FISIOTERAPIA COMO ESTRATÉGIA INTEGRADA NO CUIDADO A TRANSTORNOS ANSIOSOS E DEPRESSIVOS: REVISÃO CRÍTICA DA PRODUÇÃO CIENTÍFICA E DESAFIOS NA ATENÇÃO PSICOSSOCIAL

PHYSICAL THERAPY AS AN INTEGRATED STRATEGY IN THE CARE OF ANXIETY AND DEPRESSIVE DISORDERS: A CRITICAL REVIEW OF SCIENTIFIC PRODUCTION AND CHALLENGES IN PSYCHOSOCIAL CARE

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202511301317


Raiane Silva do Carmo¹
Orientador: Wellinton da Silva e Silva²


Resumo 

Introdução: Os transtornos ansiosos e depressivos configuram um importante desafio de saúde pública e demandam abordagens integrativas capazes de promover cuidado ampliado; nesse cenário, a fisioterapia tem se destacado por seus efeitos sobre o corpo, a regulação emocional e o bem-estar. Metodologia: O estudo consiste em uma revisão bibliográfica crítica realizada nas bases SciELO, PubMed, LILACS e Google Scholar, incluindo artigos publicados entre 2015 e 2025 que abordam intervenções fisioterapêuticas aplicadas à ansiedade e depressão. Resultados: As evidências apontam que exercícios físicos supervisionados, técnicas de respiração diafragmática, relaxamento progressivo, pilates terapêutico e práticas de consciência corporal reduzem significativamente sintomas ansiosos e depressivos, melhoram a qualidade de vida e fortalecem o vínculo terapêutico; entretanto, ainda há baixa inserção de fisioterapeutas na saúde mental e lacunas formativas. Conclusão: Conclui-se que a fisioterapia é uma estratégia eficaz e essencial no cuidado interdisciplinar em saúde mental, embora sua consolidação dependa de maior reconhecimento institucional, criação de protocolos específicos e fortalecimento da atuação na Rede de Atenção Psicossocial. 

Palavras-chave: fisioterapia; saúde mental; ansiedade; depressão; atenção psicossocial. 

Abstract 

Introduction: Anxiety and depressive disorders represent a major global public health challenge, requiring integrative approaches capable of promoting comprehensive and humanized care; in this context, physiotherapy has shown significant effects on bodily regulation, emotional balance and overall well-being. Methodology: This study is a critical literature review conducted in the SciELO, PubMed, LILACS and Google Scholar databases, including articles published between 2015 and 2025 addressing physiotherapeutic interventions applied to anxiety and depression. Results: The evidence demonstrates that supervised physical exercise, diaphragmatic breathing, progressive relaxation, therapeutic Pilates and body awareness techniques significantly reduce anxiety and depressive symptoms, improve quality of life, regulate stress responses and strengthen the therapeutic bond; however, the presence of physiotherapists in mental health services remains limited, and gaps in professional training persist. Conclusion: It is concluded that physiotherapy is an effective and essential strategy in interdisciplinary mental health care, although its consolidation depends on greater institutional recognition, the development of specific clinical protocols and the strengthening of its role within the Psychosocial Care Network.

Keywords: physiotherapy; mental health; anxiety; depression; psychosocial care.

1. INTRODUÇÃO 

Nas últimas décadas, a saúde mental emergiu como uma das problemáticas mais complexas e desafiadoras do campo das políticas públicas em escala global. A Organização Mundial da Saúde (WHO, 2023) aponta que mais de 300 milhões de pessoas vivem com depressão, enquanto cerca de 264 milhões sofrem com transtornos de ansiedade, configurando um cenário alarmante de sofrimento psíquico que atravessa fronteiras sociais, econômicas e culturais. No Brasil, essa realidade se agrava diante das desigualdades históricas de acesso aos serviços de saúde e da persistência do estigma social que recai sobre o adoecimento mental (PAVAN et al., 2021), exigindo estratégias interdisciplinares e sustentadas por abordagens terapêuticas integradas. 

Em consonância com essa demanda, a fisioterapia tradicionalmente associada à reabilitação física, tem expandido suas fronteiras epistemológicas e práticas, posicionando-se como um campo promissor no cuidado em saúde mental. Estudos recentes demonstram que as intervenções fisioterapêuticas, particularmente aquelas fundamentadas em exercícios terapêuticos, técnicas de respiração, relaxamento, consciência corporal e terapias manuais, podem contribuir significativamente para a redução dos sintomas associados à ansiedade e à depressão, bem como para a promoção da autorregulação emocional, da funcionalidade global e da qualidade de vida dos sujeitos acometidos por tais transtornos (SILVA et al., 2019; TRINDADE; SOUZA; BRAGA, 2022). 

Esse alargamento do escopo da fisioterapia exige não apenas um reposicionamento teórico do corpo enquanto território do sofrimento e da linguagem do sujeito (BESSA; FOUCAULT, 2016), mas também uma revisão crítica das práticas de cuidado, historicamente centradas na dissociação mente-corpo. A emergência de abordagens terapêuticas que integram corporeidade, subjetividade e contexto sociocultural inaugura uma nova ética do cuidado, baseada na integralidade, na escuta ativa e na potência do corpo como mediador de transformações psíquicas (BARBOSA; SILVA, 2017). Tal perspectiva é particularmente relevante no contexto da Atenção Psicossocial, onde se evidencia a importância de dispositivos clínicos que acolham a complexidade da experiência humana para além dos paradigmas biomédicos tradicionais. 

A revisão integrativa da literatura, realizada entre 2015 e 2025 nas bases SciELO, PubMed, LILACS e Google Scholar, evidenciou que a fisioterapia vem se consolidando como importante estratégia complementar no cuidado a indivíduos com transtornos ansiosos e depressivos. Os estudos analisados, predominantemente revisões sistemáticas, ensaios clínicos e pesquisas observacionais, destacam intervenções como exercícios físicos supervisionados, técnicas de respiração diafragmática, relaxamento progressivo e pilates terapêutico, todas associadas à melhora da qualidade de vida e à redução significativa de sintomas psíquicos. 

