GERENCIAMENTO DA ANSIEDADE E DO ESTRESSE NO PERÍODO PRÉ-CIRÚRGICO EM CRIANÇAS E ADULTOS

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202511261505


Lueny Beserra Gonçalves Reis1
Ângela Patrícia Pereira Alves Macedo2
Alexandre da Silva Mota3
Marcus Vinícius Henriques Brito4
Ivete Furtado Ribeiro Caldas5
Priscila Xavier de Araujo6


RESUMO

A ansiedade e o estresse no pré-operatório podem influenciar no tratamento, nos momentos que antecedem a cirurgia e no processo de hospitalização. Os aspectos físicos e psicológicos tornam-se mais vulneráveis diante de emoções e sentimentos não devidamente gerenciados. Não apenas crianças, devido à imaturidade cronológica, mas também adultos podem sofrer consequências negativas ao passar pelo pré-operatório sem acompanhamento psicológico. Diante disso, torna-se necessário o uso de estratégias como a psicoeducação, a ludicidade, a psicoprofilaxia e a escuta de acolhimento, com o objetivo de reduzir os prejuízos à saúde física e mental. Esta revisão integrativa teve como objetivos salientar a importância do acompanhamento psicológico em pacientes pré-cirúrgicos e relacionar a ansiedade e o estresse antecipatórios como fatores que dificultam o processo de recuperação em variados contextos cirúrgicos. A busca pelos estudos foi realizada em bases de dados científicas da área da Saúde, como a Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), Scientific Electronic Library Online (SciELO) e Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS). Foram utilizados 10 artigos como referência para análise, sendo dois artigos de 2018, um de 2019, um de 2020, três de 2022, dois de 2023 e um de 2024. Três dos estudos analisados são internacionais e trouxeram contribuições relevantes para a compreensão da ansiedade no pré-operatório e as estratégias de intervenção utilizadas nesses contextos. Os resultados evidenciaram a necessidade do gerenciamento das emoções e sentimentos como o medo, a ansiedade e o estresse, ocasionados pela iminência cirúrgica. Destaca-se que o acompanhamento psicológico, em conjunto com a atuação da equipe multidisciplinar, influencia significativamente na recuperação e no bem-estar do paciente no período pré-operatório.

Palavras-chave: estresse; ansiedade; pré-cirúrgico; cirurgia; psicologia.

ABSTRACT

Preoperative anxiety and stress can influence treatment, the moments preceding surgery, and the hospitalization process. Physical and psychological aspects become more vulnerable in the presence of unmanaged emotions and feelings. Not only children, due to their chronological immaturity, but also adults may experience negative consequences when undergoing the preoperative period without psychological support. Therefore, it is necessary to use strategies such as psychoeducation, playfulness, psychoprophylaxis, and attentive listening to reduce harm to physical and mental health. This integrative review aimed to highlight the importance of psychological support for pre-surgical patients and to relate anticipatory anxiety and stress as factors that hinder the recovery process in various surgical contexts. The search for studies was conducted in health science databases, such as the Virtual Health Library (BVS), Scientific Electronic Library Online (SciELO), and Latin American and Caribbean Literature on Health Sciences (LILACS). Ten articles were selected for analysis, including two from 2018, one from 2019, one from 2020, three from 2022, two from 2023, and one from 2024. Three of the analyzed studies are international and contributed significantly to understanding preoperative anxiety and intervention strategies in these settings. The results demonstrated the need to manage emotions and feelings such as fear, anxiety, and stress caused by the imminence of surgery. It is noteworthy that psychological support, together with the multidisciplinary team’s involvement, significantly influences patient recovery and well-being during the preoperative period.

Keywords: stress; anxiety; pre-surgical; surgery; psychology.

 O estresse e a ansiedade são respostas naturais do organismo a situações percebidas como ameaçadoras, e, em pacientes hospitalizados, podem interferir significativamente tanto no diagnóstico quanto no tratamento clínico, provocando sintomas físicos e psicológicos (Guzo; Carvalho; Alexandre, 2022). No contexto pré-operatório, essas reações podem comprometer a qualidade de vida do paciente, manifestando-se por meio de alterações fisiológicas, reações emocionais intensas e comportamentos desadaptativos.

