MANAGEMENT OF MYOFASCIAL PAIN SYNDROME IN PRIMARY HEALTH CARE DURING A FAMILY AND COMMUNITY MEDICINE RESIDENCY: AN EXPERIENCE REPORT ON THE USE OF DRY NEEDLING
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ar10202601130928
Richard Roque Santos1
Renann Lores de Sousa2
Thays de Oliveira Rocha Mendes²
Andreza Moreira Santos¹
Resumo
INTRODUÇÃO: A Síndrome da Dor Miofascial (SDM) é uma das causas mais comuns de dor musculoesquelética, afetando entre 30% a 85% da população, sendo caracterizada por pontos-gatilho miofasciais (PGMs). Apesar de sua alta prevalência na Atenção Primária à Saúde (APS), SDM é frequentemente subdiagnosticada ou confundida com outras patologias. OBJETIVO: Relatar a experiência clínica no manejo diagnóstico da SDM e analisar a experiência da utilização do agulhamento seco como ferramenta terapêutica adjuvante no contexto de residência de Medicina de Família e Comunidade. MÉTODO: Trata-se de um relato de experiência baseado em atendimentos realizados durante a residência médica, utilizando a anamnese e o exame físico (palpação de bandas tensas) como padrão-ouro para o diagnóstico. Foram descritos casos clínicos que ilustram a aplicação técnica do agulhamento seco e o raciocínio para o diagnóstico diferencial. RESULTADO: Observou-se melhora da dor e recuperação da amplitude de movimento (ADM) imediatamente após a intervenção em casos agudos. A experiência demonstrou que a resposta ao tratamento auxilia na confirmação diagnóstica, mas a persistência de sintomas exige investigação de sinais de alerta (red flags) e causas secundárias, como neoplasias ou lesões estruturais. DISCUSSÃO: O agulhamento seco apresenta-se como uma técnica de baixo custo operacional, segura e factível na APS. A literatura reforça que a estimulação mecânica do PGM pode interromper o ciclo de dor e restaurar a microcirculação local, sendo comparável a outras terapias invasivas. CONCLUSÃO: O manejo adequado da SDM e o domínio do agulhamento seco aumentam a resolutividade da Atenção Primária, reduzem a medicalização excessiva e evitam encaminhamentos desnecessários. A formação do residente é fortalecida pela ampliação da capacidade diagnóstica em dor musculoesquelética.
Palavras-chave: Síndrome da Dor Miofascial. Ponto gatilho. Atenção Primária à Saúde. Agulhamento seco. Sugere-se de 3 a 5 palavras, separadas entre si, por ponto final.
1 INTRODUÇÃO
A dor musculoesquelética configura-se como uma das queixas mais prevalentes no cenário da Atenção Primária à Saúde (APS), representando uma parcela significativa das consultas médicas globais. Por estar relacionada ao impacto à qualidade de vida e à funcionalidade dos pacientes, constituiu-se como um problema de saúde pública, uma vez que é responsável por promover o aumento do risco de sofrimento pessoal, absenteísmo do trabalho e aposentadoria antecipada (LARA-PALOMO et al., 2022; STEEN; JAISWAL; KUMBHARE, 2025).
Entre as diversas etiologias de dor musculoesquelética, a Síndrome da Dor Miofascial (SDM) destaca-se como uma condição clínica de alta incidência, com estimativas de prevalência que variam entre 30% e 85% em diferentes populações ao longo da vida. Normalmente caracterizada por dor regional, sensível à palpação de pontos-gatilho miofasciais (PGMs), pode também estar associada a limitações funcionais importantes. Contudo, apesar de sua frequência na prática cotidiana, a SDM é comumente subdiagnosticada ou confundida com outras causas de dor crônica, como a fibromialgia e doenças articulares (ALHAKAMI; SAHELY; ALSHAMI, 2025; LARA-PALOMO et al., 2022; STEEN; JAISWAL; KUMBHARE, 2025).
As dificuldades enfrentadas no manejo dessa síndrome na APS decorrem, em grande parte, da ausência de critérios diagnósticos universalmente validados ou marcadores laboratoriais específicos, da sobreposição de sintomas sensitivos e motores que podem mimetizar outras patologias e da necessidade de avaliação clínica cuidadosa (STEEN; JAISWAL; KUMBHARE, 2025). Esse contexto favorece incertezas diagnósticas e pode resultar em condutas inadequadas ou excessivas, contribuindo para a cronificação do quadro, a persistência do sofrimento e a ampliação da incapacidade funcional do paciente.
No que se refere às opções terapêuticas, a literatura descreve um espectro de abordagens que varia desde intervenções conservadoras, como educação em saúde, exercícios terapêuticos e estratégias farmacológicas, até modalidades mais invasivas, como o agulhamento seco (DACH; FERREIRA, 2023; LARA-PALOMO et al., 2022). Esta última técnica tem sido considerada uma opção adjuvante promissora, especialmente por sua acessibilidade e viabilidade econômica em contextos de cuidados primários (CHEN et al., 2025; VÁZQUEZ-JUSTES et al., 2022). Contudo, a heterogeneidade dos estudos, a variabilidade metodológica e a limitação de evidências de alta qualidade exigem cautela na sua incorporação rotineira, reforçando a importância de uma abordagem centrada na pessoa, que considere preferências do paciente, contexto psicossocial, riscos, benefícios e custoefetividade, além da integração com estratégias não farmacológicas e de reabilitação.
