REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ch10202510311309
Ayla Maria Ribeiro Monteiro; Cauã Renner Da Silva Galvão; Laura Karine Costa Moura; Reges Lúcio Da Silva Araújo Filho; Suellen De Sousa Vieira; Orientador: Prof. Msc. Emanuel Osvaldo de Sousa; Coorientador: Prof. Msc. Carlos Antônio da Luz Filho
RESUMO
Introdução: A fisioterapia destaca-se como uma importante aliada no processo de reabilitação das mulheres vítimas de violência sexual, sobretudo no tratamento das disfunções sexuais e dores crônicas resultantes do trauma. A atuação fisioterapêutica, em consonância com outras áreas da saúde, objetiva restaurar a funcionalidade corporal, reduzir quadros álgicos e melhorar a qualidade de vida da paciente. Objetivo: Como fisioterapia pode auxiliar na reabilitação de disfunções pélvicas em mulheres sobreviventes de abuso sexual, considerando o contexto psicossocial e físico. Relacionando os abusos sexuais e as disfunções pélvicas que ele pode causar, analisar os impactos físicos e emocionais e identificar as principais abordagens fisioterapêuticas utilizadas na reabilitação desses pacientes. Metodologia: Sobre a metodologia utilizada nesse estudo, trata-se de uma revisão bibliográfica sistemática. As pesquisas foram realizadas nas bases de dados LILACS e MEDLINE pelo Portal Regional da BVS – Biblioteca Virtual em Saúde, PubMED e Google acadêmico, com os seguintes Descritores em Ciências da Saúde (DeCS): Fisioterapia, disfunções, assoalho pélvico, Violência sexual, exercícios e Distúrbios do assoalho pélvico. Resultados: Os resultados demonstram que as principais disfunções associadas à violência sexual incluem vaginismo, dispareunia, anorgasmia e dor pélvica crônica. A fisioterapia pélvica, por meio de técnicas como cinesioterapia, eletroterapia, biofeedback, terapia manual e exercícios de Kegel, tem se mostrado eficaz na recuperação da funcionalidade muscular e na melhora da qualidade de vida dessas pacientes. Além disso, a presença de uma abordagem empática e humanizada é imprescindível, considerando os aspectos emocionais envolvidos. Conclusão: Conclui-se que a fisioterapia desempenha papel fundamental na reabilitação física e psicossocial das mulheres vítimas de abuso sexual, sendo essencial a integração com equipes multidisciplinares para garantir um cuidado integral, ético e sensível às particularidades de cada paciente.
Palavras-chave: Fisioterapia, Violência sexual e Distúrbios do assoalho pélvico.
ABSTRACT
Introduction: Physiotherapy stands out as an important ally in the rehabilitation process of women victims of sexual violence, especially in the treatment of sexual dysfunctions and chronic pain resulting from trauma. Physiotherapy, in conjunction with other areas of health, aims to restore bodily function, reduce pain, and improve the patient’s quality of life. Objective: Physiotherapy can aid in the rehabilitation of pelvic dysfunctions in women survivors of sexual abuse, considering the psychosocial and physical context. By relating sexual abuse and the pelvic dysfunctions it can cause, we analyze the physical and emotional impacts and identify the main physiotherapy approaches used in the rehabilitation of these patients. Methodology: This study’s methodology is a systematic literature review. Research was conducted in the LILACS and MEDLINE databases, through the Regional Portal of the VHL (Virtual Health Library), PubMED, and Google Scholar, using the following Health Sciences Descriptors (DeCS): Physical therapy, dysfunctions, pelvic floor, Sexual violence, exercises, and Pelvic floor disorders. Results: The results demonstrate that the main dysfunctions associated with sexual violence include vaginismus, dyspareunia, anorgasmia, and chronic pelvic pain. Pelvic physical therapy, using techniques such as kinesiotherapy, electrotherapy, biofeedback, manual therapy, and Kegel exercises, has proven effective in restoring muscle function and improving the quality of life of these patients. Furthermore, an empathetic and humanized approach is essential, considering the emotional aspects involved. Conclusion: It is concluded that physiotherapy plays a fundamental role in the physical and psychosocial rehabilitation of women victims of sexual abuse, and integration with multidisciplinary teams is essential to ensure comprehensive, ethical care that is sensitive to the particularities of each patient.
