REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ni10202601181349
Matheus Henrique Dias da Serra1
Hélcia Daniel da Silva2
Lucas Daniel da Silva3
Iram Leandro da Silva4
Marcos Ferreira de Magalhães5
RESUMO: A Indústria 5.0 adota uma abordagem centrada no ser humano (human-centric), buscando harmonizar a colaboração entre máquinas inteligentes e trabalhadores para criar ambientes produtivos mais adaptáveis e inovadores. Representa um novo paradigma industrial que visa integrar tecnologias avançadas como inteligência artificial, internet das coisas, robótica colaborativa e big data às habilidades humanas, promovendo uma produção mais eficiente, e personalizada. Este trabalho parte da seguinte problemática: quais são os principais desafios e oportunidades para a aplicabilidade da Indústria 5.0 no Brasil, considerando as limitações estruturais e as exigências de inovação, e qualificação profissional no cenário industrial nacional? O objetivo geral do estudo foi analisar os desafios e as oportunidades para a implementação da Indústria 5.0 no Brasil, à luz do contexto socioeconômico, tecnológico e educacional do país. No que tange à metodologia, adotou-se uma abordagem qualitativa, fundamentada em revisão bibliográfica e análise documental. Com base em dados secundários, a pesquisa analisa criticamente os fatores que influenciam a adoção desse modelo no país. Identificaram-se entraves relevantes, como a baixa maturidade digital das empresas, a escassez de mão de obra qualificada e a infraestrutura tecnológica deficiente. Por outro lado, o estudo também aponta oportunidades promissoras em setores estratégicos, como o agronegócio, a indústria de base tecnológica e as energias renováveis. Conclui-se que, apesar dos desafios significativos, a Indústria 5.0 pode representar uma alavanca importante para o desenvolvimento industrial no Brasil, desde que sejam adotadas políticas públicas eficazes, investimentos em inovação e capacitação profissional, bem como um esforço coordenado entre governo, setor produtivo e instituições de ensino.
PALAVRAS-CHAVE: Indústria 5.0; Inovação; Empregabilidade
1. INTRODUÇÃO
Em um cenário global de rápidas transformações digitais e crescente demanda por práticas industriais mais responsáveis, a aplicabilidade da Indústria 5.0 torna-se estratégica para as nações que almejam modernizar suas economias e ampliar sua competitividade internacional. No contexto brasileiro, a transição para esse novo modelo apresenta tanto desafios estruturais, como a baixa maturidade digital, a infraestrutura tecnológica insuficiente e a necessidade de requalificação profissional quanto oportunidades relevantes, especialmente em setores como o agronegócio, a energia renovável e a tecnologia da informação.
Neste trabalho, busca a compreensão dos desafios e das oportunidades relacionados à implementação da Indústria 5.0 no Brasil, com foco em suas implicações para o desenvolvimento industrial e a promoção de um modelo produtivo mais sustentável, inclusivo e com maior geração de empregos. A partir da análise bibliográfica e documental, será possível identificar e refletir sobre os aspectos estruturais, econômicos e sociais que permeiam esse processo de transição. O estudo também vai verificar as iniciativas em andamento no país, as barreiras enfrentadas e os caminhos possíveis para ampliar o impacto positivo dessa nova lógica industrial.
Além de representar uma evolução tecnológica, a Indústria 5.0 será possível introduzir uma mudança cultural na maneira como os processos produtivos são concebidos e gerenciados. Ao integrar inteligência artificial, robótica colaborativa, big data e outras tecnologias emergentes com as habilidades humanas, busca-se criar soluções mais personalizadas, sustentáveis e socialmente responsáveis.
Com efeito, esse trabalho aborda a seguinte problemática: “Quais são os principais desafios e oportunidades para a aplicabilidade da Indústria 5.0 no Brasil, considerando as limitações estruturais e as exigências de inovação e empregabilidade no cenário industrial nacional?” Essa abordagem não apenas redefinirá os modelos tradicionais de produção, mas também exigirão novas competências profissionais, políticas públicas eficazes e investimentos em infraestrutura e inovação. Assim, entender-se-á as particularidades da aplicabilidade da Indústria 5.0 no Brasil será fundamental para identificar caminhos que permitam ao país superar suas limitações históricas e aproveitar plenamente as oportunidades da nova revolução industrial.
Diante desse panorama, este trabalho tem como objetivo analisar a aplicabilidade da Indústria 5.0 no Brasil, identificando os principais desafios a serem superados e mapeando as oportunidades para impulsionar a inovação e adaptando a empregabilidade no ambiente industrial. Compreendendo assim os desafios e oportunidades, vê-se as dinâmicas de transformação e seus impactos no setor industrial.
2. METODOLOGIA
Este estudo adota uma abordagem qualitativa, fundamentada em revisão bibliográfica e análise documental de dados secundários, com o objetivo de compreender os desafios e as oportunidades da Indústria 5.0 no Brasil. A escolha por essa abordagem justifica-se pela complexidade do tema e pela necessidade de aprofundamento nas dinâmicas sociais, econômicas e tecnológicas envolvidas na implementação desse novo paradigma industrial.
Dessa forma, esta metodologia permite examinar como os conceitos da Indústria 5.0 vêm sendo assimilados e aplicados no cenário brasileiro, identificando entraves e potencialidades.
A revisão bibliográfica foi realizada com base em publicações acadêmicas, relatórios de instituições e documentos do governo, selecionados usando plataformas como Scopus, Google Scholar, SciELO e periódicos especializados. Já a análise documental incluiu fontes secundárias, como documentos de políticas públicas, programas de incentivo à inovação, relatórios de consultorias especializadas, sites de empresas do setor industrial e associações empresariais. Essa etapa ajudou a identificar as práticas que já existem no Brasil e que estão relacionadas aos princípios da Indústria 5.0.
