PHYSICAL EXERCISE AND MENTAL HEALTH IN AN INTEGRATED APPROACH: AN EXPERIENCE REPORT FROM THE “MOVIMENTE-SE” GROUP
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202501081303
Nayana Santos Oliveira1
Mikaelli Rodrigues Carvalho2
Alissandra Alves Rodrigues3
Aline Carvalho Gouveia4
Resumo
Esse artigo é um relato de experiência que descreve a experiência de implementação do grupo “Movimente-se”, uma atividade coletiva de caráter terapêutico desenvolvida com usuários em acompanhamento por profissionais de uma Equipe Multiprofissional (eMulti) da Atenção Primária à Saúde (APS) na cidade de Brasília, Distrito Federal. As atividades coletivas realizadas no contexto da APS são vistas como espaços valiosos para integrar práticas de saúde física, cognitiva e psicossocial, beneficiando os usuários. A metodologia adotada para a pesquisa foi o relato de experiência apoiada a uma pesquisa bibliográfica de abordagem qualitativa, elaborado no contexto/vivência da Residência Multiprofissional em Saúde Mental do Adulto. A atividade coletiva é realizada semanalmente em uma Unidade Básica de Saúde (UBS), com ações que combinam exercícios físicos, socialização e estimulação cognitiva para a promoção da saúde mental e qualidade de vida. Os resultados revelam que a integração de um espaço que envolva exercícios físicos e saúde mental, são estratégias eficazes desenvolvidas tanto no bem-estar físico quanto no mental. Nos momentos destinados às atividades observou-se um espaço relevante para ampliar a socialização e fortalecer vínculos entre os participantes.
Palavras-chave: Atenção Primária à Saúde – APS. Exercício Físico. Saúde Mental. Socialização. Relato de experiência.
1. INTRODUÇÃO
A aprovação da normativa 10.216/2001, conhecida como a Lei Paulo Delgado, marcou uma mudança fundamental no modelo assistencial em saúde mental no Brasil, estabelecendo estratégias e diretrizes para organizar a assistência às pessoas com sofrimento psíquico. Essa normativa estabeleceu a Política Nacional de Saúde Mental (PNSM), que prevê e redireciona o modelo assistencial em saúde mental, pautado na desinstitucionalização, focado no sujeito em toda sua integridade, aspectos de vida e integrado às redes sociais e comunitárias. Alguns dos principais objetivos dessa Política são: reduzir gradualmente os leitos psiquiátricos de baixa qualidade; expandir, qualificar e fortalecer a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS); integrar a saúde mental na Atenção Básica; desenvolver uma política abrangente para usuários de álcool e outras drogas; oferecer tratamento digno e qualificado a pessoas em conflito com a lei, superando o modelo centrado no Manicômio Judiciário; entre outros (Barros; Salles, 2011 apud Brasil, 2011).
Esse modelo assistencial em saúde mental preconiza o distanciamento do modelo biomédico tradicional ao adotar uma abordagem humanizada e comunitária. Por consequência do princípio da PNSM referente à integração da saúde mental à Atenção Básica, a implementação de ações voltadas à saúde mental na Atenção Primária à Saúde (APS) logra fortalecer essa mudança de assistência, ampliando o acesso aos cuidados e promovendo a reabilitação psicossocial de forma mais efetiva (Botti; Andrade, 2008 apud Brasil, 2003).
A atenção psicossocial objetiva a promoção da cidadania e autonomia de pessoas com transtornos mentais, ao realizar as ações no território em que vivem. Nesse processo, as equipes da APS são essenciais para fornecer cuidado próximo à rede familiar, social e cultural, respeitando os direitos e necessidades de cada usuário (Minozzo et al., 2012 apud Brasil, 2005). O cuidado em saúde mental não é algo distante ou exclusivo de um trabalho especializado; pelo contrário, ele surge da realidade cotidiana da APS, respeitando as individualidades dos pacientes e das comunidades do território (Brasil, 2013).
A Política Nacional de Atenção Básica (PNAB) de 2017 (BRASIL, 2017) define a APS como a principal porta de entrada e centro de comunicação da Rede de Atenção à Saúde – RAS e, tornando-se, o eixo que organiza o cuidado dentro da rede de saúde. Esse nível de atenção não só assegura o acompanhamento contínuo dos usuários, como também mantém uma ligação direta com o território e a comunidade. Baseada em princípios como universalidade, equidade e integralidade, a APS busca oferecer um atendimento completo, próximo e centrado nas necessidades do cidadão, considerando a pessoa em sua singularidade e inserção sociocultural, buscando produzir a atenção integral e incorporar as ações de vigilância em saúde (Brasil, 2017).
