PROMOÇÃO DO AUTOCUIDADO E DA REGULAÇÃO EMOCIONAL ENTRE ESTAGIÁRIOS DE PSICOLOGIA EM UM CONTEXTO CLÍNICO DE TRANSTORNO DO ESPECTRO AUTISTA: UM RELATO DE EXPERIÊNCIA

PROMOTING SELF-CARE AND EMOTIONAL REGULATION AMONG PSYCHOLOGY INTERNS IN AN AUTISM SPECTRUM DISORDER CLINICAL SETTING: AN EXPERIENCE REPORT

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ma10202601081325


Roberta de Lorenzi Steiger Ferraz1, Adolfo José de Sousa da Silva1, Camy Vieira de Alcântara Pereira Ferreira1, Diana Duque de Almeida Braga1, Liliane Vanessa Costa das Neves Barbosa1, Mariana Carneiro Leão Ramos1, Raiane Lúcia Cruz de Oliveira1, Isabelle Diniz Cerqueira Leite1.


RESUMO

Objetivo: Descrever uma intervenção em grupo voltada à promoção do autocuidado e à regulação emocional para estagiários de Psicologia atuantes em clínica especializada no atendimento a pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Essa intervenção foi desenvolvida por estudantes do Mestrado Profissional em Psicologia da Saúde de uma Faculdade do Recife, Pernambuco, como ação de responsabilidade social, visando ao compartilhamento do conhecimento produzido durante sua formação continuada. Métodos: Trata-se de relato de experiência de uma intervenção realizada remotamente, com a participação de 13 estagiários de Psicologia, envolvidos na prática clínica com crianças e adolescentes autistas em uma clínica especializada em um município do Estado da Paraíba. A atividade consistiu em um encontro grupal que integrou técnicas de mindfulness, exercícios de respiração, exploração de cenas significativas do estágio e espaços de compartilhamento de afetos entre pares, compreendendo o grupo como dispositivo de cuidado e elaboração coletiva do sofrimento relacionado ao trabalho. Resultados: Observou-se elevado engajamento dos participantes. Contrariamente à hipótese inicial, o estágio foi percebido predominantemente como espaço de acolhimento, pertencimento e suporte emocional, funcionando como fator de proteção psíquica. As principais fontes de estresse relatadas estiveram mais associadas às demandas acadêmicas e à vida cotidiana externa ao estágio do que à prática clínica em TEA. A intervenção favoreceu a expressão emocional, a validação afetiva e a ampliação da consciência sobre a importância do autocuidado. Conclusão: A experiência evidencia a relevância de intervenções grupais no contexto da formação em Psicologia da Saúde, contribuindo para a promoção de saúde mental e para a sustentabilidade emocional de estagiários em contextos de alta demanda afetiva, reafirmando o compromisso dos mestrados profissionais com práticas aplicadas e socialmente responsáveis.   Além disso, a intervenção constituiu-se como um dispositivo formativo para os estudantes mestrandos envolvidos, favorecendo a integração entre o saber teórico, a experiência profissional prévia e a prática interventiva, bem como o desenvolvimento de competências relacionadas à escuta qualificada, ao manejo grupal e à responsabilidade ética na devolução social do conhecimento produzido ao longo da formação stricto sensu.

Palavras-chave: Transtorno do Espectro Autista; Estágio em Psicologia; Autocuidado; Regulação emocional.