A metodologia aqui apresentada permitiu apresentar um panorama das condições atuais da indústria brasileira frente aos desafios e oportunidades da Indústria 5.0, e fundamentar recomendações estratégicas para sua implementação. Além da literatura acadêmica, foram considerados estudos de caso e exemplos práticos de adoção da Indústria 5.0 no Brasil, em setores como o agronegócio e energia renovável.
3. REFERENCIAL TEÓRICO
A evolução industrial é marcada por quatro grandes revoluções. A Primeira Revolução Industrial, no século XVIII, introduziu a mecanização com o uso de máquinas a vapor. Posteriormente, a Segunda Revolução Industrial, no século XIX, trouxe a eletrificação e a produção em massa. O século XX testemunhou a Terceira Revolução Industrial, baseada em eletrônica,TI e automação. A Quarta Revolução Industrial, ou Indústria 4.0, focou na integração de sistemas ciberfísicos, Internet das Coisas (IoT) e inteligência artificial. Esse modelo visava aumentar a eficiência produtiva, reduzir custos e promover a automação em larga escala.
No entanto, o foco exclusivo em automação e digitalização trouxe novos desafios, como o aumento das desigualdades e preocupações ambientais, exigindo uma abordagem mais equilibrada e centrada no ser humano. Por isso, a Indústria 5.0 surge como uma resposta que integra valores humanísticos às capacidades tecnológicas, promovendo um modelo industrial que equilibra produtividade e bem-estar (European Commission, 2021).
A European Commission (2021) introduziu o conceito de human-centric na Indústria 5.0, enfatizando que a tecnologia deve estar a serviço das pessoas, promovendo produtividade e bem-estar. Além disso, autores como Wang e Ma (2020) destacam que a Indústria 5.0 busca atender às demandas de sustentabilidade e personalização, oferecendo soluções mais adaptáveis às necessidades humanas, aumentando o índice de empregabilidade.
A indústria contemporânea caracteriza-se por um elevado grau de modernização e automatização, impulsionado pelos avanços tecnológicos da chamada Indústria 4.0. Este conceito refere-se à integração de tecnologias digitais como inteligência artificial, internet das coisas (IoT), robótica avançada e big data aos processos produtivos, otimizando a produção e ampliando a eficiência operacional (SCHWAB, 2016). A transformação digital tem redesenhado o setor industrial global, impactando não apenas os modos de produção, mas também as relações de trabalho e o próprio modelo de negócio das empresas.
A indústria contemporânea é marcada pela diversidade de tipos e modelos, pelo alto grau de inovação e pelo impacto crescente das questões ambientais, sociais e tecnológicas. O conhecimento dessas dinâmicas é fundamental para compreender o papel atual da indústria na economia global e suas perspectivas futuras.
Nos últimos trinta anos, o avanço das tecnologias de informação (TI) e sua incorporação nos processos produtivos trouxeram benefícios para toda a cadeia de valor. Essa evolução nas tecnologias impulsionou a produtividade industrial, ajudando a reduzir os custos de produção e oferecendo soluções eficazes para atender os clientes com qualidade, agilidade e um melhor custo-benefício (SANTOS, 2018).
Em 2011, na Alemanha, surgiu o termo Indústria 4.0, que se refere à Quarta Revolução Industrial, ela se baseia em tecnologias como a Internet das Coisas e objetos inteligentes, criando sistemas que conseguem se autogerir melhor, o que permite uma personalização maior dos produtos sem abrir mão das vantagens da produção em larga escala (PEREIRA, DE OLIVEIRA SIMONETTO, 2028).
Segundo Cavalcanti (2018), a Indústria 4.0 representa uma transformação significativa no setor produtivo, trazendo diversos benefícios. No âmbito estratégico, ela promove a otimização da receita, o fortalecimento da sustentabilidade ambiental, social e econômica, além de favorecer a integração da cadeia produtiva. Esses fatores resultam em maior competitividade e uma capacidade ampliada de inserção no mercado. No aspecto tático, a Indústria 4.0 se destaca pela integração tecnológica ao longo da cadeia produtiva, viabilizada pelo uso da internet das coisas (IoT) e de sistemas ciberfísicos. Já na esfera operacional, os benefícios se refletem no aumento da produtividade, na conectividade dos processos de produção e na análise em tempo real das operações, o que contribui para tomadas de decisão mais eficientes. No mundo dos negócios, as novas tecnologias vão ter um grande impacto na gestão, na liderança e na organização das empresas. Os clientes também vão ficar mais exigentes, esperando mais das empresas, e vão valorizar cada vez mais novas formas de colaboração e parcerias. Além disso, as empresas precisarão fazer a transição de modelos tradicionais para modelos digitais e usar os dados para melhorar seus produtos, o que ajuda a aumentar a produtividade dos ativos. Por isso, as organizações terão que estar sempre se adaptando às mudanças que vêm com a indústria 4.0, buscando maior agilidade e rapidez nos processos. A inovação também será fundamental, pois ela vai aumentar bastante a concorrência entre as empresas (RODRIGUES, QUEIROGA, MILHOSSI, 2022).
A transformação digital não se limita ao progresso tecnológico, mas está intimamente ligada às mudanças geradas no cotidiano empresarial, na gestão dos negócios, nas trajetórias profissionais e na forma como se relaciona com o cliente. Um dos principais desafios está na adaptação contínua, que exige a renovação de habilidades e a manutenção da produtividade frente às mudanças constantes.
