EPIDEMIOLOGICAL OVERVIEW OF SUICIDE IN NORTHEASTERN BRAZIL: A RETROSPECTIVE STUDY
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ar10202602281757
Osvaldo Do Rêgo Mello Filho
Rafael Lucas Cerqueira Silva
Orientador: Prof. Dr. Danilo Gonçalves Dantas
Resumo
O suicídio constitui um importante problema de saúde pública global, caracterizado por sua natureza multifatorial e pelo impacto significativo na morbimortalidade populacional. A Organização Mundial da Saúde estima que uma morte por suicídio ocorra a cada 40 segundos, evidenciando a magnitude desse agravo. No Brasil, observa-se crescimento das taxas, especialmente entre adolescentes e jovens adultos, além de impacto relevante em idosos. Nesse contexto, o presente estudo teve como objetivo analisar o perfil epidemiológico do suicídio na região do Nordeste do Brasil entre 2014 e 2024, identificando tendências temporais, características sociodemográficas e fatores associados. Trata-se de um estudo epidemiológico descritivo baseado em dados secundários oficiais. Os resultados indicam crescimento progressivo das taxas no período analisado, com predominância de casos no sexo masculino e maior ocorrência entre jovens adultos. Observou-se associação entre o suicídio e fatores sociais e econômicos, como desigualdade social, desemprego, vulnerabilidade social e limitações no acesso aos serviços de saúde mental. Além disso, verificou-se impacto significativo do contexto pandêmico recente, com aumento nas notificações e agravamento dos indicadores relacionados à saúde mental. A análise epidemiológica demonstrou que o suicídio apresenta distribuição heterogênea, atingindo grupos populacionais com diferentes níveis de vulnerabilidade, incluindo jovens, populações socialmente vulneráveis e indivíduos com histórico de transtornos mentais. Conclui-se que a compreensão do perfil epidemiológico é fundamental para subsidiar o planejamento de políticas públicas e estratégias de prevenção direcionadas, contribuindo para a redução dos índices e fortalecimento da rede de atenção psicossocial.
Palavras-chave: Suicídio; Epidemiologia; Saúde mental; Mortalidade; Vulnerabilidade social.
Abstract
Suicide is a major global public health problem characterized by its multifactorial nature and significant impact on population morbidity and mortality. The World Health Organization estimates that one suicide occurs every 40 seconds, highlighting the magnitude of this issue. In Brazil, suicide rates have increased, particularly among adolescents and young adults, while also affecting older populations. This study aimed to analyze the epidemiological profile of suicide in Northeastern Brazil between 2014 and 2024, identifying temporal trends, sociodemographic characteristics, and associated factors. This is a descriptive epidemiological study based on secondary official data. The findings revealed a progressive increase in suicide rates during the analyzed period, with a predominance among males and higher occurrence among young adults. Suicide was associated with social and economic determinants such as social inequality, unemployment, social vulnerability, and limited access to mental health services. Additionally, the recent pandemic context significantly impacted mental health indicators, increasing self-harm notifications and suicide rates. The epidemiological analysis demonstrated heterogeneous distribution across population groups with varying vulnerability levels, including young individuals, socially vulnerable populations, and individuals with mental disorders. Understanding the epidemiological profile of suicide is essential to support public policies and preventive strategies, contributing to suicide rate reduction and strengthening psychosocial care networks.
Keywords: Suicide; Epidemiology; Mental health; Mortality; Social vulnerability.
1 INTRODUÇÃO
O suicídio é considerado um grave problema de saúde pública em todo o mundo, sendo responsável por milhões de mortes anualmente. Trata-se de um fenômeno complexo, multifatorial e que atinge diferentes faixas etárias, gêneros e contextos sociais. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que, a cada 40 segundos, uma pessoa morre por suicídio, o que demonstra a magnitude e a relevância do tema (Johnston et al., 2021).
No Brasil, os números também chamam a atenção. Segundo dados oficiais, as taxas de suicídio têm crescido, especialmente entre adolescentes e jovens adultos, embora também haja impacto expressivo entre idosos. Essa realidade impõe a necessidade de estudos epidemiológicos que permitam compreender melhor o perfil das pessoas afetadas e as circunstâncias relacionadas ao ato (Barbora et al., 2021).
