PROFILE OF USERS OF MEDICINAL PLANTS OF TWO FAMILY HEALTH UNITS OF THE SANITARY DISTRICT IV, RECIFE – PE, BRAZIL
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202510311310
Elton Gustavo José de Souza1
José Gildo de Lima2
RESUMO
O uso de plantas medicinais é uma prática antiga das civilizações e que contribuiu para o desenvolvimento dos seres humanos. A partir da compreensão da importância do uso de plantas medicinais nas comunidades, o presente estudo descritivo, do tipo exploratório, de corte transversal teve como objetivo traçar o perfil dos usuários de plantas medicinais de duas Unidades de Saúde da Família (USF) da cidade de Recife – PE. Para tal, utilizou-se um questionário semiestruturado que foi aplicado nas salas de espera das USF Sítio Wanderley e Campo do Banco, Distrito Sanitário IV, para um público maior de 18 anos e que tenham feito uso de pelo menos uma planta medicinal nos últimos doze meses. Foram entrevistados 62 usuários, cujo gênero feminino (91,9%), faixa etária de 41 – 65 anos (66,1%), ensino fundamental incompleto (35,5%), renda familiar mensal de até 1 salário mínimo (61,3%) e religião cristã-católica (50%) foram predominantes. Observou-se que a compra em casas de ervas (39,5%) era a principal forma de obtenção das plantas medicinais pelos entrevistados, e que a família (60%) foi apontada como principal referência quanto à origem do conhecimento popular das plantas medicinais. Ainda, verificou-se o uso predominante das folhas (221 citações) e do chá (80,6%) – sobretudo o decocto (76,6%) – como método de preparo mais citados pelos entrevistados; já a principal indicação terapêutica citada foi calmante (77 citações). Dentre as plantas mais citadas pelos entrevistados estavam o capim santo, boldo e erva cidreira.
Palavras-chave: Atenção básica; etnobotânica; fitoterapia.
ABSTRACT
The use of medicinal plants is an ancient practice of civilizations and has contributed to the development of human beings. From the understanding of the importance of the use of medicinal plants in the communities, the present exploratory, cross – sectional, descriptive study aimed to trace a profile of the users of medicinal plants of two Family Health Units (USF) of the city of Recife, PE, Brazil. For this purpose, a semi-structured questionnaire was used, which was applied, in the waiting rooms of the USF Sítio Wanderley and Campo do Banco, Sanitary District IV of Recife, to a public over 18 years old and who have made use of at least one medicinal plant in the last twelve months. A total of 62 female users (91.9%), 4165 years old (66.1%), incomplete elementary school (35.5%) and monthly family income of up to 1 minimum wage were interviewed (61,3%) and Christian-Catholic religion (50%) were predominant. It was observed that the purchase in herbal houses (39.5%) was the main way of obtaining medicinal plants by them, and that the family (60%) was pointed as the main reference regarding the origin of popular knowledge of medicinal plants. Also, the predominant use of leaves (221 citations) and tea (80.6%) – mainly decoction (76.6%) – was verified as the method of preparation most cited by the interviewees; Sooting was the main therapeutic indication cited (77 citations). Among the plants most cited by the interviewees were the holy grass, boldo and lemon grass.
Keywords: Primary healthcare; ethnobotany; phytoterapy.
