A REGRA 3-30–300 COMO DIRETRIZ PARA CIDADES VERDES RESILIENTES: UMA ANÁLISE DA ARBORIZAÇÃO URBANA EM CAMPO GRANDE-MS VIA ARBOLINK

THE 3-30-300 RULE AS A GUIDELINE FOR RESILIENT GREEN CITIES: AN ANALYSIS OF URBAN FORESTRY IN CAMPO GRANDE-MS VIA ARBOLINK

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ni10202601111647


Natália Dotta
Carmem Verônica Fanaia Miquilino
Yara Lígia Bambil Daros Garcia
Felipe Buller Bertuzzi


RESUMO:

A crescente pressão das mudanças climáticas exige novas diretrizes para o planejamento urbano, capazes de integrar a sustentabilidade ambiental à qualidade de vida da população. Nesse contexto, a Regra 3-30-300, surge como um instrumento que visa orientar a arborização urbana em cidades resilientes. Este estudo tem como objetivo analisar a aplicação da Regra 330-300 em Campo Grande, capital de Mato Grosso do Sul, utilizando a plataforma Arbolink como ferramenta de mapeamento e monitoramento de sua arborização. A pesquisa busca compreender a relação entre cobertura vegetal, distribuição espacial das áreas verdes e os benefícios socioambientais decorrentes da presença de árvores no perímetro urbana. Os resultados preliminares indicam desigualdade na distribuição das árvores entre bairros centrais e periféricos, o que reforça a necessidade de políticas públicas voltadas à equidade ambiental. Conclui-se que a aplicação da Regra 3-30-300 em Campo Grande pode contribuir significativamente para a construção de cidades verdes e resilientes, promovendo não apenas benefícios ecológicos, como regulação térmica e aumento da biodiversidade, mas também impactos sociais positivos relacionados à saúde, bem-estar e justiça ambiental.

Palavras-Chave: Arborização urbana. Cidades resilientes. Desenvolvimento sustentável

ABSTRACT:

The growing pressure of climate change demands new guidelines for urban planning, capable of integrating environmental sustainability with the population’s quality of life. In this context, the 3-30-300 Rule emerges as an instrument to guide urban forestry in resilient cities. This study aims to analyze the application of the 3-30-300 Rule in Campo Grande, the capital of Mato Grosso do Sul, using the Arbolink platform as a tool for mapping and monitoring its forestry. The research seeks to understand the relationship between vegetation cover, the spatial distribution of green areas, and the socio-environmental benefits resulting from the presence of trees in the urban perimeter. Preliminary results indicate inequality in the distribution of trees between central and peripheral neighborhoods, which reinforces the need for public policies focused on environmental equity. It is concluded that the application of the 3-30-300 Rule in Campo Grande can significantly contribute to the construction of green and resilient cities, promoting not only ecological benefits, such as thermal regulation and increased biodiversity, but also positive social impacts related to health, well-being, and environmental justice.

Keywords: Urban afforestation. Resilient cities. Sustainable development.

INTRODUÇÃO

As mudanças climáticas têm representado uma das ameaças globais mais significativas do século XXI. Segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, 2021) a principal causa é o aquecimento global, causado, principalmente, pela emissão de gases de efeito estufa (GEE) na atmosfera, que, pelo aumento de sua concentração, eleva a temperatura média do planeta.

Avultando a esse cenário climático, a ONU publicou que entre o período de 2007 até 2050 o número de habitantes nas cidades terá aumentado para 2,5 milhões de pessoas, o que representará dois terços da população global. De acordo com o Programa Cidades Sustentáveis (PCS, 2025), atualmente mais da metade da humanidade vive em cidades, e na América Latina, o Brasil é o país mais urbanizado, com 87,4% de sua população vivendo em cidades, conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2024).

Em nível local, Mato Grosso do Sul possui aproximadamente 2,7 milhões de habitantes, destes mais de 85% residem nas áreas urbanas (IBGE, 2022), em comparação ao censo de 2010 podemos inferir, com base nos dados divulgados que houve um aumento de aproximadamente 12,6% de sua população urbana. 