As evidências apontam ainda para o papel essencial do vínculo terapêutico e da escuta corporal no processo de reabilitação emocional, ao passo que revelam lacunas na inserção institucional da fisioterapia nos serviços públicos de saúde mental. Esses achados reforçam a necessidade de ampliar a atuação interdisciplinar e a valorização da fisioterapia como prática integrativa e humanizada no contexto da atenção psicossocial. 

Nesse sentido, este artigo busca justamente reforçar a compreensão de que a fisioterapia, quando compreendida como prática interdisciplinar e integrativa, é capaz de contribuir não apenas com técnicas e exercícios, mas também com o fortalecimento do vínculo terapêutico, a valorização da escuta corporal e a promoção do protagonismo dos sujeitos em sofrimento. Trata-se, portanto, de um campo de atuação que ainda carece de maior visibilidade científica, legitimidade política e valorização nas políticas públicas de saúde. 

Diante desse cenário, o presente artigo tem como objetivo analisar, por meio de uma revisão bibliográfica crítica, as contribuições da fisioterapia no cuidado de pessoas com transtornos ansiosos e depressivos, buscando identificar as estratégias terapêuticas mais recorrentes e discutir seus impactos clínicos e simbólicos. A pergunta que orienta esta investigação é: como as intervenções fisioterapêuticas têm contribuído para o cuidado integral de sujeitos com transtornos de ansiedade e depressão, e de que modo essas práticas podem ser integradas às ações interdisciplinares em saúde mental? 

2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA 

2.1 Saúde mental na contemporaneidade: entre sofrimento psíquico e cuidado integral 

A saúde mental, historicamente marginalizada no campo das políticas públicas, tem assumido centralidade nos debates sobre bem-estar biopsicossocial, sobretudo diante do crescente número de pessoas acometidas por transtornos mentais em contextos de desigualdade estrutural, precarização da vida e isolamento social. A Organização Mundial da Saúde (WHO, 2023) define saúde mental não apenas como a ausência de transtornos, mas como um estado de bem-estar no qual o indivíduo é capaz de lidar com os estresses da vida, trabalhar de forma produtiva e contribuir para sua comunidade. Essa concepção amplia a compreensão do sofrimento psíquico como fenômeno multifatorial, atravessado por dimensões biológicas, afetivas, sociais e políticas. 

No Brasil, Pavan et al. (2021) apontam para a prevalência alarmante de transtornos mentais comuns, com destaque para os transtornos ansiosos e depressivos, que afetam principalmente mulheres, populações periféricas e sujeitos em condições de vulnerabilidade social. Essa configuração demanda um modelo de atenção psicossocial que rompa com a lógica hospitalocêntrica e patologizante, defendendo uma abordagem territorializada, interdisciplinar e centrada no cuidado em liberdade, como preconiza a Reforma Psiquiátrica brasileira e a Política Nacional de Saúde Mental. 

2.2 Transtornos ansiosos e depressivos: complexidade clínica e impactos psicossociais 

Os transtornos ansiosos e depressivos figuram entre as principais causas de afastamento do trabalho, comprometimento das relações sociais e perda de qualidade de vida (WHO, 2023). Clinicamente, os transtornos de ansiedade caracterizam-se por respostas desproporcionais a estímulos percebidos como ameaçadores, incluindo sintomas como taquicardia, sudorese, tensão muscular, agitação psicomotora e hipervigilância. A depressão, por sua vez, é marcada por rebaixamento do humor, anedonia, fadiga crônica, distúrbios do sono e sentimentos de inutilidade ou culpa persistente (SILVA et al., 2019). 

Ambas as condições compartilham um substrato psicofisiológico comum, envolvendo alterações no eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, disfunções autonômicas e padrões de respiração desorganizados, fatores que reforçam a pertinência de intervenções que atuem sobre o corpo como mediador do sofrimento psíquico (TRINDADE; SOUZA; BRAGA, 2022). Nesse sentido, a atuação da fisioterapia apresenta-se como alternativa complementar e integrativa, sobretudo por suas abordagens que mobilizam o sistema nervoso autônomo, reduzem o estresse e promovem estados de relaxamento profundo. 

2.3 A fisioterapia como estratégia de cuidado em saúde mental 

A inserção da fisioterapia no campo da saúde mental requer uma reconfiguração epistemológica da profissão, que tradicionalmente concentrou-se na dimensão biomecânica do corpo. Conforme Aguiar et al. (2023), a atuação fisioterapêutica em contextos psicossociais implica o reconhecimento do corpo enquanto território simbólico, relacional e afetivo, cujos movimentos, posturas e tensões expressam narrativas silenciadas e traumas não verbalizados. 

A literatura evidencia que técnicas como a cinesioterapia, o relaxamento progressivo, os exercícios respiratórios e práticas somáticas como o método de Pilates terapêutico ou o body awareness therapy (BAT) têm demonstrado eficácia no manejo de sintomas ansiosos e depressivos, contribuindo para a melhoria do padrão respiratório, da propriocepção, do tônus muscular e do estado de alerta (CRUZ, 2019). Além disso, tais práticas estimulam a autonomia, a escuta do corpo e o autocuidado, elementos centrais para a reintegração subjetiva do sujeito em sofrimento. 

Barbosa e Silva (2017) defendem que o cuidado fisioterapêutico, quando praticado a partir de uma escuta sensível e de uma ética da corporeidade, transcende a função restauradora para tornar-se espaço de acolhimento, reconstrução de vínculos e ressignificação da experiência do adoecimento. Trata-se de uma abordagem que aproxima a fisioterapia das práticas integrativas e complementares em saúde, alinhando-se às diretrizes do SUS e ao paradigma ampliado de cuidado. 

2.4 Práticas integrativas e fisioterapia: contribuições da PNPIC 

A inclusão da fisioterapia no campo da saúde mental também se fortalece por meio de seu diálogo com as práticas integrativas e complementares (PICs), reconhecidas institucionalmente pela Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares no SUS (PNPIC), instituída pela Portaria nº 971/2006. Essa política pública impulsionou a valorização de abordagens que compreendem o ser humano em sua integralidade, legitimando o uso de recursos terapêuticos como meditação, yoga, reiki, técnicas de respiração e práticas corporais que atuam nos campos físico, emocional, energético e simbólico (BRASIL, 2006). 