A justificativa para este relato de experiência fundamenta-se na relevância de aprimorar o raciocínio clínico e as competências práticas do médico residente frente a quadros de dor crônica, integrando evidências científicas à realidade do atendimento comunitário. A compreensão aprofundada do manejo da SDM permite ao profissional oferecer intervenções mais precisas, contribuindo para a redução do impacto funcional e do fardo socioeconômico associados ao absenteísmo laboral e à busca recorrente por atenção especializada.
2 OBJETIVO GERAL E OBJETIVOS ESPECÍFICOS
O objetivo geral do presente trabalho é relatar a experiência vivenciada por um médico residente em Medicina de Família e Comunidade (MFC) em Unidade de Saúde da Família (USF), situada em Anápolis-GO, durante atendimentos a pacientes com diagnóstico de Síndrome da Dor Miofascial (SDM), ilustrando, por meio de casos clínicos, a aplicação de estratégias diagnósticas e o uso do agulhamento seco como ferramenta terapêutica no contexto de Atenção Primária à Saúde (APS).
Também apresenta como objetivos específicos: descrever os fundamentos teóricos da SDM e da técnica de agulhamento seco, com base na literatura científica atual; relatar casos clínicos de pacientes com SDM atendidos na USF nos quais foi empregada a técnica de agulhamento seco, destacando a avaliação clínica, a indicação e a conduta adotada; refletir sobre o impacto do reconhecimento e tratamento da SDM na resolutividade da APS e na potencial redução da fila de espera por atendimento especializado; refletir sobre as contribuições dessa experiência para a formação do médico residente em MFC.
3 METODOLOGIA
3.1 Delineamento do Estudo e Período
Trata-se de um estudo qualitativo, descritivo, do tipo relato de experiência, desenvolvido a partir da prática clínica durante residência médica de Medicina de Família e Comunidade (MFC) no período de março de 2024 a dezembro de 2025. O relato é complementado por uma revisão narrativa estruturada da literatura sobre Síndrome da Dor Miofascial (SDM), com recorte temporal entre 2020 e 2025.
3.2 Cenário de Experiência
As atividades foram desenvolvidas em uma Unidade de Saúde da Família (USF) situada na zona urbana de Anápolis-GO. Os atendimentos foram realizados pelo médico residente sob supervisão direta de preceptoria, focando na abordagem de pacientes adultos com queixas musculoesqueléticas no âmbito da Atenção Primária à Saúde (APS).
3.3 Critérios de Seleção dos Casos Clínicos
Foram selecionados 4 casos de pacientes maiores de 18 anos com diagnóstico clínico de SDM confirmado por exame físico por meio da presença de pontos-gatilho miofasciais (PGMs) palpáveis, ativos ou latentes, além de redução de amplitude de movimento (ADM). Os casos foram escolhidos por representarem situações típicas observadas na prática ambulatorial, contemplando diferentes apresentações clínicas e relevância didática, nos quais foi indicada e aplicada a técnica de agulhamento seco como parte do manejo terapêutico.
Não foram incluídos como elegíveis para o procedimento os pacientes que não concordaram em realizá-lo, assim como aqueles que apresentavam contraindicações ao agulhamento seco. Nessas situações, optou-se pela aplicação de outras modalidades terapêuticas, de acordo com as particularidades clínicas de cada paciente.
As contraindicações absolutas ao agulhamento seco incluem (SANTOS, 2024): hipersensibilidade ou alergia aos materiais constituintes das agulhas; presença de infecção no local de inserção das agulhas ou infecções sistêmicas ativas; distúrbios de coagulação ou uso de medicamentos anticoagulantes; gestação, considerando a escassez de evidências científicas conclusivas quanto à segurança do procedimento nesse grupo; fobia intensa de agulhas.
As contraindicações relativas ao agulhamento seco compreendem (SANTOS, 2024): regiões com cicatrizes recentes ou excesso de tecido cicatricial; imunossuprimidos, em função do risco elevado de infecções; indivíduos com epilepsia, devido à possibilidade aumentada de desencadeamento de crises convulsivas; pacientes com diabetes mellitus, especialmente aqueles com controle glicêmico inadequado, em razão do maior risco de infecção e atraso no processo de cicatrização.
3.4 Estratégia de Busca Bibliográfica
Para corroborar a vivência com a teoria, foi realizada uma revisão da literatura que se deu pela busca de artigos científicos sobre o tema nas plataformas SciELO e PubMed.
Para otimização da pesquisa, foram utilizados descritores controlados a partir dos Descritores em Ciências da Saúde (DeCS) e seus equivalentes no Medical Subject Headings (MeSH), bem como termos livres complementares, selecionados de acordo com os eixos temáticos do estudo.