Entre os aspectos relevantes está a ansiedade reativa, compreendida como uma resposta emocional frente a situações avaliadas como ameaçadoras, bem como o estresse psicoorgânico, que evidencia a interação entre os estados mentais e as manifestações corporais. Ambos os fenômenos são frequentemente observados no contexto cirúrgico, afetando negativamente a experiência hospitalar (Mendes; Matos, 2023).

No campo da psicologia da saúde, Range (2011, apud Guzo; Carvalho; Alexandre, 2022, p. 479) destaca que o estresse pode desencadear uma variedade de reações emocionais, incluindo hipersensibilidade, raiva, apatia e agravamento da ansiedade. Diante disso, torna-se essencial refletir sobre estratégias de manejo emocional eficazes no período pré-cirúrgico. Esta pesquisa de revisão bibliográfica integrativa tem como objetivo destacar a relevância do apoio psicológico nesse cenário, especialmente no que se refere ao uso de recursos terapêuticos que contribuam para a redução da ansiedade e do estresse. Tais recursos incluem atividades lúdicas com crianças e intervenções como psicoeducação, psicoprofilaxia e escuta qualificada no atendimento a adultos.

Estudos clássicos sobre o estresse, como os de Lipp (1979, apud Guzo; Carvalho; Alexandre, 2022), demonstraram que pacientes informados previamente sobre os procedimentos aos quais seriam submetidos relataram menor intensidade de dor, evidenciando o impacto positivo da orientação psicológica. Além disso, foi constatado que o estresse pode estar relacionado ao surgimento ou agravamento de doenças psicofisiológicas, como hipertensão arterial essencial, psoríase, úlceras gastroduodenais, câncer, vitiligo e retração gengival (Range, 2011, apud Guzo; Carvalho; Alexandre, 2022).

Embora o estresse não seja diretamente causador de doenças, pode comprometer a homeostase do organismo. Myers (2012, apud Guzo; Carvalho; Alexandre, 2022) ressalta que o estresse afeta o funcionamento do sistema imunológico, deixando o indivíduo mais suscetível a infecções. Essa condição de vulnerabilidade se intensifica quando há ativação excessiva do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HHA), que mobiliza energia muscular e prepara o corpo para respostas de luta ou fuga, muitas vezes gerando quadros de agitação ou fragilidade física.

Pesquisas realizadas no estado do Paraná, em 2014, com pacientes submetidos a cirurgias eletivas odontológicas, apontaram que elevados níveis de ansiedade podem interferir na eficácia anestésica, prejudicando o andamento dos procedimentos cirúrgicos (Annibelli et al., 2014, apud Guzo; Carvalho; Alexandre, 2022). Esses achados reforçam a necessidade de incluir a avaliação e o manejo emocional como parte do cuidado pré-operatório.

Nesse contexto, o trabalho do psicólogo hospitalar assume papel fundamental. Segundo a Resolução CFP nº 003/2007, as atribuições do profissional de Psicologia no ambiente hospitalar visam promover o bem-estar físico e emocional dos pacientes, atuando de forma integrada com as equipes de saúde para minimizar o sofrimento psíquico e contribuir para uma experiência de hospitalização mais humanizada (Conselho Federal de Psicologia, 2007).

 De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o conceito de saúde abrange não apenas a ausência de doenças, mas o completo bem-estar físico, mental e social, refletindo uma concepção biopsicossocial do desenvolvimento humano. À luz dessa definição, compreende-se que fatores psicológicos podem influenciar significativamente a experiência de hospitalização, afetando a resposta aos tratamentos farmacológicos, a adesão às orientações médicas e o processo de recuperação pós-operatória.

Nesse contexto, destaca-se a importância de abordar os aspectos emocionais em pacientes submetidos a cirurgias eletivas, considerando não apenas o preparo pré-operatório, mas também o acompanhamento durante a hospitalização e no período pós-cirúrgico. Esta revisão bibliográfica integrativa tem como objetivos principais: (1) identificar os elementos centrais da intervenção psicológica no pré-operatório com foco na regulação emocional e (2) analisar os efeitos da ansiedade e do estresse antecipatórios como fatores de risco à recuperação clínica em diferentes modalidades cirúrgicas.