O estudo do perfil epidemiológico de suicídio nos últimos 10 anos é essencial, pois permite identificar tendências temporais, variações geográficas e fatores associados, fornecendo subsídios para o planejamento de políticas públicas de prevenção e intervenção (Serrano, 2021).
A análise epidemiológica possibilita ainda mapear grupos de maior vulnerabilidade, como homens jovens, povos indígenas, populações em situação de vulnerabilidade social e indivíduos com histórico de transtornos mentais. Esse conhecimento é crucial para ações direcionadas e eficazes (Posselt et al., 2020).
Outro ponto de relevância é a associação entre o suicídio e condições sociais, econômicas e culturais. Fatores como desemprego, desigualdade social, violência urbana, isolamento social e até mesmo o impacto da pandemia de COVID-19 influenciaram diretamente as taxas de mortalidade por suicídio nos últimos anos (Brasil, 2025).
Além disso, o suicídio é frequentemente permeado por estigma e silêncio, o que dificulta sua abordagem adequada em diversas esferas da sociedade. Essa falta de discussão aberta contribui para a perpetuação do problema e para a carência de estratégias efetivas de prevenção (Thompson et al., 2022).
Estudos epidemiológicos podem ajudar a desmistificar o tema, trazendo dados concretos e cientificamente embasados que sustentem o desenvolvimento de campanhas de conscientização e políticas públicas de saúde mental mais robustas (Sher et al., 2023).
Vale destacar que compreender o perfil epidemiológico não significa apenas observar números, mas também reconhecer os contextos sociais, culturais e de saúde que cercam cada caso. Essa visão integrada é fundamental para compreender o fenômeno em sua complexidade (Park et al., 2020).
Portanto, investigar o perfil epidemiológico do suicídio nos anos de 2014 à 2024, que é uma iniciativa de grande relevância acadêmica, científica e social, pois possibilita uma leitura crítica da realidade atual e contribui para a criação de estratégias preventivas mais eficazes.
A escolha desse tema se justifica pela crescente relevância do suicídio como problema de saúde pública, que ainda enfrenta barreiras em termos de visibilidade, compreensão e enfrentamento social. Apesar dos números alarmantes, o suicídio é frequentemente negligenciado em debates públicos e políticas governamentais.
A compreensão epidemiológica do fenômeno é necessária para evidenciar tendências e transformações ao longo do tempo. O recorte temporal de 10 anos permite observar variações importantes, seja no aumento ou diminuição dos casos, bem como no surgimento de novos fatores associados.
O suicídio, por ser um evento multifatorial, exige estudos que articulem dimensões biológicas, psicológicas e sociais. A análise epidemiológica é capaz de reunir esses aspectos de forma quantitativa, evidenciando padrões e favorecendo diagnósticos situacionais.
A relevância também está ligada ao fato de que o suicídio atinge populações diversas, mas com diferentes graus de vulnerabilidade. Identificar quais grupos apresentam maiores índices contribui para direcionar medidas específicas de prevenção e cuidado.
Outro ponto a ser considerado é que a ausência de informações epidemiológicas sistematizadas gera lacunas importantes no campo da saúde mental e limita a capacidade das autoridades em propor políticas públicas assertivas.
Ademais, o suicídio impacta não apenas o indivíduo, mas também famílias, comunidades e a sociedade como um todo. A dor e as consequências sociais e emocionais reforçam a necessidade de ampliar a produção de conhecimento sobre o tema.
Assim, estudar o perfil epidemiológico do suicídio nos últimos 10 anos é uma forma de contribuir para a produção científica nacional, fortalecer o debate sobre saúde mental e apoiar o desenvolvimento de ações estratégicas para redução desse grave problema social. Isso leva ao seguinte problema: qual o perfil epidemiológico do suicídio no Nordeste do Brasil durante os anos de 2014 à 2024? Quais fatores podem estar associados às variações nas taxas de ocorrência nesse período?