A Indústria 4.0 reúne os avanços tecnológicos mais recentes, que conectam o mundo físico aos seus modelos virtuais, aos serviços e à coordenação interna das organizações. Tudo isso cria uma cadeia de valor mais rápida, flexível e interligada. Apesar de parecer uma nova revolução industrial, ela se diferencia das anteriores por três aspectos principais: velocidade, abrangência e complexidade (DE OLIVEIRA, DE OLIVEIRA, 2021).
3.1 Entendendo a Indústria 5.0
A Indústria 5.0 é uma ideia inovadora que pensa no futuro, levando em conta a sustentabilidade, o foco nas pessoas, a força das empresas em se adaptar e a parceria entre humanos e máquinas. Ela surge como uma resposta aos desafios atuais do mundo, como as mudanças climáticas, o uso rápido de recursos naturais e energia não renovável, a poluição ambiental e as questões sociais. Esses problemas ficaram ainda mais evidentes com a pandemia de Covid-19 e o conflito entre Rússia e Ucrânia, tornando o cenário mais complexo e dinâmico do que nunca, algo que não víamos desde a Segunda Guerra Mundial (PEREIRA, SANTOS,2022).
A Sociedade 5.0, também chamada de Sociedade Criativa, foi criada no Japão em 2016, durante o 5º Plano Básico de Ciência e Tecnologia do governo japonês. Essa ideia trouxe uma nova visão sobre como a sociedade funciona, buscando combinar produtividade com uma melhor qualidade de vida. Nela, o foco está no indivíduo, colocando-o no centro das inovações e transformações tecnológicas. Essa abordagem é diferente da Sociedade 4.0, que prioriza principalmente a fabricação e o produto (SANTOS, 2025). A 5.0 surgiu com o objetivo de mostrar uma nova forma de sociedade, resultado de transformações unificadas por avanços científicos e tecnológicos. Enquanto a Indústria 4.0 concentra-se na produção e nos produtos, a Sociedade 5.0 coloca o ser humano no centro da inovação e das mudanças tecnológicas. Sua característica é unir a inteligência e a experiência dos seres humanos com a precisão e eficiência das máquinas. Essa abordagem promove uma colaboração mais estreita entre pessoas e robôs, fazendo com que ambos possam aproveitar o melhor de suas habilidades. Assim, eles conseguem lidar com tarefas que exigem criatividade, adaptação e tomada de decisões complexas (DE SANTANA, 2021).
A Indústria 5.0 busca criar ambientes de produção mais flexíveis e personalizados, capazes de atender à crescente demanda por produtos feitos sob medida e de alta qualidade. Isso é possível graças à combinação de tecnologias avançadas, como inteligência artificial, impressão 3D, realidade virtual e aumentada, que facilitam a produção em massa personalizada e sob demanda. Alcançando um equilíbrio econômico, ao mesmo tempo em que ajuda a resolver ou aliviar os problemas sociais, colocando o ser humano no centro de tudo. (DE SANTANA, 2021). Ela faz uso da integração entre o ciberespaço e o mundo físico. Essa nova fase é marcada pela ideia de cidades inteligentes, onde a tecnologia é fundamental para alcançar esses objetivos. As ferramentas tecnológicas potencializam as possibilidades de criar, divulgar e manter os elementos que sustentam essa sociedade moderna (SANTOS, 2025). A Indústria 5.0 se fundamenta em alguns fatores principais, como mostra a Tabela 1.
Tabela 1 – Pilares da Indústria 5.0

Os pilares propostos por Santos (2025) delineiam diretrizes fundamentais para o fortalecimento da indústria nacional e a promoção do desenvolvimento sustentável com base na inovação e transformação social.
- Pilar 01 – Implementar ações que gerem valor para o desenvolvimento da indústria do futuro e promovam a transformação social: Esse pilar enfatiza a necessidade de alinhar o desenvolvimento industrial às novas demandas da sociedade e às transformações tecnológicas emergentes. Trata-se de fomentar práticas produtivas que não apenas aumentem a competitividade econômica, mas também contribuam para o bem-estar social, a equidade e a sustentabilidade. Isso inclui, por exemplo, a adoção de tecnologias limpas, o estímulo à economia circular e o investimento em setores estratégicos voltados à digitalização e automação da indústria.
- Pilar 02 – Enfrentar os desafios econômicos e sociais contemporâneos: Este pilar aborda questões estruturais como o desemprego, a desigualdade social, a inflação e a crise fiscal, além de temas emergentes como a transição energética e os impactos da inteligência artificial. Enfrentar esses desafios exige políticas públicas integradas, investimentos em infraestrutura e educação, bem como estratégias industriais que incentivem a geração de empregos qualificados e o fortalecimento da economia nacional frente à concorrência global.
- Pilar 03 – Fortalecer os alicerces da inovação científica e tecnológica: A base de uma indústria do futuro está no avanço da ciência e da tecnologia. Esse pilar destaca a importância de ampliar os investimentos em pesquisa e desenvolvimento (P&D), fortalecer universidades e institutos de pesquisa, incentivar parcerias entre setor público e privado, e criar ambientes favoráveis à inovação.
- Pilar 04 – Criar um ciclo virtuoso sistêmico envolvendo capital humano, conhecimento e recursos para inovação: Por fim, este pilar propõe uma articulação entre os principais elementos que impulsionam a inovação: pessoas capacitadas, conhecimento científico e tecnológico, e recursos financeiros. A criação desse ciclo virtuoso pressupõe a formação contínua de profissionais qualificados, o fomento à cultura empreendedora e o apoio à transformação de ideias em soluções práticas. É por meio dessa integração que se constrói um ecossistema de inovação capaz de gerar valor de forma contínua e sustentável para a sociedade e a economia.
