PRINTING OUTSOURCING AND THE MANAGEMENT OF ELECTRONIC WASTE IN THE FEDERAL PUBLIC ADMINISTRATION: A THEORETICAL AND NORMATIVE ANALYSIS OF GREEN IT STRATEGY
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cs10202601130911
Robson da Silva Oliveira1
Sergio Luiz Braga França2
Sergio Ricardo da Silveira Barros3
Resumo
O presente artigo analisa a fundamentação teórica e normativa para a gestão do lixo eletrônico, com ênfase na TI Verde e no modelo de Outsourcing de Impressão, no contexto da Administração Pública Federal brasileira. O crescente uso de tecnologia pela sociedade tem provocado um aumento significativo na geração de resíduos eletrônicos, trazendo consequências ao meio ambiente e intensificando a conscientização ambiental, bem como a busca por meios que visem sua redução. Nas instituições públicas de ensino, observa-se a aquisição de uma grande quantidade de equipamentos de impressão e insumos, que ao término da garantia, acabam empilhados aguardando por um processo de desfazimento ou doação, aumentando o descarte de lixo eletrônico. O objetivo geral é analisar estratégias de gestão desses resíduos com base na revisão de literatura e na normativa vigente. A metodologia consiste na realização de uma pesquisa bibliográfica e documental para conhecer a realidade de outras instituições públicas no trato com o lixo eletrônico e na implantação do serviço de outsourcing de impressão, identificando as melhores práticas. A utilização de novas tecnologias e serviços, como a TI Verde e o outsourcing de impressão, tem sido uma estratégia adotada na redução do descarte de lixo eletrônico, diminuição de custos e aumento na eficiência operacional. Por fim, conclui-se que o Outsourcing de Impressão é uma estratégia eficaz e normativamente amparada (Portaria SGD/MGI nº 370/2023) para as instituições públicas de ensino, pois transfere a responsabilidade pela logística reversa e pelo descarte adequado de lixo eletrônico para a empresa contratada, resultando em eficiência operacional e alinhamento com os princípios da TI Verde e da sustentabilidade.
Palavras-chave: Outsourcing de Impressão. Sustentabilidade Organizacional. Lixo Eletrônico. Inovação Tecnológica. Instituição Federal de Ensino.
1. INTRODUÇÃO
1.1. Contextualização da Pesquisa
Com o crescimento da tecnologia nas últimas décadas, o descarte crescente de lixo eletrônico tem se tornando um grande problema, tanto nas empresas privadas quanto nas instituições públicas. O uso contínuo de equipamentos eletrônicos, como computadores, notebooks e impressoras tem gerado uma grande quantidade de resíduos, visto que em muitas das vezes inexistem peças de reposição e pela baixa durabilidade e confiabilidade dos bens de consumo que se tornam ultrapassados em um curto espaço de tempo (OLIVEIRA, R., 2023). Essa prática, conhecida por obsolescência programada, limita o tempo de vida dos produtos com o propósito de estimular o consumo contínuo e a substituição prematura desses bens (LUPE, 2024).
Por outro lado, a preocupação com o meio ambiente e discussões sobre sustentabilidade também tem se ampliado frente à interesses econômicos chegando a ser pauta de uma agenda global por mudanças (HUPPES, 2023). Segundo Lupe (2024, p.17), “a adoção de políticas e práticas que promovam a durabilidade, a reparabilidade e a reutilização dos produtos são exemplos concretos de ações que podem contribuir para a redução da obsolescência programada e para a diminuição do impacto ambiental relacionado aos resíduos eletrônicos”.
Hoje as discussões sobre as questões ambientais vem aumentando e tem chamado atenção em diferentes setores da sociedade, dentre eles no setor público e nas instituições públicas de ensino. Nestas, encontramos um movimento na busca da redução dos impactos ambientas gerados pelas suas atividades e na incorporação de noções de sustentabilidade em seus campos de atuação e na gestão e manutenção das próprias instituições (SOUZA et al., 2023, p. 2).
Segundo Souza & Ribeiro (2023, p. 234) um dos focos principais da sustentabilidade é o desenvolvimento, que anteriormente tinha na economia, o emprego e a renda, como impulsionadores do progresso, mas ao longo do tempo foram incorporados outros fatores como saúde, meio ambiente e sociedade
O Brasil, se baseando na Agenda 21 elaborada durante a RIO 92, desenvolveu a Agenda Ambiental na Administração Pública (A3P) com foco na adoção de práticas sustentáveis e na gestão ambiental na administração pública. Em 2010, a Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei nº 12.305/2010) define diretrizes para o tratamento adequado do lixo eletrônico, incentivando práticas mais sustentáveis de consumo e de descarte (BRASIL, 2010). Apesar dos avanços na conscientização ambiental e do surgimento de normas, muitas instituições ainda enfrentam dificuldades na aplicação de medidas eficientes que diminuam o desperdício de recursos e a redução do lixo eletrônico.
A problemática da gestão dos resíduos sólidos (lixo eletrônico) vem nos acompanhando há décadas. Existem esforços por parte da sociedade e, sobretudo, do Governo Federal, para criar meios de amenizar o impacto causado pela alta produção de dejetos desse tipo de material (ALENCAR, 2022, p. 17).
Segundo Souza et al. (2023) após o surgimento de leis, eventos e acordos que incentivam a adoção de práticas sustentáveis, com destaque para Agenda Ambiental da Administração Pública (A3P), surge no início da década de 2000 o termo Tecnologia da Informação Verde (TI verde ou Green IT) ou computação verde (Green Computing) que abriga as questões de sustentabilidade na área computacional, com princípios que se baseiam no uso racional da infraestrutura de TI disponíveis e proporcionar equilíbrio nos pilares econômico, social e ambiental. Os autores apontam que os esforços para implantar a TI Verde, inclusive por Instituições de Ensino, surgem da preocupação com os danos ao meio ambiente e a necessidade de redução de emissão de carbono, visto que a TI gera impacto ao meio ambiente.
Embora a inovação tecnológica pode levar à produção de mais lixo eletrônico, Alemany (2021, p. 55) aponta que ela vem resolvendo os problemas da sociedade moderna (mobilidade, comunicação, entre outros) e pode viabilizar soluções para diminuir o lixo eletrônico com a iniciativa de TI Verde, como o uso de tecnologias de virtualização, computação em nuvem e diminuição de impressões em papel, que também habilitam as organizações para a transformação digital.