Com essa crescente demanda populacional nas áreas urbanas, urge a necessidade de pesquisas e políticas públicas para a minimização dos impactos climáticas, a exemplo das emissões de GEE. Partindo do pressuposto de que as cidades são os espaços mais afetados por esses eventos climáticos Konijnendijk (2023), observa-se uma demanda crescente por pesquisas e ações voltadas para torná-las cada vez mais sustentáveis e promovendo maior qualidade socioambiental para seus habitantes.

O que incita a urgência por soluções inovadoras, em busca de um modelo que seja eficiente e inclusivo na promoção da melhoria da qualidade de vida urbana (Habitat III, 2016). Nesse contexto, a arborização é uma estratégia já considerada por diversos autores como fundamental para o conforto de moradores e para a habitabilidade urbana, além de ser uma possibilidade viável para se reduzir desastres ambientais. 

Arborização é uma estratégia para fornecer sombra, reduzindo a temperatura do ambiente em períodos de calor intenso, além de desempenhar papéis ecológicos fundamentais como: absorver a água da chuva, auxiliar na prevenção de enchentes, filtrar as emissões dos escapamentos de veículos (CO2), contribuir para uma melhor qualidade do ar, fornecer proteção UV (Albuquerque; Zanella; Dantas, 2008).

Nesse sentido, em âmbito global, o acesso justo e equitativo aos espaços verdes urbanos tem sido amplamente adotado como um objetivo político. A exemplo dos Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas (ONU), onde por meio do ODS 11, em sua meta 11.7, afirma que até 2030 deve-se “proporcionar acesso universal a espaços verdes e públicos seguros, inclusivos e acessíveis, em particular para mulheres e crianças, idosos e pessoas com deficiência” (Nações Unidas 2022).

Em alinhamento com a Agenda 2030, o Ministério do Meio Ambiente, Ministério das Cidades e Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, com apoio da Agência de Cooperação Internacional Alemã (GIZ) o decreto nº 12.041, de 5 de junho de 2024 (Brasil, 2024), que instituiu o Programa Cidades Verdes Resilientes (PCVR), e o sistema Arbolink no contexto da cidade de Campo Grande- MS. 

Campo Grande implantou em 2024, a plataforma pública Arbolink, uma ferramenta que tem o objetivo de modernizar a gestão ambiental e facilitar o planejamento de novos plantios, além de apoiar o controle e o cuidado das árvores já existentes (Voz do MS, 2024).

Vista a importância da temática da arborização, e tendo por foco a capital de Mato Grosso do Sul, o presente trabalho é inédito e busca refletir sobre a importância da arborização como uma estratégia de mitigação para o aquecimento global a partir da Regra 3-30-300.

METODOLOGIA

O presente trabalho adota a abordagem qualitativa, de natureza descritiva e analítica com caráter exploratório. Para tanto, foram realizadas revisão e análise de documentos científicos e técnicos sobre a temática do urbanismo; mudanças climáticas; resiliência urbana e diretrizes de arborização, bem como análise documental, através de legislações e planos municipais, destacando o decreto nº 12.041, de 5 de junho de 2024 (Brasil, 2024). 

O estudo de caso foi desenvolvido na cidade de Campo Grande, capital de Mato Grosso do Sul, no Brasil, em razão de suas características urbanas e seu histórico de arborização, que evidencia sua relevância no cenário nacional. 

A coleta de dados secundários se deu por meio do Sistema Arbolink, implantado em Campo Grande, que possibilitou o levantamento da quantidade de árvores cadastradas na cidade, localização de cada espécie, cujos dados foram coletados no período de 2024-2025 e a análise foi feita através da análise de conteúdo e de dados. 

Assim, o objetivo do trabalho foi refletir sobre os desafios relacionados à arborização urbana, bem como buscou-se relacionar os dados encontrados no sistema Arbolink com a aplicação dos parâmetros da Regra 3-30-300 na cidade de Campo Grande.

REFERENCIAL TEÓRICO

Enfoque na arborização urbana eficaz

As cidades são responsáveis por parte substancial das emissões de gases de efeito estufa e são um dos cernes da crise climática, uma vez que contribuem diretamente para o aumento das temperaturas e da poluição, sendo também vulneráveis aos consequentes efeitos climáticos e ambientais (UN-Habitat, 2024).

De acordo com o IPCC (2021), em 2020, as zonas urbanas representaram entre 67% e 72% da participação global nas emissões de GEE. Soma-se a isso a crescente instabilidade nos padrões de precipitação, que agrava a ocorrência de desastres naturais, como secas, inundações, enchentes e a elevação do nível do mar.