Os descritores utilizados foram: “Síndrome da dor miofascial”, “Ponto gatilho” e “Atenção Primária à Saúde”, bem como seus correspondentes em inglês “Myofascial Pain Syndrome”, “Trigger Points” e “Primary Care”. Como termos livres complementares, foram utilizados “Agulhamento seco” e “Dry needling”.
3.5 Seleção dos Estudos
Critérios de inclusão:
- publicações no período entre 2020 e 2025;
- estudos realizados com seres humanos;
- artigos disponíveis na íntegra para consulta em português, inglês e espanhol, aplicando filtros por tipo de estudo: Case Reports, Classical Article, Clinical Study, Clinical Trial, Meta-Analysis, Multicenter Study, Randomized Controlled Trial, Review, Systematic Review.
- trabalhos que abordem diagnóstico, epidemiologia, fisiopatologia e tratamento da Síndrome da Dor Miofascial, com ênfase no uso da técnica de agulhamento seco.
Critérios de exclusão:
- publicações que não apresentem aplicabilidade ao contexto da Atenção Primária à Saúde.
- artigos cujo foco principal divirja do tema proposto após análise do título e resumo;
- trabalhos com limitações metodológicas severas ou que não apresentem relação direta com as particularidades dos casos relatados neste estudo;
- monografias, dissertações e teses.
3.6 Aspectos Éticos
Todos os casos foram anonimizados e não contêm informações identificáveis, atendendo às recomendações éticas da resolução CNS 510/2016 para relatos de experiência sem coleta de dados individuais sistematizada.
4 RELATO DOS CASOS
4.1 Caso Clínico 1
Paciente do sexo feminino, 18 anos, profissional de operações de limpeza e serviços urbanos, sem comorbidades conhecidas e previamente hígida, procurou atendimento na Unidade de Saúde da Família (USF) com queixa de dor lombar à direita iniciada há aproximadamente um dia. O quadro teve início após movimentação brusca durante atividade laboral, com piora progressiva da intensidade dolorosa e irradiação para o membro inferior direito. No momento da avaliação, referia dor de forte intensidade Escala Visual Analógica (EVA 10/10), sem fatores claros de alívio. Negava história de queda, trauma direto ou sintomas neurológicos associados. Negava história de queda, trauma direto, febre, alterações esfincterianas, parestesias ou perda de força. Relatava episódio prévio semelhante, com melhora após uso de medicação intramuscular, sem conseguir especificar o fármaco utilizado.
Ao exame físico, observou-se limitação funcional do membro inferior direito secundária à dor. A amplitude de movimento (ADM) da coluna lombar encontrava-se reduzida, principalmente aos movimentos de flexão e extensão, com dor desencadeada durante a mobilização. O teste de Lasègue foi negativo. À palpação muscular, identificaramse pontos-gatilho miofasciais (PGMs) ativos na musculatura paravertebral lombar direita e em músculo glúteo mínimo direito, com reprodução da dor referida habitual.
Foram consideradas hipóteses diagnósticas como lombalgia mecânica aguda, radiculopatia lombar e Síndrome da Dor Miofascial (SDM). Diante da ausência de sinais neurológicos, do teste de Lasègue negativo e da presença de PGMs ativos com dor referida típica, estabeleceu-se o diagnóstico clínico de SDM.
Após explicação da hipótese diagnóstica, até então desconhecida pela paciente, e das opções terapêuticas disponíveis, incluindo seus potenciais riscos e benefícios, foi indicada a realização de agulhamento seco nos músculos acometidos. A paciente concordou com a conduta proposta, tendo sido obtido o consentimento informado para a realização do procedimento. A sessão de agulhamento seco foi realizada sem intercorrências, com redução imediata e significativa da intensidade da dor, que passou de 10/10 para 2/10 na Escala Visual Analógica (EVA), além de melhora funcional referida pela paciente.
Foi prescrita, para uso domiciliar, tizanidina 2 mg por 10 dias, um relaxante muscular, além de orientações quanto ao uso de compressa morna local e à realização de alongamentos. A paciente também foi orientada quanto a medidas no ambiente laboral, incluindo evitar movimentos bruscos, realizar pausas durante a jornada de trabalho e buscar por exercícios de fortalecimento e condicionamento muscular como estratégia preventiva.
No acompanhamento após uma semana, a paciente evoluiu com melhora clínica sustentada, recuperação funcional e retorno às atividades laborais sem prejuízos, não havendo necessidade de solicitação de exames complementares ou encaminhamento para atenção especializada.
4.2 Caso Clínico 2
Paciente do sexo masculino, 46 anos, jardineiro, com antecedentes de hipertensão arterial sistêmica, transtorno misto ansioso e depressivo, ex-etilista, tabagista ativo e com histórico de dor lombar crônica, procurou atendimento na USF com queixa de dor em região do ombro direito iniciada há aproximadamente cinco dias. O quadro teve início após esforço físico intenso durante atividade laboral (capina manual de lote), evoluindo com dor contínua, em peso, de forte intensidade (EVA 10/10), localizada no andar superior do dorso à direita, sem irradiação definida, associada à sensação de dormência em braço e mão direitos. Negava quedas ou traumas diretos. Referia impacto significativo na capacidade laboral. Relatava uso prévio de medicação injetável em farmácia, não especificada, sem melhora do quadro.