Em alinhamento com a necessidade de redução no consumo de energia, a virtualização e computação em nuvem são exemplos de tecnologias que, acompanhadas do aumento da capacidade e redução dos custos de computadores e as redes, têm proporcionado a possibilidade do fornecimento de serviços como aplicações, plataforma de desenvolvimento e infraestrutura permitindo que a prestação destes serviços seja feita de forma flexível e à medida que é requisitada pelo demandante (ALEMANY, 2021, p. 25)
Essa pesquisa apresenta os conceitos de sustentabilidade e os desafios que as instituições públicas enfrentam na redução do descarte de lixo eletrônico, principalmente os gerados a partir da compra de equipamentos de impressão e insumos, e analisa a fundamentação para a adoção de inovações e soluções para o aumento da eficiência operacional.
1.2. Formulação da Situação Problema
No CEFET/RJ um dos desafios é a redução do lixo eletrônico gerado por equipamentos de impressão e cópias (impressoras e multifuncionais), que demandam o uso contínuo de insumos, além de assistência técnica especializada no surgimento de defeitos pós período de garantia.
Nas Instituições Federais de Ensino encontramos ainda o desafio da falta de padronização desses equipamentos devido ao fato de serem adquiridos por meio de licitação pública, já que nessa modalidade de compra há a vedação de indicação de marca/modelo. A especificação das características do equipamento é um ponto sensível e, dentre outros fatores, pode ser responsável pelo aumento do parque tecnológico e a necessidade de compra de insumos específicos para cada modelo existente, que muitas das vezes não são de boa qualidade.
Um outro problema que encontramos na administração pública é o sucateamento de equipamentos, principalmente impressoras e multifuncionais com defeito que, após o período de garantia, acabam sem utilidade, ocupando espaço físico e aguardando a realização de processo de desfazimento para doação ou descarte. Outro ponto é o descarte dos insumos, como os toners, que não entram no processo de desfazimento, e são diretamente descartados, gerando preocupação com efeitos ambientais.
…em um ambiente em que os produtos são lançados diariamente e o consumo se torna cada vez mais comum, o tema vai ao encontro do papel social das escolas públicas e dos diferentes atores envolvidos em sua gestão em promover alternativas que diminuam o descarte de recursos tecnológicos, como as máquinas copiadores, com foco na sustentabilidade… (COLEN et al., 2023, p.3).
Nesse cenário, a prática de TI Verde aliada à aquisição consciente de equipamentos de TI, como computadores e impressoras, e insumos, como papel e cartuchos, considerando rótulos ecológicos e a seleção de fornecedores que adotem requisitos ambientais nas especificações de compra, podem ajudar as Instituições de Ensino nas questões de sustentabilidade, desde a eficiência energética como a diminuição de resíduos eletrônicos.
Em alguns equipamentos de TI já se faz uso de Inteligência artificial (IA), como nas impressoras, capaz de auxiliar na identificação da necessidade de manutenção preditiva, com o uso de sensores e monitoramento contínuo, aumentando a vida útil do equipamento, e consequentemente, a diminuição de lixo eletrônico.
O quadro de servidores, técnicos administrativos e os professores, do CEFET/RJ, instituição em observação neste trabalho, utilizam equipamentos de impressão e cópias em suas atividades diárias, sendo os professores, pela natureza da atividade, os que mais requerem os serviços. Para tanto é necessária pronta disponibilidade, qualidade, e outros fatores que afetam a proposta fim das instituições de ensino, com efeito no corpo discente. Diante dessa realidade, a razão da pesquisa tem relação com a seguinte questão: como contribuir para a eficiência operacional e a redução do descarte de lixo eletrônico no CEFET/RJ considerando aspectos de inovação tecnológica e sustentabilidade?
1.3. Objetivo da Pesquisa
O objetivo geral desta pesquisa é analisar estratégias e práticas da gestão do lixo eletrônico, com ênfase na TI Verde e no modelo de Outsourcing de Impressão, no contexto da Administração Pública Federal brasileira, com base na revisão de literatura e normativa vigente.
1.4. METODOLOGIA
O presente artigo detalha os procedimentos metodológicos adotados para o desenvolvimento da análise teórica e normativa, que visou examinar as soluções para a gestão de lixo eletrônico. A pesquisa adotou uma abordagem qualitativa, buscando interpretar e sintetizar o conhecimento sobre o tema. Quanto aos objetivos, foi classificada como exploratória e descritiva, buscando identificar e descrever os aspectos de sustentabilidade, as inovações tecnológicas, como TI Verde e Outsourcing de Impressão, e as melhores práticas aplicáveis ao contexto de instituições públicas de ensino.
Em relação aos procedimentos técnicos, a pesquisa consistiu na Pesquisa Bibliográfica e na Pesquisa Documental.
(i) Pesquisa Bibliográfica: foi realizada a Revisão da Literatura para identificar e analisar a produção científica sobre os temas centrais do estudo. Para garantir a reprodutibilidade, a coleta de dados foi realizada mediante a aplicação de múltiplas strings de busca, utilizando combinações lógicas de termos-chave por meio de operadores booleanos (AND e OR).
Os termos foram divididos em dois eixos temáticos:
- Sustentabilidade e Gestão: “TI verde”, “sustentabilidade”, “gestão ambiental”, “lixo eletrônico”, “ESG”, “ODS”, “A3P”, “PNRS” e “desfazimento”.
- Contexto e Inovação: “instituição pública”, “instituição de ensino”, “computação em nuvem”, “virtualização”, “digitalização” e “outsourcing de impressão”. As bases de dados utilizadas foram SCOPUS, Google Scholar e o Portal de Periódicos CAPES. Adicionalmente, em face da baixa recuperação de artigos sobre o tema específico em bases tradicionais, recorreu-se suplementarmente aos repositórios de teses e dissertações de universidades federais. A pesquisa foi restrita ao idioma português (exceto siglas internacionais), priorizando a legislação da Administração Pública Federal brasileira.
(ii) Pesquisa Documental: forneceu o contexto legal e as restrições normativas para a análise. A coleta de dados documentais visou levantar normas que regem: 1. A Política nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) e suas regulamentações; 2. A Agenda Ambiental na Administração Pública (A3P); 3. O desfazimento de bens móveis (Decreto nº 9.373/2018 e alterações); e 4. Normas específicas sobre a contratação de Outsourcing de Impressão na Administração Pública Federal (Portaria SGD/MGI nº 370/2023).
Estruturalmente, o presente artigo está organizado em quatro capítulos: esta introdução; a fundamentação teórica; a análise consolidada da revisão de literatura; e, por fim, as considerações finais
2. REVISÃO DA LITERATURA
2.1. Sustentabilidade Ambiental e Resíduos Eletroeletrônicos na Administração Pública
O conceito de Desenvolvimento Sustentável, originado na Conferência de Estocolmo (1972) e consolidado a partir do Relatório Brundtland (1987) e da RIO 92, fundamenta a busca pelo equilíbrio entre os interesses econômicos e a preservação ambiental (ARAÚJO, 2023; HUPPES, 2023; SANTOS, 2022; SOUZA & RIBEIRO, 2023).