Portanto, os quatro pilares propostos constituem uma base estratégica para impulsionar a indústria nacional rumo a um futuro mais inovador, sustentável e inclusivo. Ao integrar tecnologia, capital humano e responsabilidade social, cria-se um ambiente propício ao desenvolvimento. É fundamental que essas ações sejam articuladas de forma sistêmica e contínua.
3.2. Inovação 5.0
A inovação tecnológica é um pilar fundamental da Indústria 5.0, permitindo a criação de processos produtivos mais eficientes e adaptáveis às demandas do mercado. Segundo Pereira e Santos (2022), a implementação de tecnologias avançadas possibilita a personalização de produtos, agregando valor ao cliente e aumentando a competitividade. Além disso, ferramentas como inteligência artificial e big data permitem tomadas de decisão mais precisas, otimizando recursos e minimizando desperdícios. Para Jafari et al. (2023), a inovação também abre novas oportunidades para modelos de negócios sustentáveis, alinhando-se às expectativas sociais e ambientais.
Apesar dos avanços trazidos pela quarta revolução industrial, que buscava aumentar o desempenho, a indústria 5.0 vai além, promovendo uma colaboração mais estreita entre sistemas tecnológicos e sociais. O objetivo é possibilitar a produção e oferta de produtos e serviços personalizados em grande escala.
Na indústria 5.0, o trabalhador volta a estar presente na fábrica, trabalhando de forma colaborativa com robôs. Isso vai gerar a necessidade de discutir questões relacionadas ao trabalho conjunto entre humanos e máquinas, onde os robôs cuidarão das tarefas repetitivas, enquanto os humanos poderão se dedicar a atividades que envolvam criatividade e inovação. Essa nova fase da indústria deve criar um ambiente onde a cooperação entre a inteligência humana e a computação cognitiva seja fundamental, usando a automação para potencializar as capacidades físicas, sensoriais e mentais do ser humano. Assim, homem e máquina trabalharão juntos de forma harmoniosa e simbiótica (DE SOUSA, 2024).
3.3. Inovação, sustentabilidade e empregabilidade 5.0
Cresce a valorização de competências que combinam habilidades técnicas, conhecidas como hard skills, com habilidades socioemocionais, ou soft skills. No Brasil, estudos mostram que, embora já tenhamos avançado nesse aspecto, ainda existem muitas lacunas. De acordo com o relatório “Futuro do Trabalho no Brasil”, do SENAI (2022), habilidades como pensamento crítico, boa comunicação e capacidade de resolver problemas estão cada vez mais em alta, mas muitas vezes não são bem trabalhadas nos métodos tradicionais de ensino. Por isso, a combinação de conhecimentos técnicos com habilidades interpessoais se torna um diferencial importante para quem quer se destacar no mercado de trabalho.
A sustentabilidade na Indústria 5.0 se expressa por meio de diversas estratégias integradas. uma das principais é a busca por eficiência energética. Com o auxílio de tecnologias inteligentes, como sensores avançados e algoritmos de otimização, as fábricas conseguem monitorar e ajustar seu consumo energético em tempo real, minimizando desperdícios e reduzindo a emissão de gases de efeito estufa. Paralelamente, a gestão de resíduos assume papel central, com a adoção de soluções tecnológicas que viabilizam o reaproveitamento de materiais e a automação de processos produtivos, contribuindo para a diminuição das perdas (SILVA, 2023).
A autora também menciona que o outro elemento relevante é a incorporação dos princípios da economia circular. A Indústria 5.0 promove o design de produtos pensados para reutilização, reciclagem ou remanufatura, ampliando seu ciclo de vida útil e reduzindo a dependência da exploração de recursos naturais. Essa abordagem é fortalecida pelo uso de materiais sustentáveis e por tecnologias verdes, como a impressão 3D com insumos recicláveis e a utilização de fontes de energia renovável.
A sustentabilidade, portanto, constitui um dos fundamentos centrais da Indústria 5.0, em consonância com as metas globais de mitigação dos impactos ambientais. Segundo Nahavandi (2019), práticas como a economia circular, o uso de energias limpas e a gestão eficiente de resíduos são essenciais para tornar os processos industriais mais ecológicos. Já Jafari, Azarian e Yu (2022) ressaltam que a integração entre inovação tecnológica e responsabilidade ambiental não apenas fortalece a competitividade das indústrias, como também contribui significativamente para a preservação do meio ambiente. Ao aliar tecnologia de ponta e compromisso sustentável, a Indústria 5.0 oferece respostas mais amplas e eficazes aos desafios contemporâneos, como as mudanças climáticas e a escassez de recursos naturais.
Com o advento da Indústria 5.0, que sucede a Indústria 4.0 ao colocar o foco na colaboração entre humanos e máquinas inteligentes, a noção de empregabilidade ganha novas nuances. Enquanto a Indústria 4.0 foi marcada pela automação e pelo uso intensivo de tecnologias como inteligência artificial, big data e Internet das Coisas, a Indústria 5.0 valoriza a personalização, a sustentabilidade e o papel insubstituível do ser humano no centro dos processos produtivos (European Commission, 2021).