Nessa perspectiva, o presente trabalho destaca o papel da arborização na promoção da sustentabilidade e da resiliência climática e como a vegetação e sua integração no planejamento urbano é provedora de vários impactos positivos na saúde pública; na redução da poluição do ar; moderação do microclima; melhoria paisagística; redução da poluição hídrica difusa; abatimento dos picos de inundação; entre outros (Konijnendijk et al., 2016); (Iungman et al., 2023) e (Un-Habitat, 2024).

Entende-se que por meio da redução da incidência direta da energia solar e do aumento da umidade relativa do ar, a arborização contribui para a redução de até 4ºC de temperatura, atenuando as chamadas ilhas de calor, áreas de ocorrência de temperaturas mais elevadas durante o dia, especialmente nas zonas de maior poluição do ar (IPEA, 2011) e na melhoria do conforto térmico (Oliva, 2016).

Pesquisas recentes apontam que repensar planos urbanos é uma preocupação crescente, devido os impactos climáticos cada vez mais severos não só no meio ambiente, mas também nas interações humanas, principalmente pós pandemia do Covid-19, visto que espaços verdes públicos nos bairros favorece e estimula o uso regular dessas áreas, o que resulta em impactos positivos na saúde mental, física e social (Beatley, 2016).

Além desses fatores, a vegetação desempenha diversas funções como elemento do espaço urbano, como: ornamentais; paisagística; controle de ruídos e filtragem da poluição atmosférica (Barbosa, Barbirato e Vecchia, 2003). 

Também existem benefícios econômicos do plantio de árvores, conforme pesquisas, árvores plantadas em um raio de quinze metros das casas, leva a uma valorização dos imóveis em 9% e quando se compara casas com e sem árvores nas ruas das proximidades, descobriu-se que uma árvore adjacente valorizava a casa, em média, em 3% (Speck, 2016). 

Em relação aos benefícios sociais, o aumento da qualidade de vida é citado pela UNHabitat (2024) que entende o incentivo na geração de áreas naturais, por meio do sistema de espaços públicos abertos, fontes de água, florestas urbanas, uso de áreas verdes permeáveis em regiões propensas a inundações. Speck (2016) cita ainda a absorção da água da chuva das emissões de escapamentos de veículos e a limitação dos efeitos do vento. Meneses, et al. (2021) reforçam dizendo que estes espaços têm o objetivo de recriar a presença da natureza no meio urbano mitigando conflitos da vida cotidiana pelos seus vários benefícios.

Além disso, a arborização também é um importante aspecto de urbanismo e estéticos promovendo características das vias reforçando positivamente a imagem de uma rua (Lynch, 2011). Podem reduzir a velocidade dos carros e melhorar a sensação de fechamento, “protegendo” as ruas com suas copas. Uma cobertura arbórea consistente, pode fazer muito para aprimorar o que poderia ser uma caminhada ruim (Speck, 2016).

Jane Jacobs (2011) oferece uma crítica fundamental ao entender que não basta criar áreas verdes; é imperativo assegurar sua vitalidade, segurança e apropriação social. Argumenta que a mera existência de parques não é uma solução universal, pois muitos desses espaços, quando desintegrados da dinâmica da cidade, podem se tornar abandonados, gerando novos problemas em vez de solucioná-los. Essa visão refuta a crença de que os parques podem, por si só, estabilizar o valor de imóveis ou atuar como âncoras comunitárias (Speck, 2016).

A crítica de Jacobs (2011) vai além, apontando que parques impopulares representam um risco para a vizinhança. Por estarem sujeitos a vandalismo e falta de uso, eles disseminam a sensação de perigo, fazendo com que as ruas ao seu redor também sejam evitadas. O problema, segundo ela, não é a falta de áreas verdes, mas a concepção de espaços que não dialogam com as necessidades e a dinâmica social das pessoas. Em sua visão, a solução não está em quantificar a área verde, mas em qualificar sua integração com o tecido urbano. A diversidade de usos e a centralidade, de fato, são elementos cruciais para que a arborização urbana e os parques de bairro cumpram sua função social de forma plena.