A literatura científica aponta que intervenções psicológicas, especialmente por meio da psicoeducação, são eficazes no contexto hospitalar. Essa abordagem oferece aos pacientes informações sobre aspectos emocionais, comportamentais e sociais relacionados ao adoecimento, favorecendo a compreensão da própria condição de saúde e promovendo o enfrentamento ativo e consciente (Maia et al., 2018, apud Mendes; Matos, 2023). A psicoeducação, portanto, atua como estratégia preventiva e terapêutica no manejo da ansiedade e na melhora da adesão ao tratamento cirúrgico.

No caso de pacientes pediátricos, recursos lúdicos têm se mostrado altamente eficazes na redução da ansiedade pré-operatória. O uso de atividades simbólicas e brinquedos terapêuticos no ambiente hospitalar proporciona às crianças uma forma de expressar seus medos e dúvidas, promovendo o enfrentamento positivo das situações estressantes. Segundo Pinto, Müller e Broering (2022), tais práticas configuram programas de preparo pré-cirúrgico baseados na ludicidade, capazes de melhorar a adaptação emocional infantil ao processo cirúrgico e de fortalecer o vínculo terapêutico com a equipe de saúde.

Além disso, o reconhecimento da importância da atuação psicológica em contextos hospitalares tem respaldo institucional. Conforme a Resolução CFP nº 003/2007, o psicólogo hospitalar deve atuar de maneira interdisciplinar, contribuindo para a promoção da saúde integral e oferecendo suporte emocional qualificado aos pacientes. Complementarmente, a Resolução CFP nº 006/2019 reforça o compromisso ético-social da Psicologia no campo da saúde, com foco na integralidade do cuidado, na escuta qualificada e na humanização das práticas.

Portanto, é fundamental integrar intervenções psicológicas ao cuidado hospitalar, considerando que o suporte emocional, aliado a estratégias como psicoeducação e ludicidade, pode contribuir significativamente para a melhora dos desfechos clínicos, promovendo uma recuperação mais eficaz, segura e humanizada para pacientes de diferentes faixas etárias.

Este estudo utilizou a pesquisa de revisão bibliográfica integrativa, baseada em materiais previamente publicados, conforme definição de Gil (2017). A busca bibliográfica focou nos termos “estresse”, “ansiedade”, “pré-operatório”, “cirurgia” e “psicologia”. Foram selecionados artigos que abordavam diretamente a temática do estresse e ansiedade no contexto pré-operatório, incluindo cirurgias específicas como cardíacas, odontológicas, entre outras.

As bases de dados consultadas foram as principais em Ciências da Saúde: Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), Scientific Electronic Library Online (SciELO) e Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS). Foram utilizados inicialmente 10 artigos como referência, distribuídos entre os anos de 2018 a 2023 — incluindo artigos publicados em espanhol. A seleção dos artigos considerou como critérios de inclusão: foco nos efeitos psicológicos do estresse e ansiedade no pré-operatório e a contribuição da psicologia no manejo dessas emoções; publicação entre 2018 e 2023; e artigos disponíveis em português, espanhol ou inglês. Os critérios de exclusão incluíram artigos que abordavam exclusivamente o pós-operatório, que não contemplavam o tema de interesse, artigos duplicados nas bases e publicações com mais de cinco anos.

Com o objetivo de atualizar a revisão e incorporar evidências recentes, foi realizada uma busca complementar em 2025 para incluir estudos publicados entre 2024 e 2025. Essa atualização ampliou a base teórica e reforçou o rigor metodológico das intervenções avaliadas.

A Tabela 1 apresenta os estudos selecionados entre 2018 e 2023, enquanto a Tabela 2 destaca os cinco artigos incluídos na atualização de 2025.

Autor(es)  Ano  Tipos de Estudo  Intervenção  Resultados principais  
Maia et al.2018Estudo clínicoPsicoeducaçãoRedução do medo cirúrgico e melhora da adesão ao tratamento.
Annibelli et al.¹2014Estudo observacionalAvaliação da ansiedade pré-operatóriaNíveis altos de ansiedade prejudicam a eficácia dos anestésicos.
Diversos autores (n=8)2019 – 2023Estudos descritivos e clínicosRecursos lúdicos e psicoeducativosBenefícios no controle emocional e na adesão ao tratamento cirúrgico.