Quanto a empregabilidade, a capacitação constante dos colaboradores é uma estratégia fundamental. Programas de requalificação profissional e o incentivo ao aprendizado contínuo, voltado tanto para competências técnicas quanto socioemocionais, asseguram que a força de trabalho esteja preparada para interagir e evoluir junto às novas tecnologias
Entretanto, a transição para a Indústria 5.0 impõe desafios significativos para a qualificação profissional, especialmente em países com déficits educacionais ou com força de trabalho envelhecida e pouco adaptada às novas exigências tecnológicas. O descompasso entre a oferta de trabalho qualificado e as demandas do setor produtivo pode comprometer a empregabilidade de muitos profissionais, levando à obsolescência de competências e ao aumento da desigualdade social (SENAI, 2022).
3.4. Desafios e Oportunidades da Indústria no Contexto Brasileiro
A indústria brasileira, como parte essencial da economia nacional, enfrenta um cenário complexo composto por inúmeros desafios estruturais e conjunturais, mas também por oportunidades significativas de crescimento e inovação. Entre os principais desafios, destaca-se a elevada carga tributária, a burocracia excessiva e os custos logísticos que encarecem a produção e reduzem a competitividade das empresas nacionais no mercado internacional. Além disso, a carência de investimentos em infraestrutura, pesquisa e desenvolvimento, bem como a dificuldade de acesso ao crédito, especialmente para pequenas e médias indústrias, contribuem para um ambiente produtivo menos dinâmico.
O Brasil enfrenta desafios significativos na implementação da Indústria 5.0. Entre os principais estão a baixa maturidade digital, a falta de infraestrutura tecnológica e a necessidade de qualificação da força de trabalho (Alves et al., 2023). A baixa maturidade digital reflete-se na limitada integração de tecnologias em processos industriais, dificultando a transição para modelos mais avançados. A infraestrutura inadequada, por sua vez, limita a conectividade e o acesso às ferramentas necessárias para modernizar a indústria. Por fim, a falta de qualificação impede que os trabalhadores acompanhem as exigências tecnológicas, criando um descompasso entre as demandas do mercado e a mão de obra disponível.
Apesar desses desafios, o Brasil possui grandes oportunidades, especialmente em setores como agronegócio e energia renovável. Pereira e Santos (2023) ressaltam que práticas sustentáveis no Brasil poderiam ser ampliadas com o uso de tecnologias da Indústria 5.0, otimizando recursos naturais e reduzindo emissões de carbono. A modernização das cadeias produtivas representa uma oportunidade para aumentar a competitividade global do Brasil. Além disso, iniciativas públicas e privadas podem impulsionar a transição, promovendo investimentos em infraestrutura e capacitação.
A Indústria 5.0 emerge como resposta a esses desafios, introduzindo um novo paradigma que transcende a simples evolução tecnológica. De acordo com a Comissão Europeia (2021), a Indústria 5.0 prioriza uma abordagem human-centric, resiliente e sustentável, na qual as tecnologias são integradas com o propósito de ampliar o bem-estar humano, respeitar os limites ambientais e fortalecer a coesão social. Trata-se, portanto, de uma reorientação dos objetivos da industrialização, que passa a considerar a ética, a inclusão e o impacto socioambiental como elementos centrais das decisões produtivas.
Como destacam Pereira e Santos (2022), essa mudança de paradigma não se limita à inserção de novas ferramentas tecnológicas, mas implica também uma transformação cultural e organizacional, exigindo das empresas e das políticas públicas uma visão sistêmica capaz de alinhar inovação tecnológica com justiça social e responsabilidade ecológica. A Indústria 5.0, ao colocar o ser humano novamente no centro dos processos, propõe uma convivência simbiótica entre pessoas e máquinas inteligentes, promovendo ambientes de trabalho colaborativos e orientados à sustentabilidade.
O governo brasileiro também promove programas de incentivo à inovação, como o Programa Brasil Mais, lançado em 2013 pelo Ministério da Economia e pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI). O programa tem como objetivo aumentar a produtividade de micro, pequenas e médias empresas por meio da digitalização e otimização de processos industriais. No entanto, enfrenta desafios, como adesão limitada por parte das empresas e dificuldades na implementação de tecnologia em setores tradicionais.
Além disso, programas de pesquisa e desenvolvimento, como os fomentados pela EMBRAPII (Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial), oferecem suporte técnico e financeiro às empresas que desejam adotar soluções tecnológicas alinhadas à Indústria 5.0, porém o programa passa por limitações, como falta de investimento geral.
No setor privado, startups (empresas emergentes de base tecnológica) têm desempenhado um papel fundamental no desenvolvimento de soluções inovadoras para a indústria, criando tecnologias que facilitam a transição para a Indústria 5.0.
O empreendedorismo também se destaca como motor de inovação. Empresas emergentes têm explorado nichos que alinham sustentabilidade e personalização, desenvolvendo produtos e serviços adaptados às necessidades do consumidor moderno. Esses esforços, combinados com iniciativas governamentais e público-privadas, reforçam o potencial do Brasil para superar barreiras e consolidar-se como um player relevante na Indústria 5.0.
De acordo com a Confederação Nacional da Indústria (CNI), só 23% das indústrias no Brasil estão em um nível avançado de digitalização, o que mostra uma grande diferença na maturidade digital do país. A principal dificuldade apontada pelas empresas é a falta de infraestrutura tecnológica adequada, além da escassez de profissionais qualificados para lidar com essas novas tecnologias. Além disso, os resultados práticos dessas políticas ainda não mostram uma integração eficiente entre o avanço tecnológico e o foco nas pessoas, que é uma característica importante da Indústria 5.0. Muitos programas continuam focados apenas em automação e aumento de eficiência, sem levar em conta de forma adequada o papel ativo dos trabalhadores na era digital.