Souza & Ribeiro (2023, p. 234-235) apontam o modelo proposto por Elkington em 1994, conhecido como o “Tripé da Sustentabilidade” (Triple Bottom Line), como sendo o modelo de DS mais difundido e aceito, estabelecendo que as práticas institucionais devem suprir equilibradamente as dimensões social, ambiental e econômica. Esta abordagem sustenta a necessidade de integrar a eficiência operacional ao respeito aos recursos naturais e ao impacto social da administração pública (SOUZA & RIBEIRO, 2023).
O termo ESG tem sua origem nas décadas de 1960 e 1970, a partir do conceito de Investimento Socialmente Responsável (SRI) (CRUZ et al., 2022). Huppes (2023) e Silva (2025) destacam que essa abordagem integra a gestão de riscos e o equilíbrio entre desempenho econômico e responsabilidade socioambiental, permitindo que as organizações atendam às regulações e às expectativas das partes interessadas.
Vicente (2024) complementa que a implementação das três dimensões – Ambiental (E), Social (S) e Governamental (G) – é fundamental para melhoria de desempenho em todos os níveis de gestão, abrangendo desde o controle de impactos ambientais até o cumprimento de princípios éticos e de transparência.
A adoção dos critérios ESG por universidades não é apenas uma tendência, mas uma necessidade para alinhar as instituições de ensino, seja privado ou público, aos novos paradigmas globais. O fato é que ao incorporar critérios ambientais, sociais e de governança, oferece um framework abrangente para as universidades operarem de maneira sustentável e responsável (SILVA, 2025).
Nesse cenário, as Instituições de Ensino Superior (IES) assumem um papel fundamental ao transpor o campo teórico para a prática, cumprindo a legislação ambiental e enfrentando os impactos gerados por seus processos, com destaque para a gestão e redução do lixo eletrônico (ALENCAR, 2022; SANTOS, 2022).
O lixo eletrônico, ou resíduo de equipamentos eletroeletrônicos (REEE), compreende dispositivos sem uso ou obsoletos que, devido à presença de substâncias tóxicas e materiais valiosos, exigem descarte adequado para minimizar impactos ambientais e permitir a reciclagem. Nesse cenário, a gestão de resíduos sólidos torna-se fundamental para o equilíbrio ambiental e a eficiência das autarquias (ALENCAR, 2022).
Para estimular práticas sustentáveis, o Governo Federal desenvolveu em 1999 a Agenda Ambiental na Administração Pública (A3P), com base no princípio 8 da Agenda 21 da Declaração da RIO 92 e na Declaração de Johanesburgo (LUPE, 2024; MMA, 2025). Essa iniciativa incentiva a articulação de estratégias para o manejo adequado dos resíduos gerados nas rotinas administrativas (OLIVEIRA, R., 2023).
Entretanto, a gestão desses resíduos permanece um desafio crítico para as Instituições de Ensino Superior, que enfrentam a necessidade de renovação constante de seus parques tecnológicos. A obsolescência programada acelera a substituição de equipamentos, provocando ociosidade e acúmulo de materiais que aguardam descarte (OLIVEIRA, R., 2023).
2.2. Redução de Descarte de Lixo Eletrônico em Instituição de Ensino / Administração Pública: Leis e Práticas
A legislação brasileira deu passos importantes na regulamentação da gestão de resíduos eletrônicos, com destaque para a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), Lei nº 12.305/2010, direcionada para gestão e gerenciamento dos resíduos sólidos no território nacional, estabelecendo diretrizes para a destinação adequada desses materiais, incluindo os resíduos classificados como perigosos e excluindo os rejeitos radioativos (BRASIL, 2010).
Esta lei estabelece diretrizes para a destinação adequada de materiais, define a responsabilidade pelo descarte e proíbe destinos inadequados, como o descarte a céu aberto.(DUTRA et al., 2023). Segundo Alencar (2022), a PNRS foca na prevenção e redução da geração de resíduos, fomentando a reciclagem e o reuso de forma sustentável.
Para viabilizar a PNRS, utilizam-se instrumentos como a logística reversa e a responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos. De acordo com Oliveira, M. (2023), esses mecanismos visam colocar em isonomia todos os atores da cadeia produtiva, contribuindo para a redução da geração de resíduos e a preservação dos recursos naturais. A logística reversa funciona como uma ferramenta de gerenciamento que permite o retorno dos produtos pós-consumo aos fabricantes e fornecedores para o descarte apropriado
No contexto da Administração Pública Federal, as Instituições de Ensino Superior (IES) devem observar o Decreto nº 9.373/2018, que regulamenta a alienação, cessão e destinação final de bens móveis. Este decreto define categorias de materiais inservíveis — ocioso, recuperável, antieconômico e irrecuperável —, conforme detalhado no Quadro 1 (BRASIL, 2018; LUPE, 2024). Além disso, a norma dá destaque aos equipamentos de informática, cujos componentes nocivos exigem descarte especializado para evitar danos ao meio ambiente (PARRON; NOGUEIRA; ALMEIDA, 2022).
Quadro 1 – Classificação de Bens inservíveis à luz do Decreto nº 9.373/18

Após a Lei da PNRS, vários decretos e normas vieram para estabelecer diretrizes, regular e definir procedimentos referente ao descarte de resíduos sólidos, no Quadro 2 temos um resumo dos principais.
Quadro 2 – Principais normas legais e técnicas relacionadas à PNRS

2.3. Possibilidades para a Redução do Lixo Eletrônico
2.3.1. Inovação Tecnológica e TI Verde
Embora o avanço tecnológico proporciona benefícios operacionais, ele também gera impactos ambientais negativos, como o aumento do consumo de energia e da produção de resíduos eletrônicos devido à rápida obsolescência dos equipamentos de informática (MATTOS NETO, MÉXAS & VIEIRA NETO, 2024; ALENCAR, 2022). Nas Instituições de Ensino Superior (IES), essa realidade exige o alinhamento constante da modernização da infraestrutura a práticas que minimizem os danos ao meio ambiente, visando um futuro mais sustentável (GOMES et al., 2022; MATTOS NETO, MÉXAS & VIEIRA NETO, 2024).