ABSTRACT

Objective: To describe a group-based intervention aimed at promoting self-care and emotional regulation among Psychology interns working in a specialized clinical service for individuals with Autism Spectrum Disorder (ASD). The intervention was developed by students enrolled in a Professional Master’s Program in Health Psychology at a higher education institution in Recife, Pernambuco, as a social responsibility initiative focused on sharing the knowledge produced during their continuing professional training.
Methods: This is an experience report of a remotely delivered intervention involving 13 Psychology interns engaged in clinical practice with autistic children and adolescents at a specialized clinic in a municipality in the state of Paraíba. The activity consisted of a single group session integrating mindfulness techniques, breathing exercises, exploration of meaningful internship-related experiences, and spaces for peer affective sharing, conceiving the group as a care device and a means of collective elaboration of work-related distress.
Results: High levels of participant engagement were observed. Contrary to the initial hypothesis, the internship was predominantly perceived as a space of welcome, belonging, and emotional support, functioning as a protective factor for mental health. The main sources of stress reported were more closely related to academic demands and everyday life outside the internship than to clinical practice with individuals with ASD. The intervention facilitated emotional expression, affective validation, and increased awareness of the importance of self-care.
Conclusion: This experience highlights the relevance of group-based interventions within Health Psychology training contexts, contributing to the promotion of mental health and emotional sustainability among interns working in settings characterized by high affective demands. It also reaffirms the commitment of professional master’s programs to applied, socially responsible practices. Furthermore, the intervention functioned as a formative device for the master’s students involved, fostering the integration of theoretical knowledge, prior professional experience, and interventive practice, as well as the development of competencies related to qualified listening, group management, and ethical responsibility in the social return of knowledge produced throughout stricto sensu training.

Keywords: Autism Spectrum Disorder; Psychology Internship; Self-care; Emotional Regulation.

INTRODUÇÃO

A Psicologia da Saúde constitui um campo de conhecimento e prática voltado à compreensão ampliada dos processos saúde-doença-cuidado, integrando dimensões biológicas, psicológicas e sociais, bem como os contextos institucionais e relacionais que atravessam a experiência humana de adoecimento e bem-estar. Diferentemente de abordagens restritas ao modelo biomédico, a Psicologia da Saúde propõe intervenções comprometidas com a promoção da saúde, a prevenção de agravos e a qualificação do cuidado, considerando não apenas os usuários dos serviços, mas também os profissionais envolvidos nos processos assistenciais (COHEN; WILLS, 1985; HÖLZEL et al., 2011).

Nesse sentido, torna-se necessário problematizar a produção do conhecimento em Psicologia da Saúde no âmbito da formação profissional. A pesquisa e a prática nesse campo não podem se dissociar das demandas concretas dos serviços e dos sujeitos, sob o risco de produzir saberes pouco aplicáveis ou distantes das realidades institucionais. Espera-se, ao contrário, que o conhecimento produzido seja socialmente responsável e orientado à transformação das práticas em saúde, fortalecendo processos de cuidado sustentáveis e humanizados (HALBESLEBEN, 2006; GARCÍA-CAMPAYO et al., 2015).

É nesse contexto que se insere o papel dos mestrados profissionais, cuja natureza pressupõe uma articulação direta entre produção científica e intervenção na realidade. Diferentemente dos mestrados acadêmicos tradicionais, os mestrados profissionais têm como princípio estruturante a devolução social do conhecimento produzido, compreendida como a capacidade de transformar resultados teóricos e empíricos em ações, intervenções e práticas aplicadas que impactem positivamente os serviços, as instituições e a sociedade (ABUD, 2025). Tal compromisso implica reconhecer que essa devolução não deve ocorrer apenas ao final do percurso formativo, por meio da dissertação e dos produtos técnicos desenvolvidos, mas ao longo de todo o processo de formação, por meio de intervenções que articulem teoria, prática e responsabilidade social (ALFIERI, 2023).

No campo específico da Psicologia da Saúde, essa responsabilidade assume especial relevância, uma vez que os profissionais em formação frequentemente atuam em contextos marcados por elevada carga emocional e demandas complexas de cuidado. No âmbito do Mestrado Profissional em Psicologia da Saúde da Faculdade Pernambucana de Saúde (FPS), essa perspectiva é explicitamente contemplada na proposta pedagógica do curso, incluindo módulos voltados à discussão da devolução social do conhecimento, da responsabilidade ética do pesquisador-profissional e da construção de intervenções comprometidas com as necessidades reais dos serviços e dos contextos de atuação (CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA, 2025).

É a partir desse enquadramento que se insere o presente trabalho, desenvolvido no contexto de estágio em Psicologia realizado em clínica especializada no atendimento a pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Os estágios em Psicologia realizados nesse tipo de serviço costumam expor os estudantes a um contexto de alta complexidade emocional, marcado pelo manejo de crianças com demandas intensas, bem como pelo contato direto com o sofrimento psíquico de seus familiares. A literatura brasileira recente aponta que a atuação em TEA exige elevada disponibilidade afetiva, constante preparo técnico e capacidade de lidar com desafios relacionais e comorbidades frequentes (SILVA et al., 2024; CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA, 2025).