O trabalho tem como objetivo geral analisar o perfil epidemiológico do suicídio no Nordeste do Brasil durante os anos de 2014 à 2024, identificando tendências, temporais, características sociodemográficas e fatores associados. E ainda: identificar as taxas de suicídio registradas nos anos de 2014 à 2024, considerando variações temporais e características sociodemográficas e fatores associados no período de 2014 à 2024; descrever o perfil das vítimas de suicidio, levando em conta variáveis como idade, sexo, escolaridade e fatores socioeconômicos e analisar fatores associados ao aumento ou redução das taxas de suicídio, como contexto social, econômico, cultural e de saúde mental.
2 METODOLOGIA
Este estudo foi de caráter quantitativo, descritivo e retrospectivo, fundamentando-se na análise de dados secundários provenientes do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN), disponibilizado pelo Ministério da Saúde. A escolha por esse delineamento justificou-se pela possibilidade de compreender, com base em registros oficiais, a magnitude e o comportamento do suicídio na região Nordeste, permitindo identificar padrões, perfis de vítimas e possíveis fatores associados ao evento.
O recorte temporal compreendeu o período de 2014 a 2024, abrangendo uma década de registros. Essa delimitação temporal possibilitou a avaliação das tendências epidemiológicas do suicídio na região Nordeste do Brasil, considerando suas particularidades socioeconômicas, culturais e de acesso aos serviços de saúde. A análise desse período permitiu verificar a evolução das taxas de mortalidade e incidência, bem como possíveis mudanças nos perfis das notificações ao longo dos anos.
Os dados analisados foram extraídos das notificações de casos de lesão autoprovocada, incluindo tentativas e óbitos por suicídio, conforme os critérios estabelecidos pela Classificação Internacional de Doenças (CID-10), especialmente os códigos da categoria X60 a X84, que correspondem às diversas formas de autointoxicação, enforcamento, afogamento, uso de armas de fogo e outros meios utilizados. Essa categorização permitiu padronizar a coleta e a análise, garantindo comparabilidade com outros estudos e regiões do país.
Foram consideradas variáveis relacionadas ao perfil sociodemográfico das vítimas, como idade, sexo, raça/cor, escolaridade e unidade federativa de residência, possibilitando traçar um panorama detalhado das populações mais vulneráveis. Além disso, foram incluídas informações referentes às circunstâncias do evento, como local de ocorrência (domicílio, via pública, hospital, entre outros) e o meio empregado, fatores essenciais para compreender o contexto e a dinâmica dos casos notificados.
A análise estatística foi conduzida por meio de estatística descritiva, com o cálculo de frequências absolutas e relativas, bem como taxas de incidência e mortalidade específicas por sexo, faixa etária e estado nordestino. Os resultados foram apresentados em tabelas, gráficos e mapas temáticos, de modo a facilitar a visualização e interpretação dos dados, permitindo identificar possíveis tendências regionais e temporais. Sempre que pertinente, foram aplicados indicadores comparativos entre os estados do Nordeste, com o objetivo de destacar diferenças e semelhanças entre os territórios.
Para garantir a fidedignidade dos resultados, foi avaliada a qualidade do preenchimento das fichas de notificação no SINAN, uma vez que inconsistências, subnotificações ou registros incompletos podem interferir nas estimativas e interpretações. Tais limitações foram discutidas de forma crítica, reconhecendo os desafios inerentes à utilização de dados secundários no campo da saúde pública.
Assim, a presente metodologia buscou oferecer uma análise ampla e detalhada da epidemiologia do suicídio no Nordeste do Brasil, contribuindo para o entendimento do fenômeno e fornecendo subsídios para a formulação de políticas públicas de prevenção e promoção da saúde mental na região.
3 RESULTADOS
A análise dos dados epidemiológicos provenientes do DATASUS e do Ministério da Saúde evidenciou crescimento expressivo da mortalidade por suicídio na região do Nordeste entre os anos de 2014 e 2024. Observou-se aumento aproximado de 54,9% no número de casos ao longo do período analisado, configurando a região como uma das que apresentou maior crescimento proporcional no país.