A Tecnologia da Informação Verde (TI Verde) tem como objetivo reduzir esses efeitos através de iniciativas que aumentam a eficiência dos processos e diminuem o desperdício tecnológico (GOMES et al., 2022). Originada em 1992 com o programa norte-americano Energy Star, a prática consolidou-se como uma alternativa estratégica para conciliar o uso de recursos computacionais com políticas de sustentabilidade (MATTOS NETO, MÉXAS & VIEIRA NETO, 2024.
A TI Verde constitui uma prática abrangente que envolve o projeto, fabricação, uso e descarte eficiente de componentes de hardware e infraestrutura, visando o menor impacto ambiental possível (GOMES et al., 2022). Esse compromisso estratégico contribui diretamente para os critérios ESG, gerando valor econômico, social e ambiental para as organizações quando os benefícios percebidos superam os custos de planejamento e implantação (MATTOS NETO; MÉXAS; VIEIRA NETO, 2024) .
A digitalização e a desmaterialização nativa constituem estratégias importantes para a modernização da gestão pública e a promoção da sustentabilidade, permitindo que a informação seja produzida diretamente em meio eletrônico (documento nato-digital) para reduzir drasticamente o consumo de papel (VILLALBA, 2024; LUIZ FILHO & PICOLOTTO, 2023). No Brasil, essa transformação digital é impulsionada pela Estratégia Nacional de Governança Digital e formalizada pela Portaria SGD/MGI nº 4.248/2024, que estabelece diretrizes para a digitalização de processos visando aumentar a eficiência administrativa e a prestação de serviços à sociedade (BRASIL, 2024; VILLALBA, 2024).
Um dos principais benefícios da digitalização na sustentabilidade é a grande redução do consumo de papel. Segundo Barbosa, Bueno & Sanches (2024), o consumo excessivo de papel em instituições administrativas, incluindo as educacionais, gera um impacto ambiental considerável. Os autores citam que para a produção de apenas uma tonelada de papel, são necessárias de duas a três toneladas de matéria-prima, uma enorme quantidade de água e energia. Luiz Filho & Picolotto (2023) complementam que, para a produção dessa mesma tonelada de papel, são necessários cerca de 50 a 60 eucaliptos.
Segundo Gonçalves (2023), na Superintendência Regional de Ensino (SRE) de Curvelo, durante o período da pandemia de Covid-19, nos anos de 2020 e 2021 em virtude do regime de teletrabalho, se constatou que as impressões foram reduzidas em torno de 50%, apontando que a redução de papel é possível com a substituição de algumas tarefas analógicas por meios digitais, proporcionando economicidade ao setor público e reduzindo o impacto ambiental.
Além da economia de papel, a digitalização reduz o impacto ambiental de toners e cartuchos, cujo descarte irregular é prejudicial ao ecossistema. A menor necessidade de suprimentos e o uso de soluções sustentáveis, como a recarga para prolongar a vida útil desses materiais, favorecem diretamente a sustentabilidade organizacional, gerando simultaneamente redução de custos e do lixo eletrônico (BARBOSA, BUENO & SANCHES, 2024).
2.3.2. Locação de Impressão
Apesar do avanço da digitalização, as instituições públicas, incluindo as de ensino, ainda possuem a necessidade de impressões físicas (papel) para diversas atividades, tanto administrativas quanto acadêmicas. A demanda por papel em instituições de ensino permanece alta, mesmo com a crescente digitalização, levando ao uso intensivo de matérias primas, água e energia, além da geração de resíduos (BARBOSA, BUENO & SANCHES, 2024).
Em um estudo realizado no IFAM Itacoatiara, Souza et al. (2023) observaram que o número de impressões feito pelo Departamento de Ensino, Pesquisa e Extensão (DEPE) com avaliações, exercícios e materiais de apoio para estudantes supera em aproximadamente quatro vezes a quantidade realizada por outros setores. Nesse sentido, Barbosa, Bueno &
Sanches (2024), observaram em sua pesquisa que, na área administrativa em uma universidade no interior de São Paulo, o papel é amplamente utilizado para documentos formais e informais, como nota de empenho, sendo a impressão considerada uma forma importante de armazenamento histórico para auditoria.
Diante dessa contínua demanda por materiais impressos, tanto na área administrativa quanto na acadêmica, o outsourcing de impressão surge com uma importante estratégia de sustentabilidade. O IFAM Itacoatiara, por exemplo, conta com serviço de impressão terceirizado, incluindo a locação de impressoras, manutenção, fornecimento de suprimentos (toners) e a instalação de um software de gerenciamento que permite políticas de cotas e controle de impressões por usuário, potencializando a adoção de processos digitais. Os autores recomendam a adoção de uma política de controle para coibir impressões desnecessárias, visando a redução do consumo de papel nas instituições (SOUZA et al., 2023).
Os autores citam que as impressoras fornecidas pela empresa contratada possuem a tecnologia “Easy Eco Driver” permitindo economizar papel e toner, e explica que a função ativa automaticamente a impressão em frente e verso e em duas páginas por folha, além de possibilitar a omissão de páginas em branco no “Modo de Economia de Toner”. Essas configurações ecológicas são de grande valia para adoção de uma política sustentável que visa a diminuição do uso de recursos essenciais para o funcionamento da instituição.
O outsourcing de impressão se alinha perfeitamente aos Sistemas Produto-Serviço (PSS), uma abordagem inovadora que redireciona o foco da compra de produtos para utilização de produtos e serviços combinados, promovendo o uso em vez da posse. Essa mudança de paradigma é importante, já que, ao invés de adquirir máquinas copiadoras que rapidamente se tornam obsoletas e geram lixo eletrônico, as instituições passam a pagar pelo uso do serviço de impressão, desmaterializando a posse. Ou seja, a instituição não se preocupa com o equipamento em si, mas com a funcionalidade que ele entrega (COLEN et al., 2023).
O outsourcing de impressão também contribui para a redução do lixo eletrônico, uma vez que a responsabilidade pela gestão, manutenção e eventual descarte dos equipamentos recai sobre a empresa prestadora do serviço. Isso retira da instituição contratante a preocupação com a obsolescência tecnológica e o descarte inadequado, que representa um grande desafio no Brasil, um dos maiores geradores de lixo eletrônico do mundo (ALEMANY, 2021; COLEN et al., 2023).
Ao externalizar a gestão do parque de impressão, as escolas e universidades ganham acesso a equipamentos modernos e de alta produtividade sem a necessidade de grandes investimentos de capital, além de contar com suporte técnico contínuo, o que eleva a eficiência operacional e permite que se concentrem em suas atividades educacionais principais (ROCHA et al., 2021; COLEN et al., 2023).
A gestão inteligente das impressões, combinada com o outsourcing de impressão, a digitalização e a desmaterialização de documentos, não traz apenas benefícios ambientais, como a diminuição do uso intensivo de matérias-primas e energia na produção de papel, mas também resulta em vantagens econômicas significativas para as instituições públicas.