INTRODUÇÃO
O uso popular de plantas medicinais é algo presente desde os primórdios das civilizações e foi de fundamental importância para o desenvolvimento e sobrevivência dos seres humanos.1,2 A utilização de plantas medicinais é amparada na tradição familiar e constitui parte essencial da medicina popular. Nos dias atuais, esse recurso tem sido cada vez mais recorrido, uma vez que os altos custos dos medicamentos industrializados e a dificuldade de acesso da população à assistência à saúde estimula à procura pela medicina popular bem como a recente tendência de procura por produtos de origem natural.3
Nas comunidades tradicionais a oralidade é a principal forma a qual o conhecimento é transmitido. Para isso se faz necessário a vivência junto aos mais antigos para que o conhecimento seja repassado. Entretanto, nas comunidades urbanas não ocorre dessa forma e com o passar das gerações essas informações vão sendo perdidas, fato que fundamenta a busca pelo resgate desses conhecimentos.4
Diante disso, a etnobotânica se constitui como a ciência que estuda e aprecia o conhecimento que o ser humano tem em relação ao uso de plantas, possibilitando traçar o perfil de uma comunidade e sua relação com as plantas, considerando as peculiaridades e costumes que cada comunidade tem com o objetivo de obter informações importantes referentes ao uso medicinal, alimentar e tóxico delas.5
As pesquisas etnobotânicas voltadas às plantas medicinais possibilitam, a partir da valorização do conhecimento empírico da sociedade, a geração de conhecimento científico e tecnológico, além do uso sustentável da biodiversidade e dos recursos naturais.6
Para além disso, a Estratégia Saúde da Família (ESF) é uma estratégia tida pelo Ministério da Saúde, a partir de 2011, para expansão, qualificação e consolidação da atenção básica, visando a sua reorganização no Brasil, revogando o modelo assistencial vigente onde o atendimento ao usuário é feito de forma emergencial, sobretudo nos hospitais, de acordo com os preceitos do Sistema Único de Saúde (SUS). A ESF estabelece o atendimento à população em uma Unidade básica de Saúde (UBS), a partir do seu território adstrito, composta por uma equipe multiprofissional (Agente Comunitário de Saúde, Médico, Enfermeiro, Cirurgião dentista, Técnico de enfermagem e Técnico de Saúde Bucal) garantindo a promoção e a proteção à saúde, prevenção de agravos, o diagnóstico, o tratamento, a reabilitação, a redução de danos e a manutenção da saúde na qual deve adscrever usuários e criar relações de vínculo.7
Segundo Noumi & colaboradores8, a inclusão da fitoterapia na atenção primária em saúde inclui a possibilidade de não só gerar benefícios à saúde da população bem como vantagens de aspectos econômicos, uma vez que essa possibilidade de alternativa terapêutica proporciona o emprego terapêutico do princípio ativo das plantas medicinais sem se fazer necessário utilizar de técnicas rebuscadas e onerosas de extração, isolamento e purificação.
Desde 1978 a Organização Mundial de Saúde (OMS), após Conferência Internacional sobre Atenção Primária em Saúde, em declaração de Alma-Ata, recomenda aos países a formulação de políticas que fomentem o uso de remédios tradicionais de eficácia comprovada e a incorporação dos detentores de conhecimentos tradicionais às atividades da Atenção Primária em Saúde.9
No Brasil, em 2005, por meio de Decreto presidencial, foi criada uma comissão interministerial a fim de elaborar a Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos (PNPMF). A PNPMF, aprovada em 2006, possui entre as suas diretrizes “promover e reconhecer as práticas populares de uso de plantas medicinais e remédios caseiros” estabelecendo parcerias prioritárias com povos indígenas, povos de matriz africana (comunidades tradicionais) e também com os movimentos sociais do campo, oferecendo-lhes capacitação, além de “fomentar pesquisa, desenvolvimento tecnológico e inovação com base na biodiversidade brasileira, abrangendo espécies vegetais nativas e exóticas adaptadas, priorizando as necessidades epidemiológicas da população”.10
Também, dentro deste contexto surgiu a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares, aprovada em 2006, a fim de garantir a universalidade e integralidade do cuidado, estabelecendo, dentre outras, diretrizes para o uso de plantas medicinais e fitoterapia em todas as áreas de atenção do SUS, com foco principal na atenção básica. Assim, ficou assegurado o provimento à população de medicamentos fitoterápicos bem como a elaboração da Relação Nacional de Plantas Medicinais e Relação Nacional de Fitoterápicos, além da promoção ao uso racional de plantas medicinais e fitoterápicos.11
Diante do exposto, o presente estudo objetiva identificar o perfil dos usuários de plantas medicinais de duas Unidades de Saúde da Família (USF) da Cidade do Recife – PE, obtendo dados sociodemográficos, listando as plantas mais utilizadas, as formas de utilização (dados etnobotânicos) e o rastreamento da origem do conhecimento popular visando compreender o uso de plantas medicinais nas comunidades, contribuir para o fortalecimento da fitoterapia na atenção primária à saúde como preconiza o SUS e promover o seu uso racional.
