CONCEPT MAPS AS PEDAGOGICAL STRATEGIES FOR MEANINGFUL LEARNING IN THE AMAZONIAN CONTEXT: A LITERATURE REVIEW
MAPAS CONCEPTUALES COMO ESTRATEGIAS PEDAGÓGICAS PARA EL APRENDIZAJE SIGNIFICATIVO EN EL CONTEXTO AMAZÓNICO: UNA REVISIÓN DE LA LITERATURA
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202602281310
Francenilce Lopes da Silva1
Sandra Barbosa de Sousa2
Lucas Lopes da Silva Aflitos3
Ana Mara Oliveira da Silva4
Sandra de Oliveira Botelho5
Átila de Souza6
Resumo
Este artigo tem como objetivo analisar as contribuições dos mapas conceituais como estratégias pedagógicas para a promoção da aprendizagem significativa no contexto educacional amazônico. Trata-se de uma revisão de literatura de natureza narrativa, realizada a partir de produções científicas nacionais e internacionais localizadas nas bases Google Acadêmico, SciELO e Portal de Periódicos da CAPES, contemplando estudos que abordam a teoria da aprendizagem significativa, os mapas conceituais e práticas pedagógicas em contextos socioculturalmente diversos. A análise dos estudos evidencia que os mapas conceituais favorecem a organização do conhecimento, a explicitação das relações conceituais, o desenvolvimento da metacognição e a integração entre conhecimentos científicos e saberes prévios dos estudantes. No contexto amazônico, caracterizado por diversidade cultural, territorial e epistemológica, essa estratégia apresenta potencial para promover práticas pedagógicas mais contextualizadas, interculturais e socialmente significativas, ao possibilitar a articulação entre conteúdos escolares, experiências comunitárias e saberes locais. Entretanto, a literatura também aponta limites para sua implementação, relacionados principalmente às condições de trabalho docente, à formação de professores, à organização curricular e à permanência de modelos avaliativos centrados na memorização. Conclui-se que os mapas conceituais constituem uma alternativa pedagógica relevante para o fortalecimento de práticas de ensino alinhadas à aprendizagem significativa na Amazônia, desde que acompanhados por políticas de formação continuada e por condições institucionais que favoreçam sua adoção.
Palavras-chave: mapas conceituais; aprendizagem significativa; práticas pedagógicas; educação amazônica; revisão de literatura.
Abstract
This article aims to analyze the contributions of concept maps as pedagogical strategies for promoting meaningful learning in the Amazonian educational context. This study is a narrative literature review based on national and international scientific publications retrieved from Google Scholar, SciELO, and the CAPES Periodicals Portal, focusing on studies addressing meaningful learning theory, concept maps, and pedagogical practices in socioculturally diverse contexts. The analysis shows that concept maps support knowledge organization, the explicit representation of conceptual relationships, the development of metacognitive processes, and the integration between scientific knowledge and students’ prior knowledge. In the Amazonian context, marked by cultural, territorial, and epistemological diversity, this strategy has strong potential to foster contextualized, intercultural, and socially meaningful pedagogical practices by connecting school content with community experiences and local knowledge. However, the literature also highlights limitations related to teachers’ working conditions, teacher education, curriculum organization, and the persistence of assessment models focused on memorization. The study concludes that concept maps represent a relevant pedagogical alternative for strengthening teaching practices aligned with meaningful learning in the Amazon, provided that continuing teacher education policies and supportive institutional conditions are ensured.
Keywords: concept maps; meaningful learning; pedagogical practices; Amazonian education; literature review.