Deste modo, arborizar uma cidade exige de seus administradores muita responsabilidade e bom senso, quer dizer, requer um planejamento, pois fazê-lo sem critérios pode trazer prejuízos substanciais tanto ao poder público quanto à população (Oliva, 2016.)

Legislação fomentando a arborização

Ações sustentáveis partindo do macro para o local podem contribuir significativamente para o desenvolvimento local sustentável, promovendo práticas mais responsáveis e transparentes que beneficiam as comunidades locais, ou seja, enfatizar a sociedade focal (Le Bourlegat, 2024). 

Assim, a nível nacional o PL 3113/2023 pretende instituir a Política Nacional de Arborização Urbana (PNAU), busca regulamentar a gestão e promoção da arborização urbana como sujeito de direito e bem de interesse comum de todos os cidadãos e tem como demais princípios: I. desenvolvimento sustentável; II. adaptação às mudanças climáticas; III. equidade e ubiquidade; IV. planejamento e proteção continuados; V. não regressividade; VI. solidariedade regional e cooperação federativa; VII. participação comunitária.

Posteriormente o Decreto Nº 12.041, de 05 de junho de 2024, institui o Programa Cidades Verdes Resilientes, e em seu art. 1º, tem por objetivo geral

[…] aumentar a qualidade ambiental e a resiliência das cidades brasileiras diante dos impactos causados pela mudança do clima, por meio da integração de políticas urbanas, ambientais e climáticas, do estímulo às práticas sustentáveis e da valorização dos serviços ecossistêmicos do verde urbano.

O decreto 12.041/2024 e o PL 3113/2023 se relacionam ao conceito de desenvolvimento regenerativo, visto que ambos compartilham o mesmo propósito: estruturar metodologias capazes de fazer com que os ambientes construídos produzam mais energia e recursos do que consomem, gerando, assim, impactos regenerativos tanto no meio natural quanto no social. 

Dessa formam, políticas públicas urbanas, ambientais e climáticas estão sendo criadas visando promover o desenvolvimento urbano sustentável, minimizando as desigualdades e riscos ambientais. Sob essa mesma ótica, o acelerado processo de urbanização tem colocado a gestão pública diante de grandes desafios, exigindo análises aprofundadas sobre questões cruciais a exemplo do acesso à água potável e saneamento básico, poluição, resíduos, educação, saúde e segurança pública, aspectos que impactam diretamente o cotidiano das cidades (Bouskela et al., 2016). 

Para a mitigação desses desafios, ações estão sendo desenvolvidas localmente, pelo poder público nos estados e municípios, com apoio de academias e da sociedade. Nessa perspectiva, Thompson e Newman (2018) reconhecem que a escala menor – o bairro – apresenta maior possibilidade de atendimento às necessidades do urbanismo e habitação local. Isso porque essa escala permite coordenar a viabilidade econômica de infraestruturas compartilhadas.

Campo Grande-MS como referência em arborização urbana e o Arbolink

Campo Grande possui uma área territorial de 8.082,327 km² (IBGE, 2024), e mais de 150 mil árvores em suas vias urbanas, conforme revelou o inventário quantitativo realizado com base na aerofotogrametria do município, realizada pela Prefeitura Municipal de Campo Grande em 2010, sendo uma capital com 96% dos seus domicílios arborizados (IBGE, 2010). Isso é fruto de um processo de arborização iniciado pelo primeiro programa de arborização do município que aconteceu em 1913, conforme aponta o Guia de Arborização Urbana de Campo Grande de 2010.

Todavia, o Guia, ora mencionado, não contava com um planejamento estruturado e feito com base em metodologia confiável. Isto, ao longo dos últimos anos, gerou uma lacuna, ocasionando uma série de problemas como o plantio de espécies em locais inadequados, o manejo impróprio e os alguns conflitos decorrentes, passando a arborização a ser percebida também como fonte de transtornos e desconfortos pela população, a despeito de calçadas quebradas, cabos de energia e telefonia atingidos por árvores e despesas pelo esforço das administrações municipais em tentar minimizá-los. 

Em resposta a essas problemáticas, houve a elaboração do Plano Diretor de Arborização Urbana (PDAU) de Campo Grande, com a finalidade de diagnosticar a arborização viária do município, dotando o Poder Administrativo Municipal de diretrizes que possibilitem a gestão e o gerenciamento da arborização urbana de forma eficaz.