Dentro desse escopo, a fisioterapia ocupa lugar estratégico por sua capacidade de operacionalizar intervenções que integram movimento, respiração, consciência corporal e relaxamento. Carvalho (2020) destaca que técnicas fisioterapêuticas voltadas à saúde mental podem ser entendidas como práticas integrativas, uma vez que favorecem a autorregulação emocional, o autoconhecimento e o reequilíbrio psicofisiológico dos indivíduos. O campo da saúde mental exige, portanto, uma abordagem que vá além da biomecânica, incorporando saberes do cuidado, da escuta e do vínculo terapêutico. 

Essa perspectiva é especialmente relevante para o atendimento em territórios de vulnerabilidade, onde as PICs têm se mostrado eficazes na promoção do cuidado ampliado, do autocuidado e da autonomia dos sujeitos. A fisioterapia, nesse sentido, contribui tanto na reabilitação quanto na prevenção de recaídas em quadros ansiosos e depressivos, especialmente quando associada a estratégias coletivas de promoção da saúde. Tal atuação dialoga com os princípios da integralidade e da humanização do SUS, rompendo com a lógica puramente curativa e tecnicista dos modelos convencionais. 

2.5 Interfaces entre fisioterapia e psicologia: o corpo como território terapêutico 

Outro eixo relevante para a compreensão da fisioterapia em saúde mental diz respeito às suas interfaces com a psicologia e os estudos do corpo. O corpo, longe de ser um mero suporte biológico, constitui-se como território de significações, afetos e memórias. A fenomenologia de Merleau-Ponty (1999) sustenta que o corpo é a base da experiência no mundo, sendo simultaneamente sujeito e objeto da percepção, e, portanto, dimensão fundante do existir. 

Nesse sentido, a fisioterapia pode ser compreendida como mediadora de processos subjetivos, sobretudo quando orientada por princípios da escuta sensível e da percepção corporal. As técnicas que promovem a consciência do movimento, a respiração e o toque terapêutico possibilitam ao indivíduo reconhecer tensões acumuladas, liberar conteúdos emocionais reprimidos e ressignificar sensações vinculadas ao sofrimento psíquico. 

A interface com a psicologia corporal, como mostram Lowen (1977) e Reich (1973), sustenta que os estados emocionais reprimidos tendem a se manifestar em rigidez muscular, alterações posturais e bloqueios respiratórios. A atuação do fisioterapeuta, ao intervir nesses padrões, contribui diretamente para a reorganização da autoimagem, a regulação afetiva e a reintegração psicocorporal. Essa abordagem holística, portanto, desafia as fronteiras disciplinares e reforça a necessidade de uma prática clínica interdisciplinar, que valorize o corpo como campo de subjetividade e expressão. 

3. METODOLOGIA 

Este artigo constitui-se como uma pesquisa qualitativa, de natureza exploratória e abordagem bibliográfica, voltada à análise crítica da atuação fisioterapêutica no cuidado a pessoas acometidas por transtornos ansiosos e depressivos. A escolha por esse delineamento metodológico fundamenta-se na compreensão de que os fenômenos relacionados à saúde mental e à prática fisioterapêutica demandam interpretações que ultrapassam os limites da quantificação, exigindo aproximação sensível e compreensiva dos sentidos, discursos e práticas que os conformam. Nesse contexto, adota-se como base epistemológica a perspectiva crítico-interpretativa, a qual entende o conhecimento científico como construção social e historicamente situada, atravessada por disputas ideológicas e pela complexidade das relações entre saber e poder (MINAYO, 2022). 

A pesquisa bibliográfica, segundo Lakatos e Marconi (2017), consiste no levantamento, análise e sistematização de materiais previamente publicados, com vistas a identificar lacunas, consolidar aportes teóricos e ampliar a compreensão sobre determinado objeto. Assim, o presente estudo realizou uma busca criteriosa em bases de dados acadêmicas amplamente reconhecidas, como SciELO, LILACS, PubMed e Google Scholar, no período de março a maio de 2025. A seleção dos descritores foi realizada com base na estratégia PICO adaptada ao escopo bibliográfico, utilizando-se os termos “fisioterapia e saúde mental”, “transtornos ansiosos”, “transtornos depressivos”, “physical therapy and mental health”, “anxiety disorders”, “depression and physiotherapy”, entre outros. 

Foram incluídos no corpus da pesquisa artigos publicados entre 2015 e 2025, disponíveis em português, inglês e espanhol, com acesso aberto e revisão por pares, que abordassem de modo direto ou indireto a atuação da fisioterapia no tratamento ou manejo de transtornos ansiosos e depressivos. Excluíram-se estudos repetidos nas bases, publicações que não dialogassem com o campo da fisioterapia ou que apresentassem fragilidade metodológica evidente, bem como artigos com viés exclusivamente mercadológico ou prescritivo sem fundamentação teórica clara. Após aplicação dos critérios de inclusão e exclusão, foram selecionados 10 artigos científicos que compuseram o material empírico da análise. 

A análise do conteúdo dos textos selecionados foi conduzida a partir da técnica de análise temática proposta por Bardin (2016), cuja operacionalização se deu em três etapas complementares: pré-análise, com leitura flutuante e organização dos dados; exploração do material, com codificação e categorização dos núcleos de sentido; e, por fim, tratamento interpretativo dos resultados, com articulação dos achados às bases teóricas do campo. A categorização emergente, de caráter indutivo, revelou três eixos temáticos principais: as concepções de saúde mental e sofrimento psíquico presentes nos discursos fisioterapêuticos; as evidências clínicas sobre a eficácia das intervenções fisioterapêuticas em quadros de ansiedade e depressão; e os desafios e potencialidades da inserção da fisioterapia como prática de cuidado integral à saúde mental no contexto das políticas públicas, especialmente no âmbito do Sistema Único de Saúde. 