Nesse cenário, estagiários em processo de formação, ainda em construção de sua identidade profissional, podem tornar-se especialmente vulneráveis ao estresse e à sobrecarga emocional decorrentes da prática clínica. Estudos indicam que profissionais atuantes na área do TEA apresentam níveis mais elevados de estresse, ansiedade e sintomas de burnout quando comparados a outros contextos clínicos (ALFIERI, 2023; MARQUES et al., 2024). Entre estudantes de Psicologia, observam-se sinais precoces de sofrimento relacionado ao cuidado, evidenciando que a exposição contínua ao sofrimento alheio pode favorecer a fadiga por compaixão, caracterizada por esgotamento emocional decorrente da implicação intensa e prolongada com o sofrimento alheio, podendo resultar na diminuição da empatia e da capacidade de ofertar cuidado (MORAIS, 2023; SILVEIRA, 2021).

Essa realidade pode ser compreendida à luz da psicodinâmica do trabalho, abordagem que entende o trabalho não apenas como execução de tarefas, mas como espaço central de produção de sentido, identidade e reconhecimento. Nessa perspectiva, o sofrimento psíquico emerge quando há um descompasso entre as exigências do trabalho e os recursos subjetivos e coletivos disponíveis para enfrentá-las (DEJOURS, 2012). No trabalho em Psicologia, a elevada carga emocional, a complexidade dos casos e a intensa implicação com pacientes e seus contextos de vulnerabilidade permeiam o cotidiano profissional, tornando o sofrimento uma dimensão estrutural da atividade.

No âmbito dessa compreensão, os espaços coletivos de fala e escuta configuram-se como dispositivos fundamentais para a elaboração do sofrimento relacionado ao trabalho, possibilitando sua simbolização, compartilhamento e transformação. Ao favorecer a circulação da palavra, o reconhecimento entre pares e a construção coletiva de sentidos sobre as vivências laborais, esses espaços permitem que o sofrimento deixe de ser vivenciado como falha individual e passe a ser compreendido como expressão das condições e demandas do trabalho (DEJOURS, 2012).

Diante do contexto de elevada implicação emocional e dos riscos de adoecimento psíquico associados à atuação em clínicas especializadas em TEA, torna-se necessário pensar em estratégias que não individualizem o sofrimento, mas que favoreçam sua elaboração coletiva. Nesse sentido, intervenções grupais, articuladas à Psicologia da Saúde e à psicodinâmica do trabalho, apresentam-se como dispositivos especialmente relevantes no contexto da formação profissional em Psicologia, contribuindo para a regulação emocional, o fortalecimento do autocuidado e a construção de estratégias coletivas de enfrentamento (SINCLAIR et al., 2017; ZACCARO et al., 2018).

Assim, o presente trabalho teve como objetivo implementar uma intervenção grupal com estagiários de Psicologia atuantes em uma clínica especializada em TEA, com vistas à criação de um espaço de cuidado voltado a quem cuida, promovendo acolhimento, suporte emocional, autorregulação do estresse e fortalecimento do senso de pertencimento, em consonância com os princípios do Mestrado Profissional em Psicologia da Saúde da Faculdade Pernambucana de Saúde e com seu compromisso de devolução social do conhecimento produzido ao longo do processo formativo.

RELATO DE EXPERIÊNCIA

Para a intervenção compartilhada neste relato de experiência, utilizou-se do Arco de Maguerez como estrutura metodológica para orientar o planejamento, a execução e a reflexão sobre as ações destinadas a estagiários de Psicologia que atuam em uma clínica especializada no atendimento a pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA). O Arco de Maguerez permite integrar a observação da prática à teoria científica e ao estabelecimento de estratégias de intervenção contextualizadas por meio de cinco etapas: observação da realidade, identificação de pontos-chave, teorização, levantamento de hipóteses de solução e aplicação à realidade (MOREIRA, 2024).