Segundo Medina et al. (2024), no contexto da Instituição Pública de Ensino Superior, a gestão de recursos públicos deve priorizar e aplicar o princípio da eficiência e da economicidade. A aplicação de Inteligência Artificial (IA) se mostra como uma solução promissora para otimizar processos administrativos e operacionais, como a previsão de demanda futura de impressões, otimizando ainda mais a alocação de recursos e evitando a sub ou superutilização dos serviços contratados.
2.4. Modelo de Contratação de Serviços de Outsourcing de Impressão: Portaria SGD/MGI nº 370, de 8 de março de 2023
A Portaria SGD/MGI nº 370, de 8 de março de 2023 (BRASIL, 2023), editada pela Secretaria de Governo Digital (SGD) do Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos (MGI), instituiu o modelo obrigatório de contratação de outsourcing de impressão para os órgãos integrantes do SISP (BRASIL, 2023). Diferente da locação simples, esta norma exige uma solução integrada que abrange o fornecimento de hardware, sistemas de bilhetagem, suporte técnico e gestão total de insumos, transferindo para a empresa contratada a responsabilidade integral pelo ciclo de vida da infraestrutura e pelo descarte sustentável de resíduos químicos e eletrônicos (BRASIL, 2023).
A Portaria foi estruturada para minimizar falhas históricas apontadas em diversos acórdãos do Tribunal de Contas da União (TCU), tais como o sobrepreço e o direcionamento de editais por meio de critérios técnicos restritivos ou excessivos. A norma visa corrigir problemas recorrentes relacionados a falhas nas pesquisas de preços, à ausência de planejamento adequado no dimensionamento dos parques e à restrição da competitividade nos certames. Dessa forma, o novo modelo impõe um rigoroso levantamento prévio de soluções e a separação de lotes quando tecnicamente possível, garantindo a economicidade e a melhor utilização dos recursos públicos (BRASIL, 2023).
Cita também a necessidade da instituição federal realizar um planejamento prévio detalhado para dimensionar o parque de impressão com base no histórico de uso e na demanda futura, visando evitar a ociosidade de ativos e otimizar a aplicação dos recursos públicos. Na ausência de dados históricos consolidados, a portaria autoriza o uso de estratégias alternativas por um período mínimo de um ano — como a medição via contadores, o rastreio de aquisição de insumos ou a estimativa de consumo de papel — que podem ser aplicadas de forma combinada para refinar a projeção da demanda e subsidiar o cálculo do custo total de propriedade (TCO) (BRASIL, 2023).
A Portaria define três modalidades adaptáveis à demanda institucional: a Franquia Mensal com Excedente, indicada para volumes estáveis; o Pagamento por Página (Sem Franquia), que oferece flexibilidade para demandas variáveis; e a Disponibilização de Equipamento com Variável, voltada à prontidão tecnológica. Independentemente da escolha, a norma exige que a contratação seja fundamentada em estudos de Custo Total de Propriedade (TCO) e Custo Unitário Total (CUT), priorizando prazos que permitam a amortização dos ativos e a economicidade (BRASIL, 2023).
Para assegurar a transparência, a norma prevê a adoção de sistemas de bilhetagem que auditem o consumo por usuário, setor ou equipamento. Além de viabilizar uma gestão eficiente dos recursos públicos, essa ferramenta atua como um instrumento de TI Verde ao incentivar práticas sustentáveis, como a impressão frente e verso (duplex) e a digitalização, reduzindo diretamente o consumo de papel e energia (BRASIL, 2023)
Quadro 3 – Comparativo dos modelos de outsourcing de impressão

2.5. Análise dos Aspectos sobre o Serviço de Impressão em Instituições Públicas
O serviço de outsourcing de impressão consolidou-se como uma tendência nas instituições da Administração Pública, especialmente nas de ensino, com o intuito de elevar a eficiência operacional, reduzir custos e promover a sustentabilidade ambiental. Esta abordagem substitui a lógica da aquisição de equipamentos pela contratação de serviços integrados, o que elimina a necessidade de investimento imediato em hardware e evita que os equipamentos se tornem rapidamente ultrapassados pela obsolescência (COLEN et al., 2023). A análise de experiências práticas em outras instituições é fundamental para identificar as melhores estratégias de TI Verde que visem o aumento da eficiência e a redução do descarte de lixo eletrônico.
Muitas instituições enfrentam o problema do sucateamento de materiais, onde equipamentos como computadores e impressoras com defeito após o período de garantia acabam sem utilidade, aguardando processos complexos de desfazimento, conforme aponta Lupe (2024). A Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) exemplifica esse cenário de acúmulo de materiais inservíveis e ociosos armazenados por longos períodos sem destinação adequada.
Esse problema é visualizado na Figura 1, que demonstra o impacto logístico desses equipamentos que geram ociosidade e ocupam espaço físico valioso. No Instituto Federal do Espírito Santo (IFES) – Campus Guarapari, Veiga, Veiga & Christo (2024) identificaram que a gestão por compra direta sem contrato de manutenção resultou em controle ineficiente de recursos públicos. O levantamento na unidade revelou um prejuízo de R$ 8.324,50 em capital imobilizado devido a toners caros e obsoletos que permaneceram sem uso no estoque.
Figura 1 – Materiais Ociosos e Inservíveis (UFES)

Em contrapartida, o Serviço Geológico do Brasil (SGB/CPRM) exemplifica o sucesso na centralização tecnológica ao substituir um parque de 964 impressoras individuais por apenas 98 ilhas de impressão e digitalização modernas, de acordo com Alcântara (2022). Os resultados operacionais foram expressivos, alcançando um patamar de 71% de redução no consumo de impressões entre 2019 e 2020 após a implementação do acompanhamento sistemático. De forma semelhante, a Universidade Federal do Cariri (UFCA) adotou a contratação terceirizada para implantar ilhas de impressão alinhadas ao planejamento de sustentabilidade, conforme relata Santos (2022). A centralização gerou maior controle e consciência sobre o material impresso, auxiliando na redução de resíduos eletrônicos e do consumo de energia a longo prazo.
A eficácia do modelo também está ligada aos Sistemas Produto-Serviço (PSS), onde o foco institucional migra da posse do hardware para a funcionalidade do serviço e o uso compartilhado, segundo Colen et al. (2023). No estudo em escolas de Poté-MG, observou-se que o outsourcing garante acesso a equipamentos modernos com funcionalidades como impressão duplex e rede sem fio, agilizando os serviços administrativos e pedagógicos. Além do suporte contínuo, a responsabilidade pelo descarte de equipamentos obsoletos recai sobre a contratada, retirando da instituição a preocupação com a logística reversa. As escolas promovem ainda um papel pedagógico, incentivando nos alunos uma mentalidade voltada ao uso e não à posse por meio do exemplo social. As principais percepções sobre as vantagens e desvantagens desse modelo estão sintetizadas no Quadro 4.