Resumen
Este artículo tiene como objetivo analizar las contribuciones de los mapas conceptuales como estrategias pedagógicas para la promoción del aprendizaje significativo en el contexto educativo amazónico. Se trata de una revisión narrativa de la literatura, basada en producciones científicas nacionales e internacionales localizadas en las bases Google Académico, SciELO y Portal de Periódicos de la CAPES, que abordan la teoría del aprendizaje significativo, los mapas conceptuales y las prácticas pedagógicas en contextos socioculturales diversos. Los resultados indican que los mapas conceptuales favorecen la organización del conocimiento, la explicitación de las relaciones conceptuales, el desarrollo de procesos metacognitivos y la integración entre el conocimiento científico y los saberes previos de los estudiantes. En el contexto amazónico, caracterizado por una marcada diversidad cultural, territorial y epistemológica, esta estrategia presenta un importante potencial para promover prácticas pedagógicas contextualizadas, interculturales y socialmente significativas, al articular los contenidos escolares con las experiencias comunitarias y los saberes locales. No obstante, la literatura también señala limitaciones relacionadas con las condiciones de trabajo docente, la formación del profesorado, la organización curricular y la permanencia de modelos de evaluación centrados en la memorización. Se concluye que los mapas conceptuales constituyen una alternativa pedagógica relevante para fortalecer prácticas de enseñanza orientadas al aprendizaje significativo en la Amazonía, siempre que estén acompañados de políticas de formación continua y de condiciones institucionales adecuadas.
Palabras clave: mapas conceptuales; aprendizaje significativo; prácticas pedagógicas; educación amazónica; revisión de literatura.
Introdução
A busca por estratégias pedagógicas que favoreçam aprendizagens mais duradouras, contextualizadas e socialmente relevantes tem ocupado lugar central nas discussões educacionais contemporâneas. Nesse cenário, a teoria da aprendizagem significativa, proposta por David Ausubel, destaca-se ao afirmar que a aprendizagem ocorre quando novas informações se relacionam, de modo substantivo e não arbitrário, aos conhecimentos previamente existentes na estrutura cognitiva do estudante (AUSUBEL, 2003).
Entre as estratégias pedagógicas alinhadas a esse referencial teórico, os mapas conceituais vêm sendo amplamente discutidos na literatura como instrumentos capazes de favorecer a organização dos conceitos, a explicitação das relações conceituais e o acompanhamento do processo de aprendizagem (NOVAK; GOWIN, 1996). No entanto, grande parte dos estudos ainda apresenta abordagens pouco sensíveis às realidades socioterritoriais nas quais se inserem as práticas educativas.
No contexto amazônico, marcado por diversidade cultural, pluralidade de saberes, especificidades territoriais e desigualdades históricas no acesso a políticas educacionais, torna-se necessário refletir sobre estratégias pedagógicas que dialoguem com os conhecimentos locais e com as experiências socioculturais dos estudantes. A educação desenvolvida na região exige práticas que superem modelos homogêneos de ensino e que valorizem o território como dimensão formativa (CANDAU, 2011; ARROYO, 2014).
Diante desse cenário, este artigo tem como objetivo analisar, por meio de uma revisão de literatura, as contribuições dos mapas conceituais como estratégias pedagógicas para a promoção da aprendizagem significativa, considerando suas potencialidades e limites no contexto educacional amazônico.
Metodologia
O estudo caracteriza-se como uma revisão de literatura de natureza narrativa, com foco em produções científicas que abordam a aprendizagem significativa e o uso de mapas conceituais no campo educacional.
A busca dos estudos foi realizada nas bases Google Acadêmico, SciELO e Portal de Periódicos da CAPES, utilizando-se os descritores: aprendizagem significativa, mapas conceituais, concept maps, ensino, formação de professores e educação na Amazônia. Foram considerados artigos, livros e trabalhos acadêmicos publicados em língua portuguesa, inglesa e espanhola.
Os critérios de inclusão contemplaram produções que apresentassem fundamentação teórica consistente sobre aprendizagem significativa e mapas conceituais, bem como estudos que discutissem práticas pedagógicas em contextos socioculturalmente diversos. A análise ocorreu por meio de leitura exploratória e interpretativa, organizando-se os resultados em categorias temáticas.