A intervenção foi planejada e executada por estudantes do Mestrado Profissional em Psicologia da Saúde da Faculdade Pernambucana de Saúde, os quais possuem ampla experiência profissional nas temáticas abordadas, incluindo atuação clínica em saúde mental, acompanhamento de pessoas com Transtorno do Espectro Autista, práticas baseadas em mindfulness e participação em processos de supervisão e formação de estagiários. O delineamento da proposta interventiva esteve articulado aos conteúdos discutidos no módulo de Promoção, Prevenção e Comunicação em Saúde do referido programa, permitindo a integração entre referenciais teóricos, evidências científicas e saberes construídos a partir da prática profissional. Tal articulação favoreceu a elaboração de uma intervenção contextualizada, eticamente comprometida e alinhada aos princípios da Psicologia da Saúde e da formação profissional orientada à devolução social do conhecimento.

A escolha do cenário clínico especializado em TEA se deu em função das demandas emocionais e comportamentais complexas frequentemente vivenciadas nesse contexto, as quais podem contribuir para níveis elevados de estresse ocupacional e desgaste emocional, especialmente entre profissionais em formação. O público da intervenção foi composto por estagiários de Psicologia, com idades, gênero e períodos acadêmicos variados, todos envolvidos em atividades práticas supervisionadas com pessoas com TEA. Quem trabalha nesse meio muitas vezes apresenta níveis moderados de estresse, Burnout e estresse traumático secundário em ambientes clínicos e de estágio, o que reforça a necessidade de intervenções voltadas à autorregulação emocional e ao suporte psicossocial (ALFIERI, 2023). 

Inicialmente, foi realizada uma observação da realidade dos estagiários por meio de diálogos, supervisões e autoavaliações informais, identificando-se relatos de cansaço emocional, dificuldades no manejo de situações emocionalmente intensas e sinais de estresse ocupacional, aspectos que têm sido descritos como fatores associados à fadiga por compaixão e ao Burnout em profissionais e estudantes de saúde (GARZIN, 2024).Em seguida, os pontos-chave emergentes, tem-se o reconhecimento da fadiga por compaixão, percepção do estresse ocupacional, ausência de práticas estruturadas de suporte emocional e necessidade de estratégias de regulação emocional, foram delimitados como foco de intervenção.

Na etapa de teorização, encontraram-se estratégias de psicoeducação sobre estresse ocupacional, fadiga por compaixão, demandas emocionais no TEA e sinais corporais e psicológicos de sobrecarga. Essa etapa foi embasada em estudos que demonstram a eficácia de programas de mindfulness e de intervenções de compaixão em contextos clínicos e profissionais para reduzir estresse, Burnout e fadiga por compaixão, bem como para aumentar a qualidade de vida e o bem-estar emocional (NASCIMENTO et al., 2024).

A partir das hipóteses de solução derivadas da compreensão teórica, foi proposto um encontro único com duração aproximada de 1h30, que integrasse psicoeducação, vivências corporais de atenção plena, treino de regulação emocional e roda de conversa com suporte entre pares, com base em evidências de que práticas de mindfulness e autorregulação emocional podem promover melhorias imediatas na percepção de estresse e na habilidade de lidar com demandas emocionais no trabalho e em contexto formativo (COSTA, 2025).

A intervenção abarcou 13 estudantes do curso de Psicologia, sendo 3 do sexo masculino e 10 do sexo feminino, todos vinculados a um programa de estágio extracurricular não obrigatório e remunerado. Os participantes atuam no atendimento clínico a crianças e adolescentes com Transtorno do Espectro Autista (TEA), em uma clínica de referência em um município do Estado da Paraíba, com carga horária semanal inferior a 20 horas. A atividade ocorreu em formato grupal e de maneira remota, por meio da plataforma Google Meet, com duração aproximada de duas horas e meia, sendo finalizada com um momento de confraternização (Coffee Break).

Inicialmente, foi conduzido um momento de respiração consciente e mindfulness, com o objetivo de trazer a atenção ao momento presente, compreendido como possibilidade de contato com o corpo enquanto primeiro suporte do Eu. Em seguida, os participantes foram convidados a recordar uma cena recente do estágio e a observar as sensações corporais e os afetos mobilizados a partir dessa vivência.