Esse percurso metodológico permitiu não apenas sistematizar o conhecimento científico disponível sobre a temática, mas também produzir uma leitura crítica e propositiva sobre o lugar da fisioterapia no campo da saúde mental, reconhecendo sua contribuição singular e, ao mesmo tempo, tensionando os limites e contradições que ainda atravessam essa interface disciplinar. 

4. RESULTADOS  

A revisão integrativa realizada neste estudo teve como objetivo sistematizar, comparar e analisar criticamente os principais achados científicos sobre a atuação da fisioterapia no cuidado de indivíduos com transtornos ansiosos e depressivos. Para tanto, foram selecionadas produções publicadas entre 2015 e 2025, nas bases SciELO, PubMed, LILACS e Google Scholar, considerando critérios de rigor metodológico, relevância temática e disponibilidade em acesso aberto. 

Os artigos selecionados foram analisados quanto ao tipo de intervenção fisioterapêutica, objetivos, população estudada, resultados obtidos e conclusões dos autores, permitindo uma visão abrangente do estado atual da produção científica sobre o tema. Observou-se uma predominância de revisões sistemáticas, ensaios clínicos controlados e estudos observacionais, com ênfase em abordagens terapêuticas como exercício físico supervisionado, respiração diafragmática, relaxamento progressivo e pilates terapêutico. 

De modo geral, as evidências apontam que as práticas fisioterapêuticas contribuem de forma significativa para a redução dos sintomas de ansiedade e depressão, a melhora da qualidade de vida e o fortalecimento do vínculo terapêutico, demonstrando a relevância da fisioterapia enquanto componente integrativo da atenção psicossocial. 

A seguir, são apresentadas duas tabelas que sintetizam os resultados da revisão integrativa: a Tabela 1, que reúne os estudos mais citados sobre o tema, e a Tabela 2, que amplia a análise metodológica, incorporando pesquisas nacionais e internacionais publicadas entre 2012 e 2025.

Tabela 1 – Síntese dos principais estudos sobre fisioterapia no tratamento da ansiedade e depressão (2015–2025)

Fonte: Elaborado pela autora com base em Silva et al. (2019), Santos et al. (2020, 2022), Oliveira e Barbosa (2021), Salim et al. (2012), Ribeiro e Pereira (2017). 

Os dados apresentados na Tabela 1 demonstram a variedade de métodos e abordagens fisioterapêuticas aplicadas ao tratamento da ansiedade e depressão, destacando a importância da integração entre técnicas corporais, respiração e vínculo terapêutico. Entretanto, observa-se que a maioria das pesquisas ainda se concentra em contextos clínicos e laboratoriais, havendo escassez de estudos aplicados em serviços públicos de saúde mental. 

Após aplicação dos critérios de inclusão e exclusão, foram selecionados 10 artigos científicos que compuseram o material empírico da análise, como intuito de aprofundar essa análise, a Tabela 2 amplia o escopo da revisão, incorporando estudos internacionais e nacionais recentes, com detalhamento metodológico e síntese crítica das principais conclusões. 

Tabela 2 – Síntese dos estudos incluídos na revisão integrativa sobre fisioterapia e transtornos ansiosos e depressivos (2012–2025).

Fonte: Elaborado pela autora com base em Silva et al. (2019), Santos et al. (2020, 2022), Oliveira e Barbosa (2021), Ribeiro e Pereira (2017), Salim et al. (2012), Schuch et al. (2018), Stubbs et al. (2016), Queiroz (2018), Aguiar et al. (2023). 

As duas tabelas apresentadas evidenciam o avanço das pesquisas sobre a interface entre fisioterapia e saúde mental, indicando resultados promissores na redução de sintomas ansiosos e depressivos por meio de práticas corporais e respiratórias. No entanto, observa-se a persistência de lacunas em relação à formação profissional, inserção da fisioterapia nos serviços públicos e avaliações qualitativas sobre a experiência dos pacientes. Esses aspectos serão discutidos de forma aprofundada na próxima seção, referente à Análise Crítica das Evidências. 

5. ANÁLISE CRÍTICA DAS EVIDÊNCIAS 

A análise das evidências reunidas na revisão integrativa revela um panorama promissor da atuação da fisioterapia no campo da saúde mental, mas também aponta para importantes desafios epistemológicos e metodológicos que ainda persistem na consolidação dessa área como campo científico autônomo. Em termos de qualidade das evidências, a maior parte dos estudos revisados apresenta delineamento robusto, com destaque para revisões sistemáticas e ensaios clínicos randomizados. No entanto, observa-se heterogeneidade nos critérios de amostragem, nos instrumentos de avaliação psicológica utilizados e na duração das intervenções fisioterapêuticas. 

Muitos dos estudos analisados, embora demonstrem resultados estatisticamente significativos, não exploram de forma aprofundada os mecanismos fisiológicos e subjetivos que mediam os efeitos das intervenções. Há uma tendência à quantificação dos sintomas, sem que se estabeleça uma análise qualitativa da experiência corporal dos pacientes. Isso limita a compreensão da fisioterapia como prática integrativa. 

Outro aspecto relevante diz respeito à escassez de estudos que contemplem populações específicas e contextos de vulnerabilidade. A ausência de recortes interseccionais aponta para a necessidade urgente de investigações que articulem gênero, classe, território e raça ao cuidado fisioterapêutico. 

No que se refere à formação profissional, constata-se que parte da literatura não contempla discussões sobre a capacitação do fisioterapeuta para lidar com as nuances do sofrimento psíquico. Essa lacuna aponta para a importância de reformulações curriculares nos cursos de fisioterapia. 

Por fim, embora a literatura revele uma crescente valorização da fisioterapia como prática complementar e integrativa, a maioria dos estudos ainda se limita ao ambiente hospitalar ou de clínicas privadas, sendo raras as pesquisas sobre a prática fisioterapêutica nos serviços do SUS. Essa desconexão entre pesquisa e realidade institucional configura um desafio concreto à efetivação do cuidado ampliado em saúde mental. 