Segundo a PNAB de 2017, as Unidades Básicas de Saúde (UBS) organizam seus processos de trabalho por meio de diferentes equipes multiprofissionais, sendo as equipes previstas a Equipe de Saúde da Família (eSF), a Equipe de Atenção Básica (eAB) e a Equipe de Saúde Bucal (eSB), além de outras modalidades específicas. A recente Portaria GM/MS Nº 635, de 22 de maio de 2023, institui a implementação das equipes Multiprofissionais (eMulti) na APS. Estas, são equipes formadas por profissionais de diferentes áreas do conhecimento e categorias profissionais, que trabalham de forma complementar e integrada às demais equipes da APS, com atuação compartilhada e corresponsável pelo cuidado da população e do território, responsabilizando-se, também, pela articulação com outros setores e com a RAS (Brasil, 2023).
As eMulti foram definidas em três modalidades para a oferta de suporte especializado às demais Equipes de Saúde no contexto da APS: Ampliada, vinculada ao máximo 12 (doze), equipes; complementar, vinculadas à no máximo 9 (nove) equipes, ou Estratégica, vinculadas à no máximo 4 (quatro) equipes. Dentre as atividades que podem ser desenvolvidas pelas eMulti, destacam-se os atendimentos individuais, coletivos e domiciliares, grupos terapêuticos, apoio matricial, discussão de casos, atendimentos compartilhados entre profissionais e equipes, elaboração de projetos terapêuticos e intervenções no território.
A eMulti, ao realizar suas ações e atendimentos, em sintonia com princípios e diretrizes da PNAB, articulando-se com as equipes de saúde e dispositivos do território e da RAS, amplia o leque de práticas em saúde no território e oferta um cuidado integral para a comunidade, melhorando o acompanhamento em saúde dos usuários e a resolubilidade do SUS.
Neste contexto, as atividades coletivas de caráter terapêutico desenvolvidas na APS oferecem uma oportunidade única de apoio coletivo, oferecendo benefícios tanto para os participantes quanto para os profissionais envolvidos. As atividades coletivas não apenas ajudam a reduzir a demanda de atendimentos individuais, mas também criam um ambiente acolhedor onde o profissional pode observar com mais sensibilidade às necessidades específicas dos participantes e do coletivo. Dessa forma, é possível realizar ações voltadas à promoção da saúde e à prevenção de agravos à saúde, algo que, muitas vezes, é mais laborioso no formato individual devido às limitações de tempo e de profissionais (Brunozi et al., 2019). Estas ações coletivas podem ser diversificadas, incluindo os diferentes núcleos de saber profissional que compõem as equipes de saúde, valorizando o que o território apresenta como demanda.
Atividades que envolvem exercícios físicos, no formato coletivo, estimulam a socialização e apresentam potencial para a promoção da reabilitação psicossocial.
As práticas corporais/atividades físicas podem ser realizadas em grupos, outras atividades na APS também devem ser estimuladas a serem praticadas em grupos, pois o grupo tem um papel fundamental de estimular e possibilitar a socialização e o convívio em sociedade para os idosos. Estimular “estilos de vida saudáveis” na população idosa possibilita um envelhecer com melhor qualidade de vida (Schultz, 2023, p.15).
É vultoso destacar que o exercício físico deve ser planejado, estruturado e repetitivo para alcançar o objetivo de melhorar ou manter as capacidades físicas, a saúde e, por conseguinte, a qualidade de vida. (Brasil, 2021). O estímulo à prática do exercício físico no SUS possui a finalidade de promover ações tanto preventivas, quanto curativas, sejam individuais e/ou coletivas em todos os seus níveis. Na perspectiva da reforma psiquiátrica, o exercício físico é terapêutico na reabilitação psicossocial em casos de transtornos psiquiátricos graves, na prevenção de novas crises e no adoecimento do indivíduo (Melo et al., 2014 apud Roeder, 2003).