Posteriormente, cada estagiário registrou três palavras que representassem os sentimentos identificados. Na etapa seguinte, foi oferecida a possibilidade de compartilhamento voluntário de uma dessas palavras com o grupo, favorecendo um espaço de escuta, reconhecimento afetivo e validação das experiências. Observou-se, desde o início da atividade, uma postura participativa e engajada dos estudantes, com envolvimento ativo nas propostas, respeito ao tempo emocional de cada participante e acolhimento das falas compartilhadas.

De forma significativa, os resultados obtidos contrariam a hipótese inicial de que o estágio seria percebido como um fator central de sobrecarga emocional. Predominaram relatos que associaram o ambiente do estágio a vivências de satisfação, pertencimento e suporte emocional. Os estagiários descreveram o estágio como um espaço de acolhimento, no qual se sentem reconhecidos e amparados, especialmente quando comparado a outros contextos do cotidiano.

As queixas de estresse e cansaço emergiram, de modo mais consistente, relacionadas às demandas acadêmicas e à rotina externa ao estágio, incluindo o acúmulo de conteúdos, provas, trabalhos acadêmicos e dificuldades em conciliar vida pessoal e formação profissional. Durante esses relatos, observou-se intensa mobilização emocional em alguns participantes, com manifestações de choro e verbalização de sentimentos de exaustão, insegurança e medo em relação ao futuro.

Esses achados apontam o estágio como um espaço que ultrapassa a função técnica, operando também como um importante dispositivo de acolhimento emocional e proteção psíquica.

DISCUSSÃO

As observações sobre esta experiência foram na contramão do que a literatura reflete acerca dos espaços de estágio profissional, sobretudo no contexto de TEA (RUDOLPH, S. et al.). Na clínica especializada em referência, o estágio foi percebido como ambiente de acolhimento, aliado à melhora na expressão emocional e autoconsciência, com ênfase no pertencimento entre os estudantes/estagiários.

A utilização, na intervenção, de técnicas de relaxamento e autopercepção corporal baseadas em mindfulness e técnicas de respiração funciona como estratégia cognitivo-comportamental que favorece a regulação do estresse e o bem-estar psicológico (ZACCARO, A. et al.). Neste sentido, a literatura tem sistematicamente demonstrado que programas como o Mindfulness-Based Stress Reduction (MBSR) e abordagens de compaixão são eficazes na redução de estresse ocupacional, exaustão emocional e fadiga por compaixão em profissionais da saúde e contextos de alta demanda emocional. Uma meta-análise recente mostrou que níveis mais altos de mindfulness estão associados a menores níveis de fadiga por compaixão e maior satisfação compassiva entre profissionais de saúde, e que esse tipo de intervenção reduz significativamente a fadiga por compaixão em ensaios controlados randomizados (SINCLAIR, S. et al. &  DURKIN, M. et al.).

Ensaios clínicos com enfermeiros revelaram que intervenções baseadas em mindfulness podem também reduzir burnout e aumentar a regulação emocional, diminuindo reatividade emocional e promovendo maior capacidade de lidar com estímulos estressantes no ambiente de trabalho (LAMOTTE, M. et al.; GARCÍA-CAMPAYO, J. et al.).

Além disso, intervenções breves de mindfulness, como a realizada nesta intervenção, mesmo quando aplicadas de forma pontual ou integrada ao cotidiano (como cinco minutos de atenção plena com foco na respiração), demonstraram melhorias nas dimensões de burnout, estresse traumático secundário e satisfação pessoal em trabalhos altamente exigentes (HÖLZEL, B. K. et al.; KABAT-ZINN, J.).

Esses resultados corroboram a observação de que as práticas de atenção plena e de compartilhamento entre pares, presentes na intervenção aplicada ao grupo de estagiários, favoreceram reduções subjetivas no estresse percebido e um relato de maior pertencimento e suporte emocional.

Por meio do cultivo de uma atenção intencional ao momento presente, sem julgamento, os praticantes expressaram maior consciência das experiências internas e da relação com seus pensamentos e emoções, facilitando uma resposta mais adaptativa a estímulos estressantes, reduzindo, assim, a reatividade emocional e promovendo regulação afetiva. 