Tabela 1 – Fonte: Elaborado pelas autoras com base nos dados da pesquisa (2025). ¹Apesar de anterior ao recorte principal, o estudo de Annibelli et al. (2014) foi incluído por sua relevância teórica à temática analisada.

Autor(es)  Ano  Tipos de Estudo  Intervenção  Resultados principais  
Verhoeven et al.2024Revisão sistemática (PRISMA)Guided imagery, relaxamento, VR, TCCTrês de cinco RCTs mostraram redução significativa de ansiedade e um em estresse.
Wong et al.2025Meta-análise de 35 RCTsRealidade virtual (VR)Redução moderada a forte da ansiedade pré-operatória (SMD = 0,65; IC95%).
Estudo pediátrico (MDPI)2025Meta-análise de 10 RCTsVR em criançasRedução significativa da ansiedade (SMD = –0,64), especialmente em pré-operatórios.
Hanalis-Miller et al.2022Scoping reviewPsicoeducação e intervenções breves mistasIntervenções com base em educação emocional mostram melhora em marcadores afetivos.
Guzzo, M.; Carvalho, G.; Alexandre, J2022Estudo quantitativo descritivoAvaliação de estresse, ansiedade e percepção de dor em pacientes pré-cirúrgicosAnsiedade e estresse aumentam a dor no pré-operatório.
Projeto VR em oncologia2024Estudo de viabilidade randomizadoSessão única de VRAlta aceitabilidade; indicativos positivos para futura aplicação em oncologia cirúrgica.

Tabela 2 – Fonte: Elaborado pelas autoras com base em Verhoeven et al. (2024), Wong et al.(2025), e demais estudos atualizados até 2025.

Na revisão inicial dos artigos selecionados entre 2018 e 2023, observou-se a predominância de pesquisas experimentais e observacionais, estudos descritivos e exploratórios, pesquisas quantitativas e revisões bibliográficas integrativas. Contudo, com a inclusão dos artigos mais recentes (2022 a 2025), percebe-se uma diversificação metodológica relevante que enriquece o campo de investigação.

Na revisão inicial dos artigos selecionados entre 2018 e 2023, observou-se a predominância de pesquisas experimentais e observacionais, estudos descritivos e exploratórios, pesquisas quantitativas e revisões bibliográficas integrativas. Todavia, com a inclusão dos artigos mais recentes (2022 a 2025), percebe-se uma diversificação metodológica relevante que enriquece o campo de investigação.

Destacam-se entre os tipos de pesquisa atuais:

  • Scoping Review: metodologia de mapeamento sistemático que tem por objetivo identificar, organizar e sintetizar a literatura existente, evidenciando lacunas e orientando pesquisas futuras, mais abrangente e exploratória do que a revisão integrativa tradicional (HANALIS-MILLER et al., 2022).
  • Revisão Sistemática com Meta-Análise: abordagem rigorosa que combina a seleção sistemática de estudos relevantes com análise quantitativa estatística dos dados coletados, permitindo estimar o efeito médio das intervenções, como no estudo de Verhoeven et al. (2024).
  • Ensaios Clínicos Randomizados (RCTs): considerados o padrão-ouro para avaliação da eficácia de intervenções, envolvendo alocação aleatória dos participantes em grupos experimentais e controle, como observado no estudo de Wong et al. (2025) e no projeto clínico de realidade virtual (2024).

Essa diversidade metodológica evidencia um avanço significativo na área, permitindo tanto uma melhor compreensão dos fenômenos emocionais no contexto pré-operatório quanto a avaliação precisa da eficácia das intervenções psicológicas.

Portanto, a presente revisão bibliográfica integrativa contempla estudos de diferentes metodologias, proporcionando uma visão ampla e atualizada do campo, essencial para embasar práticas clínicas e futuras pesquisas.

Até o ano de 2023, foram contabilizadas aproximadamente 161 cirurgias de diferentes tipos — incluindo cirurgias diversas, ortopédicas, odontológicas, entre outras — conforme análise dos artigos utilizados na revisão inicial. Nos estudos mais recentes (2022-2025), a literatura ampliou o escopo para incluir uma variedade maior de procedimentos cirúrgicos, tais como cirurgias cardíacas, oncológicas, ginecológicas e abdominais, além das já mencionadas.