Este estudo parte da hipótese de que os exercícios físicos promovidos no contexto dos grupos terapêuticos na APS podem ser uma estratégia de promoção de saúde mental e prevenção de danos à saúde física e mental quando associadas a estratégias de educação em saúde, estimulação cognitiva e intervenções biopsicossociais. Tais ofertas podem constituir-se em uma ferramenta inestimável no acompanhamento de indivíduos que enfrentam sofrimento psíquico ou transtornos mentais na Atenção Primária à Saúde. Nesse contexto, formulou-se a seguinte questão norteadora para o relato de experiência: quais benefícios uma atividade coletiva desenvolvida em formato de grupo na Atenção Primária à Saúde, que integra exercícios físicos e práticas para a promoção da saúde mental, proporciona aos seus participantes?
Assim, a presente pesquisa é suscitada a partir da experiência proporcionada pelo processo de formação da Residência Multiprofissional em Saúde Mental, da Escola de Saúde Pública do Distrito Federal, no cenário de prática de uma UBS, por meio de uma atividade coletiva desenvolvida por meio de um grupo de caráter terapêutico denominado “Grupo Movimente-se”.
2. METODOLOGIA
Trata-se de um relato de experiência, apoiado em uma pesquisa bibliográfica. O relato se restringe às experiências de Profissionais de Saúde Residentes (PSR) do Programa de Residência Multiprofissional em Saúde Mental do Adulto (PRMSMA) em um grupo de atividades coletivas , o “Grupo Movimente-se”, desenvolvido por profissionais da eMulti, com usuários em acompanhamento em uma Unidade Básica de Saúde do município de Brasília-DF. A UBS é cenário de prática do PRMSMA vinculado à Escola de Saúde Pública do Distrito Federal (ESP-DF), sendo uma modalidade de ensino de pós-graduação lato sensu, direcionada para a educação em serviço.
A experiência relatada ocorreu ao longo do ano de 2024, por meio da participação e observação dos encontros semanais, de aproximadamente uma hora e meia de duração. As reflexões que fundamentam a descrição emergiram das observações feitas no cenário, acerca das experiências cotidianas no contexto das atividades do grupo.
A UBS em questão é caracterizada como UBS tipo II e constitui referência de atendimento para a população adstrita de um município de Brasília, sendo responsável por um território de aproximadamente 42.378 de pessoas, conforme o relatório final de 2020 do Grupo de Trabalho de Territorialização da Região Central. Assim, a unidade de saúde possui cinco Equipes da Saúde da Família (eSF), e uma equipe Multiprofissional (eMulti) composta por assistente social, farmacêutico, fisioterapeuta, nutricionista e psicólogo, e duas equipes de Saúde Bucal (eSB). Os profissionais envolvidos no relato realizaram suas atividades como PSR na eMulti da UBS e os usuários do serviço estão vinculados às respectivas ESF conforme a área de abrangência territorial de cada equipe.
A inserção dos usuários no grupo ocorreu mediante encaminhamentos das equipes de saúde (eSF, eMulti e eSB), após avaliação das demandas identificadas pelos profissionais responsáveis. O grupo Movimente-se foi idealizado e conduzido pela fisioterapeuta e pela assistente social da eMulti. Suas atividades acontecem semanalmente, às sextas-feiras, no turno matutino, e sua organização sofreu adaptações ao longo do tempo, especialmente após a participação dos PSR em saúde mental.
Inicialmente, o grupo tinha como objetivo a promoção da saúde por meio de atividades físicas, incluindo exercícios de equilíbrio, coordenação motora, fortalecimento muscular, condicionamento cardiorrespiratório, alongamentos e correção postural, além de dinâmicas de socialização e rodas de conversa. Embora estruturado como grupo aberto à comunidade, a maioria dos participantes é composta por pessoas idosas acompanhadas pela UBS, com média de 20 participantes por encontro.
Com a inserção dos PSR em saúde mental, houve ajustes da dinâmica dos encontros, que passaram a ser estruturados em 90 minutos, sendo os primeiros 10 minutos destinados à aferição dos sinais vitais e aplicação da A escala de percepção de esforço de Borg, os 30 minutos seguintes dedicados à saúde mental e os 50 minutos restantes, aos exercícios físicos. No momento dedicado à saúde mental foram incorporadas práticas de estimulação cognitiva, dinâmicas grupais, atividades de educação em saúde e outras estratégias previamente utilizadas, buscando promover a integração entre corpo e mente no processo terapêutico.
Dessa forma, este estudo tem como objetivo descrever, por meio de um relato de experiência, as vivências dos PSR em saúde mental do adulto na condução do grupo Movimente-se, que articula práticas de saúde mental e exercício físico.