4. RESULTADOS E DISCUSSÃO
Meio a metodologia utilizada, os dados coletados mostram que o Brasil apresenta uma baixa maturidade digital em sua indústria, associada a problemas como infraestrutura tecnológica deficiente e carência de mão de obra qualificada. No entanto, também foi observado um crescimento significativo de iniciativas que buscam modernizar processos produtivos por meio da automação inteligente, integração de inteligência artificial e adoção de práticas sustentáveis.
Exemplos práticos, como o uso de tecnologias de IoT em fazendas conectadas e a expansão de fontes de energia renováveis, ilustram as aplicações já em andamento no país.
Os dados coletados revelam que o Brasil ainda apresenta um estágio incipiente em termos de maturidade digital industrial. De acordo com o Índice de Transformação Digital da CNI (Confederação Nacional da Indústria), divulgado em 2023, apenas 23% das indústrias brasileiras estão em nível avançado de digitalização, o que demonstra um grande desafio a ser enfrentado. Entre os fatores limitantes mais citados estão a infraestrutura tecnológica obsoleta, especialmente em regiões afastadas dos grandes centros urbanos, e a escassez de mão de obra qualificada, tanto em funções técnicas quanto em cargos de liderança digital (CNI, 2023)
Por outro lado, há um movimento crescente de modernização impulsionado por políticas públicas, incentivos fiscais, e sobretudo, pela necessidade de competitividade global. A digitalização tem avançado por meio da integração de tecnologias como Inteligência Artificial (IA), Internet das Coisas (IoT), Big Data, robótica avançada e computação em nuvem, além do fortalecimento de práticas sustentáveis, como o uso de fontes de energia limpa e a automação de sistemas de gestão ambiental.
Abaixo está um quadro que exemplifica algumas das principais iniciativas de transformação digital no país, com foco na indústria e no agronegócio, dois dos setores mais estratégicos da economia nacional:
Quadro 1: Exemplos de desenvolvimentos e aplicações de algumas tecnologias
| Iniciativa | Setor | Tecnologia Envolvida | Região/Empre sa | Descrição |
| Fazendas Conectadas da Embrapa | Agronegócio | IoT, Big Data, IA | Centro-Oeste / Embrapa | Instalação de sensores no solo, drones e softwares de análise para monitorar clima, solo e produtividade, otimizando o uso de insumos e aumentando a sustentabilidade. |
| Indústria 4.0 no SENAI CIMATEC | Indústria | Manufatura Aditiva, Robótica, IA | Bahia / SENAI CIMATEC | Desenvolvimento de linhas de produção piloto com robôs colaborativos e simulação virtual para treinamento e teste de processos industriais. |
| Projeto Indústria Mais Avançada | Indústria | Diagnóstico Digital + Capacitação | Nacional / CNI + ABDI | Programa que mapeia a maturidade digital de pequenas e médias empresas industriais e oferece planos de ação personalizados. |
| Usinas Solares Híbridas em MG | Energia | IoT, Automação, Energias Renováveis | Minas Gerais / Cemig | Integração de sistemas de energia solar com redes inteligentes e baterias controladas por sensores automatizados, promovendo eficiência energética. |
| Plataforma AgroAPI da MAPA | Agronegócio | APIs, Big Data | Nacional / Ministério da Agricultura | Plataforma digital aberta que permite acesso a dados públicos sobre clima, produção, solo e pragas, facilitando o desenvolvimento de aplicativos e sistemas preditivos. |
Esses exemplos ilustram a diversidade de iniciativas em andamento, tanto públicas quanto privadas, que estão colaborando para o avanço da digitalização nos setores produtivos brasileiros. A integração de tecnologias disruptivas com modelos produtivos locais é um dos principais caminhos para elevar a maturidade digital do país e torná-lo mais competitivo em escala global.
A coleta dos dados e fontes utilizadas foi realizada por meio de relatórios técnicos da CNI (2023), da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), e do Ministério da Agricultura, além de publicações recentes da Embrapa, Cemig, SENAI e portais especializados como o Canaltech e a revista Exame. Também foram consideradas entrevistas com especialistas do setor industrial publicadas em veículos como a Revista Indústria Brasileira e Valor Econômico.
A análise dos dados permitiu identificar que a transição para a Indústria 5.0 no Brasil enfrenta desafios estruturais, sobretudo no que diz respeito à capacitação de recursos humanos e investimentos em infraestrutura tecnológica. A análise também revelou que há uma lacuna significativa entre a formulação de políticas públicas e sua implementação prática, o que dificulta a adoção em larga escala da Indústria 5.0.
Entretanto, a pesquisa aponta que setores estratégicos como o agronegócio, energia renovável e tecnologia da informação apresentam maior propensão para absorver os conceitos da Indústria 5.0. A presença de startups inovadoras e o fortalecimento de hubs de inovação, como o Cubo Itaú e o InovaBra, demonstram um movimento positivo rumo à transformação digital. Embora os obstáculos ainda sejam significativos, como a falta de infraestrutura digital em regiões periféricas e a ausência de políticas de capacitação em larga escala, é notável a mobilização de diferentes esferas, governo, setor produtivo e instituições de ensino em busca de soluções tecnológicas adaptadas à realidade nacional. As iniciativas citadas demonstram que, mesmo diante de uma maturidade digital considerada baixa, o país já possui exemplos concretos de transformação digital aplicada, os quais servem como base para a replicação em outras áreas da economia.