Todos esses esforços geraram resultados, desde então os números de arborização estão em crescente. Conforme o Censo IBGE de 2022, a cidade está em primeiro lugar no ranking nacional de arborização urbana com 91,4% de trechos com pelo menos uma árvore em vias públicas. Campo Grande possui o título de cidade mais arborizada do Brasil desde 2019 (IBGE, 2022) e já foi reconhecida seis vezes como “Tree City of the World” pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) e pela Arbor Day Foundation. Para receber essa titulação, há critérios rigorosos a serem seguidos como: existência de um órgão dedicado à gestão das árvores, criação de leis específicas para o manejo da arborização, realização de eventos de conscientização e investimentos contínuos em plantios e manutenção (Campo Grande, 2025).

Apesar dos benefícios levantados, a arborização urbana pode trazer sérios problemas, quando ocorre a queda de árvores, ou de suas partes que, muitas vezes, se traduzem em danos ao patrimônio, interrupções no fornecimento de energia e de comunicação, interferências no trânsito e, até mesmo, acidentes das mais variadas proporções.

Assim, conhecer a situação das árvores urbanas pode ajudar no planejamento para evitar e/ou corrigir os problemas de inadequação de espécies e as distorções de distribuição desigual da arborização no território, além de fornecer informações para o acompanhamento e manejo.

Em resposta a essa necessidade, em janeiro de 2024, Campo Grande implanta o sistema Arbolink, uma plataforma tecnológica de gestão digital da arborização urbana. Essa ferramenta possibilita modernizar a gestão ambiental e facilitar o planejamento de novos plantios, além de apoiar o controle e o cuidado das árvores já existentes (Voz do MS, 2024).  

Assim, o Arbolink, é um painel público, que visa facilita o monitoramento, vistorias e a alimentação de um mapa de árvores na cidade de Campo Grande (Campo Grande News, 2024). Por meio de aplicativos móveis, os técnicos conseguem registrar imagens, classificar o estado das árvores e emitir laudos diretamente no campo, o que acelerou significativamente o tempo de resposta da prefeitura. Do outro lado, o cidadão tem acesso transparente às árvores cadastradas, às solicitações de intervenção e ao andamento dos atendimentos (Empreenda MS, 2025). 

Figura 01: Painel público (Mapa das árvores de Campo Grande-MS)

Fonte: Arbolink, 2025.

Até junho de 2025, segundo o Arbolink, mais de 5.000 árvores foram avaliadas, com cerca de 175 000 árvores viárias totais sob gestão, e aproximadamente 410 processos digitais registrados (Arbolink, 2025).

Dessa forma, observa-se que a arborização urbana, quando planejada e integrada às políticas públicas, pode atuar de maneira estratégica tanto na escala macro, orientada por diretrizes nacionais, quanto na escala meso, operacionalizada em nível de bairro por ferramentas como o Arbolink. Nesse sentido, busca-se discutir a importância de indicadores como a regra 3-30-300 enquanto referência metodológica para a gestão e monitoramento da arborização urbana de Campo Grande.

Métricas de arborização urbana: A regra 3-30-300 

Entende-se por arborização urbana toda cobertura vegetal de porte arbóreo existente nas cidades. Essa vegetação ocupa, basicamente, três espaços distintos: as áreas livres de uso público e potencialmente coletivas, as áreas livres particulares e as áreas acompanhando o sistema viário (Prefeitura Municipal de Campo Grande, 2010).

Assim, Barbosa, Barbirato e Vecchia (2003) entendem que o conhecimento de parâmetros que qualifiquem e quantifiquem os benefícios trazidos pela vegetação na amenização do comportamento climático nos recintos urbanos é de grande importância para a tomada de decisão de profissionais que atuem no planejamento urbano bem como de conhecimento para a população no geral, visto que, em Campo Grande, a lei do uso do solo entende que a árvore é de propriedade privada.

Apesar do avanço, a discussão sobre a arborização urbana transcende a simples presença de árvores, e exige uma análise técnica e multidimensional que abarque tanto o aspecto físico quanto o socioespacial. Konijnendijk (2023), entende que a eficácia da arborização está diretamente relacionada à sua proximidade e densidade. Uma distribuição desigual das árvores, seja de forma pulverizada ou concentrada em áreas específicas, pode exacerbar desigualdades socioespaciais, privando certas comunidades dos benefícios microclimáticos e sociais associados à vegetação.