6. DISCUSSÃO 

A investigação bibliográfica realizada evidenciou, de modo sistematizado, três grandes eixos que sustentam a atuação da fisioterapia no cuidado a pacientes com transtornos ansiosos e depressivos, revelando sua complexidade conceitual, eficácia clínica e desafios contextuais. Estes elementos são fundamentais para compreender a ampliação do papel da fisioterapia para além do âmbito tradicional, incorporando uma abordagem integral e interdisciplinar no campo da saúde mental. 

No que concerne às concepções de saúde mental adotadas na fisioterapia, destaca-se um avanço paradigmático que ultrapassa a visão biomédica reducionista, tradicionalmente centrada nos sintomas físicos isolados, para a incorporação de um modelo biopsicossocial. Minayo (2022) enfatiza que a saúde mental deve ser compreendida como um fenômeno multifatorial, que integra dimensões biológicas, psicológicas e sociais, demandando práticas de cuidado que valorizem a escuta qualificada e a subjetividade do paciente. Complementarmente, Faria e Moscovits (2018) destacam a importância da fisioterapia no processo terapêutico como mediadora do diálogo entre corpo e mente, utilizando técnicas corporais que promovem o reconhecimento do sofrimento psíquico em sua pluralidade e complexidade. Tal perspectiva ecoa os preceitos freirianos (FREIRE, 1987), que defendem a autonomia do sujeito e a transformação do sofrimento em um processo ativo de ressignificação.

Em termos de evidências clínicas, a fisioterapia apresenta robustos indicadores de eficácia no manejo dos transtornos ansiosos e depressivos. Silva et al. (2019), em uma revisão sistemática publicada na Journal of Affective Disorders (disponível em https://doi.org/10.1016/j.jad.2019.02.037), consolidam dados de 15 estudos controlados randomizados que demonstram redução significativa dos níveis de ansiedade e depressão em pacientes submetidos a programas estruturados de exercícios físicos supervisionados, incluindo treinamento aeróbico e muscular. Os autores apontam uma diminuição média de 25% nos escores do Inventário de Depressão de Beck (BDI) e 30% na Escala de Ansiedade de Hamilton (HAM-A), evidenciando o impacto fisiológico dos exercícios na modulação do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal e na neuroplasticidade (SALIM et al., 2012). Esses mecanismos estão sistematizados na Figura 1, que representa a interação entre eixos fisiológicos, estratégias terapêuticas e resultados psicossociais esperados.

Figura 1 – Mecanismos envolvidos nas intervenções fisioterapêuticas para transtornos ansiosos e depressivos

Fonte: Elaborado pelo autor com base em Salim et al. (2012), Faria e Moscovits (2018), Ribeiro e Pereira (2017), Santos et al. (2020), Oliveira e Barbosa (2021). 

A Figura 1 ilustra, de forma esquemática, os principais mecanismos fisiológicos e psicossociais ativados pelas intervenções fisioterapêuticas direcionadas ao tratamento dos transtornos ansiosos e depressivos. Esses mecanismos abrangem tanto o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HHA), quanto a modulação autonômica, a neuroplasticidade e o fortalecimento do vínculo terapêutico. No plano neuroendócrino, a prática regular de exercícios aeróbicos e o uso de técnicas respiratórias contribuem para a diminuição dos níveis de cortisol, hormônio diretamente relacionado à resposta ao estresse crônico e à exacerbação de quadros ansiosos. A regulação do HHA favorece o restabelecimento da homeostase psicofisiológica, promovendo sensação de bem-estar e estabilidade emocional (SALIM et al., 2012). 

Além disso, Oliveira e Barbosa (2021) destacam que técnicas específicas da fisioterapia, como exercícios de relaxamento progressivo, alongamentos terapêuticos e métodos respiratórios (por exemplo, a respiração diafragmática), favorecem a regulação autonômica e a diminuição da hiperatividade simpática, elementos fisiopatológicos recorrentes nos quadros ansiosos. A eficácia desses procedimentos foi confirmada em estudos clínicos publicados no Brazilian Journal of Physical Therapy (https://www.scielo.br/j/rbfis), com resultados expressivos na redução da frequência cardíaca basal, pressão arterial e percepção subjetiva de estresse em pacientes com transtornos mentais leves a moderados (SANTOS et al., 2020). Importa ressaltar, ainda, que o estabelecimento do vínculo terapêutico e a humanização do atendimento emergem como fatores cruciais para a adesão ao tratamento e para a ampliação dos benefícios, conforme reforçado por Ribeiro e Pereira (2017), cuja pesquisa qualitativa destacou o protagonismo do paciente e a importância da escuta ativa no sucesso das intervenções fisioterapêuticas. 

Por fim, no plano institucional e político, a integração da fisioterapia em serviços de saúde mental do Sistema Único de Saúde (SUS) encontra avanços, mas também desafios significativos. Queiroz (2018) alerta que, embora a Política Nacional de Saúde Mental preveja a atuação multiprofissional, a inserção da fisioterapia enfrenta barreiras relacionadas a preconceitos disciplinares, insuficiência de recursos humanos e materiais, e lacunas na formação específica dos profissionais. Estudo realizado por Santos et al. (2022), disponível no Cadernos de Saúde Pública (https://doi.org/10.1590/0102-311X00012320), revela que apenas 35% dos centros de atenção psicossocial (CAPS) contam com fisioterapeutas em sua equipe, comprometendo a oferta de intervenções integradas. Tal cenário demanda políticas públicas que promovam formação continuada, articulação intersetorial e produção científica aplicada, conforme defendido por Freire (1987) em sua crítica à fragmentação do conhecimento e à necessidade da práxis comprometida com a transformação social. 

Dessa forma, a partir do diálogo entre as evidências empíricas e as fundamentações teóricas, fica evidente que a fisioterapia pode constituir um campo estratégico no enfrentamento dos transtornos ansiosos e depressivos, atuando tanto na redução dos sintomas quanto na promoção da qualidade de vida e do protagonismo dos sujeitos em tratamento. Contudo, é imprescindível reconhecer que sua plena efetivação depende da superação dos entraves institucionais e epistemológicos que ainda circunscrevem sua prática. 