Keywords: Physiotherapy, sexual violence and pelvic floor disorders.
1. INTRODUÇÃO
A violência sexual configura-se como uma das formas mais severas de agressão à saúde humana, afetando múltiplas dimensões da vida das vítimas, tais como a integridade física, psicológica, emocional e social. Segundo Melo, Soares e Belivacqua (2022), essa forma de violência articula diferentes manifestações de abuso, resultando em consequências graves e duradouras. Embora atualmente seja considerada uma questão de saúde pública, a violência sexual só foi reconhecida como tal pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 1993 (GOV.BR, 2022).
Estudos ressaltam que experiências sexuais traumáticas estão constantemente relacionadas a alterações persistentes na função sexual e no assoalho pélvico. Segundo Högbeck e Mõller (2022), mulheres vítimas de agressão sexual manifestaram comprometimento da função sexual mesmo após meses do ocorrido, comprovando que os impactos físicos e emocionais causados perduram. Enquanto Karsten et al. (2020) analisaram que mulheres com antecedentes de traumas e sintomas de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) desenvolveram um aumento da atividade da musculatura do assoalho pélvico, mesmo que a função sexual não estivesse diretamente ligada à uma exposição traumática. Com isso, sugerem que a disfunção pélvica esteja associada tanto a respostas fisiológicas quanto psicossomáticas, enfatizando que uma abordagem multidisciplinar é indispensável.
Os resultados da revisão sistemática de Schalk et al. (2023), demonstram que os sobreviventes apresentam sintomas físicos persistentes, como dor crônica em múltiplas regiões corporais, fadiga e limitação de atividades diárias. Esses achados sugerem a presença de disfunções somáticas secundárias ao trauma, possivelmente relacionadas ao aumento do tônus muscular, alterações autonômicas e padrões de tensão corporal crônicos — aspectos frequentemente observados na prática fisioterapêutica. Para profissionais da área, essa constatação reforça a importância da abordagem corporal integrada e do uso de recursos terapêuticos voltados para o alívio da dor e a restauração da função física.
Em consonância com essas evidências, pesquisas recentes reforçam que o trauma sexual produz não apenas repercussões emocionais, mas também respostas neuromusculares automáticas que interferem na função do assoalho pélvico e na resposta terapêutica. O editorial de Stirling et al. (2021) ressalta que sobreviventes de agressão sexual apresentam maior prevalência de disfunções pélvicas, como incontinência urinária, constipação e dor pélvica crônica, quando comparadas à população geral. As autoras defendem que o fisioterapeuta deve adotar uma abordagem informada pelo trauma, fundamentada em princípios de segurança, confiança, empatia e empoderamento da paciente, de modo a prevenir a reativação de lembranças traumáticas durante o tratamento.
De forma complementar, Stirling et al. (2025) destaca que o trauma sexual pode provocar respostas fisiológicas involuntárias, como imobilidade tônica, hipervigilância, tensão muscular e retraimento corporal, dificultando a condução das terapias convencionais. O manejo fisioterapêutico deve, portanto, priorizar o consentimento contínuo, a exposição gradual e a comunicação não ameaçadora, favorecendo a sensação de controle e segurança da paciente. O estudo também evidencia o papel essencial da fisioterapia pélvica na reconstrução da consciência corporal e no restabelecimento da autonomia física e emocional da mulher sobrevivente.
O acolhimento às vítimas de violência sexual deve ser realizado de forma integral e humanizada pelos profissionais de saúde. As Unidades Básicas de Saúde (UBS) exercem papel crucial nesse processo, sendo, em muitos casos, a porta de entrada dessas mulheres no sistema de saúde. Todavia, a identificação dos casos nem sempre ocorre de forma espontânea, uma vez que muitas vítimas não verbalizam o abuso sofrido. Por esse motivo, torna-se essencial que os profissionais estejam capacitados para reconhecer os sinais de violência, oferecendo suporte físico e emocional adequados (GOV.BR, 2022).