3. RESULTADOS E DISCUSSÃO
Os grupos conduzidos por profissionais da Atenção Primária à Saúde (APS) podem ser sistematizados em diferentes contextos, com objetivos terapêuticos diversos, que orientam a escolha das temáticas a partir da identificação das demandas e necessidades do território. A noção de território desempenha um papel fundamental na implementação de atividades coletivas na UBS, como orientador das ações de todos os seus serviços:
O território é a designação não apenas de uma área geográfica, mas das pessoas, das instituições, das redes e dos cenários nos quais se dá a vida comunitária. Assim, trabalhar no território não equivale a trabalhar na comunidade, mas a trabalhar com os componentes, saberes e forças concretas da comunidade que propõem soluções, apresentam demandas e que podem construir objetivos comuns (Brasil, 2005, p.26).
Com base nisso, pensar em ações que considerem o território como um espaço dinâmico, vivo e constitutivo dos sujeitos, torna-se fundamental reconhecer as diferentes lógicas que o atravessam, bem como seus recursos, potencialidades e fragilidades. Nesse sentido, as características do território e o perfil dos usuários foram observadas a partir do padrão de uso dos serviços da UBS. No caso do grupo Movimente-se, identificou-se que a maior parte dos participantes é composta por pessoas com idade superior a 65 anos e que muitos deles realizavam atividades físicas exclusivamente na unidade de saúde.
Sendo assim, a estrutura dos encontros foi organizada considerando esse perfil, integrando exercícios corporais adequados à faixa etária dos participantes, com atividades voltadas à promoção da saúde mental. Com a inserção dos PSR no grupo, o espaço dedicado aos participantes para compartilhamento de experiências e trocas foi impulsionado com os exercícios de estimulação cognitiva.
A experiência da implementação de práticas de exercício físico e saúde mental
A formação do grupo Movimente-se configurou-se como uma estratégia potente de cuidado integral na APS, ao articular exercícios corporais e intervenções voltadas à saúde mental em um mesmo espaço coletivo. A partir disso, os encontros passaram a ocorrer às sextas-feiras, no período matutino, considerando tanto os profissionais condutores na escala do serviço quanto o clima mais ameno, que favorecia a realização de exercícios físicos. Para cada encontro, o espaço destinado à promoção da saúde mental foi planejado com metodologias interativas e comunicativas, que possibilitaram a estimulação cognitiva e a criação de um ambiente de acolhimento e fortalecimento de vínculo entre os participantes.
Posteriormente, eram direcionados para a etapa de exercícios físicos, estruturada e conduzida pelas profissionais da eMulti, com o apoio dos PSR com esta sequência:
- Os pacientes foram recebidos, no espaço físico destinado ao grupo Movimente-se da UBS, pelas profissionais, para aferição dos sinais vitais (pressão arterial (PA), saturação e frequência cardíaca) e aplicação da escala de percepção de esforço de Borg que visava analisar como os indivíduos percebiam a sensação de dispneia antes da prática de exercício físico. Vale ressaltar que os participantes que apresentaram PA elevada foram dispensados dos exercícios físicos, ficando apenas para as dinâmicas de promoção de saúde mental;
- Após a recepção/triagem inicial dos participantes do grupo, foram convidados a participar da dinâmica proposta para o dia, elaborada pelos residentes e discutidas previamente com as preceptoras, focada na promoção da saúde mental. Neste momento foram observados os diálogos estabelecidos com os participantes, os quais contribuíram para a constituição do conteúdo deste Relato de Experiência;
- Em seguida, os participantes foram direcionados à execução das atividades físicas propostas que se alternavam a cada encontro em exercícios de força e fortalecimento muscular, exercícios cardiorrespiratórios e circuito multissensorial;
- Ao final da atividade, foi realizada novamente a aferição dos sinais vitais e a aplicação da A escala de percepção de esforço de Borg a fim de avaliar como os indivíduos identificaram a dispneia após a prática dos exercícios físicos.
As atividades do grupo incluíram:
- Exercícios físicos, voltados para a aptidão cardiorrespiratória, força muscular (pesos), flexibilidade, equilíbrio alongamentos e correção postural (circuito);
- Educação em saúde, abordando temas relativos à promoção da saúde e prevenção de Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNTs);
- Estimulação cognitiva, visando fortalecer as funções cognitivas;
- Promoção da saúde mental, por meio da valorização da cultura local e do incentivo à socialização (perguntas direcionadas, dinâmica de memória, espaço de falas com temas).