Ao exame osteomuscular inicial, observou-se redução da ADM ativa do membro superior direito para abdução e flexão do ombro, com limitação dolorosa. As rotações interna e externa encontravam-se preservadas. Os testes de Apley, Gerber, Yocum e Jobe foram positivos à direita, enquanto os testes de Neer, Patte e Hawkins foram negativos. À palpação, foram identificadas bandas tensas e PGMs ativos em musculatura supraespinhal e subescapular.
Diante do quadro clínico e dos achados no exame físico, foram consideradas como hipóteses diagnósticas lesões do manguito rotador, especialmente envolvendo os tendões do supraespinhal e subescapular, bem como SDM como diagnóstico diferencial. Após explicação sobre o procedimento de agulhamento seco, incluindo suas indicações, riscos e benefícios, o paciente consentiu formalmente, com assinatura do termo de consentimento. Foi realizada sessão de agulhamento seco, sem intercorrências, com relato de melhora parcial da dor ao término do procedimento. Foram orientadas medidas conservadoras iniciais, incluindo compressas mornas locais e alongamentos três vezes ao dia, alongamentos e retorno em uma semana para nova avaliação.
Na reavaliação, o paciente relatava discreta melhora da dor, ainda apresentando queixa persistente no ombro direito. Foi realizada nova sessão de agulhamento seco, sem intercorrências, com melhora parcial imediata. Mantiveram-se as orientações conservadoras. Foi solicitada ultrassonografia do ombro direito para investigação de diagnósticos diferenciais e agendamento de retorno com exame.
O paciente retornou ainda sintomático e com o resultado do exame, que evidenciou tendinopatia dos tendões supraespinhal e infraespinhal à direita, além de sinovite da articulação acromioclavicular. Diante dos achados de imagem e da persistência do quadro doloroso, foi considerada como hipótese diagnóstica principal lesão do manguito rotador, com possibilidade de capsulite adesiva em investigação. Optou-se pela solicitação de ressonância magnética do ombro direito e encaminhamento para avaliação da especialidade de Ortopedia, visando definição terapêutica e possível infiltração articular.
4.3 Caso Clínico 3
Paciente do sexo feminino, 71 anos, costureira, sedentária, com antecedentes de diabetes mellitus tipo 2 e hipertensão arterial sistêmica, compareceu à USF acompanhada da filha, com queixa de dor em ombro esquerdo iniciada há cerca de três dias. Relatava dor intensa, associada a sensação de formigamento e irradiação para o membro superior esquerdo, descrita como “uma dor terrível que dói e formiga o braço”. Referia início do quadro após esforço físico domiciliar, ao arrastar um sofá alguns dias antes do início dos sintomas.
Ao exame físico, observou-se dor à mobilização do ombro esquerdo, com limitação funcional secundária à dor. À palpação, identificou-se presença de bandas tensas na musculatura do trapézio, supraespinhal e infraespinhal à esquerda, sem identificação de PGMs ativos no momento da avaliação. Não foram descritos testes específicos do ombro nessa avaliação inicial.
Optou-se inicialmente por manejo conservador, com orientações para realização de alongamentos da musculatura acometida três vezes ao dia, com duração média de 30 a 40 segundos por alongamento, além do uso de compressas mornas locais por 10 a 20 minutos. A paciente retornou para reavaliação referindo alívio parcial da dor, porém com persistência de limitação funcional.
Diante da resposta incompleta às medidas conservadoras, foi oferecida a realização de agulhamento seco como opção terapêutica. O procedimento foi explicado à paciente e à acompanhante, incluindo indicações e possíveis efeitos, sendo realizado após consentimento, sem intercorrências. Ao término da sessão, a paciente relatou alívio quase completo da dor.
Foram reforçadas orientações quanto à continuidade dos alongamentos, uso de medidas físicas e medicações previamente prescritas. A paciente evoluiu com melhora significativa do quadro álgico e funcional.
4.4 Caso Clínico 4
Paciente do sexo masculino, 61 anos, hipertenso, trabalhador de fábrica de recicláveis, exercendo atividade laboral com elevada exigência física, incluindo transporte manual de cargas de aproximadamente 70 kg apoiadas sobre a cabeça. Relatava história de lombalgia intermitente há cerca de quatro anos, com episódios recorrentes de dor que motivaram múltiplas consultas em serviços de urgência, onde recebeu tratamento predominantemente medicamentoso, incluindo analgésicos, anti-inflamatórios e opioides por via parenteral.
No último ano, o quadro evoluiu com piora progressiva, tornando-se dor lombar intensa, diária e limitante, associada à irradiação para o membro inferior direito e a episódios de agudização que comprometiam a deambulação e o desempenho laboral. A dor era frequentemente desencadeada por esforço físico, com alívio parcial ao repouso e ao uso de analgésicos. Associado a isso, paciente também apresentava o relato de perda de peso não intencional no último ano.