Embora a maioria desses estudos seja composta por revisões sistemáticas, meta-análises e ensaios clínicos randomizados que agregam dados de múltiplos estudos, o número exato de cirurgias realizadas em cada pesquisa não é sempre especificado de forma consolidada. Contudo, esses trabalhos indicam claramente a relevância e a diversidade dos contextos cirúrgicos investigados, demonstrando a aplicabilidade dos achados em diferentes áreas da cirurgia.

Dessa forma, a diversidade de procedimentos contemplados reforça a importância do acompanhamento psicológico pré-operatório em múltiplos cenários clínicos, devido ao impacto significativo que o estresse e a ansiedade podem exercer sobre o processo de recuperação dos pacientes.

O preparo psicológico no contexto pré-cirúrgico é essencial para pacientes de todas as idades, inclusive para o público pediátrico. A criança, ainda que em fase de desenvolvimento, necessita receber informações adequadas sobre os procedimentos a que será submetida, de modo a reduzir medos e ansiedades comuns ao ambiente hospitalar. Essa preparação deve incluir tanto o aspecto físico quanto emocional, respeitando seu nível de compreensão e favorecendo sua participação ativa no processo.

No contexto de cirurgias cardíacas invasivas em crianças, Le Roy et al. (2003), citados por Mello (2022), recomendam uma avaliação psicossocial detalhada da criança e de sua família, considerando fatores como o estágio de desenvolvimento, estilo de enfrentamento, histórico de hospitalizações, sintomas emocionais e cognitivos, medos específicos, contexto familiar (linguístico, cultural e religioso) e o método mais apropriado para transmissão das informações (visual, verbal, sensorial, etc.).

Essa abordagem reforça a importância de uma comunicação clara e afetiva entre a equipe de saúde, a criança e seus cuidadores. A construção de vínculo e a oferta de explicações acessíveis sobre cada etapa do procedimento geram maior segurança, contribuindo para a adesão ao tratamento e para a redução dos níveis de ansiedade. Visintainer e Wolfer (1975), também citados por Mello (2022), identificaram que a preparação pré-operatória estruturada é mais eficaz na redução do estresse do que a simples presença da mãe, especialmente quando esta não está emocionalmente preparada para apoiar a criança.

Estudos atuais continuam a confirmar a relevância dessas intervenções. Por exemplo, Hanalis-Miller et al. (2022), em um scoping review internacional, destacam que o envolvimento da equipe de saúde mental é decisivo para melhorar o enfrentamento emocional de crianças hospitalizadas. A presença do psicólogo favorece a adaptação ao ambiente hospitalar e pode atuar na psicoeducação da criança e da família por meio de recursos lúdicos, como jogos, dramatizações e bonecos explicativos, estratégias também destacadas por Watson e Visram (2003), citados por Mello (2022).

Além disso, o uso de ferramentas lúdicas no processo de preparação pode gerar efeitos positivos significativos. Segundo Pinto, Müller e Broering (2022), programas lúdicos de preparo pré-operatório ajudam a reduzir o sofrimento psíquico infantil, pois tornam a hospitalização menos hostil e mais compreensível à criança. Estudos recentes, como o de Wong et al. (2025), também evidenciam que intervenções baseadas em técnicas de visualização e simulação hospitalar com bonecos terapêuticos reduzem os níveis de cortisol e melhoram o comportamento colaborativo durante o processo cirúrgico.

Outro aspecto relevante é o reconhecimento das crenças, expectativas e compreensões da criança sobre sua condição clínica. Autores como Bibace e Walsh (1980), Crepaldi (1999) e Rabuske (2004) enfatizam que o significado atribuído pela criança à sua doença influencia diretamente sua reação ao tratamento. Portanto, é fundamental que ela participe do processo decisório em aspectos simples e concretos, como escolher seu pijama ou levar seu brinquedo favorito para o hospital. Tais ações reforçam o senso de controle e promovem conforto emocional.

Costa Jr., Coutinho e Ferreira (2006), também citados por Mello (2022), destacam que atividades recreativas com conteúdo médico-educacionais aumentam o repertório comportamental das crianças em relação ao ambiente hospitalar, favorecendo sua adaptação. Já Verhoeven et al. (2024), em uma revisão sistemática, reforçam que intervenções psicológicas bem estruturadas no período pré-operatório reduzem significativamente os índices de estresse agudo e promovem desfechos clínicos mais favoráveis no pós-operatório pediátrico.