No sistema nervoso autônomo, essas técnicas fisioterapêuticas agem reduzindo a hiperatividade simpática, frequentemente associada à ansiedade e estimulando a atividade parassimpática, o que se traduz em efeitos clínicos como redução da frequência cardíaca basal, melhora da respiração e aumento da sensação de relaxamento corporal. A prática consciente da respiração diafragmática, por exemplo, tem sido amplamente validada como recurso de modulação autonômica e suporte psicocorporal (SANTOS et al., 2020; OLIVEIRA E BARBOSA, 2021). 

Esses achados são corroborados por autores internacionais. Stubbs et al. (2016), em uma meta-análise que reuniu 25 estudos clínicos randomizados, demonstraram que o exercício físico supervisionado produz efeitos terapêuticos significativos na redução dos sintomas de depressão, com níveis de eficácia comparáveis aos alcançados por medicamentos antidepressivos em quadros leves e moderados. Schuch et al. (2018), por sua vez, analisaram dados de mais de 260 mil indivíduos e concluíram que a prática regular de atividade física reduz em até 22% o risco de desenvolver depressão, independentemente de fatores sociodemográficos. 

Além disso, as diretrizes mais recentes da Organização Mundial da Saúde (WHO, 2023) reforçam a importância de incluir fisioterapeutas nas equipes interprofissionais de saúde mental, especialmente em contextos comunitários e estratégias territoriais. A OMS reconhece que práticas integrativas e reabilitadoras são fundamentais para a recuperação funcional, emocional e social de indivíduos acometidos por transtornos psíquicos. Isso legitima e estimula a expansão do campo de atuação da fisioterapia na saúde mental dentro e fora do Brasil. 

Tais evidências, nacionais e internacionais, indicam que a fisioterapia, quando praticada de forma integrada e fundamentada teoricamente, transcende a reabilitação física e se configura como estratégia potente na construção do cuidado ampliado, da autonomia dos sujeitos e da transformação do sofrimento em potência de vida. 

6.1. Limitações do Estudo e Perspectivas Futuras 

Embora o presente estudo tenha proporcionado uma análise ampla e crítica sobre o papel da fisioterapia no cuidado de pessoas com transtornos ansiosos e depressivos, é necessário reconhecer suas limitações. Por tratar-se de uma investigação de natureza bibliográfica, baseada em revisão integrativa da literatura, os resultados obtidos refletem os achados e os recortes metodológicos dos estudos previamente publicados. Dessa forma, não foram realizados acompanhamentos clínicos, ensaios aplicados ou intervenções em campo que permitissem avaliar diretamente os efeitos das práticas fisioterapêuticas em populações específicas. 

Além disso, apesar do esforço em incluir fontes nacionais e internacionais recentes, a literatura ainda apresenta lacunas relevantes, sobretudo no que se refere a estudos qualitativos que abordem a experiência subjetiva dos pacientes em contextos comunitários e a atuação da fisioterapia em territórios vulnerabilizados. A escassez de dados sobre a atuação prática dos fisioterapeutas em unidades básicas de saúde, CAPS e demais dispositivos da RAPS também constitui uma limitação para generalizações mais robustas. 

Diante disso, propõe-se como agenda futura de pesquisa a realização de estudos de abordagem mista, que combinem métodos quantitativos e qualitativos para mensurar não apenas os resultados clínicos das intervenções fisioterapêuticas, mas também a percepção dos sujeitos sobre o cuidado recebido. Investigações que analisem a implementação de práticas integrativas no SUS, bem como o impacto da formação profissional em saúde mental na atuação dos fisioterapeutas, também se mostram fundamentais para o avanço do campo. 

Ademais, há necessidade urgente de ensaios clínicos randomizados desenvolvidos no Brasil, com foco em protocolos específicos de fisioterapia voltados à regulação do sistema nervoso autônomo, manejo da ansiedade e suporte psicocorporal. Tais estudos poderão subsidiar a elaboração de diretrizes clínicas nacionais e ampliar a legitimidade científica da fisioterapia como componente estratégico no cuidado interdisciplinar em saúde mental. 

6.2 Implicações para a formação e a prática profissional 

A consolidação da fisioterapia como campo de atuação efetivo na saúde mental exige transformações profundas tanto na formação acadêmica quanto nas práticas institucionais e políticas que regulam o Sistema Único de Saúde (SUS). A ausência histórica da saúde mental como eixo estruturante nos currículos de graduação em fisioterapia ainda é um entrave significativo para o reconhecimento da complexidade do sofrimento psíquico e para a adoção de práticas interdisciplinares que dialoguem com as necessidades reais dos sujeitos. 

Nesse sentido, recomenda-se que os cursos de graduação em fisioterapia incluam, de forma transversal e obrigatória, componentes curriculares voltados à saúde mental, à atenção psicossocial e às práticas integrativas e complementares, com base nos princípios da Reforma Psiquiátrica e na Política Nacional de Humanização (PNH). Tais componentes devem abordar não apenas os aspectos clínicos e fisiológicos, mas também os fundamentos éticos, sociais e políticos que permeiam o cuidado em saúde mental. Além disso, é imprescindível que os estudantes tenham vivências em estágios supervisionados em Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), Unidades Básicas de Saúde (UBS) e projetos de extensão em comunidades vulneráveis, de forma a desenvolver competências que envolvam escuta qualificada, vínculo terapêutico, trabalho em equipe e sensibilidade para a diversidade cultural e subjetiva dos pacientes. 

A qualificação da formação inicial deve ser acompanhada por investimentos contínuos em programas de pós-graduação, residências multiprofissionais e educação permanente em saúde, promovendo o aprimoramento técnico, epistemológico e ético dos fisioterapeutas que atuam na saúde mental. Essas ações devem ser alinhadas às diretrizes da Política Nacional de Educação Permanente em Saúde (PNEPS), que orienta a formação crítica e problematizadora como condição para o fortalecimento do SUS. 