MATERIAIS E MÉTODOS
A presente pesquisa tratou-se de um estudo descritivo exploratório de corte transversal com abordagem quantitativa por meio de aplicação de um questionário semiestruturado.
O estudo foi realizado no bairro da Várzea, Recife – PE, no território adstrito das USF Sítio Wanderley e Campo do Banco entre os meses de Novembro e Dezembro de 2017. As USF em estudo compõem o Distrito Sanitário IV da Cidade de Recife – PE e fazem fronteira territorial, o que possibilitou traçar o perfil dos usuários de plantas medicinais de comunidades vizinhas. O bairro da Várzea tem uma população estimada em 70.453 habitantes e possui cerca de 21.695 domicílios.12
O estudo abrangeu a população com idade maior ou igual a 18 anos que utilizem ou tenham utilizado plantas medicinais pelo menos nos últimos doze meses e que fossem usuários cadastrados nas USF em estudo.
Para a coleta de dados, realizou-se uma entrevista a partir de um questionário semiestruturado, de maneira aleatória, nas salas de espera das USF tendo como questões norteadoras os perfis sociodemográficos (gênero, faixa etária, escolaridade, renda e religião), etnobotânicos (espécie utilizada, indicação terapêutica, parte utilizada, forma de preparo, reação adversa) e a origem do conhecimento popular (onde ou com quem aprendeu essas informações).
Não foi feita a coleta nem a identificação botânica (taxonomia) das plantas medicinais citadas pelos usuários.
Para a análise dos dados foi construído um banco de dados a partir das informações obtidas através das entrevistas onde os dados foram codificados e tratados no programa estatístico Microsoft Excel 2010® e descrito por meio dos elementos da estatística descritiva.
O estudo apresentou o risco de desconforto e constrangimento quanto à obtenção dos dados sociodemográficos e etnobotânicos. A fim de minimizar esses riscos, o voluntário não necessitou responder às questões que não se sentiu confortável, além de ter tido a garantia de realização da entrevista em local reservado.
O estudo foi submetido ao Comitê de Ética em Pesquisa Envolvendo Seres Humanos da Universidade Federal de Pernambuco (CEP – UFPE), onde recebeu parecer “Aprovado” e foi registrado sob o n. 2.361.884 e protocolo CAAE 78654617.2.0000.5208, seguindo as determinações da Resolução n. 466/12 do Conselho Nacional de Saúde (CNS). Para participação na pesquisa foi necessário a assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Os dados coletados nessa pesquisa foram arquivados em pasta arquivo e o banco de dados gerado será arquivado em computador pessoal do pesquisador principal no período de no mínimo, cinco (5) anos.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Entrevistou-se 62 usuários, sendo 23 vinculados à USF Campo do Banco e 39 vinculados à USF Sítio Wanderley. Do total, 57 (91,9%) eram do gênero feminino e 5 (8,1%) do gênero masculino. Estes dados corroboram com os obtidos em Palmeira das Missões – RS, por Battisti & colaboradores13, em Garanhuns – PE, por Carvalho & colaboradores14 e em Campina Grande – PB, por Silva & colaboradores15 e justifica-se pelo fato das mulheres estarem mais presentes nas USF e serem a principal responsável pelo cuidado da família.
Quanto ao perfil sociodemográfico (tabela 1), prevaleceram a faixa etária de 41 a 65 anos (66,1%); já o nível de escolaridade de maior ocorrência ficou entre os usuários com ensino fundamental incompleto (35,5%). A faixa de renda de 0 a 1 salário mínimo (61,3%) e a religião cristã-católica (50%) também se sobressaíram dentre as demais.
Tabela 1 – Distribuição dos entrevistados nas USF Sítio Wanderley e Campo do Banco, Distrito Sanitário IV, Recife – PE, quanto ao perfil sociodemográfico.

Fonte: dados da pesquisa.