Nesse contexto, Cecil Konijnendijk (2023) propôs a nova regra prática 3-30-300, que visa proporcionar acesso equitativo a árvores e espaços verdes e seus benefícios, estabelecendo como limites ter pelo menos 3 árvores bem estabelecidas, visíveis de todas as casas, escolas e locais de trabalho, uma cobertura de árvores de no mínimo 30% em cada bairro; e uma distância máxima de 300 m até o espaço verde público mais próximo de cada residência.

O autor reforça que haja proximidade da cobertura de copas de árvores no fornecimento de resfriamento e benefícios à saúde, principalmente em nível local. Assim, a regra propõe, que onde é difícil para as árvores crescerem e prosperarem, por exemplo, em climas áridos, a meta verde deve ser 30% de vegetação. Também evidencia o papel social e recreativo dos espaços verdes (Konijnendijk, 2023).

Árvores (e arbustos) devem ser a vegetação principal, mas às vezes outros tipos de vegetação (como arbustos e vegetação de cobertura do solo) podem ser mais apropriados (Konijnendijk, 2023). Segundo o autor, o desafio é encontrar combinações de vegetação e tipos de espaços verdes que otimizem a saúde, o clima e outros benefícios em circunstâncias específicas.  Oliva (2016) cita que é de extrema importância que sua abundância e distribuição espacial na malha urbana sejam considerados, pois se não são bem distribuídos seus benefícios locais tornam-se limitados.

A pauta da arborização urbana, quando planejada estrategicamente, tem benefícios em diferentes âmbitos. Quando são localizadas próximas a ruas, são dez vezes mais eficientes do que a vegetação mais distante no sequestro dos gases de escapamento antes que atinjam a estratosfera. Todo tipo de vegetação absorve CO2, mas as árvores são, de longe, as mais eficazes (Speck, 2016). Além disso, considera-se que um bairro adequadamente sombreado exija 15 a 35% menos ar-condicionado, do que um não arborizado. As copas das árvores mais densas nas cidades podem ajudar a quebrar esse ciclo vicioso (Speck, 2016).

A arborização adequada diminui os conflitos com a infraestrutura urbana, reduzindo os custos com manutenção, indenizações e atendimentos de emergência, todavia é importante levar em conta que muitas vezes existem conflitos como os de origem estruturais como calçadas quebradas por raízes, rompimento de cabos de energia ou telefonia, queda de árvores causando danos materiais. 

Além disso, existe a dificuldade das localidades menores, a exemplo de pequenos municípios desenvolverem a consciência da necessidade de aderir à ideia da arborização adequada. É inegável a importância de ações que corroborem para o processo de arborização urbana ideal, no entanto também é evidente que existem muitos desafios.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Os dados do sistema Arbolink evidenciam que Campo Grande/MS consolidou-se como uma das capitais brasileiras com maior cobertura arbórea, possuindo, em 2025, aproximadamente 175 mil árvores cadastradas em vias públicas. Os dados revelam desafios relacionados à manutenção, ao manejo adequado das espécies e à distribuição equitativa dessas árvores no território. Em alguns bairros, sobretudo os periféricos, observa-se menor cobertura arbórea, o que reforça a importância da aplicação de métricas como a Regra 3-30-300 de Konijnendijk (2023), que busca garantir justiça espacial no acesso aos benefícios da arborização.

Assim, embora Campo Grande possua números expressivos de cobertura arbórea, nem todas as áreas urbanas atendem ao parâmetro de 30% de cobertura de copas em cada bairro. A análise do Arbolink sugere que regiões centrais e de maior renda concentram maior densidade de árvores. Essa desigualdade pode potencializar vulnerabilidades socioambientais, como maior incidência de ilhas de calor e exposição da população a riscos climáticos, confirmando o alerta de Konijnendijk (2023) e Jacobs (2011) sobre a necessidade de integrar arborização com planejamento e usos sociais.

Outro ponto relevante é a inovação trazida pelo sistema Arbolink, que, agiliza o monitoramento e intervenção, além de transparência e participação cidadã, pois a população tem acesso ao mapa público das árvores e pode acompanhar solicitações de manejo. Esse aspecto vai ao encontro das recomendações da Agenda 2030 (ODS 11.7) e do Programa Cidades Verdes Resilientes (Decreto nº 12.041/2024), que defendem espaços verdes inclusivos e acessíveis.