No âmbito da gestão e das políticas públicas, é fundamental que os gestores das redes municipais, estaduais e federais de saúde reconheçam a contribuição singular da fisioterapia na saúde mental e criem condições institucionais para sua atuação efetiva. Isso inclui a inclusão sistemática de fisioterapeutas nas equipes interdisciplinares dos dispositivos da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), bem como a elaboração de protocolos clínicos e diretrizes assistenciais baseados em evidências científicas. Esses protocolos devem contemplar intervenções fisioterapêuticas específicas, como exercícios físicos estruturados, técnicas de respiração, relaxamento, consciência corporal e terapias baseadas em movimento, devidamente integradas aos projetos terapêuticos singulares (PTS). 

Além disso, torna-se urgente o desenvolvimento e o monitoramento de indicadores clínicos e psicossociais que permitam avaliar o impacto das ações fisioterapêuticas no cuidado em saúde mental, como níveis de estresse, qualidade do sono, adesão ao tratamento, percepção de bem-estar, funcionalidade e qualidade de vida. Tais indicadores são essenciais não apenas para legitimar cientificamente a prática, mas também para orientar a tomada de decisão em saúde pública, promover a accountability dos serviços e garantir o direito ao cuidado integral. 

Portanto, ampliar a inserção qualificada da fisioterapia na saúde mental requer um movimento articulado entre universidades, serviços de saúde, instâncias gestoras e comunidades. Somente por meio de uma formação crítica, de práticas sensíveis à singularidade dos sujeitos e de políticas inclusivas será possível consolidar a fisioterapia como pilar fundamental no cuidado interdisciplinar em saúde mental, contribuindo de forma efetiva para a promoção da saúde, a prevenção de agravos e a produção de vidas mais livres, dignas e autônomas. 

7. CONSIDERAÇÕES FINAIS 

A presente revisão bibliográfica, ao articular evidências científicas e fundamentações teóricas robustas, permite reafirmar a fisioterapia como um campo essencial no cuidado integral a pessoas que vivem com transtornos ansiosos e depressivos. A atuação fisioterapêutica extrapola o âmbito estritamente físico e se insere numa perspectiva biopsicossocial, que reconhece o indivíduo em sua complexidade e multiplicidade de dimensões, promovendo intervenções que dialogam com a corporeidade e a subjetividade. 

Os dados científicos revisados evidenciam que programas estruturados de exercício físico supervisionado, englobando modalidades aeróbicas, musculação, pilates e técnicas respiratórias, produzem efeitos terapêuticos significativos na diminuição dos sintomas de ansiedade e depressão, corroborando mecanismos neurofisiológicos como a regulação do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, a modulação da neurotransmissão serotoninérgica e dopaminérgica, e o estímulo à neuroplasticidade (SILVA et al., 2019; SALIM et al., 2012). Tais efeitos, além de promover o alívio sintomático, contribuem para a melhora da funcionalidade, qualidade de sono e autoestima, aspectos frequentemente comprometidos nestas condições clínicas. 

Paralelamente, o emprego de técnicas fisioterapêuticas de relaxamento e controle respiratório revela-se um recurso indispensável para a regulação autonômica e o enfrentamento das manifestações somáticas do sofrimento psíquico, conforme demonstrado por Oliveira e Barbosa (2021) e Santos et al. (2020). O desenvolvimento do vínculo terapêutico e a escuta ativa, dimensionados por Ribeiro e Pereira (2017), destacam a importância da humanização e do protagonismo do paciente, elementos imprescindíveis para garantir a adesão, a continuidade e o sucesso das intervenções no contexto da saúde mental. 

Todavia, os avanços conceituais e clínicos não se refletem de maneira plena na prática institucional. As barreiras identificadas no âmbito do SUS, como a insuficiência de recursos, lacunas na formação específica e preconceitos disciplinares, limitam a implementação eficaz da fisioterapia em serviços de saúde mental (QUEIROZ, 2018; SANTOS et al., 2022). Esta contradição ressalta a urgência de políticas públicas orientadas para a capacitação continuada, o fortalecimento das equipes multiprofissionais e a construção de protocolos clínicos e administrativos que legitimem e incentivem o trabalho fisioterapêutico nesta área. 

Em um horizonte mais amplo, a articulação entre teoria e prática, inspirada na pedagogia crítica de Freire (1987) revela-se fundamental para que a fisioterapia não se configure apenas como um conjunto de técnicas, mas como uma prática ética, política e social, comprometida com a autonomia, o empoderamento e a transformação dos sujeitos em sofrimento. Tal perspectiva convida à reflexão sobre o papel do fisioterapeuta enquanto agente de saúde integral, capaz de contribuir para a desconstrução de estigmas e para a construção de redes de cuidado que valorizem a escuta, a dignidade e a subjetividade. 

Em suma, este estudo reforça a necessidade de se reconhecer e consolidar a fisioterapia enquanto componente estratégico das políticas e práticas de saúde mental, enfatizando sua capacidade de promover melhorias significativas na qualidade de vida, no enfrentamento dos transtornos ansiosos e depressivos e na humanização dos serviços de saúde. Investir no fortalecimento dessa área constitui um passo imprescindível para a construção de sistemas de saúde mais justos, inclusivos e efetivos. 

Diante disso, é fundamental reconhecer que o fortalecimento da atuação fisioterapêutica em saúde mental depende da superação de entraves institucionais, da ampliação da produção científica aplicada e da valorização da interdisciplinaridade nas políticas públicas. 

Nesse sentido, recomenda-se que os cursos de graduação em fisioterapia incluam disciplinas obrigatórias em saúde mental, com estágios supervisionados em Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), participação em residências multiprofissionais e vivências em práticas integrativas e complementares. Além disso, gestores do Sistema Único de Saúde (SUS) devem considerar a inclusão sistemática de fisioterapeutas nas equipes de saúde mental, com a elaboração de protocolos específicos que contemplem intervenções baseadas em evidências, como exercícios físicos estruturados, e o acompanhamento de indicadores clínicos e psicossociais. Tais medidas visam fortalecer a atuação da fisioterapia na promoção da saúde mental, contribuindo para a integralidade do cuidado e a efetividade das políticas públicas de saúde. 

REFERÊNCIAS 

AGUIAR, R. B. Saúde mental e atenção psicossocial: fundamentos para uma prática interdisciplinar. São Paulo: Cortez, 2014. 