Os dados referentes à faixa etária do presente estudo estão em consonância com os observados por Brasileiro & colaboradores16 em Governador Valadares – MG e Battisti & colaboradores.13 Os dados de renda e escolaridade do presente reverberaram os dados obtidos por Souza & colaboradores17 em Campina Grande, PB, que também observaram uma predominância da faixa de renda de até 1 salário mínimo e ensino fundamental incompleto entre os usuários de UBS.
Quando questionados sobre o local de obtenção (tabela 2) e a origem do seu conhecimento sobre plantas medicinais (tabela 3), possibilitou-se ao entrevistado indicar mais de uma resposta. Quanto ao local de obtenção das plantas medicinais, obteve-se um total de 81 indicações de resposta, sendo as mais prevalentes a obtenção das plantas medicinais em casas de ervas (39,5%), seguido de plantação própria (27,2%) e vizinhos e amigos (21%). Já a origem do conhecimento popular sobre o uso de plantas medicinais gerou a indicação de 85 respostas, sendo a família (60%) a mais recorrente, seguida dos meios de comunicação (16,5%) e vizinhos e amigos (10,6%).
Tabela 2 – Indicação de local de obtenção citados pelos entrevistados nas USF Campo do Banco e Sítio Wanderley, Distrito Sanitário IV, Recife- PE.

Fonte: dados da pesquisa.
Tabela 3 – Indicação de origem do conhecimento popular de plantas medicinais, citados pelos entrevistados nas USF Campo do Banco e Sítio Wanderley, Distrito Sanitário IV, Recife – PE.

Fonte: dados da pesquisa.
Brasileiro & colaboradores16, em seu estudo, observaram a predominância do próprio cultivo das plantas medicinais por usuários do, então, “Programa Saúde da Família”. No que se refere a origem do conhecimento popular de plantas medicinais, Feijó & colaboradores18 observaram, em levantamento na cidade de Ilhéus – Bahia, que as mães eram responsáveis pela transmissão do conhecimento, mesmo dado observado por Souza & colaboradores17 em Garanhuns – PE, e que coaduna com os dados obtidos pelo presente estudo que apontou a família como a principal responsável pela transmissão do conhecimento popular.
No que se refere a indicação de plantas medicinais pelos profissionais de saúde, o resultado obtido no presente trabalho demonstra uma falha ou até mesmo ausência na implantação e execução das políticas públicas voltadas à fitoterapia na atenção primária, uma vez que essas políticas estimulam o trabalho com plantas medicinais a partir da orientação do profissional de saúde, inclusive como forma de promoção do uso racional das mesmas. Já o uso popular orientado pela religiosidade não apresentou resultado significativo, embora a PNPMF considere o considere o conhecimento religioso das comunidades tradicionais estratégico para estimular o uso racional de plantas medicinais e gerar subsídios para novas descobertas a partir do conhecimento científico.
Quando solicitado aos entrevistados informar quais plantas mais utilizam no dia-a-dia, também solicitou-se que indicasse qual(is) sua(s) respectiva(s) indicação terapêutica, parte(s) da planta utiliza, seu(s) modo(s) de preparo e se apresentou alguma reação adversa durante o uso medicinal de alguma preparação da planta medicinal citada.
Obteve-se 330 citações referentes a 85 nomes populares de plantas cujos entrevistados relataram fazer uso medicinal, tendo assim uma média de 5,3 citações por entrevista. A média de citações por entrevista deste estudo ratifica a tendência observada por Feijó & colaboradores18, que obtiveram uma média de 9,29 citações por entrevista, resguardando as suas devidas proporções e peculiaridades.
Das 330 citações de plantas com fins medicinais, apenas uma citação referiu a ocorrência de reação adversa. A enxaqueca foi apresentada, pelo entrevistado, como reação adversa da planta conhecida como “Amora miúra”; as demais citações de plantas não relataram ocorrência de reações adversas. No entanto, em estudo da atividade antinociceptiva do extrato etanólico das folhas de Morus nigra L. (Moraceae), conhecida popularmente como Amora miúra, indicou resultados positivos que demonstram atividade antinociceptiva (inibição da percepção da dor) de mecanismos de ação periférica.19 Tal relato de reação adversa pode ser justificado pelo fato de não se ter certeza da procedência da espécie utilizada pelo entrevistado, uma vez que não houve coleta e identificação taxonômica da planta podendo implicar numa divergência com os dados literários, alguma interação farmacológica não relacionada entre a planta utilizada e outro medicamento possa fazer uso, ou até mesmo por algum mecanismo disparador da enxaqueca como, por exemplo, o cheiro.