Quadro 4 – Vantagens e Desvantagens da terceirização das máquinas copiadoras

No IFAM – Campus Itacoatiara, Souza et al. (2023) observaram que a adoção de tecnologias sustentáveis, como o software de bilhetagem, permitiu a criação de políticas de cotas personalizadas por perfil de usuário. As impressoras disponibilizadas utilizam a tecnologia Easy Eco Driver, que permite economizar papel e toner através de configurações automáticas de impressão frente e verso e omissão de páginas em branco. A instituição registrou um volume de consumo considerado baixo, correspondendo a cerca de 12 páginas mensais por estudante. Apesar disso, os autores recomendam que o controle tecnológico seja sempre acompanhado por programas de Educação Ambiental para garantir o uso racional.
Por fim, a experiência na SRE Curvelo revela que o fator humano e a cultura organizacional são elementos críticos para o sucesso da transição, segundo Gonçalves (2023). Mesmo com a infraestrutura disponível, a resistência dos servidores à mudança e o hábito de arquivamento físico de documentos natos-digitais mantiveram o volume de impressões elevado. A experiência na SRE Curvelo em 2022, onde o volume de consumo superou o teto contratual em 22%, demonstra que a inovação tecnológica deve ser acompanhada de capacitação contínua para romper com a resistência cultural de servidores que ainda mantêm o hábito de imprimir e arquivar documentos nato-digitais.
Tais achados demonstram que o sucesso na implantação do Outsourcing de Impressão depende de um planejamento rigoroso que priorize a formação e a adaptação do servidor público.
3. ANÁLISE DA REVISÃO DA LITERATURA
3.1. O Outsourcing de Impressão como Estratégia de TI Verde e Sustentabilidade
Em tempos de uso crescente da tecnologia vemos um grande aumento na produção de lixo eletrônico, despertando a necessidade por uma maior conscientização ambiental (HUPPES, 2023). Neste cenário global, a sustentabilidade se consolidou como uma pauta importante, estimulando as discussões sobre o tema no setor público e nas instituições de ensino (SOUZA et al., 2023).
Neste contexto surge a Tecnologia da Informação Verde (TI Verde), que representa uma abordagem ampla na busca de soluções para reduzir os efeitos negativos ao meio ambiente gerados pelas tecnologias. Seu objetivo é diminuir o desperdício e ao mesmo tempo aumentar a eficiência dos processos de TI (GOMES et al., 2022). Os esforços para implantar a TI Verde nas instituições públicas, como as de ensino, são impulsionados pela preocupação com os danos ambientais e pela necessidade de diminuir a emissão de carbono (SOUZA et al., 2023).
Contudo, nas Instituições Públicas de Ensino, a gestão de um grande parque tecnológico formado por equipamentos de impressão se torna desafiadora, em especial ao fim do prazo de garantia e a falta de assistência técnica, aumentando o descarte de lixo eletrônico.
Nesse cenário o Outsourcing de Impressão se apresenta como uma solução de serviço que se alinha com princípios da TI Verde, e tem se mostrado uma estratégia eficaz na Administração Pública para a redução do descarte de lixo eletrônico, a diminuição de custos e o aumento da eficiência operacional (ALCÂNTARA, 2022; COLEN et al., 2023; VEIGA, VEIGA & CHRISTO, 2024).
Ao adotar o Outsourcing de Impressão, a instituição passa a fazer uso do serviço, e não mais da compra desses equipamentos, passando a pagar pelo fornecimento dos equipamentos, insumos e o suporte especializado, desmaterializando assim a necessidade de possuir o equipamento que poderia se tornar obsoleto em pouco tempo (COLEN et al., 2023).
A empresa terceirizada ao assumir a responsabilidade pela gestão e manutenção do equipamento traz um dos maiores benefícios do serviço, a mitigação do lixo eletrônico, pois se estivesse em posse da instituição o equipamento não teria a assistência técnica especializada e poderia ter sua vida útil diminuída, sendo descartado. Essa transferência de responsabilidade pela logística reversa e pela destinação adequada dos resíduos eletrônicos é considerada uma estratégia robusta de sustentabilidade (ALEMANY, 2021; COLEN et al., 2023).
O serviço de Outsourcing de Impressão ainda permite que as instituições tenham acesso a equipamentos modernos e de alta produtividade sem a necessidade de grandes investimentos iniciais (ROCHA et al., 2021; COLEN et al., 2023). Muitos desses equipamentos já incorporam tecnologias que promovem o uso racional de recursos, auxiliados por softwares de gerenciamento de impressão (SOUZA et al., 2023).
Para as instituições públicas de ensino, o Outsourcing de Impressão não só traz vantagens econômicas e operacionais, mas também cumpre um papel pedagógico, ao permitir que se promova o aprendizado prático sobre sustentabilidade por meio do exemplo social (COLEN et al., 2023).
A eficácia dessa estratégia foi comprovada em instituições públicas, como o Serviço Geológico do Brasil (SGB/CPRM), que ao substituir um grande parque tecnológico por ilhas de impressão terceirizadas, alcançou uma redução de 71% no consumo de impressões entre 2019 e 2020 (ALCÂNTARA, 2022).
3.2. Viabilidade Normativa do Outsourcing de Impressão na Administração Pública Federal
Para uma estratégia de sustentabilidade e eficiência ser implantada no setor público, ela precisa estar amparada por um arcabouço legal. No Brasil o caminho para a gestão sustentável de recursos e resíduos se iniciou com a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), a Lei nº 12.305/2010, que estabeleceu diretrizes para a destinação adequada desses materiais, incluindo lixo eletrônico, definindo a responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos, incentivando a utilização da logística reversa e promovendo o uso racional dos recursos naturais (BRASIL, 2010; DUTRA et al., 2023; OLIVEIRA, M., 2023).
O Decreto nº 9.373/2018 veio estabelecer as regras para a gestão e destinação dos bens móveis inservíveis na administração pública federal, e busca reduzir o impacto ambiental e incentivar a responsabilidade compartilhada, classificando os materiais em ociosos, recuperáveis, antieconômicos e irrecuperáveis. Essa é a base legal que ampara a dificuldade enfrentada por instituições de ensino que, após o período de garantia, acumulam equipamentos sem utilidade aguardando por um processo complexo de desfazimento (BRASIL, 2018; COLEN et al., 2023; LUPE, 2024).