A fisioterapia destaca-se como uma importante aliada no processo de reabilitação das mulheres vítimas de violência sexual, sobretudo no tratamento das disfunções sexuais e dores crônicas resultantes do trauma. A atuação fisioterapêutica, em consonância com outras áreas da saúde, objetiva restaurar a funcionalidade corporal, reduzir quadros álgicos e melhorar a qualidade de vida da paciente. A fisioterapia pélvica, em especial, contribui significativamente para a reeducação muscular, o alívio da dor e a recuperação da função sexual, sempre respeitando os limites físicos e emocionais da mulher. Dessa maneira, a fisioterapia configura-se como uma ferramenta fundamental no processo de recuperação, promovendo não apenas a reabilitação física, mas também o resgate da autoestima e do bem-estar das vítimas.
A problemática é de que forma a fisioterapia pode auxiliar na reabilitação de disfunções pélvicas em mulheres sobreviventes de abuso sexual, considerando o contexto psicossocial e físico?
O objetivo é investigar como a fisioterapia pode contribuir para a recuperação física e emocional de mulheres que sofreram abuso sexual, promovendo melhoria na qualidade de vida e no bem-estar desses pacientes.
E como objetivos específicos, relacionar os abusos sexuais que mais provocam as disfunções pélvicas, analisar os impactos físicos e emocionais do abuso sexual que podem ser tratados pela fisioterapia, e identificar as principais abordagens fisioterapêuticas utilizadas na reabilitação desses pacientes.
Esse tema se justifica porque mulheres que sofreram abuso sexual frequentemente desenvolvem disfunções pélvicas, problemas de aceitação corporal e outros danos físicos, psicológicos e sociais, impactando diretamente na sua qualidade de vida e no bem-estar. No entanto, ainda que seja uma temática relevante, há uma carência de informações e barreiras para a atuação do fisioterapeuta especialista no tratamento dessas disfunções.
Nesse contexto, este estudo visa mostrar a importância da fisioterapia em mulheres que sofreram violência sexual, orientando e promovendo os cuidados necessários para estas, que estão em situação de vulnerabilidade psicológica, emocional e física, buscando aprofundar conhecimentos sobre a atuação da fisioterapia pélvica afim de promover um tratamento específico, melhora da dor, reabilitação de possíveis músculos danificados e devolução de funcionalidade. Além disso, a fisioterapia juntamente com a equipe multidisciplinar irá contribuir na prevenção de infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), depressão, suicídio e com a reabilitação não só do assoalho pélvico, mas do corpo de uma forma geral.
2. METODOLOGIA
Sobre a metodologia utilizada nesse estudo, trata-se de uma revisão bibliográfica sistemática. A revisão sistemática é uma pesquisa que faz um mapeamento sobre publicações de estudos de secundários para encontrar, identificar, escolher, analisar e resumir informações sobre estudos de um determinado campo específico, este tipo de revisão trabalha para responder uma pergunta especifica com o objetivo de prover uma visão ampla e íntegra do estudo pesquisado e depreciar vieses (Antloga et al., 2020).
Para o desenvolvimento deste estudo, foi feita a seguinte pergunta: “De que forma a fisioterapia pode auxiliar na reabilitação de disfunções pélvicas em mulheres sobreviventes de abuso sexual, considerando o contexto psicossocial e físico?”. Este estudo tem relevância no âmbito acadêmico, científico e social, pois trata de patologias e disfunções do assoalho pélvico decorrente de violência sexual.
As pesquisas foram realizadas nas bases de dados LILACS e MEDLINE pelo Portal Regional da BVS – Biblioteca Virtual em Saúde, PubMED e Google acadêmico, com os seguintes Descritores em Ciências da Saúde (DeCS): Fisioterapia, disfunções, assoalho pélvico, Violência sexual, exercícios e Distúrbios do assoalho pélvico, tanto em português como em inglês, usando o operador booleano( AND).
Os critérios de inclusão foram estudos dos últimos 5 anos, pesquisas dentro do idioma português (Brasil) e inglês, artigos, revistas cientificas, estudos sobre a atuação da fisioterapia na violência e abuso sexual em mulheres, e disfunções decorrentes da violência. Para o de exclusão foram descartados estudos incompletos, estudos pagos e estudos que não se encaixam em violência e abuso sexual em mulheres na área da fisioterapia.