A taxa de mortalidade evoluiu de 4,39 para 6,80 óbitos por 100 mil habitantes, demonstrando tendência ascendente e sustentada ao longo da última década. Em relação à distribuição entre os estados, a Bahia apresentou o maior número absoluto de casos em 2024, totalizando 816 registros, seguida pelo Ceará, com 767 casos. Entretanto, quando consideradas as taxas proporcionais, o Piauí apresentou a maior taxa regional, atingindo 11,8 óbitos por 100 mil habitantes, mantendo-se historicamente acima da média nacional.

O estado de Pernambuco registrou 578 casos estimados, com destaque para o aumento das notificações de autolesões, principalmente entre jovens. O Maranhão apresentou aproximadamente 350 casos, com crescimento estatisticamente significativo ao longo da última década. A Paraíba registrou cerca de 320 casos, destacando-se pelo aumento expressivo de aproximadamente 83% entre o público feminino no período analisado.
O Rio Grande do Norte apresentou 248 casos estimados, com crescimento de aproximadamente 15% entre 2023 e 2024. O estado de Alagoas registrou cerca de 190 casos, mantendo relativa estabilidade nos índices, embora existam evidências de subnotificação, sobretudo em áreas rurais. Já Sergipe apresentou aproximadamente 140 casos, configurando o menor volume absoluto da região, porém com taxa proporcional superior à observada na Bahia.
Quanto ao perfil sociodemográfico das vítimas, observou-se predominância do sexo masculino, representando aproximadamente 78% a 80% dos casos. A faixa etária mais acometida correspondeu a adultos jovens, com maior concentração entre 20 e 39 anos. Contudo, verificou-se crescimento progressivo entre adolescentes e jovens, especialmente entre 15 e 29 anos, grupo considerado prioritário para intervenções preventivas.
Em relação ao local de ocorrência, a maioria dos casos foi registrada no ambiente domiciliar, correspondendo a aproximadamente 60% a 71% das notificações. Quanto aos meios utilizados, observou-se predominância do enforcamento em todos os estados nordestinos, seguido pela intoxicação exógena, principalmente por pesticidas, e pelo uso de armas de fogo.

Os dados também evidenciaram associação entre o aumento dos índices e fatores socioeconômicos, como desigualdade de renda, desemprego e limitações no acesso aos serviços especializados em saúde mental, particularmente em regiões rurais. Além disso, observou-se aumento nas notificações a partir de 2021, sugerindo possível impacto dos fatores psicossociais relacionados ao período pós-pandêmico.
4 DISCUSSÃO
Os achados do presente estudo evidenciam tendência crescente da mortalidade por suicídio na região do Nordeste entre 2014 e 2024, corroborando investigações epidemiológicas realizadas no Brasil que apontam expansão dos índices nas regiões Norte e Nordeste nas últimas décadas. Estudos de série temporal demonstram aumento progressivo das taxas de mortalidade por suicídio no país, especialmente em áreas marcadas por maior vulnerabilidade socioeconômica e menor acesso a serviços especializados de saúde mental (Malta et al., 2020; Santos et al., 2021).
A predominância de óbitos no sexo masculino observada neste estudo, representando aproximadamente 78% a 80% dos casos, mantém padrão consistente com a literatura nacional e internacional. Evidências indicam que homens apresentam maior letalidade nas tentativas, menor busca por assistência psicológica e maior exposição a fatores como abuso de substâncias e estressores ocupacionais, o que contribui para maiores taxas de mortalidade (Meneghel; Moura, 2021; Pinto et al., 2022).
No presente estudo, o destaque epidemiológico do Piauí, que apresentou a maior taxa proporcional da região, reforça a heterogeneidade intra-regional da mortalidade por suicídio. Investigações ecológicas demonstram que estados com maiores desigualdades sociais e dificuldades estruturais nos serviços de saúde mental apresentam maior vulnerabilidade populacional para comportamentos autolesivos (Silva et al., 2023). Esses resultados sugerem que fatores socioeconômicos e barreiras no acesso aos cuidados em saúde mental podem atuar como determinantes relevantes para o aumento das taxas.
Observou-se também crescimento expressivo entre o público feminino, especialmente na Paraíba, indicando possível modificação do perfil epidemiológico tradicional. Estudos recentes sugerem aumento gradual das taxas entre mulheres, possivelmente relacionado ao crescimento da prevalência de transtornos depressivos, violência doméstica e sobrecarga psicossocial (Oliveira et al., 2022).