4.1. Iniciativas e práticas existentes no Brasil que se alinham aos princípios da Indústria 5.0.
A Indústria 5.0 representa uma evolução do paradigma da Indústria 4.0, ao integrar a tecnologia avançada com um foco centrado no ser humano, na sustentabilidade e na resiliência. Esse novo modelo preconiza a colaboração entre humanos e máquinas inteligentes, buscando não apenas ganhos de produtividade, mas também impactos sociais e ambientais positivos (EUROPEAN COMMISSION, 2021).
No Brasil, diversas iniciativas vêm sendo desenvolvidas em consonância com os princípios da Indústria 5.0, especialmente no que diz respeito à personalização da produção, à sustentabilidade ambiental e à valorização do trabalho humano. Um exemplo relevante é o Programa Rumo à Indústria 4.0, promovido pelo SENAI (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial), que visa capacitar empresas e trabalhadores para a transformação digital, com ênfase na integração entre tecnologias emergentes e competências humanas (CNI, 2021). Outra iniciativa que reflete os princípios da Indústria 5.0 é o fortalecimento de polos de inovação em áreas estratégicas. O Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) de São Paulo desenvolve projetos de manufatura avançada e tecnologias sustentáveis, fomentando a criação de soluções customizadas com impacto social, como próteses personalizadas impressas em 3D e sistemas inteligentes para monitoramento ambiental (IPT, 2022).
Além disso, startups brasileiras têm se destacado ao aplicar inteligência artificial e robótica colaborativa em setores como saúde, agricultura e educação, promovendo o uso ético da tecnologia. A empresa Hoobox Robotics, por exemplo, criou um sistema que permite a condução de cadeiras de rodas por expressões faciais, exemplificando a fusão entre empatia, inovação e inclusão — elementos centrais à Indústria 5.0 (LIMA; RIBEIRO, 2022). Quanto a transição para Indústria 5.0, um dos principais entraves está na infraestrutura tecnológica limitada, especialmente no que se refere à conectividade digital, à disponibilidade de tecnologias avançadas e à maturidade digital das empresas brasileiras. Segundo o Relatório de Competitividade Global do Fórum Econômico Mundial (2020), o Brasil ocupa posições intermediárias em termos de adoção de tecnologias digitais, ficando atrás de países com economias comparáveis. A escassez de investimentos em pesquisa, desenvolvimento e inovação (P&D) também compromete a capacidade do país de acompanhar os avanços disruptivos que caracterizam a nova revolução industrial.
Outro desafio crucial é a lacuna de qualificação da força de trabalho. A Indústria 5.0 exige profissionais com competências híbridas, que combinem habilidades técnicas, como programação e análise de dados, com capacidades humanas, como criatividade, pensamento crítico e colaboração (SCHWAB, 2016). No entanto, o sistema educacional brasileiro ainda enfrenta dificuldades para adaptar-se às demandas da era digital e para promover a integração entre ensino técnico, superior e o setor produtivo. A baixa taxa de alfabetização digital e a desigualdade no acesso à educação tecnológica dificultam a formação de uma mão de obra apta a operar em ambientes produtivos centrados no ser humano.
Além disso, há o desafio da sustentabilidade. A Indústria 5.0 promove um modelo industrial baseado na economia circular e na redução de impactos ambientais. No Brasil, apesar de avanços pontuais, a integração de práticas sustentáveis nos processos industriais ainda é incipiente e esbarra em barreiras como a ausência de regulamentações claras, a baixa adesão a certificações ambientais e o custo elevado de tecnologias verdes (CNI, 2021).
Investigar as oportunidades que a Indústria 5.0 pode proporcionar em termos de inovação e empregabilidade exige compreender as transformações estruturais que esse novo paradigma industrial promove nas relações de trabalho e na qualificação profissional.
Nesse contexto, a empregabilidade passa a ser redimensionada não apenas como a capacidade de o indivíduo obter e manter um emprego, mas como sua habilidade contínua de se adaptar à inovação tecnológica, ao mesmo tempo em que desenvolve competências voltadas à criatividade, à empatia e à resolução de problemas complexos.
Outro aspecto a ser considerado é a disparidade regional e setorial. A industrialização brasileira é marcada por forte heterogeneidade, com concentração de polos industriais no Sudeste e Sul, e grande parte das micro e pequenas empresas (MPEs) operando com baixa produtividade e baixo nível de digitalização. De acordo com a Pesquisa Industrial Anual do IBGE (2022), muitas dessas empresas carecem de acesso a financiamento, conhecimento e suporte técnico para implementar as tecnologias que possibilitam a transição para a Indústria 5.0.
Por fim, a governança e a articulação institucional representam um desafio significativo. A falta de políticas públicas coordenadas, de incentivos fiscais e de programas nacionais robustos voltados à transformação digital e à inovação industrial comprometem a criação de um ecossistema propício ao desenvolvimento da Indústria 5.0. O Plano Nacional de Internet das Coisas, por exemplo, embora avance em algumas frentes, ainda precisa ser fortalecido em sua implementação e alinhado com os princípios da nova indústria centrada no ser humano (MCTI, 2020).
Dessa forma, a transição do Brasil para a Indústria 5.0 requer um esforço multidimensional e coordenado entre governos, empresas, instituições de ensino e a sociedade civil. É necessário investir em educação e capacitação, ampliar a infraestrutura digital, fomentar a inovação sustentável e reduzir as desigualdades regionais e setoriais, de modo que a revolução tecnológica se traduza em desenvolvimento inclusivo e sustentável.