3. RESULTADOS
Tabela de resultados
| AUTORES / ANO | OBJETIVOS | MÉTODO | CONCLUSÃO |
| BESSA at al, 2024 | Compreender o impacto da fisioterapia pélvica no tratamento de pacientes com disfunções sexuais decorrentes de violência | Revisão Bibliográfica | A fisioterapia pélvica é uma ferramenta eficaz no tratamento de disfunções sexuais decorrentes de violência, pois fortalece e reabilita a musculatura do assoalho pélvico, melhora a consciência corporal e contribui para o bem-estar físico, psicológico e sexual das pacientes. Além de favorecer a recuperação da autoestima e qualidade de vida. |
| PRATES, F. R.; SILVA, L. P.; NASCIMENTO, R. S.; MARINHO, M. L. (2021) | Reconhecer e analisar a atuação da fisioterapia no tratamento das disfunções sexuais femininas, evidenciando técnicas e benefícios. | Revisão integrativa da literatura | A fisioterapia apresenta eficácia, contribuindo para a reabilitação sexual feminina, melhorando desconforto, função muscular e promovendo qualidade de vida. |
| DE LA OSSA, A. M. P. et al. (2023) | Investigar a prevalência de disfunção do assoalho pélvico e transtornos psicológicos em pacientes de centros de reabilitação. | Estudo transversal com aplicação de questionários clínicos e psicológicos. | Verificou-se alta prevalência de disfunção pélvica e distúrbios emocionais, reforçando a importância de integração entre fisioterapia pélvica e cuidados psicológicos |
| AMORIM, T.B. de et al. 2023 | Evidenciar a eficácia da assistência fisioterapêutica em casos de violência sexual contra mulheres | Revisão Integrativa | A fisioterapia desempenha um papel essencial na reabilitação física e emocional de mulheres vítimas de violência sexual, atuando de forma interdisciplinar no alívio da dor, na reeducação perineal, na restauração da função corporal e na promoção da qualidade de vida. |
| FERNÁNDEZ PÉREZ et al. (2023) | Estimar a eficácia de interversões fisioterapêuticas em mulheres com dispareunia. | Utilização de Estimulação Elétrica Nervosa Transcutânea com parâmetros de 8 Hz duração de pulso de 260 ms e 86 Hz com duração de pulso de 75 ms, duas vezes ao dia por vinte minutos com intervalo de doze horas, exercícios e liberação miofascial. | Pacientes que receberam maiores dosagens de Estimulação Elétrica Nervosa Transcutânea, juntamente com exercícios e liberação miofascial, obtiveram maiores resultados no alívio da dor. |
| MOLINA‐ TORRES, G. et al. (2022) | Verificar a eficácia de exercícios hipopressivos em disfunções do assoalho pélvico e na incontinência urinária. | Mulheres de 18 a 60 anos com disfunções no assoalho pélvico, divididos em dois grupos, onde um recebeu tratamento e outro não. Exercícios hipocompressivos por 20 minutos, duas vezes na semana, durante um período de 2 meses. | O grupo que recebeu orientações e tratamentos hipocompressivos teve melhora nas disfunções do assoalho pélvico e da incontinência urinária. |
| COSTA, E. A. G.; SILVA, J. C.; FERRO, T. N. L. (2022) | Analisar a intervenção da fisioterapia sobre a qualidade de vida em mulheres com vaginismo, com enfoque em vítimas de abuso sexual. | Revisão narrativa da literatura | Notou-se que fisioterapia é eficaz e possui impacto significativo no bem estar e satisfação sexual de mulheres com vaginismo, mas que ainda há necessidade de novas pesquisas e mais estudos sobre a temática. |
| CAMPANER, A. B. et al. (2025) | Avaliar o uso de novas tecnologias em conjunto com fisioterapia pélvica no tratamento de disfunções do assoalho pélvico | Revisão de literatura sobre tecnologias terapêuticas aplicadas à fisioterapia pélvica | Dispositivos de energia aliados a exercícios pélvicos mostraram melhora da força muscular, resistência e função sexual, sendo complementares à fisioterapia convencional |
FONTE: autor próprio (2025)
Com o uso dos descritores e os critérios de inclusão e exclusão, foram achados 684 artigos. Dos 145 da PUBMED, 2 foram incluídos, dos 225 do Google acadêmico somente 4 foram incluídos, dos 314 da MEDLINE e LILACS, pelo portal da BVS, somente 2 foram incluídos. No total 8 artigos foram utilizados.