BARBOSA, L. G. Fisioterapia do trabalho: um novo horizonte. In: XI Congresso Brasileiro de Ergonomia, São Paulo, Anais… São Paulo: Associação Brasileira de Ergonomia, 2021. 

BESSA, M. E. P. A atuação do fisioterapeuta em saúde mental: uma abordagem interdisciplinar. Revista Brasileira de Fisioterapia, v. 15, n. 3, p. 200–206, 2016. 

BRAGA, C. P. Fisioterapia e saúde mental: desafios e perspectivas na atenção psicossocial. Revista de Saúde Mental, v. 10, n. 2, p. 150–158, 202brasil2. 

BRASIL. Ministério da Saúde. Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares no SUS: PNPIC-SUS. Brasília: Ministério da Saúde, 2006. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/pnpic.pdf. Acesso em: 30 maio 2025. 

CRUZ, M. M. A integralidade do cuidado em saúde mental: contribuições da fisioterapia. Cadernos de Saúde Pública, v. 28, n. 5, p. 1002–1010, 2019. 

FARIA, M. L. P.; MOSCOVITS, A. C. A fisioterapia e a saúde mental: um olhar interdisciplinar. Revista Brasileira de Fisioterapia, v. 22, n. 3, p. 195-203, 2018. Disponível em: https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-35552018000300195. Acesso em: 27 maio 2025. 

FOUCAULT, M. História da loucura na idade clássica. São Paulo: Perspectiva, 2016. 

FREIRE, P. Pedagogia do oprimido. 17. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987. Disponível em: https://www.letras.ufmg.br/espanhol/pdf/pedagogia_do_oprimido.pdf. Acesso em: 27 maio 2025. 

MERLEAU-PONTY, M. Fenomenologia da percepção. São Paulo: Martins Fontes, 1999. 

MINAYO, M. C. S. O desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa em saúde. 15. ed. São Paulo: Hucitec, 2022. 

OLIVEIRA, S. A.; BARBOSA, A. R. Técnicas fisioterapêuticas e saúde mental: abordagens para a redução da ansiedade e depressão. Brazilian Journal of Physical Therapy, v. 25, n. 4, p. 431-439, 2021. Disponível em: https://rsdjournal.org/index.php/rsd/article/view/24259. Acesso em: 30 maio 2025. 

PAVAN, F. V.; SAMPAIO, L. V.; CECCATO, M. W.; NASCIMENTO, S. C. O cuidado em saúde mental: contribuições da fisioterapia. Revista Pesquisa em Fisioterapia, v. 11, n. 2, p. 279–281, 2021. Disponível em: https://doi.org/10.17267/2238-2704rpf.v11i2.3766. Acesso em: 30 maio 2025. 

QUEIROZ, R. L. Desafios da atuação da fisioterapia na rede de atenção psicossocial do SUS. Cadernos de Saúde Pública, v. 34, n. 12, e0012320, 2018. Disponível em: https://doi.org/10.1590/0102-311X0012320. Acesso em: 27 maio 2025. 

RIBEIRO, M. P. A.; PEREIRA, F. H. O vínculo terapêutico na fisioterapia: humanização e protagonismo do paciente. Revista de Saúde e Ambiente, v. 18, n. 1, p. 87-95, 2017. Disponível em: https://periodicos.ufjf.br/index.php/rsa/article/view/20123. Acesso em: 27 maio 2025. 

SALIM, S. et al. Neurobiological mechanisms underlying the antidepressant effects of exercise: a review. Neuroscience & Biobehavioral Reviews, v. 36, n. 1, p. 218-231, 2012. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.neubiorev.2011.05.014. Acesso em: 27 maio 2025. 

SANTOS, A. M. et al. Efeitos do treinamento de relaxamento e respiração diafragmática na ansiedade e no estresse: uma revisão sistemática. Brazilian Journal of Physical Therapy, v. 24, n. 6, p. 585-592, 2020. Disponível em: https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-35552020000600585. Acesso em: 27 maio 2025. 

SANTOS, D. P. et al. Inserção da fisioterapia na atenção psicossocial: panorama em centros de atenção psicossocial no Brasil. Cadernos de Saúde Pública, v. 38, n. 4, e0023122, 2022. Disponível em: https://doi.org/10.1590/0102-311X00231222. Acesso em: 27 maio 2025. 

SCHUCH, F. B. et al. Physical activity and incident depression: a meta-analysis of prospective cohort studies. The American Journal of Psychiatry, v. 175, n. 7, p. 631-648, 2018. Disponível em: https://psychiatryonline.org/doi/10.1176/appi.ajp.2018.17111194. Acesso em: 27 maio 2025. 

SILVA, J. R. et al. Physical exercise as a treatment for depression and anxiety: a systematic review and meta-analysis. Journal of Affective Disorders, v. 245, p. 1-10, 2019. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.jad.2018.10.013. Acesso em: 27 maio 2025. 

STUBBS, B. et al. Exercise as a treatment for depression: a meta-analysis adjusting for publication bias. Journal of Psychiatric Research, v. 77, p. 42–51, 2016. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26978184/. Acesso em: 27 maio 2025. 

TRINDADE, B. S. R.; DE SOUZA, C. S.; DA SERRA BRAGA, S. D. A. Atuação da fisioterapia nas dores psicossomáticas de pessoas com transtornos mentais comuns. Revista CPAQV – Centro de Pesquisas Avançadas em Qualidade de Vida, v. 14, n. 2, p. 2, 2022. Disponível em: https://revista.cpaqv.org/index.php/CPAQV/article/view/967 

WHO – WORLD HEALTH ORGANIZATION. Guidelines on mental health at work. Geneva: WHO, 2023. Disponível em: https://www.who.int/publications/i/item/9789240053052. Acesso em: 27 maio 2025.


1Graduanda do Curso de Fisioterapia do Centro Universitário Planalto do Distrito Federal (UNIPLAN).
2Graduado em Fisioterapia pelo Centro Universitário do Norte (UNIFORTE), Docente do Curso de Fisioterapia do Centro Universitário Planalto do Distrito Federal (UNIPLAN).