Aprendizagem significativa: fundamentos para a prática pedagógica
A aprendizagem significativa continua sendo um dos referenciais teóricos centrais para explicar como os estudantes constroem entendimento sólido e duradouro dos conteúdos escolares. Para Ausubel, a aprendizagem significativa ocorre quando os novos conteúdos são relacionados, de forma substantiva e não arbitrária, a conhecimentos prévios relevantes já estabelecidos na estrutura cognitiva do estudante, conhecidos como subsunçores. Esses subsunçores funcionam como elementos de ancoragem que permitem a reorganização cognitiva de significados e o estabelecimento de relações conceituais mais profundas (AUSUBEL, 2003; Bryce & Blown, 2024).
Este processo distingue-se claramente da aprendizagem mecânica, caracterizada pela memorização isolada de informações sem integração sistemática de conceitos. Nos últimos anos, pesquisas em educação têm reforçado que a aprendizagem significativa envolve não apenas a conexão de conteúdos, mas também a capacidade do estudante de reorganizar conceitos e proposições conforme necessidades cognitivas complexas o que demanda materiais de ensino com potencial de significado, ativação efetiva de conhecimentos prévios e engajamento ativo dos aprendizes (por exemplo, em contextos experimentais com mapas conceituais no ensino de ciências) (Impact of fill-in-the-nodes concept maps, 2024).
No contexto escolar, esses pressupostos implicam a adoção de uma prática pedagógica centrada na organização conceitual dos conteúdos e na valorização das experiências, saberes prévios e perspectivas dos estudantes. O professor, nesse quadro, assume o papel de mediador e organizador do ensino, cuja principal função é criar situações didáticas que facilitem a ativação dos conhecimentos prévios, a problematização dos conteúdos e a construção de relações cognitivas relevantes (MOREIRA, 2011). Estudos recentes sobre aprendizagem significativa continuam a destacar a importância desta mediação docente, especialmente no desenvolvimento de atividades que valorizem a reflexividade e a construção de sentido em contextos de ensino diversificados, incluindo a formação continuada de professores (CRUZ; LOPES; ZUKOWSKY-TAVARES, 2024).
Adicionalmente, pesquisas educacionais apontam que a aprendizagem significativa é facilitada quando estratégias didáticas como mapas conceituais são utilizadas de modo articulado à problematização de conteúdos, à colaboração entre pares e ao uso de recursos visuais que apoiem a integração de conceitos (SILVA PASSOS & VASCONCELOS, 2023; LISBÔA MELLO et al., 2023). Essas abordagens são coerentes com princípios contemporâneos de metodologias ativas, que promovem engajamento cognitivo, desenvolvimento de pensamento crítico e construção colaborativa de conhecimento.
Para que a aprendizagem significativa se efetive, é necessário atender a algumas condições essenciais: a existência de conhecimentos prévios adequados, a apresentação de materiais e atividades compatíveis com a estrutura cognitiva dos estudantes e a disposição destes em realizar conexões substanciais entre o que já sabem e o que estão aprendendo (AUSUBEL, 2003; MOREIRA, 2011; Bryce & Blown, 2024). Esses pressupostos reafirmam a relevância de práticas pedagógicas que promovam a participação ativa e a reflexão metacognitiva, elementos fundamentais para a construção de significados e para a superação de abordagens baseadas apenas na memorização.
Mapas conceituais como estratégias pedagógicos
Os mapas conceituais foram desenvolvidos por Novak, a partir da teoria de Ausubel, como instrumentos de representação do conhecimento que explicitam relações hierárquicas entre conceitos, por meio de proposições formadas por palavras de ligação (NOVAK; GOWIN, 1996). Segundo Novak e Cañas (2010), os mapas conceituais permitem tornar visível a organização conceitual dos estudantes, favorecendo a compreensão de conceitos complexos, a integração de conteúdos e o desenvolvimento da metacognição. Além disso, constituem-se como instrumentos úteis tanto para o ensino quanto para a avaliação formativa.
Autores mais recentes também corroboram e ampliam essas contribuições. Estudos atuais mostram que a construção de mapas conceituais aprimora a representação do conhecimento e seu uso como ferramenta cognitiva: por exemplo, Narang e Lata (2024) destacam que o processo de elaboração de mapas favorece a retenção da aprendizagem e o pensamento crítico, sobretudo quando usado de forma estruturada em contextos didáticos (NARANG; LATA, 2024).