4. DISCUSSÃO
Nessa etapa, serão discutidos os resultados obtidos do estudo relacionado a atuação da fisioterapia pélvica em disfunções causadas por violência sexual. Esse processo de discussão é oriundo de uma análise minuciosa de artigos que contemplam os critérios de inclusão explanando o bem-estar físico, psíquico e emocional das mulheres em vulnerabilidade.
Em Bessa et al, (2024), avança ao reunir evidências de que a fisioterapia pélvica é uma alternativa terapêutica válida, mostrando seus benefícios físicos e emocionais em sobreviventes de violência sexual. Ele ajuda a consolidar a noção de que não se trata só de corrigir a musculatura, mas de restaurar a função sexual, bem estar e auto estima.
O estudo de Prates et al. (2021) relata que as disfunções sexuais evidenciam um problema relevante à saúde pública, com repercussões que impactam diretamente o bem-estar físico, emocional e social das vítimas. Descreve ainda que as disfunções sexuais femininas — como vaginismo, dispareunia, anorgasmia e dor pélvica crônica — possuem causas multifatoriais, envolvendo aspectos biológicos, psicológicos e socioculturais, reforçando a importância de uma abordagem multidisciplinar.
O estudo de De La Ossa et al. (2023) destacou que pacientes em acompanhamento fisioterapêutico apresentaram alta prevalência de disfunções do assoalho pélvico, o que indicou a necessidade de detecção precoce dos sintomas e de implementação de estratégias terapêuticas específicas. Além disso, o estudo ressaltou que a atuação do fisioterapeuta foi determinante na identificação dos sinais clínicos, no aconselhamento e no encaminhamento dos pacientes para tratamentos adequados, fatores essenciais para mitigar os impactos físicos e psicológicos decorrentes do trauma sexual. Essa constatação esteve em consonância com a literatura, que apontou que mulheres vítimas de abuso sexual frequentemente apresentaram alterações musculares, dor pélvica crônica, disfunções miccionais e sexuais, necessitando de abordagem especializada e multidisciplinar.
Amorim et al. (2023), amplia a compreensão do papel da fisioterapia diante das múltiplas consequências da violência sexual, dialogando diretamente com o estudo de Bessa et al. (2024). Assim como o trabalho de Bessa, o estudo de Amorim destaca a importância da atuação fisioterapêutica na reabilitação de mulheres sobreviventes de abuso sexual, mas com um enfoque ainda mais abrangente, que abarca desde o acolhimento inicial até o tratamento das sequelas físicas e emocionais. Ambos os estudos reconhecem que as disfunções pélvicas e sexuais decorrentes da violência não se limitam a danos anatômicos, mas envolvem sofrimento psicológico, vergonha, medo e perda de autonomia corporal, exigindo uma abordagem terapêutica sensível e interdisciplinar.
Assim, o artigo de Amorim et al. (2023) complementa e aprofunda a discussão iniciada por Bessa et al. (2024), ao apresentar uma visão mais ampla da atuação fisioterapêutica — não restrita ao tratamento das disfunções pélvicas, mas também engajada na promoção de um cuidado integral, humanizado e interdisciplinar. Embora ainda existam limitações metodológicas e falta de evidências clínicas robustas, ambos os estudos convergem na defesa de que a fisioterapia é uma ferramenta essencial no processo de reabilitação e empoderamento de mulheres vítimas de violência sexual, desde que associada a práticas éticas, acolhedoras e integradas ao contexto psicossocial da paciente.
De acordo com Prates et al. (2021), dentre os principais recursos fisioterapêuticos, destacam-se a cinesioterapia, que auxilia no fortalecimento do assoalho pélvico e, consequentemente, na melhora do controle da musculatura; o trabalho manual, que promove o relaxamento e contribui para a redução da dor, proporcionando maior conforto durante o ato sexual; o biofeedback que ajuda no controle voluntário da contração muscular; e a eletroestimulação, que age no alívio da dor e no reforço dos músculos da pelve. Essas condutas evidenciaram bons resultados, refletindo na diminuição de dor e do desconforto, bem como na melhora da autoestima e satisfação sexual.