4.2. Sugestões estratégicas da indústria 5.0
Inicialmente, é fundamental que as empresas priorizem a centralidade no ser humano. A produção personalizada em massa, a utilização de robôs colaborativos (cobôs) e o foco no bem-estar do trabalhador, com ênfase em ergonomia, segurança e saúde mental, são práticas essenciais para promover um ambiente de trabalho mais humano e eficiente.
A Indústria 5.0 tem o potencial de impactar diversas áreas, como a economia, a ecologia e as relações entre as pessoas. Isso acontece porque se espera uma diminuição do desperdício nas cidades, ajudando a evitar a ocupação de espaços vazios. Além disso, haverá mudanças nos processos industriais e logísticos, com uma redução na produção e nos estoques elevados, e um foco maior em valorizar técnicas artesanais, já que os produtos serão mais personalizados (MAESTRI et al, 2021).
Investir em tecnologias inovadoras e na modernização das cadeias de suprimentos permitirá que as indústrias se adaptem rapidamente às demandas de um mercado dinâmico, gerando novas oportunidades de qualificação e empregabilidade. À medida que surgem demandas por profissionais qualificados em áreas como energia renovável, gestão ambiental, eficiência energética e economia circular, abre-se espaço para novos postos de trabalho com foco em inovação sustentável, exigindo uma força de trabalho capacitada para lidar com essas transformações (OCDE, 2021; ILO, 2018).
Outro aspecto relevante é a customização inteligente dos produtos e processos. Fábricas flexíveis, capazes de adaptar rapidamente suas linhas de produção conforme as demandas de mercado, e a aplicação de metodologias de inovação, como o design thinking, são diferenciais competitivos importantes.
A integração tecnológica responsável é imprescindível para o sucesso da Indústria 5.0. O desenvolvimento de inteligências artificiais éticas, a proteção dos dados através de práticas robustas de cibersegurança e a implementação de políticas claras de governança de dados garantem o respeito aos direitos dos usuários e fortalecem a confiança nas tecnologias adotadas.
Além disso, é necessário promover a resiliência e adaptabilidade dos sistemas produtivos. A construção de cadeias de suprimentos inteligentes, a diversificação de fornecedores e o uso de tecnologias como blockchain para rastreamento de produtos tornam as operações mais seguras e preparadas para enfrentar crises e imprevistos.
As organizações também devem investir em parcerias estratégicas, promovendo a cocriação de soluções com startups, universidades e centros de pesquisa, além de adotar práticas de inovação aberta que estimulem o compartilhamento de conhecimento entre diferentes setores.
Por fim, a focalização na experiência do cliente deve ser contínua. Oferecer produtos e serviços personalizados, baseados em dados de consumo, e manter uma comunicação transparente e ética com os consumidores são medidas que reforçam a competitividade e a relevância da empresa no mercado.
Assim, a Indústria 5.0 surge como uma oportunidade para construir um modelo industrial mais inteligente, humano, sustentável e conectado com os desafios contemporâneos.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A Indústria 5.0 representa uma evolução significativa no cenário industrial global ao promover uma abordagem centrada no ser humano, integrando tecnologias avançadas como inteligência artificial, robótica colaborativa, internet das coisas e big data às habilidades e competências humanas. Ao contrário da Indústria 4.0, que se concentrou na digitalização e automação dos processos produtivos, a nova fase valoriza a personalização em massa, a sustentabilidade e a colaboração entre homem e máquina. Essa transição sinaliza não apenas uma revolução tecnológica, mas também uma profunda transformação cultural e organizacional.
Ao analisar as ações já existentes no Brasil, observou-se que, embora o país ainda esteja em estágio inicial de adoção da Indústria 5.0, há experiências promissoras em setores como tecnologia da informação, automação e agronegócio. Startups, universidades e centros de pesquisa têm desenvolvido projetos que buscam integrar pessoas e máquinas, personalizar produtos conforme demandas específicas e incorporar práticas sustentáveis aos processos produtivos.
Além disso, foram identificadas limitações importantes que dificultam o avanço desse modelo industrial. Entre elas, destacam-se a baixa maturidade digital da maior parte das empresas, a insuficiência de infraestrutura tecnológica, a escassez de políticas públicas voltadas à inovação e, principalmente, a urgência na requalificação da força de trabalho. Esses obstáculos são agravados pelas desigualdades regionais e pela frágil articulação entre os setores público e privado, o que compromete a construção de uma base sólida para a transição industrial.
Por outro lado, o país dispõe de oportunidades significativas que podem ser potencializadas. Setores como o agronegócio, a energia renovável, a indústria farmacêutica e as tecnologias digitais despontam como áreas estratégicas, com grande potencial de crescimento no contexto da Indústria 5.0. Desde que acompanhadas por investimentos em pesquisa, desenvolvimento e capacitação profissional, essas áreas podem gerar novos postos de trabalho qualificados e fomentar a empregabilidade. Ao priorizar práticas industriais mais humanas e responsáveis, o Brasil pode não apenas aumentar sua competitividade no mercado internacional, mas também promover inclusão social por meio da geração de empregos mais dignos e alinhados às novas exigências tecnológicas.
Diante dessa situação, podemos perceber que a implementação da Indústria 5.0 no Brasil depende de uma colaboração entre o governo, o setor privado, as escolas e a sociedade como um todo. Para superar os desafios, é importante criar políticas públicas eficientes, oferecer incentivos à inovação, investir na melhoria da infraestrutura digital e, principalmente, valorizar as pessoas, que são o coração dessa transformação. Assim, a Indústria 5.0 tem tudo para ser uma oportunidade única para o Brasil repensar seu modelo de desenvolvimento industrial, criando uma economia mais inovadora, sustentável e capaz de gerar empregos qualificados e inclusivos.
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