Em contextos específicos de aplicação pedagógica, Harvey (2024) evidenciou que estratégias de concept mapping melhoram significativamente a compreensão de conteúdos complexos, como fotossíntese e respiração celular, em comparação com métodos tradicionais, refletindo melhorias no desempenho discente.
Guo (2024) também mostrou em seus estudos que o uso de mapas conceituais em aulas de língua inglesa contribui para a melhoria da compreensão textual e da aquisição de vocabulário, indicando que essa estratégia pode ser eficaz em diversas áreas curriculares.
Além disso, Hungria Pinto et al. (2025) analisaram o uso de mapas conceituais na educação superior em saúde, concluindo que essa ferramenta atua como facilitadora da aprendizagem significativa ao promover a integração de conhecimento técnico e clínico — reforçando a aplicabilidade da estratégia em diferentes níveis educacionais.
No âmbito da formação docente, Cruz, Lopes e Zukowsky-Tavares (2024) identificaram que os mapas conceituais favorecem análises reflexivas sobre a prática pedagógica, auxiliando na identificação de lacunas e na reorganização curricular, aspecto alinhado às demandas contemporâneas de formação continuada.
Essas evidências recentes ampliam o entendimento tradicional sobre mapas conceituais, situando-os não só como ferramenta de ensino e avaliação, mas também como recurso cognitivo que favorece a organização mental, o engajamento com os conteúdos e a construção de significados pelos estudantes.
Mapas conceituais e aprendizagem significativa no contexto amazônico
A educação na Amazônia caracteriza-se por uma forte diversidade sociocultural, por múltiplas formas de organização social e por diferentes modos de produção de conhecimentos, especialmente em contextos ribeirinhos, indígenas e do campo. Essa realidade impõe desafios à organização curricular e à adoção de metodologias que dialoguem com os territórios e com os saberes tradicionais (ARROYO, 2014; CANDAU, 2011).
Pesquisas contemporâneas também têm evidenciado a necessidade de práticas pedagógicas sensíveis ao contexto amazônico para promover aprendizagens mais significativas. Por exemplo, dossiês temáticos recentes organizados pela Rede Amazônica de Educação em Ciências e Matemática (REAMEC) apresentam múltiplas iniciativas de ensino contextualizado na Amazônia, incluindo experiências com mapas conceituais no processo de ensino-aprendizagem de diferentes conteúdos escolares, o que reforça a importância de estratégias didáticas que considerem a realidade sociocultural e cognitiva dos estudantes amazônicos (REAMEC, 2024).
Nesse cenário, os mapas conceituais apresentam potencial para favorecer práticas pedagógicas contextualizadas, uma vez que possibilitam a incorporação de conhecimentos locais e experiências comunitárias na organização dos conteúdos escolares. Ao partir dos saberes prévios dos estudantes, essa estratégia permite que conceitos científicos sejam relacionados às práticas cotidianas, às vivências territoriais e aos problemas concretos da comunidade, contribuindo para a construção de significados ancorados nos contextos socioculturais específicos da Amazônia.
Além disso, a utilização de mapas conceituais pode contribuir para o desenvolvimento de propostas interdisciplinares e para a valorização do diálogo entre diferentes formas de conhecimento, aspecto central para uma educação intercultural crítica (CANDAU, 2011). Estudos pedagógicos contemporâneos reforçam que o uso de mapas conceituais em contextos educacionais complexos pode ampliar a compreensão conceitual dos estudantes e favorecer o desenvolvimento de habilidades metacognitivas e de pensamento crítico, especialmente quando articulados com saberes comunitários e experiências locais (por exemplo, aplicação de estratégias de concept mapping em diferentes áreas curriculares com foco em compreensão significativa).