Quando questionados sobre o modo de preparo e vias de administração que costumam utilizar, os entrevistados puderam indicar mais de uma resposta por planta medicinal por eles citadas, uma vez que uma planta medicinal pode ser preparada para o consumo de várias formas. Foram, então, obtidas 346 respostas para o modo de preparo e 349 respostas para via de administração, uma vez que existe a possibilidade de um modo de preparo poder ser administrado por mais de uma via de administração.
No tocante ao modo de preparo (tabela 4) o Chá (80,6%) foi o predominante, sendo o método extrativo decocção (76,6%) mais recorrido pelos usuários que o método infusão, que fora relatado por apenas 4% das citações, sendo este menos predominante que os modos de preparo lambedor (6,6%) e suco (4,3%). Silva & colaboradores15 encontraram, em seu estudo, a predominância da infusão como método extrativo prevalente, já Brasileiro & colaboradores16 relataram o uso do decocto com maior prevalência que o do infuso, dado que reverbera os obtidos neste estudo.
A via de administração de maior prevalência entre as citações foi a via oral (88,2%), seguida da via tópica (10,6%), respiratória (0,8%) e anal (0,3%). A alta citação de “chá” reflete a alta citação da via de administração “oral” uma vez que, culturalmente, os chás são mais ingeridos pela população, mas também podem ser administrados por via tópica, a depender da sua indicação terapêutica.
Tabela 4 – Distribuição das citações de modo de preparo pelos entrevistados nas USF Campo do Banco e Sítio Wanderley, Distrito Sanitário IV, Recife-PE.


Fonte: dados da pesquisa.
No que se refere às partes das plantas medicinais utilizadas obtiveram-se 352 citações, uma vez que há a possibilidade de se utilizar mais de uma parte da planta para uso medicinal, sendo as folhas as mais recorridas com 221 citações, seguida das flores/inflorescência – citadas 53 vezes, caule/entrecasca com 45 citações, fruto com 13 citações, raiz e semente com 8 citações cada e o “leite” (látex) com 3 citações. Em uma das citações o entrevistado não soube ou não respondeu qual ou quais partes da planta faz uso.
A predominância do uso das folhas era um resultado já esperado, uma vez que elas são o recurso vegetal mais abundante na natureza – fato este que se reflete nas plantas medicinais cuja maioria se apresentam como ervas – e com maior potencial de reposição natural pela planta quando retirado da natureza.
Em relação aos nomes populares de plantas, as que mais tiveram citação de uso foi o capim santo (34 citações), boldo (31 citações), erva cidreira (26 citações), camomila (24 citações), erva doce (19 citações), colônia e aroeira (11 citações, cada) e alfavaca (10 citações). A relação completa de todas as plantas citadas pelos entrevistados, com suas respectivas frequências absolutas de citações, partes utilizadas e indicações terapêuticas indicadas pelos mesmos encontra-se disposta na tabela 5.
Albertasse & colaboradores20, ao fazer levantamento das plantas medicinais utilizadas por uma comunidade de Vila Velha – ES observou que o boldo, hortelã e erva cidreira eram as plantas mais referidas pela população. Já Silva & colaboradores15, em Campina Grande – PB observaram o boldo, erva cidreira, capim santo, hortelã graúda, camomila e erva doce como as mais citadas. Resguardado as peculiaridades e particularidades das pesquisas citadas anteriormente, os dados estão em sintonia com os observados na presente pesquisa.
Tabela 5 – Plantas citadas quanto ao nome popular, partes da planta utilizada e indicação(ões) terapêutica(s) pelos entrevistados nas USF Sítio Wanderley e Campo do Banco, Distrito Sanitário IV, Recife-PE.