Esse efeito de regulação pode contribuir diretamente para a capacidade de lidar com experiências emocionalmente desafiadoras, tão comuns na prática clínica com pessoas no espectro autista, sem que isso resulte necessariamente em sobrecarga emocional ou desgaste psíquico.

Paralelamente às intervenções formais de mindfulness, a respiração diafragmática, frequentemente incorporada em programas de atenção plena e técnicas de relaxamento tem sido associada a reduções significativas de estresse fisiológico e psicológico. Revisões sistemáticas sugerem que práticas regulares de respiração profunda e diafragmática estão associadas à diminuição de marcadores fisiológicos de estresse (como a ativação simpática), além de melhora na percepção subjetiva de estresse (HOPPER et al., 2019).

Este tipo de respiração ativa o sistema nervoso parassimpático, reduzindo a resposta de “luta ou fuga” diante de estímulos estressantes, o que pode facilitar uma regulação emocional mais eficaz e uma presença mais atenta durante situações clínicas exigentes. A inclusão desse tipo de exercício na intervenção remota parece ter ativado mecanismos que promovem calma fisiológica e cognitiva, reforçando o efeito integrativo entre o corpo e a mente na promoção de bem-estar.

Importante observar que os efeitos das práticas de mindfulness e respiração não ocorrem isoladamente; sua eficácia tende a ser amplificada por ambientes de apoio social e compartilhamento emocional, como o promovido na roda de conversa entre os estagiários. A literatura indica que apoio entre pares e validação afetiva atuam como fatores protetores contra o estresse ocupacional, potencializando os efeitos de intervenções psicoeducativas e de regulação emocional (COHEN, S.; WILLS, T. A.; HALBESLEBEN, J. R. B.).

Ao expressarem que o estágio, além de ensinar habilidades técnicas, funciona como um espaço de pertencimento, reduzindo a sensação de isolamento e fortalecendo seus recursos internos e interpessoais para enfrentar desafios emocionais, os participantes parecem apontar para a efetiva promoção de saúde mental no ambiente de trabalho quando nele há efetiva preocupação com o bem-estar emocional dos envolvidos.

 CONCLUSÃO

 O presente relato de experiência evidenciou a importância de espaços coletivos de escuta,   acolhimento e regulação emocional no contexto da formação em Psicologia, especialmente entre estagiários que atuam no atendimento a pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA). 

Em consonância com as evidências empíricas, intervenções baseadas em mindfulness e práticas de respiração diafragmática podem atuar como estratégias eficazes para reduzir estresse, fadiga por compaixão e promover regulação emocional em contextos de alta demanda; além disso, quando integradas a espaços de suporte social, podem potencializar a resiliência psicológica de estagiários em formação clínica. Nesse sentido, a experiência aqui relatada destaca a relevância de intervenções grupais, enquanto dispositivos institucionais de cuidado, alinhados à perspectiva da psicodinâmica do trabalho, ao favorecerem a circulação da palavra, o reconhecimento entre pares e a elaboração coletiva das vivências emocionais. Conclui-se que a incorporação sistemática de práticas de autocuidado e regulação emocional nos programas de estágio em Psicologia constitui um aspecto fundamental para a construção de trajetórias profissionais mais sustentáveis, éticas e sensíveis às demandas do cuidado em saúde mental.

Por fim, destaca-se a importância de que intervenções como a aqui relatada sejam incorporadas de forma mais sistemática no âmbito dos mestrados profissionais em Psicologia da Saúde, enquanto ações de responsabilidade social e dispositivos formativos qualificados. Ao promoverem a devolução social do conhecimento produzido na pós-graduação, tais intervenções contribuem simultaneamente para o fortalecimento dos serviços e para o enriquecimento da formação continuada dos mestrandos, ao possibilitar a articulação entre teoria, prática e compromisso ético-político com a promoção da saúde. Dessa forma, reafirma-se o papel dos mestrados profissionais como espaços privilegiados de produção de conhecimento aplicado, sensível às demandas do cuidado e comprometido com a sustentabilidade emocional dos sujeitos e dos contextos institucionais envolvidos.

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1Faculdade Pernambucana de Saúde (FPS)