Desde a proposição da regra 3-30-300, em 2021, observa-se crescente interesse de cidades e organizações em diferentes países. No Brasil, oficinas participativas realizadas em 2025 entre poder público, academia e sociedade civil discutiram sua aplicação no contexto do novo Plano Nacional de Arborização Urbana (PLANAU), evidenciando a busca pela evolução e implementação de ferramentas de cunho científico. A regra permite benchmarking, ou seja, monitoramento e comparação, e sua simplicidade facilita a comunicação, o engajamento e o apoio de moradores, gestores e empresas. Nessa perspectiva, tanto a regra quanto o Arbolink convergem como instrumentos complementares de monitoramento e gestão.

Aplicando ao Município de Campo Grande/MS, a implementação de sistemas como o Arbolink é um passo significativo para o gerenciamento técnico da arborização. No entanto, a eficácia de tais ferramentas podem ser ampliada. Questiona-se se o monitoramento tecnológico, atualmente focado no estado físico das árvores, deveria incorporar indicadores de uso social das áreas verdes, informações essas que o poder público municipal já possui.

O aprimoramento da tecnologia do Arbolink poderia incluir métricas que avaliem se os parques e outras áreas verdes da cidade estão inseridos em contextos de mistura de usos e diversidade social. Essa abordagem alinharia o planejamento urbano aos princípios de Jacobs (2011), que defendem que a centralidade, a escala e a diversidade de usos são condições essenciais para que a arborização urbana e os parques cumpram sua função social. Em vez de serem apenas “paisagens”, esses espaços devem ser centros vibrantes de vida comunitária. Isso traria uma visão sistêmica e uma nova maneira de pensar as soluções para a cidade.

Assim, os resultados indicam que Campo Grande é referência nacional em arborização urbana, mas para avançar no sentido de uma cidade verde resiliente, é fundamental adotar estratégias que garantam a equidade territorial da arborização, alinhadas à regra 3-30-300, além de consolidar o uso do Arbolink como instrumento contínuo de monitoramento e de gestão participativa. Nesse cenário, a arborização não deve ser entendida apenas como elemento estético ou paisagístico, mas como um recurso estratégico para a mitigação climática, a promoção da saúde pública e a construção de cidades mais justas e inclusivas.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A resiliência urbana, sobretudo no âmbito do bairro e sob a ótica da arborização, exige uma visão sistêmica. O Arbolink, atualmente, cumpre papel importante ao fornecer dados qualitativos, sobre o estado de cada árvore, e quantitativos, sobre a distribuição arbórea em diferentes regiões da cidade. Esse avanço, contudo, ainda carece de maior aproveitamento, pois muitos dos dados gerados não são plenamente utilizados para embasar políticas públicas mais integradas.

Nesse contexto, a aplicação da regra 3-30-300 deve ser compreendida como parte de um processo articulado, em que o plantio de árvores e a criação de áreas verdes sejam planejados de forma conjunta com os demais sistemas urbanos. A arborização não pode ser pensada isoladamente, mas como um dos componentes que dialoguem com a mobilidade, habitação, saúde, segurança e bem-estar social da cidade.

A tecnologia do Arbolink, portanto, representa uma oportunidade de ir além do inventário físico e do monitoramento. Ao incorporar dados sobre uso social dos espaços, a plataforma poderia oferecer subsídios para uma gestão verdadeiramente integrada, alinhada aos princípios de Jacobs (2011), que defendem diversidade, centralidade e vitalidade como condições para o sucesso dos espaços urbanos.

Cabe aqui ressaltar que esse é um trabalho inédito, e que a experiência de Campo Grande-MS, já reconhecida nacionalmente como referência em arborização urbana, evidencia que o desafio atual não é apenas plantar ou contabilizar árvores, mas garantir que a arborização seja equitativa, socialmente justa e apropriada, partindo de uma estratégia mais ampla de resiliência climática. Ao alinhar a eficiência tecnológica do Arbolink à regra 3-30-300, a cidade pode consolidar-se como exemplo de como a arborização urbana contribui para a mitigação climática, a promoção da saúde pública e a construção de cidades mais justas, inclusivas e sustentáveis.

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