Fonte: dados da pesquisa.
A respeito das indicações terapêuticas, obtiveram-se 429 citações, observando uma média de 5,0 indicação terapêutica por planta medicinal. Esse número de citações possibilitou-se pelas múltiplas respostas dadas pelos entrevistados, compreendendo que uma planta medicinal possui variadas indicações terapêuticas. As dez indicações terapêuticas mais recorrentes dentre as citadas corresponderam a 69,9% no total de citações, são elas: Calmante (77 citações), desordens do trato gastrointestinal (TGI) (65 citações), expectorante (37 citações), anti-inflamatório (28 citações), antitérmico e cicatrizante (18 citações, cada), antihipertensivo (17 citações), antidiabético (16 citações) e analgésico e emagrecedor (12 citações, cada), totalizando 300 citações. As demais indicações terapêuticas citadas pelos entrevistados somaram juntas 129 citações (30,1%). Em 10 citações de plantas os entrevistados não responderam ou não souberam informar a sua respectiva indicação terapêutica.
Os dados observados por este trabalho no que diz respeito à indicação terapêutica discordam dos encontrados por Feijó & colaboradores18, que encontraram mais indicações terapêuticas para “problemas respiratórios”, porém reverberam os dados encontrados por Brasileiro & colaboradores16 que também observaram maior frequência de citações “calmante” como indicação terapêutica pelos seus entrevistados. As indicações terapêuticas mais citadas pelos entrevistados no presente trabalho refletem o tratamento de agravos que podem ter resolutividade na atenção básica, confirmando, assim, o potencial terapêutico das plantas medicinais voltadas à atenção primária à saúde, e também de benefícios à saúde da população, contribuindo para o sucesso da Estratégia Saúde da Família.
CONCLUSÃO
Neste trabalho observou-se a indicação de 85 nomes populares de plantas medicinais referidos em 330 citações, resultado que surpreendeu positivamente devido ao número de entrevistas realizadas (62), e que confirma o conhecimento dos entrevistados e o potencial de uso das plantas medicinais nas USF estudadas.
Predominou dentre os entrevistados o gênero feminino, faixa etária entre 41 e 65 anos, renda de até 1 salário mínimo, ensino fundamental incompleto e religião cristã-católica, algo que já era esperado devido aos resultados observados na literatura em estudos semelhantes.
Observou-se a busca em casas de ervas como principal forma de obtenção das plantas para uso medicinal e a família como principal difusora do conhecimento popular de plantas medicinas, resultado já esperado devido às experiências já relatadas na literatura; por outro lado, as indicações por profissionais de saúde só corresponderam à 5,9% das citações, o que demonstra insucesso ou até mesmo ausência na implantação e execução das políticas públicas voltadas à promoção da fitoterapia na atenção básica.
As folhas predominam entre as partes das plantas mais utilizadas, sendo o chá na forma de decocto o mais recorrido, seguido do lambedor e suco; resultado também já esperado, haja vista que as folhas são o recurso vegetal mais abundante na natureza.
As espécies mais citadas pelos entrevistados foram o capim santo, boldo e erva cidreira, e as indicações terapêuticas mais relatadas foram calmante, desordens do TGI e expectorante, observando que refletem justamente os agravos que tem resolutividade na atenção básica, confirmando os benefícios que a fitoterapia pode trazer à Estratégia Saúde da Família.
No que se refere ao uso popular das plantas listadas pelos entrevistados, o levantamento etnobotânico servirá de subsídio para fomentar e orientar corretamente o uso das plantas medicinais nas comunidades estudadas e evidencia a necessidade de mais estudos que elucidem e comprovem a segurança e eficácia de boa parte das plantas citadas, a fim de viabilizá-las como alternativa terapêutica aos métodos terapêuticos já utilizados no dia-a-dia da atenção primária.
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1Farmacêutico Especialista em Saúde da Família.
2Professor Doutor do Departamento de Ciências Farmacêuticas da UFPE,
tutor do Programa de Residência Multiprofissional em Saúde da Família do CCS/UFPE.