Contudo, a literatura também evidencia limites para a implementação dessa estratégia no contexto amazônico, especialmente no que se refere à formação docente, ao tempo pedagógico disponível, às condições de trabalho e à permanência de modelos avaliativos centrados na memorização e na reprodução de conteúdos. A formação de professores na Amazônia enfrenta desafios específicos em termos de recursos formativos e apoio institucional, o que pode dificultar a adoção sistemática de estratégias pedagógicas inovadoras como os mapas conceituais. Pesquisas sobre formação docente na região apontam para tensões e lacunas na preparação dos docentes para trabalhar com metodologias contextualizadas, o que exige políticas de formação continuada e investimentos específicos para fortalecer práticas pedagógicas ancoradas em teorias contemporâneas de aprendizagem significativa.
Discussão
A articulação entre os pressupostos da aprendizagem significativa e o uso de mapas conceituais revela-se particularmente pertinente para a compreensão dos desafios e das possibilidades pedagógicas presentes no contexto educacional amazônico. Considerando que, segundo Ausubel (2003), a aprendizagem ocorre de modo significativo quando novos conhecimentos se ancoram em subsunçores previamente organizados na estrutura cognitiva dos estudantes, torna-se evidente que os processos de ensino na Amazônia demandam uma abordagem que reconheça, valorize e incorpore os saberes produzidos nos territórios, nas práticas comunitárias e nas experiências socioculturais dos sujeitos amazônicos.
A diversidade de contextos ribeirinhos, indígenas, do campo e urbanos periféricos produz formas próprias de compreensão da natureza, do trabalho, da saúde, da alimentação e das relações sociais, que constituem importantes referenciais cognitivos para a construção de novos conceitos escolares. Nesse sentido, a aprendizagem significativa, ao pressupor a mobilização de conhecimentos prévios relevantes (AUSUBEL, 2003; MOREIRA, 2011; Bryce e Blown, 2024), apresenta-se como um marco teórico particularmente potente para o desenho de práticas pedagógicas que dialoguem com a realidade socioterritorial amazônica.
Os estudos recentes reforçam que a aprendizagem significativa não se limita à mera associação entre conteúdos, mas envolve processos complexos de reorganização conceitual, metacognição e engajamento cognitivo ativo (Impact of fill-in-the-nodes concept maps, 2024; CRUZ; LOPES; ZUKOWSKY-TAVARES, 2024). Tais dimensões tornam-se ainda mais relevantes em contextos nos quais o currículo historicamente tem sido organizado a partir de referenciais urbanos e eurocentrados, frequentemente distantes das experiências concretas dos estudantes da Amazônia. Nessa perspectiva, a mediação docente assume papel central, não apenas como transmissora de conteúdos, mas como articuladora de sentidos entre o conhecimento escolar e os modos locais de produção de saberes.
A função mediadora do professor, destacada por Moreira (2011), ganha contornos específicos na realidade amazônica, na medida em que o docente precisa lidar com múltiplas temporalidades, diferentes níveis de escolarização, limitações de infraestrutura, rotatividade de profissionais e, em muitos casos, com a precarização das condições de trabalho. Estudos recentes sobre formação continuada indicam que a capacidade de promover atividades reflexivas e cognitivamente desafiadoras depende diretamente de processos formativos que problematizem a prática pedagógica e ampliem o repertório metodológico dos professores (CRUZ; LOPES; ZUKOWSKY-TAVARES, 2024).
Nesse cenário, os mapas conceituais configuram-se como uma estratégia pedagógica coerente com os fundamentos da aprendizagem significativa, ao possibilitarem a explicitação das relações hierárquicas e proposicionais entre conceitos (NOVAK; GOWIN, 1996; NOVAK; CAÑAS, 2010). A literatura recente tem demonstrado que a elaboração de mapas conceituais favorece a retenção de conhecimentos, o desenvolvimento do pensamento crítico e a compreensão de conteúdos complexos em diferentes áreas curriculares (NARANG; LATA, 2024; HARVEY, 2024; GUO, 2024; HUNGRIA PINTO et al., 2025).