A consolidação do Outsourcing de Impressão como uma solução de TI Verde na administração pública deve-se à Portaria SGD/MGI nº 370, de 8 de março de 2023, editada pela Secretaria de Governo Digital (SGD), institui o Modelo de Contratação de Serviços de Outsourcing de Impressão, direcionado aos órgãos e entidades que fazem parte do SISP (Sistema de Administração de Recursos de Tecnologia da Informação) (BRASIL, 2023).
É importante notar que o modelo estabelecido pela Portaria 370/2023 nasceu da necessidade de corrigir falhas históricas, e foi estruturado para evitar problemas recorrentes identificados pelo Tribunal de Contas da União (TCU), como o risco de sobrepreço, o direcionamento de licitações, a ausência de planejamento adequado e a definição de critérios técnicos excessivos (BRASIL, 2023).
Ao contrário de simples locação de equipamentos, o Outsourcing de Impressão estabelecido pela norma federal exige um serviço integrado, compreendendo o fornecimento de equipamentos e insumos, manutenção e suporte, e transfere para a empresa contratada a responsabilidade pela gestão, manutenção e pelo descarte adequado dos resíduos usados como toners e cartuchos, reduzindo o lixo eletrônico os impactos ambientais associados à impressão, sendo um estratégia importante e legalmente viável no campo da sustentabilidade (ALEMANY, 2021; BRASIL, 2023; COLEN et al., 2023).
A portaria também assegura a eficiência operacional ao exigir que a instituição federal realize um planejamento prévio detalhado, usando dados históricos de uso para dimensionar o parque de impressão de modo a evitar a ociosidade de ativos. Para garantir a economicidade e a transparência, ela prevê três modalidades de serviços (Franquia Mensal, Sem Franquia e Locação com Custo por Página) e define a necessidade de se utilizar um sistema informatizado de bilhetagem, permitindo auditar as impressões por usuário ou setor, promovendo a gestão transparente de recursos públicos, além de incentivar práticas sustentáveis (BRASIL, 2023).
3.3. Estudos de Caso em Instituições Federais: Vantagens e Desafios da Terceirização de Serviços de Impressão.
A incorporação do Outsourcing de Impressão na Administração Pública não se restringe apenas à fundamentação normativa, mas se válida pelos resultados concretos obtidos em estudos de caso realizados em instituições federais. Esses exemplos práticos ilustram de forma clara as vantagens da TI Verde, ao mesmo tempo em que revelam desafios de implementação, especialmente aqueles relacionados à cultura organizacional.
A presente pesquisa evidencia que a terceirização de serviços de impressão se tornou uma tendência crescente, principalmente em instituições de ensino, pro seu potencial em melhorar a eficiência, reduzir custos e promover a sustentabilidade ambiental (ALCÂNTARA, 2022; COLEN et al., 2023; VEIGA, VEIGA & CHRISTO, 2024).
O Outsourcing de Impressão permite melhorar a gestão de custos e a eficiência operacional, como pode ser observado no Serviço Geológico do Brasil (SGB/CPRM). Alcântara (2022) destaca que a instituição substituiu 964 impressoras individuais por apenas 98 ilhas de impressão e digitalização modernas. Essa mudança estratégica gerou uma redução de 71% no consumo de impressões, não resultando apenas em uma gestão mais eficiente, mas também contribuiu diretamente para a disseminação de práticas sustentáveis na organização.
Em outra instituição, Instituto Federal do Espírito Santo (IFES) – Campus Guarapari, a adoção do Outsourcing de Impressão foi a solução para um problema comum, o desperdício de recursos. Antes da terceirização do serviço, a gestão de impressão resultava em um estoque de cartuchos de toner caros e sem uso. O novo modelo se mostrou uma solução moderna e eficiente, evitando que dinheiro público ficasse parado em materiais obsoletos e permitindo que a instituição concentrasse seus esforços em sua atividade principal, a educação.
A redução de custos ficou evidente em estudos realizados em escolas estaduais do município de Poté-MG, reforçando o conceito de Sistemas Produto-Serviço (PSS), onde o foco está no uso e não na posse. Contudo, o grande ganho ambiental é que a empresa contratada se responsabiliza pelo descarte adequado dos equipamentos obsoletos ou danificados, contribuindo para a redução do lixo eletrônico (VEIGA, VEIGA & CHRISTO, 2024).
A experiência na SRE Curvelo revela que o fator humano e a cultura organizacional são os elementos mais sensíveis da transição para o outsourcing. Mesmo com a infraestrutura disponível, a resistência cultural dos servidores à transição digital e o hábito de arquivamento físico de documentos natos-digitais mantiveram o volume de impressões elevado. Em 2022, o volume superou em 22% o limite contratado, evidenciando que a inovação tecnológica exige capacitação contínua para que o servidor mude seu modus operandi baseado no papel. Tais achados comprovam que o sucesso pleno da gestão de impressão depende de um planejamento que priorize a formação do usuário, visto que a necessidade de assinaturas físicas e o desconhecimento das ferramentas digitais foram as principais justificativas para o excedente de consumo (GONÇALVES, 2023
Além das questões culturais internas, a qualidade do serviço terceirizado também apresenta desafios, como observado por Colen et al. (2023) em Poté-MG. As desvantagens relatadas incluem a dependência externa para a solução de problemas, o risco de atrasos que diminuem a confiança dos usuários no fornecedor e o risco de vazamento de informações.
Embora o Outsourcing de Impressão seja uma ferramenta validada para alcançar a eficiência operacional, a redução de custos e os objetivos de TI Verde (ALCÂNTARA, 2022; COLEN et al., 2023; VEIGA, VEIGA & CHRISTO, 2024), o sucesso pleno da estratégia depende de um planejamento rigoroso que leve em consideração a formação e a adaptação dos servidores públicos ao novo modelo de trabalho (GONÇALVES, 2023).
3.4. Análise crítica das estratégias e práticas da gestão do lixo eletrônico, com ênfase na TI Verde e no modelo de Outsourcing de Impressão
A análise consolidada dos tópicos anteriores revela que a questão do lixo eletrônico e da obsolescência programada em equipamentos de impressão, agravada pela gestão ineficiente de ativos pós-garantia que resultam em equipamentos inservíveis e sucateados, exige uma abordagem estratégica que ultrapasse a simples aquisição de bens (LUPE, 2024; OLIVEIRA, R., 2023; VEIGA, VEIGA & CHRISTO, 2024). O desafio enfrentado pelas instituições públicas de ensino, como o acúmulo de materiais ociosos e a dificuldade no complexo processo de desfazimento, demonstra a inadequação do modelo tradicional de posse de equipamentos para o setor público (BRASIL, 2018; COLEN et al., 2023; LUPE, 2024).