Fernández-Pérez et al. (2023), pesquisou sobre as técnicas de Estimulação Elétrica Nervosa Transcutânea (TENS), liberação miofascial, treinamento abdominal e exercícios dos músculos do assoalho pélvico. Foi mensurado a eficácia do TENS com aplicação em casa e/ou no consultório, onde foram utilizados parâmetros de 8 Hz duração de pulso de 260 ms e 86 Hz com duração de pulso de 75 ms, duas vezes ao dia por 20 minutos com intervalo de doze horas. Não houve melhora considerável, em comparação, participantes que receberam maiores frequências associados a exercícios e treinamento dos músculos do assoalho pélvico, tiveram maiores resultados no ganho de força e no alívio da dor.
Molina‐Torres et al. (2022), se utilizou de exercícios hipopressivos para o fortalecimento do assoalho pélvico como tratamento padrão ouro. Foram selecionados participantes mulheres entre 18 e 60 anos com disfunções do assoalho pélvico, onde foram divididos em dois grupos (Grupo Experimental e Grupo Controle. O Grupo Experimental foi orientado com posturas hipopressivas, alongamentos e projeção do centro de gravidade, enquanto o Grupo Controle foi orientado a não fazer nenhum tipo de exercício. Durante um tratamento de oito semanas com realização de exercícios duas vezes por semana durante vinte minutos, o Grupo Experimental teve uma melhora significativa.
O artigo de Costa, Silva e Ferro (2022) investigou a correlação entre relatos de violência sexual e o desenvolvimento de vaginismo, discutindo como a fisioterapia foi empregada no tratamento. Segundo os autores, a disfunção é identificada por contrações involuntárias da musculatura vaginal, que interfere na penetração e afeta a vida sexual e afetiva da mulher. Evidenciaram ainda que o vaginismo pode comprometer a qualidade física e emocional de suas vítimas e que a vivência de experiências traumáticas pode desencadear mecanismos (p.ex., reflexo de retração, medo, condicionamento).
Dessa forma, é preciso que o tratamento ocorra dentro de uma abordagem multidisciplinar, onde no contexto fisioterapêutico foi descrito técnicas eficazes, como dessensibilização progressiva, relaxamento muscular e treino de contração/relaxamento do assoalho pélvico. Esse artigo serve para justificar a inclusão de protocolos específicos para vaginismo dentro do escopo da fisioterapia pélvica voltada a sobreviventes de violência.
De forma complementar, Campaner et al. (2025) demonstraram que a utilização de novas tecnologias associadas ao treinamento dos músculos do assoalho pélvico (PFMT) resultou em melhorias expressivas na força muscular, resistência, função sexual e redução dos sintomas de incontinência urinária. Esses resultados sugeriram que tais tecnologias, quando integradas às práticas fisioterapêuticas convencionais, potencializaram os efeitos do tratamento e representaram uma alternativa eficaz, especialmente em mulheres pós-menopausa ou naquelas que não responderam a métodos tradicionais. Tais achados evidenciaram o avanço dos recursos terapêuticos e a ampliação das possibilidades de intervenção dentro da fisioterapia pélvica, ampliando a eficácia do tratamento reabilitador.
Contudo, como destacam Prates et al. (2021), apesar da escassez de estudos que melhorem a vivência prática baseada em evidências, os resultados se mostram promissores e eficazes.
5. CONCLUSÃO
A presente revisão evidenciou que as disfunções geradas pela violência sexual são multifatoriais e profundamente ligadas ao psicológico e emocional do paciente. Todavia a fisioterapia pélvica desempenhou um papel essencial no processo de reabilitação atuando tanto na restauração funcional do assoalho pélvico quanto na melhoria da qualidade de vida dessas pacientes.
Entre diversas estratégias de tratamento, ficou evidente cientificamente que a fisioterapia atua na melhora emocional, já que lida com disfunções decorrente de traumas sexuais melhorando a qualidade de vida, e fisicamente, pois usa de diferentes tratamentos, por exemplo, biofeedback e cinesioterapia, para o alivio das sequelas decorrentes da violência sexual.
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