Quando analisados à luz da realidade amazônica, os mapas conceituais assumem uma função pedagógica que ultrapassa o caráter organizador de conteúdos. Eles podem ser compreendidos como dispositivos de mediação cultural, capazes de articular conhecimentos científicos, saberes tradicionais e experiências comunitárias no processo de construção conceitual. A possibilidade de partir de conceitos relacionados ao cotidiano — como rios, ciclos de pesca, agricultura familiar, uso de plantas medicinais, manejo florestal, alimentação tradicional ou fenômenos climáticos regionais favorece a ancoragem cognitiva dos novos conteúdos escolares em estruturas conceituais já consolidadas pelos estudantes.
As experiências sistematizadas em produções recentes da Rede Amazônica de Educação em Ciências e Matemática (REAMEC, 2024) evidenciam que práticas pedagógicas contextualizadas, incluindo o uso de mapas conceituais, contribuem para a aproximação entre os conteúdos escolares e as realidades socioculturais da Amazônia. Esses estudos apontam que a organização visual e relacional dos conceitos facilita o diálogo entre diferentes formas de conhecimento e amplia as possibilidades de construção de aprendizagens significativas, sobretudo no ensino de Ciências.
Essa potencialidade dos mapas conceituais dialoga diretamente com os pressupostos da educação intercultural crítica, na medida em que favorece a problematização de hierarquias epistemológicas e a valorização de saberes historicamente marginalizados (CANDAU, 2011). Ao permitir que os estudantes organizem e relacionem conhecimentos científicos e conhecimentos locais em uma mesma estrutura conceitual, essa estratégia contribui para o reconhecimento da pluralidade de epistemologias presentes no território amazônico.
Adicionalmente, a construção colaborativa de mapas conceituais, conforme apontam Silva Passos e Vasconcelos (2023) e Lisbôa Mello et al. (2023), fortalece processos de interação entre pares, negociação de significados e reflexão metacognitiva. Tais dimensões são particularmente relevantes em turmas heterogêneas, comuns na região amazônica, nas quais convivem estudantes com diferentes trajetórias escolares, faixas etárias e experiências de vida.
No âmbito da formação docente, os mapas conceituais também se mostram pertinentes como instrumentos de reflexão sobre a prática pedagógica e de reorganização curricular (CRUZ; LOPES; ZUKOWSKY-TAVARES, 2024). Em contextos amazônicos, nos quais a formação inicial frequentemente não contempla de modo aprofundado as especificidades territoriais e culturais da região, o uso de mapas conceituais pode favorecer processos de análise crítica do currículo, permitindo ao professor identificar lacunas conceituais, sobreposições de conteúdos e possibilidades de integração interdisciplinar.
Entretanto, apesar de seu potencial, a implementação sistemática de mapas conceituais como estratégia pedagógica enfrenta limites estruturais no contexto amazônico. As condições de trabalho docente, a insuficiência de tempo pedagógico, as dificuldades de acesso a materiais didáticos adequados e a permanência de modelos avaliativos centrados na memorização e na reprodução de conteúdos constituem obstáculos concretos à consolidação de práticas orientadas pela aprendizagem significativa. Esses entraves reforçam a necessidade de políticas públicas de formação continuada que considerem as singularidades regionais e promovam o fortalecimento da autonomia pedagógica dos professores.
Assim, a análise integrada dos fundamentos da aprendizagem significativa e das evidências recentes sobre o uso de mapas conceituais permite afirmar que tais estratégias apresentam elevada pertinência para o contexto educacional amazônico. Contudo, sua efetividade depende de condições institucionais, formativas e curriculares que possibilitem ao professor atuar como mediador cultural e cognitivo, capaz de articular o conhecimento científico escolar aos saberes territoriais e às experiências socioculturais dos estudantes. Nessa perspectiva, os mapas conceituais configuram-se como instrumentos pedagógicos promissores para a construção de uma educação amazônica mais contextualizada, intercultural e epistemologicamente plural.