Ao exame físico osteomuscular, observou-se redução da ADM da coluna lombar para lateralização bilateral. Havia dor na flexão da perna direita. À palpação, identificaram-se bandas tensas difusas indolores na musculatura paravertebral bilateral com PGMs latentes, além de PGMs ativos em glúteo médio direito, com irradiação típica da dor por membro inferior direito. O teste de Lasègue foi negativo.
Diante dos achados clínicos do exame físico, foi considerada a hipótese diagnóstica de SDM associada à lombalgia crônica mecânica, sendo realizada sessão de agulhamento seco, com resolução do quadro doloroso agudo. Foram orientadas medidas complementares, incluindo uso de compressas mornas, relaxante muscular e alongamentos da musculatura acometida. Entretanto, devido a quadro de dor lombar com piora recente em idoso e o relato de perda de peso não intencional, optou-se pela investigação de diagnósticos diferenciais por meio de exames de imagem.
Inicialmente, foi solicitada radiografia da coluna lombar, que evidenciou osteofitose marginal e redução dos espaços intervertebrais discais em L1-L2, L2-L3, L3-L4 e L5-S1.
Durante consultas subsequentes para manejo de novas crises dolorosas, o paciente passou a relatar episódio isolado de sangramento gengival, ainda mantendo a perda ponderal não intencional. Negava febre, sudorese noturna, linfonodomegalias, incontinência urinária ou fecal, parestesia em sela, ou déficits neurológicos motores persistentes em membros inferiores. Apesar da resposta analgésica consistente às sessões de agulhamento seco, os sinais de alerta motivaram ampliação da investigação diagnóstica.
Foi então solicitada ressonância magnética da coluna lombar com contraste, que evidenciou lesão nodular comprometendo a metade direita do corpo vertebral de L2, com extensão para o pedículo correspondente, apresentando hipossinal em T1 e hipersinal em T2 com supressão de gordura, associada a fratura patológica e compressão da face anterior do saco dural. A lesão apresentou realce significativo após administração de contraste paramagnético, com pequena extensão para o espaço discal L2-L3. Os achados foram considerados altamente sugestivos de lesão de natureza neoplásica, tendo como principais hipóteses diagnósticas lesão secundária metastática e, alternativamente, mieloma múltiplo ou plasmocitoma. Observou-se ainda espondilose lombar e discopatia degenerativa em múltiplos níveis.
Diante do diagnóstico provável, foi realizado manejo estruturado da comunicação de más notícias, conforme o protocolo SPIKES, instituído plano de manejo da dor crônica e programado acompanhamento multiprofissional, com encaminhamento para atenção especializada.
5 DISCUSSÃO
A Síndrome da Dor Miofascial (SDM) é uma condição musculoesquelética regional, crônica ou recorrente, de extrema relevância clínica no cenário da Atenção Primária à Saúde (APS). Na APS, cerca de 30% dos pacientes que consultam por dor apresentam critérios para SDM, sendo a causa mais comum de queixas dolorosas nesse nível de atenção (ALHAKAMI; SAHELY; ALSHAMI, 2025). Profissionais expostos a posturas estáticas prolongadas ou movimentos repetitivos, como operadores de máquinas, músicos, dentistas e trabalhadores de escritório, também são frequentemente afetados por sobrecarga mecânica e microtraumas repetitivos, fatores centrais na etiologia da SDM (STEEN; JAISWAL; KUMBHARE, 2025).
A Síndrome da Dor Miofascial (SDM) é definida pela presença de pontos-gatilho miofasciais (PGMs), que são nódulos hiperirritáveis e hipersensíveis localizados em bandas tensas de fibras musculares esqueléticas. Esses pontos, quando estimulados, produzem dor local e referida, além de poderem disparar uma resposta de contração local e fenômenos autonômicos (CHEN et al., 2025; STEEN; JAISWAL; KUMBHARE, 2025).
O caráter da SDM é fundamentalmente funcional e musculoesquelético. A presença de PGMs resulta em fraqueza muscular (sem atrofia), rigidez e restrição da amplitude de movimento (ADM), o que prejudica a execução de atividades cotidianas simples. A síndrome pode ser classificada como primária ou ocorrer secundariamente a outras patologias, como desordens articulares e radiculopatias (DACH; FERREIRA, 2023)
Embora seja uma condição prevalente, a SDM é frequentemente subdiagnosticada ou confundida com outras condições. A complexidade do diagnóstico decorre da ausência de critérios objetivos padronizados (como exames laboratoriais ou de imagem de rotina) e da sobreposição clínica com outras doenças musculares, o que pode levar a tratamentos inadequados e prolongamento do sofrimento do paciente (STEEN; JAISWAL; KUMBHARE, 2025).
O impacto socioeconômico da SDM é comparável ao fardo de grandes doenças crônicas. Ela configura-se como uma das principais causas de absenteísmo laboral e incapacidade funcional, gerando custos bilionários para os sistemas de saúde e para a previdência social. Além do prejuízo financeiro, a dor miofascial persistente degrada a qualidade de vida, estando intimamente ligada a transtornos de ansiedade, depressão, distúrbios do sono e isolamento social (LARA-PALOMO et al., 2022; STEEN; JAISWAL; KUMBHARE, 2025).