A elevação dos casos entre adolescentes e jovens adultos, particularmente entre 15 e 29 anos, constitui achado preocupante e consistente com dados nacionais que apontam o suicídio entre as principais causas de morte nessa faixa etária. Pesquisas recentes evidenciam agravamento dos indicadores após a pandemia de COVID-19, associando o aumento dos casos ao isolamento social, insegurança econômica e maior prevalência de sintomas ansiosos e depressivos (Teixeira et al., 2023; Souza et al., 2024).
Quanto aos métodos utilizados, a predominância do enforcamento em todos os estados analisados acompanha tendência nacional descrita na literatura, sendo considerado método de alta letalidade e ampla disponibilidade. Estudos epidemiológicos também apontam intoxicações por pesticidas e o uso de armas de fogo como métodos relevantes, especialmente em áreas rurais, onde o acesso a substâncias tóxicas pode ser facilitado (Ferreira et al., 2022).
O predomínio da ocorrência dos casos no ambiente domiciliar, identificado em mais de 60% dos registros, reforça evidências de que o suicídio frequentemente ocorre em contextos privados, dificultando a detecção precoce e a intervenção preventiva. Pesquisas indicam que o fortalecimento das redes de apoio social e familiar pode atuar como fator protetor, reduzindo o risco de comportamento suicida (Barros et al., 2021).
Os resultados também evidenciaram associação entre o aumento das taxas e determinantes sociais, como desemprego, desigualdade de renda e limitações no acesso aos serviços de saúde mental, sobretudo em áreas rurais. A literatura demonstra que esses fatores estruturais exercem impacto significativo sobre a saúde mental coletiva, reforçando a necessidade de políticas públicas intersetoriais que integrem ações de saúde, educação e assistência social (Carvalho et al., 2020; Andrade et al., 2023).
Dessa forma, os achados do presente estudo reforçam a importância do desenvolvimento de estratégias preventivas direcionadas a grupos vulneráveis, especialmente jovens e homens adultos, além do fortalecimento da rede de atenção psicossocial e ampliação do acesso aos serviços de saúde mental, com foco na detecção precoce e no acompanhamento contínuo dos indivíduos em situação de risco.
5 CONCLUSÃO
O presente estudo evidenciou crescimento expressivo da mortalidade por suicídio na região do Nordeste entre 2014 e 2024, confirmando tendência ascendente dos indicadores epidemiológicos e ressaltando a relevância do problema como desafio de saúde pública. Observou-se distribuição heterogênea entre os estados, com maior número absoluto de casos na Bahia e maiores taxas proporcionais em estados como o Piauí, evidenciando influência de fatores demográficos, sociais e estruturais na determinação do fenômeno.
O perfil epidemiológico identificado demonstrou predominância do sexo masculino, especialmente entre adultos jovens, além de crescimento preocupante entre adolescentes e jovens adultos. A ocorrência majoritária dos casos no ambiente domiciliar e a predominância do enforcamento como principal meio utilizado reforçam a complexidade da prevenção e a necessidade de estratégias que ultrapassem o ambiente institucional de saúde, envolvendo ações comunitárias e familiares.
Os achados também sugerem forte associação entre o aumento dos índices e determinantes sociais, como desigualdade socioeconômica, desemprego e dificuldades no acesso aos serviços especializados em saúde mental, sobretudo em áreas rurais. Tais evidências reforçam a necessidade de fortalecimento das políticas públicas voltadas à promoção da saúde mental, ampliação da rede de atenção psicossocial e implementação de estratégias intersetoriais que integrem saúde, educação e assistência social.
Dessa forma, conclui-se que o enfrentamento do suicídio na região Nordeste exige abordagem abrangente, baseada em vigilância epidemiológica contínua, ampliação do acesso aos serviços de saúde mental, qualificação dos profissionais para identificação precoce de fatores de risco e desenvolvimento de estratégias preventivas direcionadas aos grupos mais vulneráveis. Além disso, destaca-se a importância de novos estudos que explorem fatores culturais, sociais e individuais relacionados ao comportamento suicida, contribuindo para a formulação de intervenções mais eficazes e contextualizadas à realidade regional.
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