Conclusão
Este estudo de revisão evidenciou que a articulação entre a aprendizagem significativa e o uso de mapas conceituais constitui uma base pedagógica consistente para o fortalecimento de práticas de ensino mais contextualizadas no cenário educacional amazônico. Ao reconhecer que a construção do conhecimento escolar depende da mobilização de saberes previamente constituídos, torna-se fundamental considerar que as experiências socioculturais, territoriais e comunitárias dos estudantes da Amazônia representam referenciais centrais para a atribuição de sentido aos conteúdos trabalhados na escola.
Os mapas conceituais, nesse contexto, mostraram-se estratégias didáticas capazes de favorecer a organização do pensamento, a explicitação das relações entre conceitos, a integração de conteúdos e o desenvolvimento de processos metacognitivos. Sua utilização possibilita aproximar o conhecimento científico escolar das vivências cotidianas dos estudantes, promovendo relações entre fenômenos naturais, práticas sociais, modos de vida e problemáticas locais, especialmente no ensino de Ciências e nas abordagens socioambientais.
A análise da literatura indica, ainda, que o uso de mapas conceituais pode contribuir para práticas pedagógicas mais colaborativas, reflexivas e interdisciplinares, além de apoiar o planejamento docente e a reorganização curricular. Tais contribuições assumem relevância ampliada na realidade amazônica, marcada por forte diversidade cultural, por desigualdades de acesso a recursos educacionais e por desafios históricos relacionados à infraestrutura escolar e à formação de professores.
Entretanto, também se evidencia que a efetivação dessa estratégia pedagógica encontra limites concretos, associados às condições de trabalho docente, à organização do tempo pedagógico, às exigências curriculares pouco flexíveis e à permanência de modelos avaliativos centrados na memorização e na fragmentação dos conteúdos. Esses fatores restringem a consolidação de práticas orientadas por uma perspectiva de aprendizagem mais significativa e contextualizada.
Como perspectiva para pesquisas futuras, recomenda-se o desenvolvimento de estudos empíricos situados em escolas da região amazônica, especialmente em contextos ribeirinhos, indígenas e do campo, que analisem, de forma sistemática, os efeitos do uso de mapas conceituais sobre a aprendizagem conceitual, a participação discente e o desenvolvimento de processos metacognitivos. Sugere-se, ainda, a realização de investigações voltadas à formação inicial e continuada de professores, com foco na incorporação dos mapas conceituais como ferramenta de planejamento, de reflexão sobre a prática e de organização curricular.
Também se mostram relevantes futuras pesquisas que explorem o uso de mapas conceituais em ambientes digitais e híbridos, considerando as limitações de conectividade presentes em muitas localidades da Amazônia, bem como estudos que analisem o potencial dessa estratégia para o fortalecimento de propostas interdisciplinares e interculturais.
Conclui-se, portanto, que os mapas conceituais, fundamentados em uma perspectiva de aprendizagem centrada na construção de significados, constituem uma alternativa pedagógica promissora para a promoção de uma educação amazônica mais contextualizada, crítica e socialmente comprometida, desde que acompanhados de políticas de formação docente, de investimentos estruturais e de pesquisas educacionais comprometidas com as especificidades territoriais da região.
Referências
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1Doutoranda em ciências da Educação, Universidad de lá Integración de Las Américas (UNIDA), Asunción, Paraguay. E-mail: francenilce.silva@prof.am.gov.br
2Doutora em Biotecnologia, Universidade Federal do Amazonas (UFAM). E-mail: sanbsousa@gmail.com
3Mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM). E-mail: lucasdelucas706@gmail.com
4Mestre em Biotecnologia, Universidade Federal do Amazonas (UFAM). E-mail: ana_chemister@hotmail.com
5Doutoranda em Educação e Ensino de Ciências na Amazônia, Universidade do Estado do Amazonas (UEA). E-mail: botsandra123@gmail.com
6Doutor em Ciências da Educação, Universidad de la Integración de Las Américas (UNIDA), Asunción, Paraguay. E-mail: atilabio@hotmail.com
