PA. Cirurgiâo-dentista; Especialista em Odontologia Hospitalar; Mestre em Estomatopologia. E-mail: danieluchoa@gmail.com