Neste cenário, o Outsourcing de Impressão não é apenas uma alternativa tecnológica, mas sim uma solução estratégica de TI Verde que se alinha perfeitamente ao conceito de Sistemas Produto-Serviço (PSS), onde o foco é o uso e não a posse (COLEN et al., 2023). A principal força do modelo de Outsourcing Reside em sua solidez normativa, Portaria SGD/MGI nº 370/2023, que consolidou a viabilidade dessa estratégia, corrigindo falhas históricas identificadas pelo TCU e estabelecendo um modelo de contratação que exige um serviço integrado (BRASIL, 2023).
Essa integração é crucial para a sustentabilidade, pois transfere formalmente a responsabilidade pela logística reversa e o descarte adequado dos resíduos de suprimentos (toners e cartuchos) e dos equipamentos obsoletos para a empresa contratada. Desta forma, o setor público se eximiu da complexa tarefa de gerenciar o desfazimento de bens inservíveis sob o Decreto nº 9.373/2018, reduzindo a geração de resíduos eletrônicos. A obrigatoriedade de planejamento prévio e a utilização de sistemas de bilhetagem imposta pela Portaria garantem a economicidade e a transparência, evitando a contratação de capacidade ociosa (BRASIL, 2018; COLEN et al., 2023; LUPE, 2024).
Os estudos de caso validam a eficácia da estratégia no campo econômico e ambiental. Instituições demonstraram uma redução expressiva no consumo de impressões, comprovando o potencial da centralização de equipamentos e do gerenciamento do serviço, como também se observou que o serviço foi utilizado para se solucionar o problema de capital público imobilizado em estoque de insumos obsoletos (ALCÂNTARA, 2022; VEIGA, VEIGA & CHRISTO, 2024).
No entanto, a análise crítica revela que o sucesso pleno do outsourcing está sujeito a um fator de risco que transcende a legislação: o comportamento dos usuários e a cultura organizacional. O registro de um volume de consumo 22% superior ao contratado na SRE Curvelo não aponta uma falha na estratégia de TI Verde, mas sim a insuficiência de um planejamento que não priorizou a formação adequada, visto que a resistência à transição digital e o hábito de arquivar fisicamente documentos natos-digitais mantiveram o volume de impressões elevado. Tais achados comprovam que a inovação tecnológica exige capacitação contínua para que o servidor mude seu modus operandi, demonstrando que a tecnologia por si só é insuficiente sem o investimento no domínio das ferramentas por parte do fator humano (GONÇALVES, 2023).
O Outsourcing de Impressão se apresenta como uma estratégia robusta e legalmente viável para a gestão sustentável de recursos de TI na Administração Pública Federal. Contudo, a análise crítica sugere que a obtenção de seus benefícios máximos depende da capacidade da instituição de promover uma mudança de mentalidade e comportamento entre seus usuários, investindo na capacitação contínua e na desmaterialização de processos, de modo a transformar a resistência em adesão.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
4.1. Conclusões
A pesquisa se dedicou a fundamentação teórica e normativa que ampara a adoção do Outsourcing de Impressão como uma estratégia eficaz de TI Verde no âmbito da Administração Pública Federal Brasileira.
O Objetivo geral do artigo foi alcançado ao demonstrar que o problema do descarte excessivo de lixo eletrônico, agravado pela aquisição contínua de equipamentos de impressão e pela rápida obsolescência, exige uma resposta estruturada por parte das instituições públicas de ensino.
Nossas conclusões reforçam que a simples compra de equipamentos gera um ciclo de desperdício e falta de eficiência e, após o término da garantia, o parque tecnológico se torna um conjunto de ativos ociosos para desfazimento, contrariando os princípios da sustentabilidade e economicidade, essenciais à gestão pública.
O Outsourcing de Impressão aparece como solução mais alinhada à TI Verde e ao conceito de Sistemas Produto-Serviço (PSS). Essa mudança promove uma mudança importante, o serviço ao invés do produto, e a transferência da responsabilidade pela logística reversa e pelo descarte adequado dos resíduos para o fornecedor contratado.
A análise documental traz a viabilidade normativa para a implantação do serviço, e os estudos de caso analisados confirmam a eficácia operacional do modelo, demonstrando que o Outsourcing de Impressão pode gerar reduções significativas no volume de impressões e nos custos, ao mesmo tempo em que proporciona acesso a equipamentos modernos que promovem economia. O sucesso da implementação não é apenas econômico e ambiental, mas também um exemplo prático de compromisso social com a sustentabilidade.
4.2. Limitações e Sugestões para Pesquisas Futuras
A principal limitação desse artigo reside na natureza de sua metodologia, que se baseou exclusivamente em pesquisa bibliográfica e documental. Embora essa abordagem tenha fornecido uma sólida fundamentação teórica e normativa, ela não permitiu coletar dados primários nem mensurar a percepção e o comportamento dos servidores que utilizam o serviço no dia a dia.
Os estudos de caso indicam que o maior desafio para o sucesso para a estratégia é o fator humano, ou seja, a cultura organizacional e a resistência à mudanças. O sucesso da estratégia depende de um planejamento rigoroso que inclua a formação e a adaptação dos servidores públicos ao novo modelo de trabalho.
Dessa forma, como sugestão para pesquisas futuras, propomos a realização de uma pesquisa de campo, utilizando como principal instrumento um questionário aplicado aos servidores de instituições federais que não implantaram o Outsourcing de Impressão, como o CEFET/RJ, instituição em observação neste trabalho. Tal abordagem permitiria analisar o nível de preparo, a cultura de impressão e a percepção dos usuários em relação ao serviço de impressão atual. Adicionalmente, sugerimos a inclusão do consumo atual de insumos e a definição do modelo de contratação mais adequado conforme as diretrizes da Portaria SGD/MGI nº 370/2023.
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1Discente do Mestrado Profissional em Sistemas de Gestão da Escola de Engenharia da Universidade Federal Fluminense (UFF), e-mail: oliveirarobson@id.uff.br
2Docente do Mestrado Profissional em Sistemas de Gestão da Escola de Engenharia da Universidade Federal Fluminense (UFF). Doutor em Ciências (D.Sc.). e-mail: sfranca@id.uff.br
3Docente do Mestrado Profissional em Sistemas de Gestão da Escola de Engenharia da Universidade Federal Fluminense (UFF). Doutor em Ciências (D.Sc.) e Coorientador. e-mail: sergiobarros@id.uff.br