O diagnóstico da SDM é essencialmente clínico, fundamentado na anamnese detalhada e em um exame físico musculoesquelético criterioso. Na APS, onde ferramentas diagnósticas de alta tecnologia nem sempre estão disponíveis, a palpação manual qualificada permanece como o padrão-ouro para a detecção de PGMs (CHEN et al., 2025; STEEN; JAISWAL; KUMBHARE, 2025). O quadro clínico típico caracteriza-se por uma dor regional, crônica ou recorrente, com uma qualidade de “dor profunda” ou “em peso”, que pode ser localizada ou, caracteristicamente, em padrões de referência distantes que não seguem uma distribuição dermatomal ou radicular clássica (APPASAMY et al., 2022). Também pode estar acompanhada de rigidez e limitação funcional, com restrição da ADM.
A palpação muscular é a etapa mais crítica do exame físico direcionado. O examinador deve buscar a identificação de uma banda tensa (um feixe de fibras musculares hipertonificadas) e, dentro dela, um nódulo discretamente palpável e hiperirritável. Clinicamente, os PGMs são classificados em duas categorias, cuja distinção orienta o manejo. A primeira é a de PGMs ativos, responsáveis por causar dor espontânea ou durante o movimento e, quando pressionados, reproduzem os sintomas familiares reconhecidos pelo paciente como sua queixa clínica atual. A segunda são os PGMs latentes, que são clinicamente silenciosos e assintomáticos em repouso, produzindo dor apenas sob estimulação ou palpação profunda. Embora não causem dor espontânea, os PGMs latentes são clinicamente relevantes, pois contribuem significativamente para a rigidez, restrição de ADM e disfunção motora (APPASAMY et al., 2022; STEEN; JAISWAL; KUMBHARE, 2025).
A SDM, embora prevalente, exige uma avaliação clínica ampliada para não ser confundida com outras condições musculoesqueléticas ou neurológicas. O diagnóstico diferencial é fundamental, pois a sobreposição de sintomas pode levar a tratamentos inapropriados ou ao mascaramento de patologias graves (STEEN; JAISWAL; KUMBHARE, 2025).
A identificação de sinais de alerta (com as red flags no Caso 4) é uma etapa obrigatória antes de qualquer intervenção, especialmente o agulhamento seco. Devem ser excluídas causas graves como neoplasias, infecções, fraturas, osteoporose avançada ou síndromes compressivas agudas, como a da cauda equina. Além disso, fatores sistêmicos como deficiência de vitamina D, hipotireoidismo e anemia ferropriva devem ser investigados, pois podem mimetizar a mialgia ou impedir a resolução dos PGMs (DAR; GOLDBERG, 2025; STEEN; JAISWAL; KUMBHARE, 2025).
Dessa forma, a reavaliação clínica torna-se imperativa quando a resposta terapêutica é insuficiente. A persistência da dor após intervenções adequadas sugere que a mialgia pode ser secundária a outra patologia estrutural não identificada ou que o paciente apresenta um fenótipo de dor nociplástica com sensibilização central acentuada. Nesses casos, o plano de manejo deve ser expandido para incluir abordagens multimodais (DACH; FERREIRA, 2023).
No que tange ao manejo da SDM, ele deve ser pautado pela resolutividade e viabilidade clínica, priorizando intervenções que interrompam o ciclo vicioso de dor e disfunção. O alongamento muscular e a aplicação de calor local visam restaurar o comprimento ideal do sarcômero, o que auxilia na recuperação do fluxo sanguíneo e na eliminação de substâncias sensibilizantes (GUZMÁN-PAVÓN et al., 2024). Além disso, exercícios de fortalecimento, estabilização e mobilidade são essenciais para corrigir desequilíbrios musculares e reduzir a carga mecânica sobre as articulações afetadas (MA et al., 2023; PARA-GARCÍA et al., 2022).
Uma outra proposta terapêutica que pode ser empregada é o agulhamento seco (dry needling), que é uma técnica minimamente invasiva que utiliza agulhas filiformes sólidas para penetrar na pele e estimular mecanicamente os PGMs, sem a infusão de substâncias farmacológicas (SÁNCHEZ-INFANTE et al., 2021). Há forte evidência de que o agulhamento seco proporciona alívio significativo da dor a curto prazo, reduz a rigidez muscular e melhora da ADM. O procedimento é considerado seguro quando realizado por profissionais treinados com conhecimento anatômico adequado e os eventos adversos mais comuns são leves e transitórios, como dor pós-agulhamento, hematomas ou sangramentos localizados. Complicações graves, como pneumotórax, são raras (incidência menor que 0,1%) (DACH; FERREIRA, 2023; FERNÁNDEZ-DE-LAS-PEÑAS et al., 2021; STEEN; JAISWAL; KUMBHARE, 2025).
Devido ao seu baixo custo operacional e simplicidade de materiais, o agulhamento seco é uma opção altamente acessível para o cenário de cuidados primários, permitindo uma intervenção prática e imediata (CHEN et al., 2025).
No entanto, é importante destacar que nem todos os pacientes respondem de forma satisfatória ao agulhamento isolado. Falhas terapêuticas podem ocorrer, o que deve direcionar a propedêutica para uma reavaliação diagnóstica criteriosa, considerando a SDM como condição secundária a outras patologias subjacentes (STEEN; JAISWAL; KUMBHARE, 2025). Casos complexos podem necessitar de investigação complementar com exames de imagem e uma abordagem multiprofissional especializada.
No Caso Clínico 1, é possível observar o perfil clássico da SDM em uma trabalhadora jovem exposta a sobrecarga mecânica, o que corrobora a literatura que aponta o uso excessivo ou trauma direto como gatilhos para a formação de PGMs. O diagnóstico de SDM foi estabelecido após a exclusão de radiculopatia (teste de Lasègue negativo), diferenciando-a de causas neurológicas compressivas que apresentam déficits objetivos ausentes na SDM. A resposta quase imediata ao agulhamento seco reflete as evidências de que a estimulação mecânica dos PGMs pode restaurar o equilíbrio tecidual e induzir analgesia rápida. A resolução do quadro na APS evita exames de imagem desnecessários e reduz o impacto econômico do absenteísmo laboral, além de custos gerados sobre o sistema de saúde (DACH; FERREIRA, 2023; STEEN; JAISWAL; KUMBHARE, 2025).
Por outro lado, o Caso 2 ilustra o desafio do diagnóstico diferencial em queixas de ombro em uma consulta na APS. A limitação funcional importante sem PGMs iniciais exigiu a diferenciação entre SDM e patologias estruturais do manguito rotador, conforme preconizado pela necessidade de avaliação clínica ampliada. A persistência da dor e a resposta limitada ao agulhamento seco indicaram a necessidade de reavaliação diagnóstica, levando à identificação por ultrassonografia de tendinopatia e sinovite, o que justifica o encaminhamento para a atenção especializada (STEEN; JAISWAL; KUMBHARE, 2025).
No Caso 3, a paciente idosa apresenta um quadro comum nessa faixa etária, onde a prevalência da SDM pode atingir 85% (STEEN; JAISWAL; KUMBHARE, 2025). A presença de bandas tensas sem pontos ativos define o estado de PGMs latentes, que, embora clinicamente silenciosos em repouso, são clinicamente relevantes por causarem rigidez e restrição da ADM (MA et al., 2023). A falha parcial das medidas conservadoras iniciais e o alívio significativo após o agulhamento seco demonstram que o tratamento de pontos latentes pode ser eficaz na recuperação funcional e na restauração do equilíbrio muscular em idosos.
Por fim, o Caso 4 evidencia a importância fundamental da vigilância quanto aos sinais de alerta (red flags) em pacientes com dor crônica (STEEN; JAISWAL; KUMBHARE, 2025). Inicialmente, a resposta analgésica ao agulhamento seco sugeria um quadro miofascial puro, porém a presença de agudização de dor crônica e perda de peso não intencional em paciente idoso motivaram uma investigação mais profunda. A confirmação de uma neoplasia vertebral reforça que a SDM pode ser secundária a patologias graves e que o médico de família deve manter a maturidade clínica para reavaliar o diagnóstico quando a evolução foge do padrão esperado.
5.1 Vivência do residente na incorporação do agulhamento seco para tratamento da Síndrome da Dor Miofascial (SDM) na prática da Atenção Primária à Saúde (APS)
Além da análise dos casos à luz da literatura, faz-se necessário refletir sobre a experiência formativa do residente na incorporação do agulhamento seco à prática clínica na APS, considerando os desafios, limites e aprendizados inerentes a esse processo.
O primeiro contato com o agulhamento seco que tive ocorreu durante a residência em Medicina de Família e Comunidade (MFC), iniciada em março de 2024. Até então o método era totalmente desconhecido para mim. O aprendizado da técnica ocorreu durante o programa de especialização, de maneira gradual, por meio de oficinas práticas, supervisão de preceptores e estudo autodirigido. Esse processo exigiu o desenvolvimento de habilidades manuais, maior domínio da anatomia funcional e segurança na palpação de bandas tensas e pontos-gatilho miofasciais (PGMs).
Nos primeiros atendimentos, a realização do procedimento esteve associada à insegurança técnica e à necessidade de supervisão direta, especialmente em grupos musculares mais profundos ou em regiões anatômicas de maior risco, tais como o músculo quadrado lombar ou os multífidos.
Com o passar do tempo, percebi que a técnica representou uma mudança importante na forma que eu abordava as queixas musculoesqueléticas na APS: permitiu reduzir a adoção generalizada de condutas farmacológicas ou de encaminhamentos precoces para a atenção secundária, possibilitando individualizar melhor a abordagem para cada paciente.
No entanto, o uso do agulhamento seco na rotina da residência enfrentou com desfios. O primeiro deles envolveu a aquisição das agulhas para o procedimento. Segundo Chen et al. (2025), a técnica possui baixo custo e simplicidade de aplicação; porém, como a APS muitas vezes não oferece o material necessário, o residente acaba por adquiri-lo com recursos próprios.
O segundo desafio foi o tempo para execução da técnica. Embora Trybulski et al. (2024) considerem que a execução técnica propriamente dita pode ser extremamente breve, durando entre 15 a 30 segundos para o tratamento de um ponto-gatilho específico, na prática, o tempo demandado era bem maior. Isso ocorria porque cada paciente geralmente apresenta diversos pontos e, por vezes, resistência ao método por desconhecimento. Além disso, o processo em consultório depende da aceitação e da tolerância do paciente durante a aplicação. Assim, o tempo limitado das consultas e a organização da agenda dificultavam uma abordagem mais abrangente de cada caso.
Uma estratégia encontrada para conciliar o tempo de atendimento com a agenda da Unidade de Saúde da Família (USF) foi a reserva de horários específicos para a realização de procedimentos, entre eles o agulhamento. Quanto à aceitação dos pacientes, observaram-se dois obstáculos principais: o primeiro foi a dificuldade de alguns em tolerar a pistonagem da agulha, preferindo modalidades alternativas, como a estimulação elétrica associada; o segundo foi a expectativa de resolução imediata da dor, o que exigiu um manejo adequado das expectativas e em educação em saúde.
Nem todas as experiências foram satisfatórias. Em alguns casos, a resposta clínica foi parcial ou ausente, reforçando a compreensão de que o agulhamento seco não deve ser utilizado de forma isolada, mas integrado a um plano terapêutico multimodal. Além disso, a vivência clínica evidenciou a importância do rastreio sistemático de sinais de alerta (red flags), demonstrado em situações nas quais a dor miofascial coexistia com patologias estruturais ou sistêmicas subjacentes.
Apesar dos entraves operacionais e das limitações inerentes ao contexto da APS, a experiência contribuiu significativamente para o meu amadurecimento na abordagem de dores musculoesqueléticas. Passei a perceber o agulhamento seco como uma ferramenta clínica valiosa, que exige critério, indicação adequada e reflexão constante sobre os seus limites e potencialidades no cuidado longitudinal do paciente.
6 CONCLUSÃO
Este estudo evidenciou a relevância da Síndrome da Dor Miofascial (SDM) como condição musculoesquelética frequente na prática clínica, especialmente no contexto da Atenção Primária à Saúde (APS). Por meio de relatos que abrangeram desde quadros agudos incapacitantes em trabalhadores jovens até apresentações crônicas em indivíduos idosos, observou-se que a SDM se manifesta de forma heterogênea e recorrente no cotidiano assistencial.
A identificação precisa da SDM é particularmente relevante na APS, uma vez que essa condição frequentemente constitui o diagnóstico primário ou atua como componente secundário subjacente em queixas lombares e cervicais. O reconhecimento adequado da síndrome possibilita a realização de um diagnóstico diferencial mais acurado frente a outras desordens musculoesqueléticas, como fibromialgia e radiculopatias, evitando a perpetuação de abordagens terapêuticas inadequadas.
No contexto desta experiência, o agulhamento seco mostrou-se uma estratégia terapêutica adjuvante relevante, destacando-se pelo baixo custo e pela viabilidade de aplicação no ambiente da APS. Os achados reforçam que a técnica proporciona alívio significativo da dor e melhora funcional no curto prazo, contribuindo para a redução da medicalização excessiva e do uso prolongado de fármacos com potenciais efeitos adversos. Ressalta-se, entretanto, que a técnica deve ser compreendida como parte de um plano multimodal integrado à educação em saúde e a exercícios físicos.
A interpretação dos achados deste estudo deve ser realizada com cautela, visto que se trata de um relato de experiência com número reduzido de casos e ausência de avaliação padronizada de desfechos em longo prazo. Ainda assim, a prática relatada reforça a centralidade do raciocínio clínico e da avaliação global do paciente, bem como a importância do rastreio sistemático de sinais de alerta (red flags), fundamentais para a identificação de patologias graves subjacentes, como processos neoplásicos.
Para a formação do médico residente, o manejo dos casos contribuiu de maneira significativa para a consolidação de competências essenciais do médico residente em Medicina de Família e Comunidade (MFC), incluindo o aprimoramento do exame físico musculoesquelético, o uso criterioso de exames de imagem e a tomada de decisão compartilhada. A incorporação dessa abordagem favoreceu maior resolutividade clínica e redução de encaminhamentos desnecessários para a atenção secundária, reforçando o papel do médico de família como profissional capaz de manejar, de forma humana e eficaz, condições de dor que impactam diretamente a qualidade de vida da população assistida
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¹Discente de Residência Médica de Medicina de Família e Comunidade da Universidade Evangélica de Anápolis-GO. roquesantosrichard@gmail.com.
²Docente de Residência Médica de Medicina de Família e Comunidade da Universidade Evangélica de Anápolis-GO.