Dessa forma, o acompanhamento psicológico infantil no pré-operatório não deve ser entendido apenas como uma ação complementar, mas como parte fundamental do cuidado integral à criança em contexto cirúrgico. O suporte emocional adequado, aliado a estratégias psicoeducacionais e lúdicas, contribui não apenas para a redução da ansiedade e do estresse, mas também para a promoção do vínculo terapêutico e da confiança da criança no processo de hospitalização.

 A literatura evidencia a dificuldade enfrentada pelo psicólogo hospitalar na realização de seu trabalho de forma precisa, em virtude da própria comunidade científica e da sociedade em geral ainda não reconhecerem de forma ampla a importância desse profissional no contexto hospitalar. Muitas vezes, o papel do psicólogo e sua relevância na diminuição dos impactos psicoemocionais decorrentes da hospitalização — seja em cirurgias eletivas ou de emergência — são subestimados (Alves, 2020).

A ansiedade, por sua vez, pode ser desencadeada pela novidade e pela incerteza associadas ao processo cirúrgico. Segundo Juan (2007, citado por Pinto, Müller e Broering, 2022), novas demandas na vida do paciente podem provocar o surgimento de emoções e sentimentos difíceis de serem elaborados, como medo, inquietação, nervosismo, estresse e alterações comportamentais. Tais reações tendem a se intensificar com a aproximação da cirurgia. No caso das crianças, quanto mais avançado o estágio de desenvolvimento, maior pode ser a consciência dos eventos, o que exige um preparo emocional ainda mais cuidadoso.

Esse processo de acolhimento frente à nova realidade hospitalar deve ocorrer de forma humanizada, por meio da escuta ativa e empática das demandas e queixas do paciente. Ainda conforme Alves (2020), a humanização do cuidado é fundamental para que o paciente compreenda os procedimentos pelos quais irá passar, considerando que a hospitalização, ainda que breve, pode representar uma experiência marcante e potencialmente traumática.

Nesse cenário, destaca-se o papel do psicólogo em tornar esse momento menos hostil e mais compreensível. Uma das estratégias utilizadas para isso é a psicoeducação, definida por Dobson e Dobson (2011) como o ensino de conhecimentos e princípios psicológicos relevantes ao paciente. Através da comunicação clara e acessível, o profissional pode oferecer explicações adaptadas à faixa etária, utilizando, por exemplo, recursos lúdicos como jogos, atividades interativas ou livros infantis que abordem, de forma simbólica, os momentos que antecedem a cirurgia.

Além disso, a escuta qualificada e a oferta de informações precisas são elementos terapêuticos centrais para favorecer o enfrentamento do paciente diante do contexto hospitalar.

A psicoprofilaxia, que envolve a aplicação de medidas psicológicas preventivas para preparar o paciente e seus familiares para procedimentos cirúrgicos, tem se mostrado eficaz no auxílio ao enfrentamento da ansiedade, do estresse e do medo relacionados ao processo cirúrgico (Alves, 2020). Essa abordagem favorece uma atenção integral, permitindo que a equipe multiprofissional ofereça recursos que promovem o manejo emocional antes, durante e após a cirurgia.

O período pré-operatório representa uma ruptura significativa na rotina do paciente e seus cuidadores, exigindo intervenções que vão além do cuidado clínico tradicional. A ansiedade tende a se intensificar à medida que a cirurgia se aproxima, mobilizando emoções e sentimentos variados conforme a idade e a compreensão da criança (Tavares et al., 2018, citado por Pinto et al., 2023).

Estudos recentes destacam que a cirurgia pode gerar sofrimento psíquico e desorganização emocional, incluindo medo e sintomas depressivos, e que esse impacto pode ser amenizado por abordagens multidisciplinares que integram psicologia, medicina e neurociências (D’Amato, 2008; Bjerg, 2019). Pesquisas mais atuais corroboram a importância das intervenções psicológicas no pré-operatório pediátrico, indicando que técnicas lúdicas e materiais ilustrativos ajudam a diminuir a ansiedade e melhoram o bem-estar emocional da criança e da família (Oliveira et al., 2024; Moraes et al., 2022; Lima et al., 2021).