A organização dos exercícios físicos seguiu um ciclo de três semanas, que eram retomados ao fim de cada bloco. Na primeira semana, foram realizados exercícios voltados ao desenvolvimento da aptidão cardiorrespiratória; na segunda semana, as atividades foram orientadas para o fortalecimento da força muscular; e na terceira semana, foram direcionadas à flexibilidade e ao equilíbrio, contemplando as diferentes dimensões físicas.
Os exercícios voltados à melhoria da aptidão cardiorrespiratória eram realizados no Ponto de Encontro Comunitário (PEC), espaço que conta com equipamentos de academia pública e que está localizado na parte posterior da unidade de saúde ou caminhadas pelo território da UBS. Os exercícios tinham como objetivo estimular a resistência cardiorrespiratória, caracterizando-se pelo aumento da frequência cardíaca e respiratória durante a execução.
Segundo Almeida (2019) a realização de exercícios de aptidão cardiorrespiratória possibilita a manutenção e desenvolvimento da saúde do sistema cardiovascular, relaciona-se com a capacidade do indivíduo em realizar exercícios físicos dinâmicos, de duração prolongada, em intensidade moderada a rigorosa. Além disso, tais exercícios favorecem a integração funcional e fisiológica dos sistemas respiratório, cardiovascular e musculoesquelético.
Os exercícios para o fortalecimento muscular eram desenvolvidos na tenda, espaço localizado dentro da UBS e os equipamentos disponibilizados pela mesma. Estes exercícios estimulam a força, resistência e volume dos músculos, por meio dos movimentos com peso corporal como agachamentos, flexões e pranchas e exercícios com equipamentos como levantamento terra e supino (Almeida, 2019). Para melhorar a capacidade de equilíbrio e flexibilidade e correção postural, os exercícios foram distribuídos entre estimulação dos sistemas sensoriais e a sua capacidade de atenção durante o movimento, desenvolvimento da força muscular e o aumento da exigibilidade do tornozelo e da anca.
No momento destinado à promoção da saúde mental, somado às dinâmicas de convivência, educação em saúde e estimulação cognitiva desenvolvidas no grupo, observou-se um espaço relevante para ampliar a socialização e fortalecer vínculos entre os participantes. As atividades voltadas à educação em saúde abrangeram diferentes temáticas ao longo dos encontros. No primeiro momento, foram trabalhados os cuidados gerais com a saúde mental, atividades e/ou dinâmicas de ambientação e acolhimento. Em seguida, temas como higiene do sono, Gestão Autônoma da Medicação (GAM), sempre orientados pelos princípios da PNSM, que defendem o cuidado em liberdade, a corresponsabilização do usuário, a valorização de sua autonomia e a construção de práticas que rompam com modelos excludentes e hospitalocêntricos.
Segundo Ruiz, Lima e Machado (2004, p. 192), a educação em saúde é uma prática que busca fortalecer o conhecimento das pessoas, para que possam desenvolver senso crítico, capacidade de reflexão e de agir sobre a própria vida e o ambiente onde vivem. Assim, cria condições para que se sintam donas da própria história. Nesse contexto, a educação em saúde, no grupo, desempenhou um papel fundamental, proporcionando o acesso à informação e a troca de experiências, contribuindo para a prevenção e a promoção da saúde. As práticas educativas possuíam como princípio fomentar vivências que facilitassem a elaboração de ações que melhorassem as condições de vida e promovessem saúde aos usuários do serviço. Sendo assim, cabe enfatizar a importância das habilidades individuais e da participação coletiva, tendo como intuito o fortalecimento da autonomia dos usuários, considerando os fatores econômicos, políticos e sociais, e assim possibilitando mudanças nas práticas de saúde.
Dessa forma, cada encontro buscou fortalecer a participação ativa dos usuários no próprio processo de cuidado, promover protagonismo e incentivar práticas que reforçassem a cidadania, o convívio comunitário e a redução de estigmas de pessoas em sofrimento psíquico.
Considerando a concepção de saúde que inclui os fatores determinantes e condicionantes da saúde conforme prevista no artigo 3º da Lei nº 8.080/1990, abrangem comportamentos individuais, condições de vida da população e as estruturas econômicas e sociais, foram desenvolvidas, no espaço destinado às práticas de saúde mental, ações educativas relacionadas à insônia, higiene do sono, técnicas de relaxamento para aliviar ansiedade, comunicação não violenta e Gestão Autônoma da Medicação (GAM). Esses temas foram abordados por meio de rodas de conversa buscando a construção de vínculos e redes de apoio, promovendo o diálogo, a troca de experiências e a convivência entre os participantes.
A abordagem da GAM se mostrou importante, pois favoreceu o desenvolvimento da autonomia e do empoderamento dos usuários, ao promover a socialização de informações relacionadas às opções de tratamento e aos seus direitos (Santos et al., 2020). Explicamos aos participantes a importância de se colocarem no centro do próprio tratamento farmacológico, refletindo sobre sua relação com os medicamentos e com os profissionais que os prescrevem. Essa discussão buscou promover autonomia, diálogo e corresponsabilização, contribuindo para o bem-estar e melhoria da qualidade de vida dos participantes.
As práticas de estimulação cognitiva foram desenvolvidas por meio de dinâmicas diversas. Em uma das atividades, os participantes foram organizados em círculo e utilizada uma caixa contendo perguntas de raciocínio lógico simples, que era passada de mão em mão enquanto uma música tocava. Quando a música era interrompida, aquele que estivesse com a caixa retirava uma pergunta e a respondia. Essa proposta estimulou a participação ativa, a agilidade mental e o pensamento crítico dos participantes. Ressalta-se a relevância da continuidade das práticas de estimulação, visando preservar as funções cognitivas preservadas e promover a reabilitação daquelas que já demonstram algum nível de comprometimento (Mariano et al., 2020).
A oficina de desenho e coordenação motora foi realizada como atividade prática para estimular a coordenação motora, criatividade e expressividade.
Em outro encontro, imagens relacionadas aos mitos e verdades populares brasileiras foram distribuídas aos participantes, a fim de promover a valorização dos saberes populares. Cada pessoa recebia uma pergunta e tentava responder. Caso não soubesse, a resposta era aberta ao grupo, promovendo interação social, memória cultural e interpretação visual. Em ambas as dinâmicas, quando algum participante não conseguia responder, a atividade era estendida ao coletivo, favorecendo a colaboração, o compartilhamento de conhecimentos e um ambiente de aprendizagem inclusivo.
Dentre as reflexões sobre o resultado da experiência do grupo foram destacadas algumas estratégias eficazes desenvolvidas tanto no bem-estar físico quanto no mental. No que se refere à saúde mental, o espaço de socialização mostrou-se um fator central, que possibilitaram a criação de um ambiente de acolhimento e fortalecimento dos vínculos.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A experiência nos aponta que a integração de exercícios físicos, estimulação cognitiva e momentos de interação social, promove a melhora da qualidade de vida das pessoas. Quando integradas à rotina de um grupo terapêutico, no âmbito da APS, fortalecem o processo de resgate da saúde física, mental e de uma vida mais ativa e saudável, na medida que estimulam os vínculos entre usuários e equipes, ampliam as estratégias de cuidado integral e humanizado e valorizam a cultura local.
O grupo demonstra a relevância da articulação entre atividade física, promoção da saúde mental e convivência comunitária, como estratégias de cuidado para o bem-estar dos usuários no território em que vivem e/ou trabalham. Além disso, reforça a importância do desenvolvimento de competências clínicas, relacionais e interdisciplinares, essenciais para uma prática mais sensível, crítica e comprometida com as necessidades da população. De modo que, contribui para a capacitação das equipes da APS, possibilitando ferramentas práticas para manejo de demandas de saúde mental.
Espera-se que experiências como esta sejam cada vez mais incentivadas e sistematizadas ao cotidiano da APS, contribuindo tanto para a qualificação do cuidado em saúde mental quanto para a formação de profissionais para atuar de forma integral. Assim, os resultados aqui apresentados podem subsidiar intervenções mais efetivas e alinhadas ao território, fortalecendo a APS como espaço estratégico de promoção da saúde, prevenção de agravos e cuidado contínuo.
REFERÊNCIAS
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1Assistente Social residente do Programa de Residência Multiprofissional em Saúde Mental do Adulto da ESPDF/FEPECS/SES-DF.
2Enfermeira residente do Programa de Residência Multiprofissional em Saúde Mental do Adulto da ESPDF/FEPECS/SES-DF
3Assistente Social preceptora do Programa de Residência Multiprofissional em Saúde Mental do Adulto da ESPDF/FEPECS/SES-DF. Mestre em Política Social pela Universidade de Brasília – UnB
4Fisioterapeuta preceptora do Programa de Residência Multiprofissional em Saúde Mental do Adulto da ESPDF/FEPECS/SES-DF. Especialista em Fisioterapia Pneumofuncional pela Universidade de Brasília – UnB