O período operatório imediato, que inclui as 24 horas anteriores à cirurgia, envolve procedimentos clínicos e cuidados emocionais adaptados, fundamentais para preparar a criança para o ato cirúrgico (Pinto et al., 2023). A participação ativa do psicólogo é essencial para tornar o ambiente hospitalar mais compreensível e acolhedor, ajudando a criança a ressignificar a experiência da hospitalização.

Além disso, mesmo cirurgias de curta duração podem provocar impactos emocionais relevantes se não houver suporte psicológico adequado, o que reforça a necessidade de um acompanhamento contínuo que considere as estratégias individuais de enfrentamento do paciente (Mendes e Matos, 2023). A perspectiva biopsicossocial é fundamental para garantir um cuidado integral, e práticas baseadas em evidências contribuem para a melhoria da qualidade dos atendimentos cirúrgicos (Santos, 2014, citado por Cunha, 2018).

Por fim, evidências recentes apontam que o preparo psicológico contribui para a redução do estresse e de comportamentos regressivos em crianças hospitalizadas, destacando a necessidade da inclusão de intervenções psicológicas breves, educativas e adaptadas à infância nos protocolos de atendimento cirúrgico, tanto em cirurgias eletivas quanto emergenciais (Fernandes et al., 2023).

 A presente revisão integrativa teve como objetivos identificar aspectos relevantes do acompanhamento psicológico em pacientes no pré-operatório, voltados para o gerenciamento das emoções, e relacionar a ansiedade e o estresse antecipatórios como fatores que dificultam o processo de recuperação em variados contextos cirúrgicos. A maioria dos artigos compilados evidenciou a importância do manejo emocional, destacando a relação entre o medo diante da cirurgia e os níveis de ansiedade e estresse antecipatórios, fatores que podem comprometer a recuperação do paciente.

A ansiedade reativa — entendida como o medo natural diante de uma possível ameaça à vida — e o estresse psicoorgânico manifestaram-se frequentemente no período pré-operatório, interferindo negativamente na qualidade de vida e provocando alterações comportamentais.

Estratégias como a psicoeducação, a ludicidade, a psicoprofilaxia e a escuta ativa e acolhedora mostram-se fundamentais para o enfrentamento desse momento novo e desafiador na vida do paciente, constituindo aspectos essenciais no acompanhamento psicológico. Além disso, o papel da equipe multidisciplinar é imprescindível para o êxito do processo cirúrgico, não somente pelos aspectos psicológicos evidenciados, mas também pelo cuidado integral, que considera o paciente em sua totalidade biopsicossocial.

Ressalta-se que, independentemente do tipo de cirurgia ou da idade do paciente, todos estão sujeitos a fragilidades físicas e psíquicas, e que o acompanhamento psicológico aliado a estratégias adequadas de enfrentamento são fundamentais para o preparo no pré-operatório, bem como para a recuperação e o processo de hospitalização.

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1Mestranda do Curso de pós-Graduação Strictu Sensu Mestrado Profissional em Pesquisa e Cirurgia Experimental (CIPE) da Universidade do Estado do Pará (UEPA) – lueny.psi7@gmail.com
2Psicóloga e Especialista em Terapia Familiar Sistêmica e Terapia Comunitária – CAIFCOM – angelarabib@yahoo.com
3Mestrando do Curso de pós-Graduação Strictu Sensu Mestrado Profissional em Pesquisa e Cirurgia Experimental (CIPE) da Universidade do Estado do Pará (UEPA), e-mail: alexmota.br@gmail.com
4Orientador – Prof. Doutor em Técnicas Operatórias e Cirurgia Experimental pela Universidade Federal de São Paulo e Professor Titular da Universidade do Estado do Pará, Brasil.
5Profa. Doutora em Neurociências e Biologia Celular pela Universidade Federal do Pará, e
Docente Adjunto I da Universidade do Estado do Pará, Brasil.
6Profa. Doutora em Ciências Médicas e Biológicas pela Universidade Federal de São Paulo e
Docente Adjunto II da Universidade do Estado do Pará, Brasil – priscila.araujo